PRODUÇÃO POÉTICA E LIVRO CARTONERO NO ENSINO FUNDAMENTAL
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18111909
Leonardo Simões dos Santos1
Edivânia Helena Nunes2
RESUMO
Este artigo apresenta o projeto Poemas em Cartonaria – poesia que se encaderna, desenvolvido com estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental em uma escola pública municipal do Ipojuca-PE, cujo objetivo central foi estimular a produção poética autoral e a confecção de livros artesanais por meio da técnica da cartonaria. A proposta compreende a literatura como prática social, estética e humanizadora, entendendo o letramento literário como um processo que ultrapassa a decodificação textual e promove a construção de sentidos, a sensibilidade e a formação crítica do sujeito. O projeto integrou práticas de leitura literária, escrita criativa e produção material do livro, valorizando a autoria juvenil, a autonomia e o protagonismo dos estudantes. A metodologia, de abordagem qualitativa e descritiva, foi organizada em etapas que incluíram rodas de leitura poética, oficinas de escrita criativa, estudo da história e da técnica da cartonaria, produção artesanal dos livros e socialização das obras em um sarau literário com tarde de autógrafos. Ao longo de oito semanas, os dados foram registrados por meio de observações, questionários, produções textuais dos estudantes e registros fotográficos. As atividades de sensibilização e leitura poética possibilitaram a ampliação do repertório literário e o contato com diferentes formas e estilos da poesia, favorecendo leituras interpretativas e reflexivas. As oficinas de escrita criativa promoveram a expressão de vivências, sentimentos e percepções juvenis, fortalecendo o reconhecimento dos estudantes como autores. A confecção dos livros cartoneiros, utilizando materiais recicláveis, contribuiu para a compreensão da materialidade do livro, para a valorização da sustentabilidade e para a democratização do acesso à produção literária.
Palavras-chave: Poemas; Cartonaria; Letramento.
ABSTRACT
This article presents the project Poems in Cartonaria – poetry that is bound, developed with 9th-grade students from a municipal public school in Ipojuca, Pernambuco, Brazil. The project’s main objective was to encourage authorial poetic production and the creation of handmade books through the cartonaria technique. The proposal understands literature as a social, aesthetic, and humanizing practice, conceiving literary literacy as a process that goes beyond textual decoding and promotes meaning-making, sensitivity, and the critical formation of the subject. The project integrated practices of literary reading, creative writing, and the material production of books, valuing youth authorship, autonomy, and student protagonism. The methodology adopted a qualitative and descriptive approach and was organized into stages that included poetic reading circles, creative writing workshops, the study of the history and technique of cartonaria, the handmade production of books, and the socialization of the works in a literary soiree with an autograph session. Over eight weeks, data were collected through observations, questionnaires, students’ written productions, and photographic records. The activities of sensitization and poetic reading enabled the expansion of students’ literary repertoire and contact with different forms and styles of poetry, fostering interpretative and reflective readings. The creative writing workshops promoted the expression of experiences, feelings, and youthful perceptions, strengthening students’ recognition of themselves as authors. The production of cartoneiro books using recyclable materials contributed to an understanding of the materiality of the book, the appreciation of sustainability, and the democratization of access to literary production.
Keywords: Poems; Cartonaria; Literary Literacy.
1. INTRODUÇÃO
A poesia constitui uma forma privilegiada de expressão artística e linguística, capaz de mobilizar a sensibilidade, a imaginação e a reflexão crítica dos sujeitos. No contexto escolar, o contato com a linguagem poética favorece a construção de sentidos múltiplos, a ampliação do repertório cultural e o desenvolvimento de uma relação mais profunda e significativa com a leitura e a escrita. Quando trabalhada de maneira sistemática e contextualizada, a poesia contribui para a formação estética, humanizadora e cidadã dos estudantes, possibilitando que eles se reconheçam como leitores e produtores de cultura.
O letramento literário compreende a leitura literária como uma prática social complexa, que ultrapassa a simples decodificação de palavras e envolve a interação ativa do leitor com o texto, com o contexto e com o mundo. Nesse sentido, a literatura deixa de ocupar um lugar periférico no currículo escolar e passa a ser entendida como experiência formativa essencial, capaz de promover o pensamento crítico, a empatia e a construção da identidade. A poesia, em especial, destaca-se por explorar a subjetividade, o ritmo, a musicalidade e a força simbólica da linguagem, convidando o leitor a uma postura interpretativa ativa e reflexiva.
Associada ao letramento literário, a escrita criativa assume papel central na formação do sujeito autor. Escrever poemas não se limita ao cumprimento de uma tarefa escolar, mas configura-se como prática social por meio da qual os estudantes expressam sentimentos, experiências, conflitos e visões de mundo. Ao produzir textos autorais, os jovens fortalecem sua autonomia, desenvolvem a autoconfiança e reconhecem a linguagem como instrumento de expressão e intervenção social.
Nesse contexto, o projeto Poemas em Cartonaria – Poesia que se encaderna surge como uma proposta pedagógica que articula leitura literária, escrita criativa e produção material do livro. A confecção de livros artesanais a partir da técnica da cartonaria amplia o sentido da experiência literária, ao integrar literatura, artes visuais, sustentabilidade e trabalho colaborativo. O livro deixa de ser apenas um objeto de consumo e passa a ser compreendido como produção cultural concreta, feita pelas mãos e pelas vozes dos próprios estudantes.
Assim, este artigo tem como objetivo apresentar e analisar o desenvolvimento do projeto, refletindo sobre suas contribuições pedagógicas para o letramento literário, a autoria juvenil e a democratização do acesso à produção literária no contexto da escola pública, evidenciando a literatura como prática viva, significativa e socialmente transformadora.
2. LETRAMENTO LITERÁRIO: A LITERATURA COMO PRÁTICA SOCIAL, ESTÉTICA E HUMANIZADORA
O conceito de letramento literário tem ganhado destaque nas discussões educacionais contemporâneas, especialmente no campo do ensino de Língua Portuguesa, por compreender a leitura literária como uma prática social complexa, que ultrapassa a simples decodificação de signos linguísticos. Nesse sentido, o letramento literário propõe uma relação ativa, crítica e estética do leitor com o texto, possibilitando a construção de sentidos, o desenvolvimento da sensibilidade e a formação integral do sujeito. A literatura, em especial a poesia, assume papel fundamental nesse processo, pois favorece múltiplas interpretações e amplia a percepção subjetiva do leitor frente à linguagem e à realidade.
De acordo com Cosson (2014):
O letramento literário refere-se a um conjunto de práticas sociais de leitura que possibilitam ao leitor apropriar-se da literatura como linguagem artística e cultural, que extrapolam a decodificação e permitem a construção de uma relação estética e crítica do texto. A poesia, amplia a percepção subjetiva e favorece a construção de sentidos multipolos. Não basta que o aluno saiba ler tecnicamente; é necessário que ele aprenda a ler literariamente, isto é, a reconhecer os recursos estéticos, simbólicos e expressivos do texto, compreendendo-o como uma construção cultural carregada de sentidos. Pois o letramento literário consiste em inserir o leitor em práticas sociais de leitura literária, permitindo-lhe construir uma relação significativa com o texto (Cosson, 2014, p. 47).
Nessa perspectiva, a leitura literária deixa de ser uma atividade meramente escolar e passa a ser entendida como uma experiência formativa, capaz de contribuir para a construção da identidade do leitor e para sua inserção crítica no mundo. A literatura, ao trabalhar com a linguagem em sua dimensão estética, possibilita ao leitor ampliar sua visão de mundo, desenvolver a sensibilidade e refletir sobre questões humanas universais. A poesia, especificamente, destaca-se por explorar a subjetividade, o ritmo, a musicalidade e as imagens simbólicas, permitindo que o leitor construa sentidos múltiplos e pessoais a partir do texto.
Conforme Rouxel (2013, p. 82 apud Mota, 2015) a leitura literária, propicia um duplo movimento: para dentro do sujeito, no encontro consigo mesmo; e para fora do sujeito, rumo à alteridade. É, por isso, uma via de construção identitária, reorganizando e expandindo nossa relação com o mundo: O leitor encontra sua via singular no plural do texto, e a literatura, em razão de seu jogo metafórico, lhe permite exprimir os eus diversos de que é feito.
Cosson (2014) ressalta que a poesia favorece uma leitura mais sensível e reflexiva, pois exige do leitor uma postura interpretativa ativa. Ao lidar com metáforas, ambiguidades e imagens poéticas, o leitor é convidado a ir além do sentido literal, mobilizando suas experiências, emoções e conhecimentos prévios. Assim, o letramento literário, ao incorporar a poesia como prática pedagógica, contribui para o desenvolvimento da competência leitora de forma ampla e significativa.
Corroborando essa perspectiva, Cândido (2004) defende que a literatura desempenha um papel essencial na formação humana, pois atua como um direito fundamental do indivíduo. Para o autor, a literatura possui uma função humanizadora, uma vez que permite ao sujeito experimentar emoções, compreender o outro e refletir sobre a condição humana.
Segundo o autor acima (2004) a literatura desenvolve em nós a quota de humanidade, na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade e o semelhante.
A função humanizadora da literatura está diretamente relacionada ao letramento literário, pois, ao promover uma leitura crítica e estética, possibilita ao leitor ampliar sua empatia e sua capacidade de interpretar o mundo. A literatura apresenta realidades diversas, conflitos sociais, dilemas éticos e experiências humanas que permitem ao leitor colocar-se no lugar do outro, exercitando a alteridade e o pensamento crítico. Dessa forma, o letramento literário contribui para a formação de sujeitos mais sensíveis, reflexivos e conscientes de seu papel social.
Segundo Gonçalves (2025) a Literatura surge em diversos momentos da história, em inúmeras formas, como modos de expressão do homem. Desse modo, torna-se algo sem o qual é impossível viver, visto que permite ao sujeito o ato de fabular, de entregar-se aos sonhos, o que é natural a nós, seres humanos, porque faz parte de nossas vivências diárias, seja quando sonhamos acordados ou quando imaginamos cenários hipotéticos, por exemplo. A partir disso, e no que tange a sua função humanizadora, sendo, a Literatura, essencial e indissociável da vida humana, ela é, também, um fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade, inclusive porque atua em grande parte no subconsciente e no inconsciente.
Além disso, a literatura favorece o desenvolvimento da imaginação e da criatividade, aspectos fundamentais para a formação integral do indivíduo. Ao entrar em contato com narrativas ficcionais e poéticas, o leitor é estimulado a criar imagens mentais, a antecipar sentidos e a estabelecer relações entre o texto e sua própria realidade. Cândido (2004) destaca que a imaginação literária não aliena o leitor, mas o capacita a compreender melhor a realidade, pois oferece instrumentos simbólicos para interpretá-la.
Nesse contexto, o letramento literário assume um papel estratégico no ambiente escolar, pois contribui para a formação de leitores autônomos e críticos. Contudo, para que isso ocorra, é necessário que a literatura seja trabalhada de forma sistemática e significativa, respeitando as especificidades do texto literário e do processo de leitura.
Cosson (2014) propõe a chamada “sequência básica” do letramento literário, que envolve etapas como motivação, introdução, leitura e interpretação, favorecendo uma abordagem pedagógica que valorize a experiência do leitor e a construção coletiva de sentidos.
A escola, portanto, deve assumir a responsabilidade de promover o letramento literário como parte fundamental do currículo, reconhecendo a literatura como um conhecimento essencial e não apenas como um conteúdo complementar. Ao proporcionar o contato contínuo com obras literárias de qualidade, o ambiente escolar possibilita ao aluno desenvolver habilidades linguísticas, cognitivas e socioemocionais. Nesse sentido, a leitura literária contribui não apenas para o desempenho acadêmico, mas também para a formação cidadã do estudante.
Os autores Cosson (2014), Cândido (2004) e Gonçalves (2025) convergem ao evidenciar que a literatura desempenha um papel central na formação crítica do leitor, destacam que a leitura literária possibilita a ampliação do repertório cultural, o desenvolvimento da sensibilidade estética e a construção de uma visão crítica da realidade. A literatura, ao abordar temas universais e contextos históricos e sociais diversos, permite ao leitor compreender melhor as realidades nas quais está inserido, bem como questionar valores, normas e estruturas sociais.
Nesse sentido, o letramento literário contribui para o desenvolvimento da consciência crítica, pois incentiva o leitor a refletir sobre os discursos presentes no texto e sobre suas implicações sociais e ideológicas. A leitura literária, quando mediada de forma adequada, possibilita a problematização de temas como desigualdade social, identidade, diversidade cultural e direitos humanos. Dessa forma, a literatura torna-se um instrumento poderoso de formação ética e social.
Além disso, a prática do letramento literário promove o fortalecimento da linguagem e da competência comunicativa do leitor. Ao entrar em contato com diferentes gêneros literários, estilos e registros linguísticos, o leitor amplia seu vocabulário, aprimora sua capacidade de expressão e desenvolve maior domínio da língua.
Rojo destaca:
Mas ser letrado e ler na vida e na cidadania é muito mais do que decodificar textos ou localizar informações. É escapar da literalidade dos textos e interpretá-los, colocando-os em relação com outros textos e discursos, de maneira situada na realidade social; é discutir com os textos, replicando e avaliando posições e ideologias que constituem seus sentidos; é, enfim, trazer o texto para a vida e colocá-lo em relação com ela. As práticas de leitura, nessa perspectiva, tornam-se fundamentais para a formação de sujeitos críticos, capazes de compreender, questionar e transformar a realidade em que estão inseridos (Rojo, 2004, p. 2).
Outro aspecto relevante do letramento literário é sua contribuição para a construção da identidade do leitor. A literatura oferece ao sujeito a possibilidade de reconhecer-se nas narrativas, de refletir sobre suas próprias experiências e de compreender seus sentimentos e conflitos. Cândido (2004) afirma que a literatura atua como um espelho e, ao mesmo tempo, como uma janela, permitindo ao leitor olhar para si mesmo e para o mundo de forma ampliada. Essa dimensão subjetiva da leitura literária é fundamental para o desenvolvimento emocional e psicológico do indivíduo.
Portanto, o letramento literário deve ser compreendido como um processo contínuo, que se estende para além do espaço escolar e acompanha o sujeito ao longo da vida. Ao formar leitores literários, a escola contribui para a construção de uma sociedade mais crítica, sensível e humanizada. A literatura, nesse contexto, não é apenas um objeto de estudo, mas uma experiência formativa que transforma o leitor e amplia sua compreensão do mundo.
Diante do exposto, é possível afirmar que o letramento literário, conforme se viu nas páginas acima, constitui um elemento essencial na formação integral do indivíduo. Ao promover práticas sociais de leitura que valorizam a dimensão estética, crítica e humanizadora da literatura, o letramento literário contribui para o desenvolvimento da imaginação, da criatividade, da empatia e da consciência crítica. Assim, a literatura revela-se como um poderoso instrumento de transformação pessoal e social, reafirmando sua relevância no contexto educacional contemporâneo.
3. ESCRITA CRIATIVA E AUTORIA: PRÁTICAS SOCIAIS, FORMAÇÃO DO SUJEITO E DEMOCRATIZAÇÃO DA LITERATURA
A escrita criativa, compreendida como prática social e pedagógica, ocupa lugar central na formação do sujeito autor, especialmente em contextos educativos que buscam promover autonomia, criticidade e participação ativa. Escrever não se reduz a uma atividade técnica ou meramente escolar; trata-se de um processo socialmente situado, no qual o sujeito constrói sentidos, dialoga com outros textos e se posiciona no mundo por meio da linguagem. Nesse sentido, a escrita autoral possibilita que estudantes e escritores iniciantes reconheçam sua voz, expressem suas vivências e compreendam a linguagem como instrumento de ação social.
A escrita como prática social implica participação ativa do sujeito na produção e revisão de textos. Kleiman (2005) destaca que os processos de autoria escolar devem valorizar a construção de significado, a autonomia e o diálogo entre pares, superando práticas tradicionais centradas apenas na reprodução de modelos. Para a autora, a escrita deve ser entendida como uma atividade discursiva, inserida em práticas sociais concretas, nas quais os sujeitos escrevem para interlocutores reais e com propósitos definidos. Essa perspectiva contribui para que o estudante se perceba como autor legítimo, capaz de intervir discursivamente na realidade.
No contexto da educação contemporânea, a escrita criativa tem sido apontada como estratégia fundamental para o desenvolvimento da autoria e da identidade discursiva.
Segundo Geraldi (2010), professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), a escola historicamente negou ao aluno o direito à autoria, transformando-o em mero copiador de textos e ideias. O autor afirma que “quando o aluno escreve apenas para cumprir uma tarefa escolar, sem interlocutor e sem sentido, ele não se constitui como sujeito do dizer” (GERALDI, 2010, p. 78).
Entre jovens e adolescentes, a poesia tem se destacado como uma das formas mais potentes de expressão autoral. Por meio do texto poético, os sujeitos elaboram sentimentos, conflitos e experiências relacionadas à identidade, à afetividade, aos sonhos, às frustrações e às perspectivas de futuro. A escrita poética, nesse sentido, atua como espaço de elaboração simbólica e de construção de sentidos sobre si e sobre o mundo.
Conforme aponta Cosson (2014), a literatura possibilita que o leitor-autor vivencie experiências estéticas que ampliam sua compreensão da realidade e de si mesmo, permitindo a ressignificação de vivências pessoais e sociais.
Na sociedade atual, marcada por rápidas transformações sociais, tecnológicas e culturais, a criatividade é considerada uma competência indispensável para lidar com problemas complexos e situações inéditas. De acordo com Díaz (2011), “la creatividad es una capacidad humana que, en mayor o menor medida, todo el mundo posee” (DÍAZ, 2011, p. 45). Para o autor, a criatividade não é um dom exclusivo de alguns indivíduos, mas uma potencialidade inerente ao ser humano, que pode e deve ser desenvolvida em contextos educativos que estimulem a experimentação, a liberdade de expressão e o pensamento divergente.
Nessa mesma direção, Alencar e Fleith (2010), pesquisadoras da Universidade de Brasília (UnB), defendem que a criatividade pode ser estimulada por meio de práticas pedagógicas que valorizem a autoria, a curiosidade e a produção de sentidos. Segundo as autoras, “ambientes educacionais que favorecem a expressão criativa são aqueles que reconhecem o erro como parte do processo e incentivam o aluno a assumir riscos intelectuais” (ALENCAR; FLEITH, 2010, p. 62).
O processo de criação de livros cartoneiros destaca-se como uma prática educativa e cultural que integra escrita criativa, autoria e trabalho colaborativo. Originado na América Latina, o movimento dos livros cartoneiros propõe a produção artesanal de livros a partir de materiais recicláveis, especialmente o papelão, aliando sustentabilidade, inclusão social e democratização do acesso à literatura.
Conforme afirma Dagnino (2017), o livro cartoneiro rompe com a lógica elitista do mercado editorial e propõe uma literatura feita por muitas mãos, acessível e socialmente comprometida.
A confecção do livro cartoneiro favorece o desenvolvimento do processo criativo dos envolvidos, pois integra diferentes linguagens e habilidades: escrita, pintura, diagramação, medidas, montagem, perfuração e costura. Trata-se de um processo coletivo, no qual os participantes colaboram entre si, compartilhando saberes e aprendendo uns com os outros. Essa dinâmica fortalece a aprendizagem colaborativa e contribui para a construção de vínculos sociais significativos.
Segundo Vygotsky (2007), a aprendizagem ocorre de forma mais efetiva quando mediada pela interação social, o que torna o trabalho coletivo um potente recurso pedagógico.
Segundo Souza (2019):
Além disso, a produção do livro cartoneiro possibilita que sujeitos historicamente excluídos dos espaços de produção cultural se reconheçam como autores. Para muitos participantes, trata-se da primeira experiência de escrita e publicação de um livro, o que tem impacto significativo na autoestima e na percepção de pertencimento cultural. A experiência de publicar um livro, ainda que artesanal, produz efeitos simbólicos profundos, pois legitima a voz do sujeito e o insere no circuito da cultura escrita (Souza, 2019, p. 88).
Outro aspecto relevante da produção de livros cartoneiros é o baixo custo, o que torna essa prática acessível a escolas públicas, projetos sociais e comunidades periféricas. As edições são autorais, artesanais e frequentemente compostas por textos de escritores iniciantes ou obras em domínio público. Dessa forma, o livro cartoneiro atende a uma demanda concreta de sujeitos que desejam publicar seus textos, mas não dispõem de recursos financeiros para arcar com os custos impostos pelo mercado editorial tradicional.
Conforme afirma Chartier (2014), a materialidade do livro influencia diretamente as formas de leitura e de apropriação do texto, e o livro cartoneiro, ao subverter padrões editoriais, cria novas possibilidades de relação com a literatura.
A defesa da literatura como direito fundamental sustenta teoricamente essas práticas. Antonio Cândido (1988), em seu clássico ensaio O direito à literatura, afirma que a literatura é um direito humano incompressível, pois contribui para a humanização do indivíduo e para a organização simbólica da realidade. Segundo o autor, “assim como ninguém pode viver sem alimentação, também ninguém pode viver sem literatura” (CÂNDIDO, 1988, p. 191).
Seguindo essa perspectiva, Tenório (2023), defende a literatura como um direito humano vital, especialmente no contexto de sociedades marcadas pela desigualdade social. Para o autor, a literatura possibilita a emergência de vozes silenciadas e a construção de futuros alternativos, ao permitir que sujeitos marginalizados se reconheçam como produtores de cultura. O livro cartoneiro, ao dar voz a esses sujeitos, ocupa espaços antes inacessíveis e democratiza o acesso à produção literária.
A escrita criativa e a autoria, quando articuladas a práticas como a produção de livros cartoneiros, assumem papel transformador na educação e na sociedade. Elas promovem não apenas o desenvolvimento de habilidades linguísticas, mas também a formação crítica, estética e cidadã dos sujeitos.
Já Rojo (2012) afirma que as práticas de letramento que valorizam a autoria e a diversidade cultural ampliam as possibilidades de participação social dos estudantes. Assim, a escrita deixa de ser apenas um exercício escolar e passa a ser uma prática de intervenção social.
Portanto, compreender a escrita criativa como prática social e a autoria como direito é fundamental para a construção de uma educação democrática e inclusiva. A experiência com livros cartoneiros evidencia que é possível produzir literatura de qualidade fora dos circuitos tradicionais, valorizando saberes locais, experiências pessoais e vozes historicamente silenciadas. Ao integrar escrita, arte e colaboração, essa prática reafirma a literatura como direito humano e como potente instrumento de transformação social.
4. METODOLOGIA
A pesquisa é de abordagem qualitativa e descritiva, considerando a observação sistemática das atividades realizadas ao longo de oito semanas com estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental em uma escola pública municipal. As etapas metodológicas foram organizadas em: a) rodas de leitura poética; b) oficinas de escrita criativa; c) estudos sobre a história e a técnica da cartonaria; d) produção artesanal dos livros e; e) socialização em sarau literário.
Os dados foram registrados por meio de questionário individual com questões fechadas e abertas, observações, registros de participação, produção escrita dos estudantes e documentação fotográfica das obras produzidas.
5. DESENVOLVIMENTO DO PROJETO
5.1. Sensibilização e Leitura Poética
As atividades iniciais envolveram leitura e análise de poemas de autores clássicos e contemporâneos, como Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Miró da Muribeca, Conceição Evaristo, Mário Quintana, Elisa Lucinda e Sérgio Vaz.
Os poemas concretos e os Haicais também foram lidos e analisados. Poemas de autores como: Bashô, Fábio Bahia, Millôr Fernandes, Paulo Leminski e Alice Ruiz ajudaram a desenvolver a sensibilidade e capacidade de análise crítica. As discussões giraram em torno de temas significativos para o público juvenil, tais como identidade, afetos, sonhos e temas relacionados ao cotidiano. O objetivo foi ampliar o repertório literário e sensibilizar os estudantes para a linguagem poética.
5.2. Oficinas de Escrita Criativa
Segundo Paviani e Fontana (2009), a oficina pedagógica atende a duas finalidades: “articulação de conceitos, pressupostos e noções com ações concretas, vivenciadas pelos participantes ou aprendiz e vivência a experiência e execução em equipe”.
Considerando esta perspectiva as oficinas de escrita criativa de poemas e produção de livro cartoneiro foram realizadas baseadas em estímulos diversos: leitura de poemas de autores diversos, palavras-imagem, músicas, fotografias e temas sugeridos pelos próprios alunos. A produção incluiu textos coletivos e individuais, revisados posteriormente por pares. A troca entre os estudantes contribuiu para o aprimoramento dos textos e para o fortalecimento do senso de autoria, colocando o aprendente no centro do ensino e da aprendizagem.
Considerando o exposto, podemos afirmar que uma oficina pedagógica é, pois, um tripé baseado em: sentir-pensar-agir, com intenções pedagógicas.
5.3. Estudo da Técnica da Cartonaria
Os estudantes conheceram a origem e as características das publicações cartoneiras, refletindo sobre a democratização do acesso ao livro, o uso de materiais recicláveis e o valor estético das capas artesanais. Exemplares foram analisados e discutidos, promovendo um olhar crítico sobre a produção editorial alternativa.
5.4. Produção dos Livros Artesanais
A etapa prática envolveu seleção dos poemas, digitação, impressão, pintura das capas em papelão reciclado, montagem e encadernação dos livros. A experiência permitiu aos participantes compreender a complexidade do processo editorial e reconhecer o valor cultural da materialidade do livro.
5.5. Sarau e Socialização das Produções
O projeto culminou com um sarau literário, no qual os estudantes autografaram seus livros e recitaram seus poemas. A participação da comunidade escolar reforçou o valor social da literatura e proporcionou reconhecimento à produção estudantil.
6. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados evidenciam que a integração entre poesia, escrita criativa e cartonaria favoreceu o desenvolvimento de competências leitoras e escritoras, além de fortalecer a autoria e a participação dos estudantes. Observou-se:
aumento do engajamento nas práticas de leitura e escrita;
ampliação da sensibilidade estética e da criatividade;
valorização da sustentabilidade e do reaproveitamento de materiais;
fortalecimento da autoconfiança e do protagonismo juvenil;
compreensão da literatura como prática cultural viva e significativa.
As análises dialogam com Cosson (2014), ao evidenciar que o letramento literário se constrói por meio de experiências de fruição e criação, e com Cândido (2004), ao apontar o papel humanizador da literatura no processo de formação.
CONCLUSÃO
A experiência desenvolvida por meio do projeto Poemas em Cartonaria – Poesia que se encaderna evidencia que a literatura, quando trabalhada de forma integrada, sensível e contextualizada, pode assumir um papel transformador no espaço escolar. A articulação entre letramento literário, escrita criativa e produção material do livro possibilitou aos estudantes vivenciarem a literatura não apenas como conteúdo curricular, mas como prática social, cultural e estética significativa.
Os resultados do projeto demonstram que o contato sistemático com a poesia ampliou o repertório literário dos estudantes e favoreceu uma relação mais profunda com a linguagem poética. As atividades de leitura e interpretação estimularam a escuta, o diálogo e a construção coletiva de sentidos, contribuindo para o desenvolvimento da sensibilidade estética e da competência leitora. Ao mesmo tempo, as oficinas de escrita criativa possibilitaram que os alunos se reconhecessem como autores, fortalecendo a autonomia, a autoconfiança e o protagonismo juvenil.
A confecção dos livros cartoneiros representou um diferencial pedagógico relevante, pois integrou literatura, artes visuais, sustentabilidade e trabalho colaborativo. Ao participar de todas as etapas do processo editorial, os estudantes compreenderam a materialidade do livro e passaram a valorizar o fazer artístico como produção cultural concreta. O uso de materiais recicláveis reforçou a consciência ambiental e evidenciou que a literatura pode ser produzida de forma acessível, criativa e socialmente comprometida, ampliando as possibilidades de democratização do acesso ao livro e à autoria.
O sarau literário, como momento de socialização das produções, consolidou o sentido social do projeto, conferindo visibilidade e reconhecimento às vozes estudantis. A interação com a comunidade escolar fortaleceu o sentimento de pertencimento e reafirmou a literatura como prática viva, capaz de gerar encontros, trocas e experiências significativas.
Dessa forma, o projeto reafirma a importância de práticas pedagógicas que valorizem o letramento literário, a escrita criativa e a autoria no contexto da escola pública. Ao promover experiências estéticas, críticas e colaborativas, a literatura contribui para a formação integral dos estudantes, ampliando sua consciência cultural, social e cidadã. Iniciativas como esta demonstram que é possível construir uma educação mais humanizadora, democrática e sensível, na qual a literatura ocupa um lugar central na formação de sujeitos leitores, autores e participantes ativos da vida social.
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VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
1 Pós-Doutorando em Psicologia pela Universidad de Flores (Argentina), Doutorado em Educação pela Christian Business School (USA e France). - Doutorado Livre em Psicanálise pela American Andragogy University - EUA (conclusão 2023). - Mestrado em Educação pela Universidad de la Empresa – Uruguai (conclusão 2022). - Mestrado Livre em Teologia pela Faculdade Metodista Livre de São Paulo (conclusão 2008). - Mestrado com dupla titulação: Internacional en Psicologia Infantil y adolescente / Internacional en Coach e Inteligência Emocional Infantil y juvenil pela Esneca Bussiness School - Espanha (conclusão 2022). - MBA em Gestão Empresarial Estratégica de Negócios pela Universidade de São Paulo-USP (conclusão 2006). - Pós-graduação em Psicanálise pela Faculdade Iguaçu (conclusão 2023). - Curso de Extensão em Capacitação em Comunidades Terapêuticas pela UNESP (conclusão em 2011). – Graduação em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo (conclusão 2004). – Graduação em Psicologia pela Universidade São Marcos (conclusão 2012). – Graduação em História pela Faculdade Campos Eliseos (conclusão 2025). - Gerente de Relacionamento na GPS Pamcary Logistica e Gerenciamento de Risco Ltda. (1999 - atual) / Psicólogo Clínico (2012 - atual) / Foi Professor de Teologia pela Faculdade de Teologia Metodista Livre de São Paulo nas áreas de Psicologia Pastoral, Novo Testamento, Aconselhamento, Religiões comparadas e Ética (anos de ministração de aulas 2015-2018).
2 Doutoranda em Educação pela Christian Business School (France), Mestrado em Letras pela Universidade de Pernambuco (2018). Pós-Graduação em Letras pela Universidade de Pernambuco. Graduada em Letras pela Universidade de Pernambuco. Atualmente é educadora de Apoio - EREM Luísa Guerra, Seduc. Pernambuco e professora na Escola Municipal Mário Júlio do Rego, Seduc. Ipojuca - PE. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa.