PRESERVAÇÃO E MATERIALIDADE NA ARQUITETURA: ESTUDO DA CASA-GRANDE DA FAZENDA IMPERIAL EM MINEIROS DO TIETÊ (SP)

PRESERVATION AND MATERIALITY IN ARCHITECTURE: A STUDY OF THE CASA-GRANDE AT THE IMPERIAL FARM IN MINEIROS DO TIETÊ (SP)

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789195334

RESUMO
O presente artigo analisa a casa-grande da antiga Fazenda Banharão, atual Fazenda Imperial, localizada em Mineiros do Tietê (SP), uma edificação representativa da expansão cafeeira do século XIX. A metodologia aplicada possui caráter qualitativo e multidisciplinar, englobando levantamento in loco (realizado em julho de 2026), aferições métricas, registro fotográfico e pesquisa histórica documental. Os resultados evidenciam uma forte influência da arquitetura rural mineira, adaptada à topografia em aclive. Do ponto de vista construtivo e material, a edificação destaca-se pelo embasamento em pedra, alvenarias estruturais de tijolos maciços com preenchimentos atípicos, e pela integração de materiais importados, como telhas de Marselha e elementos ornamentais em ferro fundido. Conclui-se que o rigor na preservação dos componentes estruturais originais e as intervenções precisas de restauro atestam o alto valor documental do conjunto para o entendimento das técnicas construtivas do interior paulista.
Palavras-chave: Arquitetura rural; Técnicas construtivas; Fazenda Imperial; Patrimônio histórico; Restauro arquitetônico.

ABSTRACT
This article analyzes the “casa-grande” (main plantation house) of the former Banharão Estate—now known as Fazenda Imperial—located in Mineiros do Tietê (São Paulo), a building representative of the 19th-century coffee expansion. The methodology employed is qualitative and multidisciplinary, encompassing an on-site survey (conducted in July 2026), metric measurements, photographic documentation, and historical documentary research. The results reveal a strong influence of rural architecture from Minas Gerais, adapted to the sloping terrain. Regarding construction and materials, the building is notable for its stone foundation, structural solid-brick masonry with atypical infill, and the integration of imported materials, such as Marseille roof tiles and cast-iron ornamental elements. The study concludes that the meticulous preservation of original structural components and precise restoration interventions attest to the complex's high documentary value for understanding construction techniques in the interior of São Paulo state.
Keywords: Rural architecture; Construction techniques; Fazenda Imperial; Historical heritage; Architectural restoration.

1. INTRODUÇÃO

O estudo do patrimônio edificado rural no estado de São Paulo é fundamental para a compreensão das dinâmicas construtivas e de ocupação territorial impulsionadas pela cafeicultura no século XIX. Neste contexto, insere-se a casa-grande da antiga Fazenda Banharão, rebatizada como Fazenda Imperial, localizada no município de Mineiros do Tietê (SP).

Originalmente pertencente a José Emigdio de Almeida Cardia e seu irmão Antonio Augusto Vieira Cardia, a propriedade ganhou notoriedade ao receber a visita de Dom Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina entre as décadas de 1870 e 1880. Para recepcionar a comitiva imperial, a edificação foi submetida a reformas e adequações que introduziram materiais e técnicas consideradas inovadoras para o período. Este artigo tem como objetivo documentar e analisar as soluções arquitetônicas, a materialidade e as técnicas construtivas desta edificação, evidenciando sua importância como documento histórico e tecnológico.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. Arquitetura das Fazendas de Café Paulista e a Casa-Grande

A arquitetura das fazendas de café paulistas desenvolveu-se a partir das necessidades impostas pelo sistema produtivo agrícola e pelas características sociais do período. A fazenda não era constituída apenas por áreas destinadas ao cultivo e beneficiamento do café, mas por um conjunto de espaços organizados para atender às atividades de produção, moradia e administração. Segundo Benincasa (2014) a casa, mesmo quando grande, era mobiliada somente com o indispensável. Objetos de decoração era praticamente inexistentes.

Figura 1. Casa Grande de Engenho de açúcar nordestino.

Fonte: Corona e Lemos (1972, p.103)

De acordo com Benincasa (2014), a casa rural paulista apresenta características próprias decorrentes do isolamento das propriedades e da necessidade de reunir diferentes atividades em um mesmo núcleo. As distâncias em relação aos centros urbanos fizeram com que essas edificações incorporassem espaços destinados não somente à habitação, mas também a funções administrativas e sociais. Dessa forma, a organização interna da casa-grande refletia a estrutura da própria fazenda, evidenciando as relações entre espaço construído, trabalho e modo de vida.

A implantação dessas edificações também estava relacionada às condições do terreno e à organização da propriedade. Frequentemente posicionadas em locais de destaque na paisagem, a casa-grande estabeleciam uma relação visual com os espaços produtivos, especialmente os terreiros de café e áreas de circulação. Essa localização permitia tanto a valorização da residência como elemento de representação social quanto o acompanhamento das atividades desenvolvidas na fazenda.

Segundo Lemos (1972), a arquitetura brasileira deve ser analisada considerando os materiais disponíveis, as técnicas construtivas utilizadas e as condições culturais de cada período. Nas fazendas paulistas do ciclo do café, os sistemas construtivos empregados revelam uma combinação entre conhecimentos tradicionais e novas possibilidades técnicas associadas ao crescimento econômico proporcionado pela produção cafeeira.

Como apontam Corona e Lemos (1972) as técnicas construtivas utilizadas nas casas-sede desse período demonstram a preocupação com a solidez e a permanência das edificações. O emprego de materiais como pedra, tijolos maciços e madeira de lei possibilitou a construção de edifícios resistentes, enquanto elementos de acabamento, como esquadrias trabalhadas, forros, pisos e componentes ornamentais, contribuíram para a composição estética dos ambientes.

Além dos aspectos construtivos, a casa-grande também representava a posição social dos proprietários rurais. A incorporação de materiais diferenciados e elementos decorativos, muitas vezes provenientes de outros centros produtores, demonstrava o poder econômico alcançado pela elite cafeeira e a intenção de aproximar esses espaços dos padrões arquitetônicos valorizados naquele período.

Assim, o estudo da arquitetura das fazendas de café permite compreender a edificação como resultado da relação entre produção agrícola, organização social e conhecimento construtivo. A análise da casa-grande da Fazenda Imperial, portanto, parte dessa compreensão, buscando identificar como seus elementos arquitetônicos e técnicas construtivas expressam características do período em que foi construída.

3. METODOLOGIA

A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, prática e multidisciplinar. O levantamento de campo principal foi realizado in loco em 17 de julho de 2026. Os procedimentos técnicos incluíram o levantamento métrico rigoroso dos ambientes, registro fotográfico detalhado das patologias e dos elementos estruturais. Em paralelo, realizou-se pesquisa documental e bibliográfica, incluindo a consulta a jornais de época, e entrevistas para o resgate do histórico de intervenções na propriedade.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A implantação da edificação no terreno em aclive e a forte influência da arquitetura rural mineira podem ser observadas na composição volumétrica da casa-grande (Figura 2).

Figura 2. Vista Frontal da casa-grande da Fazenda Imperial, Mineiros do Tietê

Fonte: Vieira, 2026.

A planta (Figura 3) apresentada permite observar a distribuição interna da Casa-Grande da Fazenda Imperial, mostrando a atual distribuição dos ambientes e sua relação com as diferentes funções da edificação. A representação também permite identificar a separação entre os espaços de serviço, áreas íntimas, ambientes de estar e alpendres. Os ambientes identificados durante o levantamento foram classificados de acordo com sua função atual, sendo indicadas em rosa as áreas cujo acesso não permitiu a realização do levantamento no momento da pesquisa.

A primeira imagem segue o porão da casa e ao lado a planta baixa da do primeiro piso. A seguir estará descrito a função atual de cada ambiente:

1. Alpendre fronteiro; 2. Circulação; 3. Dormitórios; 4. Hall; 5. Banheiros; 6. Sala de Jantar (hoje), 7. Alpendre de acesso ao terreiro; 8. Entrada de Animais; 9. Cozinha; 10. Sala de Visita; 11. Alpendre Interno; 12. Apoio cozinha (despensa e forno a lenha); 13. Acesso restrito até o momento da pesquisa.

OBS.: Cômodos em azul designam área de serviços, em amarelo área intima, verde são alpendres, laranja área de estar e o rosa não foi possível fazer o levantamento.

Fonte: Vieira (2026).

4.1. Implantação e Organização Espacial

A topografia desempenhou papel determinante na implantação da casa-grande. O assentamento em terreno com aclive foi aproveitado de forma utilitária, favorecendo o escoamento natural de águas, a visibilidade estratégica da propriedade e a otimização logística das atividades de lavagem e beneficiamento do café.

Devido ao desnível, o pavimento inferior foi adaptado na forma de um porão estrutural. O nível principal apresenta uma setorização clara:

Área Social: Composta pelo alpendre fronteiro (elemento de forte influência mineira), hall de entrada e sala de visitas. O alpendre atua como um espaço de transição, recepção e controle visual.

Área Íntima: Conformada por dormitórios interligados por circulações diretas, priorizando a funcionalidade.

Área de Serviço: Concentra a cozinha, áreas de apoio (despensa e forno a lenha) e zonas operacionais voltadas para a rotina da fazenda.

4.2. Técnicas Construtivas e Materialidade

As soluções tecnológicas da casa-grande refletem um momento de transição e hibridismo construtivo. A infraestrutura baseia-se em um embasamento robusto de pedra encunhada. A superestrutura é composta por alvenaria de tijolos maciços estruturais, sendo notável a presença de preenchimentos atípicos em certas vedações, como o uso de sabugos de milho, evidenciando o pragmatismo das construções rurais da época.

O madeiramento original de pisos e forros encontra-se em excelente estado de conservação, destacando-se a precisão dos encaixes e a estética gerada pela variação de tonalidades das madeiras locais. Vigas de sustentação robustas sobre o porão atestam o rigor do dimensionamento estrutural.

O refinamento técnico é complementado pela importação de materiais nobres: telhas de Marselha, azulejaria e papéis de parede trazidos da Europa. Elementos em ferro fundido – como grades, dobradiças ornamentadas e pinhas de corrimão – também foram incorporados. Um aspecto de engenharia peculiar à propriedade é o terreiro de café, de aproximadamente um alqueire, revestido com asfalto importado da Inglaterra em barricas, uma solução de pavimentação de alta tecnologia para o contexto agrário da época.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A casa-grande da Fazenda Imperial representa um modelo de transição arquitetônica, onde o saber construtivo vernacular e as exigências de representação da elite cafeeira se encontram. A permanência da maioria dos elementos originais — como as fundações em pedra, os pisos encaixados de madeira e as alvenarias estruturais — confere à edificação uma alta integridade material.

As intervenções de restauro conduzidas pelos atuais proprietários, como a reconstrução técnica do telhado e o resgate de pinturas originais, demonstram que a união entre a conservação rigorosa e a manutenção prática garante a sobrevida da estrutura. Conclui-se que o edifício é um registro vivo das metodologias construtivas paulistas do século XIX, exigindo sua valorização contínua por profissionais das áreas de arquitetura e edificações.

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1 Discente do Programa de Pós-Graduação (Aluna Especial) da Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Câmpus de Bauru. Docente da Etec Joaquim Ferreira do Amaral (Jaú/SP). Trabalho desenvolvido sob a orientação do Prof. Dr. Vladimir Benincasa. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Docente da Etec Joaquim Ferreira do Amaral (Jaú/SP). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail