REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787459236
RESUMO
O presente artigo propõe uma reflexão sobre a dimensão estética na Educação, compreendida na perspectiva Freireana como expressão da “boniteza”, conceito que se materializa no cuidado, na amorosidade, na ética e no compromisso político. Diante dos desafios impostos principalmente pelo contexto pandêmico e pós-pandêmico, observa-se que as escolas, pressionadas por lógicas produtivistas e burocráticas, têm se afastado de práticas pedagógicas sensíveis. A pesquisa, de natureza qualitativa, caracteriza-se por meio de uma revisão sistemática da literatura, com foco em produções acadêmicas elaboradas no período entre 2019/2025, coletadas no repositório da Universidade Cidade de São Paulo (UNICID) e em um artigo publicado em periódico científico. O objetivo foi analisar como a dimensão estética tem sido abordada na formação docente e na atuação da gestão escolar. Os resultados revelam que, embora a estética seja vista como dimensão formativa nos referenciais teóricos, ela segue sendo negligenciada nas práticas cotidianas, cedendo espaço às urgências operacionais e às demandas burocráticas. Ainda assim, emergem experiências que reafirmam a potência dessa dimensão como ressignificação dos espaços, das relações e dos processos formativos. Nesse cenário, destaca-se o papel da gestão escolar como articuladora de práticas que promovam o fortalecimento dos vínculos, a escuta sensível e resgatando o sentido ético-estético do fazer educativo. Conclui-se que a articulação entre ética, estética e política constitui fundamento essencial para uma educação democrática, sensível e comprometida com a transformação social.
Palavras-chave: Estética na Educação; Boniteza; Gestão Escolar; Formação Docente; Paulo Freire.
ABSTRACT
This article proposes a reflection on the aesthetic dimension in education, understood from a Freirean perspective as an expression of “boniteza”—a concept materialized through care, affection, ethics, and political commitment. In the face of challenges imposed by the pandemic and post-pandemic contexts, it is observed that schools, pressured by productivity-driven and bureaucratic logics, have increasingly distanced themselves from sensitive pedagogical practices. This qualitative research is characterized by a systematic literature review conducted between 2019 and 2025, focusing on academic productions from the repository of Universidade Cidade de São Paulo (UNICID) and an article published in a scientific journal. The objective was to analyze how the aesthetic dimension has been addressed in teacher education and in the role of school management. The results reveal that, although aesthetics is recognized as a formative principle in theoretical frameworks, it continues to be neglected in everyday practices, giving way to operational urgencies and bureaucratic demands. Nevertheless, some experiences emerge that reaffirm the power of aesthetics as a path to re-signify spaces, relationships, and educational processes. In this context, the role of school management stands out as a key articulator of practices that foster boniteza in relationships, strengthen bonds, promote active listening, and restore the ethical-aesthetic meaning of educational practices. It is concluded that the articulation between ethics, aesthetics, and politics is an essential foundation for a democratic, sensitive, and socially transformative education.
Keywords: Aesthetics in Education.Boniteza; School Management; Teacher Education; Paulo Freire
1. INTRODUÇÃO
Aprendemos com Paulo Freire, patrono da Educação brasileira, que a Educação é uma prática constituída por diferentes dimensões – ética, política e estética – nas quais a amorosidade e o cuidado se entrelaçam para a construção do conhecimento levando à consequente formação de sujeitos sensíveis e pensantes.
Neste artigo, destacamos a dimensão estética como construtiva dos processos que ocorrem na escola, não como algo abstrato, mas por compreendê-la como expressão concreta das relações para qualificação das práticas educativas que se desenvolvem no cotidiano escolar. Essa dimensão, como já dito anteriormente, se expressa, com base no vocabulário de Freire, por meio da palavra “boniteza”, que se manifesta tanto pela beleza quanto pela feiura, revelando-se nas condições materiais da escola, nas formas de convivência, na organização e vivências do Projeto Político Pedagógico (PPP) e até mesmo no design do prédio escolar e seu mobiliário. Nesse sentido, essa dimensão não se reduz à apreciação do belo, mas aponta para o reconhecimento de experiências sensíveis e éticas que humanizam o convívio, que se torna respeitoso, que se faz por meio da transparência, da clareza, da simplicidade, da bondade, da coerência e da tolerância. Trata-se, portanto, de uma estética que tem a capacidade de articular o sensível com a razão, o corpo e o pensamento, fazendo da educação um ato político e poético.
Apesar dessas considerações, temos observado, por meio da convivência cotidiana das escolas, que a dimensão estética, esse lugar de encantamento, de sensibilidade e de criação, tem sido frequentemente invisibilizada nas escolas. Observa-se a predominância de uma estética vinculada à racionalidade técnica, principalmente com a chegada das plataformas digitais que tentam regular as ações escolares, impondo um afastamento do saber fazer descolado do saber ser, centrado na produtividade e na gestão burocratizada. A aceleração do tempo, a intensificação das demandas administrativas e a lógica produtivista de metas, que atravessa a sociedade e ao mesmo tempo a escola, estão esvaziando a configuração mais profundas dos processos pedagógicos, abandonando a boniteza e muitas vezes centrando-se no trabalho mecanicista, ou seja, afastando-os de sua vocação humanista.
Assim, mais do que levar a estética à escola, é preciso reconhecê-la em sua presença concreta e cotidiana revelada por meio das relações interpessoais, nos espaços, nos gestos, nos materiais instigando pesquisa que possam contribuir para a compreensão de como a dimensão estética se manifesta. Isso exige um olhar atento e sensível, capaz de problematizar suas formas e significados, a fim de fazer emergir sua potência formativa e transformadora.
Buscar essa compreensão tem sido uma tarefa bastante desafiadora considerando que a escola está vivendo as consequências do período pandêmico e pós-pandêmico (2020-2025), que impôs à Educação, e de forma direta a escola, desafios tão inéditos que relegam a dimensão estética a um plano secundário. Isto se justifica pela intensificação das demandas burocráticas, a pressão por resultados, o adoecimento das comunidades escolares e o aprofundamento das desigualdades que contribuíram para que a lógica operacional e produtivista se sobrepusesse à construção de experiências educativas mais sensíveis, dialógicas e humanizadoras.
Pode-se destacar também a presença das crianças que contribuem para esse grau de tensão que vem pressionando a escola, pois, expressam modos de ser e de aprender que se contrapõem a modelos escolares tradicionais ancorados em práticas rígidas e distanciadas dos interesses, linguagens e expectativas delas. Esse descompasso alimenta imagens negativas e feias sobre a própria escola e também sobre as crianças, frequentemente associadas ao desinteresse e à indisciplina.
Neste cenário, o trabalho da equipe gestora, composta por diretor, vice-diretor e coordenador pedagógico, torna-se central. Isso porque esses profissionais, enquanto lideranças, carregam a responsabilidade de zelar pelo Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, buscando atender às demandas externas de uma Secretaria de Educação, que, em muitos casos, também se mostra afastada da promoção da dimensão estética, assim como das próprias demandas e sua comunidade interna, professores, funcionários e famílias. Atualmente, eles encontram-se pressionados por metas, indicadores de desempenho, protocolos burocráticos e exigências das novas plataformas de regulação, e por isso acabam, muitas vezes, direcionando seus esforços para a manutenção do funcionamento administrativo e operacional da escola, em detrimento de processos mais humanizadores.
Diante desse quadro, e na perspectiva de investigar os desafios impostos pelo contexto pós-pandêmico e as novas demandas socioculturais que interpelam a escola e seus gestores, esta pesquisa tem por objetivo realizar um levantamento da produção acadêmica, desenvolvida no período de 2019 a 2025, que aborde a dimensão estética na escola, especialmente a partir dos referenciais teóricos de Paulo Freire. A pesquisa justifica-se pela necessidade de identificar tendências, avanços e lacunas, contribuindo para fortalecer reflexões e práticas que resgatem a centralidade da “boniteza”, ou seja, a dimensão estética como fundamento indissociável de uma educação sensível e emancipadora.
Para tanto, este artigo está estruturado em quatro seções. A primeira aborda a fundamentação teórica, destacando as contribuições de Paulo Freire, que discute a dimensão estética como elemento de uma educação humanizadora. A segunda, descreve a metodologia adotada, centrada na realização de uma revisão sistemática da literatura.
Na terceira seção, são apresentadas as análises das produções acadêmicas destacadas, buscando investigar e compreender quais temas que vêm sendo tratados nos estudos que têm a dimensão estética como foco. Por fim, a quarta e última seção, são sintetizados os dados e apresentadas as reflexões construídas ao longo do texto, discutindo-se em que medida as produções acadêmicas analisadas vêm (ou não) incorporando a dimensão estética como elemento constitutivo para uma ação gestora comprometida com a humanização dos processos educativos.
2. A DIMENSÃO ESTÉTICA COMO ALICERCE FORMATIVO NA EDUCAÇÃO
Refletir sobre a gestão escolar requer compreender seu papel como mediadora no ambiente escolar, a fim de garantir que o direito às aprendizagens seja, de fato, assegurado.
Nesse contexto, reconhecer os impactos e desafios impostos pelo período pandêmico e pós-pandêmico, torna-se necessário para problematizar o espaço escolar. Isso porque esse período tornou visível as vulnerabilidades já existentes na sociedade e consequentemente nas escolas. A pandemia não só acentuou as desigualdades sociais, como também evidenciou fragilidades estruturais do processo formativo. As equipes gestoras, também fragilizadas, foram impactadas, assumindo a responsabilidade de reorganizar os espaços da escola, bem como repensar as práticas pedagógicas e auxiliar o corpo docente e toda a equipe de forma a garantir o vínculo com as crianças, as famílias e demais profissionais, além de lidar com o adoecimento físico e emocional da comunidade escolar. Na retomada dos encontros presenciais o trabalho também foi intensificado, gerando demandas inesperadas para se restabelecer o convívio social como o acolhimento de estudantes e professores que permaneciam fragilizados, justificados pelo aumento de quadros de ansiedade, depressão e isolamento. Somaram-se a isso os desafios relacionados à readaptação dos espaços e das rotinas escolares, à reconfiguração das práticas pedagógicas para lidar com defasagens das aprendizagens. Local esse que historicamente visto como um espaço de encontros e partilhas, mas que após o período pandêmico necessitou ser ressignificado. Nesse sentido, foi necessário ocupar o mesmo espaço físico, mas garantindo o distanciamento. Condição essa que apesar de viabilizar a ocupação coletiva, também precisou garantir o afastamento, tensionando a essência da escola como espaço de convivência. Assim, a boniteza da escola, expressa nas relações, nos olhares, nas partilhas, nas brincadeiras, no compartilhamento de materiais e de brinquedos foi contaminada pelo medo, sofrendo impactos profundos. Ainda que a escola estivesse ocupada por seus profissionais e crianças, o distanciamento imposto quebrava, de certa forma, a tessitura dos encontros sensíveis, do abraço e do cuidado mais próximo, exigindo da gestão a criação de novas estratégias para sustentar o sentido do trabalho coletivo, do sentimento de pertencimento, da construção de vínculos e da beleza de ser e estar na educação sem desconsiderar os protocolos de segurança. O desafio foi, portanto, não permitir que a ausência do toque, dos gestos de proximidade e das expressões corporais esvaziasse a estética da boniteza que sustenta o cotidiano escolar
Diante desse cenário, fazia, e ainda se faz, urgente ressignificar a dimensão estética como alicerce formativo capaz de resgatar e transformar os espaços e as relações no ambiente escolar. Na perspectiva Freireana, Freire, em sua obra Pedagogia da Autonomia, cuja publicação foi feita em 1996, quase 20 anos depois, continua bastante atual, contribuindo para essa reflexão ao nos convocar a pensar na estética por meio do conceito de boniteza, intrinsicamente ligado à ética, que ele nomeia como decência. O autor nos provoca ao afirmar: “Não é possível também formação docente indiferente à boniteza e à decência que estar no mundo, com o mundo e com os outros substantivamente exige de nós.” (Freire, 2023, p.46).
No período pós-pandêmico, a indiferença foi justificada pela emergência da sobrecarga de demandas e a intensificação dos processos burocráticos. Nesse sentido, torna-se urgente compreender a estética não como um mero ornamento ou como algo isolado na escola, mas como uma dimensão fundamental da e para a formação humana. Nesse contexto, refletir sobre o papel da gestão implica considerar a organização de momentos formativos que promovam ambientes e espaços significativos de escuta, acolhimento, cuidado, empatia e ressignificação das ações da escola. A fim de que a dimensão estética não seja reduzida à uma lógica de eficiência que perde a essência da importância dos encontros, da escuta, da colaboratividade e da construção coletiva dos sentidos.
Por isso, a garantia desses encontros formativos torna-se, portanto, essencial para que, mesmo diante de contextos adversos, seja possível construir ações que dialoguem com as necessidades da comunidade escolar e que contribuam para uma prática pedagógica mais sensível, ao que está sendo vivido. Assim, a estética assume um papel político-pedagógico de destaque, ao promover a reflexão sobre a necessidade de vivências de práticas educativas que se aproximem de uma educação comprometida com a dignidade, a beleza das relações e a formação integral dos sujeitos.
Dignidade, entendida como a valorização da humanidade da luta contra qualquer forma de opressão e do reconhecimento do outro como sujeito histórico, capaz de saber, criar e transformar o mundo.
E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscar recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade em ambos. E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos – libertar-se a si e aos opressores. (Freire, 2024, p. 41)
Com relação a “beleza das relações”, segundo Freire, não se limita à apreciação do belo, mas se manifesta na amorosidade, na escuta, no diálogo, na empatia e na construção de espaços de relação em que se impere o respeito e pela valorização de todos.
...é na convivência amorosa com seus alunos e na postura curiosa e aberta que assume e, ao mesmo tempo, provoca-os a se assumirem enquanto sujeitos sóciohistórico-culturais do ato de conhecer, é que ele pode falar do respeito à dignidade e autonomia do educando. Pressupõe romper com concepções e práticas que negam a compreensão da educação como uma situação gnoseológica. (Freire, 2023, p. 12).
Considerando a formação integral, podemos dizer que é preciso concebê-la como aquele movimento que articula dimensões cognitivas, afetivas, éticas, estéticas e políticas, orientando-se pela construção de sujeitos críticos, sensíveis, autônomos e capazes de intervir no mundo para transformá-lo.
Não é possível também formação docente indiferente à boniteza e à decência que estar no mundo, com o mundo e com os outros, substantivamente, exige de nós. Não há prática docente verdadeira que não seja ela mesma um ensaio estético e ético, permita-se-me a repetição” (Freire, 2023, p.46)
Diante da compreensão sobre a importância da estética como elemento humanizador, é possível encontrar ressonância nos documentos orientadores da Rede Municipal de Educação de São Paulo, como no Currículo da Cidade - Educação Infantil que destaca a importância dos momentos formativos ao apresentar a matriz dos saberes, reforçando a relevância de refletir sobre o impacto na prática educativa.
A Matriz orienta o papel da SME, das equipes de formação dos órgãos regionais, das(os) supervisoras(es) escolares, das(os) diretoras(es) e coordenadoras(es) pedagógicas(os) das Unidades Educacionais e das(os) professoras(es) da Rede Municipal de Ensino na garantia de saberes, sobretudo ao selecionar e organizar as aprendizagens a serem asseguradas a longo de todas as etapas e modalidades da Educação Básica e fomentar a revitalização das práticas pedagógicas, a fim de darem conta desse desafio. (São Paulo, 2022, p. 37)
Ainda no Currículo da Cidade – Educação Infantil, a Matriz dos Saberes nos apresenta cinco dimensões para pensar a escola como um espaço vivo, respeitável, justo, inclusivo e que garanta os direitos de todos. Neste artigo, porém, o foco será direcionado especificamente para a primeira dimensão, que dialoga diretamente com a questão central desta pesquisa. Essa dimensão trata das questões éticas, políticas e estéticas na Educação, sendo apresentada da seguinte forma no documento:
Princípios éticos, políticos e estéticos definidos pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (BRASIL, 2013, p. 107-108), orientados para o exercício da cidadania responsável, que levem à construção de uma sociedade mais igualitária, justa, democrática e solidária. (São Paulo, 2022, p.37)
O Currículo da Cidade-educação infantil é um importante documento que norteia o trabalho nas unidades educacionais na cidade de São Paulo, promovendo discussões e reflexões sobre como a Educação Infantil deve ser compreendida e vivenciada. Ele apresenta orientações pedagógicas, que visam garantir a qualidade e equidade da educação, promovendo o desenvolvimento integral das crianças por meio de práticas pedagógicas que articulam saberes, experiências, vicências e contextos. Por meio da dimensão da Matriz dos Saberes evidencia-se a preocupação com uma Educação comprometida com o a formação de sujeitos autônomos, críticos, sensíveis e reflexivos. Esse princípio dialoga com a perspectiva Freiriana que defende uma educação pautada na estética, na ética e na política, pensando na boniteza, no cuidado, no respeito, na valorização das relações, dos espaços e das práticas pedagógicas. Afinal, formar para “uma vida produtiva e pleno exercício da cidadania” (São Paulo, 2019, p.37), implica também assegurar condições para que essa formação aconteça de maneira sensível, humanizada e significativa.
Freire em seu diálogo com Ira Shor, apresentado no livro Medo e Ousadia: o cotidiano do professor, mais uma vez traz considerações importantes sobre a estética na educação, valorizando o fazer pedagógico de maneira ativa, crítica e profundamente vinculada à realidade. Nessa perspectiva, ele nos convida à seguinte reflexão:
Assim, a educação é, simultaneamente, uma determinada teoria do conhecimento posta em prática, um ato político e um ato estético. Essas três dimensões estão sempre juntas – momentos simultâneos da teoria e da prática, da arte e da política, o ato de conhecer a um só tempo criando e recriando, enquanto forma os alunos que estão conhecendo. (Freire; Shor, 1986, p. 76)
Nesse sentido, os autores nos mostram que a estética se manifesta na beleza dos encontros, na amorosidade, na coerência ética e em práticas pedagógicas que promovam a dignidade, o acolhimento e a emancipação do sujeito. E, por meio desse entendimento se faz preponderante considerar todos os impactos provocados no período pandêmico e seu reflexo pós pandêmico, que agravaram as desigualdades sociais, fragilizaram vínculos e intensificaram o adoecimento físico, emocional e social. Desse modo, diante desse cenário, retomar a estética como boniteza que se expressa no cuidado, na empatia, na escuta ativa e sensível e na amorosidade, não se configura apenas como um ato meramente afetivo ou poético, mas como um ato profundamente político e pedagógico, capaz de ressignificar as relações que permeiam as escolas, bem como seus espaços e processos formativos. Nesse contexto, o papel da gestão se faz presente na responsabilidade de planejar, organizar e garantir momentos formativos como espaço de reflexão, diálogo, acolhimento e construção de saberes fazendo com que o Projeto Político Pedagógico seja um documento vivo e significativo, considerando a boniteza do cotidiano escolar e entendendo-a como expressão concreta de uma educação que valoriza tanto o desenvolvimento cognitivo quanto as experiências sensíveis, afetivas e éticas.
Ainda que tenha produzido suas escritas quase dois séculos antes de Paulo Freire, Schiller (1759/1805), filósofo, poeta, dramaturgo e historiador alemão, também já apontava para uma concepção de educação com a perspectiva Freireana, especialmente ao refletir sobre a importância de aprender a apreciar o belo como condição para o desenvolvimento pleno do ser humano. Para ele, a estética pode ser aprendida aos poucos, de forma equilibrada, envolvendo tanto o sentimento quanto o pensamento do indivíduo.
Assim, Schiller nos convida a refletir sobre a importância de aprender a apreciar o belo, da seguinte forma:
Sem que tomemos em consideração alguma lei ou fim, ele (o homem 2) pode aprazer-nos na mera contemplação e apenas por seu modo de aparecer. Nesta última qualidade, julgamo-lo esteticamente. Existe, assim, uma educação para a saúde, uma educação do pensamento, uma educação para a moralidade, uma educação para o gosto e a beleza. Esta tem por fim desenvolver em máxima harmonia o todo de nossas faculdades sensíveis e espirituais (Schiller, op. cit., p. 103)
Freire, nos convida a pensar nessa conexão ao falar da “decência e boniteza de mãos dadas” (Freire, 2003, p. 32). Nesse contexto, a decência pode ser entendida como ética, enquanto a boniteza se relaciona com a estética. Assim, ele reforça a ideia de que a Educação é um ato político, que envolve tanto valores éticos quanto estéticos.
3. METODOLOGIA
A presente revisão sistemática da literatura estruturou-se com base nas diretrizes metodológicas apresentadas por Campos (2023), as quais revelam a importância da transparência e da reprodutividade, valorizando a organização e a síntese de evidências.
Deste modo, essa pesquisa desse propôs a investigar produções acadêmicas que apresentem como objeto de estudo a dimensão estética na Educação, e suas implicações em ações voltadas para o desenvolvimento do trabalho produzido pela gestão escolar.
Para isso, a pesquisa reuniu, analisou e interpretou informações importantes encontradas em produções acadêmicas (artigos, teses e dissertações) relacionadas ao tema. Os critérios utilizados para seleção e análise foram explicados e discutidos de forma crítica e fundamentada ao longo do texto.
Inicialmente, a busca foi realizada por meio do Google Acadêmico buscando pelos termos estética, colcha de retalhos e gestão escolar de forma individual, os resultados foram os seguintes: cerca de 1.700.000 para gestão escolar, 21.300 para “colcha de retalhos” –metáfora, conforme propõe Rosito (2009), esta metodologia se constitui pela costura de fragmentos narrativas, experiências, memórias e registros que, articulados, produzem sentidos ao fenômeno investigado e 2.370.000 para estética. A fim de refinar ainda mais essa busca, também foram utilizadas as expressões “gestão escolar” e “formação continuada”. Resultando nos seguintes números: 1.230.000 para formação continuada e 57.600 para gestão escolar.
Posteriormente, quando foram feitas buscas combinadas, o número de resultados alterou de acordo com as combinações de palavras. A realização dessas buscas se deu por meio de três combinações: estética + gestão escolar, resultando em 132.000; estética +colcha de retalhos, trouxe 8.150 resultados e gestão escolar + colcha de retalhos, gerou 7.500 resultados.
Com o propósito de refinar ainda mais essa busca e melhor compreender e aprofundar a temática sobre estética, especialmente articulada à metodologia da “Colcha de Retalhos” no âmbito acadêmico, mais precisamente na Universidade Cidade de São Paulo (UNICID), foi realizada uma busca direcionada em seu repositório institucional, no período de 2019 a 2024. Essa escolha se justifica pela significativa trajetória da professora doutora Margarete May Berkenbrock-Rosito, discipula de Paulo Freire, professora e orientadora do curso de Mestrado e Doutorado em Educação na Universidade aqui referenciada e que há mais de duas décadas, desenvolve estudos que entrelaçam a estética, a formação docente e a construção de saberes a partir de uma perspectiva sensível e plural. No total, foram encontrados 13 trabalhos, dos quais quatro foram selecionados por apresentarem maior aderência às discussões que sustentam esta pesquisa. Além desses, também foi incorporado um artigo publicado na Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, escrito por uma mestranda vinculada, à época, ao programa de mestrado da UNICID, sob orientação da professora Berkenbrok-Rosito, o que reforça a pertinência do material frente ao escopo deste estudo. Dessa forma, a primeira etapa da seleção ficou de acordo com o quadro 1 e o refinamento com o quadro 2, como é possível aferir abaixo:
Quadro 1. Primeira Busca
Nº | Autorias (Ano) | Termos de busca | Resultados encontrados |
1 | Repositório Institucional UNICID | Estética, Colcha De Retalhos; Gestão; formação. | 13 |
2 | Google Acadêmico | Estética, Colcha De Retalhos; Gestão; formação. | 1490 |
Fonte: Autoria da própria autora
Quadro 2. Refinamento
Nº | Autores | Ano | Palavras – Chave |
1 | COSTA, D. C. L.; BERKENBROCK-Rosito, M. M | 2022 | “Colcha De Retalhos Digital”: Aspectos Estéticos Da Formação Docente Por Meio De Narrativas (Auto)Biográficas. |
2 | CAZERI, Iara Garcia | 2019 | Estética; Ética; Gestão |
3 | CASTRO Pires, Murilo | 2024 | Educação Estética; Narrativas Autobiográficas; Metodologia “Colcha de Retalhos”; Formação Docente; Documentário. |
4 | DUARTE, Francisco Maia | 2021 | Educação Estética; Espaços Escolares; Colcha de Retalhos |
5 | SOUZA, Juliana Paiva Pereira De | 2019 | Educação Estética; Colcha de Retalhos; Narrativas Autobiográficas. |
Fonte: Autoria da própria autora
Embora inicialmente tenha sido possível encontrar uma discussão bastante ampla sobre gestão escolar e formação continuada, ao explorar esses temas relacionando-os a questão da estética, percebeu-se que houve uma redução considerável de trabalhos acadêmicos, sobretudo direcionados para a área da Educação. Além disso, ao aprofundar ainda mais a pesquisa, ficou evidente que há uma necessidade urgente de discutir questões relacionadas à estética na educação, especialmente quando se trata do papel da gestão escolar.
Desse modo, a seleção dos materiais considerou a relevância do tema (conforme apresentado no quadro 1), tendo como base orientadora as palavras-chave estética, gestão escolar e formação continuada, a fim de garantir a compatibilidade com os objetivos da pesquisa, além da disponibilidade de acesso integral aos conteúdos, garantindo uma análise criteriosa, coerente e metodologicamente rigorosa, que dialogam com esta pesquisa, especialmente com as concepções de Paulo Freire, reafirmando as narrativas como espaços de escuta, acolhimento e construção de sentidos, nos quais estética, ética e política se entrelaçam na afirmação do outro como sujeito criador, capaz de existir, resistir e transformar.
4. O QUE AS DISSERTAÇÕES ACADÊMICAS NOS REVELAM
Diante de um cenário educacional atravessado por desafios cotidianos, intensificados no contexto pós-pandêmico, repensar a prática educativa nas escolas exige romper com modelos tradicionais, tecnicistas e reprodutivistas. Por meio da leitura e análise dos estudos realizados foi possível perceber que há um padrão recorrente nas discussões sobre a importância da ética e da estética na Educação e apresentam mesma linha de pesquisa apoiados no procedimento de coleta de dados por meio de narrativas (auto)biográficas, a partir de produções de narrativas orais, escritas e pictóricas que resultaram na produção da “Colcha de Retalhos” como fruto do processo investigativo e formativo das pessoas envolvidas. Para isso, esses estudos apoiaram-se na perspectiva hermenêutica de Gadamer e para a produção da “Colcha de Retalhos” na metodologia de pesquisa de Berkenbrock-Rosito que nos apresenta importantes autores como Paulo Freire, Marie-Christine Josso, Friedrich Schiller, entre outros.
É possível identificar que as produções que aqui serão apresentadas de Duarte (2021), Castro Pires (2024), Cazeri (2019), Souza (2019) e Costa e Berkenbrock-Rosito (2022) apresentam temas recorrentes que atravessam suas produções, bem como aproximações e especificidades que as diferenciam.
Em sua dissertação, Duarte (2021) apresenta uma reflexão sensível sobre os espaços educacionais e a fundamental relação entre ética e estética nesses ambientes. Sua pesquisa foi realizada com estudantes do ensino médio de uma Escola Técnica do Estado de São Paulo (ETEC) e adotou como metodologia a coleta e geração de dados por meio de narrativas (auto)biográficas, que revelaram suas experiências de vida e escolares. A partir dessa análise, o autor discute como se dá a gestão da sala de aula, compreendida como um espaço que, quando intencionalmente organizado, pode favorecer processos de autonomia e emancipação dos sujeitos. Nesse sentido, Duarte destaca a importância da valorização dos espaços escolares como lugares de trocas simbólicas e manifestações humanas, capazes de proporcionar experiências significativas que contribuam para o desenvolvimento de comportamentos, conhecimentos, valores éticos, atributos pessoais e competências de convivência em grupo. Além disso, sua dissertação ressalta a necessidade de promover ambientes pautados na escuta ativa, no diálogo e na construção coletiva do conhecimento, compreendendo que essas práticas são fundamentais para fortalecer a autonomia e a emancipação dos estudantes. Por meio da confecção da “Colcha de Retalhos”, ele apresenta importantes reflexões sobre como a organização da sala de aula reflete concepções pedagógicas e pode, quando alinhada a experiências éticas e estéticas, ser um caminho para a formação de sujeitos mais autônomos, críticos e sensíveis.
Assim como Duarte (2021), Castro Pires (2024), por meio da confecção da “Colcha de Retalhos” direcionou sua pesquisa também para a gestão da sala de aula, contudo, desta vez voltado para professores e gestores.
Castro Pires (2024), ao refletir sobre a importância da estética na educação, produziu um documentário com o objetivo de captar detalhes que muitas vezes se perdem em outros tipos de registros, como entonação, expressão facial e gestos, aspectos esses, que poderiam ser perdidos em outros tipos de registros, enquanto os participantes compartilhavam suas concepções e reflexões acerca do papel autoral. Ele destaca que a formação da identidade dos professores é um processo complexo, influenciado por diversos fatores ao longo da vida profissional e enfatiza a necessidade de incentivar a prática reflexiva para que esses profissionais se reconheçam como pesquisadores, criadores de conhecimento e sujeitos conscientes de sua atuação. Em seus estudos, o autor ressalta o papel fundamental da dimensão estética na organização da sala de aula, evidenciando o uso de recursos audiovisuais como ferramentas valiosas para promover o diálogo entre professores e alunos por meio de imagens e sons, facilitando o desenvolvimento intelectual e a construção coletiva do saber. A pesquisa documenta ainda a aplicação da metodologia da “Colcha de Retalhos” por meio do documentário, que registra narrativas autobiográficas dos participantes e se configura como uma poderosa ferramenta para a formação de professores e pesquisadores, ao criar espaços para reflexão, diálogo e transformação, sendo descrito como “uma janela para a reflexão, um espelho para a sociedade e uma ferramenta transformadora” (Castro Pires, 2024, p.56).
Cazeri (2019), assim como os autores anteriores apresentou como metologia a confecção da colcha de retalhos, contudo apresentando como objeto de pesquisa gestores da educação superior. Ela traz em seus estudos as questões éticas e estéticas, como temas pouco discutidos na Educação Superior. Buscando entender através de narrativas autobiográficas, como as experiências estéticas vivenciadas pelos gestores acadêmicos contribuem para o aprimoramento da ética, os levando ao desenvolvimento da autonomia e da emancipação como gestores educacionais. Sua pesquisa destaca a relevância da experiência ética e estética nos processos constitutivos desses gestores, ressaltando que a vivência da confecção da “Colcha de Retalhos” facilitou a mediação da reflexão, possibilitando “identificar nas narrativas dos sujeitos pesquisados quais as experiências estéticas colaboraram para a noção de ética na relação entre os sujeitos”. Em sua dissertação, a autora discute ainda como as narrativas tecidas favorecem o desenvolvimento da consciência crítica, promovendo a compreensão de que a formação do professor e do gestor enquanto sujeitos éticos e estéticos se dá a partir das relações interpessoais, as quais demandam uma tomada de consciência sobre a responsabilidade, manifestada por meio da cooperação, solidariedade e respeito às diferenças individuais e à diversidade.
Em sua pesquisa, Souza (2019) apresenta a metodologia da “Colcha de Retalhos” como um dispositivo formativo relevante para a formação de futuros docentes. Seu objetivo consiste em compreender como as narrativas escritas, pictóricas e orais contribuem para a formação pessoal e profissional de estudantes de Pedagogia, especialmente no desenvolvimento da consciência de si, da autonomia e na construção da identidade docente. Ao longo de sua dissertação, a autora evidencia o potencial da educação estética na constituição da identidade docente, compreendendo a “Colcha de Retalhos” como uma prática formativa que favorece a reflexão, a escuta sensível e a ressignificação de experiências. Nesse sentido, defende que a formação docente precisa ultrapassar os limites da técnica e da transmissão de conteúdos, incorporando, de forma intencional, o afeto, a imaginação, a sensibilidade e a experiência como dimensões fundamentais e legítimas no processo de construção do conhecimento.
Já no único artigo que compõe este conjunto de produções acadêmicas selecionadas, Costa e Berkenbrock-Rosito (2022) abordam os aspectos estéticos da formação docente por meio de narrativas (auto)biográficas, apresentando narrativas pessoais como uma ferramenta formativa, fundamentada em uma proposta metodológica sensível, reflexiva e mediada pelas tecnologias digitais. O estudo evidencia como o período pandêmico da Covid-19 impactou diretamente a aplicação da metodologia da “Colcha de Retalhos”, que, originalmente desenvolvida em encontros presenciais, necessitou ser ressignificada frente às exigências do distanciamento social, sendo adaptada para ambientes digitais no ano de 2020, diante das exigências de distanciamento social. Essa reconfiguração, apresentou novos desafios e possibilidades no que diz respeito à interação, à comunicação e aos processos de aprendizagem, sobretudo no uso de plataformas digitais como Zoom, Padlet e Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA). As autoras também destacam que esse processo revelou uma fragilidade significativa no que se refere ao letramento digital dos participantes, tanto docentes quanto discentes, o que gerou desafios importantes para a mediação pedagógica, agora mediada prioritariamente pelas tecnologias.
De maneira geral, as pesquisas analisadas apresentam como eixo central a valorização da dimensão estética na formação docente e/ou gestora, compreendendo-a como constituinte formativo que se articula à ética e à política, na construção de processos educativos mais sensíveis, emancipatórios e humanizadores. Além disso, a utilização das narrativas (auto)biográficas como dispositivo metodológico é um elemento comum a todas as pesquisas, apresentando como metodologia a prática da “Colcha de Retalhos” como uma estratégia potente para promover reflexão, ressignificação de experiências e construção de saberes.
As produções acadêmicas aqui reunidas elegem as reflexões de Paulo Freire como eixo estruturante, assumindo sua perspectiva como fio condutor das análises. Além dele, os referenciais teóricos de Friedrich Schiller, Theodor Adorno e Marie-Christine Josso também se destacam de maneira recorrente, oferecendo importantes aportes para o entendimento da estética como dimensão formativa. Embora estejam alinhados na defesa de uma educação sensível, crítica e dialógica, cada estudo apresenta especificidades em seus recortes e olhares.
Duarte (2021) e Castro Pires (2024) apresentam investigações voltadas para a gestão da sala de aula. O primeiro autor enfoca a escuta ativa e a valorização do espaço escolar como ambiente de trocas simbólicas e de desenvolvimento da autonomia de estudantes do Ensino Médio. Enquanto o segundo direciona sua análise para a formação docente, destacando a produção do documentário como ferramenta metodológica capaz de favorecer a construção de saberes, a reflexão e o fortalecimento da autoria docente.
Cazeri (2019), por sua vez, volta-se à gestão acadêmica na Educação Superior, evidenciando como as experiências estéticas vivenciadas pelos gestores contribuem para o desenvolvimento da ética, da autonomia e da emancipação, reafirmando a estética como mediadora dos processos formativos. Enquanto Souza (2019) concentra-se na formação inicial de futuros docentes, destacando como as narrativas fortalecem a consciência de si e a identidade profissional, defendendo uma formação pautada no afeto, sensibilidade, imaginação e experiência.
Por fim, Costa e Berkenbrock-Rosito (2022) analisam a aplicação da metodologia da “Colcha de Retalhos” no contexto da pandemia da Covid-19, refletindo sobre os desafios e as potências do uso das tecnologias digitais na mediação pedagógica. As autoras evidenciam como a transição para ambientes virtuais exigiu a reconfiguração dos processos formativos e, ao mesmo tempo, expôs fragilidades no letramento digital de docentes e discentes.
Embora haja convergência na defesa da estética como dimensão essencial da formação e no uso das narrativas como metodologia, cada pesquisa revela especificidades que dialogam diretamente com seus contextos, públicos e objetivos, enriquecendo o debate sobre os processos formativos no campo educacional.
Contudo, persiste uma lacuna no que se refere à atuação da gestão escolar, no sentido de compreender como promover momentos formativos significativos, em que a dimensão estética, indissociável da ética e da política, atue como aliada essencial na condução desses trabalhos, ressignificando práticas e fortalecendo a comunidade escolar.
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O legado de Paulo Freire nos inspira na compreensão da humanização do ser humano como processo de conscientização de ser histórico e inacabado, para aprendermos a pensar a partir do vivido. (Berkenbrock-Rosito)
A partir da revisão de literatura realizada neste trabalho com o olhar voltado para a dimensão estética e como a Gestão Escolar pode no âmbito da busca de uma escola em que “boniteza” se faça presente, torna-se evidente que essa tríade compreendida no papel da Direção de Escola, Vice Direção e Coordenação Pedagógica, assume uma importante missão. Trata-se de um compromisso que transcende a função administrativa e se firma no papel pedagógico ético, político e estético, organizando, garantindo e potencializando os momentos formativos, capazes de fazer com que os atores que compõem a equipe de profissionais da educação repensem e ressignifiquem suas práticas. Desse modo, não se trata de levar a estética para a escola, pois ela já está lá (sempre esteve) presente em cada detalhe, sendo manifestada nas relações interpessoais, na organização dos espaços e ambientes, na arquitetura, nas práticas pedagógicas e sobretudo no Projeto Político Pedagógico.
Assim, o grande desafio que se coloca à essa tríade é romper com a lógica de uma estética restrita a reprodutividade, mas que possibilite e priorize as tessituras da construção coletiva dos sentidos no cotidiano escolar, fazendo com que o PPP não seja um documento protocolar, mas que ganhe vida nas práticas cotidianas, sendo ele próprio uma colcha de retalhos costurada a partir da ética, a estética, valorizando sonhos, desafios, afetos, saberes e compromissos partilhados que cultivem uma educação sensível.
Ancorada na perspectiva Freiriana, a dimensão estética não se limita à boniteza do meramente decorativo, mas como fio condutor de reflexão da estética da boniteza que se materializa no cuidado, na empatia, na amorosidade e no diálogo, atravessando não apenas as relações entre docentes e crianças, mas também o modo como a gestão se posiciona frente aos desafios formativos, a fim de alcançar toda a comunidade escolar. É nesse contexto que a escrita de narrativas (auto)biográficas se revela como uma metodologia significativa de formação. Ela permite que cada sujeito revisite sua própria história, ressignifique sua trajetória. Como nos ensinam Berkenbrok-Rosito e Silva (2017, p. 9):
Escrever uma narrativa autobiográfica, demanda antes imaginar uma ponte, olhar de um ponto a outro, para nela percorrer e, a cada passo percorrido, se preparar para um novo ponto de chegada que também será de partida. Esse processo de construção produz no decorrer da escrita, um encher-se de coragem para assumir os feitos com seus efeitos e, o que não foi e, nem poderá ser feito. É um processo que desfaz certezas e incertezas, desconstrói e reconstrói novos sentidos e significados a respeito do que foi, ou não, vivenciado na trajetória formativa, e por essa condição, revelam a estética de uma subjetividade
Diante desse processo em que as certezas e incertezas se desfazem e se reconstroem, é importante pensar o contexto pós-pandêmico e compreender como a gestão escolar assume suas responsabilidades para a construção de uma cultura formativa pautada na boniteza (estética), na ética e no compromisso político de todo o coletivo escolar. É nesse movimento que a dimensão estética se revela não como uma vaidade, mas como um componente estruturante da formação e da gestão democrática.
Reconhecer e valorizar a dimensão estética como parte importante da formação é, na verdade, um ato de resistência e resgate como um espaço de escuta e observação atenta ao que está sendo vivido na escola. Isso porque
Não fomos educados para olhar pensando o mundo, a realidade, nós mesmos. Nosso olhar cristalizado nos estereótipos produziu em nós paralisia, fatalismo cegueira. Para romper esse modelo autoritário, a observação é a ferramenta básica nesse aprendizado da construção do olhar sensível e pensante. (Weffort, 1996, p. 6)
Portanto, a estética na gestão escolar não pode e não deve ser vista como um adorno, mas como uma aliada no cotidiano da escola. Pois, ela deflagra e sustenta princípios como o respeito, a empatia, o sensível, o pensante, a autonomia e seriedade. E, especialmente, convoca toda a comunidade escolar a ressignificar a escola, seus tempos, ambientes, espaços e suas relações.
Conclui-se assim, que “qualquer que seja a dimensão pela qual apreciemos a prática educativa, a gnosiológica, a estética, a ética, a política, seu processo, se autenticamente vivido, implica sempre a esperança” (Freire, 2015, p.102). Assumir a estética como dimensão fundante da gestão democrática e da prática pedagógica é um ato de resistência, resiliência e amorosidade. Aquela que resiste contra a desumanização, como aquela que não naturaliza as vulnerabilidades (físicas, sociais e emocionais) e que valoriza a construção de saberes. Sendo um ato de esperança, que veja a escola como um espaço que ensine a ver, sentir, cuidar, a sonhar e transformar coletivamente.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Mestranda pela Universidade –Cidade de São Paulo (UNICID). ORCID: https://orcid.org/0009-0002-4864-5396. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Doutora em Educação, Unicamp- Universidade de Campinas SP e Pós-doutorado em História da Educação, Universidade de Lisboa/Portugal. Docente e pesquisadora no PPGe- Mestrado e Doutorado em Educação e Mestrado Profissional Formação de Gestores Educacionais, UNICID Universidade Cidade de São Paulo. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9010-1101. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail