REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/783649865
RESUMO
O presente trabalho investiga a performance do sujeito e a sanção do texto em A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector, sob a ótica da semiótica discursiva de linha francesa. O objetivo central consistiu em analisar o percurso narrativo da protagonista, desvelando os mecanismos de construção de sua identidade e o processo de perda de suas características humanas. A metodologia pautou-se na aplicação dos conceitos desenvolvidos por Algirdas Julien Greimas (1976), sob a exegese de Diana Luz Pessoa de Barros (2008) e José Luiz Fiorin (2013), com foco no percurso gerativo de sentido e nos níveis fundamental e narrativo. Os resultados alcançados demonstram que a performance de G.H. configura-se como uma produção de objeto, na qual o objeto-valor é a conquista de uma natureza indefinida, mediada pelo confronto do próprio eu na forma de um interlocutor imanente à consciência da narradora. O embate com a barata, o antissujeito, atua como o catalisador que transforma o estado de não-querer da personagem em um querer-ser existencial, rompendo com a rigidez da rotina. Conclui-se que a análise semiótica é um instrumental possível para a decodificação de textos literários intrincados, permitindo que o indizível clariceano seja elucidado. Os resultados revelam que a transformação da personagem não é apenas um delírio, mas uma reorganização lógica de valores que desafia a moralidade tradicional. As implicações deste estudo consolidam a pesquisa como uma contribuição para a área de Letras ao demonstrar a precisão dos modelos de percurso narrativo na descrição das transformações identitárias presentes na literatura brasileira.
Palavras-chave: Semiótica; Clarice Lispector; Percurso Narrativo; Sujeito.
ABSTRACT
This work investigates the subject's performance and the text's sanction in The Passion According to G.H., by Clarice Lispector, from the perspective of French-style discursive semiotics. The central objective was to analyze the protagonist's narrative journey, revealing the mechanisms of identity construction and the process of loss of her human characteristics. The methodology was based on the application of concepts developed by Algirdas Julien Greimas (1976), under the exegesis of Diana Luz Pessoa de Barros (2008) and José Luiz Fiorin (2013), focusing on the generative path of meaning and the fundamental and narrative levels. The results show that G.H.'s performance... This is configured as an object production, in which the object-value is the conquest of an undefined nature, mediated by the confrontation of the self in the form of an interlocutor immanent to the narrator's consciousness. The clash with the cockroach, the anti-subject, acts as the catalyst that transforms the character's state of non-will into an existential will-to-be, breaking with the rigidity of routine. It is concluded that semiotic analysis is a possible instrument for decoding intricate literary texts, allowing the unspeakable in Clarice Lispector's work to be elucidated. The results reveal that the character's transformation is not merely a delusion, but a logical reorganization of values that challenges traditional morality. The implications of this study consolidate the research as a contribution to the field of Literature by demonstrating the accuracy of narrative trajectory models in describing the identity transformations present in Brazilian literature.
Keywords: Semiotics; Clarice Lispector; Narrative Trajectory; Subject.
1. INTRODUÇÃO
A produção literária de Clarice Lispector é frequentemente caracterizada pelo deslocamento do foco dos eventos externos para a densidade dos processos introspectivos. Em A Paixão Segundo G.H. (1964/2009), essa inclinação atinge um patamar de radicalidade linguística e existencial. A narrativa, que parte de um evento cotidiano, que é o confronto de uma escultora com um inseto em seu espaço doméstico, desdobra-se em uma investigação profunda sobre a desconstrução da identidade burguesa e a busca por uma essência pré-humana. Para o leitor, a obra pode apresentar complexidades interpretativas acentuadas, uma vez que sua estrutura não se pauta na linearidade dos fatos, mas na organização de um fluxo de consciência que desafia as convenções tradicionais da lógica narrativa.
Nessa perspectiva, a Semiótica do Discurso de linha francesa, postulada por Algirdas Julian Greimas, oferece um instrumental analítico capaz de conferir inteligibilidade a esse universo aparentemente hermético. Essa teoria se propõe a investigar como o sentido é engendrado no texto, indo além da apreensão intuitiva para alcançar a compreensão dos mecanismos de significação. O conceito de percurso gerativo de sentido funciona como um modelo operacional que permite ao analista mapear a trajetória dos valores, desde as camadas mais abstratas até a sua concretização discursiva, revelando a organização lógica subjacente a narrativa.
O problema de pesquisa deste estudo emerge da necessidade de compreender como se constrói a significação dentro da narrativa do romance, haja vista que esta é a grande dificuldade dos leitores. A resistência à leitura, muitas vezes motivada pelo caráter metafórico e visceral da obra, sugere que o texto exige uma decodificação que ultrapassa a camada superficial do enunciado.
Para viabilizar tal investigação, este artigo estabelece como objetivo geral analisar a performance de reconstrução identitária e a sanção do texto em A Paixão Segundo G.H. Com o intuito de fundamentar essa análise, elencam-se os seguintes objetivos específicos: identificar os elementos que sustentam a narrativa, a partir do nível narrativo do percurso gerativo de sentido; refletir sobre a aquisição da performance (ação) do sujeito na configuração da narrativa; e, por fim, descrever o desenvolvimento, a sanção e os resultados das relações estabelecidas em meio aos conflitos internos da personagem G.H.
No que concerne a metodologia aplicada a esse estudo, trata-se de numa pesquisa bibliográfica de natureza qualitativa e descritiva. O caráter qualitativo reside na priorização da interpretação de significados e na análise das estruturas relacionais entre os actantes. O suporte teórico-analítico consolida-se no diálogo entre o texto literário e as contribuições de Diana Luz Pessoa de Barros (2008) e José Luiz Fiorin (2013), referências fundamentais para a aplicação da teoria semiótica no Brasil, além de outros estudos semióticos e literários. O procedimento analítico consiste na observação das etapas do percurso gerativo, o que possibilita demonstrar como a narrativa clariceana, embora marcada pela subjetividade, ancora-se em uma estrutura de sentido rigorosamente articulada.
Espera-se que este estudo contribua para a expansão das perspectivas críticas sobre a obra, sugerindo que o enfrentamento do inumano por parte de G.H. não constitui um esvaziamento de sentido, mas a própria condição para a emergência de uma nova identidade. Ao evidenciar as engrenagens da performance e da sanção, este trabalho visa aproximar o analista e o leitor da compreensão dos processos de desumanização e transcendência presentes pela narrativa de Clarice Lispector.
2. PONTOS DA TEORIA SEMIÓTICA GREIMASIANA
As A fundamentação teórica deste estudo ancora-se na Semiótica do Discurso, vertente originada nos trabalhos sobre Semântica Estrutural (1973) de Algirdas Julian Greimas. Tal abordagem configura-se como um sistema que investiga a produção de sentido priorizando o exame do plano de conteúdo textual. Nesse contexto, a metodologia adotada caracteriza-se por ser " [...] uma teoria inserida entre as que se preocupam com o texto" (Barros, 2008 p. 7), visando decifrar as camadas de significação por meio de um exame analítico rigoroso. Para tanto, utiliza-se o conceito de percurso gerativo de sentido, que se organiza “por etapas que possibilitam ao leitor compreender o que o texto diz e como o diz” (Santos, 2015 p. 3). Essa estrutura analítica é desenvolvida progressivamente, partindo do nível “mais simples e abstrato ao mais complexo e concreto” (Barros, 2008 p. 9).
Na perspectiva de José Luiz Fiorin (2013, p. 10), a semiótica funciona como uma gramática discursiva que " [...] visa tornar explícitos mecanismos implícitos de estruturação e interpretação de textos [...]". Em outros termos, a metodologia dedica-se a desvelar a arquitetura textual e os percursos cognitivos que o leitor deve percorrer para apreender o sentido. A identificação desses dispositivos subjacentes, viabilizada pelo instrumental semiótico, permite ao analista compreender a construção das narrativas e o posicionamento das personagens nas estruturas discursivas. Tal exercício é fundamental para o aprofundamento crítico e a expansão dos pontos de vista sobre a obra literária.
Sob a ótica de Diana Luz Pessoa de Barros (2008), a teoria semiótica elege o texto como seu objeto central. Todavia, antes de delimitar os contornos teóricos da disciplina, faz-se necessário definir a natureza desse objeto de investigação. Nesse sentido, o texto é compreendido por meio de duas dimensões complementares; segundo a autora, a definição de texto se configura:
pela organização ou estruturação que faz dele um “todo de sentido”, como objeto da comunicação que se estabelece entre um destinador e um destinatário. A primeira concepção de texto entendida como objeto de significação, faz com que seu estudo se confunda com o exame dos procedimentos e mecanismos que o estruturam, que o tecem como um “todo de sentido” (Barros, 2008 p. 7, grifos da autora).
Contudo, Complementarmente, a segunda caracterização proposta por Barros define a unidade semiótica não apenas como um constructo de significação, mas fundamentalmente como um “objeto de comunicação entre dois sujeitos” (Barros, 2008 p. 7, grifos da autora). Sob esse prisma, o texto é apreendido como um elemento organicamente inserido na dinâmica social, o que exige que o analista considere o contexto sócio-histórico circundante. É essa conjuntura externa que, em última análise, consolida o sentido da obra através de uma abordagem pragmática. Em contrapartida, ao tratar o texto estritamente como objeto de significação isolado de suas raízes culturais, o exame limitar-se-ia a uma análise puramente interna ou estrutural. Diante disso, ressalta-se a importância de caracterizarmos o texto a partir dessas duas formas, ou seja, como um objeto de significação e como objeto de comunicação, pois
o texto só existe quando concebido na dualidade que o define – objeto de significação e objeto de comunicação – e, dessa forma, o estudo do texto com vistas à construção de seu ou de seus sentidos só pode ser entrevisto como o exame tanto dos mecanismos internos quanto dos fatores contextuais ou sócio históricos de fabricação de sentido (Barros, 2008 p. 7-8).
Para tanto, é reforçado nas palavras de José Luiz Fiorin (2013) essa dualidade em que repousa a concepção de um texto, logo ele
pode ser abordado de dois pontos de vista complementares. De um lado, podem-se analisar os mecanismos sintáticos e semânticos responsáveis pela produção do sentido; de outro, pode-se compreender o discurso como objeto cultural, produzido a partir de certas condicionantes históricas, em relação dialógica com outros textos (Fiorin, 2013 p. 10).
Em suma, os mecanismos sintáticos e semânticos propostos por Fiorin (2013) articulam-se à estrutura interna defendida por Barros (2008), enquanto ambos os teóricos convergem na compreensão do texto como um fenômeno cultural. Uma vez que a semiótica transcende a análise da frase para focar na unidade textual, as seções seguintes demonstrarão a aplicabilidade desse modelo no exame de textos literários, evidenciando sua eficácia no desvelamento dos processos de significação.
2.1. Percurso Gerativo de Sentido
Conforme os pressupostos da semiótica greimasiana, a investigação de um texto pressupõe a análise do seu percurso gerativo de sentido, o qual se organiza metodologicamente em três níveis distintos: o fundamental, o narrativo e o discursivo. Essa estratificação permite uma investigação profunda que se distancia das leituras puramente intuitivas ou superficiais. Ao adotar esse modelo, estabelece-se uma distinção clara entre o consumo passivo do texto e a análise crítica, uma vez que “o leitor semiotizado interpreta e vai além da superficialidade apresentada na estrutura do texto” (Castañeda, 2007 p. 11).
Dessa forma, o analista não se limita a descrever o que está exposto na camada externa da obra, mas torna-se apto a decodificar os mecanismos que engendram a significação, independentemente de o objeto ser de natureza literária ou pragmática. Esse processo de "semiotização" do olhar permite que o leitor compreenda o texto como um objeto estruturado, no qual cada nível de análise revela uma etapa diferente da produção do sentido, indo do nível mais abstrato (os valores) até a concretização discursiva.
2.1.1. Nível das Estruturas Fundamentais
O nível fundamental, estágio mais abstrato do percurso gerativo, exige que o analista identifique as oposições semânticas primárias que estruturam o texto. Essas categorias fundamentais “são determinadas como positivas ou eufóricas, negativas ou disfóricas” (Barros, 2008, p. 10), estabelecendo o eixo axiológico sobre o qual o sentido é construído. Portanto, a análise deve mapear como tais oposições se manifestam e se transformam ao longo da narrativa.
Em gêneros como o romance e a tragédia, é frequente a presença da dualidade amor versus ódio. Uma vez detectada essa oposição, cabe ao analista rastrear o percurso dinâmico entre os termos contrários. Se, por exemplo, o vínculo inicial de afeto entre as personagens converte-se em hostilidade, observa-se o trânsito do amor (termo eufórico) para o ódio (termo disfórico). Esse deslocamento pressupõe estados intermediários de negação, como a "não-euforia" (o não-amor), que serve de transição para o polo oposto. Esquematicamente, esse fluxo pode ser representado pela sequência: Amor (euforia) → não-amor (não-euforia) → ódio (disforia).
2.1.2. Nível das Estruturas Narrativas
No nível narrativo, a análise transita da abstração das oposições para a organização de um ponto de vista centrado na ação. Nesta etapa, “apresentam-se os termos de junção, denominados de conjunção e disjunção” (Santos, 2015 p. 4), em que os valores fundamentais são investidos em objetos por meio da atuação de sujeitos. A narrativa é, portanto, compreendida como uma sucessão de mudanças de estado operadas por um "fazer transformador". Essa dinâmica estrutura-se no enunciado elementar, que estabelece a relação entre dois actantes principais: o sujeito e o objeto. Segundo Greimas e Courtés (2013), os actantes são as unidades sintáticas responsáveis pela realização ou pelo sofrimento do ato, abrangendo tanto o sujeito quanto o antissujeito, este último figurando como a força de oposição que obstaculiza a trajetória do primeiro em direção ao objeto de valor.
A interação entre esses elementos define o Programa Narrativo (PN), concebido como um enunciado de fazer que atua sobre um enunciado de estado. De acordo com Barros (2008), o PN desdobra-se em duas dimensões complementares: o programa de competência, referente à aquisição de valores modais (o saber ou poder fazer), e o programa de performance, que consiste na transformação real e na apropriação dos valores descritivos.
Esses programas articulam-se no que se denomina percurso narrativo do sujeito, uma sequência de ações ligadas por pressuposição lógica. Para que a performance ocorra, o sujeito deve obrigatoriamente adquirir a competência necessária. Cabe ressaltar que cada texto literário manifesta um percurso singular, no qual o sujeito estabelece ou rompe vínculos com valores específicos. Esse ciclo encerra-se com a sanção, fase final da organização narrativa dedicada ao reconhecimento e à validação da performance executada, consolidando o sentido da trajetória percorrida.
2.1.3. Nível das Estruturas Discursivas
O nível discursivo, ou das estruturas discursivas, representa a etapa em que a narrativa é assumida por um sujeito da enunciação, permitindo ao leitor apreender a organização dos planos de sentido. Segundo Barros (2008), tais estruturas devem ser analisadas a partir das relações estabelecidas entre a instância da enunciação, responsável pela produção e comunicação do discurso, e o texto-enunciado. É nesta fase que as oposições semânticas, investidas de valor no nível narrativo, expandem-se sob a forma de temas.
Embora o texto comporte múltiplas leituras temáticas, estas não são arbitrárias. Devem manter coerência com o eixo central da obra. Conforme Fiorin (2013), essa coerência é garantida pela reiteração e recorrência de traços semânticos ao longo do texto, fenômeno que “recebe o nome de isotopia” (Fiorin, 2013, p. 112). Assim, o nível discursivo promove a transição do abstrato ao concreto, operando como "o processo de localizar atores narrativos no tempo e no espaço" (Nöth, 1996, p. 149-150).
3. PERFORMANCE DO SUJEITO E SANÇÃO EM A PAIXÃO SEGUNDO G. H
Esta A Paixão Segundo G.H. (1964/2009), de Clarice Lispector, narra o monólogo interior de uma escultora de elite que, ao decidir limpar o quarto de serviço de sua cobertura, defronta-se com uma barata. O incidente desencadeia uma profunda crise existencial e mística, levando a protagonista a desmantelar sua identidade social em direção à essência nua da existência. O romance é um marco da literatura brasileira por sua densidade filosófica e pela radicalidade da linguagem.
No romance em questão, o texto configura-se como uma ação decorrente do desejo de G.H. de explorar seu próprio espaço doméstico. O tédio inicial transmuta-se em um impulso de organização, que é interrompido por um obstáculo gerador de temor e introspecção: o surgimento de uma barata. Diante da repugnância que o inseto provoca, a narrativa passa a ser mediada pelo fluxo de consciência da protagonista, que estabelece um diálogo com sua própria subjetividade à medida que o confronto com o animal se torna inevitável.
Após esmagar o inseto contra a porta do armário, G.H. inicia um percurso em busca de um valor objeto/valor, retrocedendo aos primórdios da vida e identificando-se com a natureza primitiva do ser. Esse processo de desumanização é fundamental para a reconstrução de sua identidade, conforme aponta Castello (2011, p. 129): “Observando o inseto que agoniza, a mulher é lançada em forte introspecção. A máscara burguesa se quebra e ela se descobre como parte do mesmo mundo animal e instintivo em que a barata morre”. Assim, a análise semiótica revela como o embate psicológico com o objeto/valor se converte em uma transformação profunda no nível do sujeito.
G.H. configura-se como uma personagem complexa e redonda, oscilando entre o heroísmo e a anti-heroína sob a estética do fluxo de consciência. Sua trajetória rompe com a linearidade ao propor um mergulho introspectivo em busca de uma identidade ontológica. A narrativa centraliza-se no embate entre a narradora e sua própria consciência que, diante da presença da barata, desperta um sentimento de solidão e um pavor profundo, conforme evidencia o excerto:
[...] Ontem, [...] Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo, quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? [...] Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. (Lispector, 2009, p. 11).
Nesse trecho, fica claro que o verdadeiro pavor de G.H. não é apenas o inseto, mas a sensação de perder o controle sobre quem ela montou para ser. O medo surge quando sua "organização" desmorona, deixando-a de frente com o vazio de "apenas ser". Para a semiótica, esse sentimento é o sinal de que a personagem saiu da sua zona de conforto (o estado eufórico) e entrou em uma crise profunda (o estado disfórico), onde terá que reconstruir seu sentido de vida do zero.
A partir do posicionamento da personagem na estrutura narrativa, identificamos os elementos que demarcam a posição do sujeito na construção do sentido. No nível das estruturas fundamentais, a oposição semântica central em A Paixão Segundo G.H. estabelece-se entre Humanização vs. Desumanização. G.H. relata que, ao desestabilizar sua montagem humana (identificada aqui com a alienação), passa a enxergar a desumanização sob um viés positivo: “se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida” (Lispector, 2009, p. 12).
Embora o novo lhe cause temor, a personagem ressignifica a desilusão e a desorganização como estados de libertação, admitindo que “havia humanizado demais a vida” (Lispector, 2009, p. 13). Nesse percurso, a barata atua como um segundo sujeito que, por meio da manipulação e da presença física, impulsiona G.H. a redescobrir sua identidade como ser primitivo e visceral.
No nível das estruturas narrativas, a sintaxe narrativa opera como uma simulação do "fazer do homem que transforma o mundo" (Barros, 2008, p. 16). Essa etapa define-se pela transição de estados, em que um sujeito age sobre o mundo em busca de valores investidos em objetos. Tal dinâmica estrutura-se no enunciado elementar, que articula a relação de transitividade entre os actantes sujeito e objeto por meio de enunciados de estado (junção) e de fazer (transformação).
A junção determina a situação do sujeito em relação ao objeto, manifestando-se como conjunção (relação eufórica/positiva) ou disjunção (relação disfórica/negativa). No caso de G.H., a trajetória é marcada por uma disjunção inicial em relação à sua essência; suas aspirações de liberdade existencial impulsionam um fazer transformador que visa romper com a "prisão" da humanidade alienada para alcançar a conjunção com o estado desumanizado e livre de estereótipos.
No percurso de G.H., os enunciados de estado iniciais revelam um sujeito em conjunção com o refúgio doméstico e a rotina organizada. Todavia, a irrupção do antissujeito (a barata) opera um enunciado de fazer que fratura essa estabilidade, instaurando uma relação de disjunção entre a protagonista, sua casa e sua identidade. O impacto dessa transformação é evidente nos recortes a seguir:
[...] na meia escuridão, movera-se a barata grossa. [...] ter descoberto súbita vida na nudez do quarto me assustara como se eu descobrisse que o quarto morto era na verdade potente. [...] Olhei o quarto com desconfiança. Havia a barata, então. [...] A hostilidade me tomara. É mais do que não gostar de baratas: eu não as quero. (Lispector, 2009, p. 46-48).
Exaurida pela rigidez do cotidiano, G.H. vê-se impelida a um processo de desumanização como única via para a libertação. Ao confrontar o ser primitivo, a personagem estabelece um diálogo interno e manipulador com seu próprio "eu", mergulhando em um conflito de despersonalização que rompe definitivamente com sua organização burguesa anterior.
No cenário de A Paixão Segundo G.H., os papéis narrativos se confundem em uma jornada introspectiva. O sujeito destinador e o sujeito competente coincidem na figura de G.H., que, impulsionada por um desejo latente de liberdade, manipula a si mesma em direção ao seu objeto-valor: a liberdade/identidade. Nesse processo, a barata assume o papel de antissujeito, sendo o agente que retira a protagonista da inércia de suas "velhas paixões". Essa divisão interna é tão profunda que G.H. busca auxílio em sua própria consciência, suplicando: “Dá-me tua mão desconhecida, que a vida está me doendo, e não sei como falar...” (Lispector, 2009, p. 33).
Segundo Barros (2008, p. 20) o programa narrativo (PN), também chamado de “[...] sintagma elementar da sintaxe narrativa define-se como um enunciado de fazer que rege um enunciado de estado”. Na narrativa em análise, o programa narrativo sintetiza-se na ruptura da conjunção inicial de G.H. com seu cotidiano estável. Ao confrontar o antissujeito, o sujeito entra em disjunção com sua antiga vida burguesa, permitindo que uma nova percepção de mundo se instale. Essa mudança de estado é o primeiro passo para a desumanização, momento em que a personagem reconhece uma conexão inédita com o essencial: “Como se pela primeira vez enfim eu estivesse ao nível da Natureza” (Lispector, 2009, p. 18).
A mudança de estado em G.H. consolida-se no ato impulsivo de esmagar a barata, gesto motivado por um misto de temor e repugnância que a lança em um doloroso processo introspectivo. Ao fechar a porta sobre o inseto, a personagem confronta sua própria montagem humana e mergulha em um estado meditativo onde sua consciência flui em resposta aos seus questionamentos existenciais, conforme se observa: “Já então eu talvez soubesse que não me referia ao que eu fizera à barata mas sim a: que fizera eu de mim?” (Lispector, 2009, p. 52). Esse despertar sensorial e reflexivo, em que ela toma consciência de si mesma como quem experimenta um sabor ácido, marca a transição definitiva dos programas narrativos para a desconstrução da identidade.
A trajetória de G.H. pode ser segmentada em três momentos fundamentais, que traduzem a dinâmica entre o fazer e o estado da personagem. Inicialmente, há um PN de base, em que G.H. é, simultaneamente, sujeito do fazer e do estado. Ela organiza seu refúgio e desfruta do conforto doméstico: F (limpar, desfrutar) [S1 (G. H.) S2 (G. H.) ∩ OV (limpeza, conforto)].
Esse equilíbrio é rompido pela irrupção da barata, que atua como sujeito de fazer e instala um PN de transformação, lançando G.H. em um estado de disjunção com o objeto de conforto, conforme representado: F (provocar medo e nojo) [S1 (barata) S2 (G. H.) U OV (limpeza, conforto)]. Por fim, o percurso culmina em um PN de aquisição. Ao mergulhar na introspecção e superar o nojo, ato simbolizado pelo desejo de ingestão da massa branca do inseto, G.H. retoma o papel de sujeito transformador.
Ela opera sobre seu próprio estado para alcançar a conjunção com um novo objeto-valor, qual seja, a liberdade e a identidade primitiva: F (desumanizar-se) [S1 (G. H.) S2 (G. H.) ∩ OV (liberdade, identidade)]. Segundo Barros (2008), esse processo demonstra a transição entre a competência (o querer e o saber desumanizar-se) e a performance (a apropriação dos valores descritivos), consolidando a transformação final da personagem.
A aquisição da competência narrativa ocorre quando o sujeito recebe os valores modais (o querer, o poder ou o saber) necessários para executar sua performance. No caso de G.H., o encontro com a barata atua como o motor que transfere o desejo de romper com uma identidade existencialmente vazia. A asquerosidade do inseto não apenas causa repulsa, mas instiga a personagem a reinventar sua história, confrontando o que ela chama de "matéria-prima" da existência, conforme se vê: [...] o que eu via era a vida me olhando. Como chamar de outro modo aquilo horrível e cru, matéria-prima e plasma seco, que ali estava [...] era uma lama onde se remexiam com lentidão insuportável as raízes de minha identidade. (Lispector, 2009, p. 56).
Ao deparar-se com essas raízes, G.H. percebe a fragilidade de sua construção social e sente a necessidade imperativa de desfazê-la. Esse processo de "desfazer-se" é a base de sua performance: um retorno ao primitivo para que, no contato com o plasma vivo da barata, ela possa finalmente reencontrar uma identidade autêntica.
O percurso de G.H. organiza-se através de programas narrativos interdependentes. No PN de competência, a barata atua como o agente que desperta no sujeito o “querer”: [S1 (barata) S2 (G. H.)] ∩ OV], tendo como valores modais a perda de identidade e a busca por liberdade. Esse desejo de perder a velha identidade burguesa surge do diálogo introspectivo com seu "eu interior", preparando-a para a ação transformadora.
A performance concretiza-se quando G.H. assume o papel de sujeito de seu próprio fazer: [S1 (G. H.) S2 (G. H.) ∩ OV], tendo como valor descritiva uma nova identidade. Ao remontar aos primórdios da humanidade e “produzir” um interlocutor fictício para mediar essa travessia, ela realiza uma performance de produção de objeto. Esse percurso, fundamentado na pressuposição lógica entre querer e agir, culmina na conquista de uma identidade visceral que a retira da superficialidade. Em suma, a trajetória de G.H. no romance de Clarice Lispector é a materialização de um percurso narrativo de busca e reconstrução do ser.
A barata, enquanto destinador manipulador, exerce sobre G.H. um fazer-fazer, transferindo-lhe competência semântica e modal ao instigar nela um fazer-ser. Essa manipulação ocorre por meio de uma “intimidação” simbólica: o temor profundo que o inseto provoca desperta na protagonista um querer-fazer e, posteriormente, um poder-fazer direcionado à despersonalização. Ao crer nos valores desse destinador, G.H. supera o nojo e a resistência, culminando no ato radical de provar a massa branca do inseto para romper com suas antigas acomodações.
Nesse processo, ocorre o que Barros (2008) define como uma alteração na existência modal do sujeito. G.H. transita do papel de sujeito do não-querer, apegado à comodidade burguesa, para o de sujeito do querer-ser e, finalmente, sujeito competente. Ao consolidar esse percurso, que une a aquisição da competência à execução da performance (Barros, 2008), o sujeito deixa de ser meramente de estado ou de fazer e passa a ser um actante funcional, que exerce no texto vários papéis actanciais.
A barata, portanto, instaura G.H. como sujeito através de um "dever-fazer" imposto pela situação limite. Essa trajetória de desumanização em busca de liberdade existencial reorganiza a estrutura do texto, transformando a crise em uma performance de reconstrução identitária. Através dessa dinâmica actancial, a personagem abandona sua identidade superficial para fundar uma nova existência, validada pelo contato com o que é primitivo e essencial.
No desfecho do percurso narrativo, G.H. consolida-se como o sujeito realizador da performance ao executar o que denomina "ato ínfimo": a superação do humano através da ingestão da massa da barata. Este momento representa a sanção do texto, definida por Fiorin (2013, p. 31) como a fase em que “ocorre a constatação de que a performance se realizou e, por conseguinte, o reconhecimento do sujeito que operou a transformação”. A citação a seguir evidencia esse reconhecimento e a entrega ao inumano:
Eu botara na boca a matéria de uma barata, e enfim realizara o ato ínfimo. [...] Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. [...] eu só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano. [...] Só esta é que é uma entrega real. (Lispector, 2009, p. 178-179).
G.H. reconhece a transformação operada por sua introspecção, abandonando a superficialidade anterior para fundir-se ao que é primitivo. Embora o conflito seja estritamente interior e não altere relações exteriores, ele redefine a identidade da personagem. Ao igualar-se ao antissujeito, G.H. transcende sua condição burguesa, operando uma mudança de estado onde o "eu" deixa de ser um limite para tornar-se parte da organização geral do mundo.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa propôs-se a investigar as camadas da narrativa clariceana sob o prisma da semiótica discursiva de linha francesa, fundamentando-se nos postulados teóricos de Algirdas Julien Greimas (1976), por meio dos estudos de Diana Luz Pessoa de Barros (2008) e José Luiz Fiorin (2013). Ao retomar o objetivo central deste estudo, verificamos que a análise logrou êxito ao desvelar o percurso narrativo de G.H., cuja trajetória é marcada pelo desejo de romper com as amarras de uma identidade humanizada e estratificada para alcançar uma essência amorfa e existencial.
Os resultados alcançados demonstram que a performance da protagonista se configura como uma produção de objeto, na qual o objeto-valor é a própria reconstrução ontológica da personagem. Nesse processo, a criação de um interlocutor fictício revelou-se um mecanismo estratégico: ao projetar sua consciência em um "tu" imaginário, G.H. estabelece o simulacro necessário para a autoinvestigação. No âmbito do nível narrativo, a relação de conflito com a barata (antissujeito) atua como o elemento catalisador da transformação. O sujeito, inicialmente estagnado em um estado de não-querer, condicionado pela rigidez da rotina, transmuta-se em um sujeito de querer-ser a partir do embate com a alteridade radical do inseto, conferindo novo sentido à sua existência.
A análise da narrativa evidenciou que, embora a linguística e a literatura habitem domínios fronteiriços, esta análise envereda com vigor pelos estudos semiótico-literários. O maior desafio reside justamente em manusear o instrumental técnico da semiótica sem reduzir a densidade estética da obra, contudo, a complexidade do romance clariceano provou ser o terreno ideal para tal exercício. Em suma, a pesquisa não apenas concretizou os objetivos propostos, mas reafirmou a importância da semiótica como ferramenta capaz de ler o invisível e estruturar o indizível, oferecendo perspectivas valiosas para a compreensão da diversidade narrativa que permeia a literatura moderna.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Graduado em Letras Inglês/Português e respectivas literaturas pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Mestre em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Letras PPGLetras UEMA, área de concentração Teoria Literária. Doutorando em Letras pelo programa de Pós-graduação em Letras PPGL UFPA, área de concentração Estudos Literários. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Graduada em Letras Inglês/Português e respectivas literaturas pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Mestra em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Letras PPGL UESPI, área de concentração Literatura e Cultura. Doutora em Letras pelo programa de Pós-graduação em Letras PPGL UFPA, área de concentração Estudos Literários. Professora adjunta do curso de Letras Português da UEMA Campus Zé Doca. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail