OS VENTOS DO PROGRESSO E OS SEUS IMPACTOS NA COMUNIDADE PEDRA DO SAL – PARNAÍBA/PI

THE WINDS OF PROGRESS AND THEIR IMPACTS ON THE PEDRA DO SAL COMMUNITY – PARNAÍBA/PI

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/783009812

RESUMO
A comunidade tradicional da Pedra do Sal, situada no litoral piauiense, tem sido palco de intensas transformações territoriais decorrentes da expansão de empreendimentos econômicos vinculados à especulação imobiliária, à instalação de parques eólicos e ao crescimento do turismo de massa. Tais processos têm provocado alterações significativas nas dinâmicas sociais, econômicas, culturais e ambientais, impactando diretamente os modos de vida de populações historicamente vinculadas à pesca artesanal e às práticas de subsistência. Nesse contexto, o presente artigo tem como objetivo compreender, a partir da literatura acadêmica, os efeitos dessas transformações sobre o cotidiano da comunidade. Especificamente, busca analisar os impactos decorrentes da implantação dos parques eólicos, investigar as consequências da expansão imobiliária sobre o território e as relações sociais locais, bem como examinar as repercussões do turismo de massa na organização comunitária e na preservação das identidades culturais. A pesquisa caracteriza-se como uma revisão bibliográfica de abordagem qualitativa, fundamentada em estudos que discutem desenvolvimento territorial, conflitos socioambientais e comunidades tradicionais. Os resultados evidenciam que, embora os empreendimentos analisados sejam frequentemente associados ao desenvolvimento econômico e à geração de oportunidades, também produzem processos de desterritorialização, valorização especulativa da terra, alterações nos usos tradicionais do espaço e fragilização de práticas socioculturais historicamente construídas. Conclui-se que os desafios enfrentados pela comunidade da Pedra do Sal revelam a necessidade de políticas públicas que promovam formas de desenvolvimento socialmente justas, ambientalmente sustentáveis e comprometidas com a proteção dos territórios e saberes tradicionais.
Palavras-chave: Pedra do Sal; Especulação Imobiliária; Turismo; Comunidade tradicional.

ABSTRACT
The traditional community of Pedra do Sal, located on the coast of Piauí, has been the scene of intense territorial transformations resulting from the expansion of economic ventures linked to real estate speculation, the installation of wind farms, and the growth of mass tourism. These processes have caused significant changes in social, economic, cultural, and environmental dynamics, directly impacting the lifestyles of populations historically linked to artisanal fishing and subsistence practices. In this context, this article aims to understand, based on academic literature, the effects of these transformations on the daily life of the community. Specifically, it seeks to analyze the impacts resulting from the implementation of wind farms, investigate the consequences of real estate expansion on the territory and local social relations, as well as examine the repercussions of mass tourism on community organization and the preservation of cultural identities. The research is characterized as a qualitative literature review, based on studies that discuss territorial development, socio-environmental conflicts, and traditional communities. The results show that, although the projects analyzed are frequently associated with economic development and the generation of opportunities, they also produce processes of deterritorialization, speculative land valuation, alterations in traditional land uses, and the weakening of historically constructed sociocultural practices. It is concluded that the challenges faced by the Pedra do Sal community reveal the need for public policies that promote socially just and environmentally sustainable forms of development committed to the protection of traditional territories and knowledge
Keywords: Salt Rock; Real Estate Speculation; Tourism; Traditional Community.

OS VENTOS DO PROGRESSO E OS SEUS IMPACTOS NA COMUNIDADE PEDRA DO SAL – PARNAÍBA/ PI

A comunidade de Pedra do Sal, localizada a 15 km do centro de Parnaíba, litoral do Piauí, tem vivido, nas últimas décadas, um processo acelerado de transformação social, econômica e cultural, impulsionado por fatores como a especulação imobiliária, a instalação de parques eólicos e o crescimento do turismo de massa. Este cenário, caracterizado pela urbanização dos espaços litorâneos, alterou profundamente a estrutura de uma comunidade tradicionalmente voltada à agricultura de subsistência e à pesca artesanal, atividades que garantiam não apenas o sustento, mas também a identidade local.

A história e a cultura dessa comunidade, marcada pela relação simbiótica com o mar e com a terra, têm sido reconfiguradas pela introdução de empreendimentos que, por um lado, buscam a modernização econômica, mas, por outro, impõem desafios significativos à preservação da cultura e dos modos de vida tradicionais.

É um território rico não apenas em recursos naturais, mas também em simbolismo cultural. O nome da comunidade, que remete ao acúmulo de sal nas pedras graníticas, é um exemplo claro da conexão intrínseca entre os moradores e a paisagem local, uma paisagem que, ao longo dos anos, tem sido gradativamente transformada pela intervenção humana, em especial pela instalação de parques eólicos e pela pressão exercida pelo turismo de massa (Silva, 2013).

Essas mudanças criaram um campo fértil para análise crítica, pois, embora a comunidade se beneficie de algumas dessas iniciativas, elas também geram tensões que afetam diretamente o cotidiano dos moradores. Neste contexto, o presente artigo propõe-se de forma geral analisar como a literatura existente tem discutido os efeitos da implatação de empreendimentos como parques eólicos, empreendimentos imobiliários e turismo na comunidade da Pedra do Sal. Buscando revisar e interpretar as percepções e analises já registrada sobre esses impactos, investigando as transformações sociais, econômicas e culturais discutidas em estudos anteriores, sem coleta de dados primários diretamente dos moradores.

Para esta análise, optou-se por um recorte temporal entre 2008 e 2024, tomando como ponto de partida a inauguração do primeiro parque eólico na comunidade da Pedra do Sal. Esse período não apenas abarca mudanças significativas, mas também permite um olhar crítico sobre os processos em curso: como a especulação imobiliária, o avanço do turismo em larga escala e a expansão da energia eólica foram reconfigurando o território e o modo de vida local. Ao acompanhar essas dinâmicas ao longo dos anos, busca-se compreender de que forma tais pressões externas se materializaram no cotidiano da comunidade, gerando impactos tanto materiais quanto simbólicos.

Esses empreendimentos, ao longo dos anos, alteraram não apenas a paisagem física da comunidade, mas também as dinâmicas sociais e econômicas da região. Questões como a gentrificação, o deslocamento de moradores e a mudança nas práticas culturais são evidentes nesse processo de modernização, que, em muitos casos, privilegia o capital econômico em detrimento da preservação dos saberes tradicionais e das relações comunitárias.

Para compreender esse cenário complexo de transformações, optamos por analisar a interação entre três elementos centrais: os parques eólicos, a expansão imobiliária e o turismo de massa, a partir da revisão bibliográfica de trabalhos anteriormente publicados em artigos, monografias, dissertações e teses. Esses estudos foram reorganizados e recontextualizados de forma a contribuir para um entendimento mais aprofundado do fenômeno investigado.

A pesquisa bibliográfica, segundo Gil (2008), é uma metodologia que se baseia em material já elaborado, principalmente composto por livros, artigos científicos, teses, dissertações, entre outros tipos de fontes. Ela é comumente empregada em diversas áreas do conhecimento, sendo um recurso essencial na realização de estudos que envolvem a análise de dados secundários, contribuindo para a formação de uma base sólida de conhecimento sobre o tema.

Em seu entendimento, Gil (2008) salienta que, embora em quase todos os estudos seja exigido algum tipo de levantamento bibliográfico, existem pesquisas que são desenvolvidas exclusivamente a partir de fontes bibliográficas, sem a necessidade de coleta de dados primários. Este tipo de pesquisa oferece ao investigador um vasto alcance de informações, permitindo o acesso a dados dispersos em diferentes fontes e publicações, o que enriquece a análise e amplia a compreensão do tema investigado.

No presente estudo, a escolha pela pesquisa bibliográfica se justifica pela necessidade de entender e interpretar as transformações ocorridas na comunidade de Pedra do Sal, decorrentes da chegada de grandes empreendimentos à região. Tais transformações são discutidas e documentadas em diversos trabalhos acadêmicos, que permitem reconstruir o contexto local e analisar os impactos sociais, culturais e econômicos desse processo.

Para realizar a busca por fontes relevantes, foram utilizadas algumas das principais bases de dados acadêmicas, como o Google Scholar e a plataforma Scielo, que disponibilizam uma vasta gama de publicações científicas de diversas áreas do conhecimento. Essas ferramentas foram essenciais para garantir a abrangência da pesquisa e o acesso a materiais atualizados e de alta qualidade. Além disso, foi feito um levantamento de trabalhos acadêmicos, como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), em universidades locais, como a Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e a Universidade do Delta do Parnaíba (UFDPar). Esse levantamento foi crucial, pois possibilitou a análise de estudos específicos sobre a dinâmica social, cultural e econômica das comunidades afetadas por grandes projetos de desenvolvimento, como os que estão sendo implantados na região de Pedra do Sal.

A seleção dos artigos e TCCs foi baseada em critérios de relevância, priorizando estudos que abordassem as questões relacionadas aos impactos desses empreendimentos nas comunidades locais. A escolha dos autores também seguiu esse critério, sendo priorizados aqueles cujas pesquisas trouxeram contribuições significativas para a compreensão dos fenômenos sociais e culturais observados nas comunidades afetadas por grandes projetos. Entre os principais autores, destaca-se Bezerra (2016), pesquisadora da área de Desenvolvimento e Meio Ambiente, que analisa os efeitos da chegada de trabalhadores externos em comunidades tradicionais, explorando como essa presença altera as dinâmicas socioculturais locais. Em um estudo posterior, Bezerra (2017) aprofunda essa análise ao examinar os impactos na comunidade da Pedra do Sal, destacando as transformações no cotidiano e nas relações culturais da região. Maurício (2018), da área da Sociologia, por sua vez, aborda as restrições impostas aos moradores de Pedra do Sal, especialmente em relação ao acesso a áreas tradicionais de subsistência, como as zonas de pesca e agricultura, afetando diretamente a forma de vida da população local. Borges (2020), da área de Geografia e Planejamento Urbano, analisa como a valorização imobiliária e o crescimento do turismo vem modificando o uso do território e impactando a dinâmica das comunidades em regiões litorâneas.

Outro autor de destaque é Félix-Siva et al. (2020), da área da Psicologia Social, que analisam o processo de valorização do território como uma mercadoria e as implicações desse processo para a identidade local. De acordo com esses autores, a mercantilização do território pode gerar transformações significativas na forma como os moradores percebem seu espaço e suas práticas culturais, impactando não apenas a economia local, mas também as relações sociais dentro da comunidade. Além disso, também foram consultados os trabalhos de Magalhães, Soares e Lira (2016), pesquisadores da área da Geografia, que documentam a evolução da produção de energia eólica no Piauí, destacando os impactos econômicos e sociais desse tipo de empreendimento na região.

Em síntese, a metodologia bibliográfica adotada neste estudo permite a exploração das transformações ocorridas em Pedra do Sal a partir de uma análise cuidadosa e criteriosa das obras já publicadas sobre o tema. Ao examinar as diferentes abordagens teóricas e os resultados de pesquisas anteriores, este estudo busca contribuir para o entendimento das dinâmicas sociais, culturais e econômicas dessa comunidade, especialmente diante do impacto de grandes empreendimentos na região. O uso da pesquisa bibliográfica, portanto, não é apenas uma etapa do processo metodológico, mas uma ferramenta fundamental para a construção do conhecimento e para o avanço nas discussões acadêmicas sobre os desafios enfrentados por comunidades impactadas por grandes projetos de desenvolvimento.

MARÉS DESEJADAS: TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS, ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA E TURISMO DE MASSA

Nas últimas décadas a comunidade da Pedra do Sal presenciou o aumento do turismo e o surgimento de empreendimentos como parques eólicos e grandes projetos imobiliários, afetaram a estrutura social da comunidade. Estes empreendimentos, ao se estabelecerem na comunidade, refletem a interconexão social global destacada por Giddens (1991), que afirma que as transformações sociais modernas não apenas remodelam a paisagem urbana, mas também alteram aspectos pessoais e íntimos da existência cotidiana. Conforme esse sociólogo inglês, tais iniciativas não apenas impactam localmente, mas estão inseridas em uma trama de interações que transpõem fronteiras geográficas. A chegada desses empreendimentos insere esta comunidade tradicional de pescadores artesanais em sistemas econômicos, tecnológicos e sociais mais amplos.

As transformações causadas pela instalação do parque eólico na comunidade da Pedra do Sal, não é algo isolado, faz parte de um contexto mais amplo. Em 2001 foram criadas várias usinas eólicas em diversas regiões do Brasil, devido a crise de energia. Diante da ameaça de um colapso do sistema energético brasileiro, o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) realizou um projeto de reestruturação do Setor Elétrico Brasileiro (RESEB). Uma série de medidas foi implementada inicialmente nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, com o intuito de reduzir o consumo de energia elétrica. O objetivo era evitar o esvaziamento completo de reservatórios que abastecem as usinas hidrelétricas e garantir a passagem de períodos de seca severa no país (Cechin, 2017).

Diante deste cenário, o Estado brasileiro passou a buscar mais intensamente a diversificação das fontes de energia. O Estado do Piauí, provido de características propícias à produção de energias renováveis, tornou-se um polo para empreendimentos de energias solar e eólica. A região da praia de Pedra do Sal foi o local escolhido para receber os primeiros aerogeradores do Piauí.

De acordo com Monteiro e Albuquerque (2021), a primeira iniciativa significativa na região foi a instalação da usina eólica, o Parque Eólico Pedra do Sal da empresa Econergy Pedra do Sal S/A, que teve a licença para sua instalação emitida em 11 de março de 2008 e a licença de operação em 12 de dezembro de 2008, concretizando o início das operações do primeiro parque eólico piauiense. Em 2009, o parque foi comprado pela empresa Tractebel Energia Complementares LTDA (Infomoney, 2009).

Com a expansão da energia eólica no Piauí, também ocorreu uma diversificação no estado pela busca de novas fontes de energia renovável. Nesse contexto, atraiu investidores de grandes empresas como a Serena Energia, na região da Ilha Grande do Piauí, que está diretamente relacionada com a posição de destaque que o Piauí conquistou no cenário de produção de energia renovável no Brasil. Após estudar a área, a empresa investiu na instalação do complexo eólico Delta Piauí em 2014 (Rubira, 2024).

Ainda neste contexto, outra grande questão que merece destaque é a transformação no território da comunidade da Pedra do Sal, que está estreitamente ligada ao crescimento da especulação imobiliária, estimulada pela crescente demanda do turismo. Essa dinâmica tem impulsionado a compra e venda de terrenos que antes eram utilizados para atividades tradicionais, como a agricultura de subsistência, provocando o deslocamento de moradores das proximidades da faixa de praia e o comprometimento do acesso a recursos naturais. Os projetos imobiliários, voltados para o mercado turístico em expansão, não só alteram a paisagem da região, como também afetam as relações sociais entre os moradores nativos e novos moradores, dificultando a convivência e a preservação das práticas culturais locais. Nesse contexto:

Se materializa na dinâmica de compra/venda de terrenos nas áreas próximas à faixa de praia e com a construção de casas de veraneio e empreendimentos imobiliários e turísticos que visam atender a um público de veranistas e turistas vindos da capital (Teresina) e de outras cidades do Maranhão e Ceará (BORGES, 2020, p.80).

Essa transformação no uso do território da Pedra do Sal, que antes era dedicado a atividades tradicionais, reflete a pressão do mercado turístico e a consequente perda de acesso a recursos naturais, evidenciando como a especulação imobiliária na região impacta a vida e a cultura desta comunidade tradicional.

Segundo Borges (2020), a especulação imobiliária tem impulsionado o deslocamento de pessoas que negociam suas casas próximas da linha de praia para adquirirem terrenos mais distantes da comunidade. “[...] Começaram a se apossar e aí foram começar a comercializar, vender por qualquer quantia e aí o pessoal foi achando que era muito barato... quem não quer uma casa na praia, né... todo mundo quer uma casa na praia” (Borges, 2020, p. 80).

Além de sua beleza natural, a Praia da Pedra do Sal possui um significado histórico e cultural que a torna um dos principais símbolos de Parnaíba. Com a crescente busca por destinos alternativos no cenário turístico nacional, o litoral do Piauí, que abrange cerca de 66 quilômetros, tem ganhado notoriedade, especialmente a região da Pedra do Sal. O local recebe, principalmente, dois perfis de visitantes: de um lado, os próprios moradores de Parnaíba, que mantêm uma forte relação afetiva com a única praia do município; de outro, turistas vindos de outras cidades e estados, que chegam em viagens particulares ou excursões, em busca de momentos de lazer.

Embora o turismo no litoral do Piauí, e na Pedra do Sal em particular, tenha trazido benefícios econômicos, é preciso analisar criticamente os efeitos desse fenômeno nas comunidades locais e no meio ambiente. Oliveira (2017) destaca que com o crescimento do turismo, resultou no surgimento de negócios locais, como bares e restaurantes, que passaram a atender a crescente demanda de visitantes e com isso proporcionaram uma nova fonte de renda para os moradores locais.

O turismo de massa, caracterizado pela chegada de grandes números de visitantes em curto período de tempo, pode levar à sobrecarga de infraestrutura e à exploração descontrolada dos recursos naturais. No caso da Pedra do Sal, a instalação de infraestrutura turística inadequada, como hotéis e restaurantes sem planejamento adequado, pode resultar em sérios impactos ambientais. A pressão sobre as praias e as áreas de preservação pode gerar danos aos ecossistemas locais, como a destruição de vegetação nativa, poluição das águas e a degradação da fauna local. No caso da Pedra do Sal, os turistas frequentemente geram um grande volume de resíduos, o que pode comprometer a limpeza e a saúde ambiental da área, caso não haja políticas adequadas de manejo de resíduos e preservação.

O turismo de massa também pode levar à gentrificação, onde os preços de imóveis e serviços aumentam devido à crescente demanda. Em locais como Parnaíba, cidades que tradicionalmente possuem uma economia mais voltada para a pesca e o comércio local, o aumento da especulação imobiliária pode prejudicar as populações mais vulneráveis, deslocando famílias que não têm condições de arcar com o custo de vida elevado.

ENERGIA LIMPA, CONFLITOS OBSCUROS - REVISÃO CRÍTICA DOS EMPREENDIMENTOS ECONÔMICOS.

O início da produção de energia elétrica a partir do vento no estado do Piauí ocorreu sob o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa). Conforme Magalhães, Soares e Lira (2016), a instalação e inauguração da Central Eólica da Pedra do Sal, na cidade de Parnaíba, ocorreram em 2008, contando inicialmente com 20 aerogeradores, totalizando 18 MW de potência instalada, tendo como empresa responsável a Tractebel Energia. Esse foi um marco na produção de energia no estado e para a diversificação da matriz energética piauiense.

A chegada dos aerogeradores à praia da Pedra do Sal trouxe mudanças profundas na comunidade, no seu cotidiano e no ambiente local. A paisagem natural, que antes era dominada pela vista costeira, passou a contrastar com os imponentes aerogeradores, que possuem 55 metros de altura e motores com 44 metros de diâmetro. Durante a fase de construção, a rotina tranquila da comunidade de pescadores foi substituída pela intensa movimentação das máquinas e pelo tráfego frequente dos caminhões que transportavam as peças estruturais das torres.

Foto 1: aerogeradores (2015) Fonte: Jornal da Parnaíba (2015)

Segundo Maurício (2018), a Pedra do Sal é habitada por uma comunidade de pescadores desde a segunda metade do século XIX. A população inicial se estabeleceu no local através da ocupação de terras e dos relacionamentos entre pessoas que viviam no lugar e de povoados próximos, que ali estabeleceram uma rede de parentesco, fazendo do local sua moradia. O meio de vida se desenvolveu mediante a pesca no mar e em lagoas, o extrativismo vegetal, a agricultura e a criação de animais. Destacam-se ainda os artesãos e barraqueiros da praia, que dependem do turismo e dos frequentadores da própria cidade de Parnaíba.

Até o ano de 2014, de acordo com Bezerra (2016, p. 78-86), “os registros do Sistema de Informação da Atenção Básica — SIAB, da Secretaria de Saúde do município, no PSF nº 37, asseguravam que cerca de 980 habitantes, distribuídos em 190 famílias, residiam na comunidade, entre crianças, jovens, adultos e idosos”. A concordar com isso, Oliveira (2017, p.74) argumenta que “Além dos moradores tradicionais, a praia foi recentemente ocupada por pessoas de fora da comunidade e, atualmente, tem ganhado atenção do mercado imobiliário”.

Foto 2 – Parte mansa da praia Pedra do Sal Fonte: Acervo pessoal (2019)

A Praia da Pedra do Sal é naturalmente dividida por um conjunto de pedras que avança em direção ao mar, formando dois trechos bem distintos. De um lado está o “lado bravo”, conhecido pelas ondas mais fortes e procurado por surfistas. Do outro, o “lado manso”, como é chamado por moradores e visitantes, tem águas mais calmas e rasas, sendo o preferido por banhistas e famílias que frequentam a praia (OLIVEIRA; SILVA, 2021).

Essas pedras fazem a separação da Praia da Pedra do Sal em duas áreas com aspectos completamente distintos: uma praia a oeste, com ondas violentas que ao baterem nas pedras propiciam um belíssimo espetáculo da natureza; e outra para a leste de mar calmo e quase sem ondas onde se atracam canoas de pescadores (Silva: 2013, 120).

Foto 3 - Parte brava da praia Pedra do Sal Fonte: Acervo pessoal (2025)

Paralelamente à expansão do turismo de massa na região, tem-se observado um aumento preocupante no número de casos de afogamento e óbitos entre os banhistas. Muitos desses acidentes envolvem visitantes que, de forma imprudente ou por desconhecimento das características locais, se aventuram em áreas consideradas perigosas da praia, especialmente nas zonas com fortes correntes e mar agitado. A ausência de sinalização adequada em alguns trechos e a falta de orientação por parte de equipes especializadas contribuem para o agravamento do problema. Esse cenário evidencia a necessidade urgente de medidas preventivas, como a instalação de placas de advertência, maior presença de salva-vidas e campanhas educativas voltadas para a segurança dos frequentadores, a fim de preservar vidas e promover um turismo mais seguro e consciente.

A pesca é uma das principais atividades econômicas das famílias que residem na Pedra do Sal. Por tradição, o ofício é passado de geração para geração, assim como todos os conhecimentos que envolvem a prática da pesca artesanal. Esses pescadores fornecem pescado para os bares da praia e para os mercados públicos de Parnaíba.

Para Fontenele (2020, p. 26-27), “a pesca praticada na comunidade Pedra do Sal é estritamente artesanal e de pequena escala. Por vezes, dependendo das condições ambientais, torna-se quase de subsistência, devido ao baixo número de desembarque de pescado”, essa situação, ocasiona graves problemas socioeconômicos para a comunidade e desestimula a continuidade da atividade pelos mais jovens.

Os conhecimentos relativos à profissão da pesca são transmitidos aos jovens que demonstram interesse em aprender o ofício. De acordo com Fontenele (2020), mesmo diante das dificuldades com relação à pesca industrial, os profissionais da pesca artesanal mantêm esforços para preservar a tradição milenar da pesca artesanal e contribuir para o desenvolvimento econômico da pequena comunidade da Pedra do Sal. Além da pesca, as famílias buscam, por meio de pequenas criações de animais, prover seu sustento, como forma de suprir suas necessidades básicas.

A fim de proverem sua subsistência, os animais eram criados nos quintais das casas. As famílias abatiam galinhas, porcos, cabras e algum gado quando os homens vindos do mar tinham um “mau dia de pesca”. Possivelmente, mulheres e crianças ocupavam-se dessa tarefa. Adelaide comenta que em sua infância, além de juntar lenha, ajudava “tangendo cabra para botar no chiqueiro. Porque quando não tinha peixe, nós tínhamos que comer galinha, porco e cabra” (OLIVEIRA: 2017, 87)

Ainda sobre a atividade da pesca, de acordo com Oliveira (2017, p. 85) pode se afirmar que esta é exercida quase que predominantemente pelos homens, enquanto as mulheres prestavam serviços domésticos nas residências de famílias na cidade como lavagem de roupa.

Já as mulheres, poderiam não ser apenas donas de casa, mas também trabalhar fora, como domésticas nas residências de famílias em Parnaíba, ou lavar roupas para os parnaibanos que iam à praia fazer balneário nos meses de férias (OLIVEIRA: 2017, 85)

No entanto elas praticam outras modalidades de pesca mas que não são socialmente reconhecidas como tal. Como tratar os peixes que também faz parte da cadeia produtiva da pesca. A pesca não se reduz apenas à captura do peixe. E como destacado por Fontenele (2020) embora a presença das mulheres durante a pesca realizada em alto mar seja limitada, elas desempenham papel fundamental das atividades auxiliares e no suporte logístico da pesca, como no trato com as redes e fabricação de apetrechos e outras atividades relacionadas à atividade da pesca.

Interpretações de que as mulheres não pescam contribuem para a invisibilidade do trabalho feminino nas pesca tradicional. Essa percepção reproduz uma visão limitada sobre a divisão do trabalho no contexto da pesca artesanal, desconsiderando a participação efetiva das mulheres nas etapas que compõem a cadeia produtiva da pesca. Segundo Fassarella (2009) embora não estejam majoritariamente na atividade da captura, as mulheres exercem funções fundamentais como, como beneficiamento, limpeza, desafio, preparo e comercialização do pescado, atividades essenciais para a sustentabilidade econômica das famílias e das comunidades pesqueiras. Entretanto, essas tarefas por estarem culturalmente associadas ao espaço doméstico foram historicamente desvalorizadas e invisibilizadas, contribuindo para seu apagamento das estatísticas, das políticas públicas e do reconhecimento social.

Além das atividades citadas, há ainda aqueles que complementam a renda com agricultura familiar, criação de animais, coleta e venda de frutas da vegetação nativa, como o caju e o murici, que são vendidos para o comércio local na zona urbana, e confecção e venda de artesanato. Conforme observado por Vieira e Loiola (2013), 90% das famílias artesãs da comunidade da Pedra do Sal dependem unicamente dos recursos naturais para seu sustento. Nessas famílias, existe em média a composição de pelo menos 3 pessoas por residência em idade economicamente ativa, das quais pelo menos uma pessoa se dedica à produção do artesanato com carnaúba e as demais à pesca.

A renda principal dessas famílias provém da pesca e do seguro-pesca, sendo a venda do artesanato um complemento da renda. Conforme dispõe a lei nº 8.287, de 20 de dezembro de 1991, o seguro- defeso é um benefício concedido aos pescadores artesanais que dependem da exclusivamente da atividade da pesca, garantindo uma renda mínima durante o período de defeso, quando a pesca fica proibida para preservação das espécies (Brasil, 2025).

A praia de Pedra do Sal tem um histórico como balneário desde o começo do século XX. Para Fontenele, “havia uma percepção de distinção social em relação à praia de Pedra do Sal em comparação à praia de Amarração; a primeira era compreendida como uma praia simples, e a segunda era atribuída a um público elitista” (2017, p. 95).

A comunidade também é marcada por um longo processo histórico de conflitos e disputas territoriais. E, apesar do tempo de ocupação e uso das terras, de acordo com Maurício (2018), os moradores da comunidade da Pedra do Sal, assim como os de outras comunidades localizadas na Ilha Grande de Santa Isabel, não possuem registro legal da terra. No entendimento popular, a posse dessas terras é reivindicada pela família Silva, que alega ter domínio sobre essas terras. De acordo com Rocha et al. “a relação conflituosa entre os herdeiros da família Silva e a comunidade envolve diferentes instâncias que dizem respeito às relações de poder sobre a posse da terra, motivadas por interesses políticos, econômicos e sociais” (2015, p. 05).

Segundo Maurício (2018, p. 26), “os direitos territoriais dos moradores foram invisibilizados quando os Silva2 passaram a negociar as terras de Ilha Grande com empresas multinacionais do turismo”.Vale ressaltar que entre os membros desta família estava o ex-governador Alberto Tavares Silva, que exerceu o cargo de governador do estado em dois períodos distintos: de 1971 a 1975 e posteriomente de 1987 a 1991. Durante seus mandatos, ele residiu na Ilha. Atualmente, parte das terras de uso comum dos moradores encontra-se sob posse das empresas ou sob o impacto ambiental promovido por suas instalações.

O arrendamento dessas propriedades para os setores energético e turístico provocou uma reorganização territorial que excluiu os moradores do uso dos recursos essenciais para as atividades de subsistência, como áreas de pesca e agricultura. Os arrendamentos resultaram em expropriação de terras, cercamentos e vigilância dessas áreas, que antes eram de uso comum da comunidade.

O CANTO DOS VENTOS: IMPACTOS NA COMUNIDADE

Os ventos que trouxeram progresso também trouxeram desafios. Os aerogeradores, com suas estruturas imponentes, que hoje cercam a comunidade, trouxeram mudanças profundas. Conforme os argumentos de Bezerra:

A comunidade de Pedra do Sal passou a enfrentar desafios significativos resultantes da instalação do complexo eólico. Os principais impactos negativos apontados pela comunidade foram: o soterramento das lagoas, o surgimento de ruídos ou poluição sonora, a emissão de partículas de poeira e gases, e a modificação da paisagem do litoral, que resultou na redução da vegetação nativa, antes povoada por espécies como cajueiros, muricizeiros, carnaubais, guajirus, além da diminuição tanto da profundidade quanto da quantidade das lagoas. (BEZERRA, 2016, p. 81-82)

A autora afirma ainda que o que mais incomoda os moradores é o barulho. Os ruídos produzidos pelos aerogeradores são um dos impactos que afetam as comunidades que vivem no entorno ou próximas de turbinas. De acordo com Castro (2009), há dois tipos de ruído nas turbinas eólicas: o mecânico, associado à caixa de velocidades, ao gerador e aos motores auxiliares, e o aerodinâmico, relacionado com o movimento das pás no ar. O autor ainda ressalta que, embora existam no mercado turbinas de baixo ruído, é inevitável a existência de um zumbido, principalmente a baixas velocidades do vento, uma vez que, a altas velocidades, o ruído de fundo se sobrepõe ao ruído das turbinas.

Para Barradas (2014) existem, pelo menos, três categorias em que se podem classificar os efeitos do nível de ruído para as pessoas: efeitos subjetivos – onde se incluem o aborrecimento, a perturbação e a insatisfação, interferência em atividades como falar, dormir e aprender; efeitos fisiológicos – como ansiedade, adaptação ao ruído e perda de audição. A exposição das pessoas ao nível de ruído provocado em um parque eólico concentra-se, especialmente, nas duas primeiras classificações. A terceira categoria geralmente fica restrita aos trabalhadores do próprio empreendimento.

De acordo com Bezerra (2016), os moradores da comunidade Pedra do Salenfrentaram problemas com os ruídos decorrentes dos aerogeradores, principalmente à noite, quando o vento é mais forte. E tais ruídos, segundo seus relatos, causam irritação e desconforto. Quanto mais próximos dos aerogeradores, a percepção desses impactos se agrava.

A implantação do parque eólico trouxe oportunidades de empregos na etapa de construção e manutenção do empreendimento. No entanto, as ofertas de emprego eram temporárias e sazonais. Especificamente, com a instalação da usina eólica Ômega, segundo Félix-Siva et al. (2020), em 2014 e 2016, com os empreendimentos Delta 1 e Delta 2, a expectativa da geração de empregos se materializou com a criação de 600 empregos temporários, conforme foi destacado nas audiências públicas realizadas em Pedra do Sal, com a participação de moradores, representantes do poder público e membros da empresa responsável pela instalação dos parques eólicos.

Bezerra (2016) destaca que, devido à falta de qualificação da mão-de-obra dos moradores locais, foi necessário recorrer a profissionais de outras regiões para atender às demandas do empreendimento, resultando em uma limitada inclusão da comunidade local no mercado de trabalho formal. Essa situação evidencia que os empregos formais gerados não atendem plenamente às necessidades locais. Na etapa de construção dos parques eólicos, os principais impactos foram o aumento do número de trabalhadores vindos de fora e o aumento do tráfego de veículos e pessoas na comunidade.

Ademais, os espaços do lugar em questão se transformam rapidamente, pois passam por um acelerado processo de ocupação, tanto pelas torres de energia que passam a ocupar o território, quanto por um demasiado aumento da população, como de trabalhadores para montar e monitorar o funcionamento das turbinas, engenheiros, motoristas que geralmente vêm de fora e, por consequência alheia ao local, o que muitas vezes ocasiona transtorno aos moradores, pois aumenta o tráfego de veículos e pessoas e contribui para alterar a dinâmica da cultura local (BEZERRA, 2016,p.84)

Essas mudanças na dinâmica social e cultural da comunidade podem resultar em conflitos socioambientais diretos, afetando a harmonia e o bem-estar da população local. Em meio a esse contexto complexo, a comunidade enfrenta desafios no seu cotidiano que afetam diretamente seu modo de vida, com restrições ao acesso nas áreas onde as torres eólicas foram instaladas, o que contrasta com a liberdade que os moradores locais tinham anteriormente de entrar nessas áreas e realizar atividades de subsistência, tais como pesca, caça e extrativismo.

De acordo com Eduardo Maurício(2018,p.12) os moradores relatam que os empreendedores instalaram cercas para restringir a entrada de pessoas e contrataram guardas para vigiar os movimentos dos habitantes em áreas que tradicionalmente eram utilizadas para a pesca, a caça e o extrativismo. Essas áreas restritas incluem lagoas, mangues, dunas, cajueiros, carnaubais, muricizeiros e guajirus, que estão ocupadas atualmente pela infraestrutura de produção de energia eólica.

Segundo Félix-Siva et al. (2020), a ampliação do parque eólico resultante do projeto Delta 10 (D10), em 2019, com a instalação de mais 52 aerogeradores em áreas do território que pertencem à Parnaíba (PI) e à Ilha Grande (PI), resultou em significativas mudanças na dinâmica social da comunidade. Aqui, podemos destacar, ainda considerando o autor mencionado anteriormente, a segurança alimentar da comunidade e o acesso ao trabalho e à renda, tendo em vista que isso está em desacordo com o Plano Diretor de cada município, uma vez que as áreas que seriam atingidas eram prioritariamente destinadas ao turismo comunitário, à criação de animais e de gado de pequeno porte e ao extrativismo de frutas e outros produtos. Tais impactos afetam diretamente as atividades de subsistência, o desenvolvimento econômico e a estabilidade financeira dos moradores.

Foto 4: Parque Eólico Complexo Delta da Ômega Energia (2016).
Fonte: Portal de Notícias Cidade Verde (2016).

Além das questões econômicas e sociais acima destacadas, a imposição de restrições ao acesso às áreas anteriormente utilizadas para atividades de subsistência não afeta apenas os meios de subsistência dos moradores, mas também prejudica os vínculos históricos e emocionais com seu território. As cercas que agora delimitam o acesso a lagoas, mangues e dunas representam não apenas uma barreira física, mas também simbólica, separando os moradores de suas tradições e modos de vida ancestrais, que constituíam um ambiente que está sendo degradado.

Foto 5: Área cercada Parque Eólico da Pedra do Sal (2009).
Fonte: Portal de Notícias Cidade Verde (2009)

Entendido assim, o espaço, para Woortmann (2018), é o ambiente constituído cognitivamente, apreendido e culturalmente construído. Nesse contexto, e considerando que o ambiente seja um espaço com significado abstrato, as relações sociais e culturais concebidas tornam a população desse ecossistema uma sociedade. A história, sendo feita a partir da desarticulação do ambiente, é igualmente o processo de atribuição de novos significados ao espaço, de novos usos sociais e do deslocamento social dos agentes tradicionais. Uma mudança no ambiente, portanto, parece mudar a relação com o espaço.

Em meio a este cenário de mudança e desafio, a comunidade de Pedra do Sal procura adaptar-se às novas realidades trazidas pela indústria eólica, preservando sua identidade cultural e sentimento de pertencimento. E mesmo diante das pressões e dos efeitos dos grandes empreendimentos, eles continuam resistindo de forma ativa. Essa resistência se da através de ações coletivas, tal como o ocorrido em 2015 com a interdição da estrada da Pedra do Sal contra o projeto da expansão do Parque Eólico na Praia da Pedra do Sal (Piauí Hoje, 2015), protestos simbólicos e manifestações de defesa de seus territórios e recursos hídircos, que são tudo para eles como revela o depoimento de Dona Celeste, coordenadora do Movimento de Pescadores e Pescadoras, registrado por Felix-Silva et al.(2020): “ O território é vida. Àgua é vida. O capital é a morte. Morte ao território das águas. Morte à vida de humanos e não humanos” (FELIX-SILVA et al., 2020, p. 309).

Essa fala mostra o quanto esses moradores têm uma forte ligação com seu modo de vida tradicional e a vontade de resistir às ameaças trazidas pelos grandes projetos exploração territorial. A resistência deles não fica só nas palavras ou em ações oficiais, como reuniões ou audiências, mas também em protestos simbólicos e gestos que reafirmam o compromisso de lutar para proteger seus territórios e sua forma de viver, frente às forças do capital que tentam desestabilizar tudo isso.

Oliveira e Silva (2021, p. 226) abordam como essa mobilização comunitária foi responsável por impedir o avanço da obra do resort e condomínio residencial, um projeto do grupo internacional Pure Resorts Hotels e Residences, que abandonou a obra após a mobilização social do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Piauí no ano de 2017. Segundo Figueiredo (2017, p. 106), em 2005, um grupo de investidores espanhóis apresentou um projeto para a construção de um complexo turístico de luxo, que incluiria um hotel, um condomínio residencial, um resort, campos de golfe, um heliporto e outros equipamentos voltados para o público de alto poder aquisitivo, especialmente os que residiam na Europa.

A proposta também previa a retirada dos moradores da comunidade local para outra área como parte do plano de desenvolvimento. Isso provocou a mobilização da comunidade para impedir a remoção do povoado do território da Pedra do Sal. A mobilização contou com o apoio do Ministério Público Estadual, do Instituto Chico Mendes (ICMbio) e do IBAMA, e, por meio de uma liminar, conseguiram a suspensão do licenciamento ambiental do empreendimento Ecocity.

Nesta perspectiva, pode-se perceber que a mobilização da comunidade pode ser uma ferramenta bastante eficiente para transpor os dispêndios gerados pela especulação imobiliária e pela modernização, possibilitando que os moradores assumam o local de tomada de decisão, onde sua voz tem influência nas decisões que afetam suas vidas e o seu espaço social.

Quando analisamos os impactos econômicos, sociais e culturais discutidos neste artigo, percebemos que a construção de soluções sustentáveis requer uma abordagem integrativa e colaborativa que priorize o bem-estar e a autonomia da comunidade em meio às mudanças em curso. A chegada de empreendimentos imobiliários, principalmente voltados para o lazer e turismo no litoral do Piauí, também desencadeia transformações nos espaços sociais que afetam as comunidades locais, levando à especulação imobiliária e à ocupação irregular de terras para comercialização. Isso evidencia a importância de considerar não apenas os aspectos econômicos e turísticos, mas também as consequências sociais e culturais desses empreendimentos.

De acordo com Borges (2020, p. 56), o litoral do Piauí tem passado por um período de expansão da produção imobiliária impulsionada pelo turismo e lazer. Essas mudanças são resultado da introdução de novos imóveis de segundas residências, que têm promovido alterações na estrutura das áreas urbanas no litoral do Nordeste de forma expressiva, incluindo os municípios litorâneos do Piauí. O turismo, como atividade econômica, promove a urbanização privada dos espaços litorâneos. No contexto do Piauí, essa dinâmica se dá por meio da proliferação de segundas residências, condomínios, resorts, apartamentos, bangalôs e chalés, resultando na transformação de comunidades litorâneas historicamente dedicadas à agricultura e à pesca em mercadorias imobiliárias.

A expansão do mercado imobiliário na comunidade da Pedra do Sal reflete a dinâmica de transformação do espaço e a especulação imobiliária com a comercialização de terrenos para as segundas residências e empreendimentos turísticos. Isso tem afetado diretamente a comunidade, como a perda das relações comunitárias e a descaracterização do ambiente tradicional de pescadores. A valorização do território litorâneo como um produto de mercado imobiliário turístico tem gerado segregação, resultando na transformação do local em áreas destinadas ao consumo e à venda. Como destacado por Borges (2020), em relato de uma moradora da Pedra do Sal, a chegada desses empreendimentos pode prejudicar as relações de vizinhança e a identidade local, ressaltando a necessidade de promover um desenvolvimento que respeite e preserve as tradições e modos de vida das comunidades afetadas.

Hoje tem tanta gente morando aqui que a gente não conhece mais quem são as pessoas. Todo mundo antigamente se conhecia, hoje não. Você vê umas pessoas passando na rua e não sabe nem quem é e nem de onde veio né. (BORGES, 2020,p.80)

Este depoimento, retirado do estudo de Borges (2020) revela a percepção dos moradores da comunidade a respeito das transformações sociais, impactando diretamente as relações e o sentimento de pertencimento, e até mesmo a identidade cultural, que gradualmente é substituída pelo distanciamento social. Diante dessa realidade, pode-se perceber também, como consequência, a crescente desvalorização das práticas e tradições culturais da comunidade, que depende da manutenção das relações entre os habitantes locais para que permaneçam vivas.

A comunidade também enfrenta desafios significativos que ameaçam tanto o acesso a recursos naturais essenciais, como os carnaubais, quanto a permanência das artesãs locais. De acordo com Vieira (2013), a compra de terrenos para futuros empreendimentos turísticos na comunidade da Pedra do Sal, impulsionada pela especulação imobiliária, tem colocado em risco o acesso aos carnaubais e causado a desapropriação e remoção das artesãs. Em depoimento para o autor uma moradora local comenta: "Aqui, eu e os meus nos criamos. Querem tirar a gente daqui. Daqui eu não saio, e se eu sair, vou viver de quê?" (Vieira, 2013, p. 71).

Quanto à percepção dos moradores em relação a possíveis benefícios provenientes do desenvolvimento turístico para a comunidade da Pedra do Sal, Borges (2020, p. 80) destaca, por meio do depoimento em 2020 de uma moradora entrevistada em sua pesquisa, que ela demonstra insatisfação com a infraestrutura local: "Aqui a gente não tem uma pousada [...] as barracas são todas precárias, funcionam precariamente". A falta de infraestrutura adequada, evidenciada pela moradora da comunidade, aponta para a necessidade de investimentos que venham a suprir a carência da comunidade nesse sentido e promovam o desenvolvimento sustentável e inclusivo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente artigo propõe-se de forma geral identificar a partir de revisão bibliográfica os efeitos da implementação destes empreendimentos (parques eólicos, empreendimentos imobiliários e turismo de massa) na comunidade Pedra do Sal. A bibliografia analisada ofereceu uma compreensão mais ampla sobre como esses empreendimentos, em suas diversas vertentes, têm alterado o cotidiano dos moradores, afetando suas relações sociais, sua cultura e sua qualidade de vida. Os resultados obtidos apontam para uma série de transformações que, embora tragam alguns benefícios econômicos, também geram desafios significativos para a preservação da identidade cultural e para o bem-estar da população local.

A instalação dos parques eólicos e a especulação imobiliária têm sido os dois fatores mais determinantes na transformação do território da Pedra do Sal. Enquanto a criação de novos postos de trabalho e a melhoria da infraestrutura local, proporcionadas por esses empreendimentos, foram reconhecidas por parte dos moradores, muitos expressaram insatisfação com a falta de benefícios diretos e com a deterioração das relações comunitárias. A chegada de novos moradores e a fragmentação das relações sociais indicam que os projetos, embora tragam oportunidades de desenvolvimento, não foram acompanhados de políticas que garantissem a inclusão e a manutenção da coesão social. A identidade cultural da comunidade, tradicionalmente associada à pesca artesanal, tem sido progressivamente diluída, à medida que o território é transformado. O uso do espaço público e privado para fins especulativos tem gerado uma desvalorização das práticas culturais e das formas de vida locais, com reflexos diretos na autoestima e na percepção que os moradores têm de sua própria comunidade e de suas práticas tradicionais. De acordo com Fontenele (2020), essa desvalorização, aliada ao crescente desinteresse das novas gerações pela atividade, contribui para o enfraquecimento do vínculo com as práticas culturais e o conhecimento ancestral, acelerando o processo de perda de identidade cultural e de continuidade das tradições pesqueiras na região. Além disso, muitos jovens, parentes ou não de pescadores, demonstram interesse pela pesca, porém de forma esporádica, considerando a atividade como um passo temporário até conseguirem um emprego mais estável.

Já o turismo de massa, por sua vez, tem se mostrado um dos maiores desafios para a Pedra do Sal. Embora a atividade turística traga nítidos benefícios econômicos, com o aumento da geração de empregos e da movimentação financeira na região, ela também impõe um grande ônus para a preservação ambiental e para a infraestrutura local. A pressão sobre os recursos naturais e a sobrecarga da infraestrutura urbana têm gerado conflitos e tensões, particularmente no que se refere à capacidade de atendimento da demanda crescente por serviços básicos, como saúde, segurança e transporte. Além disso, a alta concentração de turistas tem modificado as dinâmicas sociais da comunidade, trazendo consigo um distanciamento entre os moradores e os visitantes, que frequentemente não compartilham das mesmas referências culturais e práticas cotidianas. Um exemplo dessa tensão é o uso som automotivo em volumes elevados nos finais de semana e temporada de férias, prática comum entre alguns visitantes que contrasta com o cotidiano calmo e silencioso dos moradores, marcado apenas pelo som do mar e dos aerogeradores.

Uma das contribuições mais importantes deste estudo reside na identificação da necessidade de ações concretas que garantam um desenvolvimento mais equilibrado e sustentável para a comunidade da Pedra do Sal. A criação de um conselho comunitário, com a participação ativa dos moradores em processos decisórios sobre novos empreendimentos, emerge como uma solução estratégica para assegurar que as vozes da comunidade sejam ouvidas e respeitadas. A presença de associações de pescadores e outros grupos representativos da população local deve ser considerada uma prioridade nas discussões sobre a implantação de novos projetos. Dessa forma, será possível buscar um equilíbrio entre os interesses econômicos, sociais e culturais, permitindo que o desenvolvimento da região ocorra de maneira inclusiva e harmônica.

Nesse sentido, é essencial que o turismo de massa seja planejado de maneira a respeitar as características e as necessidades da comunidade, assegurando que a preservação do meio ambiente e a valorização da cultura local sejam priorizadas. Dessa forma, também é necessário considerar os riscos associados ao turismo de massa, que vão além dos impactos culturais e ambientais, afetando diretamente a segurança dos frequentadores. O crescimento expressivo do número de visitantes, sem o devido planejamento, tem resultado em episódios recorrentes de afogamentos e mortes de banhistas, principalmente nas áreas de maior risco da praia, onde frequentemente, banhistas se arriscam de forma imprudente. Este cenário evidencia não apenas a falta de sinalização e de medidas preventivas de forma mais efetiva, mas também a ausência de políticas públicas eficazes voltadas à educação ambiental, à segurança dos visitantes e ao ordenamento do espaço turístico. Assim, torna-se urgente que o desenvolvimento turístico da Pedra do Sal seja acompanhado de ações integradas, que contemplem tanto a preservação dos recursos naturais e da identidade cultural, quanto a proteção da vida e o bem-estar de moradores e visitantes.

A criação de infraestrutura que atenda aos interesses dos moradores, sem prejudicar a qualidade de vida da população, é um desafio que deve ser enfrentado de forma colaborativa, com a colaboração entre os diferentes agentes sociais e políticos da região.

Além disso, a pesquisa aponta para a necessidade de estudos futuros que investiguem com mais profundidade as percepções dos moradores em relação às transformações que estão vivenciando e suas expectativas para o futuro, por meio de abordagens de campo, como uma metodologia etnográfica e entrevistas. A compreensão dos anseios da comunidade é crucial para o desenvolvimento de políticas públicas mais sensíveis às suas realidades e desafios. Além disso, a investigação de como as políticas públicas estão influenciando a preservação da identidade cultural em comunidades afetadas por grandes empreendimentos pode proporcionar uma reflexão importante sobre as formas de garantir que o crescimento econômico não seja um obstáculo à manutenção das tradições e das práticas culturais locais.

Em relação aos empreendimentos recentes, como a construção da nova ponte e a instalação dos quiosques ao longo da orla da praia, cabe destacar que esses projetos representam um avanço na infraestrutura e no desenvolvimento turístico da região, mas não foram contemplados no escopo deste estudo, uma vez que estavam em fase de implementação, quando iniciamos a pesquisa. A nova ponte, ao facilitar o acesso à Praia da Pedra do Sal, e os quiosques, que visam proporcionar mais opções de lazer e comércio, certamente impactarão a dinâmica local.

No entanto, é fundamental que esses projetos também levem em consideração a preservação da identidade cultural da comunidade, evitando que a expansão do turismo resulte na descaracterização do ambiente tradicional de pescadores e no agravamento das desigualdades sociais. Diante destes desafios enfrentados pelos moradores da comunidade, é extrema importância que se promova a participação ativa dos moradores na construção de um futuro inclusivo e sustentável. Sendo desta forma fundamental a fomentar a cooperação, o diálogo interno entre a comunidade e empreendedores destes grandes projetos de forma constitutiva.

Por fim, a análise das transformações na comunidade da Pedra do Sal através deste estudo de revisão bibliográfica revela um panorama complexo, em que os avanços econômicos convivem com desafios significativos no campo social e cultural. A pesquisa sublinha a importância de um planejamento integrado e participativo, que respeite a identidade local e promova o desenvolvimento sustentável da região. Para que o turismo, a expansão imobiliária e os projetos de energia eólica sejam bem-sucedidos, é imprescindível que as políticas públicas e os projetos de desenvolvimento sejam elaborados de forma a integrar as necessidades e os desejos da comunidade, garantindo que os benefícios sejam compartilhados de maneira justa e equitativa.

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1  Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Pós-graduanda em Gestão e Licenciamento Ambiental pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI) – Campus Parnaíba. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Graduado em Pedagogia e em Artes Visuais, pós-graduado em Gestão da Educação. Empresário e Professor Universitário. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Discente do Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia da Universidade Paulista – Parnaíba. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Doutoranda em Educação, Mestre em Educação, Pedagoga, Especialista em Língua Brasileira de Sinais – Libras, Psicopedagogia Clínica e Institucional. Atualmente, faz parte da Secretaria Municipal de Educação (Tutóia - MA) com atuação na equipe Multidisciplinar. Professora do PARFOR (Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica) - CAPES E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

5 Pedagoga, Especialista em Ensino-Aprendizagem, Mestre em Educação. Professora da Rede Municipal de Educação de Parnaíba e da Rede Estadual de Educação do Estado do Piauí. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

6 Mestra em Ciência da Educação; Graduada em Pedagogia; Graduada em Letras Libras; Pós-Graduação em Psicopedagogia; Pós-Graduação em Libras; Pós-Graduação em AEE; Atuação: Professora de LIBRAS na Secretaria Municipal de Educação de Parnaíba-PI; e-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

7 Mestre em letras pela Universidade Estadual do Piauí- UESPI. Professora EBTT- Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

8 Graduada em Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Pós-graduada em Ensino-Aprendizagem, Fundamentos da Educação Especial e Língua Brasileira de Sinais (Libras). Coordenadora do Centro de Atendimento Educacional Especializado Professor Antônio de Pádua (CAEEPAP). Professora universitária.