OS CAMINHOS DA ARTE E SUA EVOLUÇÃO HISTÓRICA

THE PATHS OF ART AND ITS HISTORICAL EVOLUTION

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777152013

RESUMO
O estudo apresentado por este artigo tem como fito dissertar sobre informações relevantes a respeito da arte e sua evolução histórica. Além disso, busca-se exibir as características sobre os caminhos percorridos e as mudanças sofridas pela arte, assim como a conexão existente com a sociedade. Para isso, um pequeno recorte dessa evolução, Século XX, foi pensado, onde o espaço que será delineado pela Arte Conceitual, trazendo referências a respeito desse período artístico, de igual modo, uma representação por Joseph Kosuth (1960), em especial. Equivalentemente, a ideia de contemplar o momento contemporâneo foi incitada, a fim de externar a influência tecnológica, em destaque o advento da Inteligência Artificial (IA), sobre as produções artísticas. Dessa forma, o conhecimento aqui partilhado, solidificará o desafio e a conquista da liberdade do artista para interpretar as emoções e as ideias da essência humana.
Palavras-chave: Evolução da Arte; Arte Conceitual; Tecnologia e Arte; Arte e Inteligência Artificial.

ABSTRACT
The study presented in this article aims to discuss relevant information regarding art and its historical evolution. Furthermore, it seeks to display the characteristics of the paths taken and the changes undergone by art, as well as the existing connection with society. For this, a small section of this evolution, the 20th Century, was designed, the space outlined by Conceptual Art, bringing references about this artistic period, as well as a representation by Joseph Kosuth (1960), in particular. Equivalently, the idea of ​​contemplating the contemporary moment was encouraged in order to express technological influence, particularly the advent of Artificial Intelligence (AI), on artistic productions. In this way, the knowledge shared here will solidify the challenge and achievement of the artist's freedom to interpret the emotions and ideas of the human essence.
Keywords: Evolution of Art; Conceptual Art; Technology and Art; Art and Artificial Intelligence.

1. INTRODUÇÃO

Sabe-se que o ato de se comunicar é um dos fatores primordiais da existência humana. Desse modo, tanto a arte como a linguagem são dois dos pilares fundamentais para essa expressão. Mesmo que demonstrem ser domínios distintos, ambos convergem em sua capacidade de comunicar experiências, emoções e informações. A arte ultrapassa os muros de uma linguagem verbal, trazendo à tona a intuição como força comunicativa. No entanto, a linguagem, com seu sistema estruturado, como o uso de regras, é um recurso capaz de encandear reflexões complexas.

Vale ressaltar as dimensões que são sustentadas entre as duas abordagens. A primeira diz respeito a maneira como a arte emprega a linguagem, ou seja, o formato não verbal, capaz de traduzir através de pinturas, esculturas e performances, as histórias que se propagam muito além das palavras. A exemplo, as obras de artistas como Mahku e Deborah Anzinger, apresentadas na 35ª Bienal de São Paulo, em que utilizam cores, formas e símbolos para transmitir narrativas pessoais e sentimentos, possibilitando ao espectador, o desafio para interpretar emoções e ideias sem o auxílio de palavras. Em síntese, a arte transforma-se na própria linguagem, sendo um sinônimo de comunicação que discorre sem rodeios à essência humana.

Por outro lado, arte também se apodera da linguagem verbal para ampliar seu alcance. À vista disso, a poesia, por exemplo, que se apresenta como criadora de imagens, com seu ritmo e sonoridade, característicos da musicalidade da linguagem poética, lugar em que as palavras são conduzidas a delinear paisagens mentais, além de grandiosas emoções que podem ser tão hipnotizantes quanto uma pintura. Como não citar Max Martins, poeta paraense que fez parte do momento de renovação da literatura no século XX. Em resumo, a arte da linguagem, agrega valor à comunicação, possibilitando que a mensagem ecoe em um nível mais profundo.

Todavia, enxergar a interseção entre esses dois pilares da comunicação não é algo difícil, pois frequentemente há releituras e adaptações de obras para o cinema, videoarte, performances, teatro e outros formatos de expressão artística. Essas releituras não apenas permitem transpor a narrativa de um ambiente para outro, mas também reinterpretam o significado original, o que possibilita ao apreciador novas compreensões. Assim, a linguagem verbal se transforma em sons e imagens, conduzindo a uma nova experiência capaz de ressignificar a mensagem original. Logo, observa-se a versatilidade e a riqueza existentes nessa dinâmica, o que evidencia que tanto a arte quanto a linguagem não podem existir plenamente sem a outra.

Somado a isso, é essencial considerar, também, o papel da tecnologia na evolução da arte e da linguagem. A chamada era digital trouxe novos modelos de comunicação, seja para a arte, como a arte digital, seja para a literatura, como a literatura interativa. Dessa maneira, as mudanças sofridas provocam os conceitos tradicionais de arte e de linguagem, mas ao mesmo tempo, remodelam um ambiente capaz de entrelaçá-los com maestria. A rede de conexão global oportuniza aos artistas e aos escritores transformações na maneira de expressão, como na conexão e na troca de informação com diversificado público, o que democratiza o contato, além de enriquecer o acesso à cultura, à arte, à literatura entre outros.

Além disso, com o advento da tecnologia, é cada vez mais comum o encontro com a redefinição daquilo que é considerado arte. Com o uso de recursos digitais e softwares, artistas, são convidados a criar obras que podem ser facilmente compartilhadas e reproduzidas no espaço online. Evidente que o novo formato de conceber e consumir a arte não somente desafia o que tradicionalmente se entende, apesar de já se ter perpassado pela chamada “arte conceitual”, mas também permite a construção de novas experiências interativas, como animações e a chamada arte generativa, ou seja, a arte pós-conceitual.

Realça-se, portanto, que a arte e a linguagem são eventos interligados à criatividade humana, capazes de delinear a forma como é expressado e é interpretado o mundo. Juntas, conseguem costurar um tecido opulento e multifacetado que enriquece a experiência da humanidade.

Diante disso, a proposta apresentada para este artigo, compromete-se a trazer um estudo referente à arte e sua linguagem ao longo da história, apresentando suas definições e características, do passado à contemporaneidade, através do advento da tecnologia, em especial, da Inteligência Artificial (IA) como possível ferramenta para universo da arte, o que se evidenciará nas seções seguintes.

2. A ARTE EM CURSO: DO PASSADO À CONTEMPORANEIDADE

Segundo o dicionário Michaelis, o conceito de arte se define como “Criatividade humana que, sem intenções práticas, representa as experiências individuais ou coletivas, por meio de uma interpretação ou impressão sensorial, emocional, afetiva, estética etc.”. Dessa forma, ao discorrer sobre a evolução da arte, é possível perceber que durante a chamada pré-história, sua manifestação foi através da busca feita pelo homem para representar a natureza que estava a sua volta, tentando capturá-la de maneira mais exata. Para isso, os artistas interligavam suas obras às manifestações naturais, assim como à imagem de animais. Esses eram exibidos em rochas, como hoje pode ser encontrado em registros em cavernas, por exemplo, integrando o próprio artista ao momento.

Durante a “Idade das Trevas”, ou seja, o período medieval, a solidificação do cristianismo foi alcançada, com isso a influência religiosa pode ser observada também nas artes, fazendo com que muitas produções artísticas tivessem traços vinculados à ideia cristã.

Outro período que merece destaque é o conhecido por Renascimento, o qual experenciou à arte a mudança para outro formato. Agora, vale-se reconstruir, trabalhando com a certeza e a razão. Conforme, Arnold Hausser “Todo desenvolvimento artístico passa a ser parte do processo total de racionalização. O irracional deixa de causar qualquer impressão mais profunda. As coisas que são agora sentidas como “belas” são a conformidade lógica das partes individuais de um todo (...)” (Hausser, 2000, p. 86).

Soma-se a esse período, a característica da arte de se tornar cada vez mais complexa, à medida que se alargam a capacidade de inserir conceitos e pensamentos cada vez mais estruturados, o que permitiu o aparecimento de novas construções artísticas que foram consideradas como arte.

O período chamado de Romântico conduz a fase seguinte por este passeio histórico. Nele, as artes embebedam-se pelo momento histórico-político, como a fragmentação com o Oriente, fazendo com que a influência econômica, política e social fizesse parte da obra. Em síntese, as produções artísticas interligavam-se aos acontecimentos vividos pela sociedade.

A passagem para a chamada arte moderna ocorre por volta do Século XIX e início do Século XX. Nesse período, a arte é marcada por uma forte ruptura com as características já comumente conhecidas como o contorno tradicional e clássico que compunha as obras de arte. Desse modo, os modernistas trazem novas perspectivas que demonstravam um padrão inovador em suas temáticas, as quais realçavam a interpretação, assim como a subjetividade. Ou seja, há um convite feito ao espectador, chamando-o para conectar-se à obra ao provocar o questionamento de sua própria percepção sobre a realidade.

Assim, esses artistas procuravam atacar as convenções propondo novas visões, que foram difundidas através de diferentes técnicas que o artista empregava, o que resultou em estilos que refletiam as transformações sócio-política do momento. A exemplo, o futurismo, o surrealismo, o impressionismo e o cubismo.

Nesse período, observou-se, também, a fase de democratização da arte, permitindo maior vivência do público, não mais específico e restrito, porém, agora atendendo a apreciação ampla da sociedade. Isso permitiu que espaços como os museus, por exemplo, registrassem em seu ambiente a passagem de obras com o fito de dialogar sobre como a criatividade pode, certamente, ser empregada como ferramenta para interligar-se com o corpo social.

Ainda como resultado desse período anterior, surge a arte contemporânea, correspondente as produções artísticas surgidas a partir da segunda metade do Século XX até os dias atuais. Com ideais construídos na era moderna, a variedade de estilo se fortalece, o que gera temáticas e técnicas capazes de informar as demandas sociais vigentes, como identidade e tecnologia. Além disso, consegue agregar recursos outros como o vídeo.

Essa estrutura permite que a participação do público seja ainda muito maior, resultando num processo de interatividade com a arte, requerendo o envolvimento no processo da obra. Sendo um chamado do artista para que exista a participação ativa do espectador, tornando a experiência significativa e um modo inovador de envolvimento com a arte. Assim, materializa a arte contemporânea como um movimento dinâmico dos tempos atuais.

3. ARTE CONCEITUAL: UM BREVE RECORTE ATRAVÉS DA ASSINATURA DE JOSEPH KOSUTH

Antes de adentrar definitivamente no espaço referenciado pela Arte Conceitual, é válido trazer para cá a justificativa que compete a esta seção. Imagina-se que o questionamento sobre a escolha desse recorte está sendo realizado. Para isso, a partida deve ser iniciada pela meditação sobre o que pode ser considerado Arte e, de igual modo, Linguagem. São espaços separados ou complementares?

A verdade é que arte e linguagem foram vislumbradas como ideias contrárias e/ou sobrepostas antes de 1960, o que a partir desse ano, fez com que ganhasse força e lugar específico de fazer artístico, capaz de entender de modo consciente as proximidades e as distâncias entre o Conceito e a Arte; entre a Filosofia e a Arte e, entre a Arte voltada para si própria, ou seja, uma metalinguagem sobre a Arte.

Assim, a resposta surge para contemplar o provável questionamento surgido, pois encontrar um estilo de arte que conduza em suas técnicas e temáticas o poder reflexivo para não somente apreciá-la, mas também refleti-la, é exatamente o que justifica esse espaço, leitor.

Logo, volta-se ao movimento “Arte Conceitual”, surgido durante os anos 60, que destaca a valorização da definição, da ideia ou, de modo mais elucidativo, do conceito por trás da criação artística, em lugar de valorizar o formato tradicional e clássico. Daí, possivelmente, a busca por encontrar o belo, faz com que outra pergunta surja: Onde há a beleza nesse modelo de obra? Entretanto, nota-se que a intenção da arte desse período, é desafiar o “belo”, pois esse está representado através da mensagem ou do que ela pode provocar.

Diante disso, a obra de arte desse tempo passou a refletir as ideias críticas e filosóficas, o que possibilitou a intervenção das vanguardas como Surrealismo e o Dadaísmo, correntes que tinham como propósito o contestar a estética do período. Em resumo, as produções artísticas passam a construir um cenário provocativo, resultando em debate e polêmica sobre o entendimento do que é arte.

Barros e Rodrigues (2023) apresentam que as configurações sobre esse período, referente ao Século XX,

provocaram modificações drásticas nas nossas formas de pensar a produção artística provocaram modificações drásticas nas nossas formas de pensar a produção artística. Não foi de maneira vã que alguns autores, como o filósofo norte-americano Arthur Danto, em seu livro Após o fim da arte (2006), decretaram o fim da arte, entendido não como o fim das obras de arte, mas o fim de um modelo narrativo marcado por estilos, escolas e movimentos. De fato, após a ruptura estética e conjuntural representada e provocada pelo modernismo, pelo advento da indústria cultural e pelo posterior questionamento de artistas contemporâneos, não faltaram evidências para se defender que a arte não mais detinha a influência de outrora na configuração das visões de mundo e na formação das subjetividades, além da própria transformação do que se concebe como arte. (BARROS E RODRIGUES (2023, p.28)

É possível compreender que com essa nova forma para vislumbrar a arte, as energias foram concentradas para dizer, segundo defendem Lippard e Chandler (2013 apud BARROS E RODRIGUES, 2023, p.29), que “o que importa, na obra, é o conceito, e não sua forma”, fazendo com que outras maneiras de linguagem de expressão fossem escolhidas, à vista disso a performance. O que possibilitou o desenvolver do que hoje chamamos de Arte Contemporânea.

Assim, artistas como Marcel Duchamp, Sol LeWitt, Joseph Kosuth e Yoko Ono, trouxeram uma diversidade na linguagem para comunicar pensamentos, apresentando ora textos, ora objetos comuns de uso para isso. A exemplo, Duchamp, que ao longo de sua trajetória, conduziu a arte à reflexão com os seus ready-mades, os quais foram apresentados como produções de arte.

No entanto, nesse espaço do estudo, de modo especial, será destinado a Joseph Kosuth eternizando sua assinatura na Arte Conceitual. Sendo considerado um dos ícones desse período, o norte-americano, Kosuth foi responsável por ajudar a instituir muitos dos preceitos teóricos desse momento. Em muitas de suas criações, o artista, foi consagrado por agregar o objeto visto como real; sua representação imagética, a fotografia do objeto destaque e, a conceituação, por meio da linguagem verbal, do mesmo objeto. A exemplo, a imagem 1 traz a representação de uma das mais conhecidas obras de Joseph Kosuth

Imagem 1 - Uma e Três Cadeiras, de Joseph Kosuth (1965)

A obra, possivelmente, mais apresentada do artista seja essa: “Uma e três cadeiras”. Nela, é possível evidenciar a arte, como uma forma de expressão que reúne consigo o objeto real, a imagem e sua concretização pela definição verbal, propondo ao espectador a reflexão daquilo que é construído. A obra criada em 1965 por Kosuth, traz uma espécie de desafio à compreensão de significar, à linguagem e à natureza da arte, pois traça uma espécie de comunicação em camadas sobre a essência do significado e o papel da compreensão na arte.

Pode-se pensar, a grosso modo, que "Uma e Três Cadeiras" parece algo simples. A instalação que distribui três elementos distintos, porém interconectados: a cadeira real, uma fotografia dessa cadeira e uma definição textual, torna-se elemento de uma investigação filosófica sobre a essência de representar. Logo, nota-se que a complexidade se destaca.

Diante disso, é interessante entender esse todo através de suas partes. Assim, a cadeira, objeto físico, representa aquilo que é palpável, que pode ter a experiência do toque e da interação. Em contrapartida, um “click”, representando a imagem, a fotografia da cadeira, permite uma nova representação visual, ou seja, a distância entre o objeto e o observador projeta uma apreciação bidimensional, uma maneira de considerar o modo como o apreciador interpreta a realidade. E por fim, a definição do conceito, promove outra camada de conhecimento a essa análise, uma vez que a construção por meio de signos linguísticos causa uma espécie de desconcentração do objeto real, da cadeira, condensando-a a uma descrição desalinhada da peça tangível.

Kosuth ao realizar essa caminhada que parte do concreto para o abstrato, permite a construção de alguns questionamentos complexos, quanto a relação entre o objeto e a exibição dele mesmo ou se é a linguagem um meio capaz de concentrar a ideia de um objeto. À vista disso, observa-se que a ideia desse artista é fornecer que cada meio de representação está apto para fornecer uma visão singular, ou seja, uma perspectiva diferenciada, todavia nenhuma estará qualificada para promover um entendimento finalizado do objeto.

Vale ressaltar, também, que Joseph Kosuth incita o que é defendido como noção convencional de arte. Lembrando que, a arte é vislumbrada, tradicionalmente, como um meio de representação da realidade ou das emoções do artista. Contrariamente a isso, o artista em questão defende a ideia sobre a estética, expondo em sua composição o efeito da linguagem conceitual sobreposta ao domínio do visual. À face do exposto, a pergunta se constrói: O que essa mudança causa para arte? A resposta rapidamente se faz, pois, a função do espectador na elaboração de sentido, propondo que a arte não é uma trajetória unidirecional, como uma criação singular do artista, mas um percurso de “mão dupla” que pode ser feito através do diálogo e colaboração entre a obra e o apreciador da arte.

Araujo Filho (2011), apresenta que as ideias teóricas de Kosuth publicadas em seu texto-marco “Arte depois da Filosofia”, de 1969, defendiam

seu ataque ao projeto moderno no qual a realização artística tanto do artista, como do público e das instituições que o legitimaram se construía pela forma expressiva autônoma. Uma arte autocentrada nas 2 questões de gosto, estilo e autenticidade estéticos. Não obstante seu caráter de manifesto (portanto programático), o texto de Kosuth é emblemático e referência para muitas questões que fortaleceram a inserção da arte conceitual na história. (ARAUJO FILHO, 2011, p. 2)

Assim, observa-se o romper, de Joseph Kosuth, com as noções tradicionais da arte permitindo que o artista traga, de forma equilibrada para a balança, a ideia no mesmo patamar da obra formal clássica. Logo, para os conceitualistas, a ideia de arte, é tão expressiva e artística quanto a arte pela imagem clássica.

Desse modo, a obra Uma e três cadeiras, pode ser considerada como a amplificação do modelo artístico quando comparado ao que era conhecido. Em que, o espaço dos conceitos, assim como das ideias, faz parte da completude da vivência quanto os dois outros, mostrando que o pensamento artístico trazido neste espaço é igualmente uma expressão de arte, pois formam uma única unidade.

4. A ARTE E NA ERA TECNOLÓGICA: UMA NOVA FRONTEIRA CRIATIVA

Sabe-se que a arte, ao longo de sua história, representa os fatos vivenciados pela sociedade, apreendendo seus detalhes e modificações. A partir do advento da era tecnológica, a comunicação entre arte e tecnologia só aumentou, construindo novos espaços que congregam, entre outras, a característica da interação.

É válido ressaltar como a tecnologia transformou o processo de criação artística através de novas ferramentas, assim como de plataformas. É possível, atualmente, encontrar uma pintura que tenha sido realizada em um modo digital, por exemplo, pois Programas como Adobe Photoshop possibilitam a experiência com recursos que antes não poderiam ser vislumbrados.

A interatividade é um recurso também permitido com a chegada da tecnologia. É cada vez mais comum a criação de Instalações artísticas que concedem ao espectador a participar do processo criativo por meio de ações proporcionadas pelo simples toque, criando experiências pessoais únicas e dinâmicas, um diálogo entre duas partes, criador e apreciador da arte.

Além disso, a maneira como o público se apropria da arte também mudou, uma vez que após o surgimento das redes sociais, o compartilhamento instantâneo de obras pode causar uma repercussão de alcance mundial. Hoje, a rede chamada de Instagram, é palco para artistas emergentes, por exemplo, o que facilita que eles possam construir suas identidades e possam encontrar apreciadores. Sem dúvida, o resultado disso é a democratização da arte. Em contrapartida, o encontro com a brevidade artística também pode ser alcançado.

O avanço tecnológico construiu uma nova fronteira para a arte, com a chegada da inteligência artificial (IA), questões referentes às artes têm se tornado um dos pontos em constante debate. Nota-se que há uma proporcionalidade entre a tecnologia – IA – e a arte. À medida que a primeira progride, a segunda modifica a maneira como os autores produzem suas obras, provocando aquilo que, tradicionalmente, pode ser compreendido como autoria e criatividade.

Dessa maneira, torna-se valioso observar como a constante presença da IA nas artes pode interferir no fazer artístico, em razão das questões éticas que não podem ser deixadas de lado. Contínuos apelos à ideia do que é considerado ética têm sido realizado, a fim de que se possa usufruir das novas tecnologias de IA. Segundo Génova et al, “a ética, se refere ao que atualmente é certo ou errado, para além do que seja socialmente aceito” (GÉNOVA et al, 2023, p. 223). Para isso, diretrizes éticas foram construídas nos últimos anos, agregando concepções para quem cria a tecnologia, as quais precisam seguir o quanto possível, devido a não existência de um conceito fechado sobre o que é arte entre aos personagens envolvidos nesse cenário.

Por isso a necessidade de muitos debates, uma vez que como é possível programar uma máquina quando ao menos uma definição sobre arte se consegue estruturar de maneira concreta? Assim, pensa-se na questão sobre autoria e, novamente o questionamento acontece para compreender se a criação é assinada pela máquina, pelo algoritmo ou pelo programador da inteligência artificial? Sem sucesso, essa lacuna ainda precisa ser preenchida, pois a ausência de precedentes indetermina quem pode ser chamado, verdadeiramente, de criador dessa obra.

Para mais, é possível inferir que essa evolução tecnológica pode apresentar argumentos sobre o que se entende por criatividade na arte. Pode-se dizer que ocorre a ausência desse patrimônio em uma obra apenas pelo fato de ter sido projetada por uma máquina? Lembrando que a mesma foi programada para analisar volumes de dados capazes de codificar as tendências artísticas, o que oferecerá ideias capazes de aspirar novas produções.

No que se refere à recepção do público quanto à relação da arte produzida por esse tipo de inteligência, percebe-se uma ideia ambígua. Do mesmo modo que espectadores ficarão encantados quanto ao tipo de inovação empregada, configurando os traços atuais de uma era digital rica em recursos tecnológicos; outros com olhares céticos, questionarão a expressão isenta de uma imersão emocional.

Dessa maneira, percebe-se que um caminho grandioso ainda precisa ser percorrido para que se compreenda a proposta da arte alinhada ao uso da IA. Apesar da incerteza do por vir, a certeza de que será fundamental a contínua reflexão sobre o cenário artístico.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Verifica-se ao longo dos caminhos percorridos pela arte que sua evolução histórica apresenta um panorama rico e diversificado, consequência das transformações sociais, políticas e tecnológicas ao longo dos séculos. Assim, o campo da arte, desde suas expressões mais primitivas até as formas contemporâneas, sempre foi conduzido pela condição humana, reproduzindo a essência de suas épocas.

Ao longo do desenvolvimento artístico, ciclos de inovação e reflexão foram construídos, onde cada período, seja da arte como expressão da religião; da arte em multicamadas como a “Conceitual”, seja da expressada com o auxílio de ferramentas tecnológicas, as novas perspectivas e desafios foram sempre apreciados.

Ademais, a ideia de democratização do acesso à arte, trazida com o advento da tecnologia e da internet, tem possibilitado que ecoem vozes antes desconhecidas ou marginalizadas, mas que conseguem assim conquistar um ambiente de apreciação e reconhecimento. Logo, essa conectividade traz o enriquecimento e o diálogo artístico, proporcionando uma interpretação mais ampla da experiência humana.

Outro ponto que merece destaque é o surgimento da inteligência artificial na arte, o que representa uma nova fronteira, convidando a humanidade para desfrutar de percepções inovadoras que desafiam questões relacionadas ao tradicionalismo da criatividade, autoria e valor.

No entanto, vale ressaltar que no caminhar por esse cenário recém descoberto, é fundamental que se explore e/ou ressignifique passos “aparentemente” definidos como as implicações éticas, assim como filosóficas dessa aparência de se fazer arte. Ou seja, a cautela precisa ser o amparo necessário nessa paisagem, pois não basta somente criar novas possibilidades artísticas, mas também reavaliar a complexidade do significado de ser humano em um contexto rodeado, cada vez mais, por máquinas.

Portanto, é de suma importância discernir não somente sua caminhada histórica, como também sua importância na construção da identidade cultural e na edificação do pensamento crítico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARAUJO FILHO, José Mariano Klautau de. Arte Conceitual e Fotografia: Derivações e Derivas de Allan Sekula e Jeff Wall. São Paulo, 2011.

BARROS, José Márcio e RODRIGUES, Felipe de Oliveira. Considerações sobre as divergências e convergências entre arte e comunicação. Vozes & Diálogo, Itajaí, V. 22, n.01, p. 27-38, 2023. Disponível em: https://periodicos.univali.br

Dicionário Michaelis. Disponível em https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/Arte/

HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. Martins Fontes: São Paulo, 2000.

SILVA, Marcelo de Souza. Reflexões sobre Uma e Três Cadeiras, de Joseph Kosuth. HACER - História da Arte e da Cultura: Estudos e Reflexões, Porto Alegre, 2019.


1 Doutoranda em Linguagem, Comunicação e Cultura pela Universidade da Amazônia - UNAMA. Mestra em Ensino de Língua Portuguesa e Suas Respectivas Literaturas pela Universidade Estadual do Pará - UEPA. Especialista em Língua Portuguesa e Análise Literária pela Universidade Estadual do Pará - UEPA. Graduada em Letras e Artes pela Universidade Federal do Pará - UFPA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0009-0005-4766-9427