O VALOR EPISTEMOLÓGICO DA INTUIÇÃO NAS CIÊNCIAS

THE EPISTEMOLOGICAL VALUE OF INTUITION IN THE SCIENCES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791293707

RESUMO
Este artigo analisa o valor epistemológico da intuição no campo científico, examinando como diferentes tradições de conhecimento compreendem e legitimam esse saber não estritamente racionalista. A pesquisa adota uma abordagem ensaística, fundamentada em revisão bibliográfica e na análise comparativa de três matrizes de pensamento: a europeia, a africana e a indígena. O estudo investiga as razões históricas da exclusão da intuição nos modelos hegemônicos de ciência, destacando a predominância do positivismo e da lógica formal. Ao examinar a matriz europeia, constata que há um reconhecimento da intuição intelectual e essencial por diversos filósofos. Na matriz africana, identifica a intuição como uma inteligência relacional, viva e comunitária, alinhada aos princípios de conexão com o invisível e de integração do ser. Na matriz indígena, observa a intuição como uma faculdade legítima de observação sensível e pertencimento ao cosmos, possibilitando a escuta da natureza e dos seres não humanos. O trabalho conclui que o reconhecimento da intuição constitui um exercício fundamental de decolonialidade e justiça epistêmica. A abertura para a coexistência de múltiplas epistemologias fortalece a construção de uma ciência plural, sensível e integradora, capaz de superar visões reducionistas e de valorizar formas diversas de conhecimento inerentes à experiência humana.
Palavras-chave: intuição; epistemologia; ciência; decolonialidade.

ABSTRACT
This article analyzes the epistemological value of intuition in the scientific field, examining how different knowledge traditions understand and legitimize this not strictly rationalist knowledge. The research adopts an essayistic approach, grounded in a literature review and comparative analysis of three thought matrixes: European, African, and Indigenous. The study investigates the historical reasons for the exclusion of intuition from hegemonic models of science, highlighting the predominance of positivism and formal logic. Examining the European matrix, it finds that there is a recognition of intellectual and essential intuition by several philosophers. In the African matrix, it identifies intuition as a relational, living, and community intelligence, aligned with the principles of connection with the invisible and integration of the self. In the Indigenous matrix, it observes intuition as a legitimate faculty of sensitive observation and belonging to the cosmos, enabling listening to nature and non-human beings. The work concludes that recognizing intuition constitutes a fundamental exercise in decoloniality and epistemic justice. Opening up to the coexistence of multiple epistemologies strengthens the construction of a plural, sensitive, and integrative science capable of overcoming reductionist views and valuing diverse forms of knowledge inherent to human experience.
Keywords: intuition; epistemology; science; decoloniality.

1. INTRODUÇÃO

A intuição pode ser compreendida como uma percepção, um flash, um insight, uma heurística, uma iluminação ou até mesmo um sexto sentido, caracterizando formas de acesso à saberes que não estão acessíveis pela lógica racionalista. Em linha gerais, a origem da intuição apresenta-se como manifestação intelectual, como manifestação da essência, comunicação com os ancestrais, comunicação com a natureza, comunicação com os espíritos, como veremos nas especificações de autores de diferentes matrizes ao longo do texto.

Há em comum a compreensão de tratar-se de uma forma de saber que não está diretamente acessível pelas formas racionalistas de produção e validação do conhecimento, sendo uma das razões pelas quais teria sido alijada da ciência tradicional. Reconhecer o valor epistemológico da intuição é um exercício de coerência científica, de validação de múltiplas formas de saber que estão para além da racionalidade, de reparação histórica com culturas que têm a intuição como parte de sua ontogênese e que foram silenciadas por processos de colonização, de reintegração de saberes que foram separados pelas lógicas dualistas - ciência x senso comum - que se instauraram na ciência, de reconhecer múltiplas formas de percepções místicas, inerentes ao ser humano.

Este artigo tem por objetivo desenvolver um ensaio sobre o valor epistemológico da intuição nas ciências, pois, embora diversos pensadores tenham reconhecido que a intuição esteve na gênese de suas descobertas (Fox, 2026; Harari, 2017; Parisi, 2022; Witkowski, 2004), a aceitação de sua influência no processo criativo não resultou em uma legitimação formal dentro da organização sistemática do saber científico. “É difícil aceitar que existem outras forças conduzindo esse barco que é nosso ser, além do capitão consciência que está no leme” (Bargh, 2020, p. 14). As possíveis razões dessas práticas deliberadas de deslegitimação da intuição na ciência serão abordadas ao longo do artigo.

2. COLONIALIDADE E DECOLONIALIDADE EPISTEMOLÓGICA

Historicamente, a presunção de que o conhecimento produzido numa realidade seria suficiente para abarcar outras realidades, fundamentou e fortaleceu processos de colonização, valorizando conhecimentos importados e silenciando conhecimentos do próprio território (Boas, 2020). Não se trata de amplificar as dualidades que historicamente sustentaram as ciências, de modo especial entre o científico e o senso comum, mas um exercício de fortalecimento da coexistência de conhecimentos, sejam aqueles produzidos pela ciência tradicional, sejam aqueles produzidos pela tradição dos saberes locais.

A resistência à colonialidade epistemológica também é uma forma de resistência à dominação de culturas que foram historicamente marginalizadas em suas formas sutis e singulares de existência, dentre outras razões, por possuírem a intuição como parte de suas lógicas singulares de existência. Destruir as lógicas de pensamento e organização de uma cultura é uma forma potente de colonização epistemológica, pois se não pensarem dentro de formas dominantes, supostamente não existiriam.

A reificação continuada de modelos racionalistas e assépticos de ciência fortalece o eurocentrismo e o epistemicídio sustentadores de culturas de dominação político-geográfica, cultural e religiosa. O exercício de desobediência epistêmica, como definido por Mignolo (2010; 2007) nos desafia a produzir epistemologias mais coerentes com as formas singulares constitutivas de cosmologias e ontologias distintas, não a negar a singularidade que as constitui, à exemplo do lugar que possui a intuição na vida das pessoas, de modo especial nas culturas de tradição africana e indígena. Conforme afirma González Rey (2013), o silêncio epistemológico na produção do conhecimento faz com que modelos de ciência predominantes, que podem ser culturalmente nocivos, se perpetuem como verdades únicas em diversas áreas do conhecimento.

No contexto de predominância da ciência europeia, fundamentada pelos filósofos gregos, se por um lado identificamos os que negaram a intuição nas ciências, também encontramos outros que não somente a reconheceram, como a consideraram como sendo a forma mais refinada e elevada do saber. A defesa por um lugar legítimo para a intuição nas ciências é parte de um exercício de decolonialidade epistemológica (Quijano, 2005; Mignolo, 2007, 2010) à qual cientistas que reconhecem os efeitos nocivos e excludentes que podem ser advindos de saberes colonizados têm enfrentado em diversas áreas como a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia, entre outras.

Advogar em favor da decolonialidade epistemológica, é um exercício de abertura à coexistência de múltiplas formas de saberes, legitimamente válidas. Não se trata de negação da história da ciência racionalista, marcadamente de matriz européia, com todos os avanços que foram possíveis por meio dela, mas do fortalecimento contínuo de outras epistemologias, que possibilitem a inclusão de povos e saberes colocados à margem da história. A integração de novas epistemologias, ou epistemologias marginais, é um exercício que já tem sido identificado em alguns modelos emergentes, à exemplo de: Epistemologia Feminista (Harding, 1986; Haraway, 1988), Epistemologias do Sul (Santos; Menezes, 2010; Santos, 2019), Epistemologia Qualitativa (González Rey, 1997; 2003; 2010); Epistemologia Ch'ixi (Cusicanqui, 2010; 2018; 2024), entre outras.

3. A INTUIÇÃO NA CIÊNCIA: DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE COEXISTÊNCIA

A intuição, assim como a espiritualidade, a subjetividade, a complexidade são temas aos quais a ciência racionalista desqualifica, porém o fato de algo não poder ser medido, comprovado, fragmentado, replicado – critério de validade utilizado pelos que negam a intuição na ciência – não elimina sua existência. Revela, tão somente, os limites atuais de um modelo de ciência, suas zonas cegas, sua base materialista na produção de saberes assépticos e colonizados, de modo especial em contextos humanos e sociais multiculturais, como o latino-americano. Por vezes, a ciência racionalista produz em um universo ‘morto’, sem vida, sem energia, sem alma, sem espaço-tempo, fragmentado e regido por leis fixas, impossibilitando qualquer exercício de criatividade, originalidade e propósito que possa distinguir os modos de produzir conhecimento sobre a matéria com vida e sem vida (Radin, 2025; Drasin, 2024).

Em todas as matrizes que serão analisadas, sob críticas fundamentadas na fragilidade da lógica, da verdade e da impossibilidade da prova, o reconhecimento do valor da intuição na ciência não é compartilhado de forma harmoniosa. Os críticos da intuição na ciência advêm de escolas fundadas especialmente em bases empiristas e positivistas, rotulando a intuição como um estado subjetivo e enviesado, destituído de autoridade. Essa tentativa deliberada de marginalizar o saber intuitivo visa consolidar modelos de conhecimento que, por sua vez, sustentam e perpetuam estruturas de poder e dominação intelectual. A rejeição se fundamenta na incapacidade de controle absoluto da mente, de onde advém a intuição intelectual, e do controle do espírito, de onde advém a intuição mística.

Pode-se identificar a exclusão da intuição no domínio científico por meio de múltiplas conjecturas históricas. Tais hipóteses, ao institucionalizarem dogmas e normas rígidas, acabaram por subestimar o saber intuitivo. Dentre os fatores preponderantes, sobressaem:

  1. primazia do pensamento lógico, atribuído ao masculino, como superior ao pensamento intuitivo, atribuído ao feminino, presente desde muitos séculos em contextos sociais e históricos da humanidade;

  2. primazia de modos de pensar e sentir de núcleos sócio-culturais, como os europeus e norte-americanos, que ainda imperam em culturas colonizadas, como a africana e indígena, expressando fortemente a manutenção da colonialidade epistemológica;

  3. impossibilidade de fragmentação da intuição, limitando suas possibilidades de medição, sendo essa a premissa central de validade do conhecimento da revolução científica do sec. XVII;

  4. lógica da razão estabelecida pelo iluminismo do séc. XVIII, sob a defesa de que aceitar a intuição seria um retrocesso às superstições, mitos, magias que pretendia superar;

  5. positivismo do séc. XIX, que estabelece que somente aquilo que é observável e estatisticamente validado é real;

  6. em paralelo, a padronização de processos exigida pela revolução industrial, considerando a intuição um fator de alto risco;

  7. não menos importante, na atualidade, os sistemas peer review da ciência moderna que colidem com a própria natureza da intuição, uma vez que não pode ser validada como real mediante os critérios utilizados.

Nas próximas seções, apresentaremos como a intuição tem sido reconhecida e concebida por autores de diferentes bases de produção do conhecimento, sem nenhuma pretensão de esgotamento das discussões e autores que poderiam ser citados. Abordaremos a intuição entre alguns autores da filosofia europeia que a reconhecem como parte do processo da descoberta mesmo que não seja reconhecida como parte do método que sustenta o conhecimento produzido.

Para pensadores de matrizes africanas e indígenas, a intuição integra os alicerces cosmológicos e ontológicos fundamentais, orientando suas formas de existência, sensibilidade e atuação no mundo. Essa característica, contudo, não garante que a intuição seja acolhida sem tensões ou de maneira unânime dentro dos processos formais de produção do conhecimento. Reconhecer a intuição tensiona a elaboração de percursos epistemológicos que viabilizem a coexistência harmônica entre saberes: as tradições milenares e os conhecimentos oriundos da ciência convencional, sem que a afirmação de um implique na exclusão do outro. Por meio dos autores africanos e indígenas veremos que intuição não é o oposto da lógica racionalista e fragmentária, mas sim um saber acumulado por milênios de observação da natureza e práticas comunitárias regidas por lógicas singulares de tradição milenares.

3.1. A Intuição nas Ciências de Matriz Européia

Embora a ciência de matriz europeia seja amplamente reconhecida pela hegemonia da razão, pelo controle por meio da fragmentação e pelo intuito de dominar a natureza, é possível identificar pensadores que trilham caminhos alternativos. Tais autores admitem, ainda que de forma parcial, a existência de modalidades mais sutis na construção do conhecimento. No quadro, a seguir, apresentamos alguns autores que, de formas distintas, dão lugar à intuição nos processos de produção do conhecimento.

Quadro 1. Autores europeus que reconhecem o valor epistemológico da intuição

Pensador / Cientista

Valor epistemológico da intuição

Platão

Grécia. 428/427 a.C. - 347/348 a.C.

Filósofo

A Noésis (intuição intelectual) é o grau mais alto do conhecimento, captando as formas/ideias puras. Está ligada à reminiscência, forma de lembrar aquilo que a alma já conhecia antes de habitar o corpo.

Plotino

Itália. 204/205-270

Filósofo

A intuição é a união mística com o "Um", transcendendo o pensamento lógico e a dualidade, exigindo que a alma ultrapasse o próprio pensamento para se fundir com o Absoluto - intuição suprema.

René Descartes

França. 1596-1650

Filósofo

A intuição é a "luz natural" da razão que apreende conceitos claros e distintos sem erro. É uma forma de apreensão direta, imediata e indubitável de uma verdade, pela luz da razão.

Bento de Espinosa

Amsterdã. 1632-1677

Filósofo

O "terceiro gênero de conhecimento" é a intuição, que percebe a essência das coisas sob o aspecto da eternidade. A intuição é considerada como conhecimento supremo, fruto de uma habilidade da mente de captar a essência das coisas.

Blaise Pascal

França. 1623-1662

Matemático

Distingue o "espírito de geometria" (lógica) do "espírito de fineza" (intuição/coração) para verdades existenciais. Sua famosa frase "O coração tem razões que a própria razão desconhece" fala dessa intuição que não pode ser racionalizada.

Friedrich von Schelling

Alemanha. 1775-1854

Filósofo e teólogo

A "intuição intelectual" permite ao filósofo perceber a unidade entre o eu e a natureza (o absoluto). É um ato quase artístico que supera a lógica para unir sujeito e objeto, revelando que nós e a natureza somos um único absoluto.

Henri Bergson

França. 1859-1941

Filósofo

A intuição é o método para captar a duração (tempo real) e o fluxo da vida, algo que a inteligência analítica "congela". Visa apreender a verdadeira realidade no interior das coisas.

Edmund Husserl

Alemanha. 1859-1938

Filósofo e matemático

A "intuição das essências" (Eidética) permite captar a estrutura universal dos fenômenos na consciência. É o fundamento absoluto de todo conhecimento; intuição é o ato no qual o objeto nos é dado "em carne e osso" (leibhaft) à consciência.

Benedetto Croce

Itália. 1866-1952

Autodidata

Define o conhecimento intuitivo como a base da arte e da expressão individual, distinta do conhecimento lógico. É uma forma de conhecimento que acontece no espírito, antes de se tornar uma obra física.

Fonte: Os autores

O reconhecimento do valor epistemológico da intuição entre alguns dos principais filósofos europeus não representa uma dinâmica aberta para que toda e qualquer forma de intuição seja reconhecida. Identifica-se uma tendência ao reconhecimento do que poderíamos considerar como intuição intelectual, à exemplo do que foi apresentado por Platão, René Descartes e Friedrich Schelling, bem como uma tendência à compreensão da intuição como conexão com a essência, como pode ser reconhecido em Plotino, Bento Espinosa, Edmund Husserl, Blaise Pascal, Henri Bergson e Benedetto Croce.

A intuição intelectual, reconhecida nas ideias de Platão, René Descartes e F. Schelling, é fruto de um processo de conhecimento cada vez mais elevado que passa a se expressar em formas complexas, sem a participação dos sentidos. A elaboração de Parisi (2022), prêmio Nobel de Física é bem ilustrativa do que seria intuição intelectual: há a ‘preparação’, período em que se estuda o problema até que se esgote, quando não há mais progresso; depois vem o período da ‘incubação’, quando o problema é relativamente abandonado; a ‘iluminação’ ocorre de súbito, quando a incubação termina, numa situação não relacionada ao problema. O autor faz referência à uma frase que existe em inúmeras línguas, para referir-se à incubação/iluminação: “A noite é boa conselheira” (p.92).

A intuição essencial, reconhecida nas ideias de Plotino, Bento Espinosa, Edmund Husserl, Blaise Pascal, Henri Bergson e Benedetto Croce, remete à uma conexão com a essência do ser humano, numa integração entre o interno e o externo, entre razão e emoção. As formas de percepção de si que se distinguem da racionalidade, seriam intuitivas, fruto de uma experiência consigo mesmo. Essa compreensão se aproxima de teóricos orientais que se sustentam por princípios não dualistas, concebendo sujeito e objeto, humano e natureza como unidades que existem no todo em movimento, com propensão à uma visão mais holística e integradora do todo (Qian; Yu; Dai, 1993).

Destaca-se que os teóricos citados são os que reconhecem o valor epistemológico da intuição, ou seja, reconhecem que a intuição possui valor e lugar no processo de produção do saber, mesmo que a maioria não tenha desenvolvido princípios que possam ser orientadores de como esse reconhecimento poderia ser considerado parte do método a ser utilizado na produção do conhecimento. Dentre os autores citados, Henri Bergson é o único que desenvolveu o que veio a ser chamado de Método da Intuição (Bergson, 2021, 2006; Pinto, 2010; Rochamonte, 2023). De toda forma, destaca-se o valor desse reconhecimento como parte da transcendência à lógica racionalista de produção e validação do conhecimento, mesmo entre os que consideram a intuição um processo intelectual.

3.2. A Intuição nas Ciências de Matriz Africana

Diferente da visão eurocêntrica que situa o nascimento da filosofia na Grécia no século VI a.C., o pensamento sistemático africano já existia por volta de 2.800 a.C. Quando falamos de filosofia clássica africana, referimo-nos principalmente aos pensadores do Egito Antigo (Kemet) e da Etiópia, cujos textos estabeleceram as bases da ética, da metafísica e da lógica milênios antes da modernidade. A filosofia africana influenciou a filosofia europeia, uma vez que Platão, Pitágoras e Aristóteles estudaram no Egito e a ética africana está presente em suas obras, mesmo que pelo filtro europeizado de suas épocas (Galli, 2023; Rull, 2024).

Os autores da filosofia clássica africana eram, muitas vezes, altos funcionários ou sábios reais, e suas obras são conhecidas como Sebait (Ensinamentos de Sabedoria), que significa literalmente "instruções" ou "ensinamentos". Eram textos que tinham o objetivo de transmitir normas éticas, morais e sociais escritos em estilo instrucional, visando repassar os ensinamentos de como viver de acordo com o conceito de Ma'at (verdade, equilíbrio e justiça). O ponto central estava na ideia de que a sabedoria não era teórica, mas um guia prático para ser uma "pessoa excelente" aos olhos dos deuses e da sociedade, um “ser de luz” que respeita a integridade e as leis universais (Jacq, 2000).

O estilo instrucional das obras mais clássicas é expressão dos próprios princípios éticos que as regem, visando serem guias de vida que aproximam os leitores/aprendizes das suas ancestralidades, mantendo, de alguma forma, a tradição da transmissão/instrução oral. O relato da história de Ptahhotep, por exemplo, é reconhecido por alguns historiadores como o livro mais antigo do mundo. Nele há o relato da história do escriba que viveu na V Dinastia egípcia durante o reinado do faraó Tanquerés. Os ensinamentos de “pai para filho” compõem a centralidade da obra, em defesa de que só é possível viver, ser e pertencer ao mundo com ética (Galli, 2023; Rull, 2024). Para Ptahhotep, o verdadeiro líder é aquele que domina a si mesmo antes de tentar dominar os outros.

Além do reconhecimento do Egito Antigo (Kemet) como berço intelectual, orientado por conceitos como o Ma’at que pressupõem justiça, verdade e equilíbrio cosmogônico, destacam-se dois princípios de sabedoria ancestral africana mais popularizados na atualidade: a filosofia Ubuntu “eu sou porque nós somos”, que contém a ideia de harmonia social e ordem cósmica, e o conceito de Sankofa “aprender com o passado para construir o futuro”, que contém a ideia de beber da fonte da sabedoria original (Viana, 2025).

No quadro a seguir, para seleção dos autores utilizou-se como critérios serem originários de países do continente africano, visando preservar pessoas que falam a partir de seu lugar/território e terem formação acadêmica com histórico de diálogo crítico com as formas de funcionamento e organização da ciência tradicional. Na esteira desses princípios gerais de base da filosofia africana, destacamos, a seguir, alguns dos autores que reconhecem o valor epistemológico da intuição na ciência.

Quadro 2. Autores africanos que reconhecem o valor epistemológico da intuição

Pensador / Cientista

Valor epistemológico da intuição

Léopold Senghor 

Senegal. 1906-2001

Filósofo

A intuição é a forma de conhecimento por "simpatia", onde o observador se une ao objeto para captar sua essência viva, e não apenas sua superfície. Ele defendia que, enquanto a razão clássica europeia era "analítica" (distante), a razão africana era "intuitiva" e "simpática" (baseada na participação com o objeto)

Mogobe Bernand Ramose

África do Sul. 1945-atual

Filósofo

A intuição capta a interconectividade e o fluxo constante da realidade (Ubuntu), que a ciência fragmentada e puramente racionalista ignora. Ele explica que Umuntu (pessoa) e Ubu (ser) formam uma unidade. O ser é um fluxo constante, não algo estático.

Cheikh Anta Diop

Senegal. 1923-1986

Historiador, antropólogo e físico

Utiliza a intuição como guia para formular hipóteses científicas (físicas e antropológicas) sobre a origem africana da civilização e a unidade cultural. Considera que a intuição abre o caminho daquilo que não está visível e a razão produz os modelos explicativos.

Sophie Oluwole

Nigéria. 1935-2018

Filósofa

A intuição é a faculdade que permite integrar opostos (o material e o espiritual), permitindo uma ciência que não exclua a dimensão metafísica. É uma forma de inteligência refinada que se manifesta por meio da tradição oral, das narrativas míticas e dos provérbios.

Achille Mbembe

Camarões. 1957-atual

Filósofo e historiador

A intuição é uma forma de inteligência viva e relacional que possibilita romper com a tirania da razão, possibilitando que os sujeitos historicamente subjugados não necessitem do aval do colonizador para terem seus tempo, territórios e espiritualidades valorizadas. A intuição se manifesta por meio da conexão com o invisível e com a corporeificação dos saberes.

Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí

Nigéria. 1957-atual

Socióloga

A intuição vem da senioridade - conhecimento que amadurece com o tempo. Reconhece na epistemologia iorubá a Anwòye, que une inteligência, percepção sensorial, intuição e reflexão crítica. Defende o que chama de ‘razão do corpo inteiro’, onde intuir, sentir, ouvir é a forma de ver e se relacionar com as pessoas.

Fonte: Os autores

A partir das ideias apresentadas, reconhecemos pelo menos duas compreensões sobre o valor epistemológico da intuição no contexto dos filósofos africanos mais contemporâneos. Senghor, Oluwole, Ramose e Oyěwùmí focam mais na intuição como constitutiva da natureza do pensamento, inscrita nas formas como nós percebemos o mundo. Os autores comungam de uma cosmologia que sustenta formas legítimas e sofisticadas de conhecimento que define a racionalidade africana, em que a pessoa não sente o mundo de fora; precisa sentir o mundo de dentro para conhecê-lo. Nesse sentido, a produção do conhecimento é fruto de um processo de participação no mundo, que supera os dualismos e as fragmentações, conhecendo a natureza holística e vital de todos os seres (Durão, 2020; Aguiar, 1999; Ramose, 1999).

Diop (1983) e Mbembe (2017) reconhecem a intuição como uma ferramenta de reconstrução da realidade e da história. Buscam reconstruir a história africana (Egito Negro) para devolver aos africanos a consciência de sua própria grandeza. Trabalham para que a pessoa africana passe de "objeto observado" a "sujeito que observa e pensa", acreditando que o conhecimento produzido deve servir à libertação política e cultural do continente (Machado, 2014).

3.3. A Intuição nas Ciências de Matriz Indígena

Para as populações indígenas, por meio de suas ontologias e cosmovisões, a intuição é uma faculdade tão legítima quanto à razão, fruto da observação contínua que atravessa gerações, em profunda harmonia com a natureza. Ser humano e natureza são parte de uma totalidade que compõem um único ‘laboratório’ de conhecimento. O conhecimento é fruto de uma integração profunda com os ciclos, leis e valores que regem a natureza, constituindo uma unidade indivisível entre corpo, mente e espírito. O visível e invisível possui um elo do qual a intuição é uma forma de compreensão e reconhecimento de canais comunicativos que possibilitam ir além das razões lógicas explicativas do reconhecimento e funcionamento do real.

Para seleção dos autores utilizou-se como critérios serem originários de comunidades indígenas, visando preservar pessoas que falam a partir de seu lugar/território e terem formação acadêmica com histórico de diálogo crítico com as formas de funcionamento e organização da ciência tradicional.

Quadro 3. Autores indígenas que reconhecem o valor epistemológico da intuição

Pensador / Cientista

Valor epistemológico da intuição

Robin Wall Kimmerer

Etnia Potawatomi

EUA. 1953-atual

Botânica

A intuição é a "linguagem das plantas" captada pela observação sensível; ela precede e dá sentido à análise laboratorial. É o que permite ao cientista, por meio das perguntas certas, descobrir o que está oculto nas coisas.

Silvia Rivera Cusicanqui

Etnia Aymara

Bolívia. 1949-atual

Socióloga e historiadora

A intuição visual e estética permite ler a história e o território onde a palavra escrita (colonial) falha ou omite. A intuição atua como um filtro crítico que possibilita desconfiar da palavra; base da sua sociologia da imagem. Os saberes advêm da intuição gerada nos saberes coletivos.

Justino Sarmento Rezende

Etnia Utãpinopona-Tuyuka

Brasil. atual

Filósofo e teólogo

A intuição é uma forma legítima de racionalidade que permite entender a ecologia de forma holística. Trata-se de uma metodologia de coletiva de escuta, sobrevivência e conexão cósmica de seres humanos e não humanos, sendo a intuição a capacidade de sintonizar com os saberes dos seres não humanos.

Ailton Krenak

Etnia Krenak

Brasil. 1953-atual

Líder indígena, ambientalista, filósofo

A intuição é o reconhecimento de que rios e montanhas são sujeitos com inteligência própria que "falam" conosco, operando como um mecanismo de resistência à mercantilização da vida. A intuição é um mecanismo de pertencimento ao cosmos.

Linda Tuhiwai Smith

Etnia Ngāti Awa e Ngāti Porou iwi.

Nova Zelândia. 1950-atual

Educadora

A intuição é uma forma de sobrevivência cultural; pesquisar com o "coração" é o que garante a ética e o rigor indígena. Explora o conceito de justiça epistêmica, considerando que a intuição atua na fronteira da criação de teorias tradicionais e de teorias alternativas.

João Paulo Barreto -

Etnia Ye'pamahsã

Brasil - atual

Filósofo

A intuição é a técnica de ler sinais da natureza para equilibrar forças invisíveis (agências) que afetam a saúde biológica do cosmos. Defende a necessidade de uma existência simétrica entre ciências distintas, reconhecendo a intuição como prática de uma ciência sofisticada.

Fonte: Os autores

Para Robin Kimmerer e João Barreto a intuição é componente do método científico, como expressão da observação do mundo natural. Enquanto Kimmerer (2023) foca na complementaridade que integra a validade dos dados científicos da botânica, Barreto (2025) foca na especialização, considerando que a intuição deve ser reconhecida como Bahsese (tecnologias de cuidado com a saúde e cura).

O reconhecimento da intuição como forma de resistência e prática política é encontrado em Silvia Cusicanqui e Linda Smith, como uma forma de descolonizar e agir no mundo atual. O foco na justaposição (Ch’ixi) desenvolvido por Cusicanqui (2024) possibilita reconhecer a coexistência de saberes e culturas sem que um se funda e anule o outro, sendo a intuição esse canal de conexão entre diferentes mundos e modos de vida. Sua crítica ao conceito de mestiçagem se dá justamente pela anulação das raízes culturais. Smith (2018) foca na autodeterminação, defendendo que os indígenas são quem devem fazer pesquisas sobre si, pois do contrário, está se roubando a história do outro. A autodeterminação é o caminho do reconhecimento da intuição que atua como instinto de preservação da comunidade, regida pelo fluxo vital da natureza.

A intuição como ontologia que fundamenta a existência, as formas de estar vivo e de conexão com o cosmos é encontrada em Ailton Krenak e Justino Rezende. Para Krenak (2022; 2020) a intuição é o que possibilita reconhecer a Terra como um organismo vivo, uma subjetividade expandida que nos possibilita recuperar nossa humanidade tomando distância do materialismo que nos isola da natureza; possibilita recuperar os saberes ancestrais que estão no sangue e na memória da terra. Rezende (2023; 2021) defende a indigenação da ciência - resgate do sentir como forma de conhecimento - e a reintegração do humano à natureza, separado pela ciência tradicional. A intuição é a forma de comunicação entre os seres da floresta e o humano, possibilitando ler sinais que só podem ser captados pelo espírito das coisas.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Num esforço de análise sobre como a intuição tem sido concebida e reconhecida nas matrizes apresentadas identificamos que a centralidade do problema não está somente no reconhecimento da intuição na ciência, mas no predomínio de um modelo de ciência que possui critérios de validação limitados e materialistas, gerando uma incongruência de base, onde a intuição é reconhecida como parte do processo da descoberta, mas negada como parte do processo de reconhecimento do conhecimento do qual fez parte.

O reconhecimento do valor epistemológico da intuição nas ciências traz consigo o desafio de produzir novas epistemologias que deem sustentação aos saberes historicamente marginalizados. A defesa pela coexistência de saberes exige práticas de pluralização da ciência, rompendo com modelos exclusivistas, racionalistas e hegemônicos que hierarquizam os saberes, classificando-os em científico e não científico. Nesse sentido, o reconhecimento do valor epistemológico da intuição, é o reconhecimento de processos inerentes ao ser humano. Embora possamos reconhecer que alguns povos e culturas tenham experiências mais expressivas com a intuição, ela nos é constitutiva na condição de humanos.

Como vimos ao longo do artigo, a tradição europeia, influenciada pela tradição greco-romana e cristã, teve forte influência na colonização de muitos territórios, como o africano e o americano. Essa colonização também é de natureza epistemológica, suplantando os sistemas de conhecimento de comunidades indígenas e africanas que já habitavam os respectivos continentes. O continente africano, situado geograficamente entre o oriente e o ocidente, teve forte influência dos processos colonizadores de países da Europa, bem como dos processos de escravização advindos principalmente da colonização europeia no continente americano. O apagamento da origem da filosofia africana no Egito Antigo (Kemet), que antecedeu a filosofia greco-romana e onde muitos filósofos europeus estudaram, é um dos exemplos de como os sistemas de conhecimento e de poder se fundem em movimentos pretensiosamente civilizatórios.

Em relação às matrizes africana e indígena, as destacamos pelo forte envolvimento de coletivos acadêmicos e movimentos sociais de resgate cosmológico e ontológico dessas populações que foram profundamente dominadas, colonizadas e até exterminadas, em alguns casos, ao longo da história. A criação de espaços de reconhecimento e validação dos modos de pensar, sentir e ser no mundo, fortalecidos pelo movimento epistemológico de resgate do Sul Global (Santos; Menezes, 2010; Santos, 2019) tem fortalecido a emergência e reconhecimento de saberes dominados e até aniquilados por processos de colonização orientados pela não-ética da guerra - suspensão dos princípios morais em nome da ilusão de humanização - ainda orientadora de muitas guerras ativas no mundo atual. O desejo político pela decolonialidade do poder e do ser fica fragilizada se as formas de reconhecimento do saber não forem devidamente revisitadas (Maldonado-Torres, 2007; Quijano, 2005).

A manutenção de sistemas de saberes homogeneizados é uma forma potente de controle e manutenção de sistemas de poder culturalmente colonizado, presentes nas mais diversas áreas de conhecimento. O esvaziamento da singularidade, do sutil, do sensível, do não consciente, do transcendente, da não localização, da totalidade, da ancestralidade, são todas formas de manutenção das primazias que alimentam grandes processos de dominação social, via dominação epistemológica, limitadoras das formas plurais de saber, de ser e de estar no mundo.

Novas investigações sobre o valor epistemológico da intuição nas ciências podem explorar o pensamento intuitivo feminino e a forma como as mulheres, mesmo que silenciadas por uma ciência ainda predominantemente masculina, contribuíram e são protagonistas de uma ciência mais sutil, harmoniosa e integradora, rompendo com os dualismos que a caracterizam historicamente. Também se faz necessário adentrar nos processos diaspóricos que levam às migrações em massa de populações que, para conseguirem sobreviver em outras tradições, necessitam aderir, mesmo com resistência, às novas formas de ser, estar e pensar, caracterizando outro tipo de movimento epistemicida ao qual as populações são submetidas.

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1 Doutora em Educação. Docente da Universidade de Brasília, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6457-9005

2 Doutor em Psicologia. Docente da Universidad de Salamanca, Espanha. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9181-463X

3 Doutor em Teoria Crítica. Docente da Universidad de San Buenaventura, Colômbia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6944-0117