O USO DE TELAS NA PRIMEIRÍSSIMA INFÂNCIA E A ABORDAGEM PEDAGÓGICA HEURÍSTICA COMO FERRAMENTA DE DESENVOLVIMENTO INTEGRAL

SCREEN USE IN VERY EARLY CHILDHOOD AND THE HEURISTIC PEDAGOGICAL APPROACH AS A TOOL FOR HOLISTIC DEVELOPMENT

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784693956

RESUMO
O avanço das tecnologias digitais nas últimas décadas tem transformado significativamente os modos de viver, comunicar e aprender. Esse fenômeno também alcança o universo da infância, especialmente nos primeiros anos de vida, período marcado por intensos processos de desenvolvimento cognitivo, emocional e social. A presença crescente de dispositivos eletrônicos como celulares, tablets e televisores no cotidiano das famílias tem introduzido novas formas de interação entre crianças e o mundo, despertando preocupações no campo educacional acerca dos impactos do uso precoce de telas no desenvolvimento infantil. Nesse contexto, torna-se necessário refletir sobre práticas pedagógicas que valorizem experiências sensoriais, corporais e interativas na infância. O presente artigo tem como objetivo discutir os efeitos do uso de telas na primeiríssima infância e analisar a abordagem pedagógica heurística como possibilidade pedagógica capaz de favorecer o desenvolvimento integral das crianças. Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, baseada em revisão bibliográfica e no diálogo com autores que investigam a infância, o desenvolvimento infantil e a formação docente. Os resultados indicam que a exposição excessiva às telas pode limitar experiências fundamentais para o desenvolvimento das crianças pequenas, como o brincar, a interação social e a exploração do ambiente. Em contrapartida, a abordagem heurística apresenta-se como uma proposta pedagógica potente ao valorizar a curiosidade, a autonomia e a investigação do mundo por meio de materiais simples e não estruturados. Conclui-se que a formação docente desempenha papel central na construção de práticas educativas que reconheçam os desafios da cultura digital sem perder de vista a centralidade da experiência concreta na infância.
Palavras-chave: Educação Infantil; Primeiríssima Infância; Tecnologias Digitais; Abordagem Heurística; Formação Docente.

ABSTRACT
The advancement of digital technologies in recent decades has significantly transformed ways of living, communicating, and learning. This phenomenon also reaches the world of childhood, especially in the first years of life, a period marked by intense processes of cognitive, emotional, and social development. The growing presence of electronic devices such as cell phones, tablets, and televisions in the daily lives of families has introduced new forms of interaction between children and the world, raising concerns in the educational field about the impacts of early screen use on child development. In this context, it becomes necessary to reflect on pedagogical practices that value sensory, bodily, and interactive experiences in childhood. This article aims to discuss the effects of screen use in early childhood and analyze the heuristic pedagogical approach as a pedagogical possibility capable of promoting the integral development of children. This is a qualitative research, based on a literature review and dialogue with authors who investigate childhood, child development, and teacher training. The results indicate that excessive screen time can limit experiences that are fundamental to the development of young children, such as play, social interaction, and exploration of the environment. In contrast, the heuristic approach presents itself as a powerful pedagogical proposal by valuing curiosity, autonomy, and investigation of the world through simple and unstructured materials. It is concluded that teacher training plays a central role in building educational practices that recognize the challenges of digital culture without losing sight of the centrality of concrete experience in childhood.
Keywords: Early Childhood Education; Very Early Childhood; Digital Technologies; Heuristic Approach; Teacher Training.

1. INTRODUÇÃO

A infância contemporânea tem sido profundamente atravessada pelas transformações tecnológicas que marcam a sociedade atual. Dispositivos digitais passaram a ocupar um lugar significativo nas rotinas familiares e, cada vez mais cedo, as crianças entram em contato com telas de diferentes tipos.

Celulares, tablets e televisores tornaram-se objetos presentes no cotidiano das famílias, sendo frequentemente utilizados como forma de entretenimento ou estratégia para lidar com as demandas da rotina adulta. Embora esses recursos façam parte da cultura contemporânea, sua presença no universo da infância suscita questionamentos importantes sobre seus efeitos no desenvolvimento das crianças.

A primeiríssima infância, período que compreende aproximadamente os três primeiros anos de vida, constitui uma fase particularmente sensível do desenvolvimento humano. Nesse momento, o cérebro infantil encontra-se em intenso processo de formação, sendo profundamente influenciado pelas experiências vividas no ambiente familiar e educativo.

Patrícia Dias destaca que “os primeiros anos de vida constituem um período decisivo para o desenvolvimento humano, sendo profundamente influenciados pela qualidade das experiências e interações vividas pela criança” (Dias, 2020, p. 28). Assim, as experiências corporais, sensoriais e afetivas desempenham papel fundamental na construção das bases cognitivas, emocionais e sociais que acompanharão o indivíduo ao longo da vida.

Entretanto, observa-se que muitas dessas experiências têm sido substituídas por interações mediadas por dispositivos digitais. Esse fenômeno levanta preocupações sobre a redução das oportunidades de exploração do ambiente, de interação social e de construção de vínculos afetivos.

Diante desse cenário, torna-se fundamental refletir sobre práticas pedagógicas capazes de promover experiências significativas para as crianças pequenas. Nesse contexto, a abordagem pedagógica heurística apresenta-se como uma proposta potente, ao valorizar a investigação, a curiosidade e a exploração livre do mundo.

2. CULTURA DIGITAL E INFÂNCIA

A sociedade contemporânea caracteriza-se pela intensa presença das tecnologias digitais na vida cotidiana. A comunicação instantânea, o acesso rápido à informação e a conectividade permanente transformaram profundamente as formas de interação social.

Esse contexto também influencia a forma como as crianças vivem e experimentam o mundo. Atualmente, muitas crianças têm contato com dispositivos digitais ainda nos primeiros meses de vida, seja observando adultos utilizando celulares ou assistindo conteúdos audiovisuais.

Para Patrícia Dias (2020), a cultura digital alterou significativamente os modos de socialização infantil. Segundo a autora, a presença constante de dispositivos móveis nas famílias modificou as formas de interação entre adultos e crianças, muitas vezes substituindo momentos de convivência por experiências mediadas por telas.

Nesse sentido, a autora ressalta que o debate sobre o uso de tecnologias na infância não pode ser reduzido a uma visão simplista de proibição ou permissão. É necessário compreender as condições sociais, culturais e familiares que influenciam o uso desses dispositivos.

Ao mesmo tempo, torna-se fundamental reconhecer que a infância necessita de experiências que envolvam o corpo, o movimento e a exploração do ambiente. Quando grande parte do tempo das crianças é dedicada às telas, essas experiências podem ser reduzidas.

3. DESENVOLVIMENTO INFANTIL NA PRIMEIRÍSSIMA INFÂNCIA

Os primeiros anos de vida representam um período de intenso desenvolvimento físico, cognitivo e emocional. Nesse momento, o cérebro infantil estabelece conexões neurais fundamentais que serão base para aprendizagens futuras.

Jean Piaget afirma que “o conhecimento não é uma cópia da realidade, mas uma construção que se realiza por meio da ação da criança sobre os objetos e sobre o meio” (Piaget, 1976, p. 36). Isso significa que aprender envolve experimentar, explorar e interagir com o ambiente.

Lev Vygotsky também enfatiza a importância das relações sociais no desenvolvimento humano. Para o autor, “todas as funções psicológicas superiores aparecem duas vezes: primeiro no plano social e depois no plano individual” (Vygotsky, 1998, p. 74).

Assim, a aprendizagem ocorre por meio da interação com outras pessoas, especialmente com adultos que mediam a relação da criança com o mundo.

Essas perspectivas teóricas reforçam a importância de experiências concretas e interativas na infância, evidenciando que o desenvolvimento infantil depende da qualidade das relações e das vivências proporcionadas às crianças.

4. IMPACTOS DO USO EXCESSIVO DE TELAS

Diversos estudos apontam que o uso excessivo de telas pode trazer implicações importantes para o desenvolvimento infantil. Entre os principais aspectos discutidos estão a redução das interações sociais, a diminuição do tempo dedicado ao brincar e possíveis impactos na atenção e na linguagem.

Patrícia Dias observa que “crianças muito pequenas não compreendem conteúdos audiovisuais da mesma maneira que os adultos imaginam, pois suas estruturas cognitivas ainda estão em formação” (Dias, 2020, p. 45).

Além disso, a exposição prolongada a estímulos digitais pode provocar uma espécie de saturação sensorial, dificultando a concentração em atividades que exigem atenção mais prolongada.

Outro aspecto relevante refere-se à construção da linguagem. A linguagem se desenvolve principalmente por meio da interação com outras pessoas, em contextos de diálogo, brincadeiras e trocas afetivas.

Quando as interações passam a ocorrer predominantemente com dispositivos digitais, a qualidade dessas trocas pode ser reduzida.

5. O BRINCAR COMO EXPERIÊNCIA FUNDAMENTAL

Brincar é uma das formas mais importantes de aprendizagem na infância. Por meio do brincar, a criança experimenta o mundo, desenvolve habilidades cognitivas e constrói relações sociais.

Para Brougère (2010), o brincar constitui uma atividade cultural que permite à criança explorar significados e construir conhecimentos sobre o mundo.

Durante o brincar, as crianças exercitam a imaginação, testam possibilidades e desenvolvem capacidades cognitivas e emocionais.

Além disso, o brincar envolve o corpo, os sentidos e o movimento. Essas experiências são fundamentais para o desenvolvimento motor, cognitivo e social.

6. A ABORDAGEM PEDAGÓGICA HEURÍSTICA

A abordagem heurística foi desenvolvida pela educadora Elinor Goldschmied, que observou o interesse das crianças pequenas por objetos simples do cotidiano.

Segundo a autora, “as crianças aprendem explorando os objetos ao seu redor e descobrindo suas propriedades por meio da experimentação” (Goldschmied; Jackson, 2006, p. 113).

O brincar heurístico consiste em oferecer às crianças uma variedade de objetos não estruturados, permitindo que elas explorem livremente suas possibilidades.

Essa proposta valoriza a autonomia infantil e reconhece a criança como protagonista do processo de aprendizagem.

7. O PAPEL DO EDUCADOR NA ABORDAGEM HEURÍSTICA

Na abordagem heurística, o papel do educador difere significativamente das práticas pedagógicas tradicionais que, muitas vezes, se baseiam na condução direta das atividades e na transmissão de conteúdos previamente definidos. Nesse modelo pedagógico, o professor deixa de ocupar a posição central de condução do processo de aprendizagem e passa a assumir uma postura mais investigativa e observadora, criando condições para que as crianças possam explorar o ambiente de forma autônoma e construir conhecimentos a partir de suas próprias experiências.

A abordagem heurística fundamenta-se na ideia de que as crianças pequenas são naturalmente curiosas e possuem uma forte disposição para investigar o mundo que as cerca. Dessa forma, o processo de aprendizagem ocorre principalmente por meio da exploração de objetos, da experimentação e da descoberta. Nesse contexto, o papel do educador consiste em organizar ambientes ricos em possibilidades de investigação, nos quais as crianças possam agir livremente, manipular materiais e estabelecer relações entre diferentes elementos do ambiente.

De acordo com Elinor Goldschmied e Sonia Jackson, a organização do espaço e a seleção dos materiais são aspectos fundamentais para o desenvolvimento da atividade heurística. As autoras destacam que o educador deve planejar cuidadosamente os objetos que serão disponibilizados às crianças, garantindo variedade de formas, texturas, tamanhos e pesos, de modo a ampliar as possibilidades de exploração.

Esses materiais não precisam ser brinquedos estruturados ou industrializados. Pelo contrário, muitas vezes são utilizados objetos simples do cotidiano, como tampas, colheres de madeira, tecidos, caixas, argolas, correntes, pinhas, conchas e outros elementos naturais. Esses materiais despertam o interesse das crianças porque permitem múltiplas formas de manipulação e exploração, favorecendo a experimentação e a descoberta.

Além da organização do ambiente, outra dimensão essencial do trabalho do educador na abordagem heurística é a observação atenta das ações das crianças. Durante as atividades, o professor acompanha os movimentos, escolhas e interações das crianças com os objetos, procurando compreender como cada uma delas investiga o ambiente e constrói significados a partir de suas experiências.

Essa observação sensível permite identificar interesses, curiosidades e estratégias utilizadas pelas crianças para explorar os materiais. Ao registrar essas observações, o educador passa a compreender melhor os processos de aprendizagem que emergem no cotidiano da instituição educativa, possibilitando a organização de propostas pedagógicas mais coerentes com as necessidades e interesses das crianças.

Outro aspecto importante refere-se à postura do educador diante da atividade. Diferentemente de abordagens mais diretivas, na proposta heurística o professor evita interferir constantemente nas ações das crianças. Em vez disso, procura respeitar o tempo de exploração de cada uma delas, permitindo que experimentem diferentes possibilidades antes de oferecer orientações ou sugestões.

Essa atitude pedagógica exige sensibilidade e confiança nas capacidades investigativas das crianças. Ao permitir que elas explorem o ambiente com autonomia, o educador reconhece a criança como protagonista de seu próprio processo de aprendizagem. Essa perspectiva valoriza a iniciativa infantil e fortalece o desenvolvimento da autonomia, da criatividade e da capacidade de resolução de problemas.

Além disso, o educador exerce um papel fundamental na construção de um ambiente seguro e acolhedor, no qual as crianças se sintam confiantes para experimentar e descobrir novas possibilidades. O cuidado com a organização do espaço, a escolha dos materiais e o acompanhamento atento das atividades contribuem para garantir que as experiências de exploração ocorram de forma significativa e segura.

Outro elemento importante no trabalho pedagógico refere-se ao registro das experiências vividas pelas crianças. Fotografias, anotações e relatos podem ser utilizados pelo educador como instrumentos de reflexão sobre a prática pedagógica. Esses registros permitem revisitar as experiências das crianças, analisar seus processos de aprendizagem e planejar novas propostas que ampliem suas possibilidades de exploração.

Dessa forma, o papel do educador na abordagem heurística envolve um conjunto de ações que vão desde a organização do ambiente até a observação e a reflexão sobre as experiências vividas pelas crianças. Trata-se de uma prática pedagógica que exige sensibilidade, escuta e disponibilidade para reconhecer o valor das pequenas descobertas que emergem no cotidiano da Educação Infantil.

Ao assumir essa postura investigativa e mediadora, o educador contribui para a construção de ambientes educativos mais ricos, nos quais as crianças possam experimentar, explorar e desenvolver suas potencialidades. Assim, a abordagem heurística reafirma a importância de práticas pedagógicas que respeitem a curiosidade natural da infância e reconheçam as crianças como sujeitos ativos na construção do conhecimento.

8. FORMAÇÃO DOCENTE E NARRATIVAS DE PROFESSORES

A formação de professores constitui um elemento central na construção de práticas pedagógicas que respeitem as necessidades da infância.

Segundo Clandinin e Connelly (2015), os professores constroem significados sobre sua prática por meio das experiências que vivem e das histórias que contam sobre essas experiências. Para os autores, “somos seres narrativos que habitam mundos narrativos” (Clandinin; Connelly, 2015, p. 17).

Nesse sentido, ouvir as narrativas docentes torna-se fundamental para compreender os desafios enfrentados pelos educadores no cotidiano escolar.

Ao compartilhar suas experiências, os professores refletem sobre suas práticas e constroem novos sentidos para sua atuação pedagógica.

9. DESAFIOS PEDAGÓGICOS NA ERA DIGITAL

A presença das tecnologias digitais na sociedade contemporânea tem provocado profundas transformações nas formas de comunicação, interação social e acesso à informação. Esses avanços tecnológicos têm impactado também o universo da infância, introduzindo novos elementos no cotidiano das crianças desde os primeiros anos de vida. Dispositivos como celulares, tablets, computadores e televisores passaram a ocupar um espaço significativo nas rotinas familiares, influenciando as formas de brincar, interagir e explorar o mundo.

Nesse contexto, a Educação Infantil se vê diante de novos desafios pedagógicos. As instituições educativas recebem crianças que já estão inseridas em uma cultura digital marcada pela rapidez das informações, pela multiplicidade de estímulos e pela presença constante de imagens e sons. Os educadores, portanto, precisam lidar com uma geração que cresce em meio a diferentes tecnologias, ao mesmo tempo em que buscam garantir experiências de aprendizagem que respeitem as necessidades do desenvolvimento infantil.

Esse cenário exige uma reflexão contínua sobre o papel da escola na contemporaneidade. A Educação Infantil não pode se limitar a reproduzir práticas tradicionais ou simplesmente incorporar tecnologias de forma acrítica. Pelo contrário, torna-se necessário compreender de que maneira essas transformações culturais impactam a infância e quais caminhos pedagógicos podem contribuir para um desenvolvimento mais equilibrado das crianças.

Nesse sentido, as instituições educativas têm a responsabilidade de oferecer experiências que ampliem as possibilidades de interação, descoberta e aprendizagem. As crianças pequenas aprendem principalmente por meio da exploração do ambiente, do contato com diferentes materiais, do movimento do corpo e das relações estabelecidas com outras pessoas. Essas experiências concretas são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo, social e emocional.

De acordo com a Base Nacional Comum Curricular, as práticas pedagógicas na Educação Infantil devem ter como eixos estruturantes as interações e as brincadeiras. O documento afirma que:

“Na Educação Infantil, as aprendizagens e o desenvolvimento das crianças têm como eixos estruturantes as interações e as brincadeiras.”
(Brasil, 2017, p. 36).

Essa orientação reforça a importância de práticas educativas que valorizem o brincar, a experimentação e as relações sociais como elementos centrais do processo de aprendizagem na infância.

Diante da expansão das tecnologias digitais, um dos principais desafios pedagógicos consiste em encontrar um equilíbrio entre o uso dessas ferramentas e a garantia de experiências que favoreçam o desenvolvimento integral das crianças. A escola precisa reconhecer a existência da cultura digital, mas também preservar espaços de convivência, exploração e criatividade que não dependam exclusivamente das telas.

Outro desafio importante refere-se ao papel do professor nesse contexto. O educador assume uma função fundamental na mediação das experiências infantis, organizando ambientes que favoreçam a curiosidade, a investigação e o protagonismo das crianças. Mais do que transmitir conteúdos, o professor atua como observador atento e mediador das descobertas realizadas pelas crianças em suas interações com o ambiente.

Além disso, torna-se essencial que os profissionais da Educação Infantil desenvolvam uma postura reflexiva diante das transformações sociais e culturais da contemporaneidade. A formação docente precisa contemplar discussões sobre o impacto das tecnologias na infância, permitindo que os educadores compreendam melhor as experiências vividas pelas crianças e construam estratégias pedagógicas mais adequadas.

Outro aspecto relevante diz respeito à parceria entre escola e família. Como grande parte do contato das crianças com dispositivos digitais ocorre no ambiente doméstico, é importante que as instituições educativas promovam diálogos com as famílias sobre o uso equilibrado das tecnologias e sobre a importância de experiências diversificadas na infância. Essa parceria pode contribuir para ampliar a compreensão sobre as necessidades das crianças e fortalecer práticas educativas que favoreçam seu desenvolvimento.

Dessa forma, o desafio pedagógico na era digital não consiste simplesmente em rejeitar ou demonizar o uso da tecnologia, mas em compreender seus impactos e buscar caminhos educativos que valorizem a experiência humana. A Educação Infantil deve priorizar práticas que promovam o brincar, a curiosidade, a imaginação, a interação social e a exploração do ambiente.

Ao garantir espaços e tempos para que as crianças possam experimentar, investigar e criar, a escola contribui para a construção de experiências de aprendizagem mais ricas e significativas. Assim, mesmo diante das transformações tecnológicas da sociedade contemporânea, a Educação Infantil mantém seu compromisso fundamental: assegurar condições para que as crianças desenvolvam plenamente suas potencialidades e construam relações significativas com o mundo que as cerca.

10. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As transformações tecnológicas que caracterizam a sociedade contemporânea têm provocado mudanças significativas nas formas de interação social, comunicação e acesso à informação. Nesse contexto, o avanço das tecnologias digitais tem alcançado também o universo da infância, modificando, de diferentes maneiras, as experiências vividas pelas crianças desde os primeiros anos de vida. O uso crescente de dispositivos digitais, como celulares, tablets e televisores, passou a fazer parte do cotidiano familiar e, consequentemente, das rotinas das crianças pequenas. Esse cenário suscita importantes reflexões acerca dos impactos dessas tecnologias no desenvolvimento infantil e na organização das práticas educativas.

Embora as tecnologias digitais façam parte da realidade atual e possam oferecer diferentes possibilidades de acesso à informação e entretenimento, é fundamental reconhecer que o desenvolvimento das crianças na primeira infância está profundamente relacionado às experiências concretas que vivenciam em seu cotidiano. A exploração do ambiente, o contato com diferentes materiais, o movimento do corpo, as interações com outras crianças e adultos e as experiências sensoriais constituem elementos essenciais para a construção de conhecimentos e para o desenvolvimento integral.

Nesse sentido, diversos estudos na área da Educação Infantil apontam que a aprendizagem das crianças pequenas ocorre de maneira ativa e experiencial. A criança aprende ao manipular objetos, ao investigar o ambiente, ao brincar e ao estabelecer relações com outras pessoas. Essas experiências favorecem o desenvolvimento da curiosidade, da imaginação, da linguagem e das habilidades sociais, elementos fundamentais para a formação do sujeito.

Diante desse cenário, torna-se necessário refletir sobre o papel das instituições de Educação Infantil na promoção de experiências significativas para as crianças. As creches e pré-escolas assumem um papel fundamental na garantia de práticas pedagógicas que valorizem o brincar, a interação e a exploração do mundo. Nesse contexto, a abordagem pedagógica heurística apresenta-se como uma proposta relevante para o trabalho educativo com crianças pequenas.

A abordagem heurística baseia-se na ideia de que as crianças são naturalmente curiosas e investigativas, buscando compreender o mundo a partir da exploração de objetos e materiais. Ao oferecer diferentes elementos para manipulação e experimentação, essa proposta pedagógica estimula a autonomia, a criatividade e a capacidade investigativa das crianças. Além disso, permite que cada criança construa suas próprias descobertas, respeitando seus ritmos e interesses.

Ao valorizar o brincar livre e a exploração de objetos do cotidiano, a proposta heurística contribui para ampliar as possibilidades de aprendizagem na Educação Infantil. Por meio dessas experiências, as crianças desenvolvem habilidades cognitivas, motoras e sociais, ao mesmo tempo em que constroem relações significativas com o ambiente e com os outros.

Outro aspecto importante refere-se ao papel do professor nesse processo. O educador atua como mediador das experiências infantis, organizando espaços, selecionando materiais e observando atentamente as ações das crianças. Essa postura pedagógica exige sensibilidade e escuta atenta, reconhecendo as crianças como protagonistas de seus processos de aprendizagem.

Assim, promover uma educação sensível às necessidades da infância implica compreender que aprender não se limita à aquisição de conteúdos formais. Aprender envolve experimentar, explorar, sentir, imaginar, brincar e interagir com o mundo. É por meio dessas experiências que as crianças constroem conhecimentos e desenvolvem suas potencialidades.

Dessa forma, refletir sobre o uso das tecnologias na infância não significa necessariamente negar sua presença na sociedade contemporânea, mas compreender a importância de equilibrar essas experiências com oportunidades de exploração concreta do ambiente e de interação social. Garantir espaços e tempos para o brincar, para a investigação e para a descoberta constitui um compromisso fundamental das instituições educativas.

Por fim, destaca-se que a construção de práticas pedagógicas comprometidas com o desenvolvimento integral das crianças exige também investimento na formação dos professores e na valorização da Educação Infantil como etapa fundamental da educação básica. Ao reconhecer a criança como sujeito de direitos e protagonista de suas aprendizagens, torna-se possível construir experiências educativas mais significativas, respeitosas e sensíveis às especificidades da infância.

É nesse encontro entre curiosidade, descoberta, interação e cuidado que se constroem as bases para o desenvolvimento humano. Promover uma educação que valorize essas dimensões significa contribuir para a formação de sujeitos mais críticos, criativos e capazes de compreender e transformar o mundo em que vivem.

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1 Pós graduada em Alfabetização e letramento, Psicopedagoga. Professora de Educação e Infantil na Prefeitura de Santo Andre no Estado de São Paulo.

2 Doutora (Titular/UMESP).