O USO DA TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO NOS ESCRITÓRIOS DE CONTABILIDADE

THE USE OF INFORMATION TECHNOLOGY IN ACCOUNTING OFFICES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780863190

RESUMO
Este estudo analisa o uso da Tecnologia da Informação em escritórios contábeis, traçando um comparativo entre empresas estabelecidas no período de nos últimos 5 anos e aquelas com ou mais de 30 anos de atuação no mercado de Imperatriz, no Estado do Maranhão. A pesquisa, de natureza aplicada e abordagem qualitativa, utilizou-se de um questionário estruturado aplicado a uma amostra intencional de 51 escritórios, sendo 41 recentes e 10 tradicionais. Apesar da baixa taxa de resposta (16 respostas válidas), os resultados revelam um cenário de contrastes: os escritórios mais recentes adotam uma postura mais inovadora, com infraestrutura em nuvem (92,3%), uso de CRM (61,5%) e planos de investimento em Inteligência Artificial (61,5%), resultando em ganhos de eficiência operacional, redução de erros e maior diversificação de serviços. Em oposição, os escritórios tradicionais demonstram uma cultura mais conservadora, com preferência por infraestrutura própria (66,7%), manutenção de processos manuais e documentos físicos, e foco em tecnologias consolidadas, como a automação de processos (RPA). O principal desafio para a modernização identificado foi o custo de implementação para os novos escritórios e a resistência à mudança por parte dos profissionais nos tradicionais. Conclui-se que a TI é um divisor de águas para a competitividade, sendo sua adoção estratégica e a capacitação contínua dos profissionais fatores determinantes para o sucesso e a sustentabilidade dos escritórios contábeis na era digital.
Palavras-chave: tecnologia da informação; contabilidade digital; inovação; escritórios contábeis; Imperatriz.

ABSTRACT
This study analyzes the use of Information Technology in accounting firms, comparing firms established in the last five years with those with 30 or more years of experience in the market in Imperatriz, Maranhão state. The applied research, with a qualitative approach, used a structured questionnaire administered to a purposive sample of 51 firms, 41 of which were newly established and 10 were traditional. Despite the low response rate (16 valid responses), the results reveal a contrasting scenario: the newer firms adopt a more innovative approach, with cloud infrastructure (92.3%), use of CRM (61.5%), and investment plans in Artificial Intelligence (61.5%), resulting in gains in operational efficiency, reduced errors, and greater service diversification. In contrast, traditional firms demonstrate a more conservative culture, with a preference for in-house infrastructure (66.7%), maintenance of manual processes and physical documents, and a focus on established technologies such as process automation (RPA). The main challenge identified for modernization was the implementation cost for new offices and resistance to change among professionals in traditional firms. The conclusion is that IT is a game-changer for competitiveness, with its strategic adoption and ongoing professional development being key factors in the success and sustainability of accounting firms in the digital age.
Keywords: information technology; digital accounting; innovation; accounting offices; Imperatriz.

1. INTRODUÇÃO

Os escritórios de contabilidade enfrentam um cenário de rápida transformação tecnológica, com a utilização de tecnologias da informação (TI) se tornando essencial para a competitividade. Segundo Santos, Araújo e Ceolin (2023) os escritórios precisam se adequar às necessidades de seus clientes adotando novas tecnologias. Inovar é praticar uma estratégia de competitividade, pois permite às empresas superar a concorrência e agregar valor ao que é produzido e prestado (SEBRAE, 2022).

A contabilidade trabalha com uma vasta gama de informações e sem investimentos em automatização de processos fica inviável competir. Segundo Pinto e Cunha (2021) as empresas, ao automatizar processos, conseguem passar maior transparência e credibilidade aos clientes, e a informação chega mais rápida e segura ao governo.

Corroborando com isso, para Laudon e Laudon (2007) afirmam que os Sistemas de Informações (SIs) são importantes meios para ajudar as organizações a alcançarem seus objetivos.

Essas tecnologias são cruciais para a área contábil. Um dado dessa realidade é uma pesquisa realizada pela Assespro Paraná que mostrou que o número de empresas de TI no Brasil triplicou entre os anos de 2012 e 2021, passando de 13,4 para 36,9 mil (Nicoceli, 2022). O uso da TI em escritórios de contabilidade pode envolver cloud computing, automação de processo e integração de sistemas (Silva et al., 2016; Franco et al., 2020; Pinto e Cunha., 2021). Em estudo realizado com profissionais contábeis da cidade de Araraquara-SP, Santos e Santos (2023) constataram que o uso de TI simplifica e padroniza as obrigações fiscais e reduz tarefas repetitivas, permitindo mais interação com os clientes (SANTOS; SANTOS, 2023).

A implementação de soluções como softwares integrados à automação de tarefas rotineiras mudou a operação dos escritórios: o que demandava semanas para ser feito, foi resolvido em dias. Além disso, Resende et al., (2014) afirmam que as informações são repassadas de maneira mais rápida ao fisco, clientes e investidores. Apesar dos benefícios, muitos escritórios ainda encontram barreiras na adaptação a TI, seja por falta de infraestrutura, custo ou necessidade de treinamento.

Diante disso, este trabalho tem como objetivo analisar o uso da tecnologia da informação nos escritórios de contabilidade na cidade de Imperatriz, tendo como interesse principal entender a realidade dos escritórios criados recentemente e também dos os que estão a mais tempo no mercado, para isso será feita uma comparação entre os escritórios fundados nos últimos 5 anos e os que estão no mercado há 30 anos ou mais.

Será realizada uma pesquisa por meio da aplicação de um questionário nos grupos de escritórios contábeis, com o intuito de identificar os desafios, benefícios e níveis de adoção dessas tecnologias. Haverá uma análise sobre a integração de TI nos processos diários e como essas ferramentas contribuem para as atividades gerais do escritório.

Este estudo é relevante porque o uso de TI garante eficiência, precisão e competitividade em um mercado cada vez mais exigente, onde a velocidade em que processos são feitos e o acesso às informações com rapidez é primordial para as empresas hoje em dia (Rezende et al., 2011). Além disso, novas tecnologias como a inteligência artificial estão revolucionando o setor contábil, proporcionando melhorias significativas na segurança dos dados e na precisão das análises financeiras. Ferramentas como o ChatGPT já são utilizadas para automatizar processos e oferecer insights em tempo real, otimizando o trabalho dos contadores e facilitando a interação com os clientes (Brito, 2024). Portanto, são necessários constantes estudos que analisem como se dá o uso da tecnologia nos escritórios na prática.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A contabilidade, enquanto sistema de informação, evoluiu paralelamente ao desenvolvimento das civilizações e das atividades econômicas (Iudícibus, 2010; Hansen, 2001). Seu marco formal moderno foi a disseminação do Método das Partidas Dobradas na Itália do século XV, impulsionado pelas obras de Luca Pacioli (Iudícibus; Marion, 1999).

As Revoluções Industriais posteriores foram catalisadoras de mudanças profundas na profissão. A Primeira e a Segunda Revolução Industrial, com a massificação da produção e o surgimento de grandes corporações, transformaram o papel do contador de um mero escriturador para um profissional responsável por técnicas mais sofisticadas, como a contabilidade de custos, essencial para a precificação e o controle da produção (Martins, 2010; Oliveira; Santos; Amorim, 2023).

No entanto, a transformação mais radical ocorreu com a Terceira Revolução Industrial e o advento da digitalização, que marcou a transição dos registros físicos para o ambiente digital. Este processo se intensificou com a Quarta Revolução Industrial (Indústria 4.0), caracterizada pela convergência de sistemas ciber-físicos, Internet das Coisas (IoT) e Big Data, dando origem ao conceito de Contabilidade 4.0 (Coelho, 2016; Souza e Gasparetto, 2018). A Contabilidade 4.0 utiliza essas inovações para integrar dados em tempo real, analisar grandes volumes de informação e automatizar processos complexos, impactando significativamente a competitividade dos escritórios.

Neste contexto, a Inteligência Artificial (IA) e o Machine Learning emergem como tecnologias-chave, sendo aplicadas para automatizar tarefas repetitivas (como reconciliação de contas e emissão de faturas), fornecer análises preditivas, detectar fraudes e melhorar a comunicação com clientes através de chatbots (Pauleski, 2023; Costa; Costa, 2024). Ferramentas como a Automação Robótica de Processos (RPA) auxiliam na emissão de certidões e coleta de dados fiscais, eliminando erros manuais. O contador, portanto, vê seu papel transformado: de especialista em números para gestor de dados e estrategista, que utiliza a tecnologia para otimizar processos e apoiar a tomada de decisão em um ambiente de negócios dinâmico.

Quadro 1: Tecnologias da Informação aplicadas à Contabilidade

Componentes

Aplicações e benefícios na Contabilidade

Desafios/Limitações

Autores

Automação e RPA na Contabilidade

Reconciliação de contas, emissão de notas fiscais, relatórios financeiros, web scraping. Os benefícios envolvem: Redução de erros humanos; aumento da eficiência; diminuição de custos (30% a 50%); foco em atividades estratégicas.

Necessidade de investimento inicial; adaptação dos colaboradores.

SEBRAE (2023); Franco et al. (2020).

Impacto da Cloud Computing

Armazenamento e acesso remoto de dados e softwares; contabilidade em nuvem; automação integrada. Redução de custos com infraestrutura; maior segurança (criptografia, backups, autenticação 2FA); flexibilidade de acesso; suporte ao trabalho remoto.

Latência de rede; riscos à privacidade dos dados; dependência de internet.

CFC (2023); Carvalho (2018).

Inteligência Artificial, Machine Learning e Big Data

Análise preditiva; detecção de fraudes; classificação e regressão; análise de grandes volumes de dados. Benefícios: Rapidez e precisão na análise; relatórios estratégicos; redução de falhas cognitivas humanas; vantagem competitiva com BDA.

Complexidade de implementação; necessidade de profissionais capacitados; custos de tecnologia.

Duarte (2018); Schwindt; Costa (2021); Zaniboni; Montini (2019); UVA (2024); Araújo (2021).

Fonte: Elaborado pelos autores (2025)

A integração de novas tecnologias aos sistemas contábeis existentes representa um desafio significativo. Conforme apontam Franco et al. (2020) e UniFOA (2024), os principais obstáculos incluem: a incompatibilidade de sistemas legados com novas soluções (especialmente em nuvem), a complexidade técnica e os custos elevados de implementação (envolvendo hardware, software e treinamento), possíveis interrupções operacionais durante a transição e a necessidade de treinamento e adaptação das equipes. Questões como o receio de corrupção de dados e a insegurança quanto às informações geradas também são barreiras comuns.

É frequente que inovações encontrem resistência inicial. Contudo, os profissionais que aceitam as transformações e investem em educação continuada podem obter vantagens significativas, oferecendo serviços mais eficientes e estratégicos (CFC, 2019; Controller, 2023). Apesar da automação de funções manuais, a presença do profissional capacitado para gerenciar e interpretar os dados gerados pela tecnologia é mais crucial do que nunca. Schwindt e Costa (2021) alertam que a subutilização dos recursos tecnológicos disponíveis, devido à falta de capacitação, resultará em um impacto negativo para a contabilidade.

Superar essas barreiras exigirá investimentos contínuos em treinamento e uma mudança cultural dentro das organizações. O uso da tecnologia na contabilidade é uma tendência irreversível, e os escritórios que adotam soluções tecnológicas estão se destacando no mercado por sua agilidade e precisão, tornando a contabilidade cada vez mais estratégica

3. METODOLOGIA

Quanto aos métodos adotados nesta pesquisa, inicialmente foi realizada uma pesquisa bibliográfica, fundamentada em livros, artigos e redes eletrônicas, seguindo a abordagem proposta por Gil (2002) para estudos exploratórios. Além disso, optou-se por uma pesquisa de campo, com a aplicação de questionários, contendo perguntas objetivas e subjetivas direcionadas aos gestores e funcionários dos escritórios contábeis, com o objetivo de atender às finalidades do estudo, corroborando com Gonçalves (2001), que afirma que a pesquisa de campo é caracterizada como um método que busca obter informações diretamente da população estudada, exigindo do pesquisador uma interação mais próxima.

O universo da pesquisa foi composto por 131 escritórios contábeis listados como ativos e localizados na cidade de Imperatriz, estado do Maranhão, conforme dados do Conselho Regional de Contabilidade do Estado do Maranhão (CRC-MA) em 2024. Para compor a amostra, foi necessário aplicar critérios de seleção intencional que atendessem ao objetivo comparativo do estudo. Desse universo total, foram selecionados apenas os escritórios que se enquadravam em um dos dois perfis de interesse: (a) escritórios fundados nos últimos 5 anos; e (b) escritórios com 30 ou mais anos de atuação no mercado.

O processo de identificação e triagem desses escritórios envolveu a consulta a plataformas como a Receita Federal do Brasil (RedeSim) e a Econodata para cruzar dados e confirmar a data de abertura/fundação de cada empresa. Dos 131 escritórios iniciais, aqueles que não se encaixavam nesses dois critérios temporais (por exemplo, escritórios com entre 5 e 29 anos de existência) foram excluídos da amostra-alvo. O que representa um total de 80 escritórios excluídos.

Dessa forma, a amostra final, não probabilística e intencional, foi constituída por 51 escritórios, sendo 41 enquadrados no perfil de fundação recente (últimos 5 anos) e 10 no perfil tradicional (30 anos ou mais de mercado). A seleção baseou-se na premissa de que escritórios mais antigos poderiam apresentar maior resistência à inovação tecnológica, enquanto os mais recentes nasceram em um contexto digital mais avançado, permitindo a análise contrastante proposta.

Para contactar os grupos de interesse foi necessária a realização de buscas de dados cadastrais dos escritórios e para isso utilizou-se a triangulação de fontes (Yin 2001), combinando dados do CRC-MA com plataformas como Econodata e da Receita Federal do Brasil - RedeSim. A pesquisa foi estruturada em dois escopos principais, sendo um grupo com 41 escritórios fundados nos últimos 5 anos e 10 escritórios com 30 ou mais anos. Os dados foram coletados entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, levando em consideração as diferenças de adoção de TI em ambos os grupos.

Para realizar essa coleta de dados e garantir clareza e cobertura do tema, utilizou-se o mesmo questionário para ambos os grupos, dividido em sete seções, conforme os tópicos a seguir:

  • Características do pesquisado

  • Características do escritório;

  • Infraestrutura de TI;

  • Efeitos do uso de TI;

  • Investimentos, riscos e benefícios;

  • Impacto nas relações com clientes;

  • Futuro da TI no escritório.

Este questionário foi adaptado do artigo "Contabilidade e o uso de tecnologias de informação: Efeitos em escritórios de contabilidade” de Pinto e Cunha (2021), passando por uma revisão e validação para adequação ao contexto atual e objetivos do trabalho e, em seguida, utilizou-se a plataforma Google Forms para estruturação de todas as questões.

A realização da aplicação dos questionários ocorreu entre 12 de dezembro de 2024 e 13 de fevereiro de 2025. O contato inicial com os escritórios deu-se por ligação, com uma breve apresentação dos pesquisadores e justificativa do contato, logo em seguida foram enviados links da plataforma Google Forms, por meio de Whatsapp e e-mail dos escritórios alvos da pesquisa e que aceitaram participar. Os dados coletados foram processados inicialmente pela própria plataforma do Google Forms e na sequência foram tratados e analisados pelos pesquisadores realizando-se uma comparação entre os resultados obtidos dos dois grupos.

Como resultado, foram obtidas 13 respostas válidas para o grupo de escritórios fundados nos últimos 5 anos e 3 respostas para o grupo com 30 anos ou mais de mercado. O relativamente baixo percentual de participação e obtenção de respostas para o questionário reflete um cenário global de aumento das taxas de não resposta em pesquisas, especialmente em contextos pós-pandêmicos (FARIA, 2024).

Os resultados obtidos foram analisados a partir de comparações entre os dois grupos, primeiramente foram observadas as respostas do grupo dos escritórios fundados nos últimos 5 anos e foi-se observando as respostas que estavam mais alinhadas com o pressuposto da pesquisa, o uso de TI em escritórios de contabilidade. Em seguida, foram analisadas as respostas do grupo com 30 ou mais anos, observando- se a resistência com o uso de TI. E por fim, comparou-se os resultados obtidos, com o intuito de saber quais pontos chamaram mais atenção e quais aspectos comuns em cada grupo. No próximo capítulo segue a análise desses resultados.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Este capítulo apresenta a análise e discussão dos dados coletados por meio do questionário aplicado aos dois grupos de escritórios contábeis de Imperatriz: aqueles fundados nos últimos 5 anos e aqueles com 30 ou mais anos de mercado. A análise está organizada conforme as sete seções do instrumento de pesquisa, permitindo uma comparação sistemática entre os perfis, as infraestruturas, os impactos e as perspectivas futuras de ambos os grupos em relação à adoção de Tecnologia da Informação (TI). Os resultados revelam um contraste significativo entre a postura inovadora dos escritórios recentes e a abordagem mais conservadora dos tradicionais, o que será detalhado a seguir.

4.1. Características dos Participantes da Pesquisa

A análise do perfil dos gestores entrevistados revela diferenças marcantes entre os grupos, que refletem culturas organizacionais distintas. Nos escritórios tradicionais, todos os respondentes eram do sexo masculino, enquanto nos mais recentes foi registrada uma participação feminina de 25%, indicando uma lenta, porém perceptível, abertura a uma maior diversidade de gênero em cargos de gestão.

A disparidade é ainda mais evidente na análise da faixa etária. A gestão dos escritórios novos é predominantemente exercida por profissionais com idade entre 36 e 41 anos (30,8%) e acima de 42 anos (23,1%), sugerindo que a experiência é um ativo valorizado nesses negócios emergentes. Em contraste, nos escritórios tradicionais, 66,7% dos respondentes encontram-se na faixa de 24 a 29 anos. Este dado, aliado à longevidade das empresas, sugere um processo de renovação geracional ou a migração de profissionais seniores para estruturas mais modernas, um fenômeno apontado na literatura (Machado, 2020).

Quanto à hierarquia, nota-se que 53,8% dos respondentes dos novos escritórios são sócios ou proprietários, indicando estruturas mais planas e centralizadas. Nos tradicionais, houve uma distribuição equilibrada entre auxiliares, analistas e sócios (33,3% cada), refletindo uma estrutura hierárquica mais tradicional e consolidada.

4.2. Características dos Escritórios

A análise do perfil operacional confirma a dicotomia entre os grupos. Os escritórios novos caracterizam-se predominantemente como microempresas (61,5% com 1-5 funcionários), adotando um modelo enxuto e flexível. Em oposição, a maioria dos escritórios tradicionais (66,7%) possui mais de 20 funcionários, denotando uma estrutura robusta e consolidada.

Essa diferença se reflete na estratégia de portfólio. Enquanto ambos os grupos oferecem serviços essenciais (fiscal e folha de pagamento), os escritórios recentes diversificam significativamente sua oferta, com forte presença de contabilidade societária (84,6%) e gerencial (76,9%), além de incursões em serviços especializados como assessoria em licitação.

Os escritórios tradicionais, por sua vez, mantêm um foco mais conservador e burocrático, concentrando-se em serviços tributários (100%) e com baixa adesão a serviços de natureza mais estratégica, como a contabilidade societária (33,3%). Este cenário corrobora os achados de Fernandes et al. (2018), sugerindo que os novos escritórios buscam se posicionar como parceiros estratégicos, rompendo com o modelo tradicional centrado na compliance fiscal.

4.3. Infraestrutura de TI

A análise da infraestrutura de TI evidencia claramente as posturas distintas de cada grupo perante a tecnologia. Os escritórios novos apresentam uma nítida preferência por infraestrutura terceirizada e baseada em nuvem (61,5%), uma escolha estratégica que favorece a flexibilidade, a escalabilidade e a redução de custos iniciais. Em oposição, os escritórios tradicionais demonstram uma aversão ao risco e uma cultura de controle, preferindo majoritariamente infraestrutura própria (66,7%).

Essa diferença filosófica se repete na escolha de ferramentas. Enquanto ambos os grupos utilizam sistemas de contabilidade consolidados, como por exemplo, Domínio, Fortes e Alterdata. Os escritórios recentes destacam-se também pelo uso do Domínio como também pela adoção significativamente maior de CRM (61,5%), indicando uma visão estratégica orientada para o relacionamento e a captação de clientes.

Na segurança de dados, a divergência é ainda mais acentuada: a esmagadora maioria dos novos escritórios (92,3%) adota a nuvem como principal repositório, confiando em provedores especializados. Os tradicionais, por outro lado, optam por uma estratégia híbrida (66,7%), mantendo servidores locais como forma de retenção de controle, uma postura caracteristicamente mais cautelosa.

4.4. Efeitos do Uso da TI

O impacto da TI foi drasticamente diferente entre os grupos, definindo sua eficiência e postura estratégica. Para os escritórios novos, um conjunto de tecnologias – SPED, Nuvem, Automação e IA – trouxe ganhos transversais em conformidade fiscal, eficiência operacional e redução de erros. Eles operam em um ambiente quase totalmente digitalizado (69,2% aboliram documentos físicos), utilizando um ecossistema integrado de software de gestão, plataformas de comunicação e ferramentas de análise. Este modelo gera benefícios que permeiam diversas áreas, da contabilidade ao atendimento ao cliente, e exige uma contínua qualificação técnica de seus colaboradores (76,9%), realinhando o papel do contador para funções estratégicas.

Em nítido contraste, o uso da TI nos escritórios tradicionais é pontual e conservador. Restringe-se quase que exclusivamente ao SPED Contábil, visto primariamente como ferramenta de compliance e redução de erros, e não como um motor de eficiência. A completa dependência de documentos físicos (100%) e a manutenção de processos manuais críticos, como o cálculo de folha em planilhas (66,7%), revelam uma resistência cultural à mudança e uma subutilização do potencial tecnológico. Consequentemente, os benefícios ficam confinados às áreas contábil e fiscal, não se irradiando para a gestão como um todo. Esta postura, conforme alertado na literatura (Andrade e Mehlecke, 2020; Moretti et al., 2020), não só compromete a eficiência atual como também ameaça a competitividade futura desses escritórios.

4.5. Investimentos, Riscos e Benefícios

Os investimentos em TI e seus resultados são sumarizados de forma contrastante na Tabela 2. A análise dos dados revela que o principal desafio para a modernização é o custo de implementação para os escritórios novos (90,9%), enquanto nos tradicionais a maior barreira é a resistência à mudança cultural por parte dos profissionais (66,7%). Ambos os grupos reportaram reduções de custos operacionais e mitigação de riscos, porém em intensidades distintas, e priorizam o treinamento interno para capacitação, ainda que com focos de investimento futuro diferentes: inteligência artificial para os mais recentes e automação de processos (RPA) para os tradicionais.

Quadro 2: Comparativo de investimentos, benefícios e desafios na adoção de TI entre escritórios recentes e tradicionais

Escritórios

Pós pandemia

30 anos ou mais

Infraestrutura própria

54,50%

66,70%

Backup de dados

Nuvem 90,9%

Nuvem 66,7%

Investimentos futuros

72,7% em capacitação dos profissionais

100% aquisição de hardware

Impactos gerados

Redução de custos operacionais de 54,6%; 45,5% dos riscos fiscais foram reduzidos

Redução de custos operacionais de 33,3%; 50% dos riscos operacionais foram reduzidos

Área mais beneficiada

Contabilidade 81,8%

Contabilidade 100%

Investimentos futuros

Inteligência artificial 54,5%

Automação de processos 66,7%

Desafios para implementar TI

90,9% custo para implantar tecnologia

Resistência à mudança dos profissionais 66,7%

Treinamentos

54,5% oferece suporte para capacitação

66,7% oferece suporte para capacitação

Fonte: Dados da pesquisa (2025).

4.6. Impactos nas Relações com os Clientes

A adoção de tecnologias digitais impactou positivamente a dinâmica de relacionamento com os clientes em ambos os grupos, embora por motivos distintos. Para os tradicionais (100%), a tecnologia modernizou canais de comunicação e agilizou processos cruciais, como o envio de documentos. Para os novos escritórios (72,7%), ela foi um pilar para um modelo de negócio já inerentemente digital.

O resultado mais tangível desse investimento foi o crescimento da carteira de clientes, relatado por 100% dos escritórios tradicionais e 63,6% dos recentes. A eficiência operacional, a redução de erros e a agilidade no atendimento, viabilizadas pela TI, foram apontadas como fatores-chave para essa atração e retenção de novos negócios, consolidando a tecnologia como um diferencial competitivo essencial na percepção do cliente.

4.7. Futuro da TI nos Escritórios

As perspectivas futuras confirmam a divergência estratégica entre os grupos. Os escritórios novos demonstram forte interesse em tecnologias disruptivas, com 61,5% planejando investir em Inteligência Artificial e 53,8% em Automação Robótica de Processos (RPA). Curiosamente, apenas 15,4% priorizam a computação em nuvem, o que sugere uma possível falta de visão sistêmica, já que a nuvem é a base para tais inovações. Em nítido contraste, os escritórios tradicionais mantêm seu perfil conservador, focando em RPA (66,7%) e computação em nuvem (33,3%), com nenhum interesse declarado em IA.

Os principais obstáculos percebidos também divergem: para os novos, a barreira é predominantemente financeira (custo de implementação, 92,3%), enquanto para os tradicionais, o maior desafio é cultural (resistência à mudança, 66,7%). Ambos os grupos reconhecem a necessidade de capacitação, priorizando o treinamento interno, embora parte dos novos escritórios delegue essa responsabilidade aos próprios funcionários, potencialmente sobrecarregando equipes enxutas.

5. CONCLUSÃO

Este estudo analisou o uso da tecnologia da informação (TI) em escritórios contábeis de Imperatriz, comparando empreendimentos recentes (últimos 5 anos) com tradicionais (30+ anos de mercado). Os resultados demonstram que, apesar da disparidade temporal, os escritórios novos não apenas se equiparam, mas em diversos aspectos, superam os tradicionais na adoção estratégica de TI, posicionando-se de forma mais competitiva na era digital.

A análise revelou um nítido contraste entre os perfis dos gestores e das operações. Nos escritórios recentes, identificou-se uma gestão mais diversa e experiente, associada a estruturas organizacionais mais planas e centralizadas. Operando majoritariamente como microempresas, esses escritórios adotam um modelo enxuto e flexível, com um portfólio de serviços ampliado que transcende a compliance fiscal. Esta postura inovadora é sustentada por uma infraestrutura de TI predominantemente terceirizada e baseada em nuvem, com alta adoção de ferramentas como CRM e um ambiente quase totalmente digitalizado.

Em oposição, os escritórios tradicionais, com estruturas consolidadas e maiores, mantêm um perfil conservador, focado em serviços burocráticos e com uma cultura de aversão ao risco que se reflete na preferência por infraestrutura própria e na manutenção de processos manuais e documentos físicos.

O impacto da TI foi, consequentemente, distinto. Para os escritórios novos, as tecnologias proporcionaram ganhos transversais de eficiência, redução de erros e agilidade, impactando positivamente desde as áreas fim até o relacionamento com o cliente e a captação de novos negócios. Para os tradicionais, o uso da TI restringe-se a ganhos pontuais de produtividade, confinados principalmente às áreas contábil e fiscal.

Os investimentos e desafios também espelham essa dicotomia: o custo é a principal barreira para os novos, enquanto a resistência cultural à mudança é o maior obstáculo para os tradicionais. Quanto ao futuro, os novos escritórios vislumbram tecnologias disruptivas como IA, ainda que sem uma estratégia clara de infraestrutura em nuvem, enquanto os tradicionais focam em automação de processos (RPA), mantendo a postura cautelosa.

Conclui-se que a TI atua como um divisor de águas na competitividade dos escritórios contábeis. A adoção estratégica e a capacitação contínua emergem como fatores determinantes para o sucesso e a sustentabilidade do negócio. Os escritórios tradicionais, para manterem sua relevância, precisarão superar barreiras culturais profundas, enquanto os novos devem evoluir para uma visão mais sistêmica e integrada de sua infraestrutura tecnológica.

A contabilidade mudou nos últimos 5 anos, sendo necessário uma interação cada vez maior no mundo da tecnologia. Foi possível identificar que esse é um ramo crescente e que se tem muito para se explorar e investir, para uma contínua facilidade nas demandas dentro dos escritórios

Durante a realização do estudo, foram encontradas algumas limitações relacionadas à aplicação do questionário. Sendo dificuldade em estabelecer contato com alguns escritórios e, em diversos casos, mesmo aqueles que inicialmente demonstraram interesse acabaram não respondendo. Isso resultou em um número reduzido de participantes, especialmente entre os escritórios tradicionais (apenas 3 respondentes). Essa disparidade pode impactar a representatividade dos resultados, tornando as comparações entre os grupos menos robustas.

Além disso, fatores como perfil dos clientes, porte financeiro e nível de maturidade tecnológica antes da adoção de TI não foram levadas em consideração, o que pode influenciar as conclusões. Para pesquisas futuras, recomenda-se uma amostra mais equilibrada e complementação com entrevistas, permitindo uma análise mais aprofundada sobre os desafios e motivações na adoção da TI pelos escritórios contábeis.

Sugere-se que para o sucesso dos escritórios experientes, como também de novos, será conseguir equilibrar investimentos em tecnologia, atualização constante dos softwares com a capacitação dos funcionários para a máxima utilização das novas ferramentas disponíveis no mercado, criando um ambiente de trabalho mais integrado e inovador, capaz de enfrentar os desafios do mercado com agilidade, confiança e modernidade. A tecnologia entra como uma aliada se usada da maneira correta.

Por fim, futuramente, recomenda-se a continuidade desse tema, que é de suma importância para o ramo contábil e que passa por constantes transformações. Sugere-se um estudo mais amplo, com uma amostra maior ou até mesmo conectando e fazendo uma comparação com outras regiões.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Discente do Curso de Ciências Contábeis da Universidade Federal do Maranhão, Centro de Ciências de Imperatriz. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente do Curso de Ciências Contábeis da Universidade Federal do Maranhão, Centro de Ciências de Imperatriz. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Doutor em Engenharia e Gestão do Conhecimento (Universidade Federal de Santa Catarina / Universidade Autónoma de Madrid). Mestre em Administração de Empresas (Universidade Federal do Ceará). Graduação em Economia (Universidade Federal do Maranhão). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Professora da Universidade Federal do Maranhão e pesquisadora do Grupo de Pesquisa Inovar (UFMA/CCSST) e do Grupo de pesquisa Sistemas Agroindustriais e Bioenergia (SABE). Doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (PPEGC/UFSC), mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (CPGA/UFSC) e graduada em Administração pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). Tem interesse de pesquisa nos seguintes temas: aprendizagem organizacional, gestão do conhecimento e capacidades dinâmicas para pequenas e médias empresas. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail