REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790022462
RESUMO
Esta revisão bibliográfica analisa o traço de caráter psicopático sob a perspectiva da Psicologia Corporal, fundamentando-se nas abordagens reichiana, pós-reichiana e neorreichiana. O objetivo do estudo consiste em delimitar a etiologia, as manifestações somáticas e a dinâmica existencial desse traço, diferenciando-o conceitualmente dos Transtornos de Personalidade Antissocial e Narcisista descritos na psiquiatria clássica. A metodologia adotada caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, exploratório-narrativa, pautada na leitura analítica de obras de referência de Wilhelm Reich, Federico Navarro e Alexander Lowen, além de produções científicas contemporâneas. Os resultados da análise evidenciam que o traço psicopático se origina de uma invasão traumática infantil que sabota a autonomia, culminando no desenvolvimento de uma couraça muscular rígida na porção superior do tronco e de um bloqueio diafragmático crônico. Conclui-se que essa estrutura defensiva, centrada no controle e no desenvolvimento de um falso self grandioso, encobre uma profunda vulnerabilidade oral. O manejo terapêutico baseado em técnicas de aterramento (grounding) e suavização da couraça muscular possibilita a integração somatopsíquica do indivíduo, permitindo-lhe transitar da busca neurótica por poder para a livre expressão de sua potência vital nas relações sociais e profissionais.
Palavras-chave: Caráter psicopático; Couraça muscular; Psicologia corporal; Análise bioenergética.
ABSTRACT
This literature review analyzes the psychopathic character trait from the perspective of Body Psychology, drawing on Reichian, post-Reichian, and neo-Reichian approaches. The objective of the study is to define the etiology, somatic manifestations, and existential dynamics of this trait, conceptually distinguishing it from the Antisocial and Narcissistic Personality Disorders described in classical psychiatry. The adopted methodology is characterized as qualitative, exploratory-narrative research based on the analytical reading of seminal works by Wilhelm Reich, Federico Navarro, and Alexander Lowen, as well as contemporary scientific literature. The results of the analysis demonstrate that the psychopathic trait originates from a traumatic childhood invasion that sabotages autonomy, culminating in the development of a rigid muscular armor in the upper torso and chronic diaphragmatic blockage. It is concluded that this defensive structure, centered on control and the maintenance of a grandiose false self, conceals a deep oral vulnerability. Therapeutic management based on grounding techniques and the softening of muscular armor enables the individual's somatopsychic integration, allowing a transition from the neurotic pursuit of power to the free expression of vital potency in social and professional relationships.
Keywords: Psychopathic character trait; Muscular armor; Body psychology; Bioenergetic analysis.
1. INTRODUÇÃO
Wilhelm Reich, o pai fundador das teorias das quais se originou o que hoje conhecemos como Psicologia Corporal, definiu a personalidade total do ser humano como “caráter”, os mecanismos psíquicos de resistência dessa personalidade como “couraça de caráter” e os correspondentes mecanismos corporais de defesa como “couraça muscular”, sendo esta última dividida nos segmentos: ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico (Reich, 1933/2014; 1942/2004). Vale ressaltar que o termo “couraça” é uma tradução para panzer, da língua alemã originária de Reich, que significa proteção ou tanque de guerra (Almeida, 2012), o que é plenamente coerente com o sentido de ser um mecanismo narcísico de defesa do ego tanto no plano psíquico, quanto no somático (Reich, 1933/2014).
Essa formulação teórica não se deu de forma abrupta, mas representou um dos saltos epistemológicos mais significativos na transição da psicanálise freudiana clássica para a clínica somática (Almeida, 2012). Na década de 1920, ao coordenar o Seminário de Técnica Psicanalítica de Viena, Reich começou a observar que as resistências mais difíceis de serem superadas no processo terapêutico não estavam necessariamente nos conteúdos verbais dos pacientes, mas sim na "forma" como se expressavam: no tom de voz, no andar, no sorriso irônico, na rigidez corporal ou no olhar esquivo (Reich, 1933/2014). A essa atitude corporal e comportamental crônica, estruturada como uma barreira de proteção contra as investidas do mundo externo e a liberação de impulsos internos reprimidos, Reich denominou resistência caracterológica (Reich, 1933/2014).
O avanço definitivo ocorreu quando Reich compreendeu que essa resistência psíquica encontrava uma tradução física idêntica, simultânea e materializada na musculatura do sujeito (Reich, 1942/2004). Ao postular o princípio da identidade funcional entre mente e corpo, ele estabeleceu que o bloqueio de uma emoção no plano psíquico equivale exatamente à tensão crônica de um grupo muscular no plano somático (Reich, 1942/2004). A couraça muscular do caráter revelou-se, portanto, como uma ancoragem física para as repressões infantis, moldando não apenas a fisiologia do indivíduo, mas também a sua postura existencial e sua forma de interagir com a realidade (Almeida, 2012).
Reich (1942/2004) considerou duas estruturas de caráter: a neurótica e a genital, bem como alguns tipos de caráter que conferem especificidades a cada estrutura – como o histérico, o passivo-feminino e o fálico-narcisista. Já nas contribuições da teoria pós-reichiana, Navarro (1995) avançou dizendo que na verdade existe apenas um caráter puro, o genital, e que todos os demais tipos seriam caracterialidades, estruturas de cobertura ou traços de caráter, que são resultados das fixações pré-genitais.
Para a Bioenergética, escola neorreichiana desenvolvida por Lowen e Pierrakos, foram considerados cinco traços de caráter neuróticos básicos: esquizoide, oral, psicopático, masoquista e rígido (Lowen, 1982). A partir deste ponto, o estudo atém-se exclusivamente às características do traço de caráter psicopático. Neste tópico, a discussão concentra-se no aspecto psicodinâmico, corporal e caracterológico, conforme a perspectiva da Psicologia Corporal, na qual esse traço é mais satisfatoriamente nomeado psicopático, e não no aspecto psicopatológico do Transtorno de Personalidade Antissocial descrito no DSM-5 (Associação Americana de Psiquiatria, 2014), popularmente conhecido pelo nome de psicopata e que, sem sombra de dúvidas, é um dos que mais chamam a atenção por enquadrar, justamente, sujeitos em conflitos graves com a sociedade e seus valores humanos mais básicos. Importante manter essa diferenciação bastante clara, ainda que possa ser intuitivo que tal Transtorno derive de um sujeito com o traço de caráter psicopático bastante evidente e profundamente agravado dentro do espectro narcisista.
Ademais, faz-se igualmente necessário demarcar a fronteira entre essa estrutura somática e o Transtorno da Personalidade Narcisista descrito no DSM-5 (Associação Americana de Psiquiatria, 2014). Se por um lado o termo 'psicopático' evoca intuitivamente a quebra de regras do Transtorno Antissocial, por outro, a performance de controle, sedução e centralização típica deste caráter assemelha-se fortemente à grandiosidade e à necessidade de admiração do Transtorno Narcisista. Contudo, em consonância com a perspectiva despatologizante da Psicologia Corporal, reitera-se que o traço psicopático não deve ser reduzido a essas categorias nosográficas rígidas; ele representa uma organização somatopsíquica defensiva, comum e adaptativa, estruturada para proteger o ego de invasões ambientais, e não um transtorno mental estático.
Diante desse panorama, o presente trabalho tem como objetivo realizar uma revisão narrativa e teórico-clínica da literatura sobre o traço de caráter psicopático sob a ótica da Psicologia Corporal, delimitando sua etiologia, suas manifestações corporais e sua dinâmica existencial e psicoterapêutica. A relevância deste estudo reside na necessidade de proporcionar aos profissionais da saúde mental um referencial que despatologize a caracterialidade psicopática, diferenciando-a dos Transtornos supracitados, compreendendo-a como uma estrutura energética defensiva e adaptativa comum, além de apontar caminhos para a sua clínica contemporânea.
2. METODOLOGIA
Este trabalho constitui-se como uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e de natureza teórico-clínica, viabilizada por meio de uma revisão bibliográfica de perfil narrativo. O objetivo metodológico central consistiu em mapear, sintetizar e integrar as formulações teóricas clássicas e contemporâneas sobre o traço de caráter psicopático sob a perspectiva da Psicologia Reichiana, Pós-reichiana e da Análise Bioenergética, diferenciando-o rigorosamente das concepções psiquiátricas estritamente comportamentais descritas nos manuais diagnósticos modernos. A revisão narrativa de literatura mostra-se como o recurso metodológico adequado para este escopo, por permitir uma análise ampla, analítica e contextualizada do desenvolvimento histórico-conceitual das teorias somáticas, desde as formulações seminais de Wilhelm Reich até as atualizações pós-reichianas e neorreichianas contemporâneas.
A estruturação do corpus teórico desta pesquisa foi realizada a partir do levantamento bibliográfico de duas classes principais de fontes: (a) obras seminais e clássicas da Psicologia Corporal e (b) artigos científicos, teses, dissertações e anais de congressos consolidados da área. As fontes clássicas englobaram textos fundamentais de Wilhelm Reich, com destaque para as edições revisadas de Análise do Caráter (1933/2014) e A Função do Orgasmo (1942/2004); as formulações neorreichianas de Alexander Lowen em Bioenergética (1982) e Narcisismo: Negação do Verdadeiro Self (1983); e a sistematização da caracterologia pós-reichiana estabelecida por Federico Navarro em Caracterologia Pós-Reichiana (1995).
Para o levantamento da literatura científica complementar e de articulações contemporâneas, procedeu-se a uma busca sistemática nas bases de dados digitais Google Acadêmico, SciELO (Scientific Electronic Library Online) e PePSIC (Periódicos Eletrônicos em Psicologia), além de uma varredura direta nos repositórios digitais de publicações especializadas, como os Anais dos Congressos Brasileiros de Psicoterapias Corporais organizados pelo Centro Reichiano (Curitiba/PR). Foram adotados os seguintes descritores em língua portuguesa, combinados por meio de operadores booleanos: "caráter psicopático", "traço de caráter psicopático", "psicologia corporal", "análise bioenergética", "couraça muscular" e "narcisismo".
Como critérios de inclusão para a seleção do material de análise, definiram-se: (1) artigos de periódicos revisados por pares, teses de doutorado, dissertações de mestrado e anais de congressos acadêmicos reconhecidos na área de psicoterapia corporal; (2) publicações em língua portuguesa sem limitação temporal estrita, visando abarcar desde a consolidação histórica das teorias até suas aplicações contemporâneas (período compreendido entre 1933 e 2026); (3) textos que abordassem diretamente os aspectos psicodinâmicos, caracterológicos, etiológicos (gênese infantil) ou corporais (segmentos de couraça muscular e órgãos de choque) do traço psicopático.
Inversamente, estabeleceram-se como critérios de exclusão: (1) artigos de opinião não fundamentados, postagens em blogs ou materiais informais sem validação científica; (2) estudos estritamente psiquiátricos, jurídicos ou de perfil criminológico sobre psicopatia ou transtorno de personalidade antissocial que não estabelecessem qualquer interface ou diálogo analítico com as abordagens corporais ou bioenergéticas. Esse critério de exclusão garantiu a especificidade e a coerência epistemológica do estudo, mantendo o foco analítico estritamente voltado à dinâmica somática e energética do indivíduo.
Após a triagem e a leitura analítica integral dos textos selecionados, os dados foram organizados de forma sistemática por meio da técnica de análise temática de conteúdo. Os achados foram categorizados em três eixos interpretativos estruturantes que guiaram a discussão no desenvolvimento do artigo: (1) Gênese infantil e dinâmica de desenvolvimento psicossexual (foco na fase anal expulsiva, jogos de sedução e interrupção da autonomia); (2) Manifestações caracterológicas, somáticas e segmentares da couraça muscular (análise das tensões crônicas no bloco superior, diafragma, pelve e pernas); e (3) Dinâmica social, psicopatologia diferencial, papel das corporações e diretrizes clínicas para o manejo terapêutico corporal centrado na ancoragem (grounding). Para fins de síntese e facilitação visual das etapas e parâmetros metodológicos adotados neste trabalho, as principais dimensões da pesquisa encontram-se resumidas na Tabela 1.
Tabela 1. Síntese do delineamento metodológico da revisão bibliográfica
Dimensão | Descrição Detalhada dos Procedimentos |
Tipo de Estudo | Revisão bibliográfica narrativa de abordagem qualitativa, teórica e clínica. |
Bases de Dados | Google Acadêmico, SciELO, PePSIC e acervo de Anais do Centro Reichiano. |
Descritores | "caráter psicopático", "traço de caráter psicopático", "psicologia corporal", "análise bioenergética", "couraça muscular" e "narcisismo". |
Critérios de Inclusão | Obras seminais (Reich, Lowen, Navarro), artigos revisados por pares e publicações científicas sobre psicologia corporal. |
Critérios de Exclusão | Artigos puramente psiquiátricos/criminais focados no DSM-5 sem abordagem energética-corporal. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
3. REVISÃO DA LITERATURA: O TRAÇO DE CARÁTER PSICOPÁTICO
3.1. Gênese Infantil e Dinâmica do Desenvolvimento
A gênese do traço de caráter psicopático dá-se por volta de um ano e meio a dois anos de idade, contemplando a primeira etapa da fase anal do desenvolvimento psicossexual (Volpi; Volpi, 2003). Esta primeira etapa anal é conhecida como expulsiva, na qual a criança será interrompida pelo genitor do sexo oposto em sua incipiente independência quanto à produção de fezes. É comum nessa etapa que o bebê brinque com as fezes, modelando-as e espalhando-as pelo ambiente, o que equivale a experimentar a própria força, liberdade e autonomia. Ele estará com a maturação neuromuscular adequada e apto ao treino de retenção apenas por volta dos dois anos de idade. Enquanto isso, os pais ou tutores deveriam respeitar o desenvolvimento natural da criança (Reichert, 2018).
O desrespeito do genitor pelo tempo e espaço da criança, forçando-a a sair das fraldas e do penico para o vaso de forma precoce, poderá equivaler a uma invasão traumática, marcada no sujeito adulto como um processo de sedução que lhe sequestrou a autonomia e interrompeu a gênese do seu self independente. O traço psicopático aparece, portanto, na criança que foi possuída e usada (Volpi; Volpi, 2003). Em resposta aos abusos biopsicológicos, jogos, mentiras, seduções e manipulações do genitor em questão, a criança lançará mão de comportamentos semelhantes aos dele. Entrando no jogo, simulará uma aparente submissão à figura sedutora, a fim de tentar conservar sua própria autonomia e livrar-se do cerceamento que lhe é imposto (Reichert, 2018).
Essa precoce exigência de controle esfincteriano produzirá uma personalidade com intenso medo de perder o controle em todos os aspectos da vida. Deixar-se vulnerável equivaleria a perder o amor dos pais e a própria independência. Assim sendo, o sujeito se defende manipulando, negando os sentimentos dos outros e os próprios, mantendo a superficialidade das relações e investindo na apresentação de uma imagem grandiosa que esconde uma autoestima real profundamente vacilante.
3.2. A Couraça Muscular e as Características Corporais
Em termos da couraça muscular de caráter, encontram-se características bastante peculiares na estrutura somática. Os olhos transparecem controle, avaliação e a certeza de que o sujeito dominará o outro. Há uma cisão evidente entre a parte superior e a inferior do corpo, marcada por forte bloqueio diafragmático. Nesse sentido, cabeça, pescoço, ombros, plexo solar e feixes musculares laterais às vértebras torácicas inferiores mostram-se carregados e tensos, em detrimento de uma pelve desconectada. Além disso, o queixo tende a projetar-se para cima, erguendo o semblante em uma busca por controle e autocontrole, enquanto o peito inflado e o tronco projetado para a frente transmitem a sensação de avanço sobre os demais. Essa tendência de reter a energia na porção superior costuma configurar formatos triangulares invertidos: olhos expressivos angulando com um queixo mais pontiagudo, ombros consideravelmente mais largos que o quadril (este maior em sua porção superior) e coxas desproporcionalmente mais largas que as pernas (Lowen, 1982; Parolli; Volpi, 2018).
Essa desproporção estrutural não constitui um fenômeno meramente estético, mas traduz uma cisão energética e psicológica profunda na economia do sujeito. Como esquematizado na Figura 1, a distribuição assimétrica da bioenergia revela um forte investimento na metade superior do corpo em detrimento da porção inferior, gerando uma desconexão evidente com a terra (grounding) e com as bases de sustentação existencial.
Figura 1. Representação esquemática da cisão somática, bloqueio diafragmático e desproporção energética no traço psicopático.
O exame da Figura 1 permite compreender a dinâmica do bloqueio diafragmático como uma verdadeira "linha de corte" corporal. Esse anel de couraça muscular isola o segmento torácico e a cabeça do segmento pélvico. No polo superior, o peito estufado e o queixo erguido projetam uma imagem de autossuficiência e arrogância que alimenta o falso self, camuflando a real fraqueza de um ego distanciado da identidade total do eu biológico (Navarro, 1995). No polo inferior, as pernas hipotróficas e desvitalizadas denunciam a falta de contato com a realidade física e de sustentação na terra (grounding), além de sinalizarem a dependência oral latente que o indivíduo tanto se esforça para dominar (Lowen, 1982).
Como implicação direta dessa couraça, as tensões musculares crônicas não se refletem apenas na superfície somática, mas também se estendem aos sistemas e órgãos internos correspondentes aos segmentos (Reich, 1933/2014). No caso do caráter psicopático, as vísceras que tendem a sofrer os maiores impactos do bloqueio do plexo solar são o estômago, o pâncreas, o fígado, a vesícula, o duodeno e os rins (Parolli; Volpi, 2018). Esses elementos viscerais profundos, pertencentes aos sistemas digestório e urinário, funcionam como verdadeiros órgãos de choque, evidenciando uma continuidade somática com a oralidade inicial e as fixações precoces dessa fase (Lowen, 1982).
Sob a ótica psicodinâmica, esse desejo obsessivo de dominar e controlar acaba configurando uma via de mão dupla: o sujeito com caráter psicopático passa também a depender daquele que subjuga, o que remete diretamente a uma dinâmica com fortes tons de oralidade (Lowen, 1982). Essa constatação clínica entra em perfeita concordância com a perspectiva de Navarro (1995), que compreende essa estrutura como uma caracterialidade narcisista de cobertura que visa, em última análise, encobrir e proteger um núcleo oral/borderline muito mais vulnerável.
3.3. A Dinâmica Sexual, Relações Afetivas e o Espectro Narcisista
Em termos de sexualidade, o sujeito com traço psicopático utiliza-a não para a descarga e entrega ao prazer – visto que isso significaria, justamente, descontrolar-se –, mas para ter poder e controle sobre o outro. Faz jogos afetivos, pois só consegue relacionar-se com quem crê precisar dele, em uma clara tentativa de mitigar o acesso às memórias de ele mesmo ter sido usado e traído na infância, antecipando-se em trair diante de qualquer insegurança (Silva; Sposito, 2009), visto que manipular primeiro reduz sua vulnerabilidade às atualizações neuróticas de ser manipulado. Em outras palavras, mimetiza o comportamento do genitor que o seduziu e de quem depois sofreu abusos, agindo de modo a evitar que se repita o doloroso papel infantil (Lowen, 1982; Silva; Sposito, 2009), ou mantém-se, ao triunfar sobre o outro pela manipulação, no papel grandioso e de superioridade que lhe foi dado pelo genitor sedutor (Volpi, 2002).
A cisão entre o afeto e o sexo acompanha aquela que também existe entre a parte superior e inferior do corpo (Volpi; Volpi, 2003). Para o sujeito de estrutura psicopática, importa muito mais a performance do que o prazer, pois coloca o sistema corporal a serviço da autoimagem fantasiosa e nega suas necessidades (Lowen, 1982). Todo contato com o outro é sempre um falso contato, pois o narcisista não aprimorou nem o contato consigo mesmo, negando-se, por medo, inclusive à experiência da masturbação (Navarro, 1995).
Para Lowen (1983), o narcisismo é um espectro no qual os caracteres notadamente narcisistas são dispostos do menor ao maior grau, conforme a intensidade da negação dos sentimentos. Dentro desse espectro, o caráter psicopático fica atrás apenas do paranoide em se tratando de perturbação narcísica. Essa gradação proposta pela Análise Bioenergética estabelece um contraste fundamental com a psiquiatria clássica. Enquanto o DSM-5 enxerga o Transtorno da Personalidade Narcisista como um conjunto rígido de traços de conduta desadaptativa (como a falta de empatia e a soberba), Lowen (1983) compreende o narcisismo como um fenômeno essencialmente psicossomático de negação dos sentimentos e do self real em prol de uma imagem idealizada. No caráter psicopático, a busca obsessiva pelo poder e o peito inflado não são sintomas morais de um transtorno, mas sim o resultado final de uma couraça muscular que bloqueou o afeto para preservar a integridade do indivíduo diante da dor da traição original. O sujeito não 'tem', simplesmente, um transtorno de personalidade; ele estruturou uma defesa corporal narcísica para poder sobreviver.
Para compreender de forma integrada a posição do traço de caráter psicopático dentro da economia energética e defensiva do sujeito, faz-se necessária a análise do gradiente de gravidade proposto por Lowen (1983). Como pode ser observado na Figura 2, o autor estabelece uma escala contínua que correlaciona diretamente o grau de rigidez defensiva do caráter com o nível de afastamento do indivíduo em relação à sua própria realidade corpórea e emocional. Nesse gradiente, a gravidade da estrutura caracterológica acentua-se à medida que ocorre uma negação sistemática e profunda dos sentimentos em prol de uma imagem idealizada e grandiosa (o falso self).
Figura 2. Espectro do narcisismo e gradação da gravidade clínica segundo a negação do self.
A leitura da Figura 2 evidencia que o caráter fálico-narcisista ocupa a extremidade esquerda do espectro, representando a configuração defensiva menos grave por conservar, comparativamente, uma maior ancoragem na realidade biológica e um contato mais preservado com o self. À medida que nos deslocamos para a direita, atravessando o caráter narcisista, o traço de caráter psicopático desponta em um quadrante de gravidade acentuada. Nele, a cisão entre a mente (que controla) e o corpo (que sustenta) é severa, resultando na busca obsessiva pelo poder. No extremo direito, o espectro culmina no caráter paranoide, cenário em que a negação profunda dos sentimentos e a rigidez da couraça muscular atingem seu nível máximo, inviabilizando quase por completo a entrega e a vulnerabilidade do sujeito.
O caráter psicopático tende a não conseguir adiar gratificações ou tolerar frustrações. Ele atua seus impulsos com certa frequência, entregando-se às dependências químicas, à promiscuidade e, em casos extremos da característica antissocial, ao homicídio a sangue-frio (Lowen, 1983). Em termos de compulsões, sobretudo aquelas relacionadas ao abuso de álcool e outras drogas, vemos uma conexão importante com bloqueios do segundo segmento da couraça e a consequente tendência à depressão presente nos narcisistas, deflagrando novamente o componente oral encoberto nesses traços de caráter (Navarro, 1995).
3.4. O Traço Psicopático no Contexto Social e Profissional
O sujeito com traço de caráter psicopático acentuado poderá se tornar um grande líder ou orador carismático, manipulando as massas ou um determinado grupo para fins específicos, e sendo realmente muito bem-sucedido. Tenderá a ser idolatrado e cultivará essa idolatria, já que isso serve de alimento à sua imagem narcísica e o deixa mais seguro do seu poder (Barros; Moreira, 2017). A vivência do papel social, a máscara narcísica, em detrimento da potência total do eu biológico é estimulada por certos tipos de educação. Inconscientemente, viver o papel está associado também a ser imortal, já que os papéis continuam existindo mesmo após a morte. Assim, as culturas da competitividade, da ambição e da entrega excessiva à construção de uma carreira profissional contribuem sobremaneira para o encouraçamento e a gênese das caracterialidades narcisistas (Navarro, 1995).
O sujeito da estrutura psicopática poderá usar o mundo do trabalho como escoadouro para a sua falta de empatia, com atuações concretas menos fatais, ainda que estas interfiram de forma contundente na vida dos seus subordinados, substituindo o assassinato real pelo “assassinato profissional” – representado, por exemplo, pela demissão (Lowen, 1983). É o típico líder sedutor e de sucesso que o mundo do capitalismo espera e de que precisa, pois persuade e confunde suas equipes ao levá-las a acreditar que as metas organizacionais são as mesmas metas pessoais e individuais de cada colaborador (Barros; Moreira, 2017).
3.5. Manejo Psicoterapêutico Corporal
O plano terapêutico para alguém com traço de caráter psicopático deverá considerar o resgate do contato com as próprias sensações, o abandono do falso self e dos jogos de manipulação. Trabalhos de aterramento (grounding), por exemplo, revelam-se fundamentais, já que esse traço de caráter sacrificou seu contato com o chão para sustentar o seu narcisismo. No setting terapêutico de um paciente com traços psicopáticos, é possível realizar também trabalhos com manipulação da argila, que auxiliarão na entrega ao campo dos afetos, bem como no abrandamento de fixações orais e anais. Para a criança que está passando pela fase anal expulsiva, brincadeiras com massas de modelar, barro e areia podem contribuir para uma melhor integração das fantasias de exploração dos próprios excrementos (Reichert, 2018).
A tendência a negar os próprios sentimentos e os do próximo, bem como as experiências, costuma ser grande empecilho ao projeto terapêutico. Se saudável ou devidamente terapeutizado, o sujeito com essa caracterialidade desenvolverá uma livre expressão da sexualidade e melhor vibração bioenergética, podendo emergir como liderança positiva, envolvida, proativa, feliz e comprometida não só com o próprio crescimento, mas também com o da sua equipe (Barros; Moreira, 2017). Substituirá a necessidade de poder pela busca de potência na vida e nas relações, abandonando a sedução e conquistando o real contato consigo e com o outro.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão teórico-clínica da literatura permite concluir que o traço de caráter psicopático constitui uma engrenagem defensiva e adaptativa de alta complexidade, estruturada primordialmente como uma resposta somatopsicodinâmica à exigência de performance muscular precoce, aos jogos afetivos e à manipulação parental vivenciados no período crítico entre um ano e meio e dois anos de idade. Em decorrência dessa invasão traumática infantil, na qual a autonomia biológica emergente da criança é sequestrada e instrumentalizada pela figura parental, o sujeito desenvolve um padrão caracterológico marcado pela necessidade imperiosa de controle e manipulação das relações como salvaguarda existencial. Somatopsiquicamente, essa dinâmica materializa-se em uma couraça muscular altamente rígida, concentrada majoritariamente na porção superior do tronco (hipertrofia e rigidez dos segmentos ocular, cervical e torácico) em detrimento de uma pelve e de pernas desvitalizadas e desaterradas. Esse bloqueio estrutural, ao consolidar o segmento diafragmático como uma rígida "linha de corte" energética, estabelece uma cisão profunda entre o afeto e a sexualidade, operando como uma blindagem somática destinada a impedir a liberação de sentimentos vulneráveis e a neutralizar a possibilidade de reatualização da dor da traição original.
Em contrapartida à visão reducionista da psiquiatria clássica, que rotula o comportamento manipulativo estritamente sob as rígidas categorias diagnósticas dos Transtornos de Personalidade Antissocial e Narcisista do DSM-5, a leitura proposta pela Psicologia Corporal oferece uma via de despatologização e emancipação clínica fundamentada na economia energética do sujeito. Compreender o sujeito de estrutura psicopática a partir de sua couraça muscular e de seu histórico etiológico revela que sua rigidez defensiva não é simplesmente uma falha moral, mas sim uma proteção estruturada para resguardar um núcleo oral de extrema vulnerabilidade afetiva. Por meio de um manejo terapêutico corporal centrado no restabelecimento do aterramento (grounding), na suavização das tensões do diafragma e no abrandamento da rigidez torácica, torna-se viável a integração e a flexibilização dessa armadura neurótica. Ao reatar o contato profundo com suas sensações biológicas e afetivas reais, o indivíduo terapeutizado liberta-se da necessidade obsessiva de dominação. Seu magnetismo pessoal e sua capacidade inata de articulação deixam de servir ao falso self grandioso e passam a atuar em prol do bem comum, permitindo que ele emerja como uma liderança verdadeiramente saudável, proativa e empática na sociedade, convertendo, em última análise, a busca neurótica pelo poder sobre o outro no exercício pleno, integrado e restaurador de sua própria potência vital nas relações humanas.
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1 Mestre em Psicologia pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Especialista em Neurociência e Física da Consciência (UNINTER). Especialista em Filosofia e Autoconhecimento (PUCRS). Formação em Psicologia Corporal pelo Instituto Holon. Psicólogo (ULBRA). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6454-8708
2 Fisioterapeuta pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Gestão Estratégica de Negócios (UCS). Formação em Psicologia Corporal pelo Instituto Holon. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-7065-0785
3 Doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Docente na Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0342-1180
4 Psicóloga Pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC). ORCID: https://orcid.org/0009-0001-3616-7940