O SAGRADO EM MOVIMENTO: O FILME “GUERREIRAS DO K-POP” COMO RECURSO PEDAGÓGICO PARA O ENSINO RELIGIOSO E A SUPERAÇÃO DO PRECONCEITO

THE SACRED IN MOTION: THE FILM “K-POP DEMON HUNTERS” AS A PEDAGOGICAL RESOURCE FOR RELIGIOUS EDUCATION AND THE OVERCOMING OF PREJUDICE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/785271272

RESUMO
Este trabalho apresenta uma proposta pedagógica voltada ao Ensino Religioso nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, tendo como eixo a superação do preconceito religioso por meio da ampliação do repertório cultural e espiritual dos estudantes. Fundamentado nas Ciências da Religião e nas orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017), o estudo analisa o potencial educativo do filme Guerreiras do K-Pop (2025) como recurso didático capaz de promover o reconhecimento de elementos simbólicos do xamanismo coreano, estimulando o respeito à diversidade religiosa. Trata-se de uma pesquisa qualitativa e interventiva, realizada com turmas do 5º ano, que utilizou trechos do filme, debates orientados e pesquisas em grupo sobre religiões de base não cristã. Os resultados evidenciaram o envolvimento ativo dos estudantes, o fortalecimento da empatia e a ampliação da compreensão sobre o pluralismo religioso. A investigação confirma que o cinema, quando inserido de forma intencional e planejada no currículo, constitui-se em ferramenta significativa para o desenvolvimento de atitudes de respeito, diálogo e convivência ética entre diferentes tradições religiosas.
Palavras-chave: Ensino Religioso; diversidade cultural; preconceito religioso; xamanismo; práticas pedagógicas.

ABSTRACT
This paper presents a pedagogical proposal for Religious Education in the early years of Elementary School, focusing on overcoming religious prejudice through the expansion of students’ cultural and spiritual awareness. Grounded in the academic field of Religious Studies and aligned with the guidelines of Brazil’s National Common Curricular Base (BNCC, 2017), the study examines the educational potential of the film K-Pop Demon Hunters (2025) as a teaching resource capable of promoting the recognition of symbolic elements of Korean shamanism while encouraging respect for religious diversity.
This qualitative and intervention-based study was conducted with 5th-grade students and employed selected film excerpts, guided discussions, and group research projects on non-Christian religious traditions. The results revealed active student engagement, strengthened empathy, and a broader understanding of religious pluralism. The findings confirm that cinema, when intentionally and thoughtfully integrated into the curriculum, can serve as a meaningful tool for fostering respect, dialogue, and ethical coexistence among diverse religious traditions.
Keywords: Religious Education; religious prejudice; religious diversity; Korean shamanism; cinema in education; religious pluralism.

1. INTRODUÇÃO

O Ensino Religioso, enquanto componente curricular da Educação Básica, constitui um espaço privilegiado para a formação ética, cultural e espiritual dos estudantes. Longe de promover a catequese, sua função é ampliar o olhar sobre o fenômeno religioso como expressão humana, social e simbólica, conforme orienta a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017). Em uma sociedade marcada pela diversidade de crenças e, ao mesmo tempo, por práticas recorrentes de intolerância religiosa, torna-se urgente que a escola se configure como ambiente de diálogo, respeito e compreensão mútua.

Nesse contexto, compreender o Ensino Religioso como campo de conhecimento que articula história, cultura e espiritualidade possibilita a formação de sujeitos mais empáticos e críticos. A abordagem proposta neste trabalho parte da premissa de que o contato com diferentes tradições religiosas favorece a desconstrução de preconceitos e o fortalecimento da convivência pacífica. Para tanto, utiliza-se o filme Guerreiras do K-Pop (2025) como recurso pedagógico para aproximar os estudantes das práticas xamânicas coreanas, explorando suas representações simbólicas e sua relação com valores universais como o bem, o sagrado e a harmonia entre os seres.

A escolha dessa obra cinematográfica se justifica pela linguagem acessível e pela capacidade de despertar o interesse das crianças e pré-adolescentes por temas religiosos de forma lúdica e sensível. O uso do cinema, enquanto ferramenta didática, contribui para o desenvolvimento de habilidades de observação, empatia e reflexão crítica, além de permitir que o Ensino Religioso dialogue com as artes, as mídias e a cultura contemporânea.

Assim, este trabalho tem como propósito central analisar a potência do Ensino Religioso para a promoção da diversidade e da superação do preconceito religioso a partir de práticas pedagógicas criativas e integradoras. Como objetivos específicos, pretende desenvolver o respeito à diversidade religiosa e cultural; estimular a curiosidade e o pensamento crítico dos estudantes; favorecer o diálogo intercultural entre as práticas religiosas. A proposta parte do reconhecimento de que a aprendizagem sobre o sagrado se constrói no encontro entre o eu e o outro, na valorização das diferenças e na vivência de uma espiritualidade plural, ética e respeitosa.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. As Ciências da Religião e o Ensino Religioso no Contexto Contemporâneo

As Ciências da Religião, como campo acadêmico, possuem caráter multidisciplinar ao estudar fenômenos religiosos que envolvem a história, a sociologia e a antropologia. Com o objetivo de compreender a religião como um fenômeno social, cultural e humano, sem questionar a fé do indivíduo, essa área foca na pesquisa e análise das manifestações religiosas. Assim, o Ensino Religioso, área do conhecimento obrigatória em todo o território nacional, traz a aplicação das Ciências da Religião como prática em um contexto pedagógico.

O Ensino Religioso, como componente curricular, constitui-se pela ressignificação dos conhecimentos sobre os fenômenos religiosos, permeando vivências e experiências sociais, culturais e étnicas. Por isso, práticas religiosas são vistas cotidianamente em gestos comuns ou sistematizados. Dessa forma, é possível perceber a presença marcante da religiosidade na música, na literatura, nas artes, na alimentação, na decoração e na vestimenta, entre outros aspectos.

É então, nas relações entre os sujeitos, com a natureza e com as divindades, que os seres humanos percebem suas diferenças e a necessidade de construção de identidade. Ao notar que há distinção entre o eu, o outro, o nós e o eles (em um contexto repleto de valores, convicções, crenças, saberes, manifestações e filosofias de vida) cada um se percebe e começa a compreender seus referenciais e sua fé.

O xamanismo, religião que se pauta em tais relações, constitui uma das práticas religiosas mais antigas da humanidade, fundamentada na crença de que determinados indivíduos, denominados xamãs, possuem a capacidade de intermediar a comunicação entre o mundo espiritual e o físico. Por meio de ritos específicos, que incluem a indução de estados alterados de consciência, os xamãs conseguem acessar dimensões espirituais e interagir com entidades presentes em outros planos. Nesse contexto, danças e cantos desempenham papel fundamental ao estabelecer um ambiente ritualístico propício à experiência do transe e à manifestação do sagrado, configurando-se como elementos essenciais para a mediação entre o físico e o espiritual (Eliade, 1996; Menezes, 2008).

No Brasil, as religiões predominantes são de bases cristãs. Dados recentes do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que o catolicismo ainda é a religião mais praticada no país, reunindo 56,7% dos brasileiros, enquanto as denominações evangélicas registraram crescimento expressivo, alcançando 26,9% da população. De acordo com Porfírio, 2019, o índice de preconceito religioso com religiões com base diferente das cristãs, são crescentes e chegam a altos índices de denúncia. Sendo assim, é importante que os estudantes tenham a possibilidade de entrar em contato com religiões de outras bases, para que possam conhecer, compreender e respeitar diferentes expressões de fé.

Compreender o xamanismo a partir de produções culturais contemporâneas, como o filme Guerreiras do K-Pop, permite que os estudantes percebam a religião não apenas como um conjunto de crenças, mas como uma manifestação cultural viva, expressa na arte, na música e na mídia. Essa abordagem dialoga com o objetivo do Ensino Religioso previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2017), que propõe o reconhecimento e o respeito às diferentes tradições religiosas e seus modos de compreender o sagrado.

Para que essa abordagem se concretize pedagogicamente, é necessário situá-la no currículo. A BNCC organiza o Ensino Religioso de forma a favorecer o reconhecimento da diversidade e o respeito às diferentes crenças, em um processo que une identidade, alteridade e cultura. O documento norteador da educação nacional apresenta uma organização sistematizada dessas temáticas com viés pedagógico, distribuindo a área em três unidades temáticas que se inter-relacionam:

1. Identidades e alteridade

Essa unidade temática pode ser vista como base fundamental do processo. Trata da compreensão de identidade a partir da relação e distinção entre si mesmo, com o olhar para o outro. Tal percepção é orientada a percepção de suas conexões identificando semelhanças e diferenças na perspectiva da coexistência. Sendo assim, promove o reconhecimento da singularidade e da relevância de cada indivíduo (subjetividade) e chama à compreensão das conexões estabelecidas com a sociedade (alteridade) de acordo com a BNCC (Brasil, 2017, p. 438). Conceber as diferenças é que permite distinguir o “eu” do “outro” e criar relações dialógicas. Essas relações são dadas por referenciais simbólicos como representações, valores e saberes. É a base pois por meio de tais reflexões visam levar ao reconhecimento das dimensões imanentes e transcendentes, que integram a humanidade. Isso traduz os costumes, as crenças, as formas de viver e os símbolos, os quais permitem a valorização do caráter singular e diverso da humanidade.

2. Manifestações Religiosas

Após reconhecer-se e perceber o outro, como apresentado na BNCC (Brasil, 2017, p. 439) de maneira espiral, há um avanço de habilidades para serem desenvolvidas nessa unidade temática o foco é o fenômeno religioso, com a dimensão da transcendência que se expressa de maneira material e coletiva. Além dos espaços e territórios sagrados (montanhas, rios e tempos, por exemplo), os símbolos (elementos cotidianos que podem conter significados distintos para que representem algo além de seu sentido literal) e os ritos (sendo a linguagem – textual, ritualística, oral, corporal etc. – que expressa a espiritualidade. Aqui estão presentes as orações, os cantos, as danças, as meditações, as celebrações, as indumentárias, os alimentos, os objetos, tudo o que pode ser considerado como sagrado. Ainda, nessa unidade, os líderes religiosos se fazem presentes como atuantes para que a prática religiosa seja repercutida com o objetivo de transmitir o conhecimento, a valorização e o respeito à diversidade religiosa e as experiências e manifestações do sagrado.

3. Crenças Religiosas e Filosofias de Vida

Enquanto a primeira unidade comentada é mais vista nos Anos Iniciais, a última unidade temática apresentada está mais presente no segmento dos Anos Finais, pois tem o caráter de aprofundamento em aspectos doutrinários, narrativos e éticos que fundamentam as tradições. Aqui, permanece o olhar para a valorização e o respeito à diversidade de experiências religiosas. Segundo a BNCC (Brasil, 2017, p. 440), o convite é de identificar, analisar e discutir o fenômeno religioso a fim de reconhecer códigos éticos e morais, ideias de imortalidade (ancestralidade, reencarnação, ressurreição, transmigração), e a refletir sobre o sentido da vida. Em função das premissas de tal reflexão, é importante ressaltar que aqui também há o convite à uma visão mais filosófica da vida não-religiosa, que advém de princípios racionais e científicos e integram a análise das relações das tradições religiosas com a esfera política, da saúde, da educação, da economia, das mídias e das tecnologias. Aqui estão presentes os mitos com relacionam a imanência e a transcendências que traduzem a origem da vida, dos cosmos, as crenças e as narrativas religiosas em sua doutrina, princípios e valores das tradições.

Na perspectiva das unidades temáticas, o artigo 33 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96) (Brasil, 1996), determina que todas as religiões devem ser respeitadas em sua diversidade cultural. A partir desse viés, a BNCC (Brasil, 2017) prevê como objetivos do Ensino Religioso:

  1. Proporcionar a aprendizagem dos conhecimentos religiosos, culturais e estéticos, a partir das manifestações religiosas percebidas na realidade dos educandos;

  2. Propiciar conhecimentos sobre o direito à liberdade de consciência e de crença, no constante propósito de promoção dos direitos humanos;

  3. Desenvolver competências e habilidades que contribuam para o diálogo entre perspectivas religiosas e seculares de vida, exercitando o respeito à liberdade de concepções e o pluralismo de ideias, de acordo com a Constituição Federal;

  4. Contribuir para que os educandos construam seus sentidos pessoais de vida a partir de valores, princípios éticos e da cidadania. (BRASIL, 2017, p. 436)

É importante ressaltar o respeito e o fortalecimento da identidade religiosa de cada estudante, sem forçá-lo a professar uma fé que não lhe pertence. A escola é o espaço onde a diversidade se encontra e se conecta. De acordo com o e-book apresentado na disciplina A Sociedade Brasileira e o Ensino Religioso (IPEMIG, s/ano, p. 21), a secularização no Brasil trouxe paradoxos no campo religioso, uma vez que o Estado brasileiro é laico. Assim, a abordagem do Ensino Religioso deve ser interdisciplinar e transversal, reconhecendo e valorizando a cultura e as experiências dos estudantes.

Em meio a tais orientações, cabe destacar que o Brasil, país de rica diversidade cultural, iniciou oficialmente o processo de imigração coreana em 1963, embora haja registros desde 1918. Desde então, a população coreana exerce influência significativa em aspectos culturais diversos. A partir de 2011, com a ascensão da internet, a indústria sul-coreana do entretenimento — especialmente o K-pop — ganhou projeção mundial. O hit Gangnam Style, lançado por PSY em 2012, consolidou o Hallyu (onda coreana) como fenômeno global. De acordo com Coronado (2024), após a guerra civil, a Coreia do Sul buscou reconstruir sua economia com forte influência da cultura norte-americana. O K-pop tornou-se uma manifestação cultural que extrapola a música, alcançando os dramas, filmes e modos de vida, conquistando fãs em todo o mundo, inclusive no Brasil. Essa representação cultural inclui alimentação, vestimentas e expressões religiosas.

De acordo com Backer (2008), a Coreia do Sul é um país multirreligioso, com o budismo, o confucionismo e o xamanismo como tradições predominantes desde a antiguidade, ainda que hoje convivam com influências cristãs. O xamanismo aparece frequentemente na cultura midiática coreana — presente em produções como A Grande Xamã Ga Doo Shim (2021), Café Minamdang (2022), Venda Sua Casa Assombrada (2023), A Fada e o Pastor (2025) e O Palácio Assombrado (2025). Essa religião também é retratada no filme da Netflix Guerreiras do K-Pop (2025), que será analisado mais detalhadamente a seguir.

De acordo com De Jesus, Silva e Neiva (2025), experiências multimodais, como filmes e música, favorecem a elaboração de sentidos e a ampliação do repertório simbólico. Nesse sentido, o trabalho com estudantes do 5º ano, em transição para os Anos Finais, mostra-se oportuno por integrar uma fase de ampliação cognitiva e emocional. As neurociências indicam que, nesse estágio, o cérebro está especialmente aberto a aprendizagens que envolvem emoção, linguagem simbólica e experiências sociais significativas — como o contato com expressões religiosas diversas por meio da arte e do cinema.

2.2. Filme “Guerreiras do K-Pop”: Na Perspectiva Xamânica Coreana

A animação Guerreiras do K-Pop (2025), dirigida por Chris Appelhans e Maggie Kang e roteirizada por Danya Jimenez e Hannah McMechan, lançada em junho de 2025 pela Netflix e produzida pela Sony Pictures Animation, tornou-se um fenômeno global. O filme liderou rankings de audiência em diversos países e alcançou o top 10 no Brasil no fim de semana de estreia (BBC, 2025). A trilha sonora foi produzida por Teddy Par, Lindgren, Stephen Kirk, Jenna Andrews e Ian Eisendrath, profissionais que já trabalharam com grupos como Blackpink e BTS.

A história acompanha Rumi, vocalista principal da banda Huntr/x, composta por Zoe e Mira. Elas são caçadoras de demônios que tentam capturar as almas dos fãs. Rumi descobre que é meio caçadora e meio demônio, o que a coloca em conflito com a banda rival, Saja Boys, composta por demônios. A narrativa centra-se em temas como autoconhecimento, aceitação, amizade e valorização da cultura religiosa. Há milhares de anos, Gwi-Ma alimenta-se de almas humanas, e apenas um trio de xamãs pode proteger a barreira Hoomoon (혼문 / Honmun), ou “portal do espírito/alma”, por meio de canções e danças.

Em toda a narrativa, percebe-se a presença do xamanismo e do taoísmo. O taoísmo aparece de modo sutil, enquanto o xamanismo conduz grande parte das práticas das guerreiras. Nessa religião — uma das mais antigas da humanidade — acredita-se que pessoas especiais, os xamãs, possam dialogar com os espíritos e transitar entre o mundo físico e o espiritual após entrarem em estados alterados de consciência. Eles pedem orientação, cura ou soluções para problemas, e, em troca, oferecem rituais e oferendas.

O xamanismo perpassa culturas africanas, indígenas e europeias. De acordo com Hwang (2007), na Coreia o xamanismo surgiu nos registros coloniais, e as xamãs são chamadas Mudang. Historicamente, o termo Mudang estava ligado ao feminino e carregava estigmas de impureza e superstição, sendo marginalizado pela sociedade confucionista.

No filme, as caçadoras usam espadas e leques que remetem às Mudang. Há também o Shinkal — faca espiritual usada pela personagem Joy para combater os demônios — adornada com um norigae, símbolo do poder espiritual feminino. As canções e danças das personagens remetem ao ritual Gut, que combina canto e dança para pedir sorte, cura e proteção. As mascotes Derpy (um tigre) e Sussy (uma ave) evocam lendas coreanas que simbolizam proteção e boa sorte, reforçando o elo entre o físico e o espiritual.

Dessa forma, o filme Guerreiras do K-Pop configura-se como um recurso didático potencial para o Ensino Religioso no 5º ano, pois permite o diálogo entre cultura, arte, espiritualidade e educação. Sua análise propicia aos estudantes o reconhecimento de elementos simbólicos e religiosos de uma tradição não cristã, favorecendo o respeito à diversidade e a superação de preconceitos religiosos. Além disso, a abordagem cinematográfica, sustentada pelas contribuições da neuroeducação, estimula processos cognitivos e afetivos essenciais à aprendizagem significativa.

A partir desse referencial teórico e curricular, a próxima seção apresentará a metodologia utilizada para o desenvolvimento da proposta pedagógica, detalhando os procedimentos, os participantes e os instrumentos empregados na aplicação da atividade com o filme Guerreiras do K-Pop.

3. METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa e interventiva, conforme compreendido por Nóvoa (1992), cuja finalidade é articular investigação e formação dos estudantes em um processo dialógico e reflexivo. Tal abordagem permite que a construção do conhecimento ocorra a partir da prática, do contexto dos estudantes e de recursos multimodais, promovendo transformações concretas no cotidiano escolar e fortalecendo o olhar dos estudantes para ultrapassar preconceitos religiosos (André, 2001).

No presente projeto, a metodologia adotada envolveu o uso de elementos do filme Guerreiras do K-Pop (2025) como um recurso para ampliação do olhar dos estudantes do 5º ano do Ensino Fundamental e para o contato com religiões de base não cristãs. A proposta integra fundamentos teóricos das Ciências da Religião (IPEMIG, s.d.; BRASIL, BNCC, 2017) e das práticas xamânicas coreanas (Backer, 2008; Hwang, 2007), articulados com práticas acessíveis e replicáveis no contexto escolar, sobretudo durante as aulas de Ensino Religioso.

A escolha dessa metodologia justifica-se pela necessidade de promover a ampliação do repertório religioso dos estudantes, apoiando a superação de preconceitos e o desenvolvimento do respeito à diversidade. A pesquisa configura-se, assim, como uma estratégia para aproximar teoria e prática. Ela ocorreu como um projeto realizado ao longo de um trimestre. A fase preliminar de implementação envolveu duas turmas de uma escola da rede privada, que participaram como parte do currículo escolar.

Foram abordadas as seguintes habilidades da BNCC (2017):

  • (EF05ER01) Identificar e respeitar acontecimentos sagrados de diferentes culturas e tradições religiosas como recurso para preservar a memória;

  • (EF05ER05) Identificar elementos da tradição oral nas culturas e religiosidades indígenas, afro-brasileiras, ciganas, entre outras;

  • (EF05ER07) Reconhecer, em textos orais, ensinamentos relacionados a modos de ser e viver (BRASIL, 2017, p. 451).

As habilidades foram trabalhadas durante 10 horas/aula de 50 minutos. A autonomia docente foi preservada em todas as etapas, garantindo a adaptação das práticas às especificidades locais. Essa abordagem metodológica destaca a importância do planejamento docente como dimensão transversal ao processo formativo e avaliativo, ressaltando o trabalho intencional com a superação de preconceitos e o conhecimento de base não cristã.

Portanto, o projeto reforça a atuação da professora como protagonista na mediação do cuidado e da aprendizagem, promovendo práticas pedagógicas que dialogam com a totalidade do desenvolvimento humano e ampliam a concepção tradicional de avaliação para uma prática mais ética, empática e formativa (Luckesi, 2011).

O planejamento das aulas foi organizado conforme o quadro a seguir, de modo a integrar as habilidades da BNCC às práticas pedagógicas propostas, articulando cinema, pesquisa e reflexão sobre a diversidade religiosa.

Aula

Habilidade BNCC (5º ano)

Objetivo da aula

Avaliação (formativa e reflexiva)

1ª e 2ª aulas

(EF05ER01)

Apresentar o projeto e introduzir o tema “Religiões de base não cristã”. Exibição de trechos do filme Guerreiras do K-Pop que evidenciam elementos do xamanismo coreano (rituais, danças, símbolos e crenças).

Participação nas discussões; curiosidade e envolvimento com o tema; respeito às diferentes crenças durante as falas.

3ª e 4ª aulas

(EF05ER05)

Explicar o conceito de xamanismo, destacando sua presença em diferentes culturas (coreana, indígena, africana). Propor diálogo sobre a importância da oralidade e dos rituais para a preservação das crenças.

Registros orais e reflexões coletivas; observação da escuta ativa e do respeito às manifestações culturais apresentadas.

5ª e 6ª aulas

(EF05ER07)

Orientar pesquisas em grupos sobre outras religiões de base não cristã (budismo, hinduísmo, umbanda e candomblé), enfatizando tradições orais, símbolos e valores.

Acompanhamento da pesquisa; clareza nas apresentações orais; identificação dos elementos culturais e religiosos nas falas dos grupos.

7ª e 8ª aulas

(EF05ER01) e (EF05ER05)

Retomar os principais aspectos do filme e relacioná-los com as descobertas das pesquisas. Estabelecer paralelos entre as práticas xamânicas e outras tradições.

Avaliação formativa por meio de rodas de conversa e síntese coletiva das aprendizagens.

9ª e 10ª aulas

(EF05ER01), (EF05ER05), (EF05ER07)

Apresentação dos trabalhos dos grupos para a turma, com partilha das descobertas e reflexões sobre respeito, diversidade e superação de preconceitos religiosos.

Avaliação processual das apresentações, observando expressão oral, cooperação, empatia e compreensão do tema.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Este projeto teve como objetivo central contribuir para a superação de preconceitos religiosos e para o fortalecimento do respeito à diversidade cultural e espiritual entre os estudantes do 5º ano do Ensino Fundamental, a partir do uso de elementos do filme Guerreiras do K-Pop (2025). A proposta fundamentou-se na premissa de que a arte e o cinema, quando integrados ao currículo de Ensino Religioso de forma intencional e planejada, podem colaborar significativamente para o desenvolvimento da empatia, do respeito e do diálogo intercultural, conforme apontam estudos das áreas de neurociência e educação (De Jesus; Silva; Neiva, 2025; Siegel, 2012).

Participaram da etapa de aplicação experimental duas turmas de 5º ano do Ensino Fundamental de uma escola da rede privada, totalizando aproximadamente 50 estudantes. O projeto foi desenvolvido ao longo de 10 aulas de 50 minutos, integrando as habilidades (EF05ER01), (EF05ER05) e (EF05ER07) da BNCC (Brasil, 2017).

As atividades incluíram a exibição de trechos selecionados do filme Guerreiras do K-Pop que evidenciavam práticas xamânicas coreanas (danças rituais, símbolos espirituais, invocações e elementos de mediação entre o mundo físico e espiritual). Após a exibição, houve discussões orientadas, momentos de pesquisa em grupo sobre outras religiões de base não cristã (como o budismo, o hinduísmo e as tradições afro-brasileiras) e apresentações orais produzidas pelos estudantes.

Os registros de observação docente revelaram que, durante a exibição do filme e as discussões, os estudantes demonstraram curiosidade, envolvimento e empatia com as personagens e com os rituais apresentados. Houve relatos espontâneos de surpresa diante das semelhanças entre o xamanismo coreano e outras tradições já conhecidas (como a pajelança indígena). Notou-se também ampliação do vocabulário religioso e o desenvolvimento de habilidades argumentativas ao expor opiniões sobre respeito e diversidade.

Esses resultados qualitativos, embora não inferenciais, mostraram-se consistentes e coerentes entre as turmas, confirmando o potencial do cinema como mediador simbólico da aprendizagem religiosa. Pesquisas anteriores, como as de Menezes (2008) e Backer (2008), já indicavam que práticas xamânicas expressam dimensões espirituais por meio da arte, da música e do movimento corporal aspectos que se mostraram acessíveis e significativos aos estudantes ao serem traduzidos para a linguagem cinematográfica.

Portanto, os resultados alcançados, mesmo em uma fase inicial e exploratória, evidenciam o potencial transformador do uso de recursos culturais e midiáticos, como o cinema, no fortalecimento de uma educação religiosa mais ética, empática e formativa. Tal perspectiva está em consonância com o que preconiza a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017) ao destacar a importância da formação integral, do respeito à diversidade e da construção da superação de preconceitos religiosos como dimensões indissociáveis da trajetória escolar.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenvolvimento deste projeto evidenciou que o Ensino Religioso, quando conduzido de forma crítica, reflexiva e culturalmente situada, é um importante instrumento de promoção da empatia, do respeito e da convivência pacífica entre diferentes tradições de fé. A experiência pedagógica com o filme Guerreiras do K-Pop (2025) revelou-se eficaz para despertar a curiosidade e o interesse dos estudantes sobre o xamanismo e outras religiões de base não cristã, possibilitando o reconhecimento de que o sagrado se manifesta em múltiplas formas e expressões culturais.

Os resultados demonstraram que o diálogo entre religião, arte e educação potencializa aprendizagens significativas, ampliando a visão dos estudantes sobre o mundo e contribuindo para a construção de valores de respeito e cidadania. Ao compreender que o preconceito religioso nasce da falta de conhecimento e de convivência com a diversidade, o Ensino Religioso reafirma sua função de promover o encontro entre o eu e o outro, fortalecendo o sentido de pertencimento e humanidade.

Conclui-se, portanto, que práticas pedagógicas baseadas em recursos multimodais e culturais e contextualizados, constituem caminhos promissores para a efetivação de um Ensino Religioso comprometido com os direitos humanos, a ética e a valorização da pluralidade. O desafio que se impõe à escola é o de seguir cultivando espaços de diálogo, reflexão e acolhimento, nos quais o conhecimento sobre o sagrado contribua para a formação integral e para a construção de uma sociedade mais justa e respeitosa com todas as formas de crença e espiritualidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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SIEGEL, D. J. O cérebro da criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.


1 Discente do Curso Superior de Psicologia da UNA Campus Belo Horizonte. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Coordenadora do Ensino Fundamental da Fundação Bradesco Campus Itajubá. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail