O QUE REVELAM OS ESTUDOS SOBRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA EDUCAÇÃO INFANTIL? UM ESTUDO A PARTIR DA REVISÃO DA LITERATURA

WHAT DO STUDIES ON ENVIRONMENTAL EDUCATION IN EARLY CHILDHOOD EDUCATION REVEAL? A STUDY BASED ON A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782639744

RESUMO
Este estudo teve como objetivo principal analisar as práticas pedagógicas de educação ambiental na educação infantil no Brasil, com base em estudos já publicados na literatura. As produções foram categorizadas quanto ao tipo de pesquisa, distribuição temporal e geográfica, práticas empregadas e desafios relatados. Organizamos as produções em quatro categorias a saber: práticas sustentáveis cotidianas, projetos ambientais temáticos, formação continuada dos docentes e sensibilização e conscientização ambiental. A análise geográfica revelou concentração de estudos na Região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, e escassez em outras regiões do país. Foram identificados alguns obstáculos quanto a implementação das práticas de educação ambiental na educação infantil, recursos limitados e ausência de regulamentações específicas, dentre outros. O estudo evidenciou a necessidade de mais pesquisas e investimentos em políticas públicas que fortaleçam a educação ambiental na educação infantil brasileira.
Palavras-chave: educação ambiental; educação infantil; práticas pedagógicas; sustentabilidade; formação docente.

ABSTRACT
This study ‘s main objective was to analyze pedagogical practices in environmental education within early childhood education in Brazil, based on previously published studies. The productions were categorized according to the type, temporal and geographic distribution, practices employed, and reported challenges. We organized the productions into four categories, namely: daily sustainable practices, thematic environmental projects, continuing education for teachers, and environmental awareness and sensitization. The geographic analysis revealed a concentration of studies in the South Region, especially in Rio Grande do Sul, and a scarcity in other regions of the country. Some obstacles were identified regarding the implementation of practices, such as the lack of teacher training, limited resources, and the absence of specific regulations, among others. The study highlighted the need for more research and investment in public policies that strengthen environmental education in Brazilian early childhood education.
Keywords: early childhood education; environmental education; pedagogical practices; sustainability; teacher training.

1. INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, a temática ambiental tem ocupado espaço cada vez mais relevante nas discussões sociais, políticas e educacionais, impulsionadas pelas crescentes crises ecológicas e pela urgência em promover sociedades mais sustentáveis (Dunetz; Avissar; Gan, 2017; Junior et al., 2024). No campo educacional, destaca-se a importância de inserir a educação ambiental no debate desde a primeira infância, reconhecendo esse período como fundamental para a construção de valores, atitudes e práticas voltadas para o cuidado com o meio ambiente.

A respeito da Educação Infantil, especialmente, no contexto das creches, exerce um papel imprescindível na formação de vínculos afetivos com a natureza e no desenvolvimento de comportamentos sustentáveis. Para Lamanauskas (2023), a educação ambiental na primeira infância promove atitudes positivas em relação à natureza, fomenta estilos de vida sustentáveis e fortalece a consciência ecológica das crianças. Além disso, como destacam Moreira e Marques (2020), práticas eficazes em educação ambiental exigem bases conceituais sólidas e uma abordagem interdisciplinar, capaz de integrar as dimensões sociais, culturais e ambientais de forma contextualizada. Por isso, é necessário que práticas de educação ambiental sejam aplicadas na primeira infância, pois são momentos em que vão se aproximar do contexto ambiental nas escolas e nas creches.

É importante ressaltarmos que a inserção da educação ambiental nas creches não se limita à transmissão de conhecimentos, mas envolve experiências que permitam às crianças sentir, explorar, observar e interagir com os elementos naturais e com seu entorno. A criação de um senso de pertencimento e de responsabilidade em relação ao meio ambiente, desde os primeiros anos da infância é essencial (Junior et al., 2023). No entanto, mesmo com diretrizes como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que orienta que as práticas na educação infantil favoreçam a curiosidade, a exploração, o cuidado e o respeito pelo ambiente (Brasil, 2018), ainda há desafios para que essa proposta se efetive de forma mais consistente no cotidiano das instituições.

Pesquisas indicam que as práticas ambientais nas creches e pré-escolas muitas vezes se restringem a ações isoladas, como atividades em datas comemorativas ou projetos de reciclagem, que não estão integrados de forma contínua à rotina das crianças (Busik; Soletti; Caon, 2018; Link et al., 2012). Além disso, fatores como a falta de formação continuada para os docentes, escassez de recursos, limitações na infraestrutura física e fragilidade das políticas públicas agravam o distanciamento entre os princípios curriculares e as práticas efetivamente realizadas (Capitulino; Almeida, 2014; Dutra; Lima; Dresch, 2024). Essa realidade é ainda mais evidente no contexto das creches, onde as demandas por cuidado e acolhimento muitas vezes se sobrepõem às ações intencionais de educação ambiental.

Diante desse cenário, torna-se essencial compreendermos como a educação ambiental tem sido implementada nas creches brasileiras, que estratégias têm sido adotadas, quais são os desafios enfrentados por educadores(as) e quais práticas se mostram promissoras na formação ambiental das crianças com idades que integram as creches. Portanto, este estudo tem como objetivo principal realizar uma revisão bibliográfica sistematizada sobre práticas pedagógicas de educação ambiental na educação infantil brasileira, essencialmente, no contexto das creches. A partir da análise dos estudos selecionados, buscam -se mapear os tipos de pesquisa desenvolvidos, a distribuição geográfica e temporal das publicações, as práticas empregadas e os principais desafios relatados. Os resultados deste levantamento visam oferecer subsídios para o fortalecimento de práticas pedagógicas que promovam uma formação ambiental crítica, sensível e emancipadora desde os primeiros anos da vida escolar.

2. MATERIAL E MÉTODOS

Este estudo adota uma abordagem quanti-qualitativa, de natureza exploratória, fundamentada em uma revisão bibliográfica sobre práticas pedagógicas de educação ambiental na educação infantil brasileira. A análise buscou, ainda, compreender padrões, lacunas e potencialidades, contribuindo para o fortalecimento de práticas e políticas voltadas à educação ambiental na primeira infância.

2.1. Seleção dos Estudos

A busca bibliográfica foi realizada em bases de dados eletrônicas incluindo SciELO, Google Acadêmico e o Portal de Periódicos da CAPES. Foram utilizados descritores como “educação ambiental”, “educação infantil”, “práticas pedagógicas” e “sustentabilidade”. Os critérios de inclusão consideraram estudos publicados entre 2005 e 2025, compreendendo um intervalo de 20 anos, que abordassem práticas pedagógicas ambientais desenvolvidas no contexto da educação infantil brasileira. Foram excluídos trabalhos que não detalhavam práticas concretas, relatos duplicados ou que tratavam de outros níveis de ensino.

2.2 Análise dos Dados

Após a seleção, os estudos foram submetidos a uma análise documental de abordagem qualitativa, utilizando como referencial metodológico a análise de conteúdo, conforme proposta por Bardin (1977). A partir da leitura exaustiva dos textos, foi possível construir categorias temáticas, definidas com base tanto na recorrência dos temas identificados, quanto na relevância para os objetivos do estudo. A escolha dessas categorias se justifica pela necessidade de compreendermos as características metodológicas dos estudos, os contextos em que se inserem, as práticas pedagógicas adotadas e os desafios enfrentados no desenvolvimento da educação ambiental na educação infantil no Brasil.

Quanto a organização, sistematização e tabulação dos dados foram realizadas com o uso dos programas Microsoft Excel e QGis v.3,36,3, que permitiram gerar tabelas, gráficos de barra, e mapa geográfico. Essas representações visam facilitar tanto a análise quanto a comunicação dos resultados, tornando mais claras as tendências, as lacunas e os padrões identificados. A sistematização dos dados foi realizada a partir das seguintes dimensões: tipo de estudo, distribuição temporal e espacial, práticas pedagógicas e, desafios para a implementação.

2.3. Tipo de Estudo

Os estudos encontrados na literatura foram classificados em 04 (quatro) microgrupos, quanto ao tipo de pesquisa: a) Pesquisa empírica/pesquisa de campo: inclui estudos de caso, pesquisas de campo, etnográficas, qualitativo-biográficas, entrevistas, oficinas e capacitações — todos com coleta e análise de dados em contextos reais; b) Pesquisa-ação: estudos nos quais os autores participaram ativamente das práticas pedagógicas, buscando transformar a realidade enquanto pesquisavam; c) Relato de experiência: trabalhos com ênfase descritiva sobre ações realizadas, sem necessariamente seguirem uma metodologia científica estruturada; d) Pesquisa teórica (Revisão bibliográfica e similares): focados em reunir e discutir teorias e estudos existentes, sem coleta direta de dados.

2.4. Distribuição Temporal e Espacial

Para análise da distribuição temporal dos estudos, foi observada a frequência de publicações ao longo dos anos, permitindo visualizar tendências e aumento do interesse pelo tema em determinados períodos. Já para a distribuição espacial, foram registrados os estados e regiões do Brasil onde as práticas foram desenvolvidas, ou os estudos foram realizados, evidenciando possíveis desigualdades ou concentrações geográficas.

2.5. Práticas Pedagógicas

As práticas descritas nos estudos foram agrupadas em quatro categorias principais, definidas a partir da análise temática, da recorrência nas publicações e da natureza das atividades pedagógicas desenvolvidas no contexto da educação ambiental na educação infantil. A frequência de cada categoria foi contabilizada, possibilitando uma análise comparativa dos enfoques adotados nos estudos. As informações foram analisadas no software Microsoft Excel. A categorização buscou contemplar tanto o caráter formativo das ações quanto seu grau de inserção na rotina escolar e seu nível de complexidade pedagógica. As categorias são as seguintes:

  1. Práticas Sustentáveis Cotidianas: englobam ações integradas à rotina escolar, desenvolvidas de forma contínua e recorrente no dia a dia das creches e instituições de educação infantil. São práticas de caráter operacional e formativo, que visam à construção de hábitos sustentáveis desde os primeiros anos de vida. Incluem atividades como separação e destinação correta de resíduos sólidos; confecção de lixeiras lúdicas para reciclagem; reaproveitamento de materiais; uso consciente de água e energia; atividades que estimulam o cuidado com os espaços escolares e naturais. (Carvalho 2012).

  2. Projetos Ambientais Temáticos: são ações estruturadas, geralmente desenvolvidas em formato de projeto pedagógico, com foco em temas ambientais específicos. Diferem-se das práticas cotidianas por serem planejadas, ter objetivos definidos e envolver múltiplas etapas, frequentemente com início, desenvolvimento e conclusão. Exemplos de práticas dessa categoria incluem a implantação e manutenção de hortas escolares; projetos de compostagem; plantio de mudas nativas; observação da fauna local; campanhas educativas sobre biodiversidade, reciclagem ou cuidado com a água. (Loureiro 2012).

  3. Formação Continuada dos Docentes: refere-se às iniciativas que têm como foco principal a qualificação dos profissionais da educação infantil para atuarem de forma mais consistente e crítica no desenvolvimento da educação ambiental. Inclui ações como cursos, oficinas e capacitações específicas sobre práticas sustentáveis, formação para implantação de hortas, composteiras ou projetos ambientais; encontros de planejamento e troca de experiências entre educadores. (Carvalho 2012).

  4. Sensibilização e Conscientização Ambiental: compreende atividades cujo foco principal é o desenvolvimento de vínculo afetivo, empatia e consciência crítica das crianças em relação ao meio ambiente. Geralmente, são ações de caráter lúdico, exploratório, simbólico e sensorial, que estimulam a percepção, a imaginação e o cuidado. São exemplos dessa categoria rodas de conversa sobre temas ambientais; contação de histórias, fábulas e narrativas ecológicas; uso de recursos visuais, audiovisuais e brinquedos educativos; passeios, trilhas e visitas a espaços naturais; atividades artísticas, como desenhos, pinturas e construção de maquetes sobre o meio ambiente. (Sato 2002).

2.6. Desafios para a Implementação

Os desafios relatados nos estudos quanto à implementação das práticas de educação ambiental na educação infantil foram extraídos, agrupados e analisados qualitativamente através da análise de conteúdo (Bardin, 1977), a fim de compreendermos os principais obstáculos enfrentados nas instituições.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Um total de 36 estudos foram selecionados sobre práticas de educação ambiental na educação infantil. Foram categorizados os tipos de pesquisa em quatro macrogrupos. A maioria dos trabalhos (número (n) = 24; 67%) foi classificada como pesquisa de campo, englobando estudos de caso, etnografias e metodologias qualitativas aplicadas diretamente no ambiente escolar. Foram identificadas 7 pesquisas teóricas (19%), compostas por revisões bibliográficas puras ou associadas a entrevistas estruturadas, com foco na sistematização e análise de produções acadêmicas anteriores. A categoria de pesquisa-ação representou 8% da amostra, envolvendo estudos em que os pesquisadores atuaram diretamente no contexto educacional com o objetivo de promover transformações a partir da prática averiguada. Por fim, dois estudos (6%) foram classificados como relatos de experiência, caracterizados pela descrição de vivências e práticas pedagógicas específicas, geralmente sem o uso de instrumentos sistemáticos de coleta e análise de dados (Figura 1).

Figura 1. Tipos de Pesquisa em Estudos sobre Educação Ambiental na Educação Infantil, conforme seus dados.

Fonte: Elaborado pelas Autoras, 2025

3.1. Distribuição Temporal dos Estudos

A análise temporal dos estudos selecionados, com base na busca sistemática realizada no Portal de Periódicos CAPES e no Google Acadêmico sobre práticas de educação ambiental na educação infantil no Brasil entre os anos de 2009 e 2024 demonstra que, no início do período analisado, as publicações eram pontuais, com apenas um artigo por ano em 2009, 2010, 2012 e 2013. Esse cenário se manteve relativamente estável até 2016, com pequenas variações, como dois artigos em 2011 e 2017, e um pico modesto de três publicações em 2014. A partir de 2018, observa-se um crescimento expressivo no número de artigos indexados nas bases consultadas, com destaque para aquele ano, que concentrou seis estudos – o maior número em um único ano na série analisada. Embora 2019 tenha registrado uma queda, com apenas um artigo, os anos seguintes mantiveram uma média mais elevada de produção: quatro publicações em cada um dos anos de 2021, 2022 e 2023, e três publicações em 2024, até o momento da análise (Figura 2).

Esse movimento sinaliza uma consolidação do interesse acadêmico pelo tema, possivelmente impulsionado por diretrizes curriculares recentes e pela valorização de temas ambientais no contexto educacional. O fortalecimento da temática nos últimos anos pode ser atribuído, em parte, à inclusão da educação ambiental como tema transversal na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Junior et al., 2024), à intensificação dos debates sobre mudanças climáticas e à crescente valorização da sustentabilidade nos espaços educativos (Napomuceno et al., 2024). Além disso, a ampliação do acesso à pós-graduação e aos periódicos científicos no Brasil pode ter contribuído para o aumento da visibilidade e disseminação das pesquisas voltadas à educação infantil com ênfase em práticas ambientais.

Figura 2. Distribuição dos artigos por ano de publicação (2009–2024).

Gráfico, Gráfico de barras

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

3.2. Distribuição Geográfica dos Estudos

A análise geográfica dos estudos considerou apenas as produções empíricas, ou seja, aquelas que relataram a aplicação de práticas pedagógicas de educação ambiental em contextos reais da educação infantil, com menção explícita ao local de desenvolvimento da ação (escola, município ou estado). Os artigos que se tratava de revisões de literatura, estudos teóricos ou que não especificavam a localidade das práticas foram excluídos desta etapa da análise. A partir desses critérios, foram identificados artigos oriundos de 11 unidades federativas brasileiras, pertencentes às cinco regiões do país. A Região Sul concentrou o maior número de estudos, com 15 artigos, seguida pelas Regiões Sudeste e Nordeste, com cinco artigos cada, Região Norte, com duas publicações e a Região Centro-Oeste com apenas uma publicação (Figura 3A).

A análise por unidade federativa demonstrou que o Rio Grande do Sul lidera em número de publicações, com 10 artigos, seguido por São Paulo (5), Paraná (3), Santa Catarina e Piauí (2 cada). Outros estados apareceram com apenas um estudo publicado: Alagoas, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba e Rio Grande do Norte (Figura 3B).

Figura 3. Distribuição geográfica dos artigos por região (A) e Unidade Federativa (B).

Fonte: Elaborado por Karen Guimarães, QGis v. 3.36.3 (qgis.org).

A maior concentração de estudos na região Sul pode estar relacionada à tradição de pesquisa consolidada em universidades públicas dessas regiões, que contam com maior infraestrutura, redes de pesquisa ativas e financiamento (Carniello; Santos; Oliveira, 2015).

A presença reduzida de estudos nas regiões Norte e Centro-Oeste, com apenas duas e uma publicações, respectivamente, indica uma desigualdade na produção científica nacional sobre o tema, o que pode refletir também disparidades no acesso à formação docente continuada, incentivos à pesquisa e políticas públicas de valorização da educação ambiental nesses territórios. Tal cenário preocupa, sobretudo porque essas regiões possuem contextos socioambientais únicos e ricos em biodiversidade, que poderiam potencializar abordagens locais mais contextualizadas e significativas para as crianças (Matos et al., 2022).

Além disso, a baixa incidência de publicações nos estados da Região Norte, como Pará e Amazonas, reforça a necessidade de incentivo à pesquisa que considere a pluralidade de realidades brasileiras, incluindo as especificidades socioculturais e ambientais da Amazônia. A inclusão de tais territórios nas práticas e estudos pode contribuir para uma educação ambiental mais equitativa, crítica e comprometida com a justiça ambiental e social. Dessa maneira, a análise geográfica aponta para uma necessidade urgente de descentralizar a produção científica na área e ampliar o incentivo à realização de pesquisas aplicadas em estados menos representados, promovendo uma maior diversidade de experiências e abordagens na educação ambiental desde a infância.

3.3. Práticas Pedagógicas Identificadas

A análise das práticas pedagógicas descritas nos estudos revisados permitiu organizá-las em quatro categorias principais: Práticas Sustentáveis Cotidianas, Projetos Ambientais Temáticos, Formação Continuada dos Docentes e Sensibilização e Conscientização Ambiental. Essa categorização, sistematizada com base nas ocorrências observadas nos artigos, é visualmente representada na Figura 4.

A categoria Sensibilização e Conscientização Ambiental destaca-se com maior frequência, sendo identificada em 14 estudos (Barros; Tozoni-Reis, 2009; Bissaco; Bonotto, 2017; Busik; Soletti; Caon, 2018; Capitulino; Almeida, 2014; da Costa; Rossetti-Ferreira; de Araujo Mello, 2021; Da Silva; Da Silva, 2014; Dal Soto, 2013; Galvão et al., 2023; Napolis et al., 2018; Oliveira; Melo; Pinheiro, 2022; Ribeiro; Coutinho; Boer, 2021; Rocha; Dal-Farra, 2021; Schumann; Pinheiro, 2011; Silva Rocha et al., 2016), o que corresponde a 39% do total. Essa predominância evidencia a valorização de práticas que visam desenvolver vínculos afetivos e atitudes conscientes em relação ao meio ambiente desde os primeiros anos da infância, utilizando estratégias como rodas de conversa, contação de histórias, recursos audiovisuais, passeios e jogos. O alto número de ocorrências pode estar associado à facilidade de implementação dessas ações no cotidiano escolar e à sua compatibilidade com os objetivos do trabalho pedagógico na educação infantil. No entanto, a concentração nessa categoria também pode sinalizar uma abordagem predominantemente simbólica e afetiva, que precisa ser complementada com ações mais estruturadas e contínuas.

Os Projetos Ambientais Temáticos, representaram 22% das ocorrências e identificados em oito estudos (Ahlert; Nandi, 2023; Da Silva Sousa Mattos; Rodrigues Da Silva Júnio; Cutrim Carvalho, 2020; Grzebieluka; Kubiak; Schiller, 2014; Klein; Carneiro, 2018; Koloszuki Maciel et al., 2022; Lunardi; Lunardi, 2023; Pedro Henrique Feliciano et al., 2018; Silva; Chagas, 2024), são o segundo grupo mais frequente. Esses projetos envolvem maior planejamento e articulação, e incluem atividades como implantação de hortas escolares, campanhas de conscientização, observação da fauna e plantio de mudas. A presença relevante dessa categoria reforça o potencial de práticas que integram diversos saberes, promovem o protagonismo infantil e estabelecem conexões com a comunidade escolar.

As Práticas Sustentáveis Cotidianas aparecem em quatro estudos (Fraxe et al., 2021; Gnoatto; Carniatto, 2022; Link et al., 2012; Schunemann; Rosa, 2010), o que equivale a 11% das práticas identificadas. Tais ações são integradas ao cotidiano das crianças, como a confecção de lixeiras lúdicas, oficinas de reciclagem e brinquedos feitos com materiais reutilizáveis. Embora menos frequentes, essas práticas são fundamentais para a construção de hábitos sustentáveis e sua baixa incidência sugere uma subutilização de oportunidades pedagógicas presentes na rotina escolar.

Por fim, a categoria Formação Continuada dos Docentes foi a menos identificada, com apenas um estudo (Pires; Bica; Santos, 2022), o que representa 3% do total. Esse dado, reforçado visualmente pelo gráfico, aponta para uma lacuna importante na literatura: a formação específica dos professores para trabalhar com educação ambiental na educação infantil. A ausência de investimento sistemático na qualificação docente pode comprometer tanto a implementação quanto a continuidade das ações pedagógicas ambientais.

Um total de nove estudos não apresentaram informações suficientes sobre as práticas pedagógicas adotadas, seja por se tratar de revisões bibliográficas, seja pela ausência de descrição clara das atividades desenvolvidas (Belluzzo Luccas; Bonotto, 2018; Campos, 2017; Crepaldi; Bonotto, 2018; Dutra; Lima; Dresch, 2024; Fernandes; Costa, 2011; Freitas; Marin, 2020; Lima et al., 2023; Pitzschk Foglia; Cavalcanti; De Miranda, 2024; Tiriba; Barradas, 2019).

A figura 4 reforça a assimetria entre a presença de práticas voltadas ao envolvimento das crianças e aquelas que estruturam as condições para sua realização, como a formação docente. Apesar de distintas, essas categorias não são excludentes e, em muitos estudos, as práticas se interligam, articulando elementos de diferentes abordagens. Ainda assim, essa organização contribui para a compreensão da diversidade e das lacunas existentes nas estratégias pedagógicas voltadas à educação ambiental na infância.

Figura 4. Frequência das práticas pedagógicas ambientais na educação infantil segundo categorias identificada nos estudos.

Observa-se que, embora haja um número expressivo de iniciativas com potencial para sensibilizar e mobilizar as crianças em torno das questões ambientais, ainda é necessária uma ampliação das ações que visem à formação contínua dos educadores, ao planejamento de projetos estruturados e à integração de práticas sustentáveis ao cotidiano escolar, de modo a fortalecer uma abordagem mais consistente e transformadora da educação ambiental na educação infantil.

3.4. Desafios na Implementação das Práticas de Educação Ambiental

Apesar do reconhecimento crescente da importância da educação ambiental na infância, os estudos revisados evidenciaram diversos desafios que dificultam a implementação efetiva dessas práticas nos contextos escolares. Um dos obstáculos mais recorrentes refere-se à falta de formação específica dos docentes, o que limita a apropriação de estratégias pedagógicas adequadas e a problematização crítica das atividades desenvolvidas (Ahlert; Nandi, 2023; Dutra; Lima; Dresch, 2024; Klein; Carneiro, 2018; Napolis et al., 2018; Ribeiro; Coutinho; Boer, 2021). Essa lacuna pode resultar em ações pontuais e desarticuladas, com baixo potencial transformador (Da Silva Sousa Mattos; Rodrigues Da Silva Júnio; Cutrim Carvalho, 2020; Gnoatto; Carniatto, 2022; Link et al., 2012).

Outro entrave relevante é a escassez de recursos materiais, estruturais e didáticos, tanto nos espaços escolares quanto nos territórios em que as instituições estão inseridas. Em áreas rurais, por exemplo, as condições socioeconômicas das famílias, a distância entre casa e escola e a restrição da mobilidade das crianças comprometem o acesso a experiências significativas com a natureza (da Costa; Rossetti-Ferreira; de Araujo Mello, 2021; Da Silva; Da Silva, 2014). Também foram mencionadas limitações no uso de espaços externos devido à falta de infraestrutura, higiene ou segurança (Capitulino; Almeida, 2014; Grzebieluka; Kubiak; Schiller, 2014).

Observou-se ainda que a integração das práticas ambientais ao currículo escolar continua sendo um desafio, com muitas ações ocorrendo de forma isolada, atreladas a datas comemorativas ou eventos pontuais (Busik; Soletti; Caon, 2018; Link et al., 2012). A ausência de continuidade nas ações e a predominância de abordagens superficiais, especialmente no que se refere à reciclagem e ao consumo, reforçam práticas conservacionistas sem promover a criticidade ambiental (Da Silva Sousa Mattos; Rodrigues Da Silva Júnio; Cutrim Carvalho, 2020; Freitas; Marin, 2020; Gnoatto; Carniatto, 2022).

Além disso, algumas dificuldades dizem respeito ao envolvimento efetivo das crianças nas atividades, como a resistência inicial ao trabalho coletivo (Barros; Tozoni-Reis, 2009), a pouca familiaridade com equipamentos e ferramentas (Lunardi; Lunardi, 2023), e até o afastamento simbólico da natureza, perceptível em suas representações gráficas (Silva Rocha et al., 2016).

Aspectos estruturais também foram identificados, como a ausência de regulamentações específicas voltadas à educação ambiental na primeira infância (Lima et al., 2023), o que contribui para a fragmentação das iniciativas e dificulta o planejamento de ações contínuas e contextualizadas. Ainda nesse sentido, alguns estudos apontam a importância de considerar as especificidades culturais e sociais das comunidades, como forma de tornar as práticas mais significativas (Dal Soto, 2013; Fernandes; Costa, 2011).

Tais desafios revelam a necessidade de políticas públicas que valorizem a formação docente, promovam o acesso a recursos pedagógicos e favoreçam a articulação entre escola, família e território. Além disso, reforçam a urgência de pensar práticas ambientais que dialoguem com a realidade vivida pelas crianças e que promovam, desde cedo, uma relação ética e crítica com o meio ambiente.

3.5. Limitações do Estudo

Este estudo apresentou algumas limitações que merecem ser destacadas. A principal dificuldade esteve relacionada à localização e seleção dos estudos, especialmente no que diz respeito à disponibilidade de publicações indexadas sobre práticas pedagógicas de educação ambiental na educação infantil. Muitos trabalhos potencialmente relevantes não estavam presentes em bases de dados científicas de amplo alcance, o que pode ter restringido o universo de análise. Isso reflete um possível déficit na sistematização e divulgação das experiências práticas realizadas em instituições de educação infantil, que, apesar de existirem em diversas regiões do país, não são publicadas em periódicos acadêmicos com visibilidade nacional.

Além disso, a heterogeneidade das metodologias e abordagens dos estudos dificultou a comparação direta entre eles, especialmente no que se refere à descrição das práticas e dos resultados obtidos. Em alguns casos, a ausência de informações detalhadas sobre o contexto de aplicação e os efeitos das ações dificultou uma análise mais robusta. A limitação do número de estudos incluídos na análise também pode estar relacionada ao pouco investimento histórico em pesquisas que envolvem a primeira infância e a educação ambiental de forma integrada. Tal cenário sugere uma lacuna importante na literatura e aponta para a necessidade de maior incentivo à produção científica voltada para essa intersecção, especialmente em regiões menos representadas no presente levantamento.

Apesar dessas limitações, o estudo oferece uma visão ampla e atualizada das práticas pedagógicas e dos desafios enfrentados na implementação da educação ambiental na educação infantil no Brasil, contribuindo com subsídios importantes para novas investigações e para o fortalecimento de políticas e práticas na área.

4. CONCLUSÃO

A análise das práticas pedagógicas de educação ambiental na educação infantil, a partir de 36 estudos selecionados, revelou um cenário de crescente interesse pelo tema, embora ainda marcado por desigualdades regionais e desafios estruturais. No entanto, obstáculos como a carência de formação docente, escassez de recursos e ausência de regulamentação específica ainda limitam a efetividade dessas ações. A predominância de estudos na Região Sul e a ausência de produções em diversas unidades federativas apontam para a necessidade de ampliação e descentralização da pesquisa na área. Além disso, a baixa presença de estudos indexados evidencia uma lacuna na disseminação das experiências desenvolvidas, o que pode comprometer o compartilhamento de boas práticas e a construção coletiva de conhecimento. Diante disso, reforça-se a importância de políticas públicas que incentivem a formação continuada de educadores, a produção científica sobre o tema e a valorização da educação ambiental como parte essencial do currículo na primeira infância.

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1 Discente de mestrado no Programa de pós-graduação em Sociedade, Ambiente e Qualidade de Vida (PPGSAQ), da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Docente do Programa de pós-graduação em Sociedade, Ambiente e Qualidade de Vida (PPGSAQ), da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail