O PAPEL DO PSICÓLOGO NO RECONHECIMENTO DA VIOLÊNCIA INVISÍVEL CONTRA A MULHER EM RELACIONAMENTOS ABUSIVOS

THE ROLE OF THE PSYCHOLOGIST IN THE RECOGNITION OF INVISIBLE VIOLENCE AGAINST WOMEN IN ABUSIVE RELATIONSHIPS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793764381

RESUMO
Os relacionamentos abusivos representam uma importante e alarmante problemática social e de saúde mental, identificá-los, bem como saber agir e enfrentá-los pode ser bem difícil especialmente quando a violência se manifesta de maneira psicológica e emocional, sem produzir marcas físicas imediatamente perceptíveis. Considerando esse contexto, o presente artigo tem como objetivo verificar através de revisão de literatura, a atuação do psicólogo no reconhecimento e na intervenção em relacionamentos abusivos, especialmente nas situações em que o afeto encobre práticas de controle, manipulação e violência psicológica contra a mulher. Metodologicamente trata-se de uma pesquisa bibliográfica, exploratória do ponto de vista dos objetivos e com abordagem qualitativa. Quanto aos resultados evidenciou-se que a intervenção psicológica exige um olhar sistêmico que articule fatores individuais, relacionais e culturais ou seja, não basta tratar os sintomas, mas considerar a estrutura relacional com controle, manipulação, dependência, e o contexto sociocultural que legitima a invisibilidade da violência. Conclui-se que o papel do psicólogo nesse contexto, não é ser somente um profissional de competência técnica, mas também com sensibilidade para reconhecer as sutilezas que caracterizam a violência psicológica, frequentemente mascarada por demonstrações de afeto, cuidado e dependência emocional.
Palavras-chave: Psicólogo; Violência invisível; Mulher; Relacionamento abusivo.

ABSTRACT
Abusive relationships represent an important and alarming social and mental health issue. Identifying them, as well as knowing how to act and confront them, can be very difficult, especially when violence manifests psychologically and emotionally, without producing immediately noticeable physical marks. Considering this context, the present article aims to verify, through a literature review, the psychologist's role in recognizing and intervening in abusive relationships, especially in situations where affection masks practices of control, manipulation, and psychological violence against women. Methodologically, this is a bibliographic and exploratory study in terms of its objectives, with a qualitative approach. Regarding the results, it became evident that psychological intervention requires a systemic perspective that articulates individual, relational, and cultural factors that is, it is not enough to treat the symptoms, but rather to consider the relational structure involving control, manipulation, and dependence, as well as the sociocultural context that legitimizes the invisibility of violence. It is concluded that the psychologist's role in this context is not only that of a professional with technical competence, but also one with the sensitivity to recognize the subtleties that characterize psychological violence, often masked by displays of affection, care, and emotional dependence.
Keywords: Psychologist; Invisible violence; Woman; Abusive relationship.

INTRODUÇÃO

A violência nas relações íntimas nem sempre se manifesta por meio de marcas visíveis. Em grande parte dos relacionamentos abusivos, ela opera de forma sutil, por meio de controle, humilhação, manipulação e isolamento, e, justamente por não deixar evidências visíveis no corpo físico, permanece por longos períodos sem ser reconhecida pela própria vítima ou por aqueles que a cercam.

A nível global, quase uma em cada três mulheres, cerca de 840 milhões já vivenciou violência física ou sexual por parceiro íntimo ou violência sexual por não parceiro ao menos uma vez na vida, e esse índice permanece praticamente inalterado desde 2000, com declínio anual de apenas 0,2% (WHO, 2025).

No Brasil, a situação é igualmente alarmante, a pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Datafolha (2025) revelou que 37,5% das mulheres brasileiras com 16 anos ou mais relataram ter sofrido ao menos uma situação de violência nos 12 meses anteriores à coleta, o equivalente a aproximadamente 21,4 milhões de mulheres, a maior prevalência já registrada na série histórica. A Lei nº 14.188/2021 tipificou a violência psicológica contra a mulher como crime, definindo-a como a conduta de causar dano emocional, prejudicar a autonomia ou impedir o livre exercício de direitos por meio de ameaça, humilhação, manipulação, isolamento, chantagem ou qualquer outro meio que configure prejuízo à saúde psicológica, com pena de reclusão de seis meses a dois anos (BRASIL, 2021).

No entanto, a existência de uma definição legal não elimina e tampouco mitiga o problema e os números seguem crescendo a cada dia, nos noticiários e nas redes sociais vemos diariamente inúmeros casos de violência de todos os tipos praticadas contra as mulheres e lamentavelmente muitos casos de feminicídio. Nesse contexto, o discurso cultural do “amor” desempenha um papel central na ocultação da violência. Comportamentos de ciúme excessivo e possessividade são frequentemente reinterpretados como demonstrações de cuidado ou de amor intenso, conferindo legitimidade afetiva a práticas de controle.

Pesquisas que versam sobre violência nos relacionamentos íntimos evidenciam que o ciúme excessivo, a possessividade e o controle são naturalizados nas relações afetivas de jovens brasileiros, sendo compreendidos como “provas de amor”, o que dificulta a percepção da própria situação como violenta. Essa naturalização tem consequências concretas: dados do DataSenado (2025) mostram que, embora uma em cada três mulheres entrevistadas tenha sido vítima de violência, apenas 4% delas se declararam vítimas espontaneamente, evidenciando uma profunda lacuna entre a violência vivida e a violência reconhecida. A violência psicológica, em particular, destaca-se como a forma mais prevalente: no Rio Grande do Sul, 94% das vítimas relataram ter sofrido violência psicológica.

Nessa circunstância a dependência emocional configura outro mecanismo relevante de manutenção do vínculo abusivo. A revisão integrativa recente feita por Nascimento et al. (2026) evidencia que a dependência emocional está diretamente relacionada à permanência da mulher em relações abusivas, sendo influenciada por fatores como baixa autoestima, medo da solidão, dependência financeira e ausência de rede de apoio. A violência psicológica possui um papel significativo no fortalecimento desse vínculo disfuncional, dificultando o rompimento do ciclo da violência.

Nesse quadro, o psicólogo assume função relevante no processo de reconhecimento e enfrentamento da violência psicológica. Inserido em equipes multiprofissionais nos serviços da rede de atendimento à mulher, sua atuação compreende a escuta qualificada, o apoio psicossocial, a promoção da conscientização sobre a dinâmica da violência, o fortalecimento da autoestima e da autonomia, além da articulação de encaminhamentos no interior da rede (Monteiro, 2024).

Dessa forma, investigar e discutir essa temática justifica-se, portanto, pela necessidade de sistematizar o conhecimento disponível, identificar lacunas teóricas e contribuir para o aprimoramento das práticas profissionais e das políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência psicológica contra a mulher. Assim, a questão que orienta esta pesquisa é: como a violência psicológica e emocional se manifesta e se perpetua em relacionamentos abusivos e qual é a importância da atuação do psicólogo no reconhecimento e no enfrentamento dessa violência contra a mulher?

Tendo como base essa problemática, o estudo adota o delineamento de revisão de literatura e tem como objetivos: identificar as principais características e formas de manifestação da violência psicológica e emocional em relacionamentos abusivos; analisar as consequências emocionais e comportamentais vivenciadas pelas vítimas; e descrever as estratégias de acolhimento e intervenção psicológica apresentadas na literatura sobre o acompanhamento de mulheres em situação de violência.

Diante do exposto e visando uma melhor discussão da temática, este artigo estrutura-se em introdução que traz a contextualização, justificativa e objetivos do estudo. A metodologia que apresenta o percurso metodológico adotado nessa pesquisa. Os resultados e discussão expõem o aprofundamento do tema feito através das contribuições dos autores que fundamentam a investigação e por fim as considerações finais.

METODOLOGIA

A metodologia de um estudo define o caminho que o pesquisador percorre para alcançar seu objetivo geral e responder sua problemática de pesquisa. Fonseca (2010), contribui afirmando que a metodologia é a definição dos procedimentos técnicos, das modalidades de atividades, dos métodos utilizados na pesquisa.

A presente investigação objetiva verificar através de revisão de literatura, a atuação do psicólogo no reconhecimento e na intervenção em relacionamentos abusivos, especialmente nas situações em que o afeto encobre práticas de controle, manipulação e violência psicológica contra a mulher. E de modo específico: identificar as principais características e formas de manifestação da violência psicológica e emocional em relacionamentos abusivos; analisar as consequências emocionais e comportamentais vivenciadas pelas vítimas; descrever as estratégias de acolhimento e intervenção psicológica apresentadas em estudos sobre o acompanhamento de mulheres em situação de violência.

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, exploratória do ponto de vista dos objetivos e com abordagem qualitativa. Gil (2010) pontua que a pesquisa bibliográfica ou revisão de literatura utiliza material já elaborado sobre a temática investigada. A proposta deste estudo vai ao encontro do que o autor explica, uma vez que se realizou um levantamento de pesquisas sobre a atuação do psicólogo no contexto dos relacionamentos abusivos vivenciado por mulheres. Para tal consultou-se bases online que dispõem de pesquisas confiáveis e relevantes, dentre as quais destaca-se: PePSIC, PsycINFO, Google Acadêmico, SciELO, Portal de Periódicos CAPES, PubMed, Scopus e Web of Science, além de repositórios de teses e dissertações como a BDTD.

Para esta revisão de literatura e visando garantir a qualidade e relevância bem como a atualidade das fontes analisadas, adotou-se critérios de inclusão e exclusão. Quanto aos critérios de inclusão foram incluídos estudos publicados entre 2020 e 2025, disponíveis em fontes online confiáveis e que abordam a atuação do psicólogo diante dos relacionamentos abusivos vividos por mulheres. E foram excluídas pesquisas que não estavam dentro dos critérios, ou seja, os que estavam fora do recorte temporal, não debatem acerca da temática e os advindos de fontes não confiáveis. Estes critérios estão alinhados com o objeto desta investigação e asseguram a idoneidade da análise proposta.

No que diz respeito aos objetivos, esta pesquisa enquadra-se como exploratória, pois tem como propósito proporcionar uma maior familiaridade sobre a atuação do psicólogo no contexto aqui investigado. E porque a pesquisa exploratória em conjunto com a revisão de literatura possibilita levantar conceitos, identificar estratégias de atuação e o reconhecimento de lacunas na literatura. Desse modo, a escolha da pesquisa exploratória se justifica neste estudo e oferece também fundamento às futuras discussões e pesquisas sobre essa temática dentro do campo da Psicologia.

Quanto a abordagem do problema, trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa. Conforme os estudos de Marconi e Lakatos (2010, p. 269) “[...] a abordagem qualitativa fornece análise mais detalhada sobre investigações, hábitos, atitudes e tendências de comportamentos”. Assim, optou-se por esta abordagem, porque o foco da investigação não era apresentar e analisar dados estatísticos e sim examinar a literatura existente, fazer reflexões e aprofundar o conhecimento sobre a temática pesquisada.

No que se refere à coleta de dados por se tratar de uma revisão de literatura esta ocorreu unicamente através de fontes secundárias, na qual recorreu-se a pesquisas publicadas sobre o tema, como artigos, dissertações, teses.

Quanto à análise de dados esta ocorreu através da leitura sistemática e aprofundada das investigações selecionadas. Incialmente foram feitas as leituras dos artigos com o intuito de identificar a relevância e relação com o objeto desta pesquisa bem como os critérios de inclusão e exclusão propostos. Na sequência realizou-se a leitura análitica onde organizou-se e categorizou-se as informações pertinentes sobre a atuação do psicólogo no contexto dos relacionamentos abusivos vivenciado por mulheres, identificando as estratégias e principais desafios do profissional neste contexto. Para finalizar realizou-se a leitura interpretativa visando a articulação de tudo que foi selecionado, a identificação de divergências, das convergências e das lacunas existentes na literatura. Isso tudo possibilitou uma compreensão ampla do que foi investigado.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A violência em relacionamentos abusivos

A violência em relacionamentos íntimos nem sempre se manifesta de modo óbvio ou visível com marcas físicas. Muitas vezes, ela se dá por meio de manipulação emocional, vigilância constante, humilhação silenciosa, chantagem afetiva ou dependência emocional. Essa invisibilidade dificulta sobremaneira o reconhecimento da situação tanto pela vítima quanto pela rede de apoio ou profissionais. Sobre violências psicológicas vivenciadas por mulheres em relacionamentos íntimos Souza e Bernardes (2023, p.54) afirmam que: “permanece a tendência de invisibilidade e naturalização das violências psicológicas nos relacionamentos”.

Infelizmente ainda vivemos em uma sociedade extremamente machista e misógina onde se criou uma cultura da mulher reduzida à “propriedade” de um homem, tal estrutura também naturalizou comportamentos inaceitáveis como ciúme excessivo, objetificação da mulher, entre outros. A naturalização desses comportamentos por meio de discursos culturais que associam ciúme, controle ou dependência ao “amor” ou ao “cuidado” contribui para que o ciclo abusivo se estabeleça com menos resistência.

Neste ciclo de abusos e violências contra a mulher é preciso destacar a dependência emocional, pois ela aparece como um dos fatores que mantêm a vítima atada à relação abusiva, o que reforça o caráter invisível do abuso. Em seus estudos Santos e Camargo (2024, p.1) falam sobre a dependência emocional em relacionamentos conjugais e afirmam que entre os principais pontos da dependência emocional estão: “o sentimento de culpa, medo do abandono, vazios emocionais”. A invisibilidade também se relaciona à dificuldade de mensuração e reconhecimento institucional e social, por exemplo, a violência psicológica nos relacionamentos íntimos tende a ter menor visibilidade em comparação à violência física, já que não deixa marcas externas evidentes nem facilmente quantificáveis.

Nesse tipo de relacionamento a autoestima é frequentemente comprometida em vítimas de abuso. Isso porque a constante desvalorização, humilhação e manipulação emocional por parte do agressor podem levar a vítima a internalizar sentimentos de inutilidade, culpa e vergonha. Tal deterioração da autoestima pode resultar em comportamentos autodestrutivos, como automutilação, abuso de substâncias e até mesmo tentativas de suicídio (Monteiro; Magalhães; Azevedo, 2022).

Segundo as contribuições dos autores supracitados constatou-se que as vítimas de relacionamentos abusivos são afetadas em diversas esferas incluindo não só a vida pessoal, mas a profissional e a social. Os abusos deixam cicatrizes psicológicas graves e profundas e muitas vítimas podem chegar a um estado precário, as levando em casos mais graves, à distorção da realidade.

No que se refere ao âmbito social as mulheres vítimas de abusos deixam de interagir com familiares e amigos, param de sair e viver momentos de socialização, passando a enfrentar o isolamento social. Isso ocorre conforme as contribuições de Cirqueira e Sousa (2022), porque na maioria dos casos o agressor busca e consegue controlar e limitar as interações sociais da vítima, afastando-a de seu ciclo social. Trazendo danos psicológicos e afetando diretamente a forma como a mulher viverá sua vida após esse tipo de relacionamento, pois em alguns casos ela perde a capacidade de interagir e passa a ter medo de se abrir e se permitir viver novos relacionamentos, sejam eles afetivos como fazer novos amigos e ou retornar ao seu antigo ciclo de amizades. Ou ainda relacionamentos amorosos.

Outra consequência que as mulheres vítimas de relacionamentos abusivos podem enfrentar é a despersonalização. Ainda em consonância com Cirqueira e Sousa (2022), a despersonalização acontece quando a vítima se distancia do seu eu, isso pode ser uma forma de lidar com a situação permitindo que se dissocie do trauma e da dor. É como se ela passasse a se ver de fora olhando para o seu próprio “eu” e criando um distanciamento, gerando uma desconexão do próprio corpo.

Frente ao exposto, é imprescindível garantir um apoio e atendimento humanizado às vítimas dos relacionamentos abusivos, esse acolhimento não é feito por um único profissional, mas sim por uma equipe multiprofissional formada por: advogados, assistentes sociais, profissionais da saúde como médicos, enfermeiros e os psicólogos. Esses profissionais são de suma importância e formam uma rede de apoio que pode auxiliar essas mulheres para que elas recebam um atendimento completo e integrado (Magalhães et al., 2022).

Permanência, dependência afetiva e manutenção do ciclo abusivo

Feitas as argumentações sobre a violência em relacionamentos abusivos, é o momento de trazer a discussão sobre a permanência das mulheres nos relacionamentos abusivos, e existem muitos fatores que fazem com que ela permaneça dentro de um relacionamento assim, e nunca em hipótese alguma se deve culpabilizar a vítima, o que ocorre em muitos casos. No caso dos abusos psicológicos torna-se ainda mais difícil de sair, isso porque como não ocorre a agressão física a vítima nem percebe os abusos e violências que está sofrendo.

Assim, a permanência da vítima em relacionamentos abusivos, especialmente naqueles em que o abuso é predominantemente psicológico ou emocional, envolve múltiplos fatores como: emocionais, dependência econômica, risco de escalada da violência, filhos, isolamento, ausência de suporte e barreiras institucionais. Não se trata de culpa da vítima ou ainda de uma escolha individual feita por ela.

No quesito dependência afetiva-emocional Andrade et al. (2024) em seu estudo afirma que: “a dependência emocional aparece como fator de vulnerabilidade relevante e características como a autodesvalorização, o medo de perder o parceiro e a crença de que a mudança ocorrerá são recorrentes” (p. 09).

Corroborando com o autor supracitado, Haack, Comandulli e Falcke (2023) evidenciam que estilos de apego inseguros e o ciúme patológico podem funcionar como preditores da agressão psicológica no âmbito conjugal. Esses fatores (dependência afetiva, estilos de apego inseguros, normalização cultural, medo, culpa) convergem para manter o ciclo de dominação: apesar do sofrimento e dos prejuízos inclusive à saúde mental a vítima pode não identificar corretamente a violência ou não dispor de recursos para sair dela.

As contribuições dos autores vão ao encontro e reforçam a importância de acolher a vítima e mostrar o que ela muitas vezes nem tem ciência que está vivendo e ou acontecendo com ela mesma. É imprescindível um acolhimento e abordagem e adequada para chegar até a mulher que está vivendo esse momento de vulnerabilidade, para que ela possa enxergar e entender a importância de sair desse relacionamento e romper com esse ciclo. Sobre isso, Farias (2023) assinala que convivência frequente com o agressor intensifica o sofrimento e dificulta a busca por ajuda.

Em suma, a permanência de mulheres em relacionamentos abusivos é um fenômeno complexo e multicausal, e jamais deve ser entendida de forma passiva ou ainda como uma escolha racional da vítima. Com base na literatura analisada evidencia-se que a dependência emocional se configura como um dos principais fatores que mantém o vínculo, permitindo que o ciclo de violências continue, mas os outros fatores aqui salientados também desempenham um papel importante nesse cenário.

Além da dependência emocional, a dependência financeira, se constitui como obstáculo material significativo para a ruptura, e isso é ainda mais delicado em casos de mulheres em situação de vulnerabilidade social, econômica e racial. E não se deve deixar de salientar distorções cognitivas como minimização da violência, normalização do abuso, a promessa de mudança do parceiro e auto culpabilização se tornam barreiras que aprisionam a mulher na dinâmica abusiva.

Por fim, tem a pressão social, estereótipos de gênero, o ciclo da violência, em suas fases de tensão, agressão e reconciliação etc. Nesse sentido, compreender esse processo e seus mecanismos é primordial para que o psicólogo atue de modo adequado, não se limitando nunca à responsabilização individual da vítima, mas sim para que ele possa reconhecer e identificar o que está explícito e implícito nos fios que constituem a teia que sustenta a permanência no relacionamento violento.

A atuação do psicólogo na rede de enfrentamento à violência contra a mulher: reconhecimento, intervenção e desafios

Não se pode centralizar apenas o psicólogo no reconhecimento e intervenção frente aos relacionamentos abusivos, pois ele é apenas um dos profissionais que compõe a rede de enfrentamento à violência contra a mulher. Como mencionado anteriormente, a rede é composta por profissionais de diversas áreas.

Além dos profissionais que auxiliam no caso da violência já concretizada (enfermeiros, médicos, delegados, assistentes sociais), segundo os Cadernos Temáticos de Referência disponibilizados pelo Ministério da Justiça, existe a rede de enfrentamento. Esses cadernos foram publicados em 2025 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, e explicitam na Nota Técnica nº 25/2025 do Conselho Federal de Psicologia, apresenta os serviços não especializados que compõem essa rede, dentre os quais destacam-se: Unidades Básicas de Saúde (UBS) e hospitais gerais, Programa Saúde da Família, delegacias comuns, Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS), Ministério Público e Defensoria Pública (BRASIL, 2025).

A nota também especifica os serviços especializados que incluem: Casa da Mulher Brasileira, Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM/CEAM), abrigos e casas de acolhimento provisório, Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM), Salas Lilás, Patrulha Maria da Penha, Núcleos de Defesa da Mulher da Defensoria Pública, Promotorias Especializadas da Mulher, Juizados de Violência Doméstica e Familiar, e a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 (BRASIL, 2025)

Quanto as bases políticas que auxiliam nesse trabalho de combate aos diversos tipos de abusos e violências sofridos pelas mulheres, destacam-se: a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), cujo artigo 35 dispõe sobre a criação de serviços especializados pelos entes federativos; o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios (Decreto nº 11.640/2023), que estabelece mecanismos de articulação intersetorial; e a Norma Técnica de Padronização dos Centros de Referência de Atendimento à Mulher, que define os princípios e métodos de atuação do psicólogo nos CREAM (BRASIL, 2025).

Considerando que o foco deste estudo é a atuação do psicólogo frente ao reconhecimento da violência invisível contra a mulher em relacionamentos abusivos cabe salientar o papel desse profissional nesse processo, segundo a Nota Técnica nº 25/2025 do Conselho Federal de Psicologia, o psicólogo deve oferecer apoio psicossocial, adotar a perspectiva de gênero, não responsabilizar a mulher pela violência sofrida e não assumir postura de neutralidade diante do comportamento violento. Nos Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CREAM), a intervenção psicológica deve ter como objetivos interromper o ciclo da violência e prevenir novas agressões, em conformidade com a Norma Técnica de Padronização dos Centros de Referência de Atendimento à Mulher. Nesses espaços, é vedada a mediação de conflitos familiares, uma vez que há relação de poder desigual entre agressor e vítima (BRASIL, 2025).

Dentro desse cenário, o psicólogo precisa não apenas acolher a vítima, mas também favorecer o reconhecimento do abuso, promover o fortalecimento da autonomia e apoiar o processo de ruptura ou reestruturação das dinâmicas de controle. E nesse processo ele enfrenta desafios específicos como: a dificuldade de identificação da violência quando não há agressão física visível, a normalização dos comportamentos abusivos por parte da vítima ou da rede, e as barreiras culturais e afetivas que sustentam a dependência emocional.

Quanto a isso Oliveira e Ventura (2023), pontuam que o psicólogo deve estar preparado para lidar com os diversos traumas e efeitos que os relacionamentos abusivos podem acarretar as vítimas, efeitos como ansiedade, depressão, despersonalização e impactos psíquicos decorrentes da dependência e do controle. Assim, a intervenção psicológica, portanto, exige um olhar sistêmico que articule fatores individuais, relacionais e culturais ou seja, não basta tratar os sintomas, mas considerar a estrutura relacional com controle, manipulação, dependência, e o contexto sociocultural que legitima a invisibilidade da violência. Também é imprescindível a articulação com redes de apoio (social, jurídico, educativo) e a promoção de prevenção por meio de educação afetiva, empoderamento e desconstrução de representações de gênero que naturalizam o abuso.

Diante disso, pode-se afirmar que a abordagem terapêutica para mulheres que experienciam relacionamentos abusivos é complexa e desafiadora. Os psicólogos devem estar preparados para trabalhar com questões como trauma, dependência emocional e cognições desadaptativas. Uma das sugestões de abordagem é a terapia dos esquemas, por exemplo, ela oferece uma estrutura para entender e abordar os esquemas desadaptativos que podem prender as mulheres em ciclos de abuso (MONTEIRO, MAGALHÃES, AZEVEDO, 2022).

Frente ao exposto e conforme as contribuições dos teóricos aqui discutidos, conclui-se que o psicólogo, nesse contexto, atua como profissional que oferece escuta qualificada e apoio psicossocial, com o objetivo de interromper o ciclo da violência e promover a autonomia das mulheres, conforme as diretrizes do Conselho Federal de Psicologia. Assim, sua atuação inclui acolher sem julgamento, respeitar a diversidade e evitar a patologização do sofrimento, compreendendo a violência como fenômeno social e estrutural. No entanto, a sua atuação enfrenta desafios significativos, como a precarização das condições de trabalho, a sobrecarga, a escassez de profissionais em muitos municípios. Adicionam-se a dificuldade de articulação com a rede de proteção, a falta de espaços para supervisão e trabalho em equipe, e a persistência de preconceitos institucionais que podem revitimizar as mulheres atendidas (Reis, 2020).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa teve como objetivo geral analisar, por meio de revisão de literatura, a atuação do psicólogo no reconhecimento e na intervenção em relacionamentos abusivos, com especial atenção às situações em que o afeto encobre práticas de controle, manipulação e violência psicológica contra a mulher. Ao término deste percurso investigativo, considera-se que o objetivo proposto foi plenamente alcançado, uma vez que a literatura analisada permitiu delinear de forma consistente o papel desse profissional tanto na identificação das dinâmicas abusivas quanto na condução de intervenções éticas e fundamentadas na perspectiva de gênero.

De modo específico, afirma-se que os três objetivos propostos foram igualmente contemplados, pois: identificaram-se as principais características e formas de manifestação da violência psicológica e emocional, tais como controle, isolamento, humilhação, chantagem emocional, gaslighting e culpabilização; analisaram-se as consequências emocionais e comportamentais vivenciadas pelas vítimas, incluindo ansiedade, depressão, baixa autoestima, culpa, vergonha e dificuldade de tomada de decisão; e descreveram-se as estratégias de acolhimento e intervenção psicológica presentes na literatura, como escuta qualificada, fortalecimento da autonomia, psicoeducação sobre o ciclo da violência e articulação com a rede de proteção.

No que diz respeito às limitações da pesquisa destaca-se que a escassez de produções científicas brasileiras que abordem de forma específica a atuação do psicólogo em relacionamentos abusivos nos quais o afeto encobre práticas de controle, manipulação e violência psicológica. Essa especificidade temática, somada à complexidade e à natureza do fenômeno, limitou o volume de material disponível para análise.

Como recomendação para pesquisas futuras, sugere-se a realização de estudos empíricos que ouçam diretamente profissionais e mulheres atendidas, a ampliação do recorte para outras bases de dados e idiomas, e a investigação de contextos ainda pouco explorados, como o atendimento em serviços não especializados e a atuação em rede.

Em síntese, esta pesquisa permitiu verificar que a atuação psicológica, nesse contexto, exige do profissional não apenas competência técnica, mas também sensibilidade para reconhecer as sutilezas que caracterizam a violência psicológica, frequentemente mascarada por demonstrações de afeto, cuidado e dependência emocional.

Por fim, espera-se que este estudo estimule novas investigações que aprofundem a temática em contextos ainda pouco analisados pela literatura científica brasileira.

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1 Graduanda do 10º período do curso de Psicologia da Faculdade Metropolitana de Tefé – FAMETRO. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Graduanda do 10º período do curso de Psicologia da Faculdade Metropolitana de Tefé – FAMETRO. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Professora Orientadora do TCC- graduada em Licenciatura em História pela Universidade do Estado do Amazonas – UEA, mestra em Ciências Humanas pela Universidade do Estado do Amazonas – UEA.