REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/788089129
RESUMO
O artigo contextualiza o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) no Instituto Federal de Alagoas (IFAL) – Campus Maceió, enfatizando a relevância da extensão universitária para a mediação entre teoria e prática no ensino de Química. O estudo teve como objetivo investigar como a realização da atividade de extensão "ENEM para Todos!", um aulão preparatório para o Exame Nacional do Ensino Médio voltado a estudantes em vulnerabilidade socioeconômica, contribuiu para a formação inicial e o desenvolvimento de competências dos licenciandos. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, aplicada e descritivo-exploratória, do tipo relato de experiência. A coleta de dados ocorreu por meio da aplicação de um questionário estruturado no Google Forms com oito bolsistas do PIBID Química envolvidos na ação, e a análise seguiu a categorização temática por análise de conteúdo. Os principais resultados apontam que 57,1% dos licenciandos consideraram a transposição didática regular e 42,9% fácil; 42,9% atuaram diretamente na regência; e 100% afirmaram que a ação contribuiu para suas competências didáticas, estimulando o domínio do conteúdo (57,1%), planejamento/síntese (42,9%) e interação com realidades diversas (42,9%). Conclui-se que a experiência fortaleceu o protagonismo discente, a autonomia pedagógica, a aproximação com a realidade escolar e a construção da identidade docente, além de cumprir papel social ao democratizar o acesso ao conhecimento de forma gratuita.
Palavras-chave: Extensão universitária; Formação docente; IFAL; PIBID; Química.
ABSTRACT
This article contextualizes the Institutional Teacher Initiation Scholarship Program (PIBID) at the Federal Institute of Alagoas (IFAL) – Maceió Campus, emphasizing the relevance of university outreach in mediating between theory and practice in Chemistry teaching. The study aimed to investigate how conducting the outreach activity "ENEM para Todos!", a preparatory workshop for the National High School Exam targeted at socioeconomically vulnerable students, contributed to the initial training and competence development of undergraduate students. Methodologically, it is a qualitative, applied, and descriptive-exploratory research based on an experience report. Data collection occurred through a structured Google Forms questionnaire applied to eight PIBID Chemistry scholarship recipients involved in the action, followed by thematic content analysis. Main results indicate that 57.1% of the undergraduates rated pedagogical transposition as regular and 42.9% as easy; 42.9% acted directly in teaching/instruction; and 100% stated that the action contributed to their teaching skills, enhancing content knowledge (57.1%), planning/synthesis capacity (42.9%), and interaction with diverse social realities (42.9%). It concludes that the experience strengthened student leadership, pedagogical autonomy, connection with the school reality, and professional teacher identity, while fulfilling a social role by democratizing access to knowledge free of charge.
Keywords: University outreach; Teacher training; IFAL; PIBID; Chemistry.
1. INTRODUÇÃO
Em um cenário educacional marcado pela necessidade de formar profissionais críticos, reflexivos e socialmente comprometidos, a extensão universitária tem se consolidado como um espaço privilegiado de formação acadêmica e humana, especialmente por possibilitar a articulação entre saberes teóricos e experiências formativas contextualizadas. Nesse contexto, as ações extensionistas assumem caráter multidisciplinar e contribuem para a consolidação da tríade ensino, pesquisa e extensão, favorecendo o desenvolvimento de competências profissionais, habilidades pedagógicas e uma consciência crítica voltada à atuação social dos futuros docentes (Oliveira; Almeida Júnior, 2015). Apesar desse reconhecimento, ainda se observa a necessidade de investigações que analisem de forma mais aprofundada como essas experiências extensionistas impactam concretamente a formação inicial de professores, especialmente no âmbito de programas institucionais de incentivo à docência.
Historicamente, a extensão universitária foi concebida como uma atividade complementar à formação acadêmica dos estudantes. Entretanto, ao longo das últimas décadas, essa compreensão foi ampliada, passando a ser reconhecida como elemento essencial para a promoção de uma formação acadêmica mais crítica, contextualizada e socialmente comprometida (Silveira et al., 2023).
Nesse sentido, Coelho (2014) destaca que:
A participação em atividades extensionistas permite aos estudantes, por um lado, aumentar seu engajamento social e desenvolver cidadania e, por outro, qualificar-se profissionalmente, tendo, na interação com a sociedade, fonte de conhecimentos e desenvolvimento de habilidades, sentindo-se, dessa forma, mais seguros para o exercício profissional após a diplomação. (Coelho, 2014, p.16).
Essa compreensão reforça o papel da extensão como espaço formativo relevante, ao possibilitar a aproximação entre os conhecimentos acadêmicos e as demandas sociais, favorecendo o desenvolvimento de competências profissionais e a construção da identidade docente.
Nesse contexto, o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) destaca-se como uma importante política pública voltada à formação inicial de professores, ao incentivar a inserção dos licenciandos no contexto da educação básica ainda durante a graduação. O programa busca fortalecer a articulação entre instituições formadoras e escolas públicas, permitindo que os futuros professores vivenciem experiências pedagógicas concretas e desenvolvam competências relacionadas à prática docente (Santos; Alves, 2024). Na configuração atual do programa, destaca-se ainda a exigência da realização de ações extensionistas como parte das atividades formativas, ampliando as possibilidades de interação entre universidade e comunidade e reforçando o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
A atividade extensionista analisada neste estudo foi desenvolvida no Instituto Federal de Alagoas (IFAL) – Campus Maceió, instituição pública que se destaca pela oferta de cursos técnicos, superiores e de pós-graduação, bem como por sua atuação na formação científica e tecnológica. Nesse contexto, as ações extensionistas desenvolvidas pela instituição buscam fortalecer o diálogo entre a formação acadêmica e as demandas sociais, especialmente por meio de iniciativas voltadas à democratização do acesso à educação.
Entre essas iniciativas, destacam-se as atividades preparatórias para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que apresentam relevante impacto social ao oferecer suporte educacional a estudantes oriundos da rede pública de ensino, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Essas ações contribuem para a ampliação das oportunidades educacionais, a redução de desigualdades no acesso ao ensino superior e o fortalecimento do vínculo entre a instituição e a comunidade (IFAL, 2026).
No âmbito da formação docente, tais experiências extensionistas assumem papel relevante ao possibilitar que licenciandos participem de ações pedagógicas em contextos reais de ensino, favorecendo o desenvolvimento de competências didáticas, sociais e profissionais. Dessa forma, a extensão universitária configura-se como espaço privilegiado para a articulação entre teoria e prática, contribuindo para a formação crítica e reflexiva dos futuros professores.
Apesar da reconhecida relevância das ações extensionistas na formação docente, ainda são limitados os estudos que analisam empiricamente as contribuições dessas experiências no desenvolvimento profissional de licenciandos, especialmente no contexto dos Institutos Federais e de programas de formação docente como o PIBID. Tal lacuna evidencia a necessidade de investigações que permitam compreender de forma mais sistemática os impactos dessas ações no processo formativo inicial.
Diante desse contexto, este estudo teve como objetivo analisar as contribuições da atividade de extensão "ENEM para Todos!" para a formação inicial de licenciandos do curso de Licenciatura em Química do Instituto Federal de Alagoas – Campus Maceió. Para tanto, foi realizada a aplicação de um questionário com os participantes do PIBID envolvidos na atividade, buscando compreender suas percepções acerca da relevância da extensão universitária, das competências desenvolvidas durante a ação, do impacto social da atividade e da relação entre as experiências práticas vivenciadas e os conhecimentos teóricos construídos ao longo da formação inicial docente.
2. A EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA E A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DOCENTE
A extensão universitária constitui um dos pilares estruturantes da educação superior, compondo, juntamente com o ensino e a pesquisa, a tríade formativa responsável pela consolidação do papel social das instituições acadêmicas. Nesse sentido, o Plano Nacional de Extensão Universitária destaca que as atividades extensionistas se desenvolvem em diferentes áreas do conhecimento, por meio de estratégias diversificadas, contribuindo para o desenvolvimento de competências profissionais, habilidades sociais e atitudes crítico-reflexivas em docentes e discentes, especialmente no que se refere à sua atuação junto à comunidade (Oliveira; Almeida Júnior, 2015; Alves et al., 2016).
Sob essa perspectiva, a extensão universitária ultrapassa a concepção tradicional de simples difusão do conhecimento acadêmico, passando a ser compreendida como um processo dialógico e formativo, no qual universidade e sociedade estabelecem relações de troca e construção mútua de saberes. Essa compreensão aproxima-se das contribuições teóricas de Paulo Freire (1985), ao defender a comunicação como prática emancipatória capaz de promover a transformação social por meio do diálogo e da problematização da realidade.
Nessa direção, a extensão universitária pode ser compreendida como espaço privilegiado para a concretização de práticas educativas fundamentadas na perspectiva freiriana, especialmente ao favorecer processos formativos baseados na escuta, na participação coletiva e na construção compartilhada do conhecimento. Estudos que analisam ações extensionistas sob essa abordagem evidenciam o protagonismo dos sujeitos envolvidos e a valorização das experiências e necessidades da comunidade como elementos estruturantes do processo educativo, destacando a importância da leitura crítica da realidade como etapa fundamental para a construção do conhecimento (Alves; Dias; Silva, 2018; Santos et al., 2019).
No contexto contemporâneo da educação superior, a extensão universitária também tem sido compreendida como dimensão estruturante do processo formativo a partir das discussões sobre sua curricularização e integração efetiva ao projeto pedagógico dos cursos. Nesse sentido, Gadotti (2017) ressalta que a extensão universitária deve ser compreendida como parte integrante do currículo formativo e não como uma atividade isolada. Conforme destaca o autor:
O princípio da integralidade é fundamental na Extensão Universitária. É preciso conectar as três funções da universidade para que a educação seja integral. O currículo não é a soma de um conjunto de disciplinas. Ele traduz um projeto político pedagógico integrado (Gadotti, 2017, p. 09).
Essa compreensão reforça a extensão como elemento articulador do processo formativo, especialmente quando integrada às dimensões do ensino e da pesquisa. Em consonância com as proposições de Paulo Freire e com as diretrizes estabelecidas pelo Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Instituições Públicas de Educação Superior Brasileiras (FORPROEX), os projetos de extensão devem assumir caráter interdisciplinar e territorializado, promovendo a articulação entre universidade e comunidade por meio de ações voltadas à resolução de problemáticas sociais e educacionais.
Sob essa lógica, os projetos extensionistas configuram-se como espaços de intervenção pedagógica e social, compreendendo o território como espaço de diálogo e de construção coletiva do conhecimento, resultando em benefícios formativos tanto para a comunidade quanto para os estudantes envolvidos. Essa perspectiva reforça o papel social da universidade e evidencia o potencial transformador das ações extensionistas no processo formativo dos licenciandos.
Corroborando essa compreensão, Sousa (2020, p. 114) destaca que:
As extensões quando aliadas às novas práticas se tornam essenciais para o desenvolvimento do ensino público e para o progresso do professor enquanto mediador do conhecimento. Os trabalhos desenvolvidos pela extensão universitária ampliam e modificam o conceito de educação básica e de formação de professores. O desenvolvimento no espaço escolar estabelece um vínculo mais efetivo de aproximação dos saberes debatidos na academia, com os conteúdos produzidos nas escolas (Sousa, 2020, p.114)
A partir dessa perspectiva, a extensão universitária pode ser compreendida como um espaço de práxis pedagógica que ultrapassa a lógica da mera transmissão de conteúdos, favorecendo a construção de experiências formativas que possibilitam aos futuros professores o desenvolvimento de novas perspectivas pedagógicas. Tais experiências contribuem para a adoção de metodologias inovadoras e para o fortalecimento de práticas educativas mais contextualizadas e significativas no cotidiano escolar.
Nesse contexto, a participação de licenciandos em Química em atividades extensionistas revela-se especialmente relevante para o processo de construção da identidade profissional docente, uma vez que essas experiências possibilitam a vivência de situações reais de ensino, o desenvolvimento de competências específicas da docência e a inserção em espaços de socialização do conhecimento. Conforme aponta Garcia (2012), essas experiências contribuem para que os futuros professores reflitam sobre seu papel social e profissional, fortalecendo a compreensão da docência como prática social.
A partir da compreensão da tríade universitária, Oliveira e Almeida Júnior (2015) destacam que cada um de seus eixos contribui de maneira complementar para o processo formativo discente. Nessa mesma direção, Paula e Sangiogo (2025, p. 8) afirmam que:
O ensino possibilita a compreensão pedagógica e didática; a pesquisa promove o pensamento crítico, reflexivo e investigativo; e a extensão possibilita o compartilhamento de conhecimentos e a interação com contextos reais (Paula; Sangiorgo, 2025, p. 8).
Diante dessa compreensão, observa-se que a extensão universitária contribui significativamente para o desenvolvimento dos conhecimentos profissionais docentes, ao possibilitar a aproximação entre teoria e prática e favorecer processos reflexivos sobre a atuação pedagógica a partir da interação com a realidade social (Corrêa-Silva et al., 2017).
Nessa mesma direção, De Paula et al. (2024) ressaltam que:
Com relação ao processo de (trans)formação, entende-se que os docentes estão sempre em constante movimento de formação (que estabelece a construção dos conhecimentos) e de transformação (que promove a reflexão e a qualificação dos conhecimentos) (Paula et al. 2024).
Sob essa perspectiva, a extensão universitária pode ser compreendida como um espaço formativo privilegiado para a ressignificação dos saberes docentes e para a qualificação do processo formativo inicial, especialmente por favorecer a construção da práxis pedagógica. Além disso, políticas públicas voltadas à formação docente, como as iniciativas desenvolvidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), a exemplo do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), reforçam esse potencial formativo ao promover a inserção precoce dos licenciandos no cotidiano escolar e ao incentivar experiências pedagógicas contextualizadas.
Nesse sentido, a articulação entre PIBID e extensão universitária amplia as possibilidades formativas dos licenciandos, ao proporcionar experiências que contribuem para o desenvolvimento de competências didáticas, sociais e profissionais, bem como para a construção da identidade docente. Dessa forma, compreende-se que a extensão universitária constitui elemento fundamental na formação inicial de professores, ao proporcionar espaços de prática pedagógica que contribuem para a superação de modelos formativos centrados exclusivamente na teoria, favorecendo o desenvolvimento de novas perspectivas pedagógicas e ampliando as possibilidades de construção de práticas educativas inovadoras e socialmente referenciadas.
3. METODOLOGIA DA PESQUISA
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa, de natureza aplicada e caráter descritivo-exploratório, tendo como objetivo analisar as contribuições de uma atividade extensionista para a formação inicial de licenciandos em Química participantes do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). A abordagem qualitativa justifica-se pela necessidade de compreender percepções, experiências e significados atribuídos pelos participantes às vivências formativas decorrentes da atividade de extensão. Conforme destaca Flick (2009), “a pesquisa qualitativa é de particular relevância ao estudo das relações sociais”.
Uma vez que privilegia a compreensão dos aspectos subjetivos e das interpretações construídas pelos sujeitos envolvidos nos fenômenos investigados.
A pesquisa foi realizada com estudantes do curso de Licenciatura em Química do Instituto Federal de Alagoas (IFAL) – Campus Maceió, participantes do PIBID/Química que atuaram na atividade extensionista intitulada “ENEM para Todos!”, desenvolvida no ano de 2025. A ação extensionista integrou o Módulo II do plano de trabalho do PIBID/IFAL – Química, cujo objetivo consistia na realização de atividades voltadas à divulgação científica, ao estímulo à carreira docente e ao fortalecimento da formação pedagógica dos licenciandos.
As ações desenvolvidas no âmbito da atividade extensionista envolveram:
divulgação dos cursos superiores ofertados pelo IFAL e apresentação institucional do campus;
realização de aula preparatória para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), com abordagem de conteúdos de Química;
distribuição de kits sociais contendo materiais de apoio para os estudantes participantes da atividade.
Como instrumento de coleta de dados foi utilizado um questionário estruturado, aplicado aos licenciandos participantes após a realização da atividade extensionista. A utilização do questionário justifica-se por sua ampla aplicabilidade em pesquisas educacionais, especialmente quando se busca coletar percepções individuais de um grupo específico. Conforme destaca Gil (2008):
a) possibilita atingir grande número de pessoas, mesmo que estejam dispersas numa área geográfica muito extensa, já que o questionário pode ser enviado pelo correio; b) implica menores gastos com pessoal, posto que o questionário não exige o treinamento dos pesquisadores; c) garante o anonimato das respostas; d) permite que as pessoas o respondam no momento em que julgarem mais conveniente; e) não expõe os pesquisadores à influência das opiniões e do aspecto pessoal do entrevistado. (Gil, 2008, p. 121-122)
O questionário foi elaborado e disponibilizado por meio da plataforma Google Forms, sendo composto por dez questões, das quais sete eram objetivas e três discursivas, buscando identificar as percepções dos licenciandos acerca das contribuições da atividade extensionista para sua formação acadêmica e profissional.
O público participante foi composto por oito licenciandos do curso de Licenciatura em Química vinculados ao PIBID/IFAL – Química que participaram diretamente da atividade extensionista. A escolha desse grupo justifica-se pelo caráter intencional da amostra, uma vez que os participantes vivenciaram diretamente as ações investigadas, permitindo a obtenção de informações relevantes sobre o fenômeno estudado. Dessa forma, a pesquisa assume caráter exploratório e contextual, não tendo como finalidade a generalização dos resultados, mas a compreensão aprofundada das percepções dos sujeitos envolvidos.
As questões aplicadas aos participantes encontram-se descritas no Quadro 1.
Quadro 1. Questionário aplicado aos licenciandos em Química
ENUNCIADO DA PERGUNTA |
Questão 1 - Tempo de participação no PIBID - Maceió: |
Questão 2 - Qual o período do curso de Química Licenciatura você encontra-se? |
Questão 3 - Você já havia trabalhado em uma atividade de extensão antes do PIBID? |
Questão 4 - Qual foi o seu papel na organização/execução na ação “Enem para todos!” ? |
Questão 5 - Como você avalia a transposição didática (adaptar o conteúdo acadêmico para nível médio) para o projeto “Enem para todos!”? |
Questão 6 - Descreva brevemente o maior desafio enfrentado ao ministrar conteúdo de Química para um grande público durante a atividade de extensão? |
Questão 7 - Em que medida a vivência dessa atividade de extensão contribuiu para o desenvolvimento das suas competências didáticas? |
Questão 8 - Quais aspectos da docência foram mais estimulados pela atividade de extensão? |
Questão 9 - Como você percebe a interação do PIBID e as atividades de extensão dentro do IFAL-Maceió? |
Questão 10 - Após essa vivência, como você avalia a importância da extensão universitária para a sua carreira de docente? |
Fonte: Elaborado pelos autores, 2026.
No que se refere aos aspectos éticos da pesquisa, os participantes foram previamente informados sobre os objetivos do estudo e autorizaram a utilização das informações para fins acadêmicos, garantindo-se o anonimato dos respondentes e a confidencialidade dos dados.
A análise dos dados foi realizada por meio da categorização temática das respostas obtidas, organizando-se os resultados em quatro eixos analíticos definidos a partir dos objetivos da pesquisa: Categoria A – Transposição didática; Categoria B – Desafios da prática docente; Categoria C – Impacto social da extensão; e Categoria D – Formação e identidade docente. Essa organização permitiu interpretar as percepções dos participantes à luz do referencial teórico adotado, possibilitando compreender as contribuições da atividade extensionista para o processo formativo dos licenciandos.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
4.1. Contextualização dos Resultados e Caracterização da Atividade Extensionista
Os resultados foram organizados a partir das respostas obtidas no questionário aplicado aos licenciandos participantes da atividade extensionista “ENEM para Todos!”, sendo analisados inicialmente por meio da categorização temática e, posteriormente, mediante análise de conteúdo temática conforme Bardin (2011). A análise seguiu as etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento interpretativo dos resultados, permitindo identificar padrões relacionados às contribuições da extensão universitária para a formação docente.
A atividade extensionista envolveu momentos de planejamento pedagógico, regência e interação com estudantes da educação básica, possibilitando aos licenciandos vivências formativas relevantes para o desenvolvimento de competências profissionais. A Figura 1 apresenta registros do desenvolvimento das atividades e da equipe de participantes.
Figura 1. Ilustração da atividade de extensão “Enem para todos!”: a) Desenvolvimento da atividade e b) Equipe de pibidianos que participou da atividade de extensão
A análise da Figura 1 permite observar o protagonismo dos licenciandos na condução das atividades, evidenciando o caráter formativo da experiência extensionista no desenvolvimento de competências docentes.
A partir da análise das respostas, as questões foram organizadas em quatro categorias analíticas: transposição didática, desafios da prática docente, impacto social da extensão e formação e identidade docente, conforme apresentado na Tabela 1.
Tabela 1. Relação entre as categorias A, B, C e D e as questões (Q) do questionário
Categoria | Questões |
Transposição didática | Q5 e Q6 |
Desafios | Q4; Q6; Q7 e Q8 |
Impacto social | Q9 e Q10 |
Formação e identidade docente | Q1; Q2; Q3; Q8; Q9 e Q10 |
Fonte: dados da pesquisa, 2026.
Essa organização possibilitou identificar que a participação na atividade extensionista contribuiu para o desenvolvimento de competências pedagógicas e organizacionais, além de favorecer a construção de uma compreensão mais ampla sobre o exercício da docência. Os licenciandos destacaram que a experiência possibilitou o desenvolvimento de habilidades relacionadas à comunicação científica, planejamento didático e interação com estudantes da educação básica.
4.2. Categoria a – Transposição Didática
No que se refere à categoria transposição didática, os dados apresentados no Gráfico 1 indicam que 57,1% dos licenciandos classificaram o processo de adaptação dos conteúdos acadêmicos ao nível do ensino médio como regular, enquanto 42,9% o classificaram como fácil.
Gráfico 1. Como você avalia a transposição didática (adaptar o conteúdo acadêmico para nível médio) para o projeto “Enem para todos!”?
A análise qualitativa das respostas discursivas evidencia que essa percepção está relacionada às especificidades do contexto pedagógico da atividade extensionista. Um dos participantes destacou:
“A dinâmica de um aulão pré-Enem é diferente de aulas cotidianas de Química, o que exigiu maior domínio teórico e aplicação dos conhecimentos.” (Discente A)
A partir da análise de conteúdo dessa resposta, observa-se a recorrência de elementos associados às categorias adaptação pedagógica, domínio conceitual e flexibilidade didática, evidenciando que a experiência extensionista demandou dos licenciandos a mobilização de saberes pedagógicos e científicos de forma integrada.
Esses resultados reforçam a compreensão de que a transposição didática constitui elemento central na formação docente, especialmente ao exigir que o futuro professor desenvolva competências relacionadas à mediação do conhecimento e à adequação da linguagem científica ao contexto educacional. Nesse sentido, a experiência relatada evidencia que a participação em atividades extensionistas contribui para o desenvolvimento dessas competências ao expor os licenciandos a situações reais de ensino.
Além disso, a diferença apontada pelo participante entre o contexto de aulas regulares e a dinâmica de um aulão preparatório reforça a importância dessas experiências para o desenvolvimento da autonomia pedagógica, uma vez que exige dos licenciandos a capacidade de adaptação metodológica e planejamento didático em contextos diferenciados.
4.3. Categoria B – Desafios da Prática Docente
Na categoria desafios, descrito no Gráfico 2, os resultados indicam que os licenciandos desempenharam diferentes funções na organização e execução da atividade, incluindo elaboração de materiais, organização logística e regência. Destaca-se que 42,9% dos participantes atuaram diretamente na regência das atividades, evidenciando o protagonismo discente no processo formativo.
Gráfico 2. Qual foi o seu papel na organização/execução na ação “Enem para todos!”?
A participação na regência permitiu aos licenciandos vivenciar situações reais da prática docente, contribuindo para o desenvolvimento de competências relacionadas à comunicação didática, organização do conteúdo e gestão do tempo pedagógico.
Em relação à contribuição da atividade para o desenvolvimento das competências didáticas, 100% dos participantes indicaram que a experiência contribuiu significativamente para sua formação. Os aspectos mais citados como fortalecidos foram o domínio do conteúdo (57,1%), a capacidade de síntese e planejamento (42,9%) e a interação com estudantes de diferentes realidades sociais (42,9%), conforme apresentado no Gráfico 3.
Gráfico 3. Quais aspectos da docência foram mais estimulados pela atividade de extensão?
Esses resultados indicam que a atividade extensionista favoreceu o desenvolvimento de competências pedagógicas essenciais à formação docente, especialmente aquelas relacionadas à organização do conhecimento e à atuação em contextos educacionais diversificados.
Um dos participantes destacou:
“Aproximam a gente da realidade escolar e da comunidade. Na prática, o PIBID contribui mais com a formação dentro da sala de aula enquanto a extensão amplia essa integração que acaba fortalecendo nossa formação como futuros docentes de forma mais completa.” (Discente B)
A análise dessa resposta evidencia categorias relacionadas à integração universidade-escola, formação ampliada e experiência prática docente, indicando a relevância da extensão como espaço complementar de formação profissional.
4.4. Categoria C – Impacto Social da Atividade Extensionista
Os resultados também evidenciam o impacto social da atividade extensionista, especialmente no que se refere à democratização do acesso ao conhecimento científico. Essa dimensão foi evidenciada na fala de um estudante da educação básica participante da ação:
“Foi uma experiência muito interessante. Muitos dos assuntos que eu tinha dificuldade eu consegui compreender melhor. Os professores explicaram muito bem e essa iniciativa foi muito boa, pois muitas vezes os aulões são caros. Mas esse ofereceu uma oportunidade para os estudantes, principalmente para aqueles que não tem condições financeiras”.
Esse relato evidencia a relevância social da atividade ao ampliar o acesso a atividades preparatórias para o ENEM, especialmente para estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. A análise dessa resposta permitiu identificar categorias relacionadas à equidade educacional, acesso ao conhecimento e impacto social da extensão.
Considerando o perfil socioeconômico dos estudantes atendidos, a organização da atividade também incluiu a distribuição de kits contendo materiais básicos para o dia do exame, como caneta, água e lanche, conforme apresentado na Figura 2.
Figura 2. Kits sociais entregues aos alunos no dia da ação extensionista
Essa ação reforça o caráter social da extensão universitária ao considerar não apenas aspectos pedagógicos, mas também condições materiais que influenciam o desempenho educacional.
4.5. Categoria D – Formação e Identidade Docente
Na categoria formação e identidade docente, observou-se que os participantes possuíam experiência consolidada no PIBID, com tempo de participação superior a um ano. Além disso, 85,7% encontravam-se no último período do curso de Licenciatura em Química, indicando proximidade com a conclusão da formação inicial.
Outro dado relevante refere-se ao fato de que os participantes indicaram não possuir experiências anteriores em projetos de extensão, evidenciando o caráter inovador da atividade em sua trajetória acadêmica.
Os resultados indicam que a participação na atividade extensionista contribuiu para o desenvolvimento de competências relacionadas à segurança didática, domínio de conteúdo e atuação pedagógica. Esses elementos constituem dimensões relevantes no processo de construção da identidade docente.
Essa percepção também foi evidenciada na resposta de um dos participantes:
“Após essa vivência percebo que a extensão universitária é muito importante para minha formação como futura profissional, porque ela me permite sair da teoria e vivenciar na prática diferentes realidades, acredito que isso contribui muito para que eu me torne uma profissional mais preparada, crítica e comprometida com a educação”. (Discente C)
A análise dessa resposta evidencia categorias relacionadas à articulação teoria–prática, desenvolvimento profissional e formação crítica, indicando que os licenciandos percebem a extensão como elemento estruturante da formação docente.
4.6. Síntese Interpretativa dos Resultados
De forma integrada, os resultados evidenciam que a participação em atividades extensionistas no âmbito do PIBID contribui significativamente para o desenvolvimento de competências pedagógicas, fortalecimento da identidade docente e ampliação da compreensão do papel social da profissão docente.
Os achados indicam que a extensão universitária constitui espaço formativo relevante ao possibilitar a articulação entre conhecimentos teóricos e experiências práticas, favorecendo a construção de saberes profissionais e o desenvolvimento de uma postura crítica frente à prática pedagógica.
Como limitação do estudo, destaca-se o número reduzido de participantes, o que não permite generalizações estatísticas, mas possibilita uma compreensão aprofundada do contexto investigado. Nesse sentido, recomenda-se a realização de novos estudos que ampliem a amostra e investiguem os impactos das atividades extensionistas na formação inicial docente em diferentes contextos institucionais.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
De modo geral, conclui-se que a atividade extensionista “ENEM para Todos” favoreceu o protagonismo dos licenciandos e a autonomia na condução das atividades pedagógicas. Ademais, a experiência extensionista contribuiu para a mobilização integrada de saberes pedagógicos e científicos, bem como para o desenvolvimento de competências pedagógicas e organizacionais, favorecendo a construção de uma compreensão mais ampla sobre o exercício da docência.
Além disso, os licenciandos relataram que a atividade extensionista se caracterizou como uma vivência significativa em razão da aproximação com a realidade escolar, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades relacionadas à comunicação científica, planejamento didático e interação com estudantes da educação básica. Dessa forma, observa-se uma articulação entre a universidade e a escola, bem como o fortalecimento da formação docente por meio da experiência prática, indicando a relevância da extensão como espaço complementar de formação profissional.
Nesse sentido, a atividade extensionista ampliou o acesso à educação de qualidade de forma gratuita, especialmente para estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica, evidenciando a importância de projetos que ofereçam cursos preparatórios para estudantes da rede pública de forma contínua e gratuita. Dessa maneira, contribui para a equidade educacional e para o acesso ao conhecimento. Consequentemente, essas ações podem constituir instrumentos de articulação teoria e prática, desenvolvimento profissional e formação crítica dos licenciandos.
Em síntese, o aulão complementou a formação docente no âmbito do PIBID, pois, proporcionou um momento formativo diversificado que contribuiu para o desenvolvimento de uma formação inicial integrada e significativa, fortalecendo a identidade docente e ampliando a compreensão do papel social inerente à profissão. Além disso, essas múltiplas vivências profissionais proporcionam momentos de compartilhamento de saberes pedagógicos aproximando os licenciandos da realidade do futuro ambiente de trabalho. Tais experiências favorecem a adoção de metodologias inovadoras, promovendo práticas educativas mais contextualizadas e significativas no cotidiano escolar.
Por fim, sugere-se que o IFAL continue oferecendo cursos preparatórios para o ENEM de forma contínua e gratuita, a fim de ampliar o acesso à educação de qualidade tanto para estudantes do Ensino Médio/Técnico quanto para os licenciandos dos cursos superiores. Desse modo, poderá exercer seu papel social ao favorecer educação pública de qualidade e também o acesso dos estudantes em vulnerabilidade socioeconômica aos cursos superiores, aproximando a comunidade escolar da universidade. Como consequência, criará espaços de formação inicial contextualizados e significativos, contribuindo para o pleno desenvolvimento dos futuros docentes.
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