O IMPACTO DO USO EXCESSIVO DE TELAS NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DE CRIANÇAS COM TEA NA PRIMEIRA INFÂNCIA

THE IMPACT OF EXCESSIVE SCREEN USE ON THE COGNITIVE DEVELOPMENT OF CHILDREN WITH ASD IN EARLY CHILDHOOD

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792103928

RESUMO
O uso de dispositivos eletrônicos tornou-se frequente na rotina infantil, despertando discussões sobre suas possíveis relações com o desenvolvimento, especialmente entre crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Este estudo teve como objetivo analisar os possíveis impactos do uso excessivo de telas no desenvolvimento cognitivo de crianças com TEA na primeira infância. Trata-se de uma revisão bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, realizada a partir de estudos referentes ao uso de telas, desenvolvimento infantil e autismo. Os estudos analisados apontam possíveis associações entre maior exposição às telas e aspectos cognitivos, como atenção, linguagem, aprendizagem, e interação social. Entretanto, os resultados não permitem afirmar que o uso de telas, isoladamente, seja responsável por alterações no desenvolvimento cognitivo, sendo necessário considerar fatores como idade, características individuais, tempo de exposição, conteúdo acessado, finalidade do uso e contexto familiar. A literatura também destaca a importância da mediação dos pais e cuidadores na organização da rotina e no estabelecimento de limites para o uso dos dispositivos. Conclui-se que a utilização das telas na primeira infância deve ocorrer de maneira equilibrada e acompanhada, preservando oportunidades de interação, comunicação, aprendizagem e brincadeiras. 
Palavras-chave: Autismo; Desenvolvimento cognitivo; Primeira infância; Tecnologia; Uso de telas.

ABSTRACT
The use of electronic devices has become a common part of children's daily lives, sparking discussions about potential links to development, particularly among children with Autism Spectrum Disorder (ASD). This study aimed to analyze the potential impacts of excessive screen time on the cognitive development of young children with ASD. It is a descriptive, qualitative literature review based on studies regarding screen use, child development, and autism. The analyzed studies indicate possible associations between higher levels of screen exposure and cognitive aspects such as attention, language, learning, and social interaction. However, the results do not support the conclusion that screen use alone is responsible for changes in cognitive development; factors such as age, individual characteristics, duration of exposure, content accessed, purpose of use, and family context must also be considered. The literature also highlights the importance of parental and caregiver mediation in structuring routines and setting limits on device usage. The study concludes that screen use in early childhood should be balanced and supervised, ensuring the preservation of opportunities for interaction, communication, learning, and play.
Keywords: Autism; Cognitive Development; Early childhood; Screen use; Technology.

1. INTRODUÇÃO

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que pode envolver alterações na comunicação, na interação social e a presença de comportamentos repetitivos e restritos. A primeira infância constitui uma etapa fundamental para a aquisição e o desenvolvimento de habilidades cognitivas, comunicativas, sociais e motoras. Nesse período, as experiências vivenciadas pela criança e as características de seu ambiente podem participar de seu processo de desenvolvimento, tornando importante compreender fatores presentes em sua rotina.

Com a expansão das tecnologias digitais, aparelhos como a televisão, smartphones, tablets e computadores passaram a fazer parte do cotidiano infantil. Embora os dispositivos eletrônicos possibilitem momentos de lazer e ampliem o acesso a diversas informações e conteúdos, o aumento do tempo dedicado ao uso das telas tem gerado debates acerca de seus possíveis impactos sobre o desenvolvimento das crianças.

Na análise de estudos sobre o uso excessivo de telas e transtornos do neurodesenvol-vimento, foram identificadas relações entre maior exposição e aspectos como socialização, atenção, fala, linguagem e aprendizagem, ressaltando a necessidade de novas pesquisas para esclarecer essas associações (Santos et al., 2024).

Segundo Siqueira et al., (2022, p.3) “a exposição excessiva à tela tem impactos mais graves no desenvolvimento da linguagem de crianças com TEA quanto menor a idade destas”. A partir desse estudo os autores puderam destacar uma maior necessidade de atenção ao tempo de exposição e a organização da rotina dessas crianças.

Por constituir uma etapa fundamental para a formação das habilidades cognitivas, a primeira infância requer atenção especial quanto à inserção de dispositivos eletrônicos na rotina. Nesse sentido, é importante considerar o uso das telas em conjunto com outras experiências e atividades essenciais para o desenvolvimento integral da criança.

Dessa forma, o uso excessivo de telas precisa ser compreendido considerando não apenas a quantidade de tempo de exposição, mas também o tipo de conteúdo acessado, a finalidade desse uso, a rotina da criança e o mais importante a mediação dos responsáveis. As referências selecionadas apresentam diferentes aspectos relacionados à atenção, linguagem, aprendizagem, socialização e interação social, justificando a investigação de possíveis rela-ções entre o uso excessivo de telas e o desenvolvimento cognitivo de crianças com TEA na primeira infância.

Diante disso, esta pesquisa tem como problema: quais são os possíveis impactos do uso excessivo de telas no desenvolvimento cognitivo de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na primeira infância? Este estudo tem como objetivo geral investigar os possíveis efeitos associados ao uso de telas durante a infância, considerando aspectos como atenção, linguagem, aprendizagem e relações sociais. Busca-se, ainda, compreender de que maneira o período de exposição pode estar relacionado ao desenvolvimento cognitivo, bem como discutir a relevância da participação e do acompanhamento dos responsáveis durante esse uso.

2. TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA E DESENVOLVIMENTO NA PRIMEIRA INFÂNCIA

2.1. Características do TEA e Desenvolvimento Infantil

O Transtorno do Espectro Autista envolve diversas características relacionadas a comunicação, interação social e também comportamento. Durante o período da primeira infância, o desenvolvimento deve ocorrer por meio de experiencias de interação, comunicação e aprendizagem. Desta forma, fatores que estão presentes a rotina da criança deve ser considerada quando tratamos de analisar as possíveis relações com o seu desenvolvimento.

Estudos recentes sugerem que as mídias têm impactos variados na cognição e na função psicossocial das crianças, com benefícios e riscos ainda incertos. Segundo Santos et al., (2024, p. 3) “as pesquisas alertam que o uso excessivo pode ter efeitos negativos, diminuindo a interação, prática de esportes e atividades educacionais ao ar livre”.

Dessa forma podemos perceber que o uso excessivo de telas e mídias podem trazer, diversos impactos tanto na área cognitiva como em diversas outras, prejudicando também a vida social da mesma, a criança acaba perdendo experiencias importantes para o seu desenvolvimento.

Ainda sobre o conteúdo acessado pelas crianças é importante salientar, o quanto é indispensável a observação dos pais quantos as mídias acessadas pelo seu filho, pois muitos são impróprios a sua faixa etária assim como o excesso de tempo que essa criança fica exposta as essas mídias.

É importante observar também, que o ritmo de fala de personagens e as mudanças de cenas, quando de forma acelerada, podem confundir a criança por demonstrarem diálogos desequilibrados e enunciados desarticulados, além de que, o grande estímulo visual e exposição a imagens pode prejudicar no desenvolvimento da linguagem (Santos et al., 2024, p. 7).

Com isso percebe- se, que a linguagem utilizada por algumas mídias pode trazer consigo falas desorganizadas, aceleradas e desarticuladas, assim como o grande estimulo visual, que por apresentar diversas cores, movimentos e trocas de personagens, podem de acordo com o autor citado, dificultar processos importantes como a atenção, compreensão e interação.

2.2. Desenvolvimento Cognitivo na Primeira Infância

Segundo Papalia et al., (2006), nos primeiros anos de vida, a avaliação das capacidades cognitivas é mais complexa porque os bebês ainda não conseguem comunicar diretamente aquilo que sabem ou como pensam. Dessa forma, uma das maneiras utilizadas para avaliar suas capacidades consiste em observar aquilo que conseguem realizar. Porém, quando um bebê não realiza determinada tarefa, não é possível concluir imediatamente que ele não possui a capacidade correspondente. Por esse motivo, a avaliação das capacidades cognitivas nessa fase exige atenção à maneira como as tarefas são apresentadas à criança.

Os testes de desenvolvimento podem ser utilizados para comparar o desempenho de um bebê em diferentes tarefas com padrões estabelecidos a partir da observação de um grande número de bebês e crianças pequenas. Entre os instrumentos citados estão as Escalas Bayley de Desenvolvimento Infantil. Esse instrumento possui uma escala mental que avalia habilidades relacionadas à percepção, à memória, à aprendizagem e à vocalização. Os resultados obtidos podem contribuir para a identificação precoce de dificuldades relacionadas à aprendizagem e a outros aspectos do desenvolvimento (Papalia et al., 2006).

O desenvolvimento cognitivo também pode ser influenciado pelas condições ambientais nas quais a criança está inserida. Os testes de desenvolvimento apresentam maior precisão para prever o futuro QI de bebês que possuem deficiências ou enfrentaram problemas pré-natais, principalmente quando são criados em ambientes empobrecidos e pouco estimulantes. Entretanto, os resultados iniciais não determinam necessariamente o desenvolvimento cognitivo posterior. Em ambientes favoráveis, algumas crianças podem apresentar progressos importantes em suas capacidades intelectuais à medida que crescem, mesmo quando nasceram com problemas mentais ou motores (Papalia et al., 2006).

Segundo Piage e Inhelder (1966), durante aproximadamente o primeiro ano e meio de vida, os bebês aprendem principalmente por meio dos sentidos e dos movimentos, passando posteriormente para formas de pensamento conceitual. Entretanto, estudos posteriores indicaram que algumas das limitações atribuídas aos bebês poderiam estar relacionadas à imaturidade de suas habilidades linguísticas e motoras, e não necessariamente à ausência de determinadas capacidades cognitivas.

Assim, os estudos apresentados por Papalia et al., (2006), demonstram que o desenvolvimento cognitivo infantil envolve diferentes capacidades, como percepção, memória, aprendizagem, compreensão, raciocínio e desenvolvimento do pensamento. As pesquisas também indicam que determinadas capacidades cognitivas podem estar presentes nos bebês antes do que inicialmente se acreditava, sendo importante considerar os métodos utilizados para avaliá-las.

O desenvolvimento cognitivo envolve habilidades como atenção, compreensão, aprendizagem, interação entre outros, que são construídas ao longo das experiências da criança. Podemos perceber que é na primeira infância a criança desenvolve habilidades que estão relacionadas à interação social, comunicação, movimento e exploração do ambiente.

Durante a análise da literatura, foram observadas associações entre maior exposição às telas e aspectos relacionados à atenção, linguagem e aprendizagem. Entretanto, os autores ressaltam a necessidade de novos estudos, não sendo possível afirmar que a exposição às telas seja, isoladamente, responsável por alterações no desenvolvimento cognitivo da criança. (Santos et al., 2024).

Outros autores também investigaram a relação entre exposição às telas e desenvolvimento neuropsíquico de crianças com autismo, considerando aspectos cognitivos, comportamentais e socioemocionais (Araújo et al., 2025).

A atenção, a linguagem e a aprendizagem são aspectos importantes para o desenvolvimento infantil e aparecem entre os temas discutidos nas literaturas selecionadas. Os estudos investigaram a relação entre o tempo nas telas e linguagem em crianças com TEA, incluindo resultados relacionados à compreensão de linguagem e à sociabilidade.

Apesar de o uso de telas na infância ser considerado um fator preditor para o atraso na fala e baixo desenvolvimento da linguagem infantil, aspectos como época de oferecimento, tempo de tela e conteúdo podem influenciar de forma positiva ou negativa (Santos et al., 2024, p.7).

É através desses resultados que podemos notar a importância de analisar o uso de telas de forma contextualizada. O tempo de exposição, o conteúdo utilizado, a finalidade do uso e a participação dos responsáveis são elementos que precisam ser considerados na compreensão dessas possíveis relações.

3. USO DE TELAS NA PRIMEIRA INFÂNCIA

3.1. Crescimento do Uso de Dispositivos Eletrônicos

Segundo Amato et al., (2025, p.10) “a primeira infância é a fase que compreende desde o nascimento até os 6 anos de idade, sendo caracterizada pelos marcos do desenvolvimento os quais possibilitam a obtenção de habilidades afetivas, motoras, sociais e cognitivas”. O autor traz uma importante afirmação a fase da primeira infância, onde a mesma é fundamental para o desenvolvimento da criança, pois é um período de aquisições nas habilidades cognitivas, sociais entre outras, como, aprender a falar, expressar-se, pensar e resolver problemas.

Um dos períodos onde podemos observar o maior uso de telas em excesso foi durante a pandemia de Covid-19 que as rotinas e ocupações foram modificadas, principalmente por conta das medidas de isolamento sociais que foram impostas como método de prevenção ao avanço da doença, observando-se um aumento significativo do uso de recursos eletrônicos (Segundo Amato et al., 2025).

Neste momento, torna-se evidente que os efeitos das telas na infância vão além do tempo de utilização, envolvendo também o tipo de conteúdo consumido, se a interação é mais ativa ou passiva, além da importância da segurança digital e da supervisão dos responsáveis (Bermert et al., 2025, p.3)

Desta forma, não devemos observar apenas o tempo de uso a telas e conteúdo, mas também se a criança assiste de forma passiva ou ativa, ou seja, o tempo do uso e conteúdo é tão importante quanto a forma como essa criança utiliza esse dispositivo. Amato et al., (2025), ao investigarem o período da pandemia de Covid-19, identificaram aumento do uso de telas entre crianças e observaram relações desse uso com diferentes atividades da rotina.

3.2. Tempo de Exposição

O tempo de exposição às telas deve sempre ser analisado com relação às demais atividades que são realizadas pela criança. Quando uma grande parte dessa rotina é ocupada pelos dispositivos eletrônicos, é necessário considerar oportunidades destinadas a brincadeiras, que buscam o movimento e a interação social.

Diante os estudos selecionados foram apresentados diferentes aspectos relacionados ao uso excessivo de telas. Santos et al., (2024) identificaram associações com socialização, atenção, fala, linguagem e aprendizagem. Araújo et al., (2025) também discutem possíveis relações entre exposição excessiva e não supervisionada e aspectos do desenvolvimento neuropsíquico de crianças com autismo.

Com isso, podemos perceber que os possíveis efeitos do uso excessivo de telas devem ser compreendidos de maneira ampla. A análise não deve considerar apenas o número de horas em frente aos dispositivos, mas também a finalidade desse uso, o conteúdo que se é acessado, a rotina da criança e a mediação dos responsáveis pela mesma.

4. USO DE TELAS E DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DE CRIANÇAS COM TEA

4.1. Atenção e Aprendizagem

A atenção é uma das habilidades mais importantes para o desenvolvimento e para a aprendizagem durante a infância. Quando falamos de crianças com TEA, a relação entre o uso de telas e os processos atencionais precisamos analisar e considerar as características individuais assim como o contexto em que os dispositivos são utilizados.

Santos et al., (2024) identificaram, nos estudos analisados em sua revisão, possíveis relações entre maior exposição às telas assim como as dificuldades relacionadas à atenção e à aprendizagem. Outros autores entretanto, ressaltam que os resultados obtidos ainda não são suficientes para estabelecer uma ligação direta entre o tempo de tela e alterações no desenvolvimento da criança. Dessa forma, os achados devem ser compreendidos como possíveis associações que necessitam de investigação.

Araújo et al., (2025) também discutem a exposição excessiva e não supervisionada às telas em crianças com autismo, relacionando-a a aspectos do desenvolvimento neuropsíquico. Nesse sentido, o uso prolongado de dispositivos pode ser considerado um fator que merece atenção quando interfere na organização da rotina e reduz oportunidades de experiências presenciais de interação e aprendizagem.

A aprendizagem infantil ocorre por meio de diferentes experiências, que incluem desde brincadeiras, comunicação, interação social e exploração do ambiente. Desta forma, o uso de telas precisa ser analisado não somente pelo conteúdo apresentado, mas também pelo tempo que ocupa na rotina da criança e pelas atividades que poderiam ser deixadas de serem realizadas.

4.2. Memória, Linguagem e Comunicação

Segundo Papalia et al., (2006, p. 189) “os bebês nascem com a capacidade de aprender com o que vêem, ouvem, cheiram, degustam e tocam, possuindo ao menos certa capacidade para se lembrar do que aprenderam. Evidentemente, a maturação é essencial para esse processo”. Quando o autor fala que os bebês aprendem através do que vêem, ouvem, cheiram, degustam e tocam, isso significa que os bebês começam a conhecer o mundo por meio dos sentidos.

De acordo com Piaget e Inhelder (1966), uma das principais questões relacionadas ao desenvolvimento da memória está em compreender como ela se organiza progressivamente ao longo do desenvolvimento da criança. Os autores distinguem dois tipos fundamentais de memória: a memória de reconhecimento e a memória de evocação. A primeira acontece quando o objeto está diante da criança e ela consegue reconhecê-lo com base em experiências anteriores. Já a segunda refere-se à capacidade de lembrar-se de um objeto ou evento mesmo na sua ausência, recorrendo às representações e lembranças armazenadas mentalmente.

A memória de reconhecimento manifesta-se muito precocemente e está relacionada aos esquemas de ação e aos hábitos desenvolvidos pelo indivíduo. No bebê, suas primeiras manifestações podem ser observadas nos esquemas de assimilação sensório-motora. Isso ocorre, por exemplo, quando o bebê consegue reconhecer o bico do seio durante a amamentação depois de tê-lo levado à boca e diferenciá-lo das partes que estão ao seu redor. Da mesma maneira, o bebê pode reconhecer um objeto que estava acompanhando visualmente mesmo depois de tê-lo perdido momentaneamente de vista.

Já a memória de evocação apresenta um desenvolvimento diferente, pois está relacionada à capacidade de recuperar mentalmente algo que não está presente. Segundo os autores, essa forma de memória não aparece antes do desenvolvimento da imagem mental e da linguagem. Dessa maneira, sua formação está relacionada a uma capacidade mais elaborada de representação, envolvendo a possibilidade de recordar algo na ausência do objeto ou acontecimento. Nesse sentido, a memória de evocação apresenta como questão central compreender se seu desenvolvimento ocorre de maneira independente ou se permanece relacionado aos esquemas gerais das ações e das operações desenvolvidos pela criança (Piaget; Inhelder, 1966).

Segundo Piaget e Inhelder (1966, p. 76) “ a linguagem permite ao pensamento apoiar-se em extensões espacio-temporais bem mais vastas e libertar-se do imediato”. Quando Piaget e Inhelder afirmam que “a linguagem permite ao pensamento apoiar-se em extensões espacio-temporais bem mais vastas e libertar-se do imediato”, eles estão dizendo que, por meio da linguagem, a criança passa a conseguir, pensar sobre coisas que não estão presentes, ela pode falar ou pensar sobre uma pessoa, objeto ou situação mesmo quando não está vendo aquilo, recordar acontecimentos passados, pode contar o que aconteceu anteriormente, recuperando experiências por meio da memória, assim como, antecipar situações futuras, também pode imaginar ou falar sobre algo que ainda vai acontecer, organizar melhor o pensamento, a linguagem permite representar mentalmente acontecimentos e estabelecer relações entre eles, ir além do “aqui e agora”: o pensamento deixa de depender apenas daquilo que a criança está percebendo naquele instante.

Aproximadamente em 3% das crianças em idade pré-escolar apresentam algum tipo de atraso de linguagem. Também é observado que os meninos apresentam maior probabilidade de começar a falar mais tarde quando comparados às meninas. Entretanto, não existe uma explicação única para o motivo pelo qual algumas crianças iniciam o desenvolvimento da fala posteriormente (Papalia et al., 2006).

De acordo com Papalia et al., (2006), o atraso no desenvolvimento da linguagem não está necessariamente relacionado à falta de estímulos ou de informações linguísticas no ambiente familiar. Algumas crianças podem apresentar limitações cognitivas que dificultam a aprendizagem das regras utilizadas na linguagem. Dessa maneira, a dificuldade para desenvolver a fala pode estar relacionada ao próprio processo de aquisição e organização da linguagem, não sendo possível atribuir esse atraso exclusivamente às experiências oferecidas em casa.

A linguagem é um aspecto fundamental do desenvolvimento infantil e apresenta importância particular no contexto do TEA. Siqueira et al., (2022), ao revisarem estudos sobre autismo e tempo de tela, analisaram possíveis relações entre exposição aos dispositivos e desenvolvimento da linguagem.

Para que ocorra o aprendizado, é crucial levar em consideração diversos fatores que se desenvolvem desde as habilidades motoras iniciais, passam pela experiência préverbal e, posteriormente, chegam ao desenvolvimento perceptivo. Esse processo, portanto, é psicomotor e é responsável por formar a base para a progressiva organização do desenvolvimento cognitivo (Lira et al., 2024, p. 6).

Segundo Lira et al., (2024), podemos entender que processo de aprendizagem está diretamente relacionado ao desenvolvimento psicomotor da criança, e que ela se inicia com as primeiras habilidades motoras e depois evolui por meio das experiências adquiridas bem antes da linguagem e do desenvolvimento da percepção.

Siqueira et al., (2022) em sua revisão, encontraram associação entre maior exposição às telas e dificuldades relacionadas à compreensão da linguagem. A análise ressalta ainda que é necessário levar em conta a faixa etária das crianças e as condições em que ocorre o contato com as telas, pois os achados não indicam uma relação direta e única entre esse uso e o desenvolvimento da linguagem.

Nesse sentido, o problema não está necessariamente na existência do recurso tecnológico, mas na forma como ele é inserido na rotina. A utilização de telas sem equilíbrio ou sem participação de adultos pode reduzir momentos de comunicação, brincadeira compartilhada e interação, experiências importantes para o desenvolvimento da linguagem. No caso das crianças com TEA, esses aspectos são especialmente importantes, pois as experiências sociais e comunicativas fazem parte do cotidiano e podem contribuir para o desenvolvimento de diferentes habilidades.

Dessa forma, os estudos analisados indicam que o uso excessivo de telas pode estar relacionado a diferentes dimensões da rotina de crianças com TEA, que podem incluir desde a atenção, aprendizagem, linguagem, interação social, entre outras. Porém, os resultados devem ser interpretados com bastante cautela, pois diferentes fatores podem influenciar o desenvolvimento infantil.

4.3. As Interações Sociais e Afetivas

Segundo Erikson (1972, p. 2) “a realização social da criança, então é sua voluntaria disposição, em deixar a mãe de lado sem demasiada ansiedade ou raiva, por ela, se ter convertido em uma certeza interior, assim como uma predizibilidade exterior”. Para Erikson (1972), a autonomia da criança, não significa simplesmente “não precisar da mãe”. Pelo contrário: a capacidade de se afastar com tranquilidade surge justamente quando a criança construiu uma relação de confiança e segurança.

Com a imagem mental, a memória de evocação, o jogo simbólico e a linguagem, o objeto afetivo está, pelo contrário, sempre presente e sempre atuante, até em sua ausência física, e esse fato fundamental acarreta a formação de novos afetos, sob a forma de simpatias ou antipatias duradouras, no que concerne a outrem, e de consciência ou valorização duradouras de si, no que concerne ao eu (Piaget, 1966, p. 98)

Segundo Piaget (1966), á medida que a criança vai se desenvolvendo no que se refere a capacidade de formar imagens mentais, recordar acontecimentos, brincar simbolicamente e utilizar a linguagem, ela passa a manter internamente a presença de pessoas e objetos afetivamente importantes, mesmo quando não estão fisicamente presentes.

As dificuldades de linguagem também podem interferir na forma como a criança é percebida pelas pessoas ao seu redor. Crianças que não conseguem falar ou compreender a linguagem tão bem quanto outras da mesma idade podem receber avaliações negativas tanto de adultos quanto de outras crianças. Essas percepções podem dificultar a formação de relações com outras crianças, incluindo a possibilidade de encontrar parceiros para brincar e estabelecer amizades. Além disso, quando uma criança é considerada pouco inteligente ou imatura em razão de suas dificuldades linguísticas, essas expectativas podem influenciar sua própria imagem (Papalia et al., 2006).

Diante o exposto podemos perceber que a criança, consegue, lembrar, imaginar e representar, mentalmente aqueles com quem possui vínculos, fazendo com que os sentimentos não dependam somente da presença física. Nesse processo, a criança passa a estabelecer vínculos afetivos mais consistentes com as pessoas ao seu redor, desenvolvendo sentimentos como afeição, empatia e rejeição. Paralelamente, começa a formar uma compreensão mais definida sobre sua própria identidade, o que contribui para o desenvolvimento da consciência de si, da autoestima e do reconhecimento de suas características e habilidades.

5. MEDIAÇÃO DOS RESPONSÁVEIS E USO ADEQUADO DAS TELAS

5.1. Participação dos Pais e Cuidadores

De acordo com Bermert et al., (2025, p.7) “é muito importante que os responsáveis estejam envolvido durante a fase de desenvolvimento cognitivo da criança para mediar esse processo e torná-lo saudável, seguro e adequado”. A atuação dos pais e demais cuidadores é fundamental para estabelecer limites e orientar o uso de dispositivos eletrônicos durante a infância, contribuindo para que essa prática ocorra de maneira mais adequada às necessidades da criança. No caso de crianças com TEA, essa participação pode vir a contribuir para estabelecer uma rotina que considere as necessidades individuais da criança assim como o tempo de uso das telas e outras atividades.

As relações familiares estão passando por grandes mudanças devido ao uso excessivo de aparelhos eletrônicos. A interação e a socialização dos familiares acabam perdendo muito do seu valor, e a presença dos pais como principal mediador entre os filhos e os estímulos ambientais é substituída pelas telas (Bermert et al., 2025, p.7)

O autor explica que o uso excessivo dos aparelhos eletrônicos, como celulares, tablets e a televisão, podem modificar a forma como os membros da família acabam se relacionando. Pois quando as telas passam a ocupar uma grande parte do tempo que poderia ser destinado à conversas, às brincadeiras e à convivência, a interação que deivia ocorrer entre pais e filhos pode diminuir. O trecho também destaca uma importante reflexão em que que os pais têm um papel crucial no desenvolvimento de seus filhos, pois são eles que ajudam os mesmos a interpretar e compreender os estímulos presentes no ambiente.

As pesquisas que abordam a relação entre o uso de telas e o desenvolvimento neuropsíquico de crianças com autismo ressaltam a relevância do acompanhamento de adultos durante a utilização desses recursos tecnológicos, especialmente como forma de orientar e adequar essa experiência às necessidades da criança. A exposição excessiva e não supervisionada aparece entre os aspectos discutidos pelos autores em relação aos possíveis impactos sobre o desenvolvimento (Araújo et al., 2025).

Segundo Prado e Oliveira (2025 p. 7) “o ambiente em que a criança está inserida, os cuidados que recebe, a estimulação e a nutrição proporcionados pelos pais e/ou cuidadores são fatores importantes desta fase de maturação”. O autor traz uma análise, onde pode- se afirmar que o desenvolvimento da criança não depende apenas de suas características individuais, mas também do ambiente e dos cuidados que ela recebe.

5.2. Organização da Rotina e Limites de Exposição

Outro ponto bastante importante é a organização da rotina para o uso equilibrado das telas. O tempo destinado aos dispositivos precisa ser considerado juntamente com períodos de sono, atividade física, brincadeiras, interação social e outras experiências necessárias ao desenvolvimento.

Ressalta-se, ainda, que, embora o uso excessivo de telas seja prejudicial a todas as crianças, seus efeitos podem ser ainda mais impactantes naquelas com diagnóstico de TEA, considerando as especificidades em relação os desafios que envolvem a comunicação, o comportamento, o processamento sensorial e a interação social frequentemente associados ao transtorno (Amato et al., 2025, p. 18).

Foi possível perceber que o uso excessivo a telas pode ter um efeito mais impactante em crianças com TEA, pelo fato de as mesmas já terem grande prejuízos em algumas áreas de desenvolvimento, como a comunicação, interação, atenção, processamento sensorial e outros.

As discussões apresentadas pelos autores não querem dizer que todo o contato com dispositivos eletrônicos será prejudicial. Dessa forma, é fundamental buscar um equilíbrio no uso das telas, levando em consideração fatores como a duração da exposição, a qualidade e a finalidade dos conteúdos acessados, além da presença ativa dos adultos na orientação e mediação desse contato.

Santos et al., (2024) ressaltam a necessidade de ampliar as pesquisas sobre a relação entre uso de telas e desenvolvimento, enquanto Siqueira et al., (2022) vem destacar a importância dos limites para o tempo dessa exposição. É dessa forma, que a mediação dos responsáveis se constitui um elemento importante para acompanhar o uso dos dispositivos e preservar as diversas oportunidades de interação, comunicação e aprendizagem.

Dentro do contexto da criança com TEA, essa mediação deve considerar as particularidades de cada criança e da sua rotina. A participação dos responsáveis irá favorecer a organização dos momentos de uso das telas, evitando assim que os dispositivos passem a ocupar grande parte do tempo destinado a outros tipos de vivencias. Assim, mais do que simplesmente fazer a retirada das telas da rotina da criança, é importante obter um uso equilibrado e vistoriado, de acordo com as necessidades de cada criança.

6. METODOLOGIA

Segundo Gil (2002, p. 44) “a pesquisa bibliográfica é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”. Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, desenvolvida com o objetivo de analisar e compreender, o impacto do uso excessivo de telas no desenvolvimento cognitivo de crianças com TEA na primeira infância. Para a realização do estudo, foi realizado um levantamento de produções científicas relacionadas à temática, utilizando os seguintes descritores: “Transtorno do Espectro Autista (TEA)”, “Uso de Telas”, “Desenvolvimento Cognitivo”, “Crianças”, “Primeira infância”, “Tempo de Tela”, “Tecnologia Digital”, todos referenciados e fundamentados.

A pesquisa bibliográfica foi realizada por meio da consulta a artigos científicos, livros, dissertações e teses, disponíveis em bases de dados e plataformas acadêmicas, como SciELO, LILACS, BVS, PePSIC, Portal de Periódicos CAPES e Google Acadêmico, entre outras fontes científicas pertinentes ao tema. Foram selecionadas publicações referentes ao período de 1966 a 2025, considerando como critérios de inclusão: período de publicação 1966 a 2025, publicações em português, relação com o tema: estudos que abordem o uso de telas, desenvolvimento cognitivo e crianças com TEA, estudos envolvendo crianças na primeira infância, tipo de publicação: artigos científicos, trabalhos de conclusão de curso e revistas, disponibilidade: estudos com texto completo disponível para leitura e analise.

Foram excluídos estudos duplicados, publicações fora do período estabelecido e materiais que não apresentavam relação direta com o objetivo da pesquisa. Após o levantamento e a seleção dos materiais, foi realizada a leitura e análise das publicações escolhidas, buscando identificar os principais conceitos, resultados e discussões relacionados a o impacto do uso excessivo de telas no desenvolvimento cognitivo de crianças com TEA na primeira infância. Os dados encontrados foram organizados de forma descritiva permitindo a comparação entre as diferentes contribuições dos autores estudados.

A análise dos estudos possibilitou a identificação de Tempo e frequência de exposição às telas; Impactos do uso excessivo de telas no desenvolvimento cognitivo; Atenção e concentração; aprendizagem; Linguagem, interação social e comunicação; Possíveis efeito positivos e negativos do uso de telas no desenvolvimento infantil, contribuindo para uma compreensão mais ampla sobre o impacto do uso excessivo de telas no desenvolvimento cognitivo de crianças com TEA na primeira infância e permitindo responder ao problema de pesquisa proposto. Como limitação, destaca-se que, por se tratar de uma pesquisa exclusivamente bibliográfica, os resultados estão condicionados às publicações disponíveis nas bases consultadas e ao recorte estabelecido para a realização do levantamento. Dessa forma, as conclusões refletem o conhecimento produzido e localizado durante o período de pesquisa. O estudo contemplou as etapas de levantamento bibliográfico, seleção das publicações, leitura, análise dos estudos e elaboração do artigo científico.

7. RESULTADOS E ANÁLISES

A análise dos estudos selecionados permitiu identificar diferentes aspectos relacionados ao uso de telas e ao desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). De modo geral, os estudos abordaram aspectos como atenção, linguagem, aprendizagem e interação social (Santos et al., 2024; Siqueira et al., 2022; Araújo et al., 2025; Lira et al., 2024; Bermert et al., 2025; Prado; Oliveira, 2025; Erikson, 1972; Papalia; Olds; Feldman, 2006; Piaget; Inhelder, 1966).

Em relação ao primeiro objetivo específico, que consiste em analisar as possíveis relações entre o uso de telas e aspectos do desenvolvimento cognitivo, os estudos apontaram associações principalmente com atenção, linguagem e aprendizagem. Com base na análise de estudos disponíveis na literatura, Santos et al. (2024) apontam que o contato frequente com dispositivos eletrônicos pode estar associado a diferentes aspectos do desenvolvimento infantil. Da mesma forma, Siqueira et al. discutem essa temática em suas pesquisas. Siqueira et al. (2022), por sua vez, discutiram relações entre o uso de telas, linguagem e sociabilidade em crianças com TEA. Araújo et al. (2025) também abordaram a exposição excessiva e não supervisionada, relacionando-a a aspectos do desenvolvimento neuropsíquico. Lira et al. (2024) destacaram possíveis relações entre o uso de telas, o desenvolvimento cognitivo e os processos de aprendizagem, ressaltando que a forma de utilização dos dispositivos e o conteúdo acessado são aspectos relevantes nessa relação.

Essa compreensão pode ser relacionada às contribuições de Piaget e Inhelder (1966), que compreendem o desenvolvimento cognitivo como um processo construído progressivamente por meio das experiências e das interações da criança com o ambiente. Nessa perspectiva, as experiências vivenciadas pela criança possuem papel importante na construção do conhecimento, uma vez que possibilitam a exploração, a descoberta e a organização das informações. Dessa forma, o uso de dispositivos eletrônicos deve ser analisado considerando se ele favorece experiências significativas ou se substitui atividades importantes para o desenvolvimento, como brincadeiras, exploração do ambiente, interação com outras pessoas e experiências concretas.

Bermert et al. (2025) apontaram que os possíveis efeitos relacionados ao uso de telas não dependem somente do tempo de exposição, mas também do tipo de conteúdo consumido, da forma de interação com os dispositivos e da supervisão dos responsáveis. Diante disso, torna-se fundamental analisar o contato com as telas de forma individualizada, levando em consideração as particularidades, o contexto de vida e as necessidades específicas de cada criança. Papalia et al., (2006) contribuem para essa compreensão ao abordarem o desenvolvimento humano como um processo que envolve diferentes dimensões, incluindo aspectos físicos, cognitivos e psicossociais. Assim, o desenvolvimento infantil não deve ser analisado de forma isolada, pois diferentes fatores ambientais, familiares e sociais podem interferir nas experiências e nas oportunidades oferecidas à criança.

Quanto ao segundo objetivo específico, relacionado aos possíveis impactos do uso excessivo de telas sobre a rotina e o desenvolvimento infantil, os estudos indicaram que os efeitos não devem ser analisados somente a partir do tempo de exposição, mas também considerando a finalidade do uso, as atividades substituídas e o contexto em que ocorre. Siqueira et al. (2022) relacionaram o uso de tela e seu tempo, enquanto Amato et al. (2025) observaram mudanças relacionadas ao uso de dispositivos durante a pandemia de Covid-19. Prado e Oliveira (2025), ao analisarem crianças de 3 a 6 anos, destacaram a importância do ambiente em que a criança está inserida, dos cuidados recebidos e dos estímulos proporcionados pelos pais ou cuidadores para o desenvolvimento infantil.

Essa perspectiva também pode ser relacionada às contribuições de Erikson (1972), que enfatiza a importância das relações sociais e das experiências vivenciadas pela criança ao longo do seu desenvolvimento. O ambiente familiar exerce papel importante nesse processo, uma vez que as relações estabelecidas com pais e cuidadores contribuem para a construção de experiências sociais e emocionais. Nesse sentido, quando o uso excessivo de telas reduz de maneira significativa os momentos de convivência, diálogo, brincadeira e interação entre a criança e seus familiares, pode haver uma diminuição de oportunidades importantes para seu desenvolvimento social e emocional.

Nesse sentido, os achados de Lira et al. (2024), Bermert et al. (2025) e Prado e Oliveira (2025) contribuem para a compreensão de que a análise do uso de telas não deve considerar apenas a quantidade de tempo de exposição. O conteúdo, a finalidade do uso, a qualidade da interação, a supervisão dos responsáveis e o contexto familiar também devem ser considerados na interpretação das possíveis relações entre as telas e o desenvolvimento infantil. Papalia et al.,(2006) reforçam essa compreensão ao considerar que o desenvolvimento ocorre a partir da interação entre diferentes aspectos da vida da criança, incluindo suas características individuais e o ambiente no qual está inserida.

Em relação ao terceiro objetivo específico, referente à importância da mediação dos responsáveis, os estudos destacaram a necessidade de acompanhamento da criança durante o uso dos dispositivos eletrônicos. Araújo et al. (2025) chamaram atenção para a exposição não supervisionada. Bermert et al. (2025) também ressaltaram a importância da supervisão dos responsáveis e da segurança digital, enquanto Prado e Oliveira (2025) destacaram a relevância dos cuidados e estímulos proporcionados pelos pais ou cuidadores.

A importância da participação dos adultos também pode ser compreendida a partir das contribuições de Erikson (1972), considerando que as relações estabelecidas entre a criança e as pessoas responsáveis por seus cuidados fazem parte de seu desenvolvimento psicossocial. A presença dos pais ou cuidadores possibilita não apenas o acompanhamento do conteúdo acessado, mas também a interação, a comunicação e a construção de experiências compartilhadas. Dessa forma, a mediação dos adultos pode contribuir para que o uso das tecnologias ocorra de maneira mais adequada às necessidades e às características de cada criança.

Além disso, a perspectiva de Piaget e Inhelder (1966) permite compreender a importância das experiências ativas para o desenvolvimento cognitivo. A criança aprende por meio da exploração e da interação com o ambiente, portanto, o uso das telas não deve substituir completamente experiências concretas, brincadeiras e atividades que favoreçam a participação ativa da criança. Nesse sentido, a mediação dos responsáveis pode auxiliar na organização da rotina, estabelecendo momentos destinados ao uso dos dispositivos e preservando oportunidades para outras formas de aprendizagem e interação.

Nesse sentido, a mediação dos adultos pode favorecer uma organização mais adequada do tempo de exposição e contribuir para a preservação de oportunidades de brincadeira, comunicação, interação social e aprendizagem. Para Papalia et al., (2006), o desenvolvimento infantil está relacionado às experiências proporcionadas pelo ambiente e às relações estabelecidas pela criança ao longo de seu processo de desenvolvimento. Portanto, o papel dos pais e cuidadores ultrapassa o simples controle do tempo de tela, envolvendo também a oferta de estímulos, acompanhamento e participação nas atividades realizadas pela criança.

De maneira geral, os resultados encontrados indicam que o uso excessivo de telas pode estar associado a diferentes aspectos do desenvolvimento cognitivo de crianças com TEA. Entretanto, os estudos não permitem estabelecer que a exposição às telas, de forma isolada, seja responsável pelas alterações observadas. A análise dos resultados deve levar em conta diferentes variáveis que podem influenciar a experiência da criança, como sua faixa etária e particularidades individuais, além da duração e do objetivo do contato com as telas, do tipo de conteúdo consumido, do acompanhamento realizado pelos adultos e das condições presentes no ambiente familiar.

As contribuições de Piaget e Inhelder (1966), Erikson (1972) e Papalia etal., (2006) permitem ampliar essa análise ao compreender o desenvolvimento infantil como um processo influenciado pelas experiências, pelas interações com o ambiente e pelas relações sociais. Dessa forma, a influência das telas não deve ser compreendida apenas a partir de uma relação direta entre tempo de exposição e desenvolvimento, mas considerando o conjunto de experiências que fazem parte da rotina da criança.

Os estudos de Lira et al. (2024), Bermert et al. (2025) e Prado e Oliveira (2025) reforçam essa perspectiva ao demonstrarem que diferentes características do uso das telas e do ambiente infantil devem ser consideradas na análise. Assim, a literatura analisada aponta para a importância de um uso equilibrado, contextualizado e acompanhado dos dispositivos eletrônicos, especialmente durante a infância. Para crianças com TEA, essa atenção torna-se ainda mais relevante, considerando as particularidades individuais relacionadas à comunicação, interação social, aprendizagem e desenvolvimento. Dessa maneira, a mediação familiar e a oferta de experiências diversificadas podem contribuir para que os recursos tecnológicos sejam utilizados de forma complementar, sem substituir as interações sociais, as brincadeiras e outras experiências fundamentais ao desenvolvimento infantil.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa teve como objetivo analisar os possíveis impactos do uso excessivo de telas no desenvolvimento cognitivo de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na primeira infância. A partir da revisão bibliográfica realizada, foi possível identificar que o uso prolongado de dispositivos eletrônicos apresenta possíveis relações e associações com diferentes aspectos do desenvolvimento infantil, incluindo atenção, linguagem, aprendizagem e interação social.

Os estudos analisados indicam que o tempo de exposição é um aspecto relevante, mas não deve ser considerado isoladamente. O conteúdo acessado, a finalidade do uso, a idade da criança, suas características individuais e a forma como os dispositivos são utilizados também precisam ser considerados. Dessa forma, os estudos não permitem afirmar que o uso de telas, por si só, cause prejuízos ao desenvolvimento cognitivo, sendo mais adequado considerar as possíveis relações entre o uso excessivo desses dispositivos e diferentes aspectos do desenvolvimento infantil.

A pesquisa também evidenciou a importância da participação dos pais e cuidadores na organização do uso das telas. A mediação dos adultos pode contribuir para estabelecer limites, acompanhar os conteúdos acessados e preservar momentos destinados à interação, brincadeiras, comunicação e aprendizagem.

Diante dos achados, destaca-se que o uso de telas durante a primeira infância deve ocorrer de maneira equilibrada e acompanhada, especialmente no caso de crianças com TEA. O objetivo não é necessariamente eliminar os dispositivos eletrônicos, mas favorecer uma utilização adequada às necessidades da criança, evitando que o tempo de tela substitua experiências importantes para seu desenvolvimento.

Por fim, ressalta-se a importância da realização de novas investigações acerca dessa temática, especialmente pesquisas longitudinais que acompanhem crianças com TEA ao longo da primeira infância. Estudos dessa natureza podem contribuir para uma compreensão mais aprofundada dos possíveis efeitos da exposição às telas sobre o desenvolvimento infantil, relações entre o tempo de exposição às telas e o desenvolvimento cognitivo. Assim, a discussão sobre o uso das tecnologias deve permanecer baseada em evidências, considerando as particularidades de cada criança e de seu contexto familiar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Faculdade de Educação Santa Teresinha. FEST. Acadêmica de Psicologia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Administradora, Advogada, Psicóloga e Teóloga. Especialista em Docência do Ensino Superior e em Gestão e Legislação Tributária. Docente da Faculdade de Educação Santa Terezinha (FEST). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.