O FENÔMENO PÓS COMPETITION BLUES NO FISICULTURISMO: CONSIDERAÇÕES FISIOLÓGICAS, ENDÓCRINAS E PSICOSSOCIAIS

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18142592


Edson Carlos Zaher Rosa1


RESUMO
O fisiculturismo competitivo caracteriza-se por um conjunto de adaptações fisiológicas extremas impostas ao organismo humano, envolvendo restrição calórica severa, treinamento resistido de alta intensidade, manipulação hídrica e alterações hormonais profundas. Nesse contexto, observa-se com frequência o surgimento de um quadro clínico-funcional denominado Pós Competition Blues, caracterizado por alterações metabólicas, endócrinas, neuroquímicas e psicossociais que se manifestam nas semanas subseqüentes à competição. O presente artigo tem como objetivo analisar, sob uma perspectiva médico-científica, os principais mecanismos fisiológicos, hormonais e psicossociais envolvidos no Pós Competition Blues em atletas de fisiculturismo, correlacionando-os com adaptações do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), eixo gonadal, hormônios tireoidianos, neuropeptídeos reguladores do apetite e alterações da identidade corporal. Trata-se de uma revisão narrativa, fundamentada em literatura científica indexada, com foco na compreensão integrada do fenômeno e na proposição de estratégias clínicas de prevenção e manejo. A compreensão desse estado pós-competitivo é fundamental para reduzir riscos à saúde física e mental do atleta e para aprimorar a atuação multiprofissional na medicina do esporte.
Palavras-chave: Fisiculturismo; Pós Competition Blues; Endocrinologia do Exercício; Saúde Mental do Atleta; Medicina do Esporte.

ABSTRACT
Competitive bodybuilding is characterized by extreme physiological adaptations imposed on the human body, including severe caloric restriction, high-intensity resistance training, fluid manipulation, and profound hormonal changes. In this context, a clinical-functional condition known as Post Competition Blues is frequently observed, characterized by metabolic, endocrine, neurochemical, and psychosocial alterations that manifest in the weeks following competition. This article aims to analyze, from a medical-scientific perspective, the main physiological, hormonal, and psychosocial mechanisms involved in Post Competition Blues in bodybuilding athletes, correlating them with adaptations of the hypothalamic-pituitary-adrenal axis, gonadal axis, thyroid hormones, appetite-regulating neuropeptides, and body image alterations. This is a narrative review based on indexed scientific literature, focusing on an integrated understanding of the phenomenon and proposing clinical strategies for prevention and management. Understanding this post-competitive state is essential to reduce risks to the physical and mental health of athletes and to improve multidisciplinary practice in sports medicine.
Keywords: Bodybuilding; Post Competition Blues; Exercise Endocrinology; Athlete Mental Health; Sports Medicine.

1. INTRODUÇÃO

O fisiculturismo competitivo representa uma das modalidades esportivas mais desafiadoras do ponto de vista fisiológico e psicológico, exigindo do atleta níveis extremos de disciplina alimentar, controle corporal e tolerância ao estresse físico e mental. Diferentemente de outras modalidades esportivas, o objetivo primário do fisiculturismo não é o desempenho funcional, mas sim a maximização estética de massa muscular associada à redução extrema do percentual de gordura corporal, freqüentemente atingindo valores considerados limítrofes ou mesmo abaixo dos parâmetros fisiológicos de normalidade. Durante a fase pré-competitiva, os atletas são submetidos a períodos prolongados de restrição calórica severa, elevada carga de treinamento resistido, aumento do volume de exercícios aeróbicos e, em muitos casos, estratégias agressivas de manipulação de carboidratos, sódio e água corporal. Essas práticas resultam em adaptações metabólicas profundas, incluindo redução do gasto energético basal, alterações no perfil hormonal e mudanças significativas na sinalização neuroendócrina relacionada ao apetite, humor e comportamento. Nas semanas que sucedem a competição, observa-se freqüentemente o desenvolvimento de um quadro caracterizado por fadiga persistente, alterações do humor, perda de motivação, episódios depressivos, compulsão alimentar, recuperação rápida de gordura corporal (adipogênese), queda do desempenho físico e sensação subjetiva de vazio psicológico. Esse conjunto de manifestações tem sido descrito na literatura como Pós Competition Blues, um fenômeno multifatorial que envolve interações complexas entre fisiologia, endocrinologia e aspectos psicossociais.Apesar de amplamente relatado de forma empírica por atletas e treinadores, o Pós Competition Blues ainda é subexplorado na literatura científica, especialmente sob uma abordagem médica integrada. A compreensão insuficiente desse fenômeno contribui para estratégias inadequadas de manejo no período pós-competitivo, aumentando o risco de disfunções hormonais persistentes, transtornos alimentares, depressão e abandono precoce da prática esportiva.

2. DEFINIÇÃO CLÍNICA E CONCEITUAL DO PÓS COMPETITION BLUES NO FISICULTURISMO

O termo Pós Competition Blues refere-se a um estado transitório, porém potencialmente grave, de desorganização fisiológica e psicológica que ocorre após o término de uma competição de fisiculturismo. Clinicamente, esse fenômeno pode ser definido como um conjunto de sinais e sintomas resultantes da retirada abrupta de estímulos extremos aos quais o organismo foi adaptado durante o período pré-competitivo. Do ponto de vista fisiológico, o Pós Competition Blues está associado à reversão incompleta ou descompensada das adaptações metabólicas induzidas pela restrição energética crônica, onde observa-se freqüentemente redução persistente da taxa metabólica basal, hiperfagia reativa, aumento da eficiência energética e rápida recuperação do tecido adiposo, fenômeno conhecido como fat overshooting. Essas alterações são mediadas por modificações na sinalização de hormônios como Leptina, Grelina, Insulina e Cortisol. No âmbito endócrino, destacam-se a supressão transitória ou prolongada do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal (HHG), com redução dos níveis de testosterona em homens e alterações do ciclo menstrual em mulheres, além de disfunções do eixo hipotálamo-hipófise-tireoide (HHT), caracterizadas por redução de Triiodotironina (T3) e diminuição do metabolismo basal. Paralelamente, observa-se hiperatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), com elevação relativa ou absoluta do hormônio Cortisol, contribuindo para quadros de catabolismo muscular, retenção hídrica e alterações do humor. Sob a perspectiva psicossocial, o Pós Competition Blues envolve fatores como perda da identidade competitiva, frustração pós-evento, distorção da imagem corporal e dificuldade de adaptação a um corpo menos condicionado esteticamente. O atleta, após meses de foco exclusivo na competição, enfrenta uma ruptura abrupta de rotina, objetivos e reforços externos, o que pode desencadear sintomas compatíveis com transtornos depressivos leves a moderados. Assim, o Pós Competition Blues deve ser compreendido como um fenômeno multidimensional, no qual alterações fisiológicas, hormonais e psicológicas coexistem e se potencializam, exigindo abordagem clínica integrada e individualizada.

3. FISIOLOGIA DO FISICULTURISMO COMPETITIVO E ADAPTAÇÕES METABÓLICAS EXTREMAS

O fisiculturismo competitivo impõe ao organismo humano um conjunto singular de estressores fisiológicos crônicos, cuja magnitude raramente é observada em outras modalidades esportivas.

A preparação para competição envolve, de forma concomitante, restrição energética progressiva, elevação do volume e da intensidade do treinamento resistido, incremento do treinamento aeróbio e manipulações dietéticas e hídricas direcionadas à maximização da definição muscular. Essas estratégias induzem adaptações metabólicas profundas, que se tornam determinantes para a gênese do fenômeno Pós Competition Blues. Durante a fase pré-competitiva, o organismo entra em um estado de balanço energético negativo sustentado. Como resposta adaptativa, ocorre redução progressiva da taxa metabólica basal (TMB), mediada principalmente por alterações hormonais e pela diminuição da termogênese adaptativa. Estudos clássicos demonstram que a TMB pode reduzir-se de forma desproporcional à perda de peso corporal, fenômeno conhecido como Adaptive Thermogenesis, que persiste mesmo após o término da restrição calórica. Essa adaptação metabólica é acompanhada por aumento da eficiência energética, caracterizada pela maior capacidade do organismo em armazenar energia sob a forma de tecido adiposo quando a ingestão calórica é restabelecida. No contexto pós-competitivo, essa condição favorece a rápida recuperação de gordura corporal, muitas vezes superando os níveis pré-preparação, contribuindo para frustração psicológica e agravamento do Pós Competition Blues.

4. RESTRIÇÃO CALÓRICA EXTREMA E ALTERAÇÕES NEUROENDÓCRINAS

A restrição calórica prolongada observada no fisiculturismo competitivo, desencadeia uma cascata de alterações neuroendócrinas voltadas à preservação da vida, mas que se tornam mal adaptativas no período pós-competição,entre essas alterações, destacam-se modificações significativas na secreção de Leptina, Grelina, Insulina e hormônios tireoidianos.

A Leptina, hormônio peptídico produzido pelos adipócitos, sofre redução acentuada durante a preparação competitiva, refletindo a diminuição das reservas energéticas. Níveis baixos de Leptina sinalizam ao hipotálamo um estado de escassez energética, promovendo aumento do apetite, redução do gasto energético e supressão de eixos hormonais não essenciais à sobrevivência imediata, como o eixo reprodutivo. No período pós-competitivo, mesmo com a recuperação parcial do peso corporal, os níveis de Leptina podem permanecer desproporcionalmente baixos, perpetuando um quadro hiperfagia e lentidão metabólica.

Paralelamente, observa-se elevação sustentada de Grelina, principal hormônio orexigênico periférico que atua estimulando neurônios produtores de Neuropeptídeo Y (NPY) e AgRP no núcleo arqueado do hipotálamo, intensificando a fome e favorecendo episódios de compulsão alimentar, freqüentemente relatados por fisiculturistas após competições.

Os hormônios tireoidianos também sofrem impacto relevante, pois a redução da conversão periférica de Tiroxina (T4) em Triiodotironina (T3) representa um mecanismo adaptativo para redução do gasto energético, sendo que a diminuição do T3 contribui para fadiga, letargia, intolerância ao frio e redução da performance física, sintomas freqüentemente observados no Pós Competition Blues.

5. EIXO HIPOTÁLAMO-HIPÓFISE-ADRENAL (HHA) E O ESTRESSE FISIOLÓGICO CRÔNICO

O eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HHA) desempenha papel central na resposta ao estresse induzido pela preparação competitiva, sendo que o treinamento intenso associado à restrição calórica severa, promovem ativação crônica desse eixo, resultando em elevação sustentada dos níveis de Cortisol ou, em alguns casos, em resposta disfuncional caracterizada por alterações do ritmo circadiano do hormônio.

O cortisol exerce efeitos catabólicos importantes, incluindo aumento da proteólise muscular, mobilização de aminoácidos para Gliconeogênese hepática e antagonismo à ação da insulina. Em curto prazo, essas adaptações contribuem para a manutenção da glicemia e sobrevivência; entretanto, quando prolongadas, tornam-se deletérias, favorecendo perda de massa magra, retenção hídrica, piora da qualidade do sono e alterações do humor.

No período pós-competitivo, a retirada abrupta do estressor competitivo não é acompanhada de recuperação imediata do eixo HHA, sendo que muitos atletas apresentam persistência de hiperatividade adrenal ou, inversamente, sinais de hiporresponsividade, com fadiga crônica, dificuldade de adaptação ao treino e sintomas depressivos. Essa desregulação contribui de forma significativa para a sintomatologia do Pós Competition Blues.

6. TREINAMENTO CRÔNICO DE ALTA INTENSIDADE E DISFUNÇÃO DA RECUPERAÇÃO

O treinamento resistido de alta intensidade, característico do fisiculturismo competitivo, promove microlesões musculares repetidas, demandando elevado aporte energético e hormonal para recuperação adequada, porém durante a preparação, o ambiente metabólico é predominantemente catabólico, o que compromete os processos regenerativos.

A combinação de déficit calórico, baixos níveis de Testosterona e IGF-1, além de cortisol elevado, resulta em prejuízo da síntese protéica muscular e aumento da suscetibilidade a lesões. No período pós-competitivo, a manutenção de protocolos de treino inadequados, sem ajuste à nova realidade fisiológica do atleta, pode perpetuar estados de Overreaching ou mesmo Overtraining funcional e não funcional.

Essa condição agrava sintomas como fadiga persistente, queda do desempenho, alterações do sono e humor deprimido, reforçando o ciclo fisiológico e psicológico do Pós Competition Blues.

7. INTEGRAÇÃO DAS ADAPTAÇÕES FISIOLÓGICAS NO CONTEXTO DO PÓS COMPETITION BLUES

As adaptações metabólicas e neuroendócrinas relacionadas ao treinamento não ocorrem de forma isolada, mas sim de maneira integrada e sinérgica, sendo que a redução da taxa metabólica basal (TMB), associada à hiperfagia mediada por Leptina e Grelina, à disfunção do eixo HHA e à queda da eficiência regenerativa muscular, criam um ambiente propício ao desenvolvimento de alterações físicas e emocionais significativas no pós-competição.

A compreensão desses mecanismos é fundamental para que profissionais da saúde e do esporte desenvolvam estratégias de transição adequadas entre o período competitivo e o pós-competitivo, minimizando os impactos fisiológicos negativos e reduzindo o risco de desenvolvimento do Pós Competition Blues em sua forma mais severa.

8. ALTERAÇÕES ENDÓCRINAS PÓS-COMPETIÇÃO NO FISICULTURISMO

O período imediatamente subseqüente à competição de fisiculturismo é marcado por uma profunda instabilidade endócrina, decorrente da combinação de estresse físico crônico, déficit energético prolongado e mudanças abruptas na rotina de treinamento e alimentação. Essas alterações hormonais constituem um dos pilares fisiopatológicos do fenômeno “Pós Competition Blues”, influenciando diretamente o metabolismo, a composição corporal, o humor e o comportamento alimentar do atleta.

8.1. Supressão do Eixo Hipotálamo-hipófise-gonadal (HHG)

A supressão do eixo Hipotálamo-Hipófise-Gonadal (HHG) é uma das alterações endócrinas mais relevantes observadas no pós-competição. Em homens, caracteriza-se por redução significativa dos níveis séricos de Testosterona total e livre, freqüentemente associada a níveis inadequados de hormônio Luteinizante (LH) e hormônio Folículo-Estimulante (FSH), configurando um quadro de Hipogonadismo funcional.

O mecanismo fisiopatológico envolve a inibição da secreção pulsátil do hormônio liberador de Gonadotrofinas (GnRH) pelo hipotálamo, mediada por baixos níveis de Leptina, aumento do Cortisol e redução da disponibilidade energética. A Testosterona exerce papel fundamental na manutenção da massa muscular, densidade óssea, libido, função cognitiva e bem-estar psicológico, sendo que a sua redução no pós-competição contribui para fadiga, perda de motivação, sintomas depressivos e dificuldade de recuperação muscular.

Em atletas do sexo feminino, observa-se freqüentemente disfunção menstrual, variando desde Oligomenorreia até Amenorreia Hipotalâmica Funcional, sendo que essa condição reflete a supressão do eixo reprodutivo em resposta à baixa disponibilidade energética, sendo componente central da Síndrome da Deficiência Energética Relativa no Esporte (RED-S).

8.2. Hormônio Cortisol e a Persistência do Estresse Endócrino

O hormônio Cortisol, principal hormônio glicocorticoide humano, encontra-se freqüentemente elevado durante a fase pré-competitiva em função da ativação crônica do eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HHA). No pós-competição, essa elevação pode persistir ou apresentar desorganização do ritmo circadiano, com perda do pico matinal e níveis inadequadamente elevados ao longo do dia.

O Cortisol exerce efeitos catabólicos importantes, incluindo aumento da proteólise muscular, inibição da síntese protéica, antagonismo à ação da insulina e estímulo à deposição de gordura visceral. No Sistema Nervoso Central (SNC), níveis cronicamente elevados de Cortisol associam-se a alterações do humor, ansiedade, distúrbios do sono e maior vulnerabilidade a quadros depressivos.

A persistência da hiperatividade do eixo HHA no pós-competição representa um fator crítico na manutenção do Pós Competition Blues, especialmente quando associada à queda da Testosterona e dos hormônios tireoidianos, configurando um ambiente endócrino amplamente desfavorável à recuperação fisiológica e psicológica do atleta.

8.3. Disfunções do Eixo Hipotálamo-hipófise-tireoide (HHT)

As alterações do eixo tireoidiano são adaptações clássicas à restrição calórica prolongada, pois durante a preparação competitiva, observa-se redução da conversão periférica de Tiroxina (T4) em Triiodotironina (T3), principal hormônio metabolicamente ativo da Tireoide. Essa adaptação visa reduzir o gasto energético basal e preservar reservas energéticas. No período pós-competição, os níveis de T3 freqüentemente permanecem reduzidos, mesmo após a reintrodução alimentar, contribuindo para sintomas como fadiga, lentidão cognitiva, intolerância ao frio, constipação e dificuldade de perda de gordura corporal. A manutenção dessa disfunção tireoidiana funcional reforça a sensação subjetiva de baixa energia e contribui para o humor deprimido característico do Pós Competition Blues.

Importante destacar que, na maioria dos casos, essas alterações não refletem doença tireoidiana primária, mas sim uma resposta adaptativa do organismo à baixa disponibilidade energética, exigindo abordagem clínica cuidadosa e baseada na recuperação progressiva do equilíbrio metabólico.

8.4. Leptina, Grelina e Desorganização do Comportamento Alimentar

A Leptina e a Grelina desempenham papel essencial na regulação do apetite e do balanço energético. No pós-competição, a Leptina encontra-se freqüentemente em níveis desproporcionalmente baixos em relação ao peso corporal, enquanto a Grelina permanece elevada, criando um ambiente neuroendócrino fortemente orexigênico.

Essa combinação favorece episódios de hiperfagia e compulsão alimentar, muitas vezes acompanhados de culpa, ansiedade e frustração, agravando o sofrimento psicológico do atleta. A rápida recuperação de gordura corporal, mediada por alta eficiência energética e resistência à Leptina, contribui para distorção da imagem corporal e piora da autoestima, reforçando o ciclo psicofisiológico do Pós Competition Blues.

8.5. Impactos Neuroendócrinos e Neuroquímicos no Humor

As alterações hormonais pós-competição exercem impacto significativo sobre neurotransmissores centrais envolvidos na regulação do humor, como Serotonina, Dopamina e Noradrenalina, isso porque a restrição calórica prolongada reduz a disponibilidade de Triptofano, precursor da Serotonina, enquanto o estresse crônico afeta a sinalização dopaminérgica relacionada à recompensa e motivação.

No pós-competição, a retirada abrupta do estímulo competitivo e da validação externa pode exacerbar essas alterações neuroquímicas, resultando em sintomas como anedonia, apatia, irritabilidade e humor deprimido. Em alguns atletas, esses sintomas atingem intensidade compatível com episódios depressivos leves a moderados, exigindo atenção clínica especializada.

9. INTEGRAÇÃO DAS ALTERAÇÕES ENDÓCRINAS NO CONTEXTO DO PÓS COMPETITION BLUES

A supressão do eixo gonadal, a disfunção tireoidiana funcional, a persistência da hiperatividade do eixo HHA e a desorganização dos hormônios reguladores do apetite configuram um cenário endócrino complexo e interdependente. Essas alterações não apenas explicam grande parte da sintomatologia física observada no Pós Competition Blues, mas também exercem papel central nas manifestações psicológicas e comportamentais do fenômeno.

A compreensão integrada dessas disfunções é essencial para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas eficazes, baseadas na recuperação gradual da disponibilidade energética, ajuste do treinamento, suporte psicológico e acompanhamento médico individualizado.

10. ASPECTOS PSICOLÓGICOS E PSICOSSOCIAIS DO PÓS COMPETITION BLUES NO FISICULTURISMO

O Pós Competition Blues no fisiculturismo não pode ser compreendido apenas como uma conseqüência fisiológica ou endócrina da preparação competitiva, pois trata-se de um fenômeno multifatorial, no qual aspectos psicológicos e psicossociais exercem papel fundamental, freqüentemente determinante para a intensidade e duração do quadro clínico. A abrupta transição entre o estado de hiperfoco competitivo e o retorno à vida cotidiana constitui um estressor psíquico significativo, capaz de desencadear ou exacerbar sintomas emocionais relevantes.

Durante a fase pré-competitiva, o atleta encontra-se inserido em um contexto altamente estruturado, caracterizado por metas claras, rotinas rígidas, validação social constante e sensação de propósito bem definido. Com o término da competição, ocorre perda súbita dessa estrutura, gerando um vazio psicológico que contribui para sentimentos de desorientação, frustração e perda de sentido, freqüentemente relatados no Pós Competition Blues.

10.1. Identidade Corporal e Construção do Self no Fisiculturismo

No fisiculturismo, o corpo não representa apenas um instrumento esportivo, mas um elemento essencial da identidade do atleta. Desse modo, a construção do self está intimamente associado à estética corporal, à definição muscular e ao percentual de gordura extremamente baixo alcançado no pico competitivo. Esse fenômeno é amplificado pela cultura do esporte, que valoriza intensamente a aparência física como marcador de sucesso, disciplina e mérito pessoal. No pós-competição, a inevitável recuperação de peso e gordura corporal, associada às alterações hormonais previamente descritas, entram em conflito com a autoimagem idealizada construída ao longo da preparação, culminando num quadro de discrepância entre o corpo real e o corpo idealizado, gerando sofrimento psíquico significativo, freqüentemente acompanhado de insatisfação corporal, vergonha e sentimento de fracasso, mesmo diante de resultados competitivos positivos.

10.2. Dismorfia Muscular e Transtornos da Imagem Corporal

A Dismorfia Muscular (DM), classificada como um subtipo do transtorno dismórfico corporal, apresenta prevalência elevada entre praticantes de musculação e fisiculturistas, sendo que a mesma, caracteriza-se por preocupação excessiva com a percepção de insuficiente desenvolvimento muscular, mesmo na presença de elevada massa magra. No contexto pós-competitivo, essa condição tende a se intensificar, uma vez que a perda transitória de definição muscular e o aumento do tecido adiposo são interpretados pelo atleta como sinais de regressão física. A Dismorfia Muscular (DM) contribui para comportamentos disfuncionais, como retorno precoce a dietas extremamente restritivas, uso indiscriminado de recursos ergogênicos e isolamento social, perpetuando o ciclo fisiopatológico do Pós Competition Blues.

10.3. Depressão Pós-competição e Sintomas Afetivos

Diversos são os estudos que demonstram que atletas de esportes estéticos e de alto rendimento apresentam maior vulnerabilidade a sintomas depressivos no período pós-competitivo. No fisiculturismo, essa vulnerabilidade é amplificada pela combinação de alterações neuroendócrinas, privação energética, estresse psicológico e perda do reforço social associado à competição.

Os sintomas mais freqüentemente relatados incluem humor deprimido, anedonia, irritabilidade, fadiga mental, distúrbios do sono e redução da motivação. Em casos mais graves, podem surgir sentimentos de inutilidade, desesperança e ideação negativa, exigindo intervenção clínica especializada.

Importante ressaltar que o Pós Competition Blues não deve ser automaticamente equiparado a um transtorno depressivo maior. No entanto, a sobreposição sintomatológica reforça a necessidade de avaliação criteriosa, especialmente em atletas com histórico prévio de transtornos do humor.

10.4. Comparação com Outros Esportes de Alto Rendimento

Embora o Pós Competition Blues seja particularmente marcante no fisiculturismo, fenômenos semelhantes são descritos em atletas de outros esportes de alto rendimento, como ginástica artística, balé clássico, esportes de combate e endurance extremo. Em todos esses contextos, observa-se a coexistência de elevada exigência física, controle rigoroso do peso corporal e forte componente associado ao desempenho.

No entanto, no fisiculturismo, a centralidade da estética corporal e a extrema manipulação da composição corporal tornam o impacto psicológico pós-competitivo especialmente intenso, pois diferentemente de esportes baseados exclusivamente em performance funcional, o fisiculturista enfrenta a perda rápida de um estado físico considerado socialmente idealizado, o que intensifica o sofrimento psíquico.

10.5. Impacto Psicossocial e Relações Interpessoais

O período pós-competitivo também é marcado por alterações nas relações interpessoais do atleta, pois durante a preparação, se torna comum o afastamento social em função das demandas do treinamento e da dieta. Após a competição, o retorno ao convívio social pode ser acompanhado de sentimentos ambivalentes, incluindo ansiedade social, vergonha corporal e dificuldade de reintegração. Além disso, a redução da atenção e do reconhecimento recebidos durante a fase competitiva pode gerar sensação de invisibilidade social, especialmente em atletas que baseiam grande parte de sua auto-estima no reconhecimento externo. Esse contexto psicossocial desfavorável contribui para a manutenção dos sintomas emocionais do Pós Competition Blues.

11. INTERAÇÃO ENTRE FATORES PSICOLÓGICOS E FISIOLÓGICOS

Os aspectos psicológicos e psicossociais do Pós Competition Blues não atuam de forma isolada, mas interagem continuamente com as alterações fisiológicas e endócrinas descritas anteriormente. A queda de Testosterona, a disfunção tireoidiana funcional e a persistência da hiperatividade do eixo HHA modulam negativamente o humor, a cognição e a capacidade de enfrentamento do estresse.

Essa interação bidirecional reforça a natureza sistêmica do fenômeno, exigindo abordagem clínica integrada que considere simultaneamente corpo e mente. A negligência dos aspectos psicológicos pode comprometer significativamente a recuperação global do atleta e aumentar o risco de recorrência do quadro em ciclos competitivos subsequentes.

12. ESTRATÉGIAS CLÍNICAS DE PREVENÇÃO E MANEJO DO PÓS COMPETITION BLUES

O manejo adequado do Pós Competition Blues no fisiculturismo exige abordagem multiprofissional, integrada e individualizada, reconhecendo a natureza sistêmica do fenômeno. Desse modo, estratégias isoladas tendem a ser insuficientes, uma vez que as manifestações clínicas decorrem da interação entre disfunções fisiológicas, endócrinas, psicológicas e psicossociais, sendo que a prevenção, quando possível, deve ser priorizada desde o planejamento da preparação competitiva, estendendo-se ao período pós-competição de forma estruturada.

12.1. Planejamento do Pós-competição e Recuperação Metabólica Progressiva

O planejamento do período pós-competitivo constitui elemento fundamental na prevenção do Pós Competition Blues, pois a transição abrupta de um estado de restrição calórica extrema para ingestão alimentar irrestrita favorece não apenas o ganho acelerado de gordura corporal, mas também a intensificação das alterações hormonais e do sofrimento psicológico.

A recuperação metabólica progressiva, freqüentemente denominada Reverse Dieting, visa restaurar gradualmente a disponibilidade energética, permitindo a normalização do eixo Hipotálamo-Hipófise-Gonadal (HHG), do eixo tireoidiano e dos hormônios reguladores do apetite. Essa estratégia reduz a resistência à Leptina, atenua episódios de hiperfagia e contribui para maior estabilidade emocional no pós-competição.

12.2. Ajustes no Treinamento e Redução do Estresse Fisiológico

A manutenção de volumes e intensidades de treinamento excessivo no período pós-competitivo prolonga a ativação do eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HHA), dificultando a recuperação hormonal. Nesse caso, a periodização adequada do treinamento, com redução estratégica da carga e inclusão de fases regenerativas, é fundamental para a restauração do equilíbrio fisiológico.

O foco do treinamento deve ser temporariamente redirecionado da estética para a funcionalidade, saúde articular e recuperação neuromuscular. Essa mudança de perspectiva contribui não apenas para a recuperação física, mas também para a reconstrução da relação do atleta com o exercício, reduzindo a rigidez comportamental freqüentemente observada no Pós Competition Blues.

12.3. Abordagem Médica Endócrina

O acompanhamento médico especializado é essencial, especialmente em atletas que apresentam sintomas persistentes ou intensos. A avaliação laboratorial pode incluir parâmetros hormonais como Testosterona total e livre, LH, FSH, cortisol, TSH, T3, T4, Leptina e marcadores metabólicos gerais.

Importante ressaltar que, na maioria dos casos, as alterações observadas refletem adaptações fisiológicas reversíveis à restrição energética e ao estresse, não configurando endocrinopatias primárias. Assim, intervenções farmacológicas devem ser consideradas com cautela, priorizando estratégias não medicamentosas e respeitando os princípios éticos e de segurança clínica.

12.4. Intervenção Psicológica e Psicoterapia

A intervenção psicológica desempenha papel importante no manejo do Pós Competition Blues, especialmente em atletas com forte associação identitária ao corpo e à performance estética. A psicoterapia com a abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem demonstrado eficácia na abordagem de distorções da imagem corporal, rigidez cognitiva e comportamentos alimentares disfuncionais.

Além disso, o suporte psicológico auxilia o atleta a ressignificar a experiência competitiva, compreender a transitoriedade do pico físico e desenvolver estratégias de enfrentamento mais adaptativas para ciclos competitivos futuros. A normalização das emoções vivenciadas no pós-competição reduz a autocrítica excessiva e o sentimento de inadequação freqüentemente relatados.

12.5. Aspectos Éticos e Responsabilidade Profissional

A condução ética do acompanhamento de fisiculturistas exige que profissionais de saúde reconheçam os limites fisiológicos do organismo humano e priorizem a saúde global do atleta. A banalização de estratégias extremas, sem planejamento adequado do pós-competição, contribui para a perpetuação do Pós Competition Blues e para danos físicos e psicológicos cumulativos.

É responsabilidade ética dos profissionais envolvidos orientar o atleta de forma clara e baseada em evidências, evitando promessas irreais e práticas potencialmente prejudiciais, pois o respeito ao princípio da beneficência deve nortear todas as intervenções clínicas no contexto do fisiculturismo competitivo.

13. CONCLUSÃO

O fenômeno Pós Competition Blues no fisiculturismo representa uma condição complexa, multifatorial e freqüentemente subestimada, resultante da interação entre estresse fisiológico extremo, disfunções endócrinas, alterações neuroquímicas e fatores psicológicos e psicossociais. Longe de ser um evento meramente emocional ou transitório, trata-se de um estado clínico que pode comprometer significativamente a saúde e o bem-estar do atleta.

A compreensão aprofundada de seus mecanismos fisiopatológicos é essencial para o desenvolvimento de estratégias eficazes de prevenção e manejo, sendo que a adoção de abordagem integrada, envolvendo planejamento nutricional, ajuste do treinamento, acompanhamento médico e suporte psicológico, mostra-se fundamental para minimizar os impactos do Pós Competition Blues e promover recuperação sustentável.

Reconhecer esse fenômeno como parte inerente do fisiculturismo competitivo permite não apenas melhorar a assistência aos atletas, mas também contribuir para a evolução ética e científica da Medicina do Esporte aplicada a modalidades estéticas.

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1 Doutor em Medicina (MD). Mestre em Medicina e Cirurgia (MSc). Doutor em Medicina e Cirurgia (PhD). Pós-doutor em Medicina e Cirurgia (Post-doc). Pós graduado em Medicina Interna, Endocrinologia, Medicina do Esporte, Fisiologia Médica Geral, Fisiologia do Exercício, Nutrologia e Farmacologia Clínica. E-mail: [email protected]