O EMPREGO DO VOCATIVO NO PORTUGUÊS ESCRITO EM ANGOLA – PROPOSTA DE ABORDAGEM NA AULA DE PORTUGUÊS

THE USE OF VOCATIVE IN WRITTEN PORTUGUESE IN ANGOLA – PROPOSED APPROACH IN THE PORTUGUESE CLASSROOM

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790714993

RESUMO
No presente artigo, discutimos sobre o emprego do vocativo no português escrito em Angola. Recorremos às redes socias, mormente Facebook e WhatsApp, com base para os nossos dados e utilizámos dois métodos: bibliográfico e ao corpus online. Mais adiante, neste artigo, apresentámos uma sequência didáctica que pode servir de base para trabalho numa aula de português, que tem como foco o ensino do vocativo.
Palavras-chave: Vocativo; Português escrito em Angola; aula de português.

ABSTRACT
This article discusses the use of the vocative in Portuguese written in Angola. We used social media, specifically Facebook and WhatsApp, as the basis for our data and employed two methods: bibliographical and online corpus. During the discussion, in this article, we also presented a teaching sequence that can serve as a basis for work in a Portuguese class focused on teaching the vocative.
Keywords: Vocative; Portuguese written in Angola; Portuguese class.

INTRODUÇÃO

O presente artigo científico visa discutir e apresentar propostas para o ensino do vocativo no português escrito em Angola. A partir de muitos textos escritos em diversos meios e suportes por parte dos cidadãos angolanos consegue-se ver ou perceber como é que a população angolana concebe o vocativo. E, curiosamente, grande parte dos textos escritos tem estado a mostrar que, independentemente do nível académico, grande parte da população angolana não conhece ou não consegue usar adequadamente o vocativo. Por isso, levantamos as seguintes questões: Por que razão e apesar de a maior parte da população aprender nas aulas de português sobre o vocativo, tem dificuldade de o empregar na escrita? Que abordagens podemos adoptar numa aula de língua portuguesa, para que o vocativo não se torne apenas um conteúdo de sala de aula? Que objectivos pode o professor de português definir para uma aula sobre o ensino do vocativo? Essas questões servirão de base para discussão em torno deste artigo e permitir-nos-ão que, não só apontemos as opções mais adequadas possíveis, mas que tornemos o ensino do vocativo num conteúdo que traga prazer a quem o aprende e que dê a este o prazer e motivos para empregar o vocativo na sua escrita quotidiana adequadamente.

REVISÃO DE LITERATURA

A maior parte da literatura científica quando fala do vocativo, apresenta-o mais numa perspectiva sintáctica e é nessa condição que grande parte dos professores ensina aos estudantes/alunos. Vejamos o que foi e tem sido escrito sobre o vocativo.

O vocativo é a função sintáctica exercida por um nome numa frase ou oração. Por isso, quando os nomes são usados na função vocativa, servem para o “falante se dirigir ao ouvinte, para chamar por ele, atrair a sua atenção, avisá-lo de uma determinada situação” e “é, obrigatoriamente, separado por vírgula dos restantes constituintes da frase”, isto é, é um termo da frase, mas que não mantem relação subordinativa com outros elementos da frase: sujeito e predicado, por exemplo. E, também é separado, por exemplo, da saudação. (Com ou sem vírgula?, 2012; Raposo, 2013; Tavares, 2016; Dias e Zattar, 2017; Neves, 2019; Neves, 2020).

Groso modo, como podemos ler nos autores citados acima, o vocativo não tem um lugar fixo no texto. Esse elemento, isolado dos restantes constituintes da frase, pode aparecer ao início, ao meio e/ou ao fim da frase.

Vejamos os exemplos extraídos dos textos dos autores que convocamos para este artigo.

Nesses exemplos, os nomes com a função de vocativo grafamo-los a itálico:

  1. a) (Ó) Maria, chega aqui.

  2. b) (Ó) Clara, o pai já te disse que não voltasses a fazer isso.

  3. c) O pai, Clara, já te disse que não voltasses a fazer isso.

  4. d) O pai já te disse que não voltasses a fazer isso, Clara. (fonte: Raposo, 2013)

A seguir, apresentamos outros exemplos que vão ao encontro dos de cima:

  1. a) João, gostei muito de te ouvir cantar.

  2. b) Ó pai, já encontrei as chaves do carro!

  3. c) Que pensas da vida, rapariga?

  4. d) E agora, minha filha, vais ter de cantar. (Com ou sem vírgula? 2012)

  5. e) João, anda cá!

  6. f) Anda para casa, filha, que já é tarde. (Neves, 2020)

  7. g) Olá, Joana!

  8. h) Dr. Júlio, boa tarde. (Tavares, 2016)

Porém, tudo que apresentamos até aqui é no âmbito escrito e, como conhecemos, o vocativo tem a sua maior presença na oralidade. Sabemos que a oralidade e a escrita são domínios diferentes, mas ambos envolvem preparação.

TEXTO ORAL VS TEXTO ESCRITO

De acordo com a literatura especializada, pode haver uma relação de complementaridade entre o texto oral e o escrito. Por exemplo, falando sobre a passagem da oralidade para a escrita, Mendes afirma que “O texto transcrito ortograficamente é um artifício que confere ao discurso oral a consistência necessária à observação e à análise de fenómenos diversos, de que se destacam os lexicais, os morfossintáticos e os sintáticos” (2013, p. 1752). Destacamos aqui a rigorosidade do texto escrito em comparação com o texto oral, para essa autora. A razão de apontarmos para esse factor tem a ver com o facto de o vocativo ser primeiramente uma característica da oralidade.

Normalmente, quando interagimos com o outro oralmente, chamamos a sua atenção, várias vezes, fazendo recurso ao seu nome; esse processo é transposto para a escrita. No entanto, podemos perceber que, na escrita, sobretudo no português de Angola, grande parte da população tem dificuldades relativas à essa característica da oralidade nos seus textos escritos.

Estamos em crer que isso se deve, na maior parte das vezes, pelo facto de não se conjugar, aquando do ensino do vocativo, os aspectos da oralidade com os aspectos da escrita. Primeiramente, é importante que levemos em conta que a oralidade tem de ser ensinada, pois “a oralidade, enquanto conteúdo de ensino e domínio da aprendizagem, compreendendo as competências de compreensão do oral e de expressão oral, deve ser levada à sério no ensino do português (o itálico é nosso)” (Viegas et al, 2015, p. 24).

Para os autores (2015) que convocamos nesta parte da nossa investigação, dãonos a entender que a

“didática da oralidade começa a ser abordada de forma sistematizada e os professores, na realidade deles, reservam algum tempo da sua atividade letiva para a consecução de atividades sobre o oral. Contudo, a escola, que avalia internamente os alunos e os prepara para a avaliação externa, continua a funcionar numa perspetiva grafocêntrica, apelando ao treino das capacidades de leitura e escrita e aos exercícios materializados em produtos escritos, e o texto, enquanto objeto principal de trabalho na aula de língua, obedece a classificações tradicionais que tomam em consideração, sobretudo, o texto escrito” (pp.24-25).

Olhando para o que acabámos citar, desatacamos que, apesar de estarmos a falar do emprego do vocativo no português escrito em Angola, é importante que olhemos para a oralidade, pois o vocativo é um assunto muito evidente na oralidade e quase imperceptível na escrita por culpa da separação na sala de aulas dessas duas realidades. É verdade que é uma questão sintáctica, mas sabemos que a sintaxe não é apenas um assunto ligado ao texto escrito; está também presente no texto oral.

Dado já termos abordado o que diz a literatura especializada sobre o vocativo e o seu emprego no texto escrito, passamos a apresentar a seguir o método que utilizamos para a escrita deste artigo.

MÉTODO

Para escrevermos este artigo, recorremos essencialmente a dois métodos, a saber: método bibliográfico e levantamento de textos escritos em corpus online. Servimo-nos, em primeiro lugar, do método bibliográfico, porque era muito importante que soubéssemos até que ponto já se escreveu sobre o emprego do vocativo na escrita em Angola e não só e como os textos já existentes sobre o emprego do vocativo na literatura especializada iriam enriquecer o nosso artigo.

Em segundo lugar, fizemos o uso de textos escritos em corpus online, por entendemos que: (1) estando o ano académico 2024/2025 no seu fim, não conseguiríamos muita colaboração por parte da população para o suporte da nossa investigação; (2) que quase todos, senão todos, estão online nos tempos que correm e, nas redes sociais (Facebook e WhatsApp), muitos interagem e manifestam, até certo ponto, a sua cultura académica, pelo que concluímos que muitos textos escritos nessas e noutras redes sociais acabam sendo um reflexo de como as pessoas/os indivíduos empregam o vocativo nos textos e escritos; entendemos, igualmente, que estes textos podem ser o efeito da concepção dos indivíduos na sociedade angolana sobre o emprego do vocativo na escrita.

Esses textos também deixam um “ponta solta” sobre a influência que o ensino do vocativo tem na escrita da população angolana.

Vejamos a seguir os resultados da nossa pesquisa:

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Sendo o vocativo uma parte adicionada à sentença com vista a invocar a atenção do interlocutor, apresenta distintas posições às quais podemos designar por possíveis posições de ocorrência do vocativo na oração.

É possível constatar que a realização do vocativo, na escrita e na fala do quotidiano angolano, obedece a três possíveis posições que, de um modo geral, correspondem à sua posição consagrada e estudada pelos gramáticos, a saber [(Voc + Or), (Or + Voc + Or) e (Or + Voc)].

Para este estudo, procedemos ao levantamento a partir das redes sociais (Facebook e WhatsApp) de uma soma de 120 orações, das quais analisamos as ocorrências do vocativo.

Nesta conformidade, com a realização da análise quantitativa, foi possível não somente a descrição das ocorrências levantadas no corpus – a variável dependente –, como também o estabelecimento de um conjunto de factores que condicionam as formas de realização do vocativo na frase – as variáveis independentes.

As orações produzidas nas redes sociais pelos cidadãos angolanos, às quais tivemos contacto, constatamos uma preferência para o uso da variação “Or + Voc” em relação às outras do corpus, como podemos observar no quadro seguinte:

Gráfico 1. Fonte: Corpus Online - Demonstrando a preferência da realização do vocativo nos escritos angolanos

O quadro mostra-nos que nos escritos angolanos, nas redes sociais, considera-se preferível, de longe, a realização do vocativo pela construção “Or + Voc”. Facto que pode dever-se ao seguinte: as pessoas naturalmente começam os seus discursos, quer sejam escritos e/ou orais, com um desejo, agradecimento, saudação e expressão de apreço, seguem-se os exemplos:

  1. a) Feliz Aniversário, amigo;

  2. b) Obrigado por me escolher, professor;

  3. c) Boa tarde, chefe;

  4. d) Estás muito linda, Carolina;

  5. e) Que tal um sumo, amor;

Sem desprezo às demais variações da posição do vocativo, o nosso corpus online indicou que a construção “Or + Voc” ocorre com maior frequência no quotidiano.

As três possíveis posições que o vocativo toma no âmbito da sua realização, não podem ser efectuadas sem a utilização do sinal de pontuação “a vírgula”, este facto ocorreu inúmeras vezes no levantamento dos dados a partir das redes sociais.

Quanto à utilização da vírgula

Outro dado relevante é a questão da utilização da vírgula: o sinal de pontuação indispensável na realização do vocativo.

Ao longo do levantamento aleatório do corpus online, notámos algumas divergências quanto à utilização da vírgula que serve para separar o vocativo. Por um lado, um número bastante significativo de orações em que não se separou o vocativo pela ausência da vírgula, por outro lado, um número muito reduzido de orações com o uso adequado da vírgula.

Gráfico 2. Fonte: Corpus online - Demonstrando, em percentagem, o uso adequado e inadequado da vírgula

A utilização inadequada e/ou a não utilização da vírgula está associada a um conjunto de factores, passamos a citar apenas dois: (1) o ensino descontextualizado sobre o emprego da vírgula – é imprescindível que se ensinem os elementos da gramática com recurso aos textos, deste modo, os alunos serão capazes de compreender o valor do vocativo. O ensino, sem recurso aos textos, promove a decoração de frases, inibe a reflexão e, por fim, provoca desinteresse pelas aprendizagens; (2) o desconhecimento das regras sobre o uso da vírgula para separar o vocativo é também um factor que deve despertar preocupação no seio dos professores de português, pois a vírgula é um elemento que, quando não muito bem abordado em sala de aulas, dificilmente os alunos poderão dominar, por ser um assunto que o quotidiano não explora com muita frequência.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A nossa pesquisa pôde ilustrar-nos de que há muitas dificuldades no emprego do vocativo no português escrito em Angola. É verdade que esta pesquisa tem como base um corpus online, mormente em textos encontrados no Facebook e no WhatsApp, mas cremos que este factor não desprestigia a seriedade da nossa pesquisa, por um lado. Por outro lado, nós sabemos que todos nós, nos tempos que correm, recorremos às redes sociais para partilha de informação e a manutenção das nossas relações e, ao escrevermos nessas redes sociais, refletimos aquilo que a escola nos tem ensinado. Entendemos que haja quem possa argumentar que as redes sociais não refletem textos escritos de forma pensada, mas nós discordamos disso, pois entendemos que as nossas acções são sempre um reflexo do que nós somos como indivíduos e como sociedade.

Sim, a nossa pesquisa, com base nos dados e nas reflexões que nós produzimos, mostrou que há um grande défice no emprego do vocativo no português escrito em Angola; isso é um reflexo da banalização que as nossas escolas atribuem a esse assunto de suma importância. Daí que, é necessário que, como professores de Língua Portuguesa, encontremos métodos mais adequados para o ensino do vocativo. Para tal, nós propomos a sequência didáctica abaixo que traz uma série de directrizes que podem ajudar a fazer do ensino do vocativo um ensino reflexivo, e não mnemotécnico.

Por outro lado, temos a humildade de reconhecer que a nossa visão não é a única que possa ser seguida. Esta é apenas uma proposta de muitas que possam surgir a fim de tornar o ensino do vocativo num ensino não apenas de sala de aulas, mas venha repercutir na sociedade.

PROPOSTA DE SEQUÊNCIA DIDÁCTICA PARA ABORDAGEM DO VOCATIVO NA AULA DE PORTUGUÊS

É indiscutível o ensino do vocativo a reboque de textos, isto é, através dos géneros textuais que passamos a propor: relato de viagem, histórias em quadrinhos. Nesta sequência didáctica, fazemos o tratamento da aula sobre o vocativo com recurso ao género textual: CONTO

  • Género textual: Conto popular

Data: 9 de Julho de 2025

Hora: 12h00 às 13h30 (90 minutos)

Disciplina: Língua Portuguesa

Classe: 11.ª Classe

Professores: Edmundo Diosdado Gabriel Bety e Sedeur Garcia Paulino

Lições n. os: 23 e 24

ENQUADRAMENTO CURRICULAR

Domínio: Género textual conto

Caracterização do género; Leitura e interpretação

Objectivo geral: 

  • Compreender e identificar as principais características do género textual conto;

Objectivos pedagógico-didácticos:

  • Analisar o uso do vocativo na prática e o seu reflexo na escrita;

  • Compreender a necessidade de separação do vocativo para coesão e coerência textuais;

  • Produzir reescrita do conto com foco no vocativo;
  • Interpretar o texto produzido com vista a destacar os mecanismos de coesão e coerência;
  • Enriquecer o léxico dos alunos.

CONCEITOS-CHAVE/

CONTEÚDOS

APRENDIZAGENS ESPERADAS/ DESCRITORES DE

DESEMPENHO

Vocativo

Caracterização do vocativo

Caracterização do vocativo

  • Não exerce função sintáctica na oração;

  • Serve para chamar a atenção do interlocutor;

  • Deve ser isolado por vírgulas;

  • Muitas vezes, acompanhado de expressões afectivas e/ou autoridade;

  • Pode ser um nome próprio;

  • Pode ser um título ou função;

  • Pode ser uma expressão informal.

METODOLOGIA - ESTRATÉGIAS

RECURSOS EDUCATIVOS

➢ Aula expositiva, dialógica e prática

Etapa 1 – 1 sessão

  • Valorizar e simular o diálogo do dia-a-dia (Mãe, posso sair? Professor, posso responder?);

  • Orientar aos alunos a produzirem frases que usariam com frequência em casa e na escola;

  • Utilizar textos literários com bastante diálogo (ex.: João e Maria, A Cigarra e a Formiga);

  • Apresentar o conto com título “A Princesa e o Sapo”;

  • Consultar o dicionário das palavras invulgares contidos no conto com o fim de enriquecer o léxico;

  • Orientar os alunos que escrevam, individualmente, um texto de 5 linhas que ilustre a compreensão do texto lido.

 

Etapa 2 – 2 sessão

  • Dramatizar (os alunos encenam diálogos curtos com vocativos);

  • Incentivar os alunos a criarem frases com vocativo em tom de apelo, carinho ou autoridade (ex.: querido colega, partilhe a borracha);

  • Corrigir colaborativamente (distribuir frases sem a utilização da vírgula e orientar que os alunos o façam).

Quadro; Computador; Projector;  Conto “A Princesa e o Sapo”

ACTIVIDADES

  • Levantamento dos conhecimentos prévios dos alunos sobre o género textual conto;

 
  • Explicitação do género textual conto.
  • Leitura compartilhada em voz alta do género textual conto “A Princesa e o Sapo”

  • Produção do género textual conto efectuada em grupo a partir do conto.

Sessão 1 – Actividade 1

  • Extracção dos nomes ou substantivos para ilustração do vocativo;
  • Agrupamento dos elementos adstricto ao conceito do vocativo.

Sessão 2 – Actividade 2

SUMÁRIO

TRABALHO DE CASA

  • Identificação e análise do género textual conto.
  • O vocativo.
  • Exercícios de aplicação.
  • Reescreve dois textos com foco no vocativo;

  • Refira-se sobre a lição de moral presente no conto.

CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO

  • Sequência lógica dos argumentos constantes da produção textual conto;
  • Construção sintáctica das frases;
  • Avaliação formativa;
  • Avaliação sumativa

REFERÊNCIA

  • Madi, Sônia. (2013). Sequência didática: por que trilhar o caminho proposto. Ensinar a língua escrita aproximando-se de situações reais de comunicação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Dias, L. F & Zattar, N. (2017). O funcionamento do vocativo: uma abordagem da enunciação

Madi, Sônia. (2013). Sequência didática: por que trilhar o caminho proposto. Ensinar a língua escrita aproximando-se de situações reais de comunicação.

Mendes, A. (2013). Organização textual e articulação de orações. In E. B. P. Raposo (Ed.), Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian.

Neves, M. (2019). Gramática para todos - o português na ponta da língua.

Neves, M. (2020). Pontuação em Português - guia prático para escrever melhor. Guerra & paz.

Porto Editora (2012). Com ou sem vírgula? Tudo o que é preciso saber sobre o uso da vírgula

Tavares, S. D. (2016). Falar Bem, Escrever Melhor. A esfera dos livros.

Viegas, F., Aido, J. P., Redes, J. P., de Sousa, M. V., & Reis, S. (2015). Texto, gramática e ensino do Português. Associação de Professores de Português.


ANEXOS

Anexo 1. Levantamento de corpus online: https://drive.google.com/file/d/10T7qcBweIvTw9MKfi43aTaeFr4J-p6sP/view?usp=drive_link

A Princesa e o Sapo (atribuído aos irmãos Grimm)

Era uma vez, uma linda princesa que vivia num castelo com o seu pai, o rei.

— Princesa, cuidado com essa bola! — disse a aia, vendo-a correr perto do poço.

— Não se preocupe, ama, eu sou cuidadosa! — respondeu a princesa.

De repente, a bola de ouro caiu no poço. A princesa sentou-se à beira e começou a chorar.

— Princesa, por que choras? — perguntou uma voz.

Era um sapo!

— Ah, sapo, perdi minha bola no fundo do poço!

— Minha princesa, se eu te ajudar, prometes ser minha amiga?

— Sim, sapo, prometo o que quiseres!

O sapo mergulhou e voltou com a bola. A princesa pegou a bola e correu.

— Princesa, espera! — gritou o sapo, mas ela já tinha ido embora.

Naquela noite, durante o jantar, ouviram um bater à porta.

— Minha filha, alguém te chama — disse o rei.

— Quem é, pai?

— Um sapo, princesa. Ele diz que fizeste uma promessa.

— Mas, pai, é só um sapo!

— Filha, promessas devem ser cumpridas — disse o rei, sério.

Então, o sapo entrou, jantou com ela e pediu para dormir no seu quarto. — Princesa, deixas-me dormir contigo?

— Não, sapo, isso é nojento!

— Por favor, minha amiga, é só por esta noite.

Com nojo, a princesa deixou o sapo dormir num canto do quarto. Na manhã seguinte...

— Princesa, acorda! — disse uma voz diferente.

Ao abrir os olhos, viu um belo príncipe diante de si.

— Quem és tu, rapaz?

— Minha princesa, eu era o sapo! Fui enfeitiçado e só uma promessa sincera poderia me libertar.

Surpresa, a princesa sorriu.

— Então, meu príncipe, acho que estamos quites.

E assim, a princesa e o príncipe tornaram-se grandes amigos e, mais tarde, casaram-se. E viveram felizes para sempre.

A Cigarra e a Formiga (atribuído a Esopo)

Num lindo verão, a cigarra cantava alegremente debaixo do sol.

— Amiga formiga, vem cantar comigo! — disse a cigarra.

— Cigarra, não posso! Tenho de guardar comida para o inverno — respondeu a formiga, apressada.

— Mas, formiguinha, ainda falta tanto tempo...

— Cigarra, o tempo passa depressa. Trabalha também!

A formiga seguiu seu caminho, carregando folhas. Enquanto isso, a cigarra passou os dias a cantar, sem se preocupar.

Chegou o inverno. O vento soprava frio e a neve cobria o chão. A cigarra, encolhida de fome e frio, foi bater à porta da formiga.

— Formiga, abre a porta, por favor!

— Quem bate? — perguntou a formiga lá de dentro.

— Sou eu, cigarra! Estou com frio e sem comida.

— Cigarra, o que fizeste durante o verão?

— Eu cantei, formiguinha, cantei todos os dias...

— Pois então, canta agora, minha amiga, que eu vou trabalhar.

E assim, a formiga fechou a porta. A cigarra aprendeu que há tempo para cantar e tempo para trabalhar.

Moral da história:

— Criança, lembra-te: quem não trabalha quando pode, sofre quando precisa.

---— João, estamos perdidos! — chorou Maria.

— Não tenhas medo, Maria, vamos encontrar abrigo.

Depois de muito andar, viram uma casinha feita de doces.

— João, olha que maravilha!

— Vamos comer um pouco, Maria!

De repente, uma velha apareceu:

— Crianças, entrem! Tenho mais comida aqui dentro…

Era uma bruxa! Prendeu João numa gaiola e obrigou Maria a trabalhar.

— Maria, dá-me comida! Quero o João bem gordinho! — dizia a bruxa.

— João, aguenta firme! Eu vou pensar em algo — sussurrou Maria.

No dia marcado para a bruxa o comer, Maria teve uma ideia:

— Bruxa, olha! O forno está apagado. Coloca lenha ali dentro!

— Sai da frente, menina tola, eu mesma vou ver!

Quando a bruxa se aproximou, Maria empurrou-a para dentro e fechou a porta.

— João, estou aqui! És livre! — gritou Maria.

— Obrigado, irmãzinha! Vamos embora!

Levaram ouro da casa da bruxa e conseguiram encontrar o caminho de volta.

— Pai, voltamos!

— João, Maria, nunca mais vos deixarei! — disse o pai, emocionado.

E viveram felizes, sem fome e sem madrasta.

O Velho, o Rapaz e o Burro (adaptado por Jean de La Frontaine)

Um dia, um velho e o seu neto iam ao mercado com um burro.

— Vovô, vamos os dois a pé? — perguntou o rapaz.

— Sim, meu neto, o burro precisa descansar um pouco.

Logo passaram por uns camponeses que gritaram:

— Velho tolo, põe o menino no burro!

— Suba, rapazinho, suba logo — disse o avô, obedecendo ao povo.

Mais adiante, ouviram outras pessoas:

— Menino preguiçoso! O velho anda e ele vai montado!

— Desça já, João, agora eu é que vou montar — disse o avô, cansado.

Caminharam mais, e outro grupo comentou:

— Gente cruel! O burro carrega um idoso! Que injustiça!

— Vamos os dois montar, vovô! — sugeriu o neto.

— Suba, meu filho, mas só até a ponte.

Chegando à ponte, ouviram gritos mais fortes:

— Assassinos! Querem matar o burro de cansaço!

— Ai, meu neto, quer saber? Vamos carregar o burro! — disse o velho, irritado.

Amarraram as patas do animal e o penduraram num pau. Ao atravessar a ponte, o burro se assustou com os gritos das pessoas:

— Loucura! Estão carregando o burro!

O burro se debateu, caiu no rio e afogou-se.

— Ai, vovô, perdemos tudo! — lamentou o neto.

— João, aprendemos uma lição: quem tenta agradar a todos, perde o burro... e a razão!

João e Maria (atribuído aos irmãos Grimm)

Era uma vez dois irmãos muito pobres chamados João e Maria. Viviam com o pai, um lenhador bondoso, e a madrasta, uma mulher muito má.

— João, Maria, vão dormir. Amanhã iremos à floresta apanhar lenha — disse o pai.

— Papai, estamos com fome… — respondeu Maria.

— Aguentem um pouco, meus filhos, amanhã dou um jeito.

Naquela noite, a madrasta cochichou com o pai:

— Homem, leva essas crianças para o mato e deixa-as lá! Não temos mais o que dar de comer!

João, ouvindo tudo, disse:

— Maria, escuta! Vamos apanhar pedrinhas para marcar o caminho de volta!

De manhã:

— João, Maria, venham! Vamos sair para a floresta — chamou o pai.

Enquanto andavam, João ia deixando cair pedrinhas.

Mais tarde, quando foram deixados sozinhos…

— Maria, não chores! As pedras vão nos guiar de volta — disse João.

— Que bom, João! Vamos seguir!

Conseguiram voltar para casa. Mas dias depois, a madrasta convenceu o pai novamente.

Dessa vez, João não encontrou pedras. Levou apenas migalhas de pão.

— Maria, deixarei pão pelo caminho!

— Esperta ideia, irmão!

Mas os pássaros comeram as migalhas…

— João, estamos perdidos! — chorou Maria.

— Não tenhas medo, Maria, vamos encontrar abrigo.

Depois de muito andar, viram uma casinha feita de doces.

— João, olha que maravilha!

— Vamos comer um pouco, Maria!

De repente, uma velha apareceu:

— Crianças, entrem! Tenho mais comida aqui dentro…

Era uma bruxa! Prendeu João numa gaiola e obrigou Maria a trabalhar.

— Maria, dá-me comida! Quero o João bem gordinho! — dizia a bruxa.

— João, aguenta firme! Eu vou pensar em algo — sussurrou Maria.

No dia marcado para a bruxa o comer, Maria teve uma ideia:

— Bruxa, olha! O forno está apagado. Coloca lenha ali dentro!

— Sai da frente, menina tola, eu mesma vou ver!

Quando a bruxa se aproximou, Maria empurrou-a para dentro e fechou a porta.

— João, estou aqui! És livre! — gritou Maria.

— Obrigado, irmãzinha! Vamos embora!

Levaram ouro da casa da bruxa e conseguiram encontrar o caminho de volta.

— Pai, voltamos!

— João, Maria, nunca mais vos deixarei!

— disse o pai, emocionado.

E viveram felizes, sem fome e sem madrasta.


1 Mestre em Metodologias de ensino da Língua Portuguesa no Ensino Secundário. E-mail:  [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Mestre em Metodologias de ensino da Língua Portuguesa no Ensino Secundário. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail