REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781320594
RESUMO
Este trabalho visa apresentar um percurso em que corpo feminino, literatura e saúde mental se cruzam como modos de escuta e construção da existência. A partir da escrita de Clarice Lispector, o estudo propõe um olhar sensível sobre o feminino e suas experiências, compreendendo o corpo como lugar de afetos, prazer, limites e sofrimento. Em suas obras, o corpo se manifesta como lugar de expressão e conflito, onde o mal-estar psíquico e social se faz palavra, gesto e silêncio. A escrita de Clarice ao revelar as camadas da experiência feminina, cria um espaço de reflexão sobre o ser-mulher e seus modos de estar no mundo. Assim, este trabalho se orienta pela busca de compreender como a literatura pode operar como campo de escuta e elaboração do sofrimento, abrindo caminhos de cuidado e criação para pensar o corpo e a saúde mental na contemporaneidade.
Palavras-chave: Corpo feminino; Literatura; Clarice Lispector; Experiência; Saúde mental.
ABSTRACT
This work aims to present a journey in which the female body, literature, and mental health intersect as modes of listening and constructing existence. Drawing from the writings of Clarice Lispector, the study proposes a sensitive perspective on the feminine and its experiences, understanding the body as a place of affections, pleasure, limits, and suffering. In her works, the body emerges as a site of expression and conflict, where psychological and social distress take shape through words, gestures, and silence. Clarice’s writing, by unveiling the layers of female experience, creates a space for reflection on womanhood and its ways of being in the world. Thus, this research seeks to understand how literature can function as a field for listening to and elaborating suffering, opening paths of care and creation to rethink the body and mental health in contemporary times.
Keywords: Female body; Literature; Clarice Lispector; Experience; Mental health.
1. INTRODUÇÃO
Clarice Lispector é uma grande referência da literatura feminina no Brasil, ao revelar, com sensibilidade e profundidade, as complexidades associadas à condição de ser mulher em um ambiente social e histórico repleto de desigualdades de gênero. Desde o século XX, suas obras têm dado voz às angústias, contradições e anseios das mulheres. O corpo feminino em suas narrativas manifesta o sofrimento, o desejo e a resistência.
No decorrer dos anos, a construção social do corpo feminino foi atravessada por discursos de controle e submissão. Como observa Simone de Beauvoir (1949), a mulher tem sido concebida como "o outro" em relação ao homem, com sua subjetividade reduzida a uma condição de diferença e dependência. Essa perspectiva se consolidou em estruturas sociais, religiosas e culturais que anularam a autonomia das mulheres e contribuíram para a normalização do sofrimento psíquico feminino.
No Brasil, essas dinâmicas de dominação têm um impacto direto na saúde mental, dado que os corpos e mentes femininas foram moldados por papéis sociais que limitam a expressão subjetiva e a liberdade de ser. Em suas obras, Clarice propõe uma escuta delicada e simbólica do sofrimento feminino, evidenciando o entrelaçamento entre corpo, subjetividade e condição social. A partir de uma perspectiva contemporânea, Junqueira e Scorsolini-Comin (2021) destacam que a literatura pode funcionar como um dispositivo de escuta e de elaboração psíquica, permitindo que as dores e os afetos humanos encontrem representação simbólica. Na mesma direção, Pojar e Scorsolini-Comin (2020) analisam a escrita de Clarice como "um corpo que arde", uma escrita que produz subjetividade, desejo e resistência, rompendo com os modelos normativos e repreensores da modernidade.
A escolha por esse tema surgiu a partir de uma experiência pessoal de leitura: A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, foi o primeiro contato com a autora e despertou reflexões sobre como o contexto social molda a saúde mental e as formas de existir no mundo. Essa vivência possibilitou compreender que as obras de Clarice não se limitam à literatura, mas também refletem a realidade de muitas mulheres que enfrentam o silêncio, a invisibilidade e as imposições sociais.
Refletir sobre o corpo feminino e a saúde mental, portanto, é abordar a possibilidade de existir com dignidade, voz e presença. Diante disso, o presente trabalho propõe uma reflexão sobre a relação entre o corpo feminino e a saúde mental na literatura de Clarice Lispector, analisando como suas personagens expressam o sofrimento e o desejo em contextos marcados por desigualdade social e silenciamento, tendo como corpus literário os contos "Amor", de Laços de Família, e a obra A Hora da Estrela, à luz dos referenciais teóricos de Beauvoir, Wolf, Alvim, Junqueira, Scorsolini-Comin e Pojar.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
Para compreender as interfaces entre corpo feminino, saúde mental e literatura na obra de Clarice Lispector, faz-se necessário discutir os fundamentos conceituais que estruturam essa articulação. Este referencial teórico está organizado em três eixos centrais, que emergem da literatura especializada e dialogam diretamente com as categorias de análise do presente estudo: A construção social do corpo feminino e sua relação com o sofrimento psíquico; A literatura como dispositivo de escuta e elaboração simbólica; E a corporeidade e a saúde mental na perspectiva gestáltica.
3. METODOLOGIA
Neste trabalho a pesquisa desenvolvida é de natureza qualitativa, com caráter bibliográfico e exploratório. O objetivo é compreender como o corpo feminino e a saúde mental são representados na literatura de Clarice Lispector, considerando suas narrativas como espaços simbólicos onde o feminino se constrói, se questiona e resiste.
A opção por uma abordagem qualitativa se justifica pelo interesse em compreender os significados e sentidos simbólicos que surgem nas obras literárias, superando o nível descritivo e alcançando uma leitura interpretativa, uma vez que, como destacam Junqueira e Scorsolini-Comin (2021), a literatura pode funcionar como um dispositivo de escuta e elaboração psíquica, permitindo que as experiências humanas sejam simbolicamente representadas e interpretadas. A leitura das obras de Clarice será orientada por uma escuta atenta aos movimentos internos das personagens e às expressões do sofrimento e da resistência.
O corpus literário é composto por três obras significativas de Clarice Lispector: Laços de Família (1960), com ênfase no conto "Amor"; e A Hora da Estrela (1977). A escolha dessas obras deve-se ao modo como apresentam protagonistas femininas em conflito com a própria existência, com a realidade social e com as imposições simbólicas que as atravessam. Nelas, Clarice revela um olhar sensível sobre as experiências psíquicas das mulheres e sobre os modos como o corpo se torna um campo de tensão, expressão e autoconhecimento.
As principais categorias de análise que orientarão o estudo envolvem três eixos centrais. O primeiro refere-se ao corpo feminino como território simbólico e de resistência, compreendido como espaço onde se expressam tanto as imposições sociais (Beauvoir, 1960; Wolf, 1992) quanto os movimentos de emancipação e reconstrução subjetiva. O segundo eixo diz respeito à relação entre corpo, subjetividade e saúde mental, apoiando-se na perspectiva gestáltica de corporeidade (Alvim, 2014) e na ideia de um "corpo que arde" na escrita clariceana (Pojar; Scorsolini-Comin, 2020). Por fim, a terceira categoria diz respeito à escrita de Clarice Lispector como forma de elaboração simbólica e criação de sentido do existir (Junqueira; Scorsolini-Comin, 2021), evidenciando como sua literatura transforma o sofrimento em linguagem, reflexão e potência de resistência. Dessa forma, a metodologia propõe uma leitura simbólica e existencial da obra de Clarice Lispector, entendendo sua escrita como um espaço de escuta e elaboração do sofrimento, em que o corpo feminino se transforma em linguagem e possibilidade de resistência.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
4.1. Reflexões a Partir das Obras de Clarice Lispector
Neste estudo, a literatura de Clarice Lispector surge como um espaço em que a autora reconhece vivências compartilhadas por muitas mulheres. Sua escrita permite olhar para o cotidiano como território onde pequenas rupturas revelam sentimentos, desejos e conflitos que costumam permanecer escondidos sob papéis sociais rigidamente definidos.
Ao se aproximar das personagens das obras de Clarice, é possível encontrar nelas modos distintos de existir e de sentir o mundo, especialmente quando se trata do corpo e da saúde mental. Suas protagonistas apresentam gestos mínimos, silêncios e inquietações que revelam não apenas dramas individuais, mas também processos históricos de silenciamento, domesticação emocional e invisibilidade. Por isso, suas histórias são lidas como formas simbólicas de compreender o feminino, seus limites e suas possibilidades de despertar.
Nesse sentido, as reflexões que seguem buscam iluminar como Clarice Lispector transforma o vivido aquilo que pulsa, que incomoda ou que permanece sem nome, em linguagem. Duas personagens são centrais neste movimento: Ana, do conto “Amor” de Laços de Família e Macabéa, de A Hora da Estrela. Em ambas, é possível perceber como o corpo feminino carrega afetos contraditórios, expectativas sociais e fissuras internas que revelam, de maneiras distintas, suas formas de existir.
A seguir, apresentam-se as anotações e interpretações construídas a partir dessas obras, que, mais do que análises literárias, representam uma leitura sensível sobre o feminino.
4.2. Reflexões Sobre Ana em “Amor” Laços de Família
A protagonista Ana vive dentro de uma rotina completamente organizada, uma mulher casada, mãe de dois filhos, que cuida da casa e da família como se todo o sentido da sua vida estivesse em manter tudo funcionando corretamente. No início, ela se sente segura dentro daquilo que construiu, mas essa segurança se revela também como uma forma de aprisionamento, uma maneira de evitar o confronto com algo mais profundo que parece estar sempre à espera.
A mudança do conto ocorre quando Ana vê um homem cego mascando chicletes. Essa imagem, aparentemente simples, rompe a estabilidade da personagem. É como se ela enxergasse, naquele instante, o absurdo oculto por trás da normalidade da vida. O cego, que mastiga mecanicamente, representa tudo aquilo que Ana tenta reprimir, o instinto, o inconsciente, o que existe sem controle. Ele desperta nela algo que estava adormecido, um mal estar que cresce até se transformar em uma crise existencial.
A partir desse encontro, nada mais parece igual. O mundo, antes previsível, torna-se estranho e ameaçador. Clarice evidencia como uma pequena fissura na rotina pode abrir um abismo dentro da própria existência. Ana experimenta um misto de piedade, medo e desejo, percebendo que sua vida tranquila talvez fosse apenas uma forma de negar o caos que habita dentro dela.
Quando ela chega ao Jardim Botânico, esse espaço se torna profundamente simbólico. O Jardim funciona como uma descida ao inconsciente um ambiente repleto de vida, mas também de decomposição, erotismo e medo. Ana sente sensações que não consegue nomear, oscilando entre repulsa e admiração. É como se estivesse em contato direto com a essência da vida, com aquilo que existe de mais cru e natural. O momento é assustador justamente porque a coloca diante do que há de instintivo e animal em si mesma, algo que sua vida doméstica e “civilizada” sempre tentou ocultar.
Ao retornar para casa, Ana tenta recuperar o controle. Envergonhada e confusa, sente uma espécie de culpa por ter sido tão profundamente afetada. Carrega a vergonha de ter sentido demais, de ter desejado viver de forma mais intensa. Ela percebe que a “bondade” e o “equilíbrio” que sustentavam sua vida talvez fossem estratégias para se proteger do real, do desconhecido, de si mesma.
O final do conto é simbólico, quando Ana “assopra a pequena flama do dia”, parece tentar apagar tudo o que viveu, como se buscasse apagar a consciência que despertou. A vida retorna ao normal, o jantar acontece, a casa está limpa, o marido e os filhos estão ali, mas o leitor entende que nada será exatamente como antes. Ela viu algo que não pode mais ser “desvisto”.
4.3. Reflexões Sobre Macabéa em a Hora da Estrela
Macabéa é uma personagem que vive quase como um fantasma dentro da própria vida, uma mulher que não enxerga sua própria existência. Desde o início da obra, é apresentada como uma jovem nordestina, pobre, órfã, que se muda para o Rio de Janeiro e trabalha como datilógrafa por um salário miserável. Sua presença é tão discreta que parece não ser percebida pelo mundo ao redor.
Macabéa não se enxerga, não possui consciência de si, da sua miséria ou da violência que atravessa sua vida no dia a dia. Vive de maneira automática, permitindo que os acontecimentos apenas ocorram, sem qualquer questionamento. Alimenta-se mal, adoece com frequência, mas não reclama; considera natural ser infeliz; sente fome, mas não reconhece o sentimento. Não sabe o que é o amor, não compreende o próprio corpo e acredita, de forma ingênua, em qualquer promessa de felicidade, por mais improvável que seja.
O narrador, Rodrigo S. M., afirma que Macabéa “não se conhecia, porque nunca se olhara num espelho”. E, quando finalmente o faz, não se reconhece; não vê nada além de um rosto vazio. Clarice transforma essa falta de autoconhecimento em um símbolo existencial. Macabéa é uma mulher sem consciência de si e sem linguagem para se afirmar, representando inúmeras outras mulheres invisíveis, silenciadas e privadas de voz na sociedade.
Ao longo da narrativa, o narrador tenta “dar existência” a Macabéa, como se escrever sobre ela fosse uma forma de reparação. Ele próprio se angustia, reconhecendo o absurdo de falar por alguém que não compreende o próprio sofrimento. Seu cotidiano é marcado por apagamento: trabalha em um escritório onde ninguém nota sua presença, vive em um quarto apertado, alimenta-se de café com leite, biscoitos velhos e cachorro-quente. Seus sonhos são pequenos, moldados por referências externas, como o desejo de se parecer com Marilyn Monroe.
O relacionamento com Olímpico de Jesus é mais um reflexo da sua falta de percepção de si. Embora ele a humilhe, a engane e, posteriormente, a abandone, Macabéa continua acreditando que se trata de um bom homem. Ela não possui parâmetros para reconhecer o abuso, pois nunca aprendeu a se perceber como alguém digno de respeito.
A cena da cartomante é um dos momentos mais simbólicos da narrativa. Quando Madama Carlota lhe promete um futuro cheio de amor, riqueza e felicidade, Macabéa acredita sem hesitação. Pela primeira vez, ela se imagina existindo de verdade; é como se, naquele instante, ela se visse pela primeira vez. No entanto, é justamente nesse momento que a vida a interrompe: ao sair da cartomante, é atropelada e morre. O destino que lhe foi prometido se realiza apenas na morte, torna-se o único instante em que alguém realmente olha para ela, ainda que tarde demais.
Clarice constrói essa ironia de forma decisiva. A morte de Macabéa é o único momento em que sua existência ganha visibilidade; e esse sentido é constituído pela própria ausência. Trata-se de uma crítica profunda a uma sociedade que só enxerga os pobres e marginalizados quando eles já não podem mais falar.
Macabéa causa reflexões sobre a solidão extrema do ser humano, naquele ponto em que a vida se reduz ao ato de sobreviver biologicamente, sem consciência, sem voz e sem brilho. Ela se torna quase uma figura mística vive sem saber por quê, mas continua vivendo, sustentada por uma espécie de fé inconsciente.
Ela não se reconhece, mas talvez perceba o mundo de uma forma que os outros já não conseguem mais. Seu olhar puro, ainda que ingênuo, revela a verdade da existência: viver é um mistério sem garantias. E Clarice, com sua escrita sensível, transforma essa mulher anônima em um espelho da própria humanidade.
4.4. Saúde Mental e Invisibilidade Feminina
Neste primeiro momento, as reflexões de O Mito da Beleza, de Naomi Wolf, contribuem para ampliar a compreensão da saúde mental feminina como um fenômeno que atravessa dimensões sociais, culturais e simbólicas. Assim como na literatura de Clarice Lispector, o sofrimento das mulheres não se apresenta apenas de forma clara ou nomeável, mas frequentemente surge de maneira silenciosa, inscrito no corpo e nos modos de existir.
Ao abordar o capítulo “A fome”, Wolf desloca o olhar sobre os transtornos alimentares, compreendendo-os para além de categorias clínicas isoladas. Nesse contexto, práticas como a restrição alimentar, a compulsão e a purgação deixam de ser vistas apenas como disfunções individuais e passam a ser entendidas como expressões de um conflito mais profundo entre o corpo feminino e os ideais normativos que o atravessam. A autora evidencia que a imposição de um padrão estético inalcançável produz um estado contínuo de inadequação, no qual o corpo se torna alvo de controle, vigilância e disciplina (Wolf, 1992).
Quando as mulheres invadiram em massa as esferas masculinas, esse prazer teve de ser sufocado por um urgente dispositivo social que transformaria os corpos femininos nas prisões que seus lares já não eram mais. (Wolf, 1992, p. 244)
Assim, o sofrimento psíquico não se caracteriza como um desvio individual, mas como resposta a uma lógica social que exige das mulheres a constante negação de si. O corpo, nesse cenário, transforma-se em um campo onde se registram tensões entre desejo e padrão, entre existência e adequação. A fome, portanto, ultrapassa sua dimensão biológica e passa a representar uma falta mais ampla: falta de reconhecimento, de autonomia e de possibilidade de existir fora dos padrões impostos “Pois, tanto quanto as mulheres pudessem se lembrar, alguma coisa em ser mulher sempre doía” (Wolf 1992. p 291).
Esse movimento revela que a dor feminina, muitas vezes, não é reconhecida como sofrimento legítimo. Pelo contrário, tende a ser corrigida, medicalizada ou silenciada, sem que se considerem as condições que a produzem. É nesse ponto que o capítulo “A violência” aprofunda a discussão ao evidenciar formas mais sutis e naturalizadas de agressão. Para a autora, a violência não se limita ao plano físico, mas se manifesta também na invisibilidade uma forma simbólica de apagamento que atua de maneira cotidiana e persistente.
A mulher que não corresponde aos ideais de beleza, juventude e comportamento socialmente valorizados torna-se, progressivamente, invisível. Esse apagamento não ocorre de forma explícita, mas se constrói nos olhares que não se fixam, nas vozes que não são escutadas e nas presenças que deixam de ser reconhecidas. Trata-se de uma violência silenciosa, mas profundamente estruturante, que impacta diretamente a constituição da subjetividade feminina (Wolf, 1992).
Nesse ponto, a invisibilidade pode ser compreendida como uma experiência psíquica marcada pela ausência de reconhecimento. Quando não há olhar, não há espelho simbólico que sustenta a existência. A mulher, então, passa a ocupar um lugar de não-ser, o que fragiliza sua relação consigo mesma e com o mundo. A saúde mental, nesse contexto, torna-se inseparável de condições sociais que autorizam ou negam a possibilidade de existir.
Essa dinâmica encontra reflexo nas personagens de Clarice Lispector, especialmente naquelas que vivem entre o excesso de sentir e a impossibilidade de nomear. Assim como discutido anteriormente, há experiências que não encontram linguagem direta, mas que se expressam em gestos, silêncios e no próprio corpo. O mal-estar, muitas vezes difuso, transparece como efeito de uma tensão constante entre o que se vive e o que se pode expressar.
Dessa forma, as reflexões de Naomi Wolf não se distanciam da literatura, mas dialogam com ela ao evidenciar que o sofrimento feminino, embora singular em sua vivência, carrega marcas coletivas e históricas. Trata-se de uma experiência que se constrói no entrelaçamento entre corpo, cultura e subjetividade, exigindo uma escuta que ultrapasse o visível e alcance aquilo que, por muito tempo, foi silenciado.
Assim, pensar a saúde mental feminina implica reconhecer que o sofrimento das mulheres não é apenas interno, mas produzido em relações que atravessam o corpo e definem suas possibilidades de existência.
4.5. Psicologia e Corpo Feminino: Um Olhar Gestáltico
O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro (Beauvoir, 1949, p. 9)
Partindo da reflexão apresentada acima, a compreensão do corpo feminino no campo da Psicologia atravessa tanto dimensões biológicas quanto simbólicas, sociais e afetivas. Antes de ser corpo físico, a mulher é atravessada por uma rede de significados que definem o que é o feminino. Ressaltando que essa diferença não é natural, mas construída no meio social. O feminino não nasce com o corpo: é uma construção histórica e cultural que impõe formas específicas de ser, agir e sentir.
Beauvoir (1949) também questiona a ideia de uma essência feminina ao afirmar que “não se nasce mulher: torna-se”, indicando que o ser mulher é resultado de um processo social que conforma o corpo e a subjetividade às expectativas patriarcais. Desde cedo, o corpo feminino é educado para corresponder a ideais de pureza, docilidade e beleza. A mulher aprende a olhar para si a partir do olhar do outro, a desejar ser desejada, a existir como espelho do homem. Nesse contexto, o corpo se torna um território de controle e obediência.
O corpo feminino, portanto, é mais do que uma estrutura biológica: é o lugar onde a sociedade inscreve seus discursos morais e simbólicos. As normas que o atravessam definem o que é ser “feminina”, o que é permitido e o que deve ser silenciado. As emoções, o prazer e o desejo tornam-se zonas de censura. Beauvoir (1949) observa que o corpo da mulher é reduzido a uma condição de alteridade permanente, sempre visto em relação ao homem, o que faz com que sua subjetividade seja constantemente negada.
A Psicologia, ao refletir sobre o corpo feminino, precisa reconhecer que o sofrimento psíquico das mulheres não é apenas interno, mas socialmente produzido. Junqueira e Scorsolini-Comin (2021) propõem compreender a literatura como um dispositivo clínico e simbólico, capaz de revelar as formas pelas quais o sofrimento se inscreve no corpo e na subjetividade. Através da escrita, é possível elaborar as contradições entre o social e o íntimo, transformando a dor em linguagem e criação. O corpo feminino, moldado por padrões e obrigações, torna-se, assim, um campo de expressão dessas tensões, mas também de resistência e reinvenção.
Ao longo da história, as mulheres foram educadas para silenciar afetos e suportar o sofrimento em prol de um ideal de feminilidade. A negação do desejo e da raiva, o controle sobre o prazer e a exigência de abnegação produziram um corpo contido, dividido entre o que sente e o que pode demonstrar. Como afirmam Guedes, Silva e Fonseca (2009, p. 626):
A desigualdade de gênero constitui uma das grandes contradições da sociedade que se mantém ao longo da história da civilização e tem colocado as mulheres em um lugar social de subordinação. […] A violência baseada no gênero tem se constituído em um fenômeno social que influencia sobremaneira o modo de viver, adoecer e morrer das mulheres.
Essa reflexão demonstra que o sofrimento psíquico das mulheres não pode ser compreendido de forma isolada, pois está profundamente ligado às desigualdades simbólicas e às violências estruturais que atravessam o corpo feminino e sua subjetividade. A Psicologia, ao escutar o sofrimento feminino, precisa considerar o corpo como linguagem. Ele fala através dos sintomas, das dores e dos silêncios. O corpo carrega a história das imposições, das perdas e das violências, mas também dos gestos de resistência e criação. Assim, pensar o corpo feminino a partir da Psicologia é compreender que ele é o ponto de encontro entre o social e o subjetivo. É nele que se revelam as marcas da desigualdade, mas também as possibilidades de transformação.
A escuta psicológica que acolhe o corpo feminino reconhece que o sofrimento das mulheres não é um problema individual, mas o resultado de um sistema que por séculos negou voz e autonomia. O corpo feminino, portanto, é história e linguagem. É no corpo que a mulher experimenta a tensão entre o silêncio e a fala, entre o dever e o desejo. Reconhecer essa dimensão é fundamental para que a Psicologia possa contribuir para o cuidado de si e para a construção de um espaço de existência mais livre, onde o corpo não seja apenas um lugar de dor, mas de expressão e potência.
Assim, ao considerar o corpo feminino na obra de Clarice Lispector, observa-se a possibilidade de dialogar com a compreensão gestáltica de corporeidade, que entende corpo e mente como uma unidade organísmica inseparável (Alvim, 2014). A Gestalt-terapia compreende o corpo como experiência vivida no campo, em constante relação com o mundo, com o outro e com a história (Alvim, 2014). Essa perspectiva é reforçada pela autora ao afirmar que:
A vida é movimento; a existência, temporalidade; o corpo não é apenas matéria, isolada ou fechada em si, determinada de fora. Tampouco é o centro irradiador que determina as coisas. A corporeidade se faz no movimento, em interação com o mundo e o outro, na história, na sociedade. Isso implica afetar e ser afetado, ver e ser visto, sentir e ser sentido, tocar e ser tocado (Alvim, 2014, p. 24).
A partir dessa compreensão, se destaca que os modos de sentir, perceber e responder ao mundo são atravessados por elementos culturais, sociais e históricos, tal como discutem Mauss (2003), Bourdieu (2002) e Merleau-Ponty (1991). Quando esse fluxo é interrompido seja pela contenção afetiva, pela repressão do desejo ou pelas exigências dirigidas ao feminino surgem movimentos enfraquecidos, gestos contidos e uma dificuldade na formação de Gestalten claras (Alvim, 2014). Nas personagens das obras de Clarice, esse processo aparece de forma sensível, revelando mulheres cujos corpos carregam silenciamentos, hesitações e conflitos que se expressam na sutileza dos gestos e na maneira como vivenciam o mundo. Com isso, torna-se possível compreender o sofrimento feminino como experiência concretizada, reafirmando a importância de uma escuta clínica que reconheça o corpo como lugar de expressão, história e criação de sentido.
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise do corpo feminino e da saúde mental na literatura de Clarice Lispector revela que a experiência da mulher, longe de ser estática, acompanha as transformações sociais e culturais, reafirmando a importância do corpo como território simbólico de expressão, conflito e resistência. As personagens de Clarice deixam de ocupar um lugar apenas secundário ou silenciado para se tornarem protagonistas de suas próprias crises, ainda que de maneira inconsciente, revelando dores, desejos e silêncios que sustentam a complexidade da existência feminina.
Mesmo diante dos desafios impostos pela desigualdade de gênero, pelas normas sociais e pelos padrões estéticos inalcançáveis, a relação da mulher com seu próprio corpo continua sendo um espaço privilegiado de troca afetiva, de construção de identidade e de expressão do sofrimento psíquico. A presença do corpo feminino na literatura de Clarice, seja ele contido como o de Ana ou apagado como o de Macabéa, constitui-se como fonte de pertencimento e estranhamento, possibilitando a construção de narrativas que atravessam o íntimo e o social, revelando a humanidade das experiências femininas muitas vezes invisibilizadas.
Conclui-se que escutar o corpo feminino na literatura de Clarice Lispector significa reconhecer a potência da escrita como dispositivo de escuta e elaboração simbólica, em que a dor, o desejo e a resistência se transformam em linguagem. Essa reflexão convida a Psicologia e a sociedade a ampliarem o olhar sobre o sofrimento psíquico das mulheres, promovendo espaços de escuta e criação que sustentem uma cultura de cuidado, reconhecimento e afeto, pilares indispensáveis para a construção de uma sociedade mais empática e sensível às múltiplas formas de existir no mundo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: fatos e mitos. Tradução de Sérgio Milliet. 4. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, [s.d.]. v. 1.
JUNQUEIRA, Lívia Ferreira da Silva; SCORSOLINI-COMIN, Fábio. Psicologia, literatura e saúde mental. Muitas Vozes, Ponta Grossa, v. 10, p. e2117404, 2021.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR, Clarice. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
POJAR, Gabriela Borges; SCORSOLINI-COMIN, Fábio. Um corpo que arde: corporeidade e produção de subjetividade em Clarice Lispector. Subjetividades, Fortaleza, v. 20, n. 1, p. e7365, 2020.
WOLF, Naomi. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
1 Discente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Maria Thereza - E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Docente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Maria Thereza - E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail