REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/783404181
RESUMO
Este artigo analisa a expressão do aspecto verbal nas perífrases com particípio presentes em textos opinativos publicados no Jornal do Maranhão, entre janeiro e junho de 2021, investigando seus valores aspectuais e seus efeitos semântico-discursivos na construção da credibilidade e da argumentação. A pesquisa adota abordagem qualitativa e perspectiva semântico-discursiva, fundamentando-se nas contribuições de Comrie, Travaglia e Castilho sobre o aspecto verbal, articuladas às discussões de Koch, Fairclough e Van Dijk acerca do funcionamento discursivo da linguagem. O corpus é constituído por 128 ocorrências de perífrases verbais com particípio, analisadas quanto aos seus comportamentos aspectuais e aos efeitos produzidos na organização argumentativa dos textos. Os resultados evidenciam a predominância de valores perfectivos e resultativos, associados à construção de efeitos de factualidade, objetividade e legitimação discursiva. Verifica-se, ainda, que essas construções contribuem para a organização argumentativa e para a orientação interpretativa do discurso jornalístico opinativo. Conclui-se que o aspecto verbal ultrapassa a dimensão estritamente gramatical e atua como importante recurso de organização discursiva na produção de sentidos.
Palavras-chave: Aspecto verbal; Perífrases verbais; Particípio; Discurso jornalístico; Argumentação.
ABSTRACT
This article analyzes the expression of verbal aspect in participial periphrases found in opinion texts published in the Jornal do Maranhão between January and June 2021, investigating their aspectual values and their semantic-discursive effects on the construction of credibility and argumentation. The study adopts a qualitative approach and a semantic-discursive perspective, drawing on the contributions of Comrie, Travaglia, and Castilho to the study of verbal aspect, in articulation with the discursive approaches proposed by Koch, Fairclough, and Van Dijk. The corpus consists of 128 occurrences of participial verbal periphrases, analyzed according to their aspectual behavior and their role in the argumentative organization of the texts. The results reveal the predominance of perfective and resultative values, associated with the construction of effects of factuality, objectivity, and discursive legitimation. Furthermore, the findings show that these constructions contribute to the argumentative organization and interpretative orientation of opinion journalism. It is concluded that verbal aspect goes beyond its strictly grammatical dimension and functions as an important resource for discursive organization in the production of meaning.
Keywords: Verbal aspect; Verbal periphrases; Participle; journalistic discourse; Argumentation.
1. INTRODUÇÃO
O aspecto verbal constitui uma categoria fundamental para a compreensão do funcionamento da linguagem, pois permite analisar não apenas quando uma ação ocorre, mas, sobretudo, como ela se desenvolve no interior do enunciado. Diferentemente da categoria de tempo, que localiza os eventos em relação ao momento da enunciação, o aspecto focaliza sua constituição interna, evidenciando valores como duração, continuidade, conclusão e desenvolvimento dos processos verbais. Nessa perspectiva, seu estudo contribui para explicar as relações entre a estrutura linguística e a construção dos sentidos no discurso.
No português, as perífrases verbais configuram um dos principais mecanismos de realização aspectual. Entre essas construções, destacam-se as perífrases formadas com particípio, recorrentes em diferentes práticas discursivas e particularmente produtivas no discurso jornalístico. Em textos opinativos, estruturas como foi divulgado, tem sido realizado e foi definido não apenas localizam acontecimentos no tempo, mas também produzem efeitos de credibilidade, objetividade e orientação argumentativa, participando da construção dos sentidos do texto.
No discurso jornalístico, essas escolhas linguísticas assumem relevância especial, uma vez que a produção da informação se organiza por meio de estratégias de legitimação e de construção da autoridade discursiva. O uso recorrente de perífrases com particípio favorece o apagamento do agente da ação, desloca o foco para o acontecimento e contribui para a produção de efeitos de factualidade, neutralidade e objetividade. Assim, o aspecto verbal ultrapassa sua dimensão estritamente gramatical e passa a atuar como um importante recurso de organização discursiva.
Os estudos sobre aspecto verbal têm oferecido contribuições relevantes para a descrição dessa categoria no português, destacando-se as pesquisas de Comrie (1976), Castilho (2001) e Travaglia (2016). Entretanto, grande parte dessas investigações concentra-se na descrição morfossintática das formas verbais, permanecendo relativamente reduzido o número de estudos que articulam o aspecto verbal ao funcionamento discursivo e à construção da argumentação em gêneros jornalísticos, especialmente no que se refere às perífrases com particípio em textos opinativos.
Diante desse cenário, questiona-se de que modo as perífrases verbais com particípio contribuem para a construção da credibilidade e da orientação argumentativa no discurso jornalístico opinativo. Essa problematização permite compreender como escolhas linguísticas, aparentemente restritas ao plano gramatical, participam da estabilização dos acontecimentos, da legitimação da informação e da construção da autoridade discursiva.
Nesse contexto, este estudo analisa a expressão do aspecto verbal nas perífrases com particípio presentes em textos opinativos publicados no Jornal do Maranhão, entre janeiro e junho de 2021, considerando seus valores aspectuais e seus efeitos semântico-discursivos na construção da credibilidade e da argumentação.
A análise fundamenta-se nas contribuições de Comrie (1976), Travaglia (2016) e Castilho (2001), em articulação com as perspectivas discursivas de Koch (2004; 2009), Fairclough (2001) e Van Dijk (2010). Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa, de natureza semântico-discursiva, baseada na análise de ocorrências de perífrases com particípio identificadas no corpus selecionado.
2. ASPECTO VERBAL E FUNCIONAMENTO DISCURSIVO DAS PERÍFRASES COM PARTICÍPIO
O aspecto verbal constitui uma das categorias centrais para a compreensão da organização temporal interna dos eventos representados na linguagem. Diferentemente da categoria de tempo, que localiza o acontecimento em relação ao momento da enunciação, o aspecto focaliza o modo como a situação é apresentada pelo enunciador, evidenciando valores como duração, continuidade, conclusão e desenvolvimento do processo verbal. Nessa perspectiva, essa categoria permite compreender sua organização linguística e sua atuação na construção dos sentidos do discurso.
Segundo Travaglia (2016), o aspecto verbal relaciona-se às diferentes fases de realização da situação verbal, permitindo distinguir valores como perfectividade, imperfectividade, duração, continuidade, resultatividade e atualização. Essa concepção aproxima-se da definição clássica proposta por Comrie (1976, p. 3), para quem o aspecto corresponde aos "diferentes modos de ver a constituição temporal interna de uma situação", distinguindo-se da referência dêitica própria da categoria de tempo verbal. No português, essa categoria manifesta-se por diferentes recursos linguísticos, especialmente pelas construções perifrásticas, nas quais a combinação entre verbo auxiliar e formas nominais do verbo principal — infinitivo, gerúndio e particípio — possibilita a expressão de distintos valores aspectuais.
Entre essas construções, as perífrases com particípio ocupam posição de destaque em diferentes práticas discursivas e revelam-se particularmente produtivas no discurso jornalístico. Além de expressarem valores aspectuais, essas estruturas participam da organização informacional do texto, contribuindo para a construção de efeitos de objetividade, factualidade e impessoalidade.
Conforme Castilho (2001), a expressão aspectual no português decorre da articulação entre diferentes recursos linguísticos, destacando-se as construções perifrásticas, responsáveis por focalizar distintas fases do desenvolvimento da situação verbal. No caso das perífrases com particípio, essas construções tendem a representar ações concluídas ou cujos efeitos permanecem relevantes no momento da enunciação, projetando um estado resultante que frequentemente se associa à estabilização do acontecimento e à atualização discursiva.
No discurso jornalístico opinativo, essas construções assumem função estratégica, uma vez que a recorrência da voz passiva analítica contribui para o apagamento do agente da ação, deslocando o foco para o acontecimento e produzindo efeitos de neutralidade e objetividade. Como observa Fairclough (2001), a linguagem midiática constrói tais efeitos por meio de escolhas linguísticas que naturalizam determinadas interpretações e reforçam a credibilidade discursiva.
Nessa perspectiva, o uso de perífrases com particípio não se restringe à expressão de valores aspectuais, mas interfere diretamente na organização argumentativa do texto. Conforme Koch (2004; 2009) e Van Dijk (2010), a argumentação se constrói não apenas por marcas explícitas de opinião, mas também por escolhas linguísticas responsáveis por orientar a seleção, a hierarquização e a apresentação das informações.
Assim, no artigo de opinião, essas construções participam da estabilização dos acontecimentos, da organização da progressão textual e da orientação interpretativa do leitor, articulando aspectos gramaticais e discursivos na produção de sentidos. Desse modo, o estudo das perífrases com particípio evidencia que categorias tradicionalmente descritas pela gramática também desempenham papel relevante na constituição do discurso, na produção de efeitos de sentido e na construção da argumentação.
3. METODOLOGIA
Este estudo adota uma abordagem qualitativa, de natureza descritivo-interpretativa, fundamentada em uma perspectiva semântico-discursiva de análise. O objetivo não se restringe à descrição das estruturas perifrásticas com particípio, mas busca compreender seus valores aspectuais e seus efeitos na organização argumentativa e na construção da credibilidade no discurso jornalístico opinativo.
O corpus é composto por textos opinativos publicados no Jornal do Maranhão entre janeiro e junho de 2021. A delimitação temporal decorre de pesquisa de Iniciação Científica desenvolvida no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UEMA), da qual este estudo resulta.
A coleta dos dados foi realizada mediante a leitura integral dos textos selecionados, seguida da identificação e da catalogação das perífrases verbais constituídas por verbo auxiliar e particípio. Foram registradas 128 ocorrências, organizadas em planilha eletrônica com informações sobre o contexto de uso, o verbo auxiliar empregado, a forma verbal e os valores aspectuais identificados.
As ocorrências foram agrupadas de acordo com seus comportamentos aspectuais predominantes, considerando as categorias de perfectividade, imperfectividade, duração, continuidade, resultatividade, atualização e prospectividade. Essa organização possibilitou identificar regularidades no corpus e selecionar os dados mais representativos para a análise qualitativa.
A análise foi desenvolvida em dois níveis complementares. No plano morfossintático, examinaram-se a constituição das perífrases verbais e os recursos linguísticos responsáveis pela expressão dos valores aspectuais. No plano semântico-discursivo, investigaram-se os efeitos dessas construções na organização da informação, na construção da credibilidade e na orientação argumentativa dos textos, tomando como referência as contribuições de Travaglia (2016), Comrie (1976), Castilho (2001), Koch (2004; 2009), Fairclough (2001) e Van Dijk (2010).
4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
A análise das perífrases verbais com particípio foi desenvolvida a partir da articulação entre os níveis morfossintático e semântico-discursivo, buscando compreender de que modo essas construções contribuem para a organização argumentativa e para a construção da credibilidade no discurso jornalístico opinativo. Embora o aspecto verbal seja tradicionalmente descrito como categoria gramatical relacionada à organização temporal interna dos eventos, parte-se do pressuposto de que seus efeitos ultrapassam o plano linguístico e interferem diretamente na produção de sentidos e na orientação interpretativa dos enunciados.
Foram catalogadas 128 ocorrências de perífrases verbais com particípio, nas quais predominam construções formadas pelos auxiliares ser, ter e estar, recorrentes em textos voltados à institucionalidade, à administração pública e à análise de acontecimentos sociais e políticos. A distribuição dos dados permitiu identificar diferentes comportamentos aspectuais, cujas recorrências evidenciam regularidades relevantes para a compreensão do funcionamento discursivo dessas construções.
A Tabela 1 apresenta a distribuição geral dos comportamentos aspectuais identificados no corpus.
Tabela 1. Distribuição dos comportamentos aspectuais no corpus
Comportamento aspectual | Ocorrências | % |
Ser + particípio | 62 | 48,4 |
Continuidade, duração e atualização | 35 | 27,3 |
Perfectividade e resultatividade | 25 | 19,5 |
Prospectividade e modalização | 6 | 4,8 |
Total | 128 | 100 |
Fonte: Os autores.
Os dados evidenciam a predominância das construções com ser + particípio, que correspondem a 48,4% das ocorrências identificadas. Em seguida, destacam-se os valores de continuidade, duração e atualização (27,3%), de perfectividade e resultatividade (19,5%) e, em menor frequência, de prospectividade e modalização (4,8%). Esses resultados demonstram que a expressão do aspecto verbal, no corpus analisado, contribui para a construção de efeitos de objetividade, factualidade, permanência e projeção discursiva, corroborando o papel das perífrases com particípio na organização argumentativa do discurso jornalístico opinativo.
4.1. Perífrases Perfectivas e Construção da Factualidade Discursiva
Entre as 128 ocorrências identificadas no corpus, predominam as perífrases associadas aos valores perfectivo e resultativo, especialmente em construções formadas pelos auxiliares ser e ter. Essas estruturas são recorrentes em textos voltados à análise política, social e institucional, nos quais os acontecimentos são apresentados como fatos consolidados e discursivamente legitimados.
Do ponto de vista aspectual, as perífrases perfectivas apresentam a ação verbal como concluída, focalizando o processo em sua totalidade (Travaglia, 2016). No discurso jornalístico opinativo, essa configuração projeta efeitos que permanecem ativos no presente discursivo, contribuindo para a construção da credibilidade e da argumentação.
Esse funcionamento pode ser observado na seguinte ocorrência:
De repente tudo virado de cabeça para baixo: planos, projetos, calendários tiveram que ser revistos e adaptados (Jornal do Maranhão, 2021).
A sequência tiveram que ser revistos e adaptados articula obrigatoriedade, anterioridade e resultado, produzindo um efeito de conclusão associado à ideia de necessidade coletiva. O acontecimento é apresentado como realizado e discursivamente estabilizado. Do ponto de vista morfossintático, a construção combina modalidade e aspecto verbal, intensificando o efeito argumentativo do enunciado. O uso do particípio projeta um estado resultante, enquanto o auxiliar no pretérito perfeito reforça a noção de encerramento da ação.
Esse funcionamento torna-se ainda mais evidente nas construções em voz passiva analítica:
Foram estabelecidas novas medidas de restrição para conter o avanço da pandemia no estado (Jornal do Maranhão, 2021).
Observa-se, nesse caso, um padrão recorrente de apagamento do agente da ação, deslocando o foco para o acontecimento e produzindo efeitos de objetividade e institucionalidade característicos do discurso jornalístico.
Essa dinâmica também pode ser observada na ocorrência a seguir:
A pandemia da COVID-19 surpreendeu o mundo, apesar de ter sido uma tragédia anunciada publicamente há anos (Jornal do Maranhão, 2021).
A expressão ter sido uma tragédia anunciada apresenta valor perfectivo-resultativo, indicando uma ação concluída cujos efeitos permanecem relevantes no presente discursivo. Essa construção permite atribuir responsabilidade de forma implícita, preservando a aparência de objetividade característica do discurso jornalístico institucional (Fairclough, 2001; Van Dijk, 2010).
Outro exemplo representativo é:
Foi registrada alta nos índices de contaminação em praticamente todas as regiões do estado (Jornal do Maranhão, 2021).
A forma foi registrada introduz a informação como fato legitimado discursivamente, funcionando como base para a orientação argumentativa do texto. Nesse contexto, o aspecto verbal ultrapassa a dimensão estritamente temporal e participa da construção da factualidade, conferindo ao acontecimento estatuto de evidência argumentativa.
As ocorrências analisadas evidenciam que as perífrases perfectivas com particípio contribuem para a construção da factualidade e da credibilidade discursiva no jornalismo opinativo, articulando conclusão, resultado e legitimação na orientação argumentativa dos textos. A síntese dessas relações é apresentada na Tabela 2.
Tabela 2. Relações entre configuração perifrástica, valor aspectual e efeito discursivo predominante
Estrutura perifrástica | Valor aspectual predominante | Efeito discursivo recorrente |
Ser + particípio | Perfectividade/resultatividade | objetividade e apagamento do agente |
Ter + particípio | Anterioridade/resultatividade | factualidade e legitimação discursiva |
Estar + particípio | Continuidade/atualização | permanência e progressão discursiva |
Fonte: Os autores.
Os dados sintetizados na Tabela 2 evidenciam que as diferentes configurações perifrásticas não apenas expressam valores aspectuais distintos, mas também contribuem para a construção de efeitos discursivos específicos no jornalismo opinativo. Essas relações fundamentam a análise detalhada das construções com ser + particípio, apresentada na subseção seguinte.
4.2. Construções com Ser + Particípio e Efeito de Objetividade
As construções perifrásticas formadas por ser + particípio ocupam posição de destaque no corpus analisado, correspondendo a uma parcela significativa das ocorrências identificadas. Essas estruturas aparecem com frequência em textos voltados à análise política, institucional e social, especialmente em contextos relacionados à administração pública, à divulgação de dados e à interpretação de acontecimentos coletivos. No discurso jornalístico opinativo, contribuem para a construção de efeitos de objetividade, impessoalidade e legitimidade discursiva.
No plano morfossintático, observa-se a predominância de formas realizadas no presente e no pretérito do indicativo, sobretudo em estruturas de voz passiva analítica. Do ponto de vista discursivo, essas perífrases favorecem a centralização do acontecimento e o apagamento do agente da ação verbal, produzindo efeitos de neutralidade característicos do discurso jornalístico.
Esse funcionamento pode ser observado na seguinte ocorrência:
Foram divulgados novos dados sobre o avanço da pandemia no estado (Jornal do Maranhão, 2021).
A construção apresenta a informação como fato estabilizado e institucionalmente legitimado, reforçando sua credibilidade e sustentando a orientação argumentativa do texto. Nesse caso, o aspecto verbal contribui para a construção da factualidade discursiva ao apresentar o acontecimento como dado concluído.
Esse processo é recorrente no discurso jornalístico opinativo, no qual a voz passiva analítica atua como mecanismo de impessoalização da informação. Ao ocultar ou secundarizar o agente responsável pela ação verbal, o texto desloca o foco para o acontecimento, produzindo uma aparência de neutralidade discursiva. Esse funcionamento aproxima-se do que Fairclough (2001) descreve como estratégia de construção da objetividade midiática.
As construções com ser + particípio também aparecem associadas à institucionalidade discursiva, especialmente em textos que tratam de decisões administrativas, medidas governamentais e ações públicas, como na ocorrência a seguir:
Foi determinado o fechamento temporário de atividades consideradas não essenciais (Jornal do Maranhão, 2021).
Nesse caso, a perífrase apresenta a ação como decisão já consolidada e institucionalmente legitimada. O apagamento do agente responsável pela determinação reforça o efeito de formalidade e contribui para a construção de uma aparência de imparcialidade discursiva, concentrando a atenção na medida adotada como fato estabilizado.
Outro exemplo relevante é:
Foram identificados problemas estruturais no sistema público de saúde durante o período mais crítico da pandemia (Jornal do Maranhão, 2021).
A construção apresenta a informação como fato reconhecido e discursivamente legitimado, enquanto os agentes responsáveis pela identificação permanecem apagados ou secundarizados. Esse funcionamento reforça a credibilidade da informação e sustenta a orientação argumentativa do texto.
As ocorrências realizadas no presente do indicativo também revelam comportamento significativo no corpus. Em estruturas como é discutida, é analisado e é defendida a necessidade de mudanças, observam-se valores imperfectivos associados à atualização discursiva e à permanência temática dos acontecimentos.
Esse comportamento pode ser exemplificado na seguinte ocorrência:
Ainda é discutida a necessidade de ampliação das políticas públicas voltadas à saúde coletiva (Jornal do Maranhão, 2021).
Na construção é discutida, o acontecimento não é apresentado como ação concluída, mas como processo em circulação discursiva no momento da enunciação. O aspecto imperfectivo reforça os efeitos de continuidade e atualidade do debate, mantendo o tema aberto à interpretação e à avaliação argumentativa.
Do ponto de vista discursivo, essas construções contribuem para a produção de um ethos de racionalidade e distanciamento analítico. Conforme Koch (2004; 2009) e Van Dijk (2010), a argumentação no discurso jornalístico também se realiza por meio de escolhas sintáticas e de modos de organização da informação.
As ocorrências analisadas evidenciam que as construções com ser + particípio desempenham papel central na construção da objetividade discursiva no jornalismo opinativo. Ao articularem aspecto verbal, voz passiva e organização argumentativa, essas estruturas funcionam como mecanismos de legitimação da informação, estabilização dos acontecimentos e construção da credibilidade discursiva.
4.3. Continuidade, Duração e Atualização Aspectual
Além das construções marcadas pela perfectividade e pela estabilização dos acontecimentos, o corpus apresenta ocorrências associadas à duração, à continuidade e à atualização aspectual. Essas realizações aparecem principalmente em perífrases formadas pelos auxiliares ter e estar, em estruturas como tem sido desenvolvido, tem sido adotado e está sendo discutido. Diferentemente das construções perfectivas, essas formas projetam processos em curso ou cujos efeitos permanecem atualizados no presente discursivo.
Segundo Travaglia (2016), os valores imperfectivos caracterizam-se pela focalização do desenvolvimento interno da situação verbal, permitindo que a ação seja apresentada em sua continuidade ou em seu processo de realização. No corpus analisado, esse comportamento manifesta-se especialmente em construções que articulam anterioridade, permanência e atualização discursiva.
Esse funcionamento pode ser observado na seguinte ocorrência:
Tem sido desenvolvido um trabalho contínuo de monitoramento dos casos de COVID-19 no estado (Jornal do Maranhão, 2021).
Na perífrase tem sido desenvolvido, a ação verbal não é apresentada como evento isolado ou concluído. Embora tenha origem anterior, seu desenvolvimento se prolonga no tempo, mantendo efeitos ativos no momento da enunciação. A construção articula anterioridade e continuidade, produzindo um efeito de permanência que reforça a ideia de atuação constante e de acompanhamento institucional. Do ponto de vista discursivo, contribui para representar o acontecimento como prática contínua, fortalecendo efeitos de credibilidade e legitimidade.
A atualização aspectual também se evidencia nas construções formadas por estar sendo + particípio, como no exemplo a seguir:
Está sendo analisada a possibilidade de ampliação das medidas de restrição no estado (Jornal do Maranhão, 2021).
Na perífrase está sendo analisada, o acontecimento é apresentado como processo em desenvolvimento, ainda não concluído. O aspecto imperfectivo reforça o efeito de atualidade da informação e mantém o evento aberto à interpretação e ao acompanhamento discursivo. No discurso jornalístico opinativo, esse tipo de construção representa os acontecimentos como processos em andamento, reforçando efeitos de continuidade e atualização informativa.
Outro aspecto relevante refere-se à relação entre continuidade aspectual e progressão argumentativa. Conforme Koch (2004), a progressão textual depende da articulação entre informações já introduzidas e novos elementos incorporados ao desenvolvimento discursivo. Nesse sentido, as perífrases durativas observadas no corpus funcionam como mecanismos de articulação textual, contribuindo para a organização argumentativa dos textos analisados.
Esse comportamento pode ser observado na seguinte ocorrência:
Medidas de prevenção vinham sendo discutidas desde os primeiros meses da pandemia (Jornal do Maranhão, 2021).
Na construção vinham sendo discutidas, a combinação entre o auxiliar no pretérito imperfeito e a perífrase progressiva produz efeito de duração retrospectiva. O acontecimento é apresentado como processo contínuo no passado, evidenciando desenvolvimento gradual e acompanhamento institucional das ações.
Outro exemplo é:
O avanço da vacinação continua sendo acompanhado pelas autoridades de saúde (Jornal do Maranhão, 2021).
Na perífrase continua sendo acompanhado, observa-se a permanência do processo verbal, reforçando a ideia de monitoramento contínuo. O acontecimento não é apresentado como ação concluída, mas como atividade em desenvolvimento, contribuindo para manter sua relevância discursiva.
As ocorrências analisadas evidenciam que as perífrases associadas à continuidade, à duração e à atualização aspectual desempenham papel relevante na organização temporal e argumentativa do discurso jornalístico opinativo. Ao representar os acontecimentos como processos em curso, essas construções reforçam efeitos de permanência e atualidade, contribuindo para a progressão temática do texto.
Além desses valores, o corpus também apresenta ocorrências em que o aspecto verbal atua na projeção de possibilidades, expectativas e cenários futuros, tema abordado na subseção seguinte.
4.4. Aspecto Verbal e Orientação Argumentativa no Discurso Opinativo
Além dos valores relacionados à perfectividade e à continuidade processual, o corpus também evidencia construções perifrásticas associadas à prospectividade, à modalização e à projeção de possibilidades discursivas. Essas ocorrências aparecem em estruturas vinculadas ao futuro, ao subjuntivo e a construções infinitivas, nas quais o aspecto verbal não se limita à representação de eventos concluídos, mas participa da projeção de cenários possíveis e da orientação interpretativa do leitor.
Nessa ocorrência, as perífrases poderão ser adotadas projeta a ação como possibilidade condicionada, produzindo um efeito de incerteza controlada e de abertura interpretativa.
Outro exemplo é:
Novas medidas poderão ser adotadas caso os índices de contaminação continuem aumentando no estado (Jornal do Maranhão, 2021).
Nessa ocorrência, a perífrase “poderão ser adotadas” projeta a ação como possibilidade condicionada, produzindo um efeito de incerteza controlada e de abertura interpretativa.
Outro exemplo:
É necessário que sejam implementadas políticas públicas mais eficientes para o enfrentamento da crise sanitária (Jornal do Maranhão, 2021).
Nessa construção, o emprego do subjuntivo associa-se a valores de necessidade e expectativa institucional, projetando uma ação ainda não realizada, mas discursivamente requerida. Esse funcionamento amplia o potencial argumentativo do enunciado ao introduzir um posicionamento sem recorrer à assertividade factual.
Também se observa o uso do futuro do presente como recurso de projeção institucional:
Serão discutidas novas estratégias de flexibilização das restrições nas próximas semanas (Jornal do Maranhão, 2021).
Nesse caso, a perífrase organiza a antecipação do acontecimento, produzindo um efeito de previsibilidade e institucionalização da expectativa.
Em conjunto, essas ocorrências demonstram que o aspecto verbal, no discurso jornalístico opinativo, ultrapassa a função de marcação temporal e atua diretamente na construção de sentidos e na orientação argumentativa do texto. As perífrases analisadas funcionam, portanto, como mecanismos de projeção discursiva que articulam factualidade, possibilidade e expectativa, contribuindo para a organização argumentativa característica do gênero.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo analisou a expressão do aspecto verbal nas perífrases verbais com particípio em textos opinativos publicados no Jornal do Maranhão, entre janeiro e junho de 2021, com o objetivo de compreender de que modo essas construções contribuem para a organização da argumentação e para a construção da credibilidade no discurso jornalístico opinativo. A análise, desenvolvida sob uma perspectiva semântico-discursiva, permitiu articular a descrição dos valores aspectuais ao funcionamento discursivo dessas estruturas no gênero em questão.
Os resultados evidenciam que as perífrases com particípio não se limitam à marcação temporal dos eventos, mas desempenham funções centrais na construção de efeitos de factualidade, objetividade, continuidade e projeção de possibilidades. Predominam, no corpus, as construções com ser + particípio, associadas à impessoalização do discurso e ao apagamento do agente, enquanto as perífrases com ter e estar se vinculam, respectivamente, à resultatividade, à continuidade e à atualização processual dos acontecimentos.
Verificou-se, ainda, que tais construções contribuem diretamente para a orientação argumentativa dos textos, na medida em que organizam a apresentação dos fatos como dados estabilizados, em desenvolvimento ou em projeção. Esse funcionamento evidencia que o aspecto verbal atua como recurso discursivo estratégico no jornalismo opinativo, articulando escolhas gramaticais à produção de sentidos e à construção de efeitos de legitimidade e credibilidade.
Dessa forma, conclui-se que o aspecto verbal, especialmente nas perífrases com particípio, ultrapassa a dimensão estritamente gramatical e constitui um elemento relevante na organização discursiva do gênero analisado. O estudo reforça a importância de abordagens que integrem análise linguística e discursiva, ampliando a compreensão do funcionamento das categorias gramaticais em práticas efetivas de uso da linguagem.
Além de evidenciar a relevância das perífrases com particípio para a construção da argumentação e da credibilidade no discurso jornalístico, esta pesquisa contribui para ampliar as investigações sobre a interface entre gramática e discurso, indicando possibilidades para novos estudos sobre a expressão do aspecto verbal em outros gêneros discursivos e contextos de uso da língua.
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VAN DIJK, Teun A. Discurso e poder. São Paulo: Contexto, 2010.
1 Professora Associada do Curso de Letras-UEMA-CECEN. Doutora em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Mestrado em Letras (Ciência da Literatura) - UFRJ. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ID Lattes: 7703756959247780.
2 Graduanda de Letras Licenciatura em Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estadual do Maranhão – UEMA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ID Lattes: 0234853752746192.
3 Mestrando em Letras pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Graduado em Letras Inglês e Literaturas pela Universidade Estadual do Maranhão – UEMA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ID Lattes: 5839836268589587.
4 Graduando Letras Licenciatura em Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Literaturas pela Universidade Estadual do Maranhão – UEMA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ID Lattes: 4336545362830846.
5 Professor Associado do Curso de Letras-UEMA-CECEN. Doutor em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Mestrado em Letras (Ciência da Literatura) - UFRJ. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ID Lattes: 6543662546234060.