O ANIMAL COMO FACILITADOR DO VÍNCULO SEGURO E SEUS POSSÍVEIS BENEFÍCIOS NO BEM-ESTAR EMOCIONAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES INSTITUCIONALIZADOS

THE ANIMAL AS FACILITATOR OF SECURE ATTACHMENT AND ITS POTENTIAL BENEFITS FOR THE EMOTIONAL WELL-BEING OF INSTITUTIONALIZED CHILDREN AND ADOLESCENTS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792002687

RESUMO
O presente estudo tem o intuito de abordar a utilização dos animais como facilitadores do vínculo seguro e como recurso complementar na redução de sintomas depressivos em crianças e adolescentes institucionalizados. Esse cenário pode estar associado a experiências de abandono, rupturas familiares, negligência, violência e dificuldades na construção de vínculos afetivos estáveis, fatores que podem repercutir negativamente no desenvolvimento emocional e psicológico. Diante disso, as intervenções assistidas por animais despertam interesse como possibilidade de favorecer interações afetivas, estimular sentimentos de segurança e pertencimento e contribuir para o bem-estar psicológico. O objetivo geral deste estudo é analisar de que maneira a interação humano-animal pode contribuir para o fortalecimento do vínculo seguro e para a redução de sintomas depressivos em crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional. Para tanto, foi realizada uma pesquisa de natureza qualitativa, por meio de revisão bibliográfica e documental, contemplando produções científicas relacionadas à depressão infantojuvenil, à teoria do apego, à institucionalização e às intervenções assistidas por animais. O trabalho busca compreender as potencialidades e os limites da utilização dos animais nesse contexto, considerando que tais intervenções não substituem o acompanhamento psicológico e as demais ações da rede de proteção, mas podem atuar como recurso complementar. Espera-se contribuir para a discussão sobre estratégias humanizadas de cuidado psicológico voltadas a crianças e adolescentes institucionalizados.
Palavras-chave: Depressão; interação humano-animal; intervenções assistidas por animais.

ABSTRACT
This study aims to address the use of animals as facilitators of secure attachment and as a complementary resource for reducing depressive symptoms in institutionalized children and adolescents. This situation can be associated with experiences of abandonment, family breakups, neglect, violence, and difficulties in forming stable emotional bonds, factors that can negatively affect emotional and psychological development. In this context, animal-assisted interventions have gained interest as a way to encourage affectionate interactions, foster feelings of security and belonging, and contribute to psychological well-being. The main goal of this study is to analyze how human-animal interaction can help strengthen secure attachment and reduce depressive symptoms in children and adolescents in institutional care. To this end, a qualitative study was conducted through a literature and document review, covering scientific works related to child and adolescent depression, attachment theory, institutionalization, and animal-assisted interventions. The study aims to understand the potential and limitations of using animals in this context, considering that such interventions do not replace psychological support and other protection network actions but can serve as a complementary resource. The goal is to contribute to the discussion on humanized psychological care strategies for institutionalized children and adolescents.
Keywords: Depression; human-animal interaction; animal-assisted interventions.

1. INTRODUÇÃO

A infância e a adolescência são períodos fundamentais para o desenvolvimento emocional, social e psicológico. Nessa etapa, a construção de vínculos afetivos estáveis e seguros exerce papel relevante na formação da identidade, na capacidade de estabelecer relações interpessoais e na maneira como o indivíduo enfrenta situações adversas. Os estudos recentes sobre o apego destacam sua relação com aspectos relevantes do desenvolvimento infantil, incluindo a regulação emocional, a autoestima e a capacidade de estabelecer relações saudáveis (Bernal Rivas; Avello-Sáez, 2023).

O afastamento de criança e adolescente de sua família e o acolhimento em abrigos se configuram como uma das formas de garantia de direitos e proteção à criança e ao adolescente (Fonseca, 2017). Essa medida tem o intuito de assegurar proteção diante de situações que comprometem a integridade e o desenvolvimento infantojuvenil.

A inserção da criança e do adolescente nesse novo ambiente pode representar uma experiência emocionalmente complexa, sobretudo quando acompanhada de rupturas de vínculos afetivos e mudanças na rotina e nas relações de referência. Desse modo, a separação de figuras familiares significativas pode despertar sentimentos de tristeza, insegurança, abandono e medo, especialmente quando a criança ou o adolescente já esteve exposto a situações de negligência, violência ou instabilidade familiar.

Nesse cenário, torna-se relevante discutir estratégias de cuidado que ultrapassem intervenções exclusivamente tradicionais e considerem recursos capazes de favorecer relações de confiança, acolhimento e segurança emocional.

A interação humano-animal constitui um conceito amplo relacionado às diferentes formas de contato e relação estabelecidas entre seres humanos e animais. No campo das intervenções estruturadas, encontram-se as Intervenções Assistidas por Animais (IAA), que são planejadas e orientadas por objetivos, podendo incluir diferentes modalidades, entre elas a Terapia Assistida por Animais (TAA) (Fine et al., 2019; Fournier et al., 2016).

Benefícios Observados A TAA promove benefícios emocionais (como a redução da ansiedade), sociais (estímulo à comunicação e empatia), sensoriais (estímulos táteis e auditivos que auxiliam na regulação sensorial) e físicos (atividade motora promovida por passeios ou hipoterapia) (Whitehouse et al., 2020).

A TAA caracteriza-se por uma intervenção terapêutica planejada e estruturada, dirigida e/ou realizada por profissionais das áreas da saúde, educação ou serviços humanos, com objetivos definidos e acompanhamento dos resultados. Dessa forma, a interação humano-animal não deve ser utilizada como sinônimo de IAA ou TAA, uma vez que nem todo contato ou interação com um animal constitui uma intervenção terapêutica (Muñoz LASA et al., 2015).

Para crianças e adolescentes institucionalizados, a presença de um animal pode representar uma experiência relacional diferenciada, capaz de facilitar aproximações e interações em um ambiente no qual a construção de vínculos seguros pode apresentar desafios. Nesse contexto, a interação com o cão pode favorecer diferentes aspectos do desenvolvimento e das relações sociais, uma vez que sua presença pode contribuir para a socialização, a estimulação mental, o contato e a aprendizagem (Cechetti et al., 2016).

Diante desse contexto, este trabalho parte da seguinte questão: de que maneira a literatura científica aborda as possíveis contribuições da interação com animais para a construção de vínculos seguros e para o bem-estar emocional de crianças e adolescentes institucionalizados, especialmente no que se refere aos sintomas depressivos?

Nesse sentido, o objetivo geral deste estudo consiste em investigar, a partir da literatura científica, as possíveis contribuições da interação com animais para a construção de vínculos seguros e para o bem-estar emocional de crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional, considerando sua relação com os sintomas depressivos.

Para o alcance desse objetivo, foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos: identificar os possíveis benefícios da interação entre crianças e adolescentes e os animais para o bem-estar emocional; analisar de que maneira a presença de animais pode favorecer experiências de confiança, segurança, comunicação e interação social; compreender a relação entre a interação com animais e os sintomas depressivos em crianças e adolescentes institucionalizados.

Essa pesquisa trata-se de uma abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica, desenvolvida a partir do levantamento e da análise de livros, artigos científicos, documentos institucionais, legislações e demais produções acadêmicas pertinentes à temática. O material selecionado foi orientado pela articulação entre os conceitos de acolhimento institucional, saúde mental, depressão infantojuvenil, teoria do apego, vínculo seguro e interação humano-animal.

2. A INSTITUCIONALIZAÇÃO E OS IMPACTOS NO DESENVOLVIMENTO INFANTOJUVENIL

No contexto da institucionalização, os mecanismos de ação da Terapia Assistida por Animais (TAA) podem assumir relevância diante dos impactos que o afastamento do convívio familiar e a ruptura ou fragilização de vínculos afetivos podem produzir no desenvolvimento infantojuvenil. Nesse sentido, estudo realizado com adolescentes em acolhimento residencial identificou que a participação em intervenção com TAA esteve associada ao aumento de indicadores de segurança do apego, sugerindo que esse tipo de intervenção pode contribuir para aspectos relacionais e socioemocionais de jovens que vivenciaram experiências traumáticas na infância (Balluerka et al., 2014).

A facilitação das interações sociais e o fortalecimento do vínculo humano-animal podem favorecer a criação de relações de confiança, contribuindo para a expressão de sentimentos e para a redução de barreiras emocionais, como ansiedade, medo e insegurança. Nesse sentido, os animais podem atuar como mediadores das interações, proporcionando experiências de acolhimento e contato afetivo que podem favorecer aspectos socioemocionais de crianças e adolescentes em acolhimento institucional (Sarris, 2023).

A Terapia Assistida por Animais (TAA) possui raízes em práticas antigas, porém sua sistematização moderna está associada aos estudos do psiquiatra Boris Levinson, a partir da década de 1960. Desde então, a utilização de animais como recurso terapêutico ampliou-se em diferentes contextos, incluindo instituições de saúde e educação (Kesherin, 2025; Teixeira, 2025). No contexto do acolhimento institucional, a TAA pode constituir uma estratégia complementar de cuidado, especialmente diante dos impactos que a institucionalização pode produzir sobre o desenvolvimento emocional, social e afetivo de crianças e adolescentes. A inserção de animais em atividades mediadas pode favorecer experiências de interação, vínculo, acolhimento e expressão emocional, contribuindo para a construção de relações sociais mais positivas no ambiente institucional.

2.1. Depressão em Crianças e Adolescentes Institucionalizados

Diante desse contexto, torna-se relevante destacar o risco de suicídio nessa população, uma vez que 20% dos adolescentes apresentam planejamento suicida, enquanto 8% chegam a cometer suicídio. Além disso, a depressão e o abuso sexual constituem importantes fatores de risco associados a esses acontecimentos, o que reforça a necessidade de atenção, prevenção e acompanhamento adequado dessa população (Carballo et al., 2020; SILVA, BARROS, 2021).

No contexto institucional, a atenção a esse fenômeno torna-se ainda mais relevante, considerando que muitas crianças e adolescentes acolhidos possuem trajetórias marcadas por rupturas familiares, abandono, negligência, violência e outras experiências adversas. Por conta disso, é elevada a prevalência de transtornos psiquiátricos em crianças e adolescentes em instituições (Greger et al., 2016).

Diante disso, o cuidado institucional não deve se limitar à garantia das necessidades materiais, mas também contemplar a dimensão afetiva e relacional, uma vez que a qualidade dos vínculos estabelecidos pode constituir um importante fator de proteção para a saúde mental de crianças e adolescentes institucionalizados.

3. A INTERAÇÃO COM ANIMAIS, O VÍNCULO E O BEM-ESTAR EMOCIONAL

A Terapia Assistida por Animais (TAA) tem sido reconhecida como uma abordagem complementar para os diversos contextos terapêuticos, principalmente quando é mediada por cães. Segundo os estudos de Fine (2019) e Serpell (2017), a interação com esses animais pode promover benefícios significativos à saúde física, emocional e cognitiva dos indivíduos, reduzindo o estresse, ansiedade e depressão, além de favorecer a socialização e a adesão ao tratamento.

A interação mediada por animais pode constituir um recurso complementar de cuidado, favorecendo experiência de afeto, companhia e segurança, além de contribuir para expressão de sentimentos, a interação social e a construção de relações positivas no ambiente institucional. Fine (2019) também aponta a TAA como uma estratégia coadjuvante eficaz no cuidado à saúde mental, enfatizando sua capacidade de criar um ambiente mais acolhedor.

A partir de então, a TAA avançou, articulando diferentes áreas do conhecimento, como saúde, educação, assistência social, e passou a ser aplicada em hospitais, escolas, centros terapêuticos e instituições de acolhimento (Galeno, 2019; Rui, Oliveira e Cassiano, 2020). Para crianças e adolescentes que vivenciaram o rompimento de vínculos entre seus familiares e diferentes situações de vulnerabilidade, essas experiências podem proporcionar construção de relações de confiança e fortalecimento de vínculos efetivos, aspectos relevantes para o desenvolvimento emocional e social.

No Brasil, destaca-se a contribuição da médica psiquiatra Nise da Silveira, que introduziu o convívio com cães e gatos no ambiente hospitalar para romper com a lógica punitiva dos manicômios, propondo uma clínica pautada na afetividade, no vínculo e na expressão simbólica (Rocha et al., 2016). Já no ambiente institucional, a interação com animais pode constituir uma possibilidade de aproximação efetiva, favorecendo sentimentos de segurança, pertencimento e acolhimento no ambiente institucional.

3.1. Possíveis Contribuições e Limites da Interação com Animais para Crianças e Adolescentes Institucionalizados

A presença do animal pode favorecer momentos de interação, comunicação e socialização, proporcionando experiências relacionais positivas em um ambiente no qual a construção de vínculos afetivos pode apresentar desafios. Para garantir uma interação segura e produtiva, de acordo com Sousa (2016), a seleção do cão deve considerar aspectos como temperamento, socialização e adestramento. Conforme o autor, animais que apresentam comportamento calmo em situações inesperadas, responsividade ao condutor, boa atenção diante de distrações e bom desempenho em comandos básicos são os mais indicados.

Diante disso, a escolha adequada do animal constitui um aspecto necessário para a realização das intervenções assistidas por animais, uma vez que o comportamento do cão pode interferir diretamente na segurança e na qualidade da interação estabelecida com crianças e adolescentes. O uso de animais no contexto terapêutico deve respeitar sua condição de seres sencientes, evitando qualquer instrumentalização que os reduza a meros recursos clínicos.

Nesse sentido, a TAA deve ser entendida como estratégia complementar ao trabalho psicoterapêutico, nunca substituta da escuta qualificada, da técnica e da ética profissional. Ricardo (2017) destaca que a presença do cão pode mobilizar processos de identificação projetiva, nos quais a criança e o adolescente reconhecem no animal aspectos de sua própria subjetividade, favorecendo a elaboração de afetos difíceis, como medo, tristeza, abandono ou solidão em contextos de fragilidade nos vínculos humanos. Esse animal pode funcionar como um elemento mediador no processo terapêutico, favorecendo a aproximação, a comunicação e a construção gradual de confiança.

4. RESULTADOS E ANÁLISES

A análise da literatura evidenciou que a construção de vínculos afetivos constitui um aspecto relevante para o desenvolvimento emocional e social de crianças e adolescentes. Bernal Rivas e Avello-Sáez (2023) destacam a importância dos vínculos de apego para aspectos como regulação emocional, autoestima e estabelecimento de relações interpessoais.

Essa compreensão torna-se particularmente significativa no contexto do acolhimento institucional, considerando que o afastamento do convívio familiar pode ser acompanhado pela ruptura ou fragilização de relações afetivas anteriormente estabelecidas. Nesse sentido, Fonseca (2017) compreende o acolhimento institucional como uma medida de proteção destinada a crianças e adolescentes em situações que demandam afastamento do ambiente familiar, o que evidencia a necessidade de que esse espaço também possibilite condições favoráveis ao desenvolvimento e à proteção integral.

A partir desses pressupostos, observa-se que a institucionalização não deve ser analisada exclusivamente como uma medida de proteção, mas também considerando as repercussões emocionais e relacionais que podem acompanhar a mudança de ambiente e o afastamento de figuras familiares. Greger et al. (2016), ao investigarem crianças e adolescentes em instituições, identificaram elevada ocorrência de problemas de saúde mental nessa população, evidenciando a necessidade de estratégias de cuidado que considerem suas experiências anteriores e as condições de desenvolvimento no contexto institucional. Dessa forma, os resultados encontrados na literatura reforçam a importância de intervenções que ultrapassem o atendimento das necessidades materiais e contemplem também aspectos emocionais, sociais e relacionais.

Nesse contexto, a interação humano-animal apresenta-se na literatura como uma possibilidade de intervenção complementar. Fine (2019) destaca que as Intervenções Assistidas por Animais podem ser estruturadas de acordo com objetivos específicos e utilizadas em diferentes contextos de cuidado, enquanto Muñoz Lasa et al. (2015) ressaltam a necessidade de diferenciar a interação humano-animal das intervenções terapêuticas propriamente estruturadas. Essa distinção é importante para o presente estudo, pois permite compreender que a simples presença de um animal não caracteriza uma Terapia Assistida por Animais. Para que seja considerada TAA, é necessário planejamento, objetivos definidos, participação profissional e acompanhamento da intervenção.

A literatura analisada também permite identificar que o animal pode assumir uma função mediadora nas relações estabelecidas durante as intervenções. Fournier et al. (2016) discutem o potencial das intervenções assistidas por animais para favorecer aspectos relacionados à interação social, enquanto Cecchetti et al. (2016) apontam possibilidades relacionadas à presença do cão em experiências de socialização, contato e aprendizagem.

Essa perspectiva aproxima-se das contribuições de Ricardo (2017), para quem a presença do cão pode funcionar como elemento mediador no processo terapêutico, favorecendo a expressão e a elaboração de conteúdos emocionais. A partir dessa compreensão, o animal pode oferecer uma possibilidade de aproximação menos ameaçadora, permitindo que a criança estabeleça inicialmente uma relação de contato e confiança e, posteriormente, amplie suas possibilidades de interação com o profissional e com outras pessoas. Entretanto, essa interpretação deve ser compreendida como uma possibilidade teórica e não como um efeito necessariamente produzido em todos os indivíduos.

Em relação ao bem-estar emocional, Fine (2019) apresenta as intervenções assistidas por animais como recurso complementar utilizado em diferentes contextos de cuidado. Essa diferença entre as populações estudadas constitui um dos principais aspectos identificados na análise. Embora existam estudos sobre intervenções assistidas por animais em diferentes grupos, observa-se menor quantidade de evidências especificamente direcionadas a crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional. Portanto, a possibilidade de utilização da TAA nesse contexto deve ser apresentada como uma estratégia potencial e complementar, e não como uma intervenção cuja eficácia esteja definitivamente estabelecida para essa população.

No que se refere aos sintomas depressivos, a literatura analisada também exige cautela. A presença de adversidades, rupturas familiares, negligência, violência e outras experiências potencialmente traumáticas pode aumentar a vulnerabilidade ao sofrimento emocional. Greger et al. (2016) demonstraram a relevância dos problemas de saúde mental entre crianças e adolescentes institucionalizados, reforçando a necessidade de acompanhamento especializado. Entretanto, os estudos analisados não permitem afirmar que a TAA, isoladamente, seja capaz de prevenir ou reduzir sintomas depressivos nessa população. Dessa maneira, sua possível contribuição deve ser compreendida dentro de uma perspectiva ampliada de atenção à saúde mental.

Outro resultado importante refere-se à necessidade de garantir que a intervenção seja planejada também a partir das características do animal. Souza (2016) ressalta a importância de considerar aspectos como temperamento, socialização, capacidade de responder ao condutor e comportamento diante de situações inesperadas. Essa questão assume relevância especialmente quando se trabalha com crianças e adolescentes, uma vez que a segurança dos participantes deve constituir um dos critérios fundamentais para a realização das atividades. Assim, a seleção adequada do animal está diretamente relacionada à qualidade e à segurança da intervenção.

No contexto brasileiro, a experiência de Nise da Silveira também contribui para compreender historicamente a importância das relações afetivas mediadas por animais. Rocha et al. (2016) destacam a utilização de cães e gatos no trabalho desenvolvido pela psiquiatra, evidenciando uma perspectiva de cuidado fundamentada na afetividade e na relação com o outro. Embora essa experiência não corresponda diretamente à atual definição técnica de TAA, ela contribui para a compreensão histórica da utilização da relação com animais como recurso associado às práticas de cuidado em saúde mental.

Dessa forma, ao relacionar os resultados encontrados com os objetivos desta pesquisa, verifica-se que a interação com animais apresenta potencial para favorecer experiências de comunicação, socialização, aproximação e acolhimento. Fine (2019), Fournier et al. (2016), Cecchetti et al. (2016) e Ricardo (2017) convergem, sob diferentes perspectivas, para a compreensão de que o animal pode assumir uma função mediadora nas relações e favorecer determinadas experiências socioemocionais.

No que se refere especificamente à construção de vínculos seguros, a literatura permite estabelecer uma relação teórica entre a importância do apego e a possibilidade de utilização da interação com animais como recurso complementar. Bernal Rivas e Avello-Sáez (2023) ressaltam a importância dos vínculos para o desenvolvimento emocional, enquanto Fine (2019) e Ricardo (2017) apresentam possibilidades relacionadas à função mediadora da interação com animais. Assim, pode-se compreender que a TAA pode criar oportunidades para experiências de confiança e interação, mas não substitui a construção de vínculos humanos estáveis, que permanecem fundamentais para o desenvolvimento infantojuvenil.

Portanto, os resultados da análise bibliográfica indicam que a Terapia Assistida por Animais pode ser compreendida como uma estratégia complementar de cuidado, especialmente por seu possível papel mediador nas relações, na comunicação e nas experiências de interação social.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise realizada permitiu compreender que a institucionalização pode estar associada a experiências de ruptura familiar, fragilização dos vínculos afetivos e vulnerabilidades que repercutem no desenvolvimento emocional e psicológico de crianças e adolescentes. Nesse contexto, a necessidade de cuidado ultrapassa a garantia das condições materiais, envolvendo também acolhimento, escuta, segurança emocional e oportunidades para o estabelecimento de relações afetivas significativas.

Os resultados evidenciaram que a interação humano-animal pode atuar como um recurso complementar no cuidado de crianças e adolescentes institucionalizados, especialmente por favorecer experiências de aproximação, comunicação, socialização, expressão emocional e confiança. A presença do animal, particularmente do cão, pode funcionar como elemento mediador da interação terapêutica, contribuindo para a construção gradual de relações mais acolhedoras e para o fortalecimento de experiências relacionadas ao vínculo seguro.

Em relação aos sintomas depressivos, a literatura analisada indica que a interação com animais apresenta potencial para favorecer o bem-estar emocional, reduzir o isolamento e ampliar experiências de afeto e socialização. Entretanto, não se pode afirmar que a presença do animal, isoladamente, seja responsável pela redução ou remissão da depressão. Dessa forma, a Terapia Assistida por Animais deve ser compreendida como uma estratégia complementar, articulada ao acompanhamento psicológico e às demais ações de cuidado em saúde mental.

Conclui-se, portanto, que a interação com animais pode contribuir para o cuidado integral de crianças e adolescentes institucionalizados, apresentando possibilidades relevantes tanto para o fortalecimento das relações de confiança quanto para a promoção do bem-estar psicológico. A utilização desse recurso, contudo, deve ocorrer de forma planejada, ética e segura, considerando as necessidades dos sujeitos envolvidos, o preparo dos profissionais e o bem-estar do próprio animal.

Por fim, destaca-se a importância da ampliação de estudos sobre a utilização de intervenções assistidas por animais especificamente com crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional, considerando as particularidades desse público. Novas pesquisas poderão contribuir para uma compreensão mais aprofundada dos efeitos dessas intervenções sobre a construção de vínculos e os sintomas depressivos, fortalecendo as possibilidades de utilização de estratégias complementares no campo da saúde mental.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BALLUERKA, Nekane; MUELA, Alexander; AMIANO, Nora; CALDENTEY, Miquel A. Influence of animal-assisted therapy (AAT) on the attachment representations of youth in residential care. Children and Youth Services Review, v. 42, p. 103-109, 2014. DOI: 10.1016/j.childyouth.2014.04.007.

BERNAL RIVAS, Francisco; AVELLO-SÁEZ, Daniela. Efeitos do apego e do processamento sensorial no desenvolvimento da criança: uma revisão sistemática. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, v. 31, e3527, 2023. DOI: 10.1590/2526-8910.ctoAR270435272.

CARBALLO, J. J. et al. Psychosocial risk factors for suicidality in children and adolescents. European Child & Adolescent Psychiatry, v. 29, n. 6, p. 759-776, 2020. DOI: https://doi.org/10.1007/s00787-018-01270-9.

CECHETTI, F., Pagnussat, A. S., Marim, K. E., Bertuol, P., Todero, F. Z., & Ballardim, S. A. D. O. (2016). Terapia Assistida por Animais como recurso fisioterapêutico para idosos institucionalizados. Scientia Medica, 26(3), 1-6. https://doi.org/10.15448/1980-6108.2016.3.23686

FINE, A. H., Beck, A. M., & Ng, Z. (2019). The state of animal-assisted interventions: Addressing the contemporary issues that will shape the future. International Journal of Environmental Research and Public Health, 16(20), 1-18. https://doi.org/10.3390/ijerph16203997

FONSECA, Patrícia Nunes da. O impacto do acolhimento institucional na vida de adolescentes. Revista Psicopedagogia, São Paulo, v. 34, n. 105, p. 285-296, 2017.

FOURNIER, A. K., Berry, T. D., Letson, E., & Chanen, R. (2016). The human-animal interaction scale: Development and evaluation. Anthrozoös, 29(3), 455-467. https://doi.org/10.1080/08927936.20 16.1181372

GALENO, L. F. Terapia Assistida com Animais: cães promovendo saúde e felicidade. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade Araguaia para obtenção do título de Licenciada em Ciências Biológicas. Goiânia, 2019.

GREGER, H. et al. Child maltreatment and quality of life: a study of adolescents in residential care. Health Qual Life Outcomes. v. 14, 2016.

KESHERIN, R. Autism & animal-assisted therapy: the potential to treatment. 2025. Disponível em: https://www.totalcareaba.com/autism/autism-animal-assisted-therapy. Acesso em: 07 Out. 2026.

MCCALL, R.B. The consequences of early institutionalization: Can institutions be improved? Should they? Child and Adolesc Mental Health. v.18, n. 4, p. 193–201, 2014.

MUÑOZ LASA, S., Máximo Bocanegra, N., Valero Alcaide, R., Atín Arratibel, M. A., Varela Donoso, E., & Ferriero, G. (2015). Animal assisted interventions in neurorehabilitation: A review of the most recent literature. Neurologia, 30(1), 1-7. https://doi.org/10.1016/j.nrl.2013.01.012

NASCIMENTO, Rubia; PIASSÃO, Cristiane. Avaliação e estimulação do desenvolvimento neuropsicomotor em lactentes institucionalizados. Revista Neurociências, 2010, p. 469-480. Disponível em: http://www.revistaneurociencias.com.br/edicoes/2010/RN1804/418%20relato%20de%20caso.pdf. Acesso em: 07 out. 2026.

RICARDO, S. Aspectos psicanalíticos da terapia assistida por animais. Revista Psicanálise & Saúde, v. 12, n. 4, p. 79-90, 2017.

ROCHA, M. et al. História da terapia assistida por animais: do York Retreat à clínica contemporânea. Revista História da Psicologia, v. 10, n. 1, p. 23-38, 2016.

RUI, Gabriela Aparecida; OLIVEIRA, Jaqueline Tomaz de; CASSIANO, Rafaela Guilherme Monte. Terapia assistida por animais e psicologia: um estudo de revisão bibliográfica. 2020. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia) – Centro Universitário UNIFAFIBE, Bebedouro, 2020.

SARRIS, M. Animal interventions in autism. SPARK for Autism, 2023. Disponível em: https://sparkforautism.org/discover_article/animal-interventions-autism/. Acesso em: 07 out. 2026.

SERPELL, J. A. The domestic dog. Cambridge University Press. Ed., (2017).

SILVA, Mariana Marques da; BARROS, Lucian da Silva. A contribuição da escola para a promoção da saúde mental de adolescentes no combate à depressão e ao suicídio. Brazilian Journal of Development, v. 7, n. 3, p. 21078-21095, 2021. DOI: https://doi.org/10.34117/bjdv7n3-017.

SILVA, P. et al. Critérios para seleção e treinamento de cães em terapia assistida. Revista Brasileira de Terapia Animal, v. 7, n. 3, p. 40-49, 2015.

SOUSA, F. Guia para adestramento e manejo de cães em terapia. Revista Clínica Veterinária, v. 18, n. 4, p. 85-92, 2016.

TEIXEIRA, W. I. da S. Impactos da Terapia Assistida por Animais na Saúde Mental e Física: uma abordagem integrada. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: [s.n.], 2025.

WHITEHOUSE, Andrew J. O. et al. Intervenções para crianças no espectro autista: uma síntese de evidências de pesquisa. Autism CRC, Brisbane, 2020. Disponível em: https://www.autismcrc.com.au/interventions-evidence/category-overview/animal-assisted. Acesso em: 07 Out. 2026.


1 Acadêmica do curso de Psicologia - Faculdade de Educação Santa Teresinha - FEST. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Administradora, Advogada, Psicóloga e Teóloga. Especialista em Docência do Ensino Superior e em Gestão e Legislação Tributária. Docente da Faculdade de Educação Santa Terezinha (FEST). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.