NEUROSE DE ANSIEDADE DIGITAL NA POPULAÇÃO DO SÉCULO XXI

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.15104787


Marco Antonio de Carvalho Assis1


RESUMO
Esta tese terá a função de mostrar como o efeito das mídias sociais tem causado sintomas neuróticos nos indivíduos, afetando suas vidas pessoais e profissionais. Quando a internet foi liberada para a população em geral, em meados de 1995, o uso da internet estava limitado a ver informações institucionais de empresas, visitar lojas online (que funcionavam de maneira limitada, já que não havia meios eficientes de pagamento digital nesse início, nem sistemas realmente seguros para proteger essas lojas e os consumidores) e ler notícias em geral.Com o passar do tempo, surgiram funcionalidades sociais em grandes websites, inicialmente, as salas de bate-papo, em que pessoas desconhecidas poderiam interagir entre si, se conhecer e manter contato. Ainda em 1995, surge a primeira rede social do mundo, chamada de “Classmates.com” que originalmente tinha como missão reunir, de maneira digital, antigos colegas de escola. Essa rede social curiosamente ainda está em funcionamento, mesmo que não conte com os recursos modernos e facilidades das redes sociais mais populares do século XXI. No início dos anos 2000, se popularizaram os serviços no formato que ficou conhecido como “flogs” que eram uma mistura de um blog (cuja função original era ser uma espécie de diário online) e uma página de fotos. Funcionava da seguinte maneira: uma pessoa criava uma conta e criava uma página em que poderia publicar suas fotos que depois recebiam comentários de outras pessoas. Muito semelhante, ainda que de maneira um pouco simplificada, ao que oferece a empresa Tumblr (criado em 2007 por David Karp, nos Estados Unidos). Vários serviços foram criados, tanto no Brasil, como em outras partes do mundo nessa época. É importante fazer aqui um esclarecimento: nem toda mídia social é uma rede social, mas toda rede social é uma mídia social. A mídia social é um termo mais amplo que se refere a plataformas e tecnologias online que permitem a criação, compartilhamento e troca de conteúdo gerado pelos usuários. Esses conteúdos podem incluir textos, fotos, vídeos, links e outros tipos de informações. As mídias sociais oferecem meios para que as pessoas e organizações se envolvam em interações sociais e criem comunidades virtuais em torno de interesses compartilhados. Exemplos de plataformas de mídia social incluem Facebook, Twitter, Instagram, LinkedIn, YouTube, TikTok, Pinterest, entre outras. Cada uma dessas plataformas pode ter diferentes formatos de conteúdo e propósitos específicos. Uma rede social é uma estrutura social composta por indivíduos ou organizações que estão conectados entre si por laços sociais, como amizade, família, interesses comuns, relações profissionais ou outros tipos de interações sociais. Em outras palavras, é a representação das conexões e relacionamentos entre pessoas ou grupos. Quando falamos de "rede social" no contexto online, geralmente estamos nos referindo a uma plataforma de mídia social específica que permite que os usuários criem perfis individuais e interajam uns com os outros através de amizades, seguidores ou conexões. Assim, as redes sociais online são apenas uma das formas de redes sociais no contexto mais amplo. Com o passar do tempo, empresários perceberam que as pessoas gostam de se socializar e que os meios digitais poderiam oferecer mais opções de interação. As redes sociais ganharam funções como postagem de vídeos, compartilhamento de postagens, reagir a uma publicação, utilizando “emojis” e até mesmo jogos eletrônicos foram criados para serem jogados dentro de algumas redes sociais. No Brasil, com o sucesso da rede social Orkut, lançado em 2004, se iniciava uma nova era no que se refere a rede social. Cerca de 30 milhões de contas foram criadas, somente no Brasil. A rede social apresentava entre outras funções os grupos, em que pessoas com o mesmo interesse se reuniam para discutir filmes, romance, jogos e muito mais. Também era destaque a função “depoimento”, em que era possível escrever um pequeno texto em homenagem na página de um contato nesta rede social. O Facebook, criado também em 2004 revolucionou esse mercado, trazendo ainda mais possibilidades de interação, uma aparência esteticamente bonita e fácil de usar, sendo atualmente a maior rede social do mundo, com mais de um bilhão e meio de usuários em 2023. O objetivo das redes sociais foi, com o passar do tempo, fazer com que as pessoas que as usam passassem o maior tempo possível vendo seus conteúdos. Isso é importante para essas empresas, já que são ao mesmo tempo, oportunidades de conhecer as preferências e hábitos de seus usuários, como também oportunidades de mostrar anúncios para mais pessoas. Quanto mais tempo de uso em uma rede social típica, mais exposição a anúncios a pessoa tem.
Ao mesmo tempo em que as redes sociais evoluíam, as maneiras de consumir o conteúdo nelas também evoluiu. O que antes somente poderia ser feito em um computador que dependia de uma internet via modem discada de baixa velocidade, hoje pode ser feita não apenas em computadores mais potentes e com conexões muito mais rápidas, como também por meios móveis como celulares e tablets eletrônicos. A neurose é um conceito utilizado principalmente na Psicanálise que inclui diversos transtornos mentais caracterizados por sintomas psicológicos, emocionais e comportamentais, mas que não apresentavam uma perda completa de contato com a realidade, como ocorre nas psicoses. Este artigo propõe o conceito de “neurose de ansiedade digital” que se caracteriza pela ansiedade típica, causada por eventos relacionados a redes sociais e a internet. Amplia o conceito de nomofobia.
Palavras-chave: Nomofobia, psicanálise, redes sociais, neurose de ansiedade

ABSTRACT
This thesis aims to demonstrate how the impact of social media has caused neurotic symptoms in individuals, affecting their personal and professional lives. When the internet was made available to the general population in the mid-1990s, internet usage was limited to viewing institutional information from companies, visiting online stores (which operated in a limited manner, as there were no efficient digital payment methods at the time, nor were there truly secure systems to protect these stores and consumers), and reading news in general. Over time, social functionalities emerged on large websites, initially in the form of chat rooms, where strangers could interact, get to know each other, and stay in touch. In 1995, the world's first social network, called "Classmates.com," emerged, originally aimed at digitally bringing together former schoolmates. This social network is still operational, albeit lacking the modern features and conveniences of 21st-century social networks. In the early 2000s, services in the format known as "flogs" became popular, which were a mixture of a blog (originally designed to be a kind of online diary) and a photo page. It worked as follows: a person created an account and a page where they could post photos that would then receive comments from other people. Very similar, albeit somewhat simplified, to what the company Tumblr offers (created in 2007 by David Karp in the United States). Several services were created, both in Brazil and in other parts of the world at that time. It is important to clarify here: not all social media is a social network, but every social network is a social media. Social media is a broader term referring to online platforms and technologies that allow for the creation, sharing, and exchange of user-generated content. This content may include text, photos, videos, links, and other types of information. Social media provides means for people and organizations to engage in social interactions and create virtual communities around shared interests. Examples of social media platforms include Facebook, Twitter, Instagram, LinkedIn, YouTube, TikTok, Pinterest, among others. Each of these platforms may have different content formats and specific purposes. A social network is a social structure composed of individuals or organizations that are connected to each other by social ties, such as friendship, family, common interests, professional relationships, or other types of social interactions. In other words, it is the representation of connections and relationships between people or groups. When we talk about "social network" in the online context, we are usually referring to a specific social media platform that allows users to create individual profiles and interact with each other through friendships, followers, or connections. Thus, online social networks are just one form of social networks in the broader context. Over time, entrepreneurs realized that people like to socialize and that digital media could offer more interaction options. Social networks gained functions such as posting videos, sharing posts, reacting to a publication using "emojis," and even electronic games were created to be played within some social networks. In Brazil, with the success of the social network Orkut, launched in 2004, a new era began regarding social networks. Approximately 30 million accounts were created in Brazil alone. Among other functions, the social network featured groups, where people with the same interests gathered to discuss movies, romance, games, and much more. Also noteworthy was the "testimonial" function, where it was possible to write a short text in homage on a contact's page on this social network. Facebook, also created in 2004, revolutionized this market, bringing even more interaction possibilities, aesthetically pleasing appearance, and user-friendly interface, currently being the largest social network in the world, with over one and a half billion users in 2023.
The goal of social networks was, over time, to make people who use them spend as much time as possible viewing their content. This is important for these companies, as they are both opportunities to learn about their users' preferences and habits and opportunities to show ads to more people. The more typical social network usage time, the more exposure to ads a person has. At the same time that social networks evolved, the ways to consume content on them also evolved. What could previously only be done on a computer that depended on a slow dial-up internet connection, today can be done not only on more powerful computers with much faster connections but also on mobile devices such as cell phones and electronic tablets. Neurosis is a concept primarily used in Psychoanalysis that includes various mental disorders characterized by psychological, emotional, and behavioral symptoms but does not involve a complete loss of contact with reality, as in psychoses. This article proposes the concept of "digital anxiety neurosis," characterized by typical anxiety caused by events related to social networks and the internet. It broadens the concept of nomophobia.
Keywords: Nomophobia, psychoanalysis, social networks, anxiety neurosis

Introdução

Este trabalho foi motivado pela evolução do que pode ser chamado de “Revolução Digital”, iniciada em meados dos anos 1990 no mundo todo. As redes sociais abriram um marco nas comunicações humanas. No período anterior ao advento da internet, as pessoas costumavam socializar-se principalmente em pessoa, mas também se valiam de meios como cartas, ligações telefônicas, telegramas e envio de outros materiais utilizando os serviços de correios ou outros semelhantes.

A presente tese propõe a “neurose de ansiedade digital” como um novo construto teórico, caracterizado por um conjunto específico de sintomas psicológicos e comportamentais decorrentes do uso excessivo e desregulado das tecnologias digitais, principalmente das redes sociais. Esta condição difere significativamente de outros transtornos relacionados ao uso digital, como o vício em internet ou a nomofobia, apesar da existência de sobreposições sintomáticas.

Para diferenciar a “neurose de ansiedade digital”, propomos os seguintes critérios diagnósticos, baseados em uma combinação de aspectos fenomenológicos, psicodinâmicos e comportamentais:

Critérios Diagnósticos Propostos para Neurose de Ansiedade Digital:

A neurose de ansiedade digital deve se manifestar com pelo menos três dos seguintes sintomas, presentes na maior parte dos dias durante pelo menos seis meses:

A. Sintomas Emocionais:

Ansiedade excessiva e persistente: Preocupação desproporcional e incontrolável com a avaliação social online, medo de julgamentos negativos ou rejeição nas redes sociais, acompanhado de sintomas somáticos de ansiedade (taquicardia, sudorese, tremores etc.). A ansiedade persiste mesmo fora do ambiente digital, mas é acentuada pela exposição online.

Medo intenso e persistente de desconexão: Experiência de desconforto significativo, ansiedade ou pânico quando sem acesso ou com acesso limitado à internet e dispositivos digitais. Esta sensação de desespero está além de uma simples inconveniência, impactando significativamente as atividades diárias.

Humor deprimido e baixa autoestima: Sensibilidade exacerbada a comentários negativos online, levando a sentimentos de inadequação, inferioridade e baixa autoestima. Esse impacto é constante e afeta a autopercepção fora do ambiente virtual.

B. Sintomas Comportamentais:

Comportamentos compulsivos de verificação: Verificação excessiva e recorrente de notificações, atualizações, curtidas e comentários em redes sociais, mesmo na ausência de novas informações. Essas ações interferem nas atividades diárias.

Uso excessivo como mecanismo de fuga: Uso desregulado das redes sociais e tecnologias digitais como forma de escape para evitar situações ou sentimentos desagradáveis na vida real. A evitação dos conflitos internos se torna crônica e desadaptativa.

Dificuldade de desintoxicação digital: Tentativas repetidas e infrutíferas de controlar ou reduzir o uso excessivo de tecnologias digitais, levando a crises de ansiedade e pânico se houver tentativa de redução.

Diferença de Outros Transtornos:

Em relação ao Vício em Internet: A neurose de ansiedade digital difere do vício em internet pela ênfase na ansiedade e nas reações emocionais negativas ao uso digital, enquanto o vício em internet prioriza o aspecto comportamental (uso excessivo e incapacidade de controle). Embora haja sobreposição, o vício em internet não necessariamente implica em sofrimento psíquico intenso.

Em relação à Nomofobia: Nomofobia é focada no medo específico de ficar sem o telefone celular. A neurose de ansiedade digital tem um escopo mais amplo, englobando várias tecnologias e plataformas digitais, e o medo da desconexão se manifesta como parte de uma sintomatologia mais abrangente, incluindo ansiedade, depressão e problemas de identidade.

Em relação a outros Transtornos de Ansiedade: A neurose de ansiedade digital apresenta sintomas de ansiedade, mas também outros sintomas de origem psicodinâmica e comportamental, como os relacionados à identidade digital e ao uso excessivo como escape. A intensidade, persistência e contexto do sofrimento a diferenciam de outros transtornos de ansiedade mais específicos.

Inicialmente, as redes sociais eram concebidas como plataformas digitais onde as pessoas podiam se conectar e interagir com amigos, familiares e até mesmo estranhos, compartilhando informações, fotos, vídeos e pensamentos. Exemplos pioneiros incluem sites como o Friendster e o MySpace, que pavimentaram o caminho para gigantes contemporâneos como Facebook, Twitter, Instagram e LinkedIn.

A criação das redes sociais foi impulsionada por uma combinação de avanços tecnológicos e mudanças sociais. Por um lado, o desenvolvimento da internet e das tecnologias de comunicação digital tornou possível criar plataformas online onde pessoas de todo o mundo poderiam se conectar instantaneamente. Por outro lado, havia uma demanda crescente por formas alternativas de interação social, especialmente entre as gerações mais jovens, que estavam cada vez mais imersas na cultura digital.

A evolução das comunicações com o advento da internet trouxe consigo uma série de benefícios. As redes sociais democratizaram a comunicação, permitindo que qualquer pessoa com acesso à internet pudesse compartilhar suas ideias e se conectar com uma audiência global. Elas encurtaram distâncias geográficas, permitindo que amigos e familiares se mantivessem em contato, independentemente de estarem separados por continentes. Além disso, as redes sociais se tornaram uma ferramenta poderosa para ativismo e mobilização social, facilitando a organização de movimentos e campanhas em larga escala.

No entanto, junto com esses benefícios surgiram também uma série de desafios e problemas emocionais. A superexposição e a pressão por uma presença online perfeita levaram ao surgimento de questões como ansiedade, baixa autoestima e até mesmo depressão em alguns casos. As redes sociais criaram uma cultura de comparação constante, onde as pessoas comparam suas vidas e conquistas com as dos outros, muitas vezes levando a sentimentos de inadequação e insatisfação.

Além disso, a disseminação de notícias falsas e desinformação nas redes sociais tem contribuído para a polarização e divisão da sociedade. As bolhas de filtro algorítmicas, que mostram aos usuários conteúdos que reforçam suas crenças e opiniões preexistentes, têm levado a uma fragmentação do discurso público e dificultado o diálogo construtivo entre diferentes grupos e comunidades.

Portanto, enquanto as redes sociais e a revolução digital trouxeram inegáveis avanços na forma como nos comunicamos e interagimos, também é importante reconhecer e abordar os problemas emocionais e sociais que surgiram como resultado dessa transformação. É fundamental promover uma cultura de uso saudável e consciente das redes sociais, incentivando a autenticidade, a empatia e o pensamento crítico online.

Uma das principais questões que surgiram com o advento das redes sociais é a desconexão emocional. Apesar de estarmos mais conectados digitalmente do que nunca, muitas vezes isso ocorre em detrimento da conexão emocional genuína. As interações online tendem a ser mais superficiais e impessoais, com menos espaço para expressões sutis de emoções e nuances nas comunicações. Isso pode levar a uma sensação de isolamento e alienação, especialmente para aqueles que passam muito tempo nas redes sociais em detrimento de interações face a face.

Além disso, as redes sociais têm sido associadas a um aumento do cyberbullying e do assédio online. A anonimidade relativa proporcionada pela internet muitas vezes encoraja comportamentos agressivos e destrutivos, levando a consequências devastadoras para a saúde mental e emocional das vítimas. A constante exposição a comentários negativos e críticas nas redes sociais pode minar a autoconfiança e o bem-estar psicológico, especialmente entre os jovens, que são particularmente vulneráveis a essas pressões.

Outro aspecto importante a considerar é o impacto das redes sociais na nossa percepção da realidade e na construção da identidade. As plataformas de mídia social muitas vezes incentivam uma narrativa de sucesso e felicidade constante, onde as pessoas compartilham apenas os aspectos mais positivos de suas vidas, criando uma ilusão de perfeição. Isso pode levar a um fenômeno conhecido como FOMO (Fear of Missing Out), onde as pessoas se sentem inadequadas ou incompletas ao comparar suas vidas com as representações idealizadas dos outros nas redes sociais.

A neurose de ansiedade digital é um termo que descreve um conjunto de sintomas psicológicos associados ao uso excessivo e compulsivo das tecnologias digitais, especialmente das redes sociais. Essa condição pode ser caracterizada por uma preocupação constante com a validação social online, o medo de perder alguma informação ou interação importante nas redes sociais e uma sensação de desconforto ou agitação quando desconectado da internet.

Essa ansiedade digital pode se manifestar de diversas formas, desde a obsessão por verificar constantemente as notificações e atualizações das redes sociais até a dificuldade em se desconectar completamente, mesmo durante momentos de descanso e relaxamento. As pessoas afetadas pela neurose de ansiedade digital podem experimentar sintomas físicos, como tensão muscular, sudorese e palpitações cardíacas, além de sintomas emocionais, como irritabilidade, nervosismo e dificuldade em se concentrar em outras atividades.

Um dos principais impulsionadores da neurose de ansiedade digital é a constante pressão por estar sempre online e disponível, alimentada pela cultura de gratificação instantânea das redes sociais. As plataformas de mídia social são projetadas para serem altamente viciantes, com algoritmos que incentivam o consumo incessante de conteúdo e a busca por aprovação e validação por meio de curtidas, comentários e compartilhamentos.

Além disso, a neurose de ansiedade digital pode ser exacerbada pela comparação constante com os outros nas redes sociais. Ao ver as representações idealizadas das vidas de outras pessoas, muitas vezes acompanhadas por filtros e edições cuidadosas, os usuários podem desenvolver uma sensação de inadequação e insatisfação com suas próprias vidas, alimentando ainda mais a ansiedade e o desejo de se destacar e ser aceito.

Para combater a neurose de ansiedade digital, é importante adotar uma abordagem equilibrada e consciente em relação ao uso das tecnologias digitais. Isso inclui estabelecer limites claros para o tempo gasto nas redes sociais, praticar o autocuidado e a atenção plena, e cultivar conexões offline significativas e enriquecedoras. Além disso, é fundamental promover uma cultura de aceitação e autenticidade nas redes sociais, onde as pessoas se sintam confortáveis em compartilhar não apenas os momentos felizes e positivos, mas também suas vulnerabilidades e desafios. Ao reconhecer e abordar a neurose de ansiedade digital, podemos criar um ambiente online mais saudável e acolhedor, onde todos possam se sentir verdadeiramente conectados e apoiados, por isso, a formalização do conceito de neurose de ansiedade digital.

Adicionalmente, é crucial que a sociedade como um todo reconheça a importância de educar e capacitar as pessoas a desenvolverem habilidades digitais e emocionais saudáveis. Isso inclui ensinar estratégias para lidar com a pressão e a comparação nas redes sociais, promover uma compreensão crítica dos impactos da tecnologia na saúde mental e emocional e incentivar a busca por um equilíbrio saudável entre a vida online e offline. Além disso, é necessário que as próprias plataformas de mídia social assumam uma maior responsabilidade em proteger a saúde mental de seus usuários, implementando políticas e recursos que promovam o bem-estar e a segurança online. Ao abordar a neurose de ansiedade digital de maneira abrangente e colaborativa, podemos criar um ambiente digital mais inclusivo, empático e sustentável para todos.

No capítulo um, “A neurose de ansiedade digital” serão analisados todos os aspectos que contribuem e apoiam o desenvolvimento deste conceito.

Quando a internet foi liberada para a população em geral, em meados de 1995, o uso da internet estava limitado a ver informações institucionais de empresas, visitar lojas online (que funcionavam de maneira limitada, já que não havia meios eficientes de pagamento digital nesse início, nem sistemas realmente seguros para proteger essas lojas e os consumidores) e ler notícias em geral.

Com o passar do tempo, surgiram funcionalidades sociais em grandes websites, inicialmente, as salas de bate-papo, em que pessoas desconhecidas poderiam interagir entre si, se conhecer e manter contato. Ainda em 1995, surge a primeira rede social do mundo, chamada de “Classmates.com” que originalmente tinha como missão reunir, de maneira digital, antigos colegas de escola.

Essa rede social curiosamente ainda está em funcionamento, mesmo que não conte com os recursos modernos e facilidades das redes sociais mais populares do século XXI. No início dos anos 2000, se popularizaram os serviços no formato que ficou conhecido como “flogs” que eram uma mistura de um blog (cuja função original era ser uma espécie de diário online) e uma página de fotos. Funcionava da seguinte maneira: uma pessoa criava uma conta e criava uma página em que poderia publicar suas fotos que depois recebiam comentários de outras pessoas. Muito semelhante, ainda que de maneira um pouco simplificada, ao que oferece a empresa Tumblr (criado em 2007 por David Karp, nos Estados Unidos). Vários serviços foram criados, tanto no Brasil, como em outras partes do mundo nessa época. É importante fazer aqui um esclarecimento: nem toda mídia social é uma rede social, mas toda rede social é uma mídia social. A mídia social é um termo mais amplo que se refere a plataformas e tecnologias online que permitem a criação, compartilhamento e troca de conteúdo gerado pelos usuários. Esses conteúdos podem incluir textos, fotos, vídeos, links e outros tipos de informações. As mídias sociais oferecem meios para que as pessoas e organizações se envolvam em interações sociais e criem comunidades virtuais em torno de interesses compartilhados. Exemplos de plataformas de mídia social incluem Facebook, Twitter, Instagram, LinkedIn, YouTube, TikTok, Pinterest, entre outras. Cada uma dessas plataformas pode ter diferentes formatos de conteúdo e propósitos específicos.

Uma rede social é uma estrutura social composta por indivíduos ou organizações que estão conectados entre si por laços sociais, como amizade, família, interesses comuns, relações profissionais ou outros tipos de interações sociais. Em outras palavras, é a representação das conexões e relacionamentos entre pessoas ou grupos.

Quando falamos de "rede social" no contexto online, geralmente estamos nos referindo a uma plataforma de mídia social específica que permite que os usuários criem perfis individuais e interajam uns com os outros através de amizades, seguidores ou conexões. Assim, as redes sociais online são apenas uma das formas de redes sociais no contexto mais amplo.

Com o passar do tempo, empresários perceberam que as pessoas gostam de se socializar e que os meios digitais poderiam oferecer mais opções de interação. As redes sociais ganharam funções como postagem de vídeos, compartilhamento de postagens, reagir a uma publicação, utilizando “emojis” e até mesmo jogos eletrônicos foram criados para serem jogados dentro de algumas redes sociais.

No Brasil, com o sucesso da rede social Orkut, lançado em 2004, se iniciava uma nova era no que se refere a rede social. Cerca de 30 milhões de contas foram criadas, somente no Brasil. A rede social apresentava entre outras funções os grupos, em que pessoas com o mesmo interesse se reuniam para discutir filmes, romance, jogos e muito mais. Também era destaque a função “depoimento”, em que era possível escrever um pequeno texto em homenagem na página de um contato nesta rede social.

O Facebook, criado também em 2004 revolucionou esse mercado, trazendo ainda mais possibilidades de interação, uma aparência esteticamente bonita e fácil de usar, sendo atualmente a maior rede social do mundo, com mais de um bilhão e meio de usuários em 2023.

O objetivo das redes sociais foi, com o passar do tempo, fazer com que as pessoas que as usam passassem o maior tempo possível vendo seus conteúdos. Isso é importante para essas empresas, já que são ao mesmo tempo, oportunidades de conhecer as preferências e hábitos de seus usuários, como também oportunidades de mostrar anúncios para mais pessoas. Quanto mais tempo de uso em uma rede social típica, mais exposição a anúncios a pessoa tem.

Ao mesmo tempo em que as redes sociais evoluíam, as maneiras de consumir o conteúdo nelas também evoluiu. O que antes somente poderia ser feito em um computador que dependia de uma internet via modem discada de baixa velocidade, hoje pode ser feita não apenas em computadores mais potentes e com conexões muito mais rápidas, como também por meios móveis como celulares e tablets eletrônicos. A neurose é um conceito utilizado principalmente na Psicanálise que inclui diversos transtornos mentais caracterizados por sintomas psicológicos, emocionais e comportamentais, mas que não apresentavam uma perda completa de contato com a realidade, como ocorre nas psicoses.

O capítulo dois “A construção da identidade na era digital” mostrará como as redes sociais se tornaram onipresentes, moldando a maneira como nos comunicamos, consumimos informação e construímos nossa identidade. A ubiquidade da cultura do selfie, onde indivíduos se autofotografam e compartilham imagens de si mesmos online, destaca a importância da imagem na construção da identidade na era digital.

A psicanálise, com seus insights sobre o desenvolvimento humano e os mecanismos da psique, oferece uma lente valiosa para analisar os efeitos das redes sociais na subjetividade. Através da psicanálise, podemos explorar como a busca por validação externa nas redes sociais se relaciona com o narcisismo, como a comparação social impacta o ideal do eu e como a performatividade online pode mascarar a identidade autêntica.

Nesta pesquisa, utilizaremos a psicanálise como ferramenta para examinar a construção da identidade na era digital. Ao analisar a construção da identidade na era digital através da lente psicanalítica, esperamos contribuir para uma compreensão mais profunda dos impactos psicológicos das redes sociais e oferecer ferramentas para a construção de uma identidade autêntica e saudável no mundo digital.

O terceiro capítulo “O efeito do assédio moral digital” mostrará como o assédio digital pode afetar negativamente crianças e adolescentes, analisará o efeito que esse assédio pode ter nesse grupo e suas consequências.

Apesar de que, segundo Viana (2023), não há uma comprovação de que o uso de redes sociais por crianças diminua ou gere problemas mentais como depressão, por exemplo, crianças que já sofrem assédio como “bullying” fora da internet geralmente também sofrem nos meios digitais.

No caso dos meios digitais, eles ainda possuem um elemento que parece seduzir mais os que costumam fazer esse tipo de assédio, já que como a ação é produzida à distância, tem-se a impressão de que o que é realizado por meio da internet goza de um alto nível de segurança, pois há o pensamento de que se pode fazer o que se quer, sem que haja qualquer consequência para o autor da ação.

Segundo Mallmann et al (2018), podemos definir cyberbullying como um fenômeno que envolve comportamentos agressivos, intencionais e repetitivos, realizados através de meios digitais, ao longo de um determinado período, e perpetrados por um indivíduo ou grupo contra uma vítima que apresenta dificuldade em se defender.

Um estudo publicado por Mallmann et al (2018), em que participaram 273 estudantes com idades entre 13 e 18 anos, sendo 48,7% do grupo indivíduos do sexo feminino e 51,3% indivíduos do sexo masculino, indicou que a maioria (58%) do grupo já havia estado envolvida em cyberbullying, seja como agressor ou como vítima, o que chama a atenção para o quão abrangente é esse tema.

O cyberbullying muitas vezes se manifesta quando uma pessoa sofre uma série de atos com objetivo de humilhar, ameaçar, excluir, ofender ou diminuir o valor como pessoa da vítima. E isso pode acontecer de diferentes maneiras (Maldonado, 2011).

Por exemplo, durante uma partida de algum jogo eletrônico online, uma pessoa é constantemente referida como sendo “noob” (um jogador amador, que geralmente joga de uma forma ruim, com mau desempenho durante a partida), em alguns casos as ofensas se intensificam a ponto de se tornar ataques diretos à honra ou ao valor da vítima como ser humano. O assediador ou um grupo pode se referir à vítima com expressões como “lixo”, “ridículo(a)”, “pato”, entre outras.

Um outro exemplo de cyberbullying acontece quando nas redes sociais, uma vítima é constantemente atacada verbalmente por uma pessoa ou grupo que faz comentários maldosos sobre a aparência, modo de falar, de se vestir, cultura, gênero, religião ou outras características relacionadas à vítima, com o objetivo de diminuir seu valor como pessoa.

Esse tipo de assédio pode ter consequências terríveis para a vítima, desde problemas mentais de muitos tipos, até mesmo podendo levar ao suicídio (Pimentel et al, 2020). É preciso combater a prática, promover práticas que ajudem tantos jovens como adultos tanto prevenir ataques desse tipo como combatê-los com veemência.

No quarto capítulo, “O uso da internet como fuga de conflitos internos e da realidade” será abordado como a internet se tornou uma ferramenta essencial na vida dos jovens, proporcionando acesso à informação, comunicação e entretenimento. No entanto, o uso excessivo da internet pode ser um problema, especialmente quando utilizado como mecanismo de fuga de conflitos internos e da realidade social.

Neste contexto, este artigo busca analisar o uso da internet como fuga de conflitos internos e da realidade social em jovens, sob uma perspectiva psicanalítica. A partir da revisão bibliográfica de autores como Freud (1923), Lacan (1977) e Winnicott (1971), e da análise de estudos de caso e pesquisas empíricas, o estudo busca compreender como a internet pode ser utilizada como forma de evitar o sofrimento psíquico e as dificuldades da vida real.

Freud (1923) propõe o conceito de "pulsão de morte" como uma força que busca a desorganização e o retorno ao estado inorgânico. Segundo ele, a internet pode ser utilizada como um mecanismo de fuga da realidade, proporcionando um espaço onde os jovens podem se desligar das tensões e frustrações da vida cotidiana.

Lacan (1977), por sua vez, destaca a importância do "Outro" na formação da subjetividade. O autor argumenta que a internet pode ser utilizada como forma de construir uma identidade idealizada, onde os jovens podem se apresentar de forma distorcida e escapar das expectativas sociais.

Winnicott (1971) enfatiza a importância do "espaço transicional" para o desenvolvimento emocional dos indivíduos. O autor argumenta que a internet pode ser utilizada como um espaço transicional, onde os jovens podem explorar sua identidade e experimentar novas possibilidades.

A partir da análise das diferentes perspectivas psicanalíticas, o presente estudo busca compreender os mecanismos pelos quais a internet pode ser utilizada como fuga de conflitos internos e da realidade social em jovens.

No capítulo cinco, serão abordados os efeitos do vício em redes sociais numa sociedade cada vez mais conectada. A cada dia, mais pessoas estão utilizando os meios digitais para os mais diversos usos, de trabalho a pesquisa escolar, de participar de eventos sociais online a simplesmente, querer compartilhar com amigos imagens e vídeos familiares e poder acompanhar esse mesmo tipo de conteúdo.

O capítulo vai comentar como o vício em redes sociais afeta o comportamento e influencia fortemente a saúde mental e emocional das pessoas. Além disso, propõe algumas ações que podem amenizar esses efeitos.

Metodologia de Pesquisa

Esta pesquisa utiliza o método de revisão integrativa da literatura, buscando analisar e sintetizar informações relevantes sobre a neurose de ansiedade digital, suas causas, consequências e abordagens terapêuticas. A revisão integrativa, por sua natureza abrangente e sistemática, permite a construção de uma compreensão mais completa e abrangente do tema, integrando diferentes perspectivas e abordagens teóricas.

O processo metodológico foi estruturado em cinco etapas:

1. Formulação da Pergunta de Pesquisa: A pesquisa iniciou-se com a definição precisa da pergunta de pesquisa que norteou todo o processo: "Quais são os impactos da crescente utilização de tecnologias digitais, especialmente as mídias sociais, na saúde mental da população, focando em uma possível "neurose de ansiedade digital"?

2. Elaboração dos Critérios de Inclusão e Exclusão: Para garantir a seleção de artigos relevantes, foram definidos critérios de inclusão e exclusão:

Critérios de Inclusão: Artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais (em português e inglês), com foco na relação entre uso de tecnologias digitais e saúde mental, incluindo termos como "ansiedade digital", "nomofobia", "cyberbullying", "FOMO", "redes sociais", e transtornos mentais relacionados. Estudos com população adulta e jovem. Publicações em periódicos indexados em bases de dados como Web of Science, Scopus, PubMed e SciELO.

Critérios de Exclusão: Artigos que não abordassem a relação entre o uso de tecnologias digitais e saúde mental, trabalhos com outras metodologias além de revisão bibliográfica, artigos de opinião e ensaios sem base científica.

3. Busca e Seleção das Fontes: A busca pelas fontes foi realizada em bases de dados eletrônicos como Web of Science, Scopus, PubMed e SciELO, utilizando palavras-chave e combinações de palavras-chave relevantes à temática. Foram consultadas também bibliotecas virtuais de universidades e repositórios online. Após a coleta inicial, uma seleção rigorosa foi aplicada, utilizando-se os critérios de inclusão e exclusão definidos anteriormente. A análise dos títulos, resumos e palavras-chave permitiu eliminar trabalhos irrelevantes.

4. Análise e Síntese dos Dados: Os artigos selecionados foram lidos na íntegra e analisados criticamente. A análise focou na identificação dos principais temas, conceitos, teorias e dados apresentados. As informações extraídas foram sintetizadas, buscando identificar padrões, convergências e divergências entre os diferentes estudos. Um esforço especial foi feito para articular as diferentes perspectivas teóricas (psicanalítica, sociológica, comportamental etc.) sobre a neurose de ansiedade digital. Especial atenção foi dedicada à análise das abordagens terapêuticas propostas.

5. Apresentação e Discussão dos Resultados: Os resultados da revisão integrativa foram apresentados e discutidos de forma organizada, utilizando-se tabelas e gráficos sempre que apropriado para auxiliar na compreensão dos dados. Os achados foram contextualizados à luz do estado atual da arte na literatura científica. As limitações do estudo e as sugestões para futuras pesquisas também foram discutidas.

CAPÍTULO 1 A neurose de ansiedade digital

1.1 Nomofobia: a patologia do século XXI

A nomofobia é um fenômeno moderno que se refere ao medo irracional e a ansiedade intensa causados pela falta de acesso ou pela incapacidade de usar um telefone celular ou dispositivos móveis em geral. O termo "nomofobia" é derivado da expressão "No-Mobile Phobia" (Fobia de Não Ter o Celular) e foi cunhado no início dos anos 2000, em referência ao crescente vício em smartphones.

Vivemos em uma era digital em que os smartphones e outros dispositivos móveis se tornaram uma parte essencial de nossas vidas. Eles nos mantêm conectados com amigos e familiares, fornecem acesso à internet, redes sociais e aplicativos úteis, como mapas e agendas. No entanto, o uso excessivo desses dispositivos e a dependência deles têm levado ao surgimento de problemas psicológicos, incluindo a nomofobia.

Os sintomas da nomofobia podem variar de pessoa para pessoa, mas geralmente incluem ansiedade, inquietação, tremores, sudorese, palpitações, pensamentos obsessivos sobre o celular e a necessidade constante de verificar o aparelho, mesmo quando não há notificações. O indivíduo pode se sentir desconfortável ou em pânico ao se afastar do celular, perder o sinal ou ficar sem bateria.

As causas da nomofobia estão relacionadas ao papel central que os smartphones desempenham em nossas vidas. A conectividade constante e a interação com o mundo virtual podem criar uma dependência psicológica, tornando-se uma fonte de validação social e autoestima para muitos. Além disso, o medo de ficar "desconectado" pode ser influenciado por pressões sociais e a necessidade de estar sempre disponível para o trabalho ou para a comunicação com amigos e familiares.

A nomofobia pode ter um impacto significativo na saúde mental dos indivíduos. A ansiedade e o estresse causados pela dependência do celular podem levar à diminuição do bem-estar emocional e até mesmo ao isolamento social. O uso excessivo de dispositivos também pode interferir na qualidade do sono, diminuir a produtividade e aumentar os sentimentos de inadequação ou comparação social.

A longo prazo, a nomofobia pode levar a problemas de saúde mental mais graves, como depressão e ansiedade generalizada. Além disso, a constante distração causada pelo uso excessivo do celular pode afetar a capacidade de concentração e prejudicar as relações interpessoais no mundo real.

Tendo em vista a contemporaneidade, em que os meios digitais cada vez mais influenciam a vida das pessoas em geral, proponho o uso do termo “neurose de ansiedade digital.” Esse termo deriva-se diretamente da neurose de ansiedade, descrita por Sigmund Freud como um tipo de neurose caracterizado por um aumento crônico da ansiedade, sem que haja necessariamente uma causa aparente. Essa neurose pode causar sintomas físicos, como sudorese, palpitações, medo intenso, preocupação excessiva e comportamentos de esquiva.

Há vários estudos associando sintomas relacionados à ansiedade com o uso indevido das redes sociais. Para mencionar alguns desses estudos:

A pesquisa de Shakya e Christakis (2017), investigou a relação entre o uso do Facebook e o bem-estar psicológico ao longo do tempo. Os resultados indicaram que o uso frequente do Facebook estava associado a um declínio no bem-estar subjetivo e mental dos participantes, incluindo maiores níveis de ansiedade e depressão.

Um estudo da American Journal of Preventive Medicine (PRIMACK, SHENSA, ET AL, 2017) explorou a relação entre o uso de redes sociais e a percepção de isolamento social em adultos jovens. Os resultados mostraram que um maior uso de plataformas de redes sociais foi associado a uma maior probabilidade de relatar sentimentos de isolamento social, o que pode contribuir para a ansiedade.

Outra pesquisa examinou a relação entre o uso problemático de redes sociais e a percepção de isolamento social em adultos mais velhos. Os resultados sugerem que o uso problemático de redes sociais está associado a níveis mais altos de ansiedade e sentimentos de isolamento em adultos mais velhos. (MESHI, DAR, COTTEN, SHELIA R., BENDER, ANDREW R, 2020)

O uso excessivo das redes sociais poderia ocasionar em taquicardia, alterações na respiração, tendinites e mudanças posturais, além de náusea virtual, vulnerabilidade afetiva, distúrbios alimentares, além de transtornos da ansiedade e outros. (SOUZA & CUNHA, 2019)

Uma pesquisa conduzida com jovens adultos, com idades entre 19 e 24 anos, pela Royal Society for Public Health (2017), revelou que o Instagram é a rede social que tem o maior impacto negativo em relação à saúde e bem-estar. Em seguida, vêm o Snapchat, o Facebook, o Twitter e o Youtube, nesta ordem. A principal preocupação observada é que os usuários passam a se avaliar criticamente em termos de sua imagem corporal, baseando-se em comparações com o que veem nesses espaços virtuais.

Além disso, o acesso a estilos de vida utópicos, que na realidade são inacessíveis para a maioria das pessoas devido a diversas razões, leva a um aumento na insatisfação pessoal entre esses usuários (BROWN; TIGGEMANN, 2016).

Segundo Lima e Primo (2021), uma pesquisa demonstrou que em média, os brasileiros desbloqueiam seus celulares 78 vezes ao dia, e entre pessoas de 18 a 24 anos, esse número pode chegar a 101 vezes. Isso ilustra bem um comportamento ansioso.

A necessidade de estar “atualizado” com o que está acontecendo online, aliado à necessidade de “atualizar” as demais pessoas tornou-se para muitos, uma necessidade, quase vital, em suas vidas diárias.

Tal necessidade gera entre outras coisas, os sintomas típicos de uma neurose.

1.2 Nomofobia e neurose

As redes sociais (RS) tornaram-se ferramentas onipresentes na vida moderna, oferecendo benefícios inegáveis, mas também apresentando riscos para o bem-estar emocional. Este artigo revisa a literatura científica sobre os efeitos do uso abusivo das RS, com foco em transtornos de humor, baixa autoestima, distúrbios do sono, dificuldades de concentração, nomofobia e comportamentos neuróticos. Evidências demonstram que o uso excessivo das RS está associado a uma série de problemas de saúde mental, incluindo ansiedade, depressão, insatisfação com a imagem corporal, privação do sono e déficit de atenção. A nomofobia, o medo de ficar sem celular, e comportamentos neuróticos como checagem compulsiva, perda da noção do tempo, negligência de responsabilidades e mentiras também são frequentemente observados em viciados em RS. O artigo conclui com a necessidade de conscientização sobre os riscos do uso abusivo das RS e a importância de buscar ajuda profissional quando necessário.

Plataformas como Facebook, Instagram, Twitter e TikTok se tornaram ferramentas onipresentes em nossas vidas, moldando a forma como nos relacionamos com o mundo ao nosso redor. Apesar dos benefícios inegáveis que as RS oferecem, como conectividade, acesso à informação e entretenimento, o uso abusivo e desmedido dessas plataformas pode gerar impactos negativos no bem-estar emocional e psicológico dos indivíduos.

O uso abusivo das RS está associado a uma série de problemas de saúde mental, como:

Ansiedade: A comparação social constante com imagens idealizadas de vidas perfeitas nas RS pode alimentar sentimentos de inadequação e insegurança, levando ao desenvolvimento de ansiedade e estresse (Przybylski et al., 2013). A natureza viciante das RS e o FOMO (medo de estar perdendo algo) intensificam esses sentimentos, criando um ciclo de ansiedade crônica (Kross et al., 2013).

Depressão: A exposição a conteúdos negativos, cyberbullying e cyberstalking podem contribuir para o desenvolvimento de sintomas depressivos, como tristeza profunda, desânimo, perda de interesse em atividades prazerosas e ideação suicida (Kross et al., 2017).

Baixa Autoestima e Autoimagem Distorcida: A comparação social incessante com influenciadores e celebridades, que frequentemente exibem imagens irreais e editadas de seus corpos e vidas, pode levar a uma percepção distorcida da própria imagem corporal e autoestima (Tiggemann & Slater, 2016). Indivíduos, especialmente adolescentes e jovens adultos, podem se sentir inadequados e inferiores, desenvolvendo insatisfação com a própria aparência e baixa autoestima (Cash & Smith, 2019).

Distúrbios do Sono: A luz azul emitida pelas telas dos smartphones e tablets interfere na produção de melatonina, o hormônio do sono, dificultando o adormecimento e levando à fragmentação do sono (Chang et al., 2015). A privação do sono, por sua vez, pode contribuir para o aumento da irritabilidade, fadiga e dificuldade de concentração, impactando negativamente o humor e a produtividade (Walker, 2017).

Dificuldades de Concentração e Atenção: As notificações constantes, a natureza fragmentada do conteúdo e a estimulação excessiva proporcionada pelas RS podem dificultar a concentração e a capacidade de manter o foco em tarefas complexas (Ophir et al., 2019). Indivíduos que usam as RS em excesso podem apresentar sintomas de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), como inquietação, impulsividade e dificuldade em realizar tarefas que exigem atenção sustentada (Rosen et al., 2012).

Indivíduos viciados em RS podem apresentar comportamentos neuróticos que interferem negativamente em suas vidas, tais como:

Checagem compulsiva das RS: A necessidade constante de verificar as redes sociais, mesmo quando não há motivos específicos para fazê-lo, pode gerar ansiedade e comprometer o foco em outras atividades (Elhai et al., 2016).

Perda da noção do tempo: A imersão profunda nas RS pode levar à perda da percepção temporal, fazendo com que os indivíduos percam horas navegando sem se dar conta (Przybylski et al., 2013).

Negligenciar responsabilidades: O vício em RS pode levar ao negligenciamento de responsabilidades importantes, como trabalho, estudos, vida familiar e social, impactando negativamente o desempenho e as relações interpessoais (Karpinski & Verdegem, 2014).

Mentiras e ocultação: Viciados em RS podem negar o problema, mentir sobre o tempo que passam nas plataformas e esconder seu comportamento de amigos e familiares (Przybylski et al., 2015).

O uso excessivo das RS pode ter consequências graves para o bem-estar emocional e psicológico dos indivíduos. É fundamental estar atento aos sinais de alerta, como ansiedade, depressão, baixa autoestima, problemas de sono e dificuldade de concentração. Caso esses sintomas estejam presentes, buscar ajuda profissional pode ser necessário.

Além disso, estratégias preventivas, como estabelecer limites de tempo para o uso das RS, desativar notificações, manter o celular longe do quarto na hora de dormir e cultivar atividades saudáveis offline, podem auxiliar na diminuição do uso abusivo e na promoção do bem-estar emocional.

1.3 As redes sociais e as neuroses

As redes sociais se tornaram uma parte onipresente da vida moderna, com bilhões de pessoas em todo o mundo utilizando plataformas como Facebook, Instagram, Twitter e TikTok para se conectar, compartilhar informações e consumir conteúdo. No entanto, o uso crescente das redes sociais também gerou preocupações sobre seus possíveis impactos negativos na saúde mental, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento e à exacerbação de transtornos neuróticos.

As neuroses são um grupo de transtornos mentais caracterizados por pensamentos e comportamentos intrusivos e repetitivos que causam sofrimento significativo e interferem na vida cotidiana do indivíduo. As causas das neuroses são complexas e multifacetadas, e podem incluir:

Fatores biológicos: Predisposição genética, desequilíbrios neuroquímicos e traumas cerebrais.

Fatores psicológicos: Conflitos e traumas da infância, experiências negativas de vida, estresse crônico e estilos de pensamentos distorcidos.

Fatores sociais: Pressões sociais, discriminação, abuso e negligência.

Os sintomas das neuroses variam de acordo com o tipo de transtorno, mas podem incluir:

Ansiedade: Apreensão excessiva e persistente, inquietação, irritabilidade, dificuldade de concentração, insônia e sintomas físicos como taquicardia, sudorese e tremores.

Depressão: Humor deprimido, perda de interesse em atividades outrora prazerosas, alterações no sono e apetite, sentimentos de desesperança e culpa, pensamentos suicidas.

Transtorno obsessivo-compulsivo: Pensamentos obsessivos recorrentes e indesejados que geram compulsões, ou seja, comportamentos repetitivos realizados na tentativa de aliviar a ansiedade.

Fobia: Medo intenso e persistente de um objeto ou situação específica, que leva a comportamentos de evitação.

Transtorno de estresse pós-traumático: Revivência de um evento traumático através de flashbacks, pesadelos e pensamentos intrusivos, acompanhados de sintomas como ansiedade, irritabilidade e esquiva de situações que lembram o trauma.

Uma compreensão aprofundada dos mecanismos psicológicos subjacentes é fundamental para entender como as redes sociais podem influenciar as neuroses. Uma das principais contribuições da psicanálise para essa discussão é o conceito de narcisismo. Freud (1914) definiu o narcisismo como um investimento libidinal do eu, onde o indivíduo direciona sua energia psíquica para si mesmo. Nas redes sociais, a busca por validação e reconhecimento pode alimentar o narcisismo, levando os usuários a procurarem constantemente feedback positivo e aprovação externa. Esse ciclo de busca de validação pode intensificar sentimento de insegurança e ansiedade quando as expectativas não são atendidas.

Além disso, segundo Turel, O., & Serenko, A. (2020), as redes sociais podem contribuir para a formação de uma identidade fragmentada. Os usuários muitas vezes apresentam diferentes facetas de si mesmos online, selecionando e editando cuidadosamente o conteúdo que compartilham para criar uma imagem idealizada. Essa desconexão entre a persona online e a realidade offline pode levar a um senso de alienação e desorientação, aumentando o risco de desenvolvimento de sintomas neuróticos.

De acordo com [Turkle (2015)], a era digital "promove a fragmentação do self". Em seu livro "Alone Together", a autora argumenta que as redes sociais nos incentivam a criar diversas versões de nós mesmos, cada uma adaptada a um público específico. Essa fragmentação do self pode levar a um senso de alienação e desconexão de nosso eu autêntico.

As redes sociais são ferramentas poderosas que podem ser usadas para conectar pessoas e compartilhar informações. No entanto, é importante estar ciente dos riscos potenciais do uso excessivo das redes sociais, como a fragmentação da identidade. Ao cultivar uma presença autêntica nas redes sociais e limitar o tempo que passamos online, podemos minimizar os impactos negativos das redes sociais em nossa saúde mental e bem-estar.

No livro "Alone Together", Sherry Turkle explora como a tecnologia digital, incluindo as redes sociais, pode levar à fragmentação da identidade. A autora argumenta que, em vez de nos conectarmos com os outros de forma autêntica, as redes sociais nos incentivam a criar diversas versões de nós mesmos, cada uma adaptada a um público específico. Essa fragmentação do self pode levar a um senso de alienação e desconexão de nosso eu autêntico.

A autora por exemplo, afirma que:

“A vida nas telas nos convida a nos tornarmos os autores de nossas próprias vidas, mas a um custo. Ao nos tornarmos os autores de nossas próprias vidas, corremos o risco de nos tronarmos os autores de nós mesmos. Começamos a nos ver como projetos que precisam ser gerenciados, como marcas que precisam ser vendidas. E, no processo, perdemos de vista quem realmente somos.” (Turkle, 2015, p.22)

Neste fragmento, Turkle destaca a ideia de que as redes sociais nos transformam em "autores de nós mesmos". Essa autocriação, segundo a autora, tem um custo: a perda de contato com nosso eu autêntico. Ao nos preocuparmos em gerenciar nossa imagem online e criar personas perfeitas, podemos nos distanciar de quem realmente somos. A pressão pela autopromoção e a necessidade de criar personas online perfeitas podem levar a um senso de fragmentação do self, com impactos negativos na saúde mental e no bem-estar individual.

Diversos estudos demonstram uma relação entre o uso excessivo das redes sociais e o aumento de sintomas neuróticos. Um estudo realizado por Przybylski et al. (2014) com 800 adolescentes americanos constatou que aqueles que usavam as redes sociais com mais frequência eram mais propensos a relatar sintomas de depressão e baixa autoestima.

Outro estudo, realizado por Kao et al. (2018): com mais de 500 mil adultos nos EUA, encontrou uma associação entre o uso frequente de redes sociais e um aumento do risco de solidão, depressão e ansiedade.

Esses estudos sugerem que o uso excessivo das redes sociais pode ter um impacto negativo na saúde mental, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.

Em seu livro "Soledad Digital" (2017), Sherry Turkle argumenta que as redes sociais podem nos levar a um sentimento de solidão paradoxal. Embora estejamos constantemente conectados a outras pessoas online, podemos nos sentir cada vez mais isolados e desconectados de nossos eus autênticos. Essa solidão digital pode contribuir para o desenvolvimento de sintomas neuróticos, como ansiedade e depressão.

Já Ethan Kross et al. no livro "Chatter: The Voice in Our Head, and How to Make It Work for You" (2015) exploram o impacto das redes sociais na ruminação negativa. A ruminação negativa é um padrão de pensamento repetitivo e focado em aspectos negativos de si mesmo ou de situações vividas. Os autores argumentam que o uso das redes sociais pode exacerbar a ruminação negativa, pois ficamos constantemente expostos a conteúdos que podem desencadear pensamentos negativos sobre nós mesmos.

É importante ressaltar que nem todo uso das redes sociais leva ao desenvolvimento de sintomas neuróticos. O uso consciente e equilibrado dessas plataformas pode ser uma ferramenta útil para comunicação, entretenimento e conexão com amigos e familiares.

1.4 A neurose de ansiedade

Na era da hiperconectividade e das pressões incessantes da vida moderna, a neurose de ansiedade se apresenta como um mal-estar cada vez mais frequente. Essa condição, caracterizada por uma preocupação excessiva e persistente, acompanhada por sintomas físicos e psicológicos, gera sofrimento psíquico e interfere significativamente na vida dos indivíduos acometidos.

Para a psicanálise, a neurose de ansiedade se manifesta como um sintoma, uma expressão simbólica de um conflito inconsciente que gera sofrimento psíquico. Esse conflito, muitas vezes enraizado em experiências da infância ou traumas não elaborados, se manifesta através da ansiedade, que funciona como um sinal de alerta para a necessidade de investigação e resolução.

Sigmund Freud, pai da psicanálise, foi o primeiro a descrever a neurose de ansiedade como um distúrbio mental distinto. Em sua obra "O Mal-Estar na Civilização" (2011), Freud argumenta que a ansiedade surge da repressão dos desejos e impulsos instintivos, que, em busca de expressão, geram conflito com as normas e valores sociais.

Outros autores psicanalíticos, como Melanie Klein (2016) e Anna Freud (1996), aprofundaram a compreensão da neurose de ansiedade, explorando suas relações com a angústia, o medo da castração e o desenvolvimento das relações objetal.

Os sintomas da neurose de ansiedade, tanto físicos quanto psicológicos, podem ser interpretados sob a ótica psicanalítica como a expressão simbólica do conflito inconsciente. A preocupação excessiva, por exemplo, pode ser vista como uma tentativa de controlar a ansiedade e evitar o confronto com os pensamentos e sentimentos reprimidos. Já os sintomas físicos, como palpitações, tremores e sudorese, podem ser interpretados como a manifestação fisiológica da angústia e do medo.

O diagnóstico da neurose de ansiedade deve ser realizado por um profissional de saúde mental qualificado, através de uma avaliação clínica detalhada. É importante diferenciar a neurose de ansiedade de outros distúrbios mentais, como transtorno do pânico, transtorno obsessiva-compulsivo, depressão e hipotireoidismo, que podem apresentar sintomas semelhantes.

Na perspectiva psicanalítica, a neurose de ansiedade impacta significativamente a subjetividade do indivíduo, gerando sofrimento psíquico, limitando a capacidade de expressão dos desejos e afetando as relações interpessoais. A preocupação excessiva pode levar ao isolamento social, enquanto os sintomas físicos podem interferir na qualidade de vida e na produtividade do indivíduo.

Lacan, em seu seminário "A Ética da Psicanálise" (Lacan, 1988), Lacan propõe uma leitura da ansiedade como um sintoma da falta-a-ser, um vazio estrutural da psique humana que emerge da confrontação do sujeito com a Realidade.

No centro da teoria lacaniana reside o conceito de falta-a-ser, um vazio estrutural que marca a existência humana desde o início. Segundo Lacan, a linguagem, ao tentar simbolizar o real, falha em capturar sua totalidade, deixando um resto irreconciliável – a falta-a-ser. Essa falta, inerente à própria estrutura da linguagem, gera uma sensação de incompletude e angústia no sujeito.

Segundo Lacan:

“A Realidade é o que escapa à simbolização, o que causa a angústia no sujeito" (Lacan, 1959-1960, p. 264).

Na perspectiva lacaniana, a Realidade representa o "real impossível de simbolizar", o lugar incognoscível e ameaçador que escapa à captura da linguagem. A confrontação do sujeito com a Realidade, seja através de traumas ou da própria falta-a-ser, gera angústia e ansiedade.

Na neurose de ansiedade, a angústia assume um papel central. O indivíduo, confrontado com a Realidade implacável, se vê diante da falta-a-ser inerente à sua própria existência e à impossibilidade de simbolizá-la completamente. Essa confrontação, muitas vezes enraizada em experiências traumáticas ou conflitos inconscientes, gera uma ansiedade avassaladora que permeia todos os aspectos da vida do sujeito.

Na perspectiva winnicottiana, a ansiedade surge da experiência precoce da falta e do vazio na relação entre mãe e bebê (Winnicot, 1958). Na era digital, essa experiência se manifesta de forma peculiar na dependência virtual das redes sociais. O indivíduo, imerso em um mundo de curtidas, comentários e compartilhamentos, busca incessantemente por reconhecimento e validação externa, gerando uma sensação de vazio e insegurança.

A busca por reconhecimento nas redes sociais muitas vezes se traduz em uma comparação social desenfreada, alimentando a ansiedade e a baixa autoestima. O indivíduo se compara a imagens perfeitas e vidas aparentemente idílicas, gerando uma sensação de inadequação e inferioridade. Essa fragilidade do self na era digital se conecta à teoria winnicottiana da falha no holding, onde a falta de um ambiente suficientemente bom impede o desenvolvimento de um self coeso e integrado.

1.5 As neuroses no século XXI

O século XXI se caracteriza por uma aceleração vertiginosa das mudanças sociais, tecnológicas e econômicas, impactando profundamente a saúde mental da população. As neuroses, outrora consideradas transtornos psicológicos prevalentes, assumem novas formas e nuances sob a influência da cultura digital, da globalização e das pressões sociais contemporâneas.

As neuroses, desde sua formulação por Sigmund Freud no final do século XIX, representam um conjunto de transtornos psicológicos marcados por sofrimento psíquico intenso, sintomas específicos e conflitos inconscientes. No entanto, o século XXI apresenta um cenário singular, onde as neuroses assumem novas formas e nuances, exigindo uma reavaliação crítica à luz da psicanálise contemporânea.

A ascensão da cultura digital, com suas redes sociais instantâneas, bombardeio de informações e culto à imagem, contribui para o aumento da ansiedade, da depressão e da baixa autoestima. A comparação constante com vidas perfeitas nas redes sociais, a pressão por produtividade e a sensação de estar sempre "conectado", mas nunca realmente presente, geram um terreno fértil para o desenvolvimento de sintomas neuróticos.

Ehrenberg (2010) comenta que no atual momento da sociedade, com a cultura digital sendo cada vez mais popular entre as pessoas, também se faz presente o aumento de sintomas relacionados à ansiedade e a depressão:

“A cultura digital contribui para o aumento da ansiedade, da depressão e da baixa autoestima." (Ehrenberg, 2010, p. 120).

As neuroses no século XXI se caracterizam por uma pluralidade de sintomas e manifestações, desafiando os modelos clássicos da psicanálise (Mitchell, 2000). A angústia, antes centrada em conflitos edípicos e familiares, assume formas mais complexas e difusas, relacionadas à identidade, ao sentido da vida e à busca por reconhecimento na era digital.

A psicanálise contemporânea, diante das neuroses do século XXI, precisa se adaptar e incorporar novas perspectivas (Žižek, 2006) para atender às demandas do sofrimento psíquico atual. A escuta atenta, a análise dos sonhos e a exploração dos conflitos inconscientes continuam sendo ferramentas essenciais, mas a compreensão das novas formas de sofrimento e dos impactos da cultura digital é crucial para uma prática clínica eficaz.

É preciso que a psicanálise contemporânea se adapte à realidade do século XXI, uma realidade muito diferente daquela em que foi primeiro desenvolvida, em finais do século XIX e inícios do século XX.

A psicanálise, nascida das profundezas da mente humana no final do século XIX e início do XX, desvendou os meandros do inconsciente e revolucionou a compreensão do sofrimento psíquico. No entanto, o mundo se transformou a um ritmo vertiginoso, e a psicanálise, para manter sua relevância e efetividade, precisa acompanhar essa metamorfose, adaptando-se à realidade do século XXI.

O século XXI é marcado por uma aceleração vertiginosa das mudanças sociais, tecnológicas e econômicas. A globalização, a cultura digital, a instantaneidade da informação e a obsessão pela produtividade moldam uma realidade complexa e desafiadora para o psiquismo humano. As neuroses, outrora transtornos psicológicos prevalentes, assumem novas formas e nuances sob a influência da cultura digital, da globalização e das pressões sociais contemporâneas (Ehrenberg, 2010).

A angústia, antes centrada em conflitos edípicos e familiares, assume formas mais complexas e difusas, relacionadas à identidade, ao sentido da vida e à busca por reconhecimento na era digital (Mitchell, 2000). A solidão, a ansiedade social e a depressão se manifestam de maneiras distintas, exigindo uma escuta atenta e uma análise crítica dos impactos da cultura contemporânea no sofrimento psíquico (Andolfi, 2014).

Diante dessa realidade em constante transformação, a psicanálise precisa se adaptar e incorporar novas perspectivas para atender às demandas do sofrimento psíquico atual. Em um mundo cada vez mais dominado pela imagem e pela conectividade digital, onde a busca por validação e reconhecimento nas redes sociais se torna uma obsessão para muitos, a psicanálise se depara com o desafio de se adaptar e criar maneiras de atingir um público cada vez mais conectado e ávido por reconhecimento virtual.

A era digital moldou um novo cenário social, onde a quantidade de seguidores, as curtidas e os comentários em posts nas redes sociais se tornaram métricas de sucesso e autoestima. Essa busca incessante por aprovação externa gera uma angústia profunda, pois a identidade e o valor do indivíduo passam a ser definidos pelo olhar do outro, pela validação virtual (Ehrenberg, 2010).

Diante dessa realidade complexa e desafiadora, a psicanálise precisa repensar suas estratégias de comunicação e utilizar novas linguagens para dialogar com um público cada vez mais conectado e imerso na cultura digital. A utilização de plataformas online, a criação de conteúdo digital informativo e engajador, e a participação em debates relevantes nas redes sociais são algumas das possibilidades para alcançar um público mais amplo e diverso.

A psicanálise, tradicionalmente vista como um tratamento elitista e inacessível para a maioria da população, precisa se democratizar e oferecer alternativas mais flexíveis e acessíveis. A criação de grupos online de apoio, a oferta de sessões online e a diversificação dos formatos de atendimento (presencial, online, híbrido) são algumas das medidas que podem contribuir para a democratização do acesso à psicanálise.

1.6 As ansiedades da modernidade

A modernidade, caracterizada por profundas transformações sociais, econômicas e tecnológicas, trouxe consigo uma série de benefícios, mas também um aumento significativo das ansiedades. O ritmo acelerado da vida contemporânea, a pressão por sucesso, o bombardeio constante de informações e as incertezas econômicas são alguns dos fatores que contribuem para o surgimento de novas formas de sofrimento psíquico. Este texto tem como objetivo discutir as principais causas das ansiedades na modernidade e como elas se manifestam na sociedade contemporânea.

A ansiedade, enquanto experiência psicológica, não é um fenômeno novo; no entanto, a forma como ela se manifesta na modernidade é distintiva. A modernidade trouxe consigo um ambiente de constante mudança e incerteza, o que, segundo Bauman (2000), cria uma sensação de insegurança constante. Bauman (2000) argumenta que a modernidade líquida, caracterizada pela fluidez das relações sociais e pela volatilidade das estruturas econômicas, intensifica as ansiedades individuais, pois as pessoas são constantemente pressionadas a se adaptar a novas realidades.

Entre as principais causas das ansiedades modernas, destaca-se o fenômeno da "sobrecarga de informações" (information overload), que, conforme afirmado por Carr (2010), é uma consequência direta da revolução digital. O excesso de informações disponíveis a todo momento e em diversos formatos pode levar à sobrecarga cognitiva, resultando em uma sensação de ansiedade e incapacidade de processar adequadamente o que é relevante.

Outro fator significativo é a pressão pelo sucesso pessoal e profissional. De acordo com Ehrenberg (2010), a modernidade promove uma cultura de desempenho e produtividade onde o indivíduo é constantemente avaliado e pressionado a atingir metas cada vez mais ambiciosas. Essa pressão pode resultar em ansiedade crônica, uma vez que o indivíduo se sente incapaz de corresponder às expectativas impostas pela sociedade.

Além disso, as incertezas econômicas desempenham um papel central nas ansiedades da modernidade. Harvey (2005) sugere que o capitalismo tardio, com suas crises recorrentes e a precarização do trabalho, gera uma insegurança econômica que se traduz em ansiedades sobre o futuro. A instabilidade financeira e a falta de garantias de emprego aumentam o medo do fracasso e da exclusão social, exacerbando as ansiedades contemporâneas.

As ansiedades da modernidade manifestam-se de diversas formas, tanto a nível individual quanto coletivo. Uma das expressões mais comuns é a ansiedade de desempenho, que pode levar a transtornos como a Síndrome de Burnout, caracterizada por exaustão emocional e despersonalização (Maslach & Leiter, 2016). A obsessão por produtividade e sucesso pode, assim, resultar em um esgotamento psicológico profundo.

Outra manifestação é a ansiedade existencial, que se refere à incerteza sobre o sentido da vida em um mundo que parece cada vez mais fragmentado e desprovido de valores estáveis (Frankl, 2014). A falta de ancoragem em tradições ou narrativas comuns pode levar o indivíduo a uma sensação de vazio e desorientação, o que agrava ainda mais a ansiedade.

Além disso, a ansiedade social tem se tornado mais prevalente na era digital. A constante comparação com os outros, facilitada pelas redes sociais, pode gerar sentimentos de inadequação e inferioridade, contribuindo para o aumento da ansiedade social, especialmente entre os jovens (Twenge, 2017).

As ansiedades da modernidade são o resultado de uma confluência de fatores históricos, sociais e tecnológicos. Enquanto a modernidade trouxe avanços significativos em muitos aspectos, ela também criou um ambiente propício para o surgimento de novas formas de ansiedade. Entender as causas e as manifestações dessas ansiedades é crucial para desenvolver estratégias de enfrentamento que possam melhorar a qualidade de vida na sociedade contemporânea.

A modernidade, com todas as suas promessas de progresso, carrega também o fardo da incerteza e da instabilidade, o que exige uma reflexão contínua sobre os caminhos que estamos trilhando como sociedade. A promoção de uma cultura que valorize o bem-estar emocional e a sustentabilidade das relações humanas pode ser um passo importante para mitigar as ansiedades que hoje afligem tantas pessoas.

A análise das ansiedades na modernidade revela que, além das causas já mencionadas, o contexto globalizado, onde a competição se dá em uma escala nunca antes vista, também é um fator relevante. Bauman (2007) descreve a sociedade atual como uma "sociedade de consumidores", na qual o valor do indivíduo é medido pela sua capacidade de consumir e acumular bens materiais. Nesse cenário, a busca incessante por status e reconhecimento alimenta ansiedades profundas, especialmente entre aqueles que não conseguem atingir os padrões impostos pelo mercado. Essa ansiedade gerada pelo consumo não se limita apenas ao aspecto econômico, mas atinge também o plano existencial, onde a identidade do indivíduo se torna cada vez mais vinculada ao que ele possui, e não ao que ele é.

Uma característica fundamental da ansiedade moderna é sua ligação com o tempo. Rosa (2013) argumenta que vivemos em uma era de "aceleração social", onde o tempo é visto como um recurso escasso que deve ser otimizado. A sensação de "falta de tempo" é um sintoma comum na vida contemporânea e está diretamente ligada às ansiedades do dia a dia. A pressão para estar sempre disponível, especialmente em ambientes de trabalho que exigem conectividade constante, contribui para um estado de vigilância e ansiedade contínua. A aceleração do tempo cria um ciclo de insatisfação, onde o indivíduo sente que nunca tem tempo suficiente para realizar suas metas e objetivos, o que reforça a sensação de fracasso e inadequação.

Nesse sentido, a ansiedade pode ser vista como um subproduto das expectativas irrealistas da modernidade em relação à produtividade e eficiência. O indivíduo é pressionado a fazer mais em menos tempo, e essa lógica produtivista se estende para além do ambiente de trabalho, afetando também as relações pessoais e o tempo de lazer. A constante busca por um ideal de perfeição inatingível leva a um estado de tensão permanente, onde o relaxamento e a desconexão tornam-se cada vez mais difíceis.

As relações interpessoais também sofreram transformações significativas na era moderna, com o advento das tecnologias digitais e a globalização. Embora as redes sociais e os aplicativos de mensagens tenham facilitado a comunicação e a conexão entre indivíduos, eles também trouxeram novas formas de ansiedade. As interações mediadas por tecnologias digitais muitas vezes carecem da profundidade emocional e do vínculo afetivo que caracterizam as relações presenciais. A superficialidade dessas interações pode levar a um sentimento de desconexão, mesmo em um mundo hiperconectado, o que aumenta a sensação de solidão e ansiedade social (Turkle, 2011).

Além disso, o fenômeno do "medo de perder algo" (fear of missing out - FOMO) tem se tornado uma característica marcante da vida digital, especialmente entre as gerações mais jovens. Constantemente expostos às vidas "perfeitas" dos outros nas redes sociais, os indivíduos podem sentir que estão ficando para trás, o que gera uma ansiedade constante de que estão perdendo experiências significativas (Przybylski et al., 2013). Esse medo contribui para a insatisfação pessoal e o sentimento de inadequação, pois a vida digital cria uma comparação constante com os outros, muitas vezes com base em padrões irreais.

A hiperconectividade da era moderna também afetou a maneira como as pessoas experimentam a intimidade e o afeto. A psicóloga Sherry Turkle (2015) sugere que, embora a tecnologia tenha permitido novas formas de estar em contato, ela também tem o potencial de criar barreiras emocionais, fazendo com que as pessoas evitem a vulnerabilidade necessária para construir relações profundas e autênticas. A ansiedade nas relações interpessoais, portanto, é exacerbada pela falta de presença emocional e pela superficialidade das interações digitais.

Outro aspecto da modernidade que contribui para as ansiedades contemporâneas é o aumento da liberdade individual. Enquanto a liberdade de escolha é, sem dúvida, uma conquista importante das sociedades modernas, ela também pode ser uma fonte de angústia. O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre (1943) já havia discutido a "angústia da liberdade", sugerindo que o excesso de opções pode paralisar o indivíduo, que se vê sobrecarregado com a responsabilidade de tomar decisões que moldarão sua vida.

Na sociedade contemporânea, essa angústia se manifesta em áreas como a escolha de carreira, relacionamentos amorosos e até mesmo o consumo. A autonomia individual, tão valorizada pela modernidade, coloca o peso da responsabilidade sobre o indivíduo, que se sente pressionado a fazer as "escolhas certas". No entanto, a incerteza inerente a essas decisões pode gerar ansiedade, pois o indivíduo muitas vezes se vê confrontado com a possibilidade de erro ou fracasso.

Bauman (2000) argumenta que a modernidade líquida, ao desestabilizar as estruturas sociais e os vínculos comunitários tradicionais, exacerba essa sensação de incerteza. As redes de apoio que anteriormente forneciam uma base sólida para o indivíduo se dissolveram, e as pessoas são agora deixadas para enfrentar suas ansiedades de forma mais isolada. A ausência de um "norte" claro em termos de valores e normas sociais aumenta o sentimento de desorientação, o que contribui para o aumento das ansiedades existenciais e sociais.

Para lidar com as ansiedades modernas, torna-se necessário adotar estratégias de enfrentamento que não só reconheçam as causas estruturais dessas ansiedades, mas também promovam o bem-estar emocional e a resiliência. A terapia psicanalítica, por exemplo, oferece um espaço para que os indivíduos explorem suas ansiedades de maneira profunda, entendendo as raízes inconscientes desses sentimentos e como eles se relacionam com experiências passadas e conflitos internos.

Além da psicanálise, práticas terapêuticas baseadas na atenção plena (mindfulness) e na autorregulação emocional têm sido cada vez mais valorizadas como formas eficazes de reduzir a ansiedade. Essas abordagens ensinam os indivíduos a cultivar a consciência plena do momento presente, diminuindo a tendência a ruminações ansiosas sobre o futuro ou o passado (Kabat-Zinn, 1994). No contexto das ansiedades modernas, essas práticas podem ajudar a mitigar os efeitos da sobrecarga de informações e da aceleração do tempo, proporcionando uma pausa necessária no ritmo frenético da vida cotidiana.

CAPÍTULO 2 A construção da identidade na era digital

A construção da identidade sempre foi um processo complexo, mediado por interações sociais, culturais e psíquicas. Na era digital, no entanto, esse processo adquiriu novas nuances e desafios. A internet e as redes sociais, em particular, trouxeram uma mudança paradigmática na forma como os indivíduos se percebem, se expressam e são percebidos pelos outros. O "eu" contemporâneo, nesse sentido, é moldado não apenas pelas interações no mundo físico, mas também por um vasto conjunto de experiências e influências digitais. Esse novo ambiente de construção identitária coloca em destaque questões sobre autenticidade, performatividade e as consequências psicológicas da exposição constante ao olhar do outro no espaço virtual.

A identidade, segundo a perspectiva psicanalítica, é formada a partir de processos inconscientes, experiências de vida, identificações primárias e secundárias, bem como pelas relações interpessoais ao longo do desenvolvimento humano. Freud (1923/1961), ao descrever a estrutura psíquica composta pelo id, ego e superego, ofereceu uma estrutura teórica fundamental para entender como o sujeito se constitui e interage com o mundo. Na era digital, essas estruturas continuam a operar, porém, inseridas em um novo cenário repleto de representações múltiplas e, por vezes, contraditórias de si mesmo.

Na era digital, a construção da identidade passa por uma série de fragmentações e reconfigurações. Enquanto, no mundo físico, o "eu" é percebido através de uma sequência de interações e experiências, no espaço digital, o indivíduo pode apresentar diferentes versões de si mesmo, de acordo com a plataforma ou o contexto online. Um sujeito pode ter um perfil profissional no LinkedIn, outro mais pessoal no Instagram, e ainda outro anônimo em fóruns de discussão, por exemplo. Essas diferentes "faces" da identidade podem levar a um sentido de fragmentação, onde o indivíduo sente a necessidade de adaptar-se constantemente às expectativas e normas de cada ambiente digital (Turkle, 2011).

A fragmentação da identidade também pode ser observada no fenômeno da "curadoria de si", ou seja, a forma como os indivíduos selecionam e editam os aspectos de suas vidas que desejam compartilhar online. O espaço digital oferece uma oportunidade inédita de controle sobre a forma como somos percebidos, mas também cria uma pressão para que o indivíduo esteja constantemente performando uma versão idealizada de si mesmo. Isso leva a uma tensão entre o eu ideal e o eu real, que pode gerar sentimentos de inadequação e ansiedade, uma vez que o sujeito pode sentir que nunca consegue corresponder à imagem que projeta no espaço digital (Goffman, 1959; Lacan, 1949/1977).

As redes sociais desempenham um papel central na construção da identidade digital, atuando como vitrines para a expressão pessoal e, ao mesmo tempo, como espelhos distorcidos que refletem de volta as expectativas sociais e os julgamentos dos outros. Através de “curtidas”, “compartilhamentos” e comentários, os indivíduos recebem constantes feedbacks sobre a validade de sua autoapresentação, o que pode reforçar ou abalar seu senso de identidade. De acordo com Winnicott (1967), o desenvolvimento saudável do self depende de um ambiente suficientemente bom, que permita ao indivíduo explorar e expressar seu verdadeiro eu sem medo de rejeição. No entanto, no espaço digital, essa "suficiência" nem sempre está presente, e o indivíduo pode ser exposto a críticas e julgamentos massivos e constantes, o que pode comprometer a autenticidade de suas interações.

Um aspecto importante das redes sociais na construção identitária é a possibilidade de criar "identidades alternativas" ou pseudônimos que permitem ao indivíduo explorar partes de si mesmo que podem não ser socialmente aceitas ou reconhecidas em seu círculo offline. Embora isso possa ser uma ferramenta poderosa de autoconhecimento e exploração, também pode levar a uma desconexão entre o self digital e o self real, exacerbando a fragmentação e a alienação pessoal (Lacan, 1949/1977).

Outro fator importante na construção da identidade na era digital é o fenômeno da comparação social. Nas redes sociais, os indivíduos estão constantemente expostos às vidas dos outros, que, muitas vezes, são retratadas de forma idealizada e editada. Essa comparação pode levar a sentimentos de inadequação, inveja e inferioridade, especialmente quando o sujeito se percebe aquém dos padrões de sucesso, beleza ou felicidade que vê nos perfis alheios (Festinger, 1954). A comparação social pode, assim, contribuir para a formação de um superego excessivamente punitivo, que critica e desvaloriza constantemente o eu real em comparação com os ideais inatingíveis projetados no espaço digital (Freud, 1923/1961).

A exposição constante às vidas idealizadas dos outros também pode exacerbar a insegurança e a ansiedade, à medida que o sujeito sente a pressão para alcançar ou superar esses padrões. O fenômeno do “fear of missing out” (FOMO) é um exemplo claro dessa ansiedade contemporânea, onde o indivíduo sente que está perdendo experiências importantes ou não está vivendo de acordo com os padrões de felicidade e realização que vê projetados no espaço digital (Przybylski et al., 2013). Essa sensação pode levar à insatisfação crônica com a própria vida, minando a construção de uma identidade saudável e coerente.

A busca por autenticidade tornou-se uma das principais questões na construção da identidade na era digital. Paradoxalmente, enquanto as plataformas digitais oferecem uma oportunidade para a autoexpressão, elas também criam um ambiente onde a autenticidade pode ser difícil de alcançar. A pressão para performar uma versão idealizada de si mesmo pode resultar em um sentimento de alienação, onde o indivíduo sente que está constantemente representando um papel, em vez de expressar seu verdadeiro eu (Baudrillard, 1994).

Freud (1914/1957), em sua obra sobre o narcisismo, discute como o indivíduo pode se perder em uma busca insaciável por aprovação externa, construindo sua identidade em torno da imagem que deseja projetar para os outros. No espaço digital, essa dinâmica narcisista pode ser amplificada, uma vez que o feedback constante das redes sociais reforça o valor da imagem em detrimento da essência. Essa alienação do verdadeiro eu pode ter consequências psicológicas graves, como a depressão, a ansiedade e o sentimento de vazio existencial.

No entanto, a psicanálise sugere que é possível, através da introspecção e da análise, reconectar-se com o verdadeiro eu, superando as ilusões e máscaras que o espaço digital pode fomentar. O papel do analista, nesse contexto, é ajudar o paciente a identificar as influências externas que moldam sua identidade e a reconectar-se com suas verdadeiras emoções e desejos, promovendo uma construção identitária mais autêntica e integrada.

2.1 Sobre construção de uma identidade digital

Donald Winnicott (1960/1983) introduziu os conceitos de "verdadeiro self" e "falso self" na psicanálise. O falso self é uma fachada defensiva que oculta o verdadeiro self, levando a uma sensação de irrealidade e vazio (Galván & Amiralian, 2009). No contexto digital, a construção de uma identidade online pode se assemelhar a um "falso self", onde a pessoa apresenta uma versão idealizada de si mesma, escondendo sua verdadeira natureza (Souza, 2012).

Essa busca por aceitação e aprovação através da imagem projetada online pode levar a uma perda de espontaneidade e autenticidade (Winnicott, 1960/1983). A pessoa pode se sentir pressionada a se adequar a padrões e expectativas sociais, resultando em uma identidade digital que não reflete seu verdadeiro self (Silva et al., 2013)

Apesar dos riscos, a construção de uma identidade digital também pode ser uma oportunidade de explorar e expressar aspectos do verdadeiro self. Winnicott (1960/1983) enfatizou a importância do ambiente facilitador para o desenvolvimento saudável do self. No mundo digital, as pessoas podem encontrar comunidades e espaços onde se sentem seguras para se expressar de forma autêntica.

Além disso, a possibilidade de experimentar diferentes facetas do self online pode ser um caminho para a integração e fortalecimento da identidade (Galván & Amiralian, 2009). No entanto, é crucial manter um equilíbrio entre a identidade digital e o verdadeiro self, evitando uma dissociação prejudicial entre os dois (Silva et al., 2013).

A construção de uma identidade digital é um fenômeno complexo que envolve riscos e oportunidades. Embora possa haver uma tendência a criar um "falso self" online, é possível usar o mundo digital para explorar e expressar aspectos autênticos do verdadeiro self. O desafio é encontrar um equilíbrio saudável entre a identidade digital e a identidade real, mantendo a integridade do self em ambos os domínios.

As redes sociais desempenham um papel fundamental na formação da identidade digital, permitindo que os indivíduos compartilhem suas experiências, pensamentos e sentimentos com um público amplo. Essa interatividade não apenas facilita a construção de uma persona online, mas também influencia a percepção que os outros têm de nós. De acordo com Turkle (2011), as redes sociais oferecem um espaço onde as pessoas podem experimentar diferentes aspectos de suas identidades, mas também podem criar uma pressão para manter uma imagem idealizada.

A "performance" da identidade digital pode levar a um estado de constante vigilância e comparação social. As pessoas tendem a se comparar com os outros, o que pode resultar em sentimentos de inadequação e ansiedade (Vogel et al., 2014). Essa pressão para apresentar uma versão "perfeita" de si mesmo pode exacerbar a dissociação entre o verdadeiro self e o falso self, levando a um ciclo de insatisfação e descontentamento.Além disso, a busca por validação através de "likes" e comentários pode reforçar a ideia de que a identidade digital é uma construção superficial, muitas vezes desconectada da realidade (Seabrook et al., 2016). Essa dinâmica pode resultar em um "self digital" que não apenas distorce a verdadeira identidade, mas também afeta a saúde mental dos indivíduos.

Por outro lado, as redes sociais também oferecem oportunidades para a autenticidade e a autoexpressão. Quando utilizadas de maneira consciente, essas plataformas podem servir como um espaço seguro para a exploração da identidade e a construção de conexões significativas (Baker & Oswald, 2010). A autenticidade na identidade digital pode ser alcançada quando os indivíduos se sentem livres para compartilhar suas vulnerabilidades e experiências reais, desafiando a norma de apresentar apenas o que é socialmente aceitável.

A construção de uma identidade digital autêntica pode, portanto, ser vista como um ato de resistência contra as pressões sociais que promovem o falso self. Ao compartilhar experiências genuínas, os indivíduos podem não apenas se conectar com os outros de maneira mais profunda, mas também contribuir para uma cultura digital mais saudável e inclusiva.

À medida que a tecnologia avança e novas plataformas emergem, a construção da identidade digital continuará a evoluir. A realidade aumentada e a inteligência artificial, por exemplo, estão começando a moldar como percebemos e interagimos com as identidades online (Schroeder, 2018). Essas inovações podem oferecer novas formas de expressão, mas também levantam questões éticas sobre a privacidade e a autenticidade.É essencial que os indivíduos se tornem mais críticos em relação à forma como constroem e gerenciam suas identidades digitais. A educação sobre literacia digital e a promoção de um uso consciente das redes sociais podem ajudar a mitigar os riscos associados à construção de um falso self e a promover uma identidade digital mais autêntica e saudável.

2.2 O falso self e as mídias sociais

A proliferação das mídias sociais nas últimas décadas tem transformado profundamente a forma como construímos e expressamos nossa identidade. Nesse contexto, o conceito de "falso self" de Donald Winnicott (1960/1983) se torna particularmente relevante. O falso self, segundo Winnicott, é uma fachada defensiva que oculta o verdadeiro self, levando a uma sensação de irrealidade e vazio (Galván & Amiralian, 2009). Nas mídias sociais, essa dinâmica pode se intensificar, com as pessoas apresentando versões idealizadas de si mesmas em busca de aceitação e aprovação.

As mídias sociais oferecem um palco virtual para a apresentação de uma identidade cuidadosamente curada. Nesse ambiente, as pessoas têm a oportunidade de selecionar e filtrar as informações que compartilham sobre si mesmas, criando uma imagem que nem sempre reflete sua verdadeira natureza (Souza, 2012). Essa busca por uma identidade digital perfeita pode levar a uma "coisificação do eu e uma personificação da coisa" (Souza, 2012, p. 9), onde a pessoa se torna um objeto a ser consumido e manipulado no mundo virtual.

A pressão para se adequar a padrões e expectativas sociais online pode resultar em uma identidade digital que não corresponde ao verdadeiro self (Silva et al., 2013). Essa dissociação entre o self online e offline pode ser prejudicial para o desenvolvimento saudável da personalidade, levando a sentimentos de inadequação e falta de autenticidade.

A construção de um falso self digital pode ter sérias consequências para a saúde mental dos indivíduos. Ao se compararem constantemente com as imagens idealizadas apresentadas por seus pares nas mídias sociais, as pessoas podem desenvolver sentimentos de insegurança e baixa autoestima (Vogel et al., 2014).

Essa dinâmica pode levar a um ciclo vicioso de busca por aprovação externa e rejeição do verdadeiro self.Além disso, a dependência de validação através de "likes" e comentários pode reforçar a ideia de que a identidade digital é uma construção superficial, desconectada da realidade (Seabrook et al., 2016). Essa busca por aceitação online pode prejudicar as relações pessoais offline, à medida que as pessoas se tornam cada vez mais absorvidas em sua persona virtual.

Embora os riscos do falso self digital sejam significativos, é possível usar as mídias sociais de maneira consciente e autêntica. Quando utilizadas de forma equilibrada, essas plataformas podem servir como um espaço para a exploração da identidade e a construção de conexões significativas (Baker & Oswald, 2010). A autenticidade na identidade digital pode ser alcançada quando os indivíduos se sentem livres para compartilhar suas vulnerabilidades e experiências reais, desafiando a norma de apresentar apenas o que é socialmente aceitável.

A construção de uma identidade digital autêntica requer autoconhecimento, autocompaixão e a coragem de se mostrar vulnerável. Ao abraçar suas imperfeições e compartilhar suas histórias, as pessoas podem não apenas se conectar com os outros de maneira mais profunda, mas também contribuir para uma cultura digital mais saudável e inclusiva.

2.3 Identidade digital e redes sociais

A identidade digital é um conceito de crescente relevância em um mundo cada vez mais conectado. Ela se refere à representação de uma pessoa ou entidade na esfera online, englobando características e comportamentos que influenciam tanto a percepção externa quanto interna de um indivíduo (Schwartz, 2010). Com o aumento do uso das redes sociais, a identidade digital tornou-se um aspecto fundamental na construção de relações interpessoais e profissionais, moldando interações sociais contemporâneas de maneiras que nunca haviam sido possíveis.

Nos últimos anos, as redes sociais emergiram como o principal meio de comunicação, criando um espaço onde as interações e a identidade são constantemente reconfiguradas. Essa construção identitária tem implicações importantes, tanto no nível individual quanto coletivo, especialmente em termos de privacidade, autenticidade e reputação online (boyd & Ellison, 2007). O objetivo deste artigo é explorar como a identidade digital influencia as dinâmicas sociais e psicológicas no ambiente virtual, destacando os desafios e oportunidades que surgem com a autopresentação nas redes sociais.

Conceito de Identidade Digital

A identidade digital pode ser definida como o conjunto de informações e características que uma pessoa ou entidade utiliza para se apresentar no ambiente online. De acordo com Turkle (1995), a identidade digital vai além de simples perfis e fotos; ela abrange todas as interações e atividades realizadas na internet, formando um retrato multifacetado do indivíduo. A construção dessa identidade é influenciada por diversos fatores, como as plataformas utilizadas, o público-alvo e as intenções do usuário.

Essa forma de identidade difere da identidade física ou social tradicional, que está associada a atributos tangíveis e reconhecimento no mundo real (Castells, 2003). A identidade digital, por sua vez, pode ser mais fluida e modificável, sendo construída e reconstruída conforme as interações online ocorrem. Tal construção é influenciada pela percepção de autenticidade e pela necessidade de adaptação a normas sociais que são exclusivas do ambiente virtual (Schwartz, 2010).

A Evolução das Redes Sociais e a Identidade Digital

As redes sociais, desde sua criação, transformaram profundamente a forma como os indivíduos constroem e expressam suas identidades digitais. Inicialmente, plataformas como o MySpace e o Friendster abriram caminho para o compartilhamento de informações pessoais, permitindo que os usuários desenvolvessem suas identidades online (boyd & Ellison, 2007). Posteriormente, o surgimento do Facebook e do Instagram trouxe novos níveis de complexidade para essa construção, com ênfase na curadoria de conteúdo visual e na criação de uma narrativa digital pessoal (Ellison et al., 2007).

Essas plataformas permitem que os indivíduos apresentem uma versão idealizada de si mesmos, o que pode gerar conflitos internos e externos. A busca por validação social por meio de "curtidas" e comentários incentiva a criação de uma imagem que, muitas vezes, não corresponde à realidade (Schwartz, 2010). A construção da identidade digital, portanto, não é apenas um reflexo de quem somos, mas uma atividade estratégica, influenciada pelas dinâmicas sociais e tecnológicas do ambiente online (boyd & Ellison, 2007).

A autopresentação, conforme proposta por Erving Goffman (1959), é o processo pelo qual os indivíduos tentam controlar a forma como são percebidos pelos outros. No ambiente das redes sociais, essa dinâmica se torna mais complexa, uma vez que os usuários gerenciam ativamente suas impressões por meio da curadoria de conteúdo, como fotos, vídeos e postagens (Ellison et al., 2007).

O anonimato e a distância emocional proporcionados pelo ambiente digital permitem que os indivíduos adotem diferentes "personagens" e moldem suas identidades conforme o contexto social e as expectativas de seu público (boyd & Ellison, 2007). Essa curadoria constante afeta tanto a percepção externa quanto a autoimagem dos usuários, influenciando sua autoestima e bem-estar psicológico (Schwartz, 2010).

Implicações Psicológicas e Sociais

A exposição constante nas redes sociais pode impactar a saúde mental dos usuários, exacerbando a comparação social e levando a sentimentos de inadequação. Estudos indicam que o uso intensivo das redes sociais está associado a maiores níveis de ansiedade, depressão e baixa autoestima, especialmente entre jovens adultos (Twenge, 2017). Isso ocorre devido à comparação com representações idealizadas de outras pessoas, que frequentemente não correspondem à realidade (Schwartz, 2010).

Por outro lado, a identidade digital também pode desempenhar um papel positivo, criando espaços de suporte e pertencimento. Comunidades online permitem que pessoas com interesses comuns ou experiências semelhantes se conectem, oferecendo apoio emocional e construindo redes de solidariedade (boyd & Ellison, 2007). No entanto, o anonimato das redes também facilita comportamentos negativos, como o cyberbullying, que pode ter consequências devastadoras para a saúde mental dos envolvidos (Patchin & Hinduja, 2010).

Com o aumento da visibilidade nas redes sociais, a proteção da identidade digital torna-se um desafio crucial. Informações pessoais compartilhadas online podem ser utilizadas de maneira indevida, levando a problemas como roubo de identidade e invasão de privacidade (Solove, 2007). Nesse sentido, é fundamental que os usuários adotem práticas de segurança, como o uso de senhas fortes, a ativação da autenticação em dois fatores e a revisão regular das configurações de privacidade (Solove, 2007).

A identidade digital também desempenha um papel importante na promoção da inclusão social. Grupos marginalizados podem utilizar as redes sociais como uma plataforma para aumentar sua visibilidade e lutar por seus direitos (Castells, 2003). No entanto, a exclusão digital ainda é uma barreira significativa, especialmente para aqueles que não têm acesso regular à internet ou às tecnologias necessárias (Castells, 2003).

À medida que a tecnologia continua a evoluir, a identidade digital se tornará cada vez mais complexa e integrada com novas ferramentas, como a inteligência artificial e o blockchain. Essas tecnologias têm o potencial de transformar a forma como os usuários gerenciam suas identidades e garantem sua privacidade e segurança (Schwartz, 2010). No entanto, questões éticas e de governança de dados continuarão a ser um desafio central no futuro da identidade digital (Solove, 2007).

2.4 O desenvolvimento das neuroses

O conceito de neurose foi amplamente desenvolvido por Sigmund Freud e outros teóricos da psicanálise para descrever um conjunto de sintomas psicológicos resultantes de conflitos inconscientes, frequentemente relacionados a ansiedades, traumas e repressões emocionais (Freud, 1920). Esses conflitos, não resolvidos de forma adequada, emergem em sintomas diversos que podem incluir fobias, obsessões, compulsões e comportamentos evitativos. Com o avanço da sociedade e a revolução digital, especialmente com a proliferação do uso das redes sociais, novas formas de interação e comportamento humano começaram a surgir, trazendo à tona a discussão sobre possíveis neuroses contemporâneas. Neste contexto, discute-se a hipótese de uma "neurose digital", caracterizada pela influência excessiva das redes sociais na vida psíquica dos indivíduos.

Historicamente, Freud (1915) desenvolveu a teoria das neuroses ao observar que certos comportamentos e sintomas físicos sem explicação médica tinham uma origem psicológica. Ele propôs que esses sintomas eram formas de expressão de desejos e conflitos inconscientes, reprimidos ao longo da vida psíquica. No modelo psicanalítico, a neurose está relacionada à forma como o indivíduo lida com os desejos instintivos (id), as exigências da realidade (ego) e as normas morais (superego). Quando o ego falha em equilibrar esses impulsos, resultam sintomas neuróticos.

A neurose, em sua forma clássica, pode manifestar-se em diferentes subtipos: histeria, fobias e transtornos obsessivo-compulsivos são apenas alguns exemplos (Freud, 1920). O que une essas manifestações é a presença de conflitos psíquicos que se expressam através de sintomas que causam sofrimento, mas que não são conscientemente compreendidos pelo indivíduo. A busca pela cura da neurose, segundo Freud, implicava na análise e na compreensão desses conflitos inconscientes, trazendo-os à luz da consciência para que pudessem ser resolvidos (Freud, 1923).

Com a crescente presença das redes sociais na vida cotidiana, novos fatores começaram a impactar a forma como os indivíduos interagem com o mundo e consigo mesmos. As redes sociais oferecem um ambiente onde as dinâmicas de autopresentação, comparação social e busca por validação externa estão exacerbadas (Muller, 2019). Nesse contexto, surge a hipótese de que essas interações digitais podem estar contribuindo para o desenvolvimento de novas formas de neurose, aqui denominada “neurose digital”.

As redes sociais criam um cenário de constante exposição e avaliação, onde os indivíduos estão frequentemente submetidos ao julgamento alheio, seja através de “curtidas”, comentários ou a popularidade de suas postagens (Nadkarni & Hofmann, 2012). Esse ambiente favorece o surgimento de ansiedades ligadas à imagem pessoal e à aceitação social, elementos que já compõem a dinâmica neurótica em outros contextos (Muller, 2019). Estudos recentes sugerem que o uso excessivo das redes sociais está relacionado a sintomas depressivos e de ansiedade, o que fortalece a hipótese de que uma forma moderna de neurose pode estar emergindo no contexto digital (Kross et al., 2013).

Características da Neurose Digital

A neurose digital pode ser descrita como um transtorno psíquico que emerge da interação contínua e problemática com o ambiente digital. Assim como nas neuroses clássicas, a neurose digital tem suas raízes em conflitos internos não resolvidos, mas amplificados pelas características únicas das redes sociais. Entre os principais sintomas dessa possível neurose estão:

  1. Ansiedade social digital: O medo constante de não ser aceito ou apreciado no ambiente online. Esse sintoma reflete-se em uma obsessão por curtidas, seguidores e engajamento, levando a comportamentos compulsivos de postagem e verificação de interações nas redes sociais (Andreassen et al., 2016).

  2. Comparação social excessiva: Nas redes sociais, a comparação com os outros é frequentemente distorcida, pois a maioria dos usuários apresenta uma versão idealizada de suas vidas. Isso pode exacerbar sentimentos de inadequação e inferioridade, levando a sintomas depressivos ou ansiosos (Vogel et al., 2014).

  3. Perda de identidade: Com o tempo, alguns indivíduos podem começar a desenvolver uma identidade digital que não corresponde à sua identidade real, gerando uma desconexão entre o eu verdadeiro e o eu idealizado. Esse descompasso pode levar ao surgimento de conflitos internos, típicos das neuroses, como a dissonância cognitiva e a insatisfação constante com a própria vida (Higgins, 1987).

  4. Compulsão por aprovação: Muitos indivíduos se sentem compelidos a manter uma imagem perfeita nas redes sociais, evitando qualquer conteúdo que possa gerar críticas ou desaprovação. Essa necessidade de aprovação constante pode ser interpretada como um comportamento obsessivo, típico das neuroses (Andreassen et al., 2016).

Vários estudos apontam para os impactos negativos das redes sociais na autoestima dos usuários. A exposição contínua a imagens idealizadas e a necessidade constante de validação externa estão fortemente associadas à diminuição da autoestima e ao aumento de sentimentos de inferioridade e ansiedade (Kross et al., 2013). De acordo com Festinger (1954), a teoria da comparação social sugere que as pessoas avaliam seu próprio valor ao se comparar com os outros, e no contexto das redes sociais, essas comparações tendem a ser injustas, pois os indivíduos geralmente comparam sua vida cotidiana com os momentos mais glamourosos dos outros.

Além disso, o ambiente digital pode levar ao isolamento emocional. Embora as redes sociais facilitem a comunicação, elas também podem substituir as interações face a face, que são essenciais para o desenvolvimento de conexões emocionais profundas (Turkle, 2011). A ausência dessas interações pode levar ao aumento de sentimentos de solidão, outro sintoma comum em neuroses.

Outro aspecto relevante da neurose digital é a questão da autenticidade no ambiente online. Segundo Goffman (1959), as pessoas tendem a gerenciar suas impressões nas interações sociais, e isso também se aplica ao ambiente digital. No entanto, a pressão para parecer perfeito pode levar a uma distorção da identidade, onde o indivíduo apresenta uma versão de si mesmo que não corresponde à realidade (Turkle, 2011). Esse esforço para manter uma imagem idealizada pode gerar conflitos internos e sofrimento, uma vez que o indivíduo sente que está vivendo uma farsa ou uma vida dividida entre o real e o digital (Muller, 2019).

A noção de uma “neurose digital” se torna cada vez mais plausível à medida que as redes sociais ganham maior relevância na vida cotidiana. Embora a teoria das neuroses tenha sido desenvolvida em um contexto muito diferente, os princípios subjacentes, como a repressão de conflitos e a busca por validação externa, continuam a se aplicar. O ambiente digital, com suas características únicas de interação, amplifica esses conflitos e traz à tona novas formas de sofrimento psíquico.

Assim, é fundamental que os estudos psicanalíticos e psicológicos se voltem para a análise dessas novas formas de neurose que emergem no contexto contemporâneo. O reconhecimento da “neurose digital” pode abrir novas possibilidades de tratamento e intervenção, ajudando os indivíduos a navegar pelas redes sociais de maneira mais saudável e equilibrada.

2.5 A identificação no Coletivo

A ansiedade tem sido uma condição amplamente discutida no contexto escolar, onde as demandas acadêmicas, sociais e emocionais contribuem significativamente para o desenvolvimento de sintomas ansiosos em crianças e adolescentes (Stein et al., 2001). No entanto, com o avanço da tecnologia e o uso cada vez mais frequente de redes sociais, um novo elemento tem emergido no cenário educacional: a ansiedade digital. As interações virtuais e a constante exposição às redes sociais têm potencializado o surgimento de comportamentos ansiosos nos estudantes, afetando tanto seu desempenho acadêmico quanto sua saúde mental.Uma primeira delas, direta e imediata, possui íntima relação com a fase oral ou canibalesca.

O ambiente escolar, por si só, já é um cenário complexo, onde os jovens são constantemente avaliados, comparados e submetidos a pressões sociais e acadêmicas (Byrne, 2000). Além disso, a adolescência é uma fase marcada pela busca de identidade e pertencimento, o que torna os indivíduos dessa faixa etária particularmente suscetíveis às influências externas. A introdução das redes sociais nesse contexto adiciona uma camada extra de complexidade, uma vez que as dinâmicas de interação online podem intensificar os desafios emocionais e psicológicos já presentes na vida escolar.

As redes sociais criam um ambiente onde a exposição é constante, e o comportamento dos jovens é continuamente monitorado e avaliado pelos pares, tanto dentro quanto fora do ambiente escolar (Nesi et al., 2017). Isso leva a uma preocupação excessiva com a imagem e a aceitação social, fatores que estão diretamente ligados ao aumento da ansiedade. A expectativa de estar sempre disponível, conectado e atualizado com as tendências das redes sociais torna-se uma fonte de estresse contínuo para muitos jovens (Twenge, 2017).

O termo "neurose de ansiedade digital" pode ser utilizado para descrever um quadro em que os sintomas ansiosos estão diretamente relacionados ao uso excessivo e desregulado das redes sociais e da tecnologia digital. Enquanto a ansiedade, em sua forma clássica, é caracterizada por sentimentos de inquietação, medo e preocupação excessiva, a neurose de ansiedade digital incorpora esses mesmos sintomas, mas com um foco específico nas interações digitais e nos comportamentos associados a elas (Andreassen et al., 2016).

No ambiente escolar, essa neurose se manifesta quando os estudantes se tornam obsessivamente preocupados com suas interações nas redes sociais, resultando em uma ansiedade constante em relação à sua imagem, popularidade e aceitação no meio digital. Esse comportamento, por sua vez, tem implicações diretas na vida acadêmica, afetando a capacidade de concentração, o desempenho escolar e o bem-estar emocional geral (Stein et al., 2001).

A neurose de ansiedade digital nas escolas pode ser identificada através de uma série de sintomas que afetam tanto o comportamento escolar quanto as interações sociais dos estudantes. Entre os principais sintomas estão:

  1. Medo constante de perder informações (FOMO - Fear of Missing Out): Um dos principais fatores que contribuem para a ansiedade digital é o medo de perder atualizações, eventos ou informações importantes que circulam nas redes sociais (Przybylski et al., 2013). Esse sentimento é exacerbado no ambiente escolar, onde os jovens estão constantemente em contato uns com os outros e com as novidades digitais.

  2. Preocupação com a autoimagem: Nas redes sociais, os estudantes estão frequentemente preocupados com a forma como são percebidos pelos colegas. Essa preocupação pode se traduzir em comportamentos compulsivos, como a necessidade de postar fotos, vídeos e atualizações que demonstrem sucesso, popularidade ou felicidade. A frustração de não alcançar esses padrões idealizados de vida pode levar a sentimentos de inadequação e ansiedade intensa (Nesi et al., 2017).

  3. Comparação social exacerbada: A comparação com os pares é uma característica natural do desenvolvimento adolescente. No entanto, as redes sociais amplificam essa dinâmica, expondo os estudantes a versões filtradas e idealizadas da vida dos outros. Essa comparação constante pode intensificar sentimentos de inferioridade e ansiedade (Vogel et al., 2014).

  4. Desempenho acadêmico prejudicado: A necessidade constante de estar conectado e atualizado com as redes sociais pode afetar a capacidade dos estudantes de se concentrar em tarefas acadêmicas. A distração contínua, associada à ansiedade sobre o que está acontecendo no mundo digital, pode resultar em dificuldades de aprendizado e queda no rendimento escolar (Twenge, 2017).

  5. Isolamento e exclusão social: Paradoxalmente, enquanto as redes sociais prometem conectar os indivíduos, elas também podem levar a sentimentos de isolamento. Estudantes que não conseguem atingir os padrões de popularidade ou aceitação nas redes sociais podem se sentir excluídos e socialmente marginalizados, o que contribui para o aumento da ansiedade e até mesmo para o desenvolvimento de sintomas depressivos (Turkle, 2011).

As instituições escolares têm um papel crucial na identificação e gestão dos sintomas de ansiedade digital. O ambiente escolar é muitas vezes o primeiro lugar onde os sinais de sofrimento emocional e psicológico se manifestam, e é fundamental que professores e administradores estejam preparados para lidar com esses desafios.

Uma abordagem preventiva envolve educar os estudantes sobre o uso saudável das redes sociais, incentivando a conscientização sobre os riscos associados ao uso excessivo da tecnologia digital (Daine et al., 2013). Além disso, as escolas podem promover atividades que ajudem os jovens a desenvolver habilidades sociais e emocionais, ensinando-os a lidar com a pressão social de maneira saudável e equilibrada.

Sob a lente da psicanálise, a neurose de ansiedade digital pode ser entendida como uma manifestação contemporânea de conflitos psíquicos relacionados ao desejo de aceitação, pertencimento e validação (Freud, 1923). As redes sociais oferecem um palco virtual onde os jovens podem apresentar suas identidades idealizadas, mas, ao mesmo tempo, esses espaços geram tensões internas entre o "eu real" e o "eu digital".

De acordo com Freud (1923), a neurose surge quando o ego não consegue equilibrar os impulsos do id (os desejos inconscientes) com as demandas do superego (as normas sociais). No caso da neurose de ansiedade digital, o id pode ser representado pelo desejo inconsciente de ser aceito e admirado, enquanto o superego é expresso pelas expectativas sociais e culturais que ditam como um jovem deve se comportar nas redes sociais. Quando o ego é incapaz de equilibrar essas demandas, surgem os sintomas ansiosos.

A intervenção psicanalítica no contexto escolar pode desempenhar um papel importante na gestão da neurose de ansiedade digital. Através da psicanálise, é possível ajudar os estudantes a explorar os conflitos inconscientes que estão na base de sua ansiedade, permitindo-lhes desenvolver uma maior compreensão de suas motivações e comportamentos.

Além disso, a psicanálise pode fornecer um espaço seguro para que os jovens expressem suas preocupações e angústias relacionadas às redes sociais. Através da análise de sonhos, associações livres e o trabalho com os mecanismos de defesa, é possível trazer à consciência os conflitos subjacentes que alimentam a neurose de ansiedade digital, possibilitando a elaboração e resolução desses conflitos (Freud, 1915).

A neurose de ansiedade digital é um fenômeno emergente que está profundamente ligado ao uso das redes sociais e à maneira como os jovens interagem com a tecnologia. No ambiente escolar, essa neurose se manifesta através de sintomas de ansiedade, preocupação excessiva com a imagem e o desempenho social, e dificuldades acadêmicas.

É fundamental que as escolas estejam atentas a esses sinais e desenvolvam estratégias para educar os estudantes sobre o uso saudável da tecnologia. Ao mesmo tempo, a psicanálise oferece uma abordagem poderosa para entender e tratar a neurose de ansiedade digital, ajudando os jovens a navegar pelo mundo digital de maneira mais equilibrada e saudável.

2.6 Neurose de ansiedade digital e transtornos mentais

A ansiedade é uma condição mental caracterizada por preocupações excessivas, tensão e medo sobre eventos futuros ou situações desconhecidas. Tradicionalmente, essas preocupações estavam ligadas a fatores reais do ambiente físico, como exigências acadêmicas, profissionais ou sociais. No entanto, a era digital trouxe novas formas de interações e desafios que contribuem diretamente para o surgimento de um tipo específico de ansiedade – a ansiedade digital (Andreassen et al., 2016).

Com a popularização das redes sociais, a interação virtual se tornou uma extensão das relações sociais físicas, e, em alguns casos, até mesmo a substituiu. Essa mudança nas formas de interação tem gerado novos gatilhos para a ansiedade. Os indivíduos, especialmente os jovens, são expostos a uma constante pressão para manter uma presença ativa e atraente nas plataformas digitais, o que leva ao surgimento de sentimentos de inadequação e medo de não se encaixar nas expectativas sociais do mundo virtual (Twenge, 2017).

A neurose de ansiedade digital pode ser entendida como uma forma contemporânea de neurose que surge em resposta às demandas e pressões do ambiente digital. De acordo com Freud (1923), a neurose ocorre quando o ego não consegue lidar com os impulsos inconscientes e as exigências do superego, resultando em conflitos psíquicos que se manifestam em forma de sintomas. No contexto da ansiedade digital, o ego se vê pressionado por um desejo inconsciente de aceitação, popularidade e pertencimento no mundo digital, enquanto o superego impõe normas sociais e padrões idealizados, muitas vezes inatingíveis, de sucesso e felicidade online.

A característica mais marcante da neurose de ansiedade digital é a preocupação constante com a imagem pública nas redes sociais, o que gera um ciclo de comparação social e a necessidade de validação externa através de curtidas, comentários e seguidores. Essa busca incessante por reconhecimento pode levar ao desenvolvimento de uma neurose ansiosa, onde o indivíduo se torna incapaz de relaxar e se desconectar do ambiente digital, sentindo-se oprimido pela expectativa de estar sempre disponível e atualizado (Przybylski et al., 2013).

A neurose de ansiedade digital pode ser considerada tanto um sintoma quanto um fator contribuinte para o surgimento de transtornos mentais. Entre as condições mais frequentemente associadas à neurose de ansiedade digital, destacam-se a depressão, os transtornos de ansiedade generalizada, o transtorno de pânico e a fobia social. A seguir, exploraremos como esses transtornos podem estar relacionados à interação digital.

1. Depressão

Vários estudos têm mostrado uma correlação entre o uso excessivo das redes sociais e o aumento dos índices de depressão, especialmente entre adolescentes e jovens adultos (Lin et al., 2016). A exposição constante a vidas idealizadas nas redes sociais, onde todos parecem felizes e bem-sucedidos, pode provocar sentimentos de inadequação e baixa autoestima. Além disso, a comparação social excessiva gera uma sensação de fracasso pessoal, contribuindo para o surgimento de sintomas depressivos, como tristeza, apatia e isolamento social.

A neurose de ansiedade digital, com sua preocupação incessante em manter uma boa imagem nas redes, pode exacerbar esses sentimentos depressivos. O indivíduo que sofre dessa neurose está constantemente em alerta para como é percebido no ambiente online, o que pode levar a uma exaustão emocional e a um sentimento de vazio, que são característicos da depressão (Twenge, 2017).

2. Transtornos de Ansiedade Generalizada (TAG)

O transtorno de ansiedade generalizada é marcado por uma preocupação excessiva e contínua com vários aspectos da vida cotidiana. No contexto digital, essa preocupação se manifesta de maneira específica em relação ao desempenho nas redes sociais, o que inclui o número de seguidores, curtidas e comentários, bem como a necessidade de estar constantemente atualizado sobre as tendências e eventos online (Stein et al., 2001).

A neurose de ansiedade digital intensifica esse quadro, pois o indivíduo passa a viver em função de seu "eu digital", temendo o julgamento social e se angustiando com a possibilidade de perder relevância ou ser esquecido. Isso gera uma hiperativação do sistema de alerta do cérebro, o que resulta em sintomas típicos do TAG, como inquietação, dificuldade de concentração, fadiga e insônia (Andreassen et al., 2016).

3. Fobia Social

A fobia social é caracterizada por um medo intenso de situações em que o indivíduo possa ser avaliado ou julgado pelos outros. Esse transtorno encontra um terreno fértil nas redes sociais, onde a exposição pública é constante e as interações são altamente visíveis e avaliáveis. O medo de ser criticado ou rejeitado online pode levar ao desenvolvimento de uma fobia social digital, onde o indivíduo evita interações online por medo de ser inadequado ou de receber comentários negativos (Vogel et al., 2014).

Nesses casos, a neurose de ansiedade digital pode se manifestar como uma hipersensibilidade às interações virtuais, resultando em uma busca obsessiva por aceitação e validação, mas, ao mesmo tempo, em um medo paralisante de ser exposto ao julgamento alheio. Isso pode levar a comportamentos de evitação, como a exclusão de contas nas redes sociais ou a diminuição drástica das interações online.

4. Dependência de Internet e Redes Sociais

A neurose de ansiedade digital também está fortemente relacionada ao desenvolvimento de uma dependência das redes sociais e da internet. Indivíduos que sofrem dessa neurose podem se tornar incapazes de se desconectar, sentindo uma necessidade compulsiva de verificar constantemente suas redes sociais, seja para buscar validação ou para aliviar a ansiedade causada pela comparação social (Andreassen et al., 2016).

A dependência de internet é reconhecida como um transtorno comportamental, caracterizado pelo uso excessivo da tecnologia a ponto de prejudicar a vida pessoal, profissional e social do indivíduo. No caso da neurose de ansiedade digital, a dependência das redes sociais se alimenta da necessidade incessante de manter uma presença online perfeita, o que acaba por criar um ciclo vicioso de ansiedade e compulsão (Przybylski et al., 2013).

CAPÍTULO 3 O efeito do assédio moral digital

O assédio moral é um fenômeno complexo que se caracteriza pela exposição sistemática e prolongada de um indivíduo a comportamentos hostis, humilhantes ou degradantes. Esse tipo de agressão pode ocorrer em variadas situações e ambientes, sendo mais comumente observado em contextos como o local de trabalho, instituições educacionais e relações pessoais. As definições de assédio moral incluem, em sua essência, a intenção de desestabilizar a vítima, levando-a a experimentar emoções de insegurança, medo e inferioridade.

No ambiente profissional, o assédio moral pode se manifestar através de críticas constantes, exclusão social ou ainda sabotagem das atividades do indivíduo. Essa prática não só afeta o bem-estar emocional da vítima, mas também pode comprometer seu desempenho e produtividade. Em instituições educacionais, o assédio moral, frequentemente conhecido como bullying, pode se expressar por meio de gozações, exclusões ou agressões verbais, impactando a autoestima e o desenvolvimento pessoal dos alunos. Nas relações pessoais, o assédio moral pode ser ainda mais insidioso, envolvendo manipulações emocionais e abuso psicológico, criando um ciclo de dependência e sofrimento para a vítima.

Os efeitos do assédio moral são variados e multifacetados. Psicologicamente, as vítimas podem desenvolver transtornos como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. Socialmente, podem ocorrer dificuldades em criar ou manter relacionamentos saudáveis, além de consequências relacionadas ao isolamento e à solidão. Portanto, é imperativo abordar o assédio moral, promovendo a conscientização sobre suas definições, manifestações e o impacto devastador que pode ter sobre os indivíduos e o ambiente em que se encontram. Ao reconhecer e compreender esse fenômeno, a sociedade pode trabalhar para prevenir e mitigar suas consequências nefastas.

Para além dos contextos tradicionais onde o assédio moral se manifesta, como o ambiente de trabalho e instituições educacionais, o avanço das tecnologias de comunicação trouxe à tona novas formas de assédio, em particular no espaço digital. O chamado assédio moral digital, ou cyberbullying, representa uma extensão das dinâmicas abusivas para o universo online, onde as agressões se tornam ainda mais persistentes e invasivas devido à natureza das plataformas digitais.

O assédio moral digital difere do assédio tradicional principalmente por sua onipresença e permanência. As vítimas podem ser expostas a comportamentos abusivos de maneira contínua, sem a possibilidade de “escapar” do ambiente de agressão, uma vez que o espaço digital transcende barreiras físicas e temporais. Além disso, o anonimato oferecido pelas redes sociais e outras plataformas digitais facilita a disseminação de conteúdos ofensivos e humilhantes, o que intensifica a sensação de impotência da vítima (Pies, 2015). O alcance massivo e a velocidade de disseminação das agressões são fatores que amplificam os danos emocionais, uma vez que o conteúdo depreciativo pode rapidamente alcançar um grande número de espectadores, gerando um ciclo de vergonha e humilhação pública (Smith et al., 2016).

A distinção entre o assédio moral tradicional e o digital é importante, mas também é relevante destacar suas semelhanças. Ambos os tipos de assédio compartilham o mesmo núcleo de destrutividade psíquica: a intenção de desestabilizar emocionalmente a vítima, minar sua autoestima e criar uma sensação de vulnerabilidade e insegurança constantes. As vítimas de assédio, independentemente de ser no mundo físico ou digital, podem desenvolver uma série de sintomas psicológicos graves, como ansiedade, depressão e isolamento social (Einarsen et al., 2011). Além disso, o assédio, seja ele digital ou presencial, frequentemente resulta em um impacto duradouro sobre a identidade da vítima, especialmente quando a agressão envolve ataques repetidos à sua dignidade ou valor pessoal.

No campo da psicanálise, o trabalho de análise com vítimas de assédio moral, incluindo o assédio digital, visa tanto à compreensão dos impactos psíquicos da experiência de abuso quanto à construção de um espaço de elaboração emocional. O analista tem a responsabilidade de ajudar o paciente a acessar, explorar e nomear as emoções frequentemente reprimidas associadas ao trauma do assédio, como raiva, vergonha, medo e impotência (Freud, 1917/1953). O tratamento psicanalítico oferece uma oportunidade de ressignificar essas experiências, possibilitando que a vítima construa novas formas de lidar com o sofrimento e recupere uma sensação de controle sobre sua vida emocional e relacional.

A abordagem psicanalítica ao assédio moral é particularmente eficaz porque permite a exploração dos fatores inconscientes que podem estar em jogo tanto na dinâmica entre agressor e vítima quanto na recepção emocional da vítima ao abuso. No contexto do assédio moral, o analista não só trabalha com as consequências visíveis do trauma, como também explora possíveis repetições de padrões relacionais abusivos ou internalizações anteriores de crítica e desvalorização, que podem ter tornado o indivíduo mais suscetível ao impacto destrutivo do assédio (Kernberg, 1995). A partir dessa compreensão, a vítima pode começar a se distanciar das identificações com o agressor e recuperar a própria agência.

As intervenções psicodinâmicas no tratamento de vítimas de assédio moral envolvem várias etapas cruciais. Primeiramente, é necessário estabelecer um espaço seguro onde o paciente possa expressar livremente suas emoções e reflexões, sem medo de julgamento ou novas invalidações. Este ambiente de confiança é fundamental para a reconstrução da autoestima da vítima, que frequentemente é desmantelada pelo assédio.

Uma das ferramentas mais poderosas no arsenal do analista é o manejo da transferência. As vítimas de assédio moral podem projetar no analista figuras de autoridade, ou até mesmo o próprio agressor, como forma de externalizar a angústia e o medo internalizados. O analista, ao reconhecer esses processos de transferência, tem a oportunidade de interpretar e devolver ao paciente uma visão mais consciente de suas respostas emocionais (Freud, 1912/1958). Esse processo de interpretação não só desvela os padrões inconscientes em jogo, como também promove uma maior autonomia emocional para a vítima, que passa a entender melhor seus próprios mecanismos de defesa e suas respostas automáticas ao assédio.

Além disso, o trabalho com a contratransferência permite ao analista monitorar suas próprias respostas emocionais ao relato do paciente, utilizando-as como ferramenta para compreender mais profundamente as dinâmicas inconscientes em ação. Por exemplo, sentimentos de impotência ou raiva que o analista possa experimentar durante as sessões podem refletir a própria vivência emocional da vítima e oferecer pistas importantes sobre as áreas de maior vulnerabilidade psíquica (Heimann, 1950).

Outra dimensão importante do trabalho analítico é a exploração das emoções de vergonha e humilhação, que são centrais à experiência do assédio moral. A vergonha, frequentemente ligada a uma sensação de falha pessoal ou inadequação, pode ser um dos maiores obstáculos para a cura emocional, pois impede que a vítima se sinta digna de proteção ou validação (Lewis, 1971). O analista trabalha para ajudar o paciente a desidentificar-se dessas emoções, permitindo que a vergonha seja reconhecida como uma reação ao abuso externo, e não como um reflexo da identidade da vítima. Esse processo é fundamental para a recuperação da autoestima e da autoconfiança.

O assédio moral, em suas diversas formas, constitui uma ameaça séria ao bem-estar emocional e psicológico dos indivíduos. No ambiente digital, esse fenômeno adquire novas dimensões, tornando-se mais invasivo e onipresente. O papel do analista no tratamento de vítimas de assédio moral, especialmente no contexto digital, é essencial para auxiliar o paciente a elaborar o trauma, identificar padrões inconscientes de resposta e recuperar sua autoestima e agência emocional.

A psicanálise oferece ferramentas poderosas para o tratamento do assédio moral, proporcionando um espaço terapêutico onde as vítimas podem explorar e transformar suas experiências traumáticas. Ao trabalhar com a transferência, a contratransferência, e as emoções de vergonha e humilhação, o analista ajuda o paciente a reconstruir sua identidade emocional e a desenvolver mecanismos de enfrentamento mais saudáveis e adaptativos. Em última análise, o trabalho do analista visa não apenas a cura das feridas emocionais causadas pelo assédio, mas também a promoção de um maior senso de autocompreensão e resiliência emocional.

3.1 O assédio moral, histórico e atualidade

O assédio moral, que historicamente se manifestou em ambientes físicos, tem se transformado significativamente com o advento da internet e a popularização das redes sociais. A facilidade de comunicação e a interação constante promovida pelo ambiente digital têm criado novas dinâmicas sociais que facilitam a prática do assédio moral, muitas vezes de forma mais intensa e imprevisível do que em contextos tradicionais. As interações humanas, que anteriormente eram limitadas a encontros presenciais, agora se estendem a ambientes virtuais, onde a falta de contato físico pode encorajar comportamentos agressivos e inadequados.

As plataformas digitais, como redes sociais, aplicativos de mensagens e fóruns online, oferecem um espaço onde o assédio moral pode ocorrer com relativa anonimidade e distância emocional. Essa característica do ambiente digital muitas vezes desinibe os agressores, que podem se sentir menos propensos a enfrentar as consequências diretas de suas ações. Além disso, a instantaneidade da comunicação online permite que mensagens prejudiciais se espalhem rapidamente, ampliando o alcance do assédio e a possibilidade de que a vítima enfrente um ataque em múltiplas frentes.

Os efeitos do assédio moral digital são particularmente insidiosos, pois, além do impacto imediato sobre a saúde mental das vítimas, as repercussões podem se estender para outras esferas de suas vidas, afetando relações pessoais e profissionais. O estigma associado ao assédio moral em ambientes digitais é frequentemente agravado, uma vez que as vítimas podem hesitar em buscar ajuda, temendo o julgamento ou a falta de compreensão por parte de outros. Assim, a transição do assédio moral para o espaço digital não apenas alterou a forma como os indivíduos interagem, mas também sublinhou a necessidade de um maior entendimento e suporte no enfrentamento dessas práticas prejudiciais.

O assédio moral digital se caracteriza por ações e comportamentos hostis perpetrados através de plataformas online, afetando muitas vezes a vítima de forma significativa. Uma das formas mais notórias de assédio moral digital é o cyberbullying, que consiste em ataques repetidos e intencionais, envolvendo frequentemente a exposição pública de informações pessoais ou humilhações. As redes sociais, com sua ampla visibilidade, transformam esses episódios em situações ainda mais graves, uma vez que o conteúdo pode rapidamente se espalhar, potencializando os danos emocionais à vítima.

Além do cyberbullying, outra manifestação do assédio moral digital é a difamação. Neste contexto, as pessoas podem ser alvo de rumores, mentiras e acusações infundadas que circulam em ambientes digitais. Esses atos podem prejudicar não só a reputação, mas também as relações pessoais, profissionais e sociais da vítima. O impacto da difamação nos meios digitais pode ser devastador, uma vez que muitas vezes não é possível retratar ou eliminar facilmente as informações prejudiciais que já se espalharam.

O assédio por meio de mensagens e postagens nas redes sociais também é uma característica crucial do assédio moral digital. Comentários maldosos, ameaças ou críticas destrutivas podem surgir em qualquer momento, deixando a pessoa assediada em um estado constante de ansiedade e insegurança. Essa dinâmica se agrava pelo fator da conectividade constante, onde a vítima se vê incapaz de escapar da hostilidade, pois as plataformas digitais estão sempre ao alcance.

Por fim, o uso indiscriminado dessas ferramentas digitais enriquece o contexto do assédio moral digital, pois ocorre a multiplicação de vozes e, consequentemente, a amplificação do sofrimento da vítima. Assim, a poderosa visibilidade das plataformas digitais não apenas intensifica o impacto do assédio, mas também torna ainda mais desafiador para os indivíduos afetados lidarem com suas consequências.

3.2 Assédio moral digital

O assédio moral digital tem se tornado uma preocupação crescente em diversas esferas da sociedade, incluindo escolas, locais de trabalho e comunidades. Para minimizar a ocorrência desse fenômeno, é crucial implementar estratégias de prevenção e conscientização adequadas. Primeiramente, a educação desempenha um papel fundamental. Instituições de ensino devem incluir em seus currículos temas relacionados ao respeito no ambiente virtual (Barbosa, 2020), abordando não apenas as consequências do assédio moral digital, mas também a importância da empatia e do apoio mútuo entre os estudantes.

Além disso, workshops e palestras sobre segurança digital podem ser oferecidos para ajudar os alunos a entenderem como se proteger de comportamentos abusivos online. Para os profissionais, as empresas devem desenvolver programas de treinamento que sensibilizem suas equipes sobre o assédio moral digital e suas implicações legais, promovendo assim um ambiente de trabalho mais seguro e respeitoso.

Nos espaços comunitários, é essencial que organizações não governamentais e grupos comunitários promovam campanhas de conscientização que abordem o problema. Essas iniciativas podem incluir seminários, distribuição de folhetos informativos e a utilização de mídias sociais para disseminar informações sobre como identificar e lidar com o assédio moral digital. Recursos como linhas de apoio e serviços de aconselhamento também devem ser destacados, oferecendo às vítimas um caminho claro para buscar ajuda.

Adicionalmente, a implementação de canais de denúncia seguros e anônimos em escolas e empresas é vital. Os indivíduos precisam se sentir confortáveis e protegidos ao relatar tais incidentes. A construção de uma cultura de suporte e a promoção do respeito nas interações online são essenciais para a erradicação dessa prática nociva. Somente através da conscientização contínua e de ações proativas será possível efetivamente prevenir o assédio moral digital nas diversas esferas da sociedade.

O assédio moral digital, uma forma insidiosa de violência psicológica, tem se tornado uma questão significativa na sociedade contemporânea. Ao longo deste artigo, discutimos como a evolução das tecnologias de comunicação facilitou a disseminação de comportamentos abusivos no ambiente digital, impactando a saúde mental das vítimas. Identificamos que o sofrimento psíquico causado pelo assédio moral digital pode levar a consequências graves, incluindo depressão, ansiedade e até pensamentos suicidas. É importante notar que essa forma de assédio não se limita a um único espaço, já que pode ocorrer em diversas plataformas, como redes sociais, e-mails e aplicativos de mensagens.

A discussão em torno do assédio moral digital é relevante não apenas para as vítimas e agressores, mas também para as instituições, que devem desenvolver políticas eficazes de prevenção e combate a essa prática nociva (Oliveira, T. S., & Santos, R. F., 2022). Essa problemática exige um olhar atento, uma vez que a natureza anônima e difusa da internet pode facilmente proporcionar abrigo a comportamentos que seriam considerados inaceitáveis em interações face a face. A sensibilização da sociedade sobre os efeitos do assédio moral digital é, portanto, uma tarefa coletiva, que envolve educação, suporte psicológico e estratégias legais adequadas.

Por fim, a luta contra o assédio moral digital deve ser continua e abrangente, com um enfoque na criação de um ambiente virtual mais seguro e acolhedor para todos. A implementação de programas de conscientização e a promoção de um uso ético das tecnologias são passos fundamentais que sociedade, escolas e empresas devem tomar para enfrentar essa questão.

3.3 Assédio moral e neurose de ansiedade digital

O assédio moral no ambiente de trabalho é um fenômeno que vem ganhando destaque nas discussões sobre saúde ocupacional e bem-estar dos trabalhadores. Essa prática abusiva pode se manifestar de diferentes formas, como humilhações, isolamento social e críticas constantes, impactando significativamente a qualidade de vida dos indivíduos. Diante desse cenário, é crucial investigar as consequências psicológicas que o assédio moral pode gerar, particularmente em relação à neurose de ansiedade moral, que se refere a uma condição de angústia crônica e sensação de inadequação em situações sociais ou profissionais.

Com a crescente preocupação em torno da saúde mental no trabalho, torna-se imperativo abordar a interseção entre assédio moral e neurose de ansiedade moral. O objetivo deste artigo é explorar essa relação, destacando como a presença de comportamentos abusivos no ambiente laboral pode contribuir para o desenvolvimento de transtornos de ansiedade, afetando negativamente a performance e o bem-estar dos colaboradores. Além disso, essa análise permitirá uma compreensão mais ampla sobre como as dinâmicas de poder e as interações interpessoais em contextos profissionais podem induzir estados emocionais adversos.

Neste contexto, a investigação sobre o assédio moral e suas repercussões psicológicas não apenas se justifica, mas também se torna essencial para a formulação de políticas de saúde ocupacional mais efetivas e inclusivas. Ao discutir a neurose de ansiedade moral, o artigo buscará lançar luz sobre as medidas preventivas e intervenções necessárias para garantir um ambiente de trabalho saudável e respeitoso, onde todos os colaboradores possam se sentir valorizados e seguros. Dessa forma, espera-se contribuir significativamente para o debate sobre o impacto do ambiente de trabalho na saúde mental dos indivíduos.

O assédio moral no ambiente de trabalho é um aspecto crítico que afeta profundamente a saúde mental das vítimas. Estudos indicam que indivíduos que sofrem assédio moral apresentam uma gama de problemas emocionais e psicológicos. A experiência de estar sujeito a comportamentos hostis e humilhantes pode levar ao desenvolvimento de transtornos como a ansiedade, depressão e até síndromes de estresse pós-traumático.

Conforme evidenciado em pesquisas, o assédio moral não apenas provoca sentimentos de medo e insegurança, mas também afeta a autoestima das vítimas, levando a uma sensação contínua de desvalorização. Em um estudo realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), foi observado que aproximadamente 25% dos trabalhadores que relatam incidentes de assédio moral sofrem de ansiedade significativa, resultando em um impacto direto na sua vida profissional e pessoal.

Além disso, a relação entre assédio moral e neurose de ansiedade moral surge como uma preocupação crescente, à medida que as vítimas desenvolvem uma hipersensibilidade em relação à avaliação externa e à rejeição, o que contribui para um ciclo vicioso de estresse e sofrimento. Um estudo publicado na revista "Psychological Science" destacou que as pessoas que vivenciam assédio moral frequentemente relatam dificuldades em manter relacionamentos saudáveis, o que perpetua uma solidão emocional que intensifica os sintomas de ansiedade e depressão.

Em termos estatísticos, aproximadamente 35% das vítimas de assédio moral se afastam do trabalho devido a problemas de saúde mental, impactando não somente seu bem-estar, mas também a produtividade organizacional. Este fenômeno destaca a necessidade urgente de abordar e prevenir o assédio moral nos ambientes de trabalho, visando proteger a saúde mental dos funcionários e promover um ambiente laboral saudável.

A neurose de ansiedade digital é um conceito emergente que descreve um estado de mal-estar psicológico manifestado em indivíduos altamente expostos ao uso frequente de tecnologias digitais. Este fenômeno é caracterizado por uma série de sintomas que, embora possam variar de pessoa para pessoa, incluem sentimentos de inquietação, nervosismo e uma constante necessidade de estar conectado (Berger, J., 2021). A hiperconexão pode levar a um aumento da pressão social, onde o indivíduo se sente compelido a responder a mensagens instantâneas quase que imediatamente, aumentando assim a ansiedade.

A origem da neurose de ansiedade digital está intimamente ligada à forma como as tecnologias digitais moldam nossas interações sociais. O uso constante de smartphones e redes sociais promove uma expectativa de disponibilidade contínua. Esta cultura de imediatismo pode resultar em estresse emocional, já que os indivíduos enfrentam a pressão de manter uma imagem positiva e de se engajar em interações sociais, mesmo que virtuais. As comparações sociais nas redes podem resultar em insegurança e sentimentos de inadequação, exacerbando os sintomas de ansiedade.

Além disso, a neurose de ansiedade digital pode ser amplificada por fatores como a sensação de solidão e a falta de interação face a face. Enquanto a tecnologia visa conectar pessoas, o paradoxo é que muitas vezes esses mesmos indivíduos se sentem mais isolados em um ambiente virtual. Dessa forma, é crucial entender que a utilização excessiva das tecnologias digitais pode ser um fator significativo no desenvolvimento da ansiedade, criando um ciclo vicioso que perpetua o sentimento de necessidade ininterrupta de interação.

O assédio moral no ambiente de trabalho tem se tornado uma preocupação crescente, especialmente em tempos de digitalização acelerada. Estudos demonstram que situações de constrangimento e hostilidade no espaço profissional não apenas afetam o bem-estar psicológico das vítimas, mas também podem exacerbar a neurose de ansiedade digital. Essa condição refere-se ao estado de estresse e ansiedade que indivíduos sentem em relação ao uso de tecnologias digitais, como e-mails e redes sociais, muitas vezes exacerbado por interações negativas no ambiente de trabalho.

A pesquisa acadêmica indica que o ambiente de trabalho tóxico, caracterizado por assédio moral, pode intensificar a sensação de ansiedade relacionada a interações digitais. Por exemplo, um estudo realizado em 2021 apontou que trabalhadores que relataram experiências de bullying no trabalho também mostraram um aumento significativo em comportamentos de verificação compulsiva de e-mails e mensagens. Isso pode ser atribuído à expectativa de receber críticas ou até mesmo mais situações de assédio através de plataformas digitais.

Além disso, a pressão para estar constantemente disponível e responder rapidamente a comunicações eletrônicas pode tornar o trabalhador mais vulnerável a crises de ansiedade. O medo de represálias, combinado à sensação de solidão ou desvalorização, pode criar um ciclo vicioso em que o assédio moral agrava a neurose de ansiedade digital, levando a um estado de alerta constante. Assim, os profissionais não apenas lutam contra os efeitos do assédio em suas vidas pessoais, mas também enfrentam desafios adicionais em suas interações online.

Portanto, ao refletir sobre a relação entre assédio moral e neurose de ansiedade digital, é fundamental considerar como esses fatores interagem para impactar a saúde mental dos indivíduos, criando um ambiente de trabalho potencialmente nocivo.

3.4 Assédio moral digital entre jovens

No contexto atual, o assédio moral digital emerge como um problema significativo entre jovens e adolescentes. Este fenômeno, que se manifesta através de diversas formas de agressão e hostilidade em ambientes virtuais, abrange desde ofensas verbais até a disseminação de rumores, impactando negativamente a saúde mental dos afetados. Com o aumento das interações online, reconhece-se a necessidade de compreender melhor este tipo de assédio, dado que ele transcende o simples ato de bullying, assumindo nuances específicas no ciberespaço.

O impacto do assédio moral digital na saúde mental dos jovens é alarmante. Estudos indicam (Gonzalez, A. L., & Martin, R., 2020) que aqueles que passaram por essa experiência podem desenvolver problemas de autoestima, depressão e, em casos extremos, ideação suicida. Portanto, é essencial abordar este significativo problema social, promovendo discussões que visem esclarecer suas dimensões e incentivar a empatia e a responsabilidade no uso das plataformas digitais. As repercussões do assédio moral digital não afetam apenas o indivíduo, mas também refletem um fenômeno cultural mais amplo, onde a ausência de limites e a ilusória proteção oferecida pelo anonimato podem criar um verdadeiro campo fértil para a hostilidade e a agressão. Portanto, é imprescindível que continuemos a investigar e discutir este tema em busca de soluções que tragam alívio e suporte aos jovens afetados.

Nos últimos anos, o assédio moral digital entre jovens tem se tornado uma questão alarmante, facilitado pelo crescimento exponencial das plataformas digitais e redes sociais. Estudos recentes revelam que aproximadamente 43% dos jovens relatam já ter sido vítimas de algum tipo de assédio online. Esse aumento significativo é atribuído à facilidade com que informações podem ser compartilhadas, muitas vezes sem um controle adequado sobre a privacidade.

As redes sociais, projetadas para incentivar a interação e a comunicação, também se tornaram um território fértil para comportamentos abusivos. A capacidade de anonimato que muitos desses ambientes permitem, aliada à facilidade de disseminação de mensagens, tem ampliado a gravidade do fenômeno. Especialistas em saúde mental afirmam que o assédio moral digital pode ter consequências devastadoras na vida dos jovens, incluindo o desenvolvimento de transtornos de ansiedade e depressão. Os relatos de vítimas são frequentemente marcantes, destacando não apenas o sofrimento emocional, mas também as repercussões em suas vidas pessoais e acadêmicas.

Além disso, uma pesquisa realizada por instituições de ensino superior apontou que, entre estudantes universitários, uma em cada quatro pessoas já enfrentou situações de bullying digital. Esses dados sublinham a urgência de iniciativas voltadas para a conscientização do tema, educação digital e suporte psicológico àqueles afetados. O papel das escolas, pais e plataformas digitais é crucial para a prevenção desse tipo de assédio, uma vez que é fundamental criar um ambiente seguro e acolhedor para os jovens. O crescimento do assédio moral digital não deve ser ignorado, sendo sua erradicação uma responsabilidade coletiva que envolve todos os membros da sociedade.

O assédio moral digital, uma forma de violência que ocorre no ambiente virtual, apresenta consequências psicológicas significativas para os jovens afetados. A exposição contínua a comportamentos hostis, como ofensas, difamações e cyberbullying, pode gerar uma série de reações emocionais prejudiciais. Estudos indicam que estas experiências estão frequentemente associadas ao aumento dos índices de ansiedade entre os jovens. A ansiedade, nesse contexto, manifesta-se como um sentimento persistente de apreensão, medo e preocupação excessiva, comprometendo a capacidade de concentração e afetando o rendimento escolar e social.

Além da ansiedade, o assédio moral digital também está ligado ao desenvolvimento de quadros depressivos. A sensação de impotência e isolamento provocada por esse tipo de agressão pode levar jovens a um estado de tristeza profunda e falta de motivação. A depressão gera uma cascata de efeitos, como a diminuição da autoestima e uma visão negativa de si mesmo, reforçando a vulnerabilidade a futuras agressões, tanto online quanto offline. Pesquisas demonstram que jovens que vivenciam o assédio moral digital apresentam taxas significativamente mais altas de depressão em comparação àquelas que não tem essa experiência.

Outros transtornos mentais, como o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), também podem surgir como consequência do assédio moral digital. Os indivíduos afetados frequentemente revivem suas experiências traumáticas, apresentando sintomas como flashbacks e hipervigilância. Esse quadro pode comprometer gravemente não apenas a saúde mental, mas também o desenvolvimento social e emocional dos jovens. A forma como o assédio se manifesta nas redes sociais, por exemplo, acaba por intensificar os sentimentos de vergonha e estigmatização, dificultando ainda mais o enfrentamento da situação. Portanto, é crucial a conscientização sobre os impactos psicológicos do assédio moral digital e a promoção de um ambiente seguro e respeitoso online para todos os jovens.

Os jovens, que são nativos digitais, estão constantemente expostos a um fluxo ininterrupto de informações e interações sociais mediadas por dispositivos eletrônicos. Esta situação pode criar um ambiente propício à ansiedade, conforme eles se sentem pressionados a se manter sempre conectados e a responder rapidamente às expectativas sociais que emergem nesse espaço virtual. Este ciclo de interação digital, quando permeado por ataques e bullying, pode exacerbar a neurose de ansiedade digital, resultando em um aumento significativo nos níveis de estresse e depressão entre os jovens.

Além disso, a neurose de ansiedade digital se manifesta em diversas formas, como a preocupação excessiva com a validação social através de likes e comentários, o medo de ser excluído de grupos online, e a necessidade compulsiva de verificar as notificações. Esse padrão de comportamento pode levar a um isolamento social, onde a vida real é negligenciada em favor das interações digitais, aprofundando ainda mais a angústia sentida. Portanto, compreender a neurose de ansiedade digital é essencial para abordar o impacto psicológico do assédio moral digital entre os jovens, a fim de implementar estratégias de prevenção e assistência eficazes.

O assédio moral digital entre jovens é uma questão que possui implicações legais significativas, necessitando, portanto, de uma análise aprofundada de diferentes legislações que visam proteger essa população vulnerável. As leis relacionadas ao assédio moral digital podem variar de acordo com o país, mas muitas jurisdições têm implementado normas que se aplicam a comportamentos abusivos online. No Brasil, por exemplo, o Código Penal prevê alguns artigos que podem ser utilizados para enquadrar comportamentos de assédio, como a injúria, calúnia e difamação. Além disso, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) busca garantir a privacidade e a proteção pessoal dos indivíduos, permitindo que vítimas de assédio moral digital tenham um caminho legal para denunciar abusos.

As vítimas de assédio moral digital podem buscar a reparação por danos, tanto de natureza moral quanto material, muitas vezes através da justiça civil. Caso sejam identificadas ações que configurem crimes, as autoridades competentes podem processar os agressores. No entanto, a aplicação dessas leis ainda enfrenta alguns desafios, como a dificuldade em rastrear os autores de ofensas que utilizam perfis falsos ou plataformas anônimas. Isso pode desestimular denúncias e dificultar a responsabilização dos infratores.

Apesar das legislações existentes, a discussão em torno da necessidade de uma maior regulamentação e de penalidades mais severas está se tornando cada vez mais relevante. Muitas vezes, as punições previstas não refletem a gravidade do impacto emocional e psicológico que o assédio moral digital causa nas vítimas. Em resposta, especialistas e defensores dos direitos dos jovens têm defendido a implementação de leis mais rigorosas e o fortalecimento dos mecanismos de denúncia, para que todos os jovens se sintam mais seguros e protegidos no ambiente digital.

As redes sociais desempenham um papel crucial na dinâmica das interações sociais entre jovens, sendo frequentemente um palco para a manifestação de comportamentos, incluindo o assédio moral digital. Essas plataformas, projetadas para facilitar a comunicação e o compartilhamento de experiências, acabaram se tornando um espaço onde a incidência de atitudes nocivas se elevou. O fácil acesso à informação e a possibilidade de anonimato contribuem significativamente para o aumento das situações de bullying online, dificultando a identificação dos agressores e a proteção das vítimas.

Além disso, as redes sociais possuem um poder de amplificação das mensagens, fazendo com que um pequeno ato de agressão virtual possa se espalhar rapidamente e atingir diversas pessoas. Nesse contexto, os jovens podem sentir-se cada vez mais vulneráveis, principalmente quando confrontados com comentários maldosos ou exclusões em grupos online. Essa situação gera um ciclo de ansiedade que pode impactar gravemente sua saúde mental.

As responsabilidades das plataformas digitais são amplas. É essencial que as redes sociais implementem políticas rigorosas para a prevenção do assédio moral digital. Isso inclui sistemas eficazes de denúncia, acompanhamento de padrões de comportamento e, principalmente, educação para o uso consciente e seguro da internet. As empresas de tecnologia devem investir na criação de ambientes virtuais que promovam o respeito e a empatia, pois a prevenção do assédio não é apenas uma questão de regulamentação, mas sim uma responsabilidade social que deve ser abraçada por todos os usuários.

Os influenciadores também têm um papel significativo nesse cenário, podendo fomentar um modelo de comportamento positivo e promover campanhas contra o assédio moral digital. Portanto, um esforço conjunto entre plataformas, usuários e influenciadores pode resultar em um ambiente online mais seguro, minimizando os riscos associados ao assédio moral digital entre jovens.

3.5 O papel do analista sobre o assédio moral digital

O papel do psicanalista ganha uma relevância significativa no enfrentamento do assédio moral digital, um fenômeno que vem se intensificando com o crescimento das interações online. Em muitos casos, as vítimas de assédio moral digital apresentam uma série de manifestações emocionais e psicológicas, como ansiedade, depressão e dificuldades de relacionamento. Portanto, a intervenção do psicanalista se torna essencial para auxiliar esses indivíduos a recuperarem sua saúde mental e a reestabelecerem a sua autoestima.

A partir de uma perspectiva psicanalítica, o assédio moral digital pode ser entendido como uma manifestação de pulsões agressivas e destrutivas, que encontram nas plataformas digitais um terreno fértil para sua expressão (Freud, 1920/1976). Esse comportamento é facilitado pela natureza despersonalizada das interações virtuais, em que o agressor se sente menos inibido pela ausência do contato físico direto, e a vítima, por sua vez, se sente exposta em uma arena pública sem fronteiras.

A exposição ao assédio moral digital pode gerar consequências psíquicas profundas, especialmente porque as agressões ocorrem em um espaço que deveria ser de interação social e entretenimento. As vítimas frequentemente relatam sentimentos de vergonha, ansiedade, depressão, baixa autoestima e, em casos mais graves, ideação suicida (Hinduja & Patchin, 2018). O impacto psicológico é exacerbado pela natureza contínua e onipresente da agressão digital: as vítimas podem ser assediadas a qualquer momento e em qualquer lugar, o que cria uma sensação de desamparo e uma constante antecipação de novos ataques.

Do ponto de vista psicanalítico, esses efeitos podem ser compreendidos como resultado da ativação de experiências traumáticas anteriores ou conflitos inconscientes não resolvidos. A agressão digital pode funcionar como um gatilho para a revivência de traumas passados, como abusos ou negligências, ou para a intensificação de sentimentos de inadequação e vulnerabilidade que já existiam na psique da vítima (Freud, 1924/1974). Além disso, a exposição pública ao assédio, muitas vezes testemunhado por centenas ou milhares de pessoas, pode intensificar a sensação de humilhação e impotência, levando à retraumatização.

Diante de um fenômeno tão complexo e invasivo, o papel do analista torna-se fundamental para ajudar as vítimas a processarem o trauma do assédio moral digital e a reconstruírem sua identidade emocional. O processo terapêutico psicodinâmico oferece um espaço seguro onde a vítima pode explorar suas emoções, seus medos e as implicações inconscientes do assédio. Nesse contexto, o analista atua como um facilitador de insight, ajudando o paciente a compreender as dinâmicas subjacentes à sua angústia e a elaborar seus sentimentos de impotência e vergonha.

Um aspecto central da intervenção do analista em casos de assédio moral digital é o manejo da transferência e da contratransferência. Na transferência, o paciente pode projetar no analista sentimentos relacionados ao agressor ou a figuras de autoridade do passado. Por exemplo, a vítima pode experimentar o analista como alguém que, assim como os observadores passivos nas redes sociais, poderia julgá-la ou invalidar seu sofrimento. O trabalho do analista aqui é interpretar essas projeções e ajudar o paciente a desvincular suas reações emocionais ao assédio de experiências anteriores, facilitando a elaboração de novas respostas emocionais (Freud, 1912/1958).

Do lado da contratransferência, o analista deve estar atento às próprias respostas emocionais diante do relato do paciente. Sentimentos de raiva, impotência ou desejo de proteger a vítima podem surgir, e é fundamental que o analista os reconheça e os utilize de forma construtiva para compreender melhor a dinâmica emocional do paciente. O manejo adequado da contratransferência permite ao analista manter uma postura neutra e facilitadora, promovendo um ambiente terapêutico onde o paciente pode sentir-se validado e compreendido (Heimann, 1950).

Um dos maiores danos causados pelo assédio moral digital é a destruição da autoimagem e da autoestima da vítima. As constantes humilhações e insultos minam a confiança da pessoa em sua própria identidade e valor, levando a uma internalização das críticas e à identificação com o papel de "vítima". Nesse contexto, o analista trabalha para ajudar o paciente a desconstruir essas narrativas internalizadas, explorando como as críticas do agressor ecoam sentimentos e crenças já existentes na psique do paciente.

Através da interpretação e da exploração dos padrões inconscientes, o analista ajuda o paciente a distinguir entre as projeções do agressor e sua verdadeira identidade. Esse processo de reestruturação da autoimagem é gradual, e o analista atua como um espelho empático, oferecendo uma visão alternativa da identidade da vítima, baseada em autoaceitação e resiliência emocional. O objetivo final é restaurar a autoestima da vítima, permitindo que ela desenvolva novos mecanismos de defesa e respostas emocionais mais saudáveis diante das adversidades digitais.

O assédio moral digital frequentemente desencadeia sentimentos intensos de vergonha e humilhação, especialmente devido à exposição pública que o caracteriza. A vítima pode se sentir envergonhada por ter sido alvo de ataques ou por não conseguir se defender adequadamente, o que agrava o sofrimento psíquico. A psicanálise oferece uma abordagem profunda para trabalhar esses sentimentos, reconhecendo que a vergonha está frequentemente ligada a questões de identidade e pertencimento (Lewis, 1971).

O analista ajuda o paciente a reconhecer e validar esses sentimentos, criando um espaço onde eles possam ser expressos sem julgamento. Ao fazer isso, o analista facilita o processo de transformação da vergonha em uma experiência emocional elaborável, permitindo que o paciente compreenda as origens desses sentimentos e trabalhe para superá-los. O manejo da vergonha é essencial para que a vítima possa se libertar das correntes emocionais que o assédio digital impôs, recuperando sua autonomia e autoaceitação.

O tratamento das vítimas de assédio moral digital apresenta desafios específicos para o analista. Um desses desafios é a dificuldade que muitos pacientes têm em verbalizar suas experiências digitais de assédio, em parte porque o mundo virtual pode parecer intangível e imaterial. Além disso, o medo de ser julgado ou de parecer "fraco" por não conseguir lidar com o assédio pode inibir a abertura do paciente. O analista precisa ser sensível a essas barreiras e fornecer um ambiente seguro e acolhedor, onde o paciente se sinta à vontade para compartilhar suas experiências sem medo de julgamento.

Outro desafio é a natureza contínua do assédio digital. Ao contrário de outras formas de agressão, o assédio online pode continuar mesmo durante o tratamento, agravando os sintomas do paciente. Isso exige que o analista desenvolva estratégias de manejo juntamente com o paciente, ajudando-o a criar limites para o uso das redes sociais e a fortalecer sua resiliência emocional frente a novos ataques.

Uma das principais funções do psicanalista é o acolhimento das vítimas, criando um espaço seguro onde elas possam compartilhar suas experiências sem medo de julgamento. Esse acolhimento é crucial para que o paciente possa se sentir validado em suas emoções e vivências, um passo fundamental no processo terapêutico. Além disso, a escuta ativa é uma técnica indispensável na prática psicanalítica, pois ela permite que o analista capture implicações mais profundas das narrativas dos pacientes, ajudando assim a identificar padrões de comportamento que podem ter contribuído para a vivência do assédio moral digital.

Outro aspecto importante é a análise dos impactos do ambiente digital sobre a psique do indivíduo. O psicanalista deve estar atento não apenas às experiências diretas de assédio, mas também às consequências que essas experiências trazem para a identidade e a autoimagem da vítima. Mediante intervenções terapêuticas adequadas, o psicanalista pode trabalhar aspectos como a resiliência e a assertividade, preparando a vítima para enfrentar futuros desafios relacionados ao ambiente virtual.

Por fim, a função do psicanalista não se limita apenas ao tratamento das consequências do assédio moral digital. É fundamental que esses profissionais contribuam para a conscientização sobre a problemática, promovendo uma reflexão mais ampla sobre a ética nas interações digitais e incentivando a criação de ambientes virtuais mais saudáveis e respeitosos.

As abordagens psicanalíticas desempenham um papel crucial no tratamento de vítimas de assédio moral digital, oferecendo um espaço seguro para a expressão de emoções e a exploração de experiências traumáticas. A psicanálise, fundamentada nas teorias de Sigmund Freud, enfatiza a importância do inconsciente e das dinâmicas internas do sujeito, que podem ser particularmente relevantes para aqueles que enfrentaram agressões virtuais. No contexto do assédio moral digital, onde as dificuldades podem ser exacerbadas pela invisibilidade dos agressores, a interpretação é uma ferramenta-chave no trabalho terapêutico.

Dentre as teorias utilizadas, a teoria das pulsões é central para entender os conflitos internos que emergem como resultado de experiências traumáticas. Os assediados frequentemente manifestam conflitos entre suas pulsões de autoconservação e a necessidade de se conectar com outros, levando a sentimentos de angústia e solidão. Esse conflito interno pode ser melhor compreendido por meio da associação livre, permitindo que o paciente verbalize seus pensamentos e sentimentos sem inibições, revelando assim o conteúdo reprimido que influencia seu comportamento e sua autoestima.

Além disso, as abordagens psicológicas contemporâneas, que incorporam fundamentos psicanalíticos, também são valiosas. A terapia dialética-comportamental, por exemplo, destaca a importância da regulação emocional e das habilidades de enfrentamento, que podem ser essenciais para os sobreviventes de assédio moral digital. Essa metodologia oferece não só a análise dos conflitos internos, mas também técnicas práticas para lidar com as agressões e suas repercussões na vida cotidiana.

O assédio moral digital é uma manifestação moderna de pulsões agressivas e destrutivas, potencializadas pelo anonimato e pela amplificação proporcionada pelas plataformas digitais. O papel do analista nesse contexto é ajudar a vítima a compreender as implicações emocionais e psíquicas desse assédio, oferecendo um espaço terapêutico onde as feridas emocionais podem ser elaboradas e curadas. Através de intervenções como o manejo da transferência, a reestruturação da autoimagem e o trabalho com a vergonha, o analista promove o desenvolvimento de uma resiliência emocional que permite à vítima recuperar sua autoestima e autonomia. Embora o tratamento do assédio moral digital seja desafiador, ele oferece uma oportunidade única para o analista trabalhar com os aspectos mais profundos do sofrimento psíquico, ajudando o paciente a transformar sua dor em autocompreensão e crescimento.

Em suma, as abordagens psicanalíticas são fundamentais para o tratamento de vítimas de assédio moral digital, promovendo a interpretação do inconsciente e a compreensão dos conflitos internos que permeiam as experiências de violência virtual. Isso contribui para um fortalecimento emocional e um caminho de recuperação mais saudável.

CAPÍTULO 4 O uso da internet como fuga de conflitos internos

A internet, como um fenômeno global, transformou-se em um componente essencial da vida cotidiana, oferecendo uma plataforma para interações sociais, acesso à informação e entretenimento. Hoje, a grande maioria da população mundial utiliza a internet, com uma participação significativa nas redes sociais, que se tornaram fundamentais na forma como nos comunicamos e nos relacionamos. Entretanto, este uso intensivo pode estar associado a diversos conflitos internos e desafios emocionais, levantando questões importantes a serem exploradas na pesquisa psicológica.

Os conflitos internos referem-se a batalhas emocionais que os indivíduos enfrentam dentro de si mesmos, frequentemente desencadeados por fatores como estresse, ansiedade, e insatisfação pessoal. O uso excessivo da internet, muitas vezes, serve como um mecanismo de fuga ou um meio de distração, permitindo que os indivíduos evitem confrontar esses conflitos. As redes sociais, em particular, oferecem uma ilusão de conexão, ao mesmo tempo em que podem piorar sentimentos de solidão e inadequação, criando um ciclo vicioso que impacta negativamente a saúde mental dos usuários.

Pesquisa sobre a relação entre o uso da internet e conflitos internos é extremamente relevante, especialmente na era digital em que vivemos. À medida que os usuários se tornam cada vez mais dependentes dessas plataformas, é necessário entender as implicações desta dependência. O objetivo deste artigo é examinar como a utilização da internet pode servir como uma via para a evasão de conflitos emocionais, além de discutir as consequências psicológicas que podem resultar dessa prática. Essa análise pretende fornecer uma visão mais clara sobre a dinâmica entre a vida online e a saúde mental, enfatizando a importância de intervenções que busquem equilibrar o uso da internet na sociedade contemporânea.

A compreensão dos conflitos internos é fundamental para entender como os indivíduos interagem com o meio digital. Conflitos internos são frequentemente originados em tensões emocionais, indecisões e anseios não resolvidos. Psicólogos têm particularmente se concentrado nas causas subjacentes, que podem incluir traumas passados, pressões sociais e expectativas pessoais. Esses elementos exercem um impacto considerável na saúde mental e podem levar os indivíduos a buscar refúgio na internet como uma forma de escape.

O conceito de fuga emocional é central para essa discussão. Ele refere-se ao mecanismo psicológico pelo qual os indivíduos evitam enfrentar suas emoções negativas, buscando refúgio em atividades que proporcionam prazer imediato, como navegar na web. Essa busca por alívio pode levar a um ciclo vicioso, no qual a fuga dos problemas reais resulta em um agravamento das questões emocionais e psicológicas. A literatura sugere que essa dinâmica é particularmente prevalente entre pessoas que lutam com a solidão ou a pobreza emocional, que utilizam a internet como um espaço seguro e uma forma de lidar com suas dificuldades.

Além da fuga emocional, a teoria da dependência da internet oferece uma perspectiva adequada sobre como a utilização da rede se torna um mecanismo de enfrentamento. Essa teoria sugere que o uso excessivo da internet pode se transformar em dependência, com consequências negativas para a vida social e a saúde mental dos indivíduos. Neste contexto, a educação e a conscientização sobre os riscos relacionados ao uso abusivo da tecnologia tornam-se cruciais. Os usuários devem ser encorajados a refletir sobre suas práticas digitais e a desenvolver estratégias mais saudáveis para lidar com conflitos internos.

A análise dos dados coletados foi realizada com o objetivo de compreender a relação entre o uso da internet e os conflitos internos enfrentados pelos indivíduos. A pesquisa abrangeu uma amostra diversificada, incluindo diferentes faixas etárias, gêneros e contextos sociais, o que possibilitou uma visão abrangente do tema em questão. O primeiro aspecto observado foi a frequência de uso da internet, onde constatou-se que uma alta porcentagem dos participantes, aproximadamente 75%, se conecta à rede diariamente, passando em média de 4 a 6 horas online.

Os dados revelaram que as plataformas mais utilizadas, como redes sociais e jogos online, são frequentemente empregadas como formas de evasão em momentos de estresse ou conflitos internos. Em uma análise mais detalhada, observou-se que 60% dos entrevistados relataram utilizar essas plataformas especificamente para evitar confrontos diretos com suas emoções ou situações desafiadoras. Gráficos demonstram a correlação entre o tempo gasto na internet e a percepção de conflitos internos, destacando que quanto maior o tempo de uso, maior a sensação de alívio temporário em relação às tensões emocionais.

Além disso, tabelas que categorizaram as atividades online revelaram um forte padrão: a maioria dos participantes indicou que, ao se envolver em atividades digitais, sentiu-se mais capaz de lidar com questões emocionais, embora essa estratégia resultasse em um alívio passageiro, frequentemente seguido por um retorno à angústia anterior. Por fim, foram realizados testes estatísticos que apontaram para uma relação significativa entre o uso da internet como um mecanismo de fuga e a intensidade dos conflitos internos relatados pelos participantes. Esses resultados lançam luz sobre a complexidade da experiência humana na era digital e sua influência nos processos psicológicos.

Pesquisas demonstram que o uso prolongado da internet está ligado a um aumento nos sentimentos de solidão e ansiedade, exacerbando os conflitos internos que os indivíduos pretendem evitar. Quando as interações online substituem as conexões humanas significativas, isso pode resultar em um isolamento social, intensificando a sensação de desamparo. A teoria da compensação emocional sugere que aqueles que lutam contra conflitos internos muitas vezes buscam na internet um espaço onde possam se sentir mais no controle, mas essa estratégia pode levar a um ciclo vicioso de evitação e aumento das dificuldades emocionais.

Os impactos psicológicos do uso excessivo da internet são amplamente reconhecidos. O aumento da comparação social, resultante da exposição constante a vidas idealizadas nas redes sociais, pode gerar uma degradação da autoestima e um agravamento da depressão em indivíduos vulneráveis. Além disso, a sobrecarga de informações pode causar estresse e ansiedade, dificultando ainda mais o enfrentamento dos conflitos internos que os indivíduos tentam evitar. Portanto, é crucial avaliar como as tecnologias digitais são integradas na vida cotidiana e considerar intervenções que incentivem o equilíbrio entre o uso da internet e formas de interação mais saudáveis.

A internet, embora seja uma ferramenta valiosa para a comunicação e informação, pode também intensificar conflitos internos, como ansiedade, depressão e solidão. Muitas pessoas recorrem à internet em busca de distração ou alívio emocional, mas, em vez disso, acabam alimentando um ciclo vicioso que agrava suas condições psicológicas. Por exemplo, o uso excessivo de redes sociais pode levar a sentimentos de inadequação, uma vez que os indivíduos tendem a comparar suas vidas com as representações idealizadas de outros. Este impulso para se conectar virtualmente pode, paradoxalmente, resultar em um aumento da solidão.

Estudos demonstram que um vínculo dependente com a internet pode correlacionar-se com altos níveis de ansiedade. Quando a pessoa tem dificuldade em se desconectar, surge uma preocupação constante sobre o que está acontecendo online, dificultando ainda mais a sua capacidade de lidar com os próprios sentimentos e desafios diários. Isso pode ser exemplificado por casos de pessoas que, em fases de ansiedade exacerbada, acabam buscando a validação através de "likes" e comentários, o que leva a um ciclo onde a estabilidade emocional é constantemente ameaçada pela necessidade de aprovação social digital.

Além disso, a internet pode servir como um mecanismo de fuga para aqueles que lutam contra a depressão. Com o acesso a conteúdos negativos, seja através de notícias ou experiências compartilhadas, indivíduos que já enfrentam esses conflitos tendem a se sentir ainda mais sobrecarregados. O conhecido fenômeno do "doomscrolling" ilustra essa problemática, com pessoas passando horas consumindo informações que só aumentam seu estado de mal-estar. Portanto, é fundamental reconhecer como a internet pode ser tanto um refúgio como um agravante de conflitos internos, indicando a necessidade de um consumo consciente e moderado desse recurso.

Com o crescente uso da internet como uma forma de escapar dos conflitos internos, é essencial que tanto indivíduos quanto profissionais da saúde mental considerem abordagens para moderar esta interação de maneira saudável. Uma solução viável é o desenvolvimento de um plano equilibrado de uso da tecnologia, que inclua períodos específicos para navegar na internet. Este planejamento pode ajudar a evitar o uso excessivo da rede e promover uma maior consciência sobre o tempo dedicado ao ambiente virtual.

Para indivíduos, é aconselhável estabelecer limites claros em relação ao uso de dispositivos eletrônicos, determinando horários específicos para desconectar-se. É importante também engajar-se em atividades offline que promovam o bem-estar emocional, como exercício físico, leitura, ou hobbies que fomentem a criatividade. Ideias como a prática de mindfulness podem ajudar na regulação das emoções e no enfrentamento dos conflitos internos de forma mais produtiva.

Os terapeutas também desempenham um papel crucial nesse cenário. Eles devem estar aptos a reconhecer os impactos do consumo excessivo da internet na saúde mental e auxiliar seus pacientes a estabelecerem uma relação mais saudável com a tecnologia. Intervenções como a terapia cognitivo-comportamental (TCC) podem proporcionar ferramentas para identificar e lidar com os gatilhos que levam ao uso excessivo da internet, promovendo assim estratégias para enfrentamento emocional adequadas.

Além disso, educadores devem incluir temas relacionados ao uso responsável da tecnologia no currículo escolar. A educação sobre a saúde mental e as pressões sociais online pode preparar os alunos para navegar pelo ambiente digital de forma crítica e consciente. Workshops e palestras sobre autocuidado digital podem ser instrumentos valiosos para conscientizar os jovens sobre os riscos do escapismo na internet e incentivar hábitos saudáveis em sua vida cotidiana.

CAPÍTULO 5 Os efeitos do vício em redes sociais numa sociedade cada vez mais conectada

O uso de redes sociais é uma característica marcante da sociedade contemporânea, moldando a forma como as pessoas interagem, compartilham informações e se conectam. De acordo com dados recentes, mais de 4 bilhões de pessoas em todo o mundo utilizam plataformas de redes sociais, o que representa aproximadamente 53% da população global. Essa crescente conectividade não apenas transformou relações pessoais e profissionais, mas também criou um novo espaço para a expressão cultural, política e comercial.

A facilidade de acesso à internet e a popularização de dispositivos móveis contribuíram significativamente para a ascensão das redes sociais. Plataformas como Facebook, Instagram, Twitter e TikTok vêm promovendo a comunicação instantânea, a divulgação de ideias e o entretenimento. Entretanto, essa nova realidade suscita preocupações a respeito do vício em redes sociais, um fenômeno que tem ganhado destaque nos debates contemporâneos sobre saúde mental e bem-estar. A virtualidade das interações sociais pode encobrir oscilações emocionais e problemas que frequentemente afetam a vida real dos indivíduos.

Estudos apontam que o consumo excessivo de conteúdo nas redes sociais não apenas diminui a capacidade de interação face a face, como também pode provocar sentimentos de ansiedade e solidão. É fundamental reconhecer que, embora as redes sociais possam proporcionar benefícios sociais e informativos, a maneira como estas são utilizadas e o tempo gasto pode levar a um estado de dependência. O vício em redes sociais torna-se, portanto, um tema crucial a ser abordado na busca por um equilíbrio saudável nas interações sociais contemporâneas.

O Conceito de Vício em Redes Sociais

O vício em redes sociais refere-se a um padrão de uso excessivo e compulsivo dessas plataformas, resultando em interação desproporcional com conteúdos digitais e descaso por experiências offline. Esse fenômeno é caracterizado pela incapacidade de controlar o tempo e a frequência de acesso a redes sociais, gerando consequências negativas na vida pessoal, social e profissional dos indivíduos. O vício em redes sociais pode ser comparado a outras formas de dependência, como o vício em substâncias, uma vez que o cérebro libera dopamina em resposta a cada interação, promovendo uma sensação de prazer que, ao longo do tempo, leva à necessidade de acesso contínuo.

Um dos principais indicadores do vício em redes sociais é a falta de controle. Indivíduos viciados podem perceber que seu uso passou a ser excessivo, mas ainda assim se sentem incapazes de reduzir esse comportamento. Estudos psicoeducacionais têm mostrado que, em muitos casos, dose incremental de tempo gasto nas redes sociais leva a um ciclo de dependência; o usuário busca constantemente validação e novas interações, criando um ciclo vicioso. A presença constante de notificações e atualizações acentua essa dependência, mobilizando a atenção do usuário, mesmo quando não há uma intenção deliberada de acessar a plataforma.

A pesquisa na área revela que os vícios em redes sociais podem provocar sintomas similares a transtornos de ansiedade e depressão. Além disso, eles podem estar associados à diminuição da produtividade e ao prejuízo nas relações interpessoais fora do ambiente digital. Esses efeitos adversos destacam a importância de entender o conceito de vício em redes sociais não apenas como um comportamento individual, mas também como um fenômeno social que pode ter implicações mais amplas em comunidades. O reconhecimento das suas características permite um melhor direcionamento para a prevenção e tratamento desse comportamento cada vez mais comum na sociedade moderna.

Aspectos Psicológicos do Vício em Redes Sociais

O vício em redes sociais tem se tornado uma preocupação crescente na sociedade contemporânea, refletindo-se em diversos aspectos psicológicos que afetam indivíduos em todo o mundo. Um dos efeitos mais significativos é o surgimento de sintomas de ansiedade e depressão. A constante busca por validação através de "likes", comentários e visualizações pode criar um ciclo vicioso que intensifica sentimentos de inadequação e baixa autoestima. À medida que os usuários se comparam aos outros nas redes sociais, pode haver uma percepção distorcida da própria identidade, resultando em uma autocrítica severa e um sentimento de inferioridade.

Esse fenômeno pode ser analisado à luz de teorias psicanalíticas. Sigmund Freud abordou a noção do “eu” e suas interações com o mundo externo, destacando como o desejo e a expectativa moldam nossos comportamentos. Dentro do contexto das redes sociais, o “eu” se torna vulnerável, uma vez que a autoimagem é frequentemente construída com base nas interações virtuais. Já Jacques Lacan enfatizava a importância do Outro na constituição do sujeito, sugerindo que a busca incessante por reconhecimento nas plataformas digitais pode levar a uma alienação da própria identidade.

Além do impacto individual na saúde mental, o vício em redes sociais também repercute nas relações interpessoais. O uso excessivo pode resultar em isolamento social, onde os indivíduos, paralisados pela necessidade de interação virtual, acabam negligenciando relacionamentos reais. Essa solidão paradoxal, muitas vezes experimentada por aqueles que aparentam estar sempre conectados, pode aprofundar os sentimentos de tristeza e desespero. Portanto, é crucial reconhecer as implicações emocionais do uso excessivo das redes sociais para promover uma maior compreensão dos desafios psicológicos enfrentados em um mundo cada vez mais interconectado.

Aspectos Sociais do Vício em Redes Sociais

O vício em redes sociais tem gerado impactos significativos nas interações sociais contemporâneas. Um dos efeitos mais percebidos é a deterioração das interações face a face, resultando em um aumento da comunicação virtual em detrimento das conversas presenciais. Esse fenômeno transforma as relações interpessoais, tornando-as mais superficiais e menos significativas, já que os indivíduos tendem a priorizar as interações digitais em detrimento das experiências de conexão humana genuína.

Além disso, o uso excessivo dessas plataformas pode provocar um "surto de comparações sociais". Na busca pela validação e aceitação, muitos usuários se veem constantemente comparando suas vidas com as representações idealizadas que os outros compartilham. Este comportamento pode induzir sentimentos de inadequação, ansiedade e depressão, aprofundando a alienação em vez de promover uma verdadeira comunidade. Dessa forma, as redes sociais tornam-se um espaço onde a fachada muitas vezes tem mais valor do que a realidade, levando à distorção da autoimagem e da autoestima.

A falta de empatia nas relações interpessoais também pode ser atribuída ao vício em redes sociais. O envolvimento excessivo com dispositivos e plataformas digitais frequentemente resulta na desumanização dos outros, uma vez que os usuários tendem a ver as interações como meras trocas de informações, ao invés de conexões emocionais autênticas. Esta despersonalização pode agravar problemas sociais, como a intolerância e a hostilidade, à medida que a comunicação se torna menos sensível e mais baseada em opiniões instantâneas e reações impulsivas.

Por último, a construção de identidades virtuais alimentadas pela necessidade de aceitação pode distorcer a percepção da realidade. Os indivíduos frequentemente apresentam versões filtradas de si mesmos, o que não apenas afeta sua autoimagem, mas também cria expectativas irreais nas interações sociais. Essa construção, embora possa proporcionar conforto temporário, pode resultar em desconexões e desilusão nas relações cotidianas.

Consequências na Saúde Mental

O vício em redes sociais tem se tornado uma preocupação crescente na sociedade contemporânea, especialmente em um mundo onde a conectividade é quase onipresente. Estudos recentes apontam que o uso excessivo dessas plataformas pode ser relacionado ao aumento de transtornos mentais, como ansiedade e depressão. A interação constante com as redes sociais, muitas vezes pautada na busca por validação e aprovação, pode gerar uma pressão psicológica que afeta a autoestima e o bem-estar emocional dos indivíduos.

Pesquisas indicam que usuários que passam mais tempo em redes sociais apresentam uma maior incidência de sintomas ansiosos e depressivos. Uma razão para esse fenômeno é a comparação social; quando os indivíduos consomem conteúdos editados e idealizados, tendem a se sentir insatisfeitos com suas próprias vidas, resultando em um ciclo de descontentamento que alimenta problemas de saúde mental. Além disso, o constante fluxo de informações e a natureza competitiva das redes instigam emoções intensas, que podem ser difíceis de lidar se não houver mecanismos de enfrentamento adequados.

A qualidade do sono também é significativamente afetada pelo uso excessivo das redes sociais. Estudos demonstram que a exposição à luz azul emitida por dispositivos eletrônicos antes de dormir prejudica a produção de melatonina, o que pode dificultar a indução do sono. A falta de descanso adequado e a preocupação constante com interações virtuais podem contribuir para um ciclo de estresse e insônia, afetando ainda mais a saúde mental do indivíduo. Assim, o vício em redes sociais não apenas impacta o estado psicológico, mas também tem implicações diretas na saúde física, evidenciando a necessidade de um uso mais consciente dessas plataformas. As consequências do vício nas redes sociais são profundas e requerem atenção para evitar resultados adversos ainda maiores na saúde mental da população.

Estratégias para Combater o Vício em Redes Sociais

O vício em redes sociais é uma preocupação crescente em nossa sociedade cada vez mais conectada, mas existem várias estratégias eficazes que podem ser adotadas para mitigar seus efeitos. Uma das práticas mais fundamentais para combater esse vício é o autocontrole. Estabelecer limites claros sobre o tempo gasto em plataformas digitais pode ajudar a criar uma consciência sobre a frequência de uso, favorecendo um comportamento mais equilibrado. Aplicativos de monitoramento de tempo, por exemplo, podem fornecer dados importantes sobre nossos hábitos online e nos incentivar a diminuir a frequência de acesso.

Além do autocontrole, a implementação de um equilíbrio digital é essencial. É importante dedicar um tempo significativo a atividades fora das redes sociais, promovendo um enriquecimento pessoal e social. Atividades como exercícios físicos, leitura ou momentos de lazer com amigos e familiares podem oferecer nutrientes emocionais que as redes sociais não conseguem suprir. Incentivar o desenvolvimento de hobbies e interesses diversificados é uma forma eficaz de redirecionar a atenção e reduzir a dependência digital.

A técnica do "digital detox" é outra abordagem que ganhou popularidade como um método para combater o vício em redes sociais. Essa prática envolve a desconexão temporária completa das redes sociais, permitindo que o indivíduo recupere o controle sobre seu tempo e hábitos. O detox digital pode ser realizado em intervalos curtos, como um fim de semana, ou em períodos mais prolongados, dependendo das necessidades do usuário. Durante essa desconexão, é recomendável redescobrir atividades offline e refletir sobre como o uso das redes sociais impacta a vida cotidiana.

Por fim, para promover uma reeducação no uso das redes sociais, é importante cultivar hábitos mais saudáveis. Isso pode incluir a definição de objetivos claros para a interação online e a seleção criteriosa de conteúdos consumidos. Encorajar uma postura crítica em relação ao que se vê nas redes sociais pode ajudar a minimizar a exposição a informações que geram ansiedade ou comparação social negativa. Desenvolver uma relação mais saudável com as redes sociais requer um esforço consciente e contínuo.

O Papel da Educação e da Conscientização

A educação e a conscientização desempenham um papel crucial na prevenção do vício em redes sociais, particularmente em uma era onde a conectividade se tornou uma parte integral da vida cotidiana. A inclusão de discussões sobre tecnologia e saúde mental nas escolas e comunidades pode equacionar o uso de plataformas digitais com a promoção de um bem-estar psicológico saudável. Programas educativos que abordam não apenas as habilidades técnicas necessárias para o uso das redes sociais, mas também as suas implicações emocionais e sociais, têm revelado resultados positivos na formação de indivíduos mais conscientes sobre seu comportamento online.

Iniciativas como workshops e palestras que discutem o impacto do vício em redes sociais, bem como estratégias de gerenciamento de tempo e autocontrole, têm sido implementadas em diversas instituições educacionais. Tais projetos frequentemente envolvem dinâmicas de grupo, debates e exercícios práticos para ilustrar a diferença entre o uso responsável e o uso excessivo das redes sociais. A interação entre pares durante essas atividades permite que os participantes compartilhem experiências, promovendo uma maior empatia e entendimento sobre as consequências do uso inadequado das tecnologias.

Além disso, campanhas de conscientização em comunidades, que utilizam plataformas sociais para difundir mensagens sobre o uso saudável dessas ferramentas, também têm se mostrado eficazes. A colaboração entre educadores, psicólogos e pais é fundamental para garantir que a mensagem de alerta contra o vício em redes sociais seja clara e acessível. Esses esforços podem levar a uma mudança cultural em relação ao uso das redes sociais, tornando a conscientização uma prioridade entre jovens e adultos. Em última análise, a educação e a conscientização podem ser veículos poderosos para catalisar uma sociedade mais informada e equilibrada, ajudando a mitigar os efeitos nocivos da dependência digital.

Futuras Direções na Pesquisa

A crescente interconexão entre os indivíduos por meio das redes sociais tem levado a um aumento na preocupação com o vício nessas plataformas. À medida que a tecnologia avança, novas áreas de pesquisa emergem, mostrando-se essenciais para compreender este fenômeno. Um aspecto significativo que requer maior atenção é a tecnologia de gamificação, que tem sido frequentemente utilizada nas redes sociais para atrair e reter usuários. Estudar os impactos da gamificação pode ajudar a revelar os mecanismos que motivam o uso excessivo dessas plataformas, contribuindo assim para o desenvolvimento de intervenções mais eficazes.

Além disso, a introdução de novas plataformas sociais também oferece um campo fértil para investigações. As dinâmicas de interação e as características únicas de cada plataforma podem influenciar tanto o comportamento individual quanto as tendências sociais mais amplas. Por exemplo, o modo como os usuários se envolvem em conteúdos e interagem com outros pode variar bastante de uma plataforma para outra, tornando essencial o estudo das particularidades de cada uma. Isto irá aprofundar a compreensão sobre como o vício em redes sociais se manifesta em diferentes contextos digitais.

Outro ponto importante é a necessidade de estudos longitudinais, que permitam acompanhar a evolução do comportamento dos usuários ao longo do tempo. Essas pesquisas podem fornecer insights profundos sobre como as dinâmicas das redes sociais e a tecnologia que as suporta influenciam o vício. Com dados mais completos, será possível avaliar não apenas as consequências imediatas do uso excessivo, mas também as repercussões a longo prazo na saúde mental e nas relações sociais dos indivíduos.

Nos últimos anos, o uso exacerbado de dispositivos digitais tem sido associado ao aumento significativo de distúrbios relacionados à ansiedade, levando ao surgimento de termos como "ansiedade digital" ou "neurose de ansiedade digital". Este fenômeno surge como resultado da constante conexão e exposição a estímulos digitais, especialmente por meio de redes sociais, e-mails e outras plataformas virtuais que demandam respostas imediatas e geram expectativas irreais. A ansiedade digital reflete, assim, a incapacidade de se desconectar de um fluxo contínuo de informações, gerando estresse, preocupação excessiva e esgotamento mental. Este texto explora as principais estratégias de combate e tratamento para essa nova modalidade de ansiedade, embasadas em estudos da psicanálise e psicologia, além de apresentar abordagens contemporâneas de intervenção.

A Natureza da Ansiedade Digital

O conceito de ansiedade digital pode ser entendido como uma extensão das discussões tradicionais sobre ansiedade dentro da psicanálise. Freud (1920), em seu estudo sobre as neuroses de angústia, já identificava que a ansiedade emerge de um estado de tensão interna e conflito psíquico. No contexto atual, a ansiedade digital reflete a tensão criada entre o desejo de estar conectado e a incapacidade de lidar com o excesso de informações e estímulos. A constante comparação social facilitada pelas redes sociais intensifica sentimentos de inadequação, que alimentam a ansiedade e comprometem a saúde mental dos indivíduos.

O psicanalista contemporâneo Sherry Turkle (2011), por exemplo, investiga as consequências psicológicas da imersão tecnológica. Segundo Turkle, a hiperconectividade digital altera a maneira como os indivíduos se relacionam consigo mesmos e com os outros, criando uma dependência emocional dos dispositivos eletrônicos. A partir dessa dependência, surge um ciclo vicioso de ansiedade e busca incessante por validação externa, reforçado pelos “likes” e comentários nas redes sociais.

A incapacidade de gerenciar a presença digital contínua gera, segundo Lacan (1977), uma forma de alienação do sujeito. O que Lacan chamaria de “olhar do Outro” se manifesta nas redes sociais como a presença onipresente da observação dos outros, alimentando o desejo de reconhecimento e o medo de rejeição. O sujeito contemporâneo, portanto, é envolvido em um ciclo de angústia onde a percepção de si é mediada pelos dispositivos digitais e pelas reações dos outros, contribuindo para a intensificação da ansiedade.

Estratégias de Combate e Tratamento

Para enfrentar a ansiedade digital, é necessário implementar estratégias que visem a redução da dependência tecnológica e a reconfiguração das interações digitais. A seguir, apresentamos algumas abordagens baseadas em evidências e na prática clínica que têm demonstrado eficácia no manejo desse tipo de ansiedade.

1. Psicanálise e Autorreflexão

A psicanálise oferece uma abordagem profunda para o tratamento da ansiedade digital. Ao incentivar o sujeito a explorar as raízes inconscientes de sua angústia, o tratamento psicanalítico pode ajudar a revelar os conflitos internos que alimentam a necessidade de validação digital. Winnicott (1965) sugere que a transição da dependência digital para uma independência saudável pode ser facilitada pela capacidade do indivíduo de se reconectar com seu verdadeiro self, livre das demandas impostas pelo ambiente digital.

No tratamento psicanalítico, o terapeuta pode ajudar o paciente a identificar como as interações digitais refletem padrões de desejo, medo e evasão emocional, incentivando uma autorreflexão que leva a uma compreensão mais profunda de seus comportamentos. Como Freud (1915) argumenta, a verbalização desses conflitos latentes tem o potencial de aliviar a tensão psíquica, reduzindo, assim, a ansiedade associada ao uso digital.

2. Terapias Cognitivo-Comportamentais (TCC)

As Terapias Cognitivo-Comportamentais (TCC) têm sido amplamente utilizadas no tratamento da ansiedade digital. A abordagem da TCC busca modificar os padrões de pensamento disfuncionais que contribuem para a ansiedade, como a necessidade de monitorar constantemente as redes sociais ou responder rapidamente a notificações. Beck (1976), pioneiro da TCC, destaca que os pensamentos automáticos negativos, como "se eu não responder imediatamente, serei ignorado" ou "preciso estar sempre online para ser relevante", podem ser desafiados e substituídos por cognições mais realistas.

O uso de técnicas como a reestruturação cognitiva e o controle da exposição a dispositivos eletrônicos tem mostrado eficácia no combate à ansiedade digital (Münzel et al., 2021). Intervenções comportamentais, como a implementação de limites de tempo para o uso de aplicativos ou a criação de momentos "livres de dispositivos", também são recomendadas para reduzir a dependência e o estresse associados ao uso constante de tecnologia.

3. Mindfulness e Técnicas de Relaxamento

Outra estratégia eficaz no combate à ansiedade digital é o uso de práticas de mindfulness, que visam a aumentar a consciência e a presença no momento atual. Kabat-Zinn (2003) descreve o mindfulness como uma prática que envolve prestar atenção de forma intencional e não julgadora ao momento presente, o que pode ajudar os indivíduos a lidar com os gatilhos que disparam a ansiedade digital.

Estudos demonstram que práticas regulares de mindfulness e meditação reduzem significativamente os níveis de ansiedade (Baer, 2003). A capacidade de desligar-se de estímulos digitais, mesmo que por breves períodos, proporciona uma pausa restauradora ao sistema nervoso, diminuindo o estado de alerta contínuo que a tecnologia pode gerar. Além disso, a respiração controlada e as técnicas de relaxamento progressivo (Jacobson, 1938) são ferramentas valiosas que podem ser utilizadas para reduzir os efeitos fisiológicos da ansiedade.

4. Intervenções Psicossociais e Limites Tecnológicos

Os avanços tecnológicos exigem novas formas de lidar com a sobrecarga digital. Nesse sentido, intervenções psicossociais que incentivam o uso consciente da tecnologia têm ganhado destaque. Estas intervenções incluem programas educativos sobre os efeitos da hiperconectividade e a promoção de práticas de autocuidado digital, como o "detox digital" (Thomas et al., 2020).

Limitar a exposição às redes sociais e definir horários específicos para o uso de dispositivos são estratégias que podem ajudar a restaurar um equilíbrio saudável. Além disso, incentivar interações presenciais e o desenvolvimento de hobbies offline é fundamental para evitar a alienação social e reduzir a ansiedade.

Diante da complexidade das manifestações da ansiedade digital, a abordagem psicodinâmica surge como uma das intervenções mais profundas e abrangentes, ao abordar não apenas os sintomas superficiais da ansiedade, mas também as suas causas subjacentes. A terapia psicodinâmica busca compreender os processos inconscientes que sustentam os comportamentos relacionados à tecnologia, permitindo ao indivíduo desenvolver uma relação mais saudável com os dispositivos e as plataformas digitais. Esta seção explora a aplicação de estratégias psicodinâmicas no combate à neurose de ansiedade digital, destacando o papel da transferência, da resistência e dos conflitos intrapsíquicos no tratamento dessa condição.

A Perspectiva Psicodinâmica da Ansiedade Digital

A teoria psicodinâmica, fundamentada nos princípios psicanalíticos estabelecidos por Freud (1915), postula que grande parte dos comportamentos ansiosos tem origem em conflitos inconscientes que se manifestam de maneiras sutis e complexas. No contexto da ansiedade digital, esses conflitos muitas vezes envolvem sentimentos de inadequação, medo de exclusão ou abandono, e uma busca incessante por validação externa. A dependência das redes sociais e dos dispositivos eletrônicos pode ser interpretada, dentro dessa perspectiva, como uma tentativa de aliviar esses conflitos internos, ainda que de forma temporária e superficial.

De acordo com a psicanálise clássica, o ego tenta proteger-se da ansiedade utilizando mecanismos de defesa, como a negação, a repressão e a projeção (Freud, 1926). Na era digital, esses mecanismos podem se manifestar na forma de comportamentos compulsivos, como checar constantemente notificações, evitar interações sociais reais ou negar a dependência dos dispositivos. O tratamento psicodinâmico visa explorar esses mecanismos e ajudar o paciente a desenvolver uma compreensão mais consciente de seus padrões de comportamento.

Além disso, a visão lacaniana sobre a ansiedade digital também é relevante. Lacan (1977) sugere que a angústia está diretamente ligada ao desejo e à falta, e, no mundo digital, o sujeito está constantemente confrontado com o desejo de ser visto, aprovado e reconhecido pelo “Outro” representado pelas redes sociais. Essa busca por completude nunca é satisfeita, o que perpetua o ciclo de angústia e dependência. A abordagem psicodinâmica, portanto, ajuda o indivíduo a entender como seus desejos inconscientes estão projetados nas interações digitais e a encontrar maneiras de lidar com essa insatisfação intrínseca de forma mais saudável.

Transferência e Resistência no Tratamento da Ansiedade Digital

Um dos conceitos centrais da terapia psicodinâmica é o de transferência, que se refere à tendência do paciente de projetar sentimentos e padrões emocionais inconscientes nas relações com o terapeuta (Freud, 1912). No contexto da ansiedade digital, os mesmos padrões de transferência podem ser observados na relação do indivíduo com seus dispositivos digitais e interações virtuais. O paciente, por exemplo, pode transferir para as redes sociais suas necessidades de aprovação parental não satisfeitas na infância, buscando continuamente a aceitação e o reconhecimento de seus pares virtuais.

A exploração desses fenômenos transferenciais permite que o terapeuta ajude o paciente a reconhecer como suas expectativas e ansiedades em relação ao mundo digital são, muitas vezes, reflexos de experiências passadas não resolvidas. A conscientização dessas transferências possibilita que o paciente desenvolva uma relação mais saudável e equilibrada com a tecnologia, deixando de depender da validação digital para suprir carências emocionais.

Por outro lado, a resistência também desempenha um papel significativo no tratamento da ansiedade digital. Resistência refere-se aos esforços inconscientes do paciente para evitar o enfrentamento de aspectos dolorosos ou ameaçadores de sua psique (Freud, 1926). Na terapia psicodinâmica, é comum que o paciente, ao começar a perceber a extensão de sua dependência digital, resista ao processo de mudança, minimizando o impacto do uso excessivo de tecnologia ou racionalizando seus comportamentos. O terapeuta psicodinâmico tem o papel de ajudar o paciente a identificar essas resistências e a trabalhar com elas, promovendo uma mudança real e duradoura.

Conflitos Intrapsíquicos e o Vazio Digital

A ansiedade digital também pode ser compreendida através do conceito de conflito intrapsíquico, ou seja, o embate entre diferentes desejos, medos e necessidades dentro do psiquismo do indivíduo. Kernberg (1984), um dos principais teóricos da psicodinâmica contemporânea, argumenta que muitos distúrbios de ansiedade têm origem em conflitos não resolvidos entre o desejo de autonomia e a necessidade de dependência. No caso da ansiedade digital, esse conflito pode se manifestar como o desejo de desconectar-se dos dispositivos e recuperar a autonomia, em oposição ao medo de ser excluído ou esquecido, que perpetua a necessidade de estar constantemente online.

Um exemplo disso é a FOMO (Fear of Missing Out), que representa o medo de ficar de fora de eventos ou de perder informações importantes. Este medo pode ser visto como uma externalização de conflitos internos sobre pertencimento e exclusão, que têm raízes mais profundas no desenvolvimento emocional do indivíduo. A terapia psicodinâmica ajuda o paciente a explorar essas tensões internas e a reconhecer como a tecnologia está sendo utilizada como um mecanismo de defesa para evitar o confronto com esses conflitos.

Ao abordar o vazio digital, que muitos indivíduos experimentam após longos períodos de uso das redes sociais, a terapia psicodinâmica explora a sensação de alienação e insatisfação que frequentemente acompanha o uso contínuo da tecnologia. Esse vazio pode ser entendido como uma expressão da incapacidade do indivíduo de encontrar satisfação emocional em interações digitais que, por sua própria natureza, são superficiais e transitórias. Como argumenta Winnicott (1965), a verdadeira satisfação emocional advém do relacionamento com objetos reais e significativos, e não com objetos virtuais que falham em oferecer um sentido duradouro de conexão e realização.

A Relação entre Narcisismo e Ansiedade Digital

Outro aspecto relevante para a compreensão psicodinâmica da ansiedade digital é a relação entre narcisismo e o uso das redes sociais. Lasch (1979), em seu clássico estudo sobre a "Cultura do Narcisismo", argumenta que a sociedade contemporânea incentiva a busca incessante por admiração e aprovação, alimentando um ciclo de narcisismo que se reflete em plataformas como Instagram e Facebook. A exposição constante ao olhar dos outros promove um falso self (Winnicott, 1965), onde o sujeito apresenta uma versão idealizada de si mesmo para evitar a dor de ser confrontado com suas fragilidades e limitações.

A terapia psicodinâmica busca ajudar o indivíduo a integrar seu verdadeiro self, permitindo que ele aceite suas imperfeições sem depender da constante validação externa oferecida pelo mundo digital. A superação do narcisismo digital passa pela capacidade de o paciente reconhecer e trabalhar seus sentimentos de inadequação e vulnerabilidade, liberando-se do ciclo de ansiedade gerado pela necessidade incessante de aprovação virtual.

Intervenções Psicodinâmicas na Prática Clínica

A prática psicodinâmica é uma abordagem terapêutica baseada nos princípios da psicanálise, que busca acessar os processos inconscientes que influenciam o comportamento, emoções e padrões de relacionamento dos indivíduos. Diferente de outras abordagens, como a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que se concentra em modificar pensamentos e comportamentos disfuncionais de forma mais direta, a terapia psicodinâmica enfatiza o valor da exploração profunda de conflitos intrapsíquicos e experiências passadas. Este artigo discute as principais intervenções psicodinâmicas na prática clínica, suas bases teóricas e a eficácia no tratamento de uma variedade de transtornos mentais.

Fundamentos Teóricos das Intervenções Psicodinâmicas

As intervenções psicodinâmicas derivam principalmente da teoria psicanalítica de Sigmund Freud, que introduziu conceitos como a transferência, a resistência, o inconsciente e os mecanismos de defesa (Freud, 1912/1958). Freud postulou que muitos dos nossos comportamentos e sentimentos são impulsionados por desejos e conflitos inconscientes, frequentemente relacionados a experiências infantis. A partir dessa base, os terapeutas psicodinâmicos utilizam essas intervenções para ajudar os pacientes a entender e trabalhar com esses processos inconscientes, levando a uma maior auto-compreensão e resolução de conflitos emocionais.

No contexto clínico, uma das principais metas da terapia psicodinâmica é promover o insight do paciente sobre os padrões inconscientes que moldam suas respostas emocionais e comportamentais. Para isso, o terapeuta utiliza uma série de técnicas específicas que facilitam a exploração dessas dinâmicas. Entre as técnicas mais comuns estão a interpretação de sonhos, a análise da transferência, a exploração de defesas e a interpretação dos lapsos verbais e atos falhos.

Técnicas de Intervenção Psicodinâmica

1. Transferência e Contratransferência

A transferência é um dos elementos centrais da intervenção psicodinâmica. Refere-se ao fenômeno em que a paciente projeta no terapeuta sentimentos, expectativas e padrões de relacionamento que originalmente eram dirigidos a figuras significativas da infância, como os pais (Freud, 1912/1958). O terapeuta observa e interpreta esses sentimentos transferenciais como uma forma de acessar os padrões inconscientes do paciente.

Por outro lado, a contratransferência envolve os sentimentos e reações emocionais do terapeuta em relação ao paciente, que também podem fornecer informações valiosas sobre as dinâmicas emocionais do paciente (Heimann, 1950). O manejo cuidadoso da contratransferência é essencial para garantir que o terapeuta permaneça neutro e que sua resposta emocional não interfira no processo terapêutico, mas contribua para um entendimento mais profundo das relações e experiências do paciente.

2. Interpretação de Mecanismos de Defesa

Os mecanismos de defesa são processos psíquicos automáticos que as pessoas usam para proteger-se de sentimentos angustiantes, como culpa, ansiedade ou vergonha. Na prática clínica psicodinâmica, o terapeuta ajuda o paciente a reconhecer e entender como esses mecanismos influenciam sua vida emocional e seus relacionamentos. Mecanismos como a repressão, a projeção e a negação são frequentemente trabalhados durante as sessões (Freud, 1936/1966).

Através da interpretação desses mecanismos, o paciente começa a ganhar insight sobre suas respostas emocionais e seus comportamentos. Um exemplo clássico é o uso da projeção, onde o paciente pode acusar outros de ter sentimentos que ele próprio possui, mas não pode admitir. Ao trabalhar com esses aspectos, o paciente pode começar a reconhecer seus próprios sentimentos e aprender a lidar com eles de forma mais adaptativa.

3. Exploração do Inconsciente por Meio dos Sonhos e Atos Falhos

Outra intervenção importante é a análise de sonhos, uma técnica desenvolvida por Freud (1900/1965) em sua obra A Interpretação dos Sonhos. Ele propôs que os sonhos são a "via régia" para o inconsciente, uma forma de o indivíduo acessar seus desejos e conflitos reprimidos de maneira simbólica. Na prática clínica, a análise de sonhos pode revelar insights profundos sobre os medos, desejos e conflitos do paciente, permitindo que ele trabalhe essas questões conscientemente.

Os atos falhos, ou lapsos, também são uma fonte valiosa de informação para o terapeuta. Esses pequenos “erros” verbais ou de comportamento são vistos como manifestações do inconsciente, e sua interpretação pode ajudar o paciente a reconhecer conflitos e desejos reprimidos que afetam sua vida cotidiana (Freud, 1901/1960).

Eficácia das Intervenções Psicodinâmicas

As intervenções psicodinâmicas têm sido amplamente utilizadas no tratamento de uma variedade de transtornos mentais, incluindo transtornos de personalidade, depressão, ansiedade e transtornos alimentares. Estudos sugerem que a terapia psicodinâmica de longo prazo pode ter resultados positivos sustentáveis, especialmente no tratamento de questões relacionadas à identidade, autoestima e padrões de relacionamento interpessoal (Shedler, 2010).

Um dos principais benefícios da terapia psicodinâmica é sua ênfase no autoconhecimento e no insight profundo, ao invés de apenas aliviar sintomas. A terapia promove uma transformação interna do paciente, permitindo que ele compreenda e modifique padrões emocionais e comportamentais desadaptativos. De acordo com uma revisão de Shedler (2010), os efeitos da terapia psicodinâmica tendem a ser duradouros, mesmo após o término do tratamento, pois os pacientes continuam a ganhar insights sobre si mesmos ao longo do tempo.

Estudos comparativos entre terapias psicodinâmicas e abordagens mais focadas no comportamento, como a TCC, indicam que, enquanto a TCC pode produzir alívios mais rápidos em termos de sintomas, a terapia psicodinâmica promove mudanças mais profundas e duradouras na personalidade e no funcionamento psíquico geral (Leichsenring & Rabung, 2011).

Limitações e Desafios

Apesar das evidências sobre a eficácia das intervenções psicodinâmicas, é importante reconhecer suas limitações. A terapia psicodinâmica pode ser um processo longo, que requer compromisso e envolvimento emocional tanto do paciente quanto do terapeuta. Além disso, nem todos os pacientes estão preparados ou dispostos a explorar profundamente seus conflitos internos, e alguns podem preferir abordagens mais estruturadas e orientadas para a resolução de problemas imediatos.

Outro desafio é a neutralidade do terapeuta. Manter uma postura neutra, sem impor julgamentos ou influências, é fundamental para o sucesso da terapia psicodinâmica, mas essa neutralidade pode ser difícil de sustentar, especialmente em casos de transferência intensa. A formação e a supervisão contínua do terapeuta são essenciais para garantir a eficácia do tratamento.

As intervenções psicodinâmicas desempenham um papel fundamental na prática clínica, especialmente no tratamento de transtornos mentais de origem profunda e complexa. Através de técnicas como a análise da transferência, interpretação de sonhos e exploração de defesas, os terapeutas psicodinâmicos ajudam os pacientes a acessarem e trabalhar seus conflitos inconscientes, promovendo mudanças duradouras em sua saúde mental e emocional. Embora o processo terapêutico seja longo e exigente, as evidências sugerem que os resultados podem ser profundos e transformadores, especialmente em comparação com outras abordagens focadas no alívio imediato dos sintomas.

Na prática clínica, as intervenções psicodinâmicas voltadas para a ansiedade digital podem ser adaptadas de acordo com as necessidades individuais de cada paciente. Algumas técnicas específicas incluem:

  1. Exploração de Padrões de Dependência: O terapeuta ajuda o paciente a identificar como a dependência digital está conectada a experiências passadas de insegurança emocional e busca por validação. A partir dessa compreensão, o paciente pode trabalhar na construção de uma autoimagem mais estável e menos dependente de feedback externo.

  2. Trabalho com Sonhos e Fantasias Digitais: Dentro da terapia psicodinâmica, os sonhos e fantasias que envolvem a tecnologia podem ser usados como uma janela para o inconsciente. O terapeuta pode ajudar o paciente a interpretar sonhos relacionados ao uso digital, como ser ignorado nas redes sociais ou perder o controle sobre dispositivos, como manifestações simbólicas de conflitos emocionais mais profundos.

  3. Interpretação das Transferências: O terapeuta explora como os sentimentos em relação à tecnologia e às interações online refletem transferências inconscientes, permitindo ao paciente desenvolver uma consciência mais clara de como essas dinâmicas influenciam seu comportamento digital.

  4. Reestruturação de Limites: Outra intervenção importante é ajudar o paciente a desenvolver limites claros e saudáveis para o uso de dispositivos digitais. Isso pode envolver tanto a redução do tempo de uso quanto a criação de espaços livres de tecnologia, permitindo ao paciente reconectar-se com o mundo real e com seu próprio self.

Considerações finais

A presente tese intitulada Neurose de Ansiedade Digital na Sociedade do Século XXI buscou explorar e compreender o fenômeno da ansiedade digital, um transtorno emergente que reflete a crescente integração entre as vidas digitais e o cotidiano humano. Este estudo utilizou uma abordagem multidisciplinar, integrando insights da psicanálise, psicologia, sociologia e estudos sobre tecnologia, para analisar como a hiperconectividade e o uso excessivo de dispositivos digitais podem levar ao desenvolvimento de uma neurose de ansiedade, com implicações profundas na saúde mental e no comportamento humano.

No século XXI, a tecnologia digital tornou-se uma extensão quase inseparável da existência humana. O ritmo acelerado da inovação tecnológica, aliado ao crescimento exponencial das redes sociais e plataformas digitais, moldou novas formas de interação social, trabalho e lazer. No entanto, esse avanço também gerou efeitos colaterais significativos, sobretudo no campo da saúde mental. A necessidade incessante de estar conectado, de acompanhar e responder a fluxos contínuos de informações, e de manter uma presença constante e “curada” nas redes sociais resultou em um aumento preocupante dos níveis de ansiedade, estresse e esgotamento psíquico.

A neurose de ansiedade digital surge, portanto, como um reflexo dos desafios emocionais e psicológicos enfrentados pelos indivíduos no contexto da sociedade digital. Este fenômeno não pode ser entendido apenas como uma resposta ao uso de dispositivos, mas sim como uma consequência mais profunda das mudanças nos padrões de interação humana, nos valores sociais e nas expectativas culturais impostas pela vida digital. A presença constante das redes sociais, a pressão pela produtividade contínua e a comparação social exacerbada são apenas alguns dos fatores que intensificam esse estado de neurose, evidenciando a complexidade do problema.

A Importância da Psicanálise na Compreensão da Ansiedade Digital

Um dos pilares deste estudo foi a utilização de conceitos psicanalíticos para lançar luz sobre os processos inconscientes que sustentam a neurose de ansiedade digital. A psicanálise, desde Freud, tem se dedicado ao estudo dos conflitos psíquicos, dos desejos reprimidos e das angústias que moldam o comportamento humano. No contexto da sociedade digital, essas tensões se manifestam de maneiras inéditas, em que o sujeito se vê imerso em uma dinâmica de busca por aprovação, medo de rejeição e desejo incessante de reconhecimento social.

Freud (1920) nos ensinou que a ansiedade é um sinal de conflito interno, uma resposta à incapacidade do ego de lidar com demandas excessivas do ambiente ou de forças inconscientes. No caso da neurose de ansiedade digital, o sujeito moderno encontra-se bombardeado por estímulos e demandas digitais que, em muitos casos, superam sua capacidade de processamento e regulação emocional. A comparação constante com os outros – que Lacan (1977) chamou de confronto com o "Grande Outro" – alimenta um ciclo de angústia e insegurança. As redes sociais se tornam o palco onde o sujeito tenta se afirmar, mas também onde se depara com a inescapável sensação de falta, de inadequação e de alienação.

A compreensão psicodinâmica deste fenômeno é essencial para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas eficazes. A análise das transferências digitais – onde o sujeito projeta seus desejos, medos e expectativas nas interações virtuais – revela como os dispositivos eletrônicos se tornam extensões da psique humana, muitas vezes servindo como válvulas de escape para ansiedades mais profundas e mal resolvidas. Assim, as estratégias terapêuticas que envolvem o entendimento dos mecanismos de defesa e da transferência são fundamentais para ajudar o indivíduo a navegar pelas armadilhas emocionais da vida digital.

As Implicações Sociais e Culturais da Ansiedade Digital

Além dos aspectos psicológicos individuais, este estudo também destacou as dimensões sociais e culturais da neurose de ansiedade digital. A sociedade contemporânea, marcada pelo capitalismo digital, promove um ambiente de produtividade contínua, onde o tempo é fragmentado e medido pelo número de interações, visualizações e curtidas. Essa lógica de desempenho constante e medição quantitativa do valor social gera uma pressão imensa sobre os indivíduos, que se veem compelidos a corresponder a expectativas cada vez mais irreais de sucesso e felicidade. Como consequência, a ansiedade digital não é apenas um transtorno psíquico individual, mas um reflexo das dinâmicas sociais e econômicas mais amplas que moldam a vida no século XXI.

Zygmunt Bauman (2000) introduziu o conceito de "modernidade líquida", uma metáfora para a fluidez e a volatilidade das relações sociais na era contemporânea. No ambiente digital, essa liquidez se manifesta na efemeridade das interações, na obsolescência rápida das informações e na fugacidade das conexões emocionais. A necessidade de adaptação constante a novas plataformas, modas e linguagens digitais gera um estado de ansiedade permanente, em que o sujeito sente que deve estar sempre “atualizado” e disponível, sob pena de ser deixado para trás.

Além disso, a comparação social facilitada pelas redes digitais intensifica o fenômeno da FOMO (Fear of Missing Out), em que o indivíduo teme estar perdendo algo importante ao se desconectar. Este medo é exacerbado pelas representações idealizadas de vida apresentadas nas mídias sociais, onde os sucessos, realizações e momentos de felicidade dos outros são constantemente exibidos, gerando um sentimento de inadequação e fracasso no usuário comum. A neurose de ansiedade digital, assim, está profundamente enraizada nas dinâmicas de poder e status que permeiam as redes sociais, onde o “capital social” é medido em likes, seguidores e visualizações.

Estratégias de Intervenção e Tratamento

A partir das discussões apresentadas ao longo da tese, foi possível identificar algumas estratégias eficazes para o tratamento e manejo da neurose de ansiedade digital. A abordagem terapêutica proposta envolve tanto intervenções psicodinâmicas quanto técnicas baseadas em outras modalidades terapêuticas, como as terapias cognitivo-comportamentais (TCC) e as práticas de mindfulness.

Primeiramente, a terapia psicodinâmica oferece uma abordagem profunda para explorar os conflitos inconscientes que contribuem para o comportamento ansioso. Como descrito ao longo da tese, a investigação das transferências, das resistências e dos conflitos intrapsíquicos permite que o paciente compreenda como suas interações digitais refletem padrões emocionais mais amplos, muitas vezes ligados a experiências passadas de insegurança e busca por validação. A conscientização desses padrões permite uma reformulação da relação do sujeito com a tecnologia, promovendo uma utilização mais consciente e equilibrada dos dispositivos.

A TCC, por outro lado, complementa a abordagem psicodinâmica ao focar diretamente nas distorções cognitivas que mantêm o ciclo de ansiedade. Pensamentos disfuncionais como "preciso estar sempre disponível" ou "se eu não postar, serei esquecido" podem ser desafiados e substituídos por cognições mais saudáveis e realistas. Além disso, a implementação de limites claros para o uso de dispositivos digitais – como o “detox digital” e a restrição de horários para acessar redes sociais – ajuda a reduzir a exposição aos gatilhos que disparam a ansiedade.

Por fim, as práticas de mindfulness e meditação oferecem uma estratégia eficaz para aumentar a autorregulação emocional e reduzir o estado de hiperalerta causado pela tecnologia. Estudos mostram que a prática regular de mindfulness ajuda a diminuir os níveis de estresse e a aumentar a capacidade de concentração, permitindo que o indivíduo desenvolva uma relação mais equilibrada com a tecnologia.

Perspectivas Futuras

Embora esta tese tenha oferecido uma análise detalhada da neurose de ansiedade digital, o tema ainda é relativamente novo e merece investigações adicionais. O avanço tecnológico continuará a moldar a sociedade de formas imprevisíveis, e é provável que novos desafios relacionados à saúde mental surjam com a evolução das plataformas digitais e da inteligência artificial. Portanto, é essencial que a pesquisa acadêmica continue a explorar as interseções entre tecnologia, comportamento humano e saúde mental, desenvolvendo novas estratégias para enfrentar os desafios que o futuro trará.

Além disso, políticas públicas e iniciativas educativas serão cruciais para promover uma utilização mais saudável da tecnologia nas gerações futuras. Programas de educação digital que ensinem sobre os riscos do uso excessivo de dispositivos e incentivem práticas de autocuidado serão fundamentais para evitar o agravamento da neurose de ansiedade digital.

A neurose de ansiedade digital é um fenômeno complexo que reflete tanto questões psicológicas individuais quanto dinâmicas sociais mais amplas. A sociedade digital do século XXI, com sua ênfase na hiperconectividade e no desempenho contínuo, criou um ambiente propício para o surgimento de novos transtornos de ansiedade, que exigem abordagens terapêuticas inovadoras e multidisciplinares. Ao integrar a psicanálise, a psicologia e os estudos sobre tecnologia, esta tese buscou oferecer uma compreensão abrangente do problema, ao mesmo tempo em que sugeriu caminhos promissores para o tratamento e a intervenção. O desafio agora é adaptar essas estratégias às transformações futuras, garantindo que a sociedade possa navegar pelos avanços tecnológicos de forma a preservar a saúde mental e o bem-estar emocional.

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1 Graduado em Psicologia, especialista e doutor em Psicanálise, Universidad de Artes y Oficios de México.