NEUROPSICOMOTRICIDADE EM FOCO – ESTIMULE BEM E CRESÇA MELHOR

NEUROPSYCHOMOTRICITY IN FOCUS – STIMULATE WELL AND GROW BETTER

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/774800142

RESUMO
O desenvolvimento neuropsicomotor na infância é influenciado por fatores biológicos, ambientais e sociais, sendo a estimulação precoce essencial, especialmente em contextos de vulnerabilidade. Este estudo teve como objetivo descrever a experiência de um projeto de extensão voltado à promoção do desenvolvimento neuropsicomotor de crianças institucionalizadas. Trata-se de um relato de experiência realizado em uma instituição de acolhimento no município de Divinópolis/MG, com a participação de discentes de fisioterapia, sob supervisão docente. Inicialmente, foram realizadas avaliações do desenvolvimento por meio do Teste de Denver II, da Alberta Infant Motor Scale (AIMS) e da Escala de Desenvolvimento Motor. Com base nos resultados, foram implementadas intervenções por meio de atividades lúdicas, conduzidas em grupo para crianças acima de dois anos e de forma individualizada para lactentes. Foi observado melhora no engajamento, na interação social e no desempenho motor, além do fortalecimento de vínculos. A instituição incorporou práticas de estimulação na rotina, e os discentes apresentaram avanços no raciocínio clínico e na formação profissional. Apesar da rotatividade das crianças e da ausência de reavaliação formal, os resultados indicam que a neuropsicomotricidade contribui para o desenvolvimento infantil em contextos institucionais.
Palavras-chave: Desenvolvimento Infantil; Psicomotricidade; Institucionalização.

ABSTRACT
Neuropsychomotor development in childhood is influenced by biological, environmental, and social factors, with early stimulation being essential, especially in vulnerable contexts. This study aimed to describe the experience of an extension project focused on promoting neuropsychomotor development in institutionalized children. This is an experience report conducted in a child care institution in Divinópolis, Minas Gerais, Brazil, involving physiotherapy students under faculty supervision. Initially, developmental assessments were performed using the Denver II Developmental Screening Test, the Alberta Infant Motor Scale (AIMS), and the Motor Development Scale. Based on these results, interventions were implemented through play-based activities, conducted in groups for children over two years old and individually for infants. Improvements were observed in engagement, social interaction, and motor performance, as well as in bonding. The institution incorporated stimulation practices into its routine, and students showed advances in clinical reasoning and professional training. Despite limitations such as participant turnover and the absence of formal reassessment, the findings suggest that neuropsychomotor interventions contribute to child development in institutional contexts.
Keywords: Child Development; Psychomotor Performance; Institutionalization.

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento humano é um processo dinâmico e contínuo, que se inicia ainda no período gestacional e se estende por toda a vida, sendo influenciado por uma complexa interação entre fatores biológicos, ambientais e sociais (Souza; Panúncio-Pinto; Fiorati, 2019). No entanto, é na infância que essas transformações se manifestam de forma mais intensa, em virtude da elevada plasticidade neural característica desse período. A neuroplasticidade, entendida como a capacidade do Sistema Nervoso Central de reorganizar sua estrutura e função em resposta a estímulos internos e externos, apresenta-se particularmente sensível nos primeiros anos de vida, tornando essa fase crítica para intervenções que favoreçam o desenvolvimento global da criança (Costa, 2023; Canto; Avena, 2023).

Evidências recentes reforçam que a estimulação precoce exerce papel determinante na organização das funções motoras, cognitivas e socioemocionais, potencializando ganhos no desenvolvimento neuropsicomotor, especialmente em populações vulneráveis (Canto; Avena, 2023). Nesse sentido, experiências ambientais enriquecidas, associadas à interação social e ao suporte familiar, contribuem significativamente para a aquisição de habilidades motoras e para a consolidação de circuitos neurais essenciais ao desenvolvimento infantil (Golding et al., 2013).

De forma complementar, fatores contextuais, como condições socioeconômicas, escolaridade parental e qualidade do ambiente familiar, configuram-se como determinantes importantes no curso do desenvolvimento, podendo atuar tanto como fatores de risco quanto de proteção (Martins et al., 2025). Além disso, o contexto afetivo-emocional assume papel central nesse processo. Crianças inseridas em ambientes familiares seguros, caracterizados por vínculos estáveis e suporte emocional, tendem a apresentar melhor desempenho em habilidades cognitivas, sociais e acadêmicas. Em contrapartida, situações marcadas por vulnerabilidade social, negligência ou instabilidade emocional podem comprometer significativamente esse percurso, reforçando a necessidade de identificação precoce de fatores de risco (Martins et al., 2025).

No âmbito das políticas públicas, o desenvolvimento neuropsicomotor configura-se como um direito fundamental da criança, conforme preconizado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (Brasil, 2026), sendo considerado um importante indicador das condições de saúde e desenvolvimento infantil. O acompanhamento sistemático por meio de instrumentos como a Caderneta da Criança, aliado a ações de promoção, prevenção e intervenção precoce, constitui estratégia essencial para identificação de atrasos e implementação de medidas oportunas (Ministério da Saúde, 2022). Nesse contexto, a atuação da fisioterapia na intervenção precoce destaca-se como uma estratégia fundamental para potencializar o desenvolvimento infantil, especialmente em crianças expostas a fatores de risco. Intervenções fisioterapêuticas contribuem para o aprimoramento de habilidades motoras, posturais e funcionais, além de favorecerem aspectos cognitivos e sociais por meio da interação terapêutica (Oliveira; Almeida; Valentini, 2012). Evidências apontam que abordagens estruturadas e precoces promovem melhorias significativas no desempenho motor e funcional, reforçando a importância da atuação interdisciplinar.

A neuropsicomotricidade, enquanto campo que integra aspectos motores, cognitivos e afetivos, assume papel central nesse processo, ao considerar o indivíduo de forma integral. Estratégias terapêuticas baseadas em atividades lúdicas favorecem o engajamento da criança, estimulam a neuroplasticidade e promovem a aquisição de habilidades de forma mais significativa (Fonseca, 2021). Além disso, intervenções psicomotoras têm demonstrado impacto positivo em componentes como coordenação motora, equilíbrio e organização espacial, contribuindo para o desenvolvimento global da criança (Silva et al., 2017).

Dentro dessa perspectiva, o ambiente institucionalizado emerge como um cenário de potencial risco ao desenvolvimento infantil. A literatura aponta que limitações estruturais, como alta demanda de crianças por cuidador, restrições de recursos e dificuldades na oferta de cuidado individualizado, podem impactar negativamente o desenvolvimento emocional, social e cognitivo (Lima, 2015). Estudos comparativos demonstram que crianças institucionalizadas apresentam, de modo geral, desempenho inferior em habilidades acadêmicas e comportamentais quando comparadas àquelas inseridas em contextos familiares, evidenciando os efeitos adversos da institucionalização prolongada (Silva et al., 2021; Chaves et al., 2013).

Diante desse cenário, torna-se evidente a relevância de intervenções precoces e contextualizadas, especialmente em populações vulneráveis, como crianças em situação de institucionalização. Assim, o projeto “Neuropsicomotricidade em Foco – Estimule Bem e Cresça Melhor” surge como uma estratégia de promoção do desenvolvimento neuropsicomotor, com o objetivo de favorecer habilidades motoras, cognitivas, sociais e de linguagem. O presente estudo tem como objetivo descrever a experiência decorrente da implementação desse projeto de extensão, evidenciando suas contribuições para o desenvolvimento infantil.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, vinculado ao projeto de extensão intitulado “Neuropsicomotricidade em Foco: Estimule Bem e Cresça Melhor”, desenvolvido em parceria com a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). O projeto contou com a participação de discentes do curso de Fisioterapia, sob supervisão de docente responsável, sendo realizado em uma instituição de acolhimento infantil localizada no município de Divinópolis, Minas Gerais.

Inicialmente, foi solicitada e obtida autorização formal da coordenação da instituição para a execução das atividades. Posteriormente, realizou-se uma visita prévia ao local, com o objetivo de capacitar as estudantes envolvidas, conhecer a rotina institucional e promover a ambientação da equipe com as crianças e profissionais. Nessa etapa, também foi conduzida uma triagem inicial dos participantes, visando identificar o perfil das crianças e direcionar as estratégias de intervenção.

O projeto foi desenvolvido por meio de visitas presenciais semanais à instituição, nas quais foram realizadas avaliações do desenvolvimento neuropsicomotor das crianças. Para essa finalidade, foram utilizados instrumentos validados e amplamente empregados na prática clínica, incluindo o Teste de Triagem de Desenvolvimento de Denver II, a Alberta Infant Motor Scale (AIMS) e a Escala de Desenvolvimento Motor. A escolha dos instrumentos considerou a faixa etária e as características funcionais dos participantes.

Com base nos resultados das avaliações iniciais, foram planejadas e executadas intervenções voltadas à estimulação neuropsicomotora. Para crianças com idade superior a dois anos, as atividades foram realizadas predominantemente em grupo, por meio de dinâmicas sociointerativas, envolvendo brincadeiras dirigidas e tarefas lúdicas com objetivos motores, cognitivos e sociais. A escolha por intervenções coletivas fundamentou-se na viabilidade observada durante a triagem, bem como na necessidade de ampliar oportunidades de interação social, especialmente após o período de isolamento decorrente da pandemia.

Para crianças com idade inferior a dois anos, as intervenções foram conduzidas de forma individualizada, respeitando as necessidades específicas do desenvolvimento infantil nessa faixa etária. Nessas situações, as atividades tiveram como foco a estimulação dos marcos motores, considerando os achados das avaliações iniciais e os princípios do desenvolvimento motor típico.

As atividades foram realizadas utilizando o espaço físico disponível na instituição, incluindo ambientes internos e externos, além de materiais fornecidos pela equipe do projeto. As estratégias adotadas priorizaram abordagens lúdicas e adaptadas à realidade local, com ênfase na participação ativa das crianças e na promoção de um ambiente estimulador.

A instituição participante apresentava elevada rotatividade de crianças, com predominância de indivíduos com idade superior a dois anos e, em sua maioria, sem déficits motores significativos. Essa característica favoreceu a implementação de atividades em grupo, especialmente em espaços abertos. Em contrapartida, havia poucos bebês com menos de 2 anos no local, resultando na execução de atividades individuais com foco nos resultados da primeira avaliação. Em virtude da constante entrada e saída de crianças, não foi possível realizar reavaliações padronizadas ao final do período. Entretanto, observações sistemáticas da equipe indicaram progressos no desempenho motor ao longo das intervenções.

Além das ações diretas com as crianças, o projeto incluiu atividades de educação em saúde direcionadas aos profissionais da instituição. Foram elaborados materiais educativos, como cartilhas e banners, com linguagem acessível, abordando aspectos relacionados à estimulação do desenvolvimento infantil. Adicionalmente, foram fornecidas orientações quanto à continuidade das práticas de estimulação, incluindo estímulos sensoriais, motores e cognitivos, bem como posicionamentos adequados, especialmente para crianças em berço, visando garantir a manutenção das intervenções na ausência da equipe extensionista.

RESULTADOS

A implementação do projeto de extensão gerou impactos importantes em diferentes níveis, envolvendo as crianças institucionalizadas, a equipe da instituição e os discentes participantes, evidenciando o potencial da intervenção em neuropsicomotricidade como estratégia de promoção do desenvolvimento infantil em contextos de vulnerabilidade.

Em relação às crianças, foi possível observar ao longo das intervenções, maior envolvimento durante as atividades propostas, com aumento da participação nas dinâmicas em grupo e ampliação das interações sociais. As atividades lúdicas favoreceram não apenas a realização de movimentos, mas também a exploração do ambiente, a iniciativa para brincar e a comunicação com outras crianças e com a equipe. foram percebidos avanços na coordenação motora global, no equilíbrio e na organização corporal, principalmente entre aquelas que participaram com maior frequência das atividades. Nos bebês, as intervenções individualizadas contribuíram para a estimulação de marcos motores esperados para a idade, como controle de cabeça, rolar e apoio em membros superiores, conforme acompanhado durante as sessões. Apesar de não ter sido possível realizar reavaliações formais, devido à rotatividade institucional, os registros realizados durante as visitas indicaram evolução positiva no desempenho motor e funcional dos bebês.

Figura 1: Atividade lúdica para estimulação da coordenação motora grossa e percepção visual por meio de cores.

 

Figura 2: Atividade de motricidade fina e coordenação óculo-manual e estimulação  neuropsicomotora em lactente com uso de bola terapêutica. 

Além dos ganhos motores, também foram percebidas mudanças importantes no comportamento e na dimensão socioemocional. Algumas crianças passaram a demonstrar mais iniciativa para participar das atividades, menor retraimento e maior interação com os colegas e com a equipe. O ambiente lúdico e acolhedor contribuiu para a formação de vínculos, favorecendo maior segurança emocional durante as intervenções. Esses achados são especialmente relevantes no contexto da institucionalização, onde, muitas vezes, há menor oportunidade de atenção individualizada. 

No contexto institucional, o projeto contribuiu para ampliar as possibilidades de cuidado e estimulação infantil. A elaboração de materiais educativos, associada às orientações práticas fornecidas à equipe, favoreceu a incorporação de estratégias de estimulação na rotina diária. Percebeu-se também maior sensibilização dos cuidadores quanto à importância da estimulação precoce e da interação em momentos cotidianos, como durante a alimentação, higiene e permanência no berço. Dessa forma, o projeto não se restringiu às intervenções pontuais, mas possibilitou um impacto mais contínuo, a partir da capacitação indireta dos profissionais da instituição.

A presença regular da equipe extensionista também contribuiu para tornar o ambiente mais dinâmico, ampliando as oportunidades de brincadeiras estruturadas e interação entre as crianças. As atividades em grupo, especialmente realizadas em espaços externos, favoreceram um ambiente mais estimulante, com reflexos positivos no desenvolvimento global.

No que se refere à formação acadêmica, os discentes envolvidos no projeto apresentaram ganhos significativos no desenvolvimento de competências teórico-práticas. A atuação em um contexto real de vulnerabilidade social permitiu aplicar, na prática, conteúdos trabalhados em sala de aula, especialmente relacionados à avaliação do desenvolvimento infantil, planejamento de intervenções e adaptação das condutas. Ao longo do projeto, foi possível perceber avanço no raciocínio clínico, na tomada de decisão e na capacidade de trabalho em equipe.

Além disso, o projeto contribuiu para o desenvolvimento de habilidades comunicativas e relacionais, como empatia, escuta e adequação da linguagem ao público atendido. A experiência também favoreceu uma compreensão mais ampliada do cuidado em saúde, considerando não apenas os aspectos biológicos, mas também os fatores sociais e ambientais que influenciam o desenvolvimento infantil.

Por fim, a participação no projeto possibilitou aos discentes uma aproximação mais concreta com o papel social da fisioterapia, especialmente no campo da promoção da saúde e prevenção de agravos, reforçando a importância da atuação em contextos comunitários e junto a populações em situação de vulnerabilidade.

DISCUSSÃO

A instituição onde o projeto foi desenvolvido apresentava características ambientais relevantes, especialmente por estar localizada em uma área com presença de espaços verdes, animais e diferentes possibilidades de brincadeiras. Esse tipo de ambiente tende a favorecer o desenvolvimento infantil, uma vez que o contato com a natureza tem sido associado a benefícios emocionais, comportamentais e cognitivos. Nesse sentido, Chawla (2015) destaca que experiências em ambientes naturais contribuem para o bem-estar psicológico e para a regulação emocional, o que pode ter influenciado positivamente os resultados observados ao longo das intervenções.

Apesar desse contexto favorável, a avaliação inicial evidenciou limitações no conhecimento das cuidadoras quanto às estratégias de estimulação do desenvolvimento infantil. Essa lacuna pode interferir diretamente na qualidade dos estímulos oferecidos no dia a dia, especialmente em um ambiente institucional., favorecendo possíveis atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor. A atuação do projeto, portanto, não se restringiu às crianças, mas também buscou orientar a equipe, buscando ampliar o repertório de práticas voltadas ao desenvolvimento das crianças. Esses achados estão em consonância com Cavalcante, Magalhães e Pontes (2007), ao destacarem que a capacitação dos cuidadores é um elemento essencial na prevenção de atrasos no desenvolvimento em contextos de institucionalização.

As intervenções foram organizadas considerando as necessidades individuais e a faixa etária das crianças, o que se mostrou fundamental diante da diversidade do grupo atendido. Ao longo do projeto, foi possível perceber mudanças não apenas no desempenho motor, mas também no envolvimento das crianças nas atividades e na forma como passaram a interagir entre si e com a equipe. Evidências recentes reforçam que a estimulação precoce, especialmente quando realizada de forma lúdica e estruturada, pode favorecer o desenvolvimento de habilidades motoras e sociais, além de influenciar o comportamento adaptativo, especialmente em crianças em situação de vulnerabilidade (Canto e Avena, 2023). Da mesma forma, estudos mais recentes apontam que intervenções precoces com abordagem multidimensional tendem a produzir efeitos mais consistentes ao longo do tempo, sobretudo quando consideram diferentes dimensões do desenvolvimento infantil (Purpura et al., 2025).

Além dos aspectos motores, o ambiente lúdico proporcionado durante as intervenções também favoreceu a expressão emocional e a construção de vínculos entre as crianças e a equipe. Esse aspecto é especialmente relevante em contextos de institucionalização, nos quais, muitas vezes, há limitação de interações individualizadas. O brincar, nesse cenário, assume um papel terapêutico importante, pois possibilita à criança expressar sentimentos, elaborar experiências vividas e desenvolver maior segurança emocional. Nesse sentido, estudos apontam que o uso do brinquedo terapêutico contribui significativamente para a expressão emocional e para o fortalecimento de vínculos em crianças que vivem em instituições de acolhimento (Almeida, Souza e Miranda, 2021).

Outro aspecto que merece atenção diz respeito ao papel dos fatores sociais no desenvolvimento das crianças. Para além das intervenções realizadas, elementos como o ambiente em que estão inseridas, a qualidade das interações e as condições de cuidado exercem influência direta sobre o desenvolvimento neuropsicomotor. Nesse sentido, a ampliação das oportunidades de estímulo e interação promovida pelo projeto pode ter contribuído para os avanços observados, o que está de acordo com o que descreve Martins et al. (2025) ao discutir os fatores de risco e proteção na primeira infância.

Durante a execução do projeto, a alta rotatividade das crianças na instituição se apresentou como um desafio importante, dificultando o acompanhamento contínuo e inviabilizando a realização de reavaliações formais. Ainda assim, ao longo das intervenções, foram percebidas mudanças consistentes no comportamento, na participação e no desempenho motor das crianças. A literatura aponta que crianças institucionalizadas estão mais expostas a atrasos no desenvolvimento, especialmente quando o cuidado não é individualizado, o que reforça a importância de intervenções que considerem as necessidades específicas de cada criança ( Sigal et al., 2003).

De modo geral, os resultados observados, como melhora na coordenação motora e maior interação social, são compatíveis com achados já descritos na literatura. Estudos como o de Brugiollo et al. (2016) mostram que atividades psicomotoras estruturadas podem contribuir de forma significativa para o desenvolvimento motor e social infantil. Além disso, evidências recentes reforçam que a continuidade das intervenções e a atuação de forma integrada entre diferentes profissionais potencializam esses ganhos, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade.

Por fim, é importante destacar que os efeitos do projeto não se limitaram às crianças atendidas. A maior aproximação com a equipe da instituição favoreceu a incorporação de práticas de estimulação no dia a dia, o que amplia a possibilidade de continuidade das ações. Para os discentes envolvidos, a experiência representou uma oportunidade de aplicar conhecimentos teóricos em um contexto real, além de contribuir para o desenvolvimento do raciocínio clínico, da comunicação e da compreensão do papel social da fisioterapia.

Figura 3. Material educativo sobre a importância da posição prona no desenvolvimento infantil.

Figura 4. Material educativo utilizado para orientação sobre os benefícios do estímulo sensorial plantar.

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2 Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG-Divinópolis, Brasil. ORCID: 0009-0000-2231-157X.
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3 Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG-Divinópolis, Brasil. ORCID ID: 0000-0002-1765-8453. E-mail: [email protected]