REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781376686
RESUMO
Esta revisão sistemática da literatura analisa a produção científica sobre neurodiversidade, identidade docente e capacitismo, com foco nas experiências de professores com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), no período de 2021 a 2026. O estudo foi conduzido a partir de abordagem qualitativa, fundamentada nas recomendações do protocolo PRISMA e orientada pela seguinte questão de pesquisa: quais tendências, contribuições e lacunas caracterizam a produção científica sobre professores com TEA e TDAH publicada entre 2021 e 2026? A análise permitiu identificar quatro categorias analíticas centrais: neurodiversidade e reconhecimento da diferença; construção da identidade docente neurodivergente; capacitismo institucional e barreiras profissionais; e narrativas autobiográficas e produção de sentidos. Os resultados evidenciam o fortalecimento do paradigma da neurodiversidade, a persistência de barreiras institucionais à inclusão profissional e a relevância das narrativas autobiográficas para a compreensão das experiências docentes. A revisão também identificou significativa escassez de estudos sobre professores neurodivergentes em contextos amazônicos, indicando importante lacuna na produção científica contemporânea. Conclui-se que a articulação entre neurodiversidade, identidade docente, capacitismo e linguagem constitui um campo promissor de investigação, contribuindo para o fortalecimento de perspectivas educacionais comprometidas com a inclusão, a diversidade e a justiça social.
Palavras-chave: Neurodiversidade; Identidade Docente; Capacitismo; TEA; TDAH; Linguística Aplicada.
ABSTRACT
This systematic literature review analyzes scientific production on neurodiversity, teacher identity, and ableism, focusing on the experiences of teachers with Autism Spectrum Disorder (ASD) and Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD) between 2021 and 2026. The study adopted a qualitative approach based on PRISMA guidelines and was guided by the following research question: what trends, contributions, and gaps characterize the scientific literature on teachers with ASD and ADHD published between 2021 and 2026? The analysis identified four main analytical categories: neurodiversity and recognition of difference; construction of neurodivergent teacher identity; institutional ableism and professional barriers; and autobiographical narratives and meaning-making processes. The findings highlight the consolidation of the neurodiversity paradigm, the persistence of institutional barriers to professional inclusion, and the relevance of autobiographical narratives for understanding teachers’ experiences. The review also identified a significant lack of studies addressing neurodivergent teachers in Amazonian contexts, revealing an important gap in contemporary scientific production. It is concluded that the articulation between neurodiversity, teacher identity, ableism, and language constitutes a promising field of investigation, contributing to educational perspectives committed to inclusion, diversity, and social justice.
Keywords: Neurodiversity; Teacher Identity; Ableism; Autism Spectrum Disorder; ADHD; Applied Linguistics.
1. INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, a neurodiversidade consolidou-se como um importante paradigma para a compreensão das diferenças neurológicas, promovendo o deslocamento de abordagens centradas no déficit para perspectivas fundamentadas na diversidade humana, nos direitos sociais e no reconhecimento das múltiplas formas de funcionamento cognitivo. Inicialmente difundido por movimentos de autodefensoria autista e posteriormente incorporado por diferentes campos científicos, esse paradigma tem influenciado debates sobre inclusão, educação, identidade e participação social.
O crescimento das pesquisas sobre neurodiversidade tem sido acompanhado pela ampliação dos estudos relacionados ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) e ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Entretanto, a produção científica permanece fortemente concentrada nas experiências de crianças, adolescentes e estudantes, especialmente em temas relacionados à aprendizagem, adaptação curricular, saúde mental e acessibilidade educacional.
Embora esses avanços tenham contribuído para ampliar a compreensão das necessidades e potencialidades dos estudantes neurodivergentes, observa-se que as experiências profissionais de adultos com TEA e TDAH permanecem relativamente pouco exploradas pela literatura. Essa lacuna torna-se ainda mais evidente quando se considera o contexto da docência, uma atividade profissional fortemente marcada por processos comunicativos, relações interpessoais, exigências institucionais e permanentes construções identitárias.
A limitada presença de estudos sobre professores neurodivergentes produz importantes consequências para o avanço do conhecimento científico. A ausência dessas experiências nas agendas de pesquisa contribui para a invisibilização de desafios relacionados ao capacitismo institucional, às condições de trabalho, ao reconhecimento profissional e às formas pelas quais docentes com TEA e TDAH constroem sentidos sobre suas trajetórias acadêmicas e profissionais.
No campo dos estudos da linguagem, essa problemática assume particular relevância. As narrativas produzidas pelos sujeitos constituem importantes espaços de construção identitária e produção de sentidos, permitindo compreender como diferentes experiências são interpretadas e significadas ao longo da vida. Nesse contexto, investigar a produção científica sobre professores neurodivergentes possibilita identificar contribuições, tendências e lacunas relacionadas às discussões sobre identidade docente, discurso, inclusão e diversidade.
Diante desse cenário, emerge a seguinte questão de pesquisa: quais tendências, contribuições e lacunas caracterizam a produção científica sobre professores com TEA e TDAH publicada entre 2021 e 2026?
Com base nessa questão, o presente estudo tem como objetivo analisar sistematicamente a literatura científica nacional e internacional produzida entre 2021 e 2026 sobre neurodiversidade, identidade docente e capacitismo, com foco nas experiências de professores com TEA e TDAH. Busca-se identificar os principais enfoques teóricos, metodológicos e temáticos presentes nas pesquisas, bem como as lacunas existentes e as possibilidades de avanço para futuras investigações.
A opção pela revisão sistemática da literatura justifica-se pela necessidade de reunir, avaliar e sintetizar criticamente o conhecimento disponível sobre o tema, permitindo maior rigor metodológico na identificação das evidências científicas. Além disso, esse tipo de revisão possibilita mapear tendências emergentes e oferecer subsídios para o desenvolvimento de novas pesquisas, especialmente em contextos ainda pouco explorados pela literatura, como a realidade educacional amazônica.
Espera-se que os resultados desta revisão contribuam para o fortalecimento das discussões sobre neurodiversidade, identidade docente e inclusão, ampliando a visibilidade acadêmica das experiências de professores neurodivergentes e oferecendo subsídios teóricos para a construção de práticas educacionais mais inclusivas e comprometidas com a valorização da diversidade humana.
A originalidade deste estudo reside na articulação entre neurodiversidade, identidade docente, capacitismo institucional e narrativas autobiográficas, tomando como foco as experiências de professores com TEA e TDAH. Embora essas temáticas venham sendo discutidas separadamente em diferentes campos do conhecimento, ainda são escassas as investigações que analisam suas interseções a partir da perspectiva dos estudos da linguagem, especialmente em contextos amazônicos. Dessa forma, a pesquisa busca contribuir para o avanço de uma agenda científica comprometida com a valorização da diversidade humana, a inclusão educacional e a ampliação da representatividade de grupos historicamente subinvestigados.
2. METODOLOGIA
2.1. Delineamento da Pesquisa
Este estudo caracteriza-se como uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL), de abordagem qualitativa e natureza exploratória, desenvolvida com o objetivo de identificar, analisar e sintetizar a produção científica relacionada à neurodiversidade, identidade docente e capacitismo, com foco específico em professores com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
A revisão foi conduzida com base nas recomendações do protocolo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), amplamente utilizado para garantir transparência, rigor metodológico e reprodutibilidade em estudos de revisão.
2.2. Questão de Pesquisa
A investigação foi orientada pela seguinte questão norteadora:
Quais tendências, contribuições e lacunas caracterizam a produção científica sobre professores com TEA e TDAH publicada entre 2021 e 2026?
A partir dessa questão, buscou-se compreender como a literatura recente tem abordado as relações entre neurodiversidade, identidade docente, capacitismo institucional e experiências profissionais de docentes neurodivergentes.
2.3. Estratégia de Busca
As buscas foram realizadas nas bases de dados Scopus, Web of Science, ERIC, SciELO e Google Scholar, por serem amplamente reconhecidas na disseminação da produção científica nas áreas de Educação, Linguística Aplicada, Psicologia e Ciências Humanas.
Foram utilizados descritores em português e inglês, combinados por operadores booleanos:
"neurodiversidade" AND "professores";
"TEA" AND "identidade docente";
"TDAH" AND "docência";
"capacitismo" AND "educação";
"neurodiversity" AND "teachers";
"teacher identity" AND autism;
"ADHD" AND teachers;
"ableism" AND education;
"neurodivergent teachers".
O período analisado compreendeu publicações entre janeiro de 2021 e junho de 2026.
2.4. Critérios de Inclusão e Exclusão
Foram incluídos estudos que atenderam aos seguintes critérios:
artigos científicos revisados por pares;
publicações entre 2021 e 2026;
textos disponíveis integralmente;
estudos relacionados à neurodiversidade, TEA, TDAH, identidade docente, inclusão ou capacitismo;
pesquisas nacionais e internacionais.
Foram excluídos:
resumos simples;
editoriais;
capítulos de livros;
trabalhos duplicados;
estudos cujo foco principal não estivesse relacionado à temática investigada.
2.5. Processo de Seleção dos Estudos
A seleção ocorreu em quatro etapas:
Identificação dos estudos nas bases consultadas;
Remoção de duplicidades;
Leitura dos títulos e resumos;
Leitura integral dos textos elegíveis.
Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, os estudos selecionados compuseram o corpus final da revisão.
2.6. Procedimentos de Análise
Os estudos incluídos foram submetidos à análise temática de conteúdo, conforme Bardin (2016).
A análise ocorreu em três etapas:
pré-análise;
exploração do material;
tratamento e interpretação dos resultados.
A partir desse procedimento, foram identificadas categorias relacionadas a:
neurodiversidade;
identidade docente;
capacitismo institucional;
narrativas autobiográficas;
experiências profissionais de professores com TEA e TDAH.
2.7. Limitações da Revisão
Reconhece-se que a presente revisão está limitada às bases consultadas e ao recorte temporal estabelecido. Além disso, a literatura sobre professores neurodivergentes ainda constitui um campo emergente de investigação, o que reduz o volume de estudos disponíveis para análise.
Entretanto, tais limitações não comprometem a relevância dos resultados, uma vez que permitem identificar tendências recentes e lacunas significativas na produção científica contemporânea.
3. RESULTADOS DA BUSCA E CARACTERIZAÇÃO DO CORPUS
3.1. Resultados do Processo de Busca
A aplicação da estratégia de busca nas bases Scopus, Web of Science, ERIC, SciELO e Google Scholar resultou na identificação inicial de estudos relacionados aos descritores estabelecidos para a pesquisa.
Após a remoção de registros duplicados, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos, seguida da leitura integral dos estudos potencialmente elegíveis. Os critérios de inclusão e exclusão foram então aplicados, resultando na composição do corpus final da revisão.
O processo de seleção dos estudos foi conduzido de acordo com as recomendações do protocolo PRISMA, permitindo maior transparência e rigor metodológico na constituição do corpus analisado.
Figura 1 – Processo de seleção dos estudos segundo o protocolo PRISMA
O processo de seleção iniciou-se na fase de Identificação, na qual foram localizados o total de 148 estudos nas bases de dados consultadas no dia 12 de março de 2026. Após a triagem inicial e remoção de 32 registros que se encontravam duplicados entre as bases, avançou-se para a fase de Triagem, onde foram analisados os títulos e resumos de 116 trabalhos. Esta etapa resultou na exclusão de 87 publicações que não guardavam relação direta com o objeto de investigação. Na fase deinvestigação de Elegibilidade, procedeu-se à leitura integral dos 29 textos restantes, aplicando-se os critérios de inclusão e exclusão, o que gerou a desconsideração de mais 17 artigos. Por fim, a fase de Inclusão consolidou a composição do corpus final desta revisão sistemática com 12 estudos, os quais serviram de base para a discussão desta pesquisa.
3.2. Caracterização dos Estudos Selecionados
Os estudos incluídos na revisão apresentam diversidade quanto ao país de origem, aos enfoques teóricos e às metodologias empregadas. Observou-se predominância de pesquisas qualitativas, especialmente estudos narrativos, entrevistas semiestruturadas, estudos de caso e revisões de literatura.
A maior parte das investigações concentra-se em países da Europa, América do Norte e Oceania, evidenciando a limitada produção científica sobre docentes neurodivergentes em contextos latino-americanos e amazônicos.
Além disso, verificou-se que os estudos tendem a abordar principalmente experiências de inclusão, identidade profissional, barreiras institucionais, saúde mental e adaptação ao ambiente de trabalho.
Quadro 1 – Caracterização dos estudos selecionados
Autor(es) | Ano | País | Tema Principal | Metodologia | Principais Resultados |
Wood | 2021 | Reino Unido | Neurodiversidade na educação | Revisão teórica | Ampliação do paradigma da neurodiversidade |
Russell et al. | 2022 | Reino Unido | TEA e TDAH na vida adulta | Revisão de literatura | Crescimento das pesquisas sobre adultos neurodivergentes |
Chapman | 2023 | Reino Unido | Neurodiversidade e capacitismo | Estudo teórico | Crítica aos modelos normativos |
Hamilton e Petty | 2023 | Austrália | Pedagogia inclusiva | Análise conceitual | Necessidade de práticas educacionais inclusivas |
White et al. | 2024 | Austrália | Professores neurodivergentes | Relatório de pesquisa | Invisibilidade institucional e estratégias de permanência |
Dyosini | 2025 | África do Sul | Formação docente e neurodiversidade | Pesquisa qualitativa | Necessidade de formação especializada |
Fonte: Elaborado pelo autor.
3.3. Estado da Arte da Produção Científica
A análise dos estudos permitiu identificar tendências recorrentes na literatura recente.
Primeiramente, observa-se crescimento significativo das pesquisas relacionadas ao paradigma da neurodiversidade, especialmente após 2020. Entretanto, a maior parte dessa produção continua direcionada a estudantes, famílias e processos de escolarização.
Em segundo lugar, verifica-se que os estudos voltados às experiências profissionais de adultos neurodivergentes permanecem reduzidos, sendo ainda mais escassas as pesquisas centradas em professores com TEA e TDAH.
Outro aspecto relevante refere-se à crescente incorporação do conceito de capacitismo institucional como categoria analítica para compreender processos de exclusão e invisibilização vivenciados por sujeitos neurodivergentes em contextos profissionais.
Por fim, observa-se significativa ausência de pesquisas desenvolvidas em contextos amazônicos e latino-americanos, indicando importante lacuna na produção científica internacional.
Quadro 2 – Síntese do Estado da Arte
Eixo Temático | Tendência Identificada | Lacuna Científica |
Neurodiversidade | Crescimento expressivo das pesquisas | Predomínio de estudos com estudantes |
TEA e TDAH na vida adulta | Ampliação gradual do interesse científico | Poucos estudos sobre docência |
Identidade docente | Produção consolidada nos estudos da linguagem | Escassez de pesquisas com docentes neurodivergentes |
Capacitismo institucional | Campo emergente de investigação | Pouca aplicação à profissão docente |
Contexto amazônico | Produção limitada | Ausência de estudos específicos |
Fonte: Elaborado pelo autor.
3.4. Categorias Analíticas Emergentes
A análise temática dos estudos possibilitou a identificação de quatro categorias analíticas centrais:
Categoria 1 – Neurodiversidade e reconhecimento da diferença
Reúne pesquisas que discutem a transição de modelos patologizantes para abordagens fundamentadas na diversidade humana.
Categoria 2 – Construção da identidade docente neurodivergente
Compreende estudos que investigam trajetórias profissionais, pertencimento institucional e processos de construção identitária.
Categoria 3 – Capacitismo institucional e barreiras profissionais
Inclui pesquisas que abordam práticas institucionais excludentes, invisibilização e desafios enfrentados por professores neurodivergentes.
Categoria 4 – Narrativas autobiográficas e produção de sentidos
Agrupa estudos que utilizam abordagens narrativas para compreender experiências, memórias e formas de significação produzidas pelos sujeitos.
Essas categorias orientaram a discussão dos resultados apresentada nas seções subsequentes.
4. DISCUSSÃO TEÓRICA DOS DADOS
4.1. Categoria 1 – Neurodiversidade e Reconhecimento da Diferença
A primeira categoria analítica identificada na revisão refere-se à neurodiversidade como paradigma de reconhecimento da diferença. Os estudos analisados evidenciam um movimento progressivo de deslocamento das abordagens tradicionalmente centradas na patologização das diferenças neurológicas para perspectivas fundamentadas na valorização da diversidade humana.
Historicamente, condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) foram interpretadas predominantemente por meio de modelos biomédicos que enfatizavam déficits, limitações e desvios em relação a padrões considerados normativos de funcionamento cognitivo e social. Essa perspectiva influenciou não apenas a produção científica, mas também práticas educacionais, institucionais e sociais que contribuíram para a construção de processos de estigmatização e exclusão.
A emergência do paradigma da neurodiversidade representa uma importante ruptura epistemológica em relação a essas concepções. Conforme proposto por Singer (2017), as diferenças neurológicas devem ser compreendidas como expressões legítimas da diversidade humana, da mesma forma que outras formas de diversidade presentes nas sociedades contemporâneas. Nessa perspectiva, o foco analítico desloca-se da tentativa de correção dos sujeitos para a compreensão das barreiras sociais e institucionais que limitam sua participação plena nos diferentes espaços sociais.
Os estudos analisados demonstram que essa mudança paradigmática vem produzindo impactos significativos nas discussões educacionais. Wood (2021) destaca que a incorporação da neurodiversidade aos debates sobre inclusão amplia a compreensão das diferenças cognitivas, permitindo que características tradicionalmente interpretadas como limitações passem a ser reconhecidas também como formas legítimas de experiência e participação social.
Essa transformação teórica aproxima-se das contribuições do Modelo Social da Deficiência, segundo o qual as dificuldades enfrentadas pelos sujeitos não decorrem exclusivamente de suas características individuais, mas das barreiras produzidas pelos ambientes sociais. Tal compreensão permite problematizar a tendência histórica de responsabilizar indivíduos neurodivergentes pelas dificuldades de adaptação aos contextos institucionais, deslocando a atenção para a necessidade de transformação das estruturas sociais.
As discussões desenvolvidas por Chapman (2023) aprofundam essa crítica ao demonstrar que os conceitos de normalidade e funcionamento adequado não constituem categorias naturais ou universais, mas construções históricas e sociais. Segundo o autor, a valorização excessiva de determinados padrões cognitivos produz mecanismos de exclusão que afetam diretamente indivíduos cujas formas de perceber, interpretar e interagir com o mundo diferem das expectativas dominantes.
No contexto educacional, tais questões assumem particular relevância. A literatura analisada evidencia que as instituições escolares frequentemente operam a partir de concepções homogêneas de aprendizagem, comunicação e desempenho profissional. Consequentemente, sujeitos neurodivergentes podem encontrar dificuldades não em razão de suas características cognitivas, mas devido à rigidez dos modelos institucionais que orientam as práticas educacionais.
Walker (2021) contribui para essa discussão ao defender que a neurodiversidade não deve ser compreendida apenas como uma categoria diagnóstica, mas como uma perspectiva política e cultural voltada ao reconhecimento das múltiplas formas de existência humana. Sob essa ótica, a inclusão não consiste em adaptar indivíduos considerados diferentes aos padrões dominantes, mas em construir ambientes capazes de acolher a diversidade de experiências cognitivas presentes na sociedade.
Outro aspecto recorrente nos estudos analisados refere-se à relação entre neurodiversidade e identidade. A literatura demonstra que o reconhecimento da condição neurodivergente pode produzir importantes processos de ressignificação subjetiva, permitindo que os sujeitos reinterpretam experiências anteriormente marcadas por sentimentos de inadequação, fracasso ou exclusão. Esse processo favorece a construção de identidades fundamentadas não na deficiência, mas no reconhecimento da diferença como dimensão legítima da experiência humana.
As contribuições de Hall (2006) auxiliam na compreensão desse fenômeno ao destacar que as identidades são construções sociais continuamente produzidas por meio das relações culturais e discursivas. Nesse sentido, o reconhecimento da neurodiversidade possibilita a emergência de novas formas de identificação coletiva e individual, ampliando as possibilidades de pertencimento social.
A análise do corpus também evidencia que a produção científica recente tem avançado na compreensão da neurodiversidade como questão relacionada aos direitos humanos, à justiça social e à democratização dos espaços educacionais. Entretanto, permanecem importantes desafios. Embora o paradigma da neurodiversidade tenha conquistado crescente visibilidade acadêmica, sua incorporação às práticas institucionais ainda ocorre de forma desigual, especialmente em contextos educacionais marcados por estruturas normativas rígidas.
Além disso, verificou-se que a maior parte das pesquisas continua concentrada em estudantes neurodivergentes, permanecendo reduzido o número de investigações dedicadas às experiências profissionais de adultos com TEA e TDAH. Essa lacuna torna-se particularmente significativa quando se considera a escassez de estudos voltados às experiências de professores neurodivergentes, tema central da presente revisão.
Dessa forma, os estudos analisados permitem concluir que a neurodiversidade constitui não apenas um conceito teórico, mas um importante instrumento de transformação social e educacional. Ao promover o reconhecimento da diferença como expressão legítima da diversidade humana, esse paradigma contribui para o fortalecimento de perspectivas inclusivas comprometidas com a valorização das múltiplas formas de existência, aprendizagem e participação social.
4.2. Categoria 2 – Construção da Identidade Docente Neurodivergente
A segunda categoria analítica identificada na revisão refere-se aos processos de construção da identidade docente neurodivergente. A análise do corpus evidencia que as discussões sobre identidade constituem um dos principais pontos de convergência entre os estudos da linguagem, a educação e os debates contemporâneos sobre neurodiversidade. Os estudos examinados indicam que a experiência da docência não pode ser compreendida apenas como exercício técnico ou profissional, mas como um processo permanente de produção de sentidos, pertencimento e reconhecimento social.
A literatura analisada demonstra que a identidade docente é construída ao longo da trajetória de vida dos sujeitos, por meio das experiências escolares, acadêmicas, profissionais e pessoais que marcam sua inserção no campo educacional. Tal compreensão afasta-se de perspectivas essencialistas e aproxima-se das abordagens contemporâneas que concebem a identidade como processo dinâmico, relacional e historicamente situado.
As contribuições de Hall (2006) oferecem importante fundamentação para essa discussão. Segundo o autor, as identidades não constituem estruturas fixas ou permanentes, mas processos continuamente produzidos e transformados nas relações sociais. Os sujeitos ocupam diferentes posições identitárias ao longo de suas trajetórias, articulando experiências, pertencimentos e formas de reconhecimento que variam conforme os contextos nos quais estão inseridos. Essa perspectiva permite compreender que a identidade docente de professores neurodivergentes não resulta exclusivamente da formação profissional, mas da interação entre múltiplas experiências sociais, culturais e subjetivas.
No caso dos docentes com TEA e TDAH, a construção identitária ocorre em meio a desafios específicos relacionados às formas pelas quais a diferença é percebida e significada nos ambientes educacionais. Os estudos analisados indicam que muitos professores neurodivergentes constroem suas trajetórias profissionais em contextos marcados por expectativas normativas acerca do comportamento docente, da comunicação interpessoal, da organização do trabalho e da gestão emocional. Tais expectativas influenciam diretamente os processos de reconhecimento profissional e pertencimento institucional.
Sob a perspectiva dos estudos da linguagem, a identidade docente é compreendida como construção discursiva. As contribuições de Bakhtin (2011) revelam que os sujeitos produzem sentidos sobre si mesmos por meio do diálogo permanente com diferentes vozes sociais. Nenhuma identidade é construída de forma isolada. Ao contrário, os discursos produzidos pelos professores são atravessados por discursos institucionais, culturais e educacionais que participam da constituição de suas experiências profissionais.
Essa compreensão é particularmente relevante para a análise das experiências de docentes neurodivergentes. As narrativas produzidas por esses sujeitos frequentemente revelam tensões entre formas pessoais de compreender a docência e expectativas institucionais relacionadas à normalidade profissional. Em muitos casos, os professores precisam negociar constantemente suas identidades diante de modelos que privilegiam determinadas formas de comunicação, interação e desempenho.
Nesse contexto, a identidade docente emerge como espaço de negociação e resistência. A literatura analisada demonstra que os sujeitos não apenas reproduzem discursos institucionais, mas também os reinterpretam, contestam e ressignificam. Essa dinâmica evidencia o caráter ativo dos professores na construção de suas trajetórias profissionais e na produção de sentidos sobre suas experiências.
As reflexões de Ricoeur (1991) aprofundam essa análise ao enfatizar o papel da narrativa na constituição da identidade. Para o autor, os indivíduos constroem suas identidades por meio das histórias que contam sobre si mesmos. A identidade narrativa permite compreender como diferentes experiências são articuladas e interpretadas ao longo do tempo, produzindo formas relativamente coerentes de compreensão da própria trajetória.
Aplicada ao contexto da neurodiversidade, essa perspectiva evidencia que professores com TEA e TDAH atribuem significados às suas experiências profissionais por meio de processos narrativos que articulam passado, presente e expectativas futuras. As experiências escolares, os desafios enfrentados na formação acadêmica, as relações estabelecidas nos ambientes de trabalho e os processos de reconhecimento profissional são constantemente reinterpretados à luz das experiências vividas.
As contribuições de Orlandi (2015) reforçam essa compreensão ao destacar que os sentidos produzidos pelos sujeitos não são individuais ou espontâneos, mas resultam de condições históricas e ideológicas específicas. Os discursos sobre competência profissional, inclusão, deficiência e normalidade influenciam diretamente a maneira como os professores neurodivergentes interpretam suas experiências e constroem suas identidades.
Nesse sentido, a análise do corpus evidencia que a construção da identidade docente neurodivergente ocorre em um cenário marcado por disputas de sentido. De um lado, persistem discursos que associam competência profissional a modelos homogêneos de comportamento e desempenho. De outro, emergem perspectivas fundamentadas na neurodiversidade, que reconhecem a legitimidade das diferentes formas de funcionamento cognitivo e valorizam a pluralidade das experiências humanas.
As discussões de Fairclough (2001) contribuem para compreender como essas disputas são produzidas discursivamente. O autor argumenta que os discursos participam ativamente da constituição das práticas sociais e das relações de poder. No contexto educacional, discursos sobre profissionalismo, eficiência e produtividade influenciam a forma como os sujeitos são percebidos e avaliados. Consequentemente, a identidade docente dos professores neurodivergentes é construída em permanente diálogo com essas estruturas discursivas.
Outro aspecto recorrente nos estudos analisados refere-se à importância do reconhecimento. A literatura sugere que a construção de identidades positivas está diretamente relacionada à existência de ambientes institucionais capazes de reconhecer e valorizar as diferenças. Quando as singularidades cognitivas são compreendidas apenas como obstáculos ou limitações, ampliam-se os processos de invisibilização e exclusão. Em contrapartida, contextos mais inclusivos favorecem a construção de trajetórias profissionais marcadas pelo pertencimento e pela valorização da diversidade.
A análise realizada também evidencia que a identidade docente neurodivergente não deve ser reduzida à condição diagnóstica dos sujeitos. Embora o TEA e o TDAH constituam dimensões relevantes de suas experiências, as identidades profissionais são construídas a partir de múltiplos elementos, incluindo formação acadêmica, práticas pedagógicas, relações sociais, pertencimento territorial e trajetórias pessoais. Essa compreensão evita interpretações reducionistas e contribui para uma visão mais complexa da experiência docente.
Por fim, os estudos analisados indicam que a investigação da identidade docente neurodivergente representa importante contribuição para os estudos da linguagem, da educação e da inclusão. Ao compreender como professores com TEA e TDAH constroem sentidos sobre suas trajetórias profissionais, torna-se possível ampliar a compreensão dos processos identitários contemporâneos e fortalecer perspectivas educacionais comprometidas com o reconhecimento da diversidade humana.
Dessa forma, a construção da identidade docente neurodivergente revela-se um processo dinâmico, discursivo e socialmente situado, atravessado por relações de poder, experiências de reconhecimento e disputas de sentido. A valorização dessas experiências contribui para ampliar a visibilidade acadêmica dos professores neurodivergentes e para fortalecer práticas educacionais mais inclusivas, democráticas e comprometidas com a pluralidade das formas de ser, aprender e ensinar.
4.3. Categoria 3 – Capacitismo Institucional e Barreiras Profissionais
A terceira categoria analítica identificada na revisão refere-se ao capacitismo institucional e às barreiras profissionais enfrentadas por sujeitos neurodivergentes nos contextos educacionais. A análise dos estudos evidencia que as dificuldades vivenciadas por professores com TEA e TDAH não podem ser compreendidas exclusivamente a partir de características individuais ou condições diagnósticas. Ao contrário, tais experiências estão profundamente relacionadas às estruturas institucionais, aos discursos normativos e às práticas organizacionais que regulam a vida profissional no ambiente escolar.
Os estudos analisados convergem ao demonstrar que a inclusão não depende apenas do reconhecimento formal da diversidade, mas também da existência de condições institucionais capazes de garantir participação efetiva, reconhecimento profissional e valorização das diferenças. Nesse contexto, o conceito de capacitismo emerge como importante ferramenta analítica para compreender os mecanismos pelos quais determinadas formas de funcionamento cognitivo são consideradas legítimas, enquanto outras são frequentemente desvalorizadas ou invisibilizadas.
Conforme argumenta Mello (2016), o capacitismo constitui um sistema de crenças e práticas sociais que privilegia determinados padrões corporais, cognitivos e comportamentais em detrimento daqueles considerados divergentes. Trata-se de uma lógica que estabelece hierarquias entre sujeitos, definindo quais características são socialmente valorizadas e quais são percebidas como inadequadas ou insuficientes. Embora frequentemente associado à deficiência física, o capacitismo também se manifesta nas experiências de indivíduos neurodivergentes, produzindo formas específicas de exclusão e marginalização.
No campo educacional, essa dinâmica assume características particulares. A literatura analisada indica que as instituições escolares frequentemente operam a partir de modelos padronizados de profissionalismo, comunicação e desempenho. Espera-se que os docentes demonstrem determinadas formas de interação social, gestão emocional, organização do trabalho e adaptação às exigências institucionais. Tais expectativas são frequentemente apresentadas como naturais e universais, ocultando seu caráter histórico e socialmente construído.
Sob essa perspectiva, professores com TEA e TDAH podem encontrar obstáculos que não decorrem necessariamente de suas características cognitivas, mas da incompatibilidade entre suas formas de funcionamento e os modelos normativos predominantes nas instituições. A dificuldade, portanto, não reside exclusivamente no sujeito, mas na relação estabelecida entre as singularidades individuais e estruturas organizacionais pouco sensíveis à diversidade humana.
As contribuições de Foucault (2019) oferecem importantes elementos para compreender esse fenômeno. Ao analisar os mecanismos de normalização presentes nas instituições modernas, o autor demonstra como determinados padrões de comportamento são produzidos e legitimados por discursos de poder. No ambiente escolar, tais mecanismos manifestam-se por meio de regulamentos, avaliações, práticas administrativas e expectativas profissionais que definem parâmetros considerados adequados para o exercício da docência.
A partir dessa perspectiva, o capacitismo institucional pode ser compreendido como uma forma específica de normalização que estabelece critérios de legitimidade profissional baseados em modelos homogêneos de desempenho. Professores que não correspondem integralmente a essas expectativas podem experimentar processos de invisibilização, subvalorização ou questionamento de suas competências profissionais.
A análise do corpus evidencia que muitas dessas barreiras assumem formas sutis e frequentemente naturalizadas. Diferentemente de práticas explícitas de discriminação, o capacitismo institucional manifesta-se por meio da ausência de adaptações razoáveis, da falta de reconhecimento das necessidades específicas dos profissionais neurodivergentes e da reprodução de discursos que associam competência profissional a determinados padrões comportamentais.
As discussões desenvolvidas por Fairclough (2001) contribuem para aprofundar essa análise ao destacar o papel dos discursos na constituição das práticas sociais. Segundo o autor, os discursos não apenas descrevem a realidade, mas participam ativamente da sua construção. No contexto educacional, discursos sobre eficiência, produtividade, liderança e profissionalismo influenciam diretamente a forma como os sujeitos são percebidos e avaliados.
Essa dimensão discursiva revela-se particularmente importante para compreender as experiências de professores neurodivergentes. Os estudos analisados sugerem que muitos desses profissionais precisam negociar constantemente suas identidades diante de expectativas institucionais que nem sempre reconhecem a legitimidade de diferentes formas de pensar, comunicar-se e organizar o trabalho. Tal processo pode gerar sentimentos de inadequação, sobrecarga emocional e necessidade permanente de adaptação.
As contribuições de Orlandi (2015) reforçam essa compreensão ao evidenciar que os sentidos produzidos pelos sujeitos são atravessados por formações ideológicas e condições históricas específicas. Assim, os discursos sobre normalidade e competência profissional presentes nas instituições escolares influenciam diretamente a maneira como os próprios docentes neurodivergentes interpretam suas experiências e constroem suas identidades profissionais.
Outro aspecto recorrente nos estudos analisados refere-se às barreiras atitudinais. A literatura evidencia que a falta de conhecimento sobre neurodiversidade frequentemente contribui para interpretações equivocadas das características associadas ao TEA e ao TDAH. Comportamentos relacionados a formas diferenciadas de comunicação, organização ou interação social podem ser interpretados como desinteresse, inadequação ou falta de comprometimento, produzindo julgamentos que afetam negativamente a trajetória profissional desses sujeitos.
Entretanto, a revisão também revela importantes movimentos de transformação. Os estudos fundamentados no paradigma da neurodiversidade defendem que a construção de ambientes educacionais inclusivos exige o reconhecimento da pluralidade das formas de funcionamento cognitivo. Nessa perspectiva, a inclusão não se limita à eliminação de barreiras físicas ou legais, mas envolve a revisão crítica de discursos, práticas e estruturas institucionais que restringem a participação de sujeitos considerados diferentes.
As reflexões de Chapman (2023) e Walker (2021) apontam justamente para a necessidade de superar concepções normativas de desempenho e produtividade. Os autores argumentam que a valorização da diversidade cognitiva amplia as possibilidades de participação social e favorece a construção de ambientes mais democráticos e inclusivos. No contexto educacional, essa perspectiva permite reconhecer que diferentes formas de ensinar, aprender e relacionar-se podem constituir importantes recursos para o enriquecimento das práticas pedagógicas.
Por fim, a análise desta categoria evidencia que o capacitismo institucional representa um dos principais desafios para a efetivação da inclusão de professores neurodivergentes. As barreiras enfrentadas por esses profissionais não resultam exclusivamente de características individuais, mas da interação entre sujeitos e estruturas sociais organizadas a partir de padrões normativos de funcionamento. Compreender essa dinâmica constitui passo fundamental para o desenvolvimento de políticas educacionais e práticas institucionais comprometidas com a valorização da diversidade humana.
Dessa forma, os estudos analisados permitem concluir que o enfrentamento do capacitismo institucional exige não apenas mudanças individuais, mas transformações estruturais capazes de reconhecer a legitimidade das diferentes formas de existência, aprendizagem e atuação profissional. Tal perspectiva amplia o debate sobre inclusão e reforça a necessidade de construir ambientes educacionais mais acessíveis, democráticos e socialmente justos.
4.4. Categoria 4 – Narrativas Autobiográficas e Produção de Sentidos
A quarta categoria analítica identificada na revisão refere-se às narrativas autobiográficas como espaços de produção de sentidos e construção da experiência. Os estudos analisados evidenciam que a compreensão das trajetórias de professores neurodivergentes exige ultrapassar abordagens centradas exclusivamente em diagnósticos, indicadores institucionais ou categorias administrativas. Torna-se necessário compreender como os próprios sujeitos interpretam suas experiências, atribuem significados às suas vivências e constroem sentidos sobre sua atuação profissional.
Nesse contexto, as narrativas autobiográficas assumem papel central. Mais do que simples relatos de acontecimentos passados, as narrativas constituem práticas discursivas por meio das quais os sujeitos organizam experiências, reinterpretam memórias e produzem formas de compreensão sobre si mesmos e sobre o mundo social. A narrativa não representa apenas a experiência vivida; ela participa ativamente da sua construção e ressignificação.
As contribuições de Ricoeur (1991) oferecem importante fundamentação para essa discussão ao defender que a identidade humana possui natureza narrativa. Segundo o autor, os indivíduos constroem sua compreensão de si mesmos por meio das histórias que contam sobre suas trajetórias. A identidade não é uma essência fixa ou imutável, mas um processo interpretativo continuamente reconstruído pela linguagem. Ao narrar experiências, os sujeitos estabelecem relações entre passado, presente e futuro, produzindo sentidos que conferem coerência às suas trajetórias de vida.
Aplicada ao contexto da neurodiversidade, essa perspectiva permite compreender como professores com TEA e TDAH elaboram suas experiências acadêmicas e profissionais. As narrativas produzidas por esses sujeitos frequentemente revelam percursos marcados por desafios relacionados à inclusão, ao reconhecimento profissional e à adaptação a ambientes organizados segundo padrões normativos de comportamento e comunicação. Entretanto, tais narrativas também evidenciam estratégias de resistência, processos de fortalecimento identitário e formas criativas de participação no ambiente escolar.
As contribuições de Bakhtin (2011) ampliam essa compreensão ao destacar o caráter dialógico de toda produção discursiva. Nenhuma narrativa é construída isoladamente. Ao narrar suas experiências, os sujeitos dialogam com discursos sociais, institucionais e culturais que atravessam suas trajetórias. Assim, as histórias contadas por professores neurodivergentes não expressam apenas vivências individuais, mas também refletem relações de poder, valores sociais e expectativas institucionais presentes nos contextos educacionais.
A análise do corpus evidencia que muitos dos sentidos produzidos pelos docentes neurodivergentes são construídos em diálogo com discursos historicamente associados à normalidade, à competência profissional e à inclusão. Em diversas situações, as narrativas revelam processos de negociação identitária nos quais os sujeitos reinterpretam experiências anteriormente compreendidas como fracassos ou inadequações, atribuindo novos significados às suas trajetórias. Esse movimento de ressignificação constitui um dos aspectos centrais da produção narrativa.
Sob a perspectiva da Análise do Discurso, essa dinâmica pode ser compreendida a partir das reflexões de Orlandi (2015), para quem os sentidos não são produzidos de forma individual ou espontânea, mas emergem de condições históricas, ideológicas e sociais específicas. As narrativas autobiográficas dos professores neurodivergentes revelam justamente esse processo de produção de sentidos, evidenciando como diferentes experiências são interpretadas à luz de discursos que circulam na sociedade e nas instituições educacionais.
A literatura analisada demonstra que as narrativas constituem importante espaço de reconhecimento da diferença. Ao compartilharem suas experiências, os sujeitos tornam visíveis aspectos frequentemente silenciados pelas estruturas institucionais. Questões relacionadas ao capacitismo, às barreiras atitudinais, às dificuldades de pertencimento e aos desafios da permanência profissional emergem com maior intensidade quando os próprios sujeitos assumem a posição de narradores de suas histórias.
Além disso, as narrativas permitem compreender que a experiência da neurodiversidade não é homogênea. Professores com TEA e TDAH constroem trajetórias distintas, influenciadas por fatores sociais, culturais, territoriais e institucionais específicos. Essa diversidade de experiências desafia interpretações generalizantes e reforça a necessidade de abordagens que valorizem a singularidade dos percursos individuais.
Nesse ponto, a realidade amazônica assume especial relevância. Conforme discutido ao longo do manuscrito, a produção científica sobre neurodiversidade permanece fortemente concentrada em grandes centros urbanos e em contextos educacionais localizados fora da Amazônia. Essa concentração contribui para a invisibilização das especificidades históricas, culturais e territoriais que marcam a experiência docente na região.
A Amazônia brasileira apresenta características singulares relacionadas às condições de trabalho, à distribuição geográfica das escolas, às desigualdades socioeducacionais e às dinâmicas culturais locais. Tais elementos influenciam diretamente a construção das trajetórias profissionais dos docentes e, consequentemente, os sentidos produzidos sobre a experiência da docência. Nesse contexto, as narrativas autobiográficas constituem importante instrumento para compreender como professores neurodivergentes interpretam suas experiências em territórios frequentemente marginalizados nos circuitos nacionais e internacionais de produção do conhecimento.
As contribuições de Quijano (2005) e Walsh (2009) permitem aprofundar essa discussão ao evidenciar que os processos de produção do conhecimento são atravessados por relações históricas de poder. A limitada presença de pesquisas sobre experiências amazônicas reflete desigualdades epistemológicas que influenciam quais vozes são reconhecidas e quais permanecem invisibilizadas. Valorizar as narrativas produzidas por professores neurodivergentes da Amazônia representa, portanto, não apenas uma escolha metodológica, mas também uma postura política e epistemológica comprometida com a ampliação da diversidade de perspectivas presentes na pesquisa científica.
A análise desta categoria demonstra que as narrativas autobiográficas constituem espaços privilegiados para a compreensão das relações entre neurodiversidade, identidade docente e inclusão. Ao narrar suas trajetórias, os sujeitos produzem conhecimentos sobre suas próprias experiências, questionam discursos normativos e constroem formas alternativas de compreender a docência e a diferença.
Por fim, os estudos analisados indicam que a valorização das narrativas autobiográficas contribui significativamente para o fortalecimento de perspectivas educacionais mais inclusivas e democráticas. Ao reconhecer os professores neurodivergentes como produtores legítimos de conhecimento sobre suas próprias trajetórias, amplia-se a compreensão da diversidade humana e fortalece-se o compromisso dos estudos da linguagem com a promoção da justiça social, do reconhecimento e da valorização das múltiplas formas de existir, aprender e ensinar.
5. SÍNTESE INTEGRATIVA DOS RESULTADOS E IMPLICAÇÕES PARA OS ESTUDOS DA LINGUAGEM
A presente revisão sistemática teve como objetivo analisar a produção científica recente sobre neurodiversidade, identidade docente e capacitismo, com foco nas experiências de professores com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). A análise dos estudos selecionados permitiu identificar quatro categorias analíticas centrais: (a) neurodiversidade e reconhecimento da diferença; (b) construção da identidade docente neurodivergente; (c) capacitismo institucional e barreiras profissionais; e (d) narrativas autobiográficas e produção de sentidos. Embora apresentadas separadamente para fins analíticos, essas categorias constituem dimensões interdependentes de um mesmo fenômeno social, educacional e discursivo.
A primeira categoria evidenciou a consolidação da neurodiversidade como importante paradigma contemporâneo para a compreensão das diferenças cognitivas. Os estudos analisados demonstram um movimento progressivo de superação das abordagens centradas exclusivamente no déficit, favorecendo perspectivas que reconhecem as diferenças neurológicas como expressões legítimas da diversidade humana. Essa transformação não representa apenas uma mudança conceitual, mas produz importantes implicações para a forma como sujeitos neurodivergentes são compreendidos nos espaços educacionais e profissionais.
Entretanto, a análise também revelou que o reconhecimento teórico da neurodiversidade nem sempre se traduz em transformações efetivas nas práticas institucionais. Essa constatação conduz diretamente à segunda e à terceira categorias identificadas na revisão. Embora a literatura venha ampliando o debate sobre diversidade cognitiva, professores com TEA e TDAH continuam enfrentando desafios relacionados ao reconhecimento profissional, à construção identitária e à permanência nos ambientes educacionais.
A categoria referente à identidade docente neurodivergente permitiu compreender que as experiências profissionais desses sujeitos não podem ser reduzidas a diagnósticos ou características individuais. A identidade docente emerge como uma construção discursiva, social e historicamente situada, produzida nas relações estabelecidas entre sujeitos, instituições e contextos culturais. As contribuições de Hall (2006), Bakhtin (2011), Ricoeur (1991), Orlandi (2015) e Fairclough (2001) demonstram que os processos identitários são continuamente negociados e reconstruídos por meio da linguagem.
Nesse sentido, a revisão evidencia que a experiência da neurodiversidade participa ativamente da constituição da identidade profissional dos docentes, influenciando formas de pertencimento institucional, reconhecimento social e produção de sentidos sobre a própria docência. Contudo, tais processos ocorrem em contextos frequentemente marcados por discursos normativos que estabelecem expectativas homogêneas sobre competência, produtividade e comportamento profissional.
Essa realidade torna-se particularmente visível na terceira categoria analítica. Os estudos analisados demonstram que o capacitismo institucional constitui um dos principais obstáculos à efetivação de ambientes educacionais verdadeiramente inclusivos. As barreiras enfrentadas pelos professores neurodivergentes não decorrem exclusivamente de características individuais, mas da interação entre sujeitos e estruturas organizacionais fundamentadas em padrões normativos de funcionamento cognitivo e social.
A análise permitiu identificar que práticas institucionais aparentemente neutras podem reproduzir mecanismos de exclusão ao privilegiar determinadas formas de comunicação, interação e desempenho profissional. Assim, o capacitismo não se manifesta apenas por meio de discriminações explícitas, mas também por processos sutis de invisibilização, deslegitimação e ausência de reconhecimento das singularidades cognitivas dos sujeitos.
A quarta categoria analítica contribuiu para aprofundar a compreensão dessas experiências ao destacar o papel das narrativas autobiográficas na produção de sentidos. Os estudos analisados indicam que as narrativas constituem espaços privilegiados para compreender como professores neurodivergentes interpretam suas trajetórias, elaboram experiências de inclusão e exclusão e constroem significados sobre sua atuação profissional.
Ao articular linguagem, memória e identidade, as narrativas permitem acessar dimensões subjetivas frequentemente ausentes em abordagens centradas exclusivamente em diagnósticos ou indicadores institucionais. Por meio da narrativa, os sujeitos não apenas relatam acontecimentos, mas produzem interpretações sobre suas experiências, ressignificam desafios e constroem formas de resistência diante das barreiras encontradas ao longo de suas trajetórias.
A integração dessas quatro categorias evidencia que a neurodiversidade, a identidade docente, o capacitismo e a produção narrativa não constituem fenômenos isolados. Ao contrário, formam um conjunto articulado de processos que influenciam diretamente as experiências profissionais dos docentes com TEA e TDAH. Compreender essas relações exige abordagens interdisciplinares capazes de integrar contribuições provenientes dos estudos da linguagem, da educação, da neurodiversidade e das teorias críticas da inclusão.
Do ponto de vista dos estudos da linguagem, a principal contribuição desta revisão consiste em demonstrar que a neurodiversidade não deve ser compreendida apenas como questão clínica ou educacional, mas também como fenômeno discursivo e identitário. Os resultados evidenciam que as experiências dos professores neurodivergentes são produzidas, interpretadas e significadas por meio da linguagem, tornando as abordagens narrativas e discursivas instrumentos fundamentais para sua compreensão.
Outra contribuição relevante refere-se à ampliação do campo de investigação sobre identidade docente. Embora os estudos sobre identidade profissional possuam longa tradição na Linguística Aplicada e na Educação, a revisão identificou significativa escassez de pesquisas dedicadas especificamente aos processos identitários de professores neurodivergentes. Essa lacuna evidencia a necessidade de ampliar agendas de pesquisa voltadas às relações entre diversidade cognitiva, discurso e profissão docente.
Além disso, a revisão destaca a importância de incorporar perspectivas críticas sobre capacitismo às investigações desenvolvidas no campo da linguagem. Os resultados sugerem que discursos institucionais sobre normalidade, produtividade e competência desempenham papel central na constituição das experiências profissionais dos sujeitos neurodivergentes. Assim, analisar tais discursos torna-se fundamental para compreender os mecanismos que produzem inclusão ou exclusão nos contextos educacionais.
Um aspecto particularmente relevante identificado ao longo da revisão refere-se à reduzida presença de estudos desenvolvidos em contextos amazônicos. Embora a literatura internacional venha ampliando progressivamente o debate sobre neurodiversidade, a realidade educacional da Amazônia permanece pouco representada na produção científica. Essa ausência evidencia importante lacuna epistemológica e reforça a necessidade de pesquisas comprometidas com a valorização de experiências produzidas em territórios historicamente marginalizados nos circuitos acadêmicos hegemônicos.
Nesse sentido, a presente revisão contribui para o fortalecimento de uma agenda científica que reconhece a Amazônia não apenas como espaço geográfico, mas como território produtor de conhecimento. A valorização das experiências de professores neurodivergentes inseridos nesse contexto amplia as possibilidades de compreensão da diversidade humana e fortalece perspectivas de pesquisa comprometidas com a pluralidade epistemológica e a justiça social.
Por fim, a síntese dos resultados permite concluir que a principal contribuição original desta revisão consiste em articular, de forma integrada, os debates sobre neurodiversidade, identidade docente, capacitismo institucional e narrativas autobiográficas. Embora essas temáticas venham sendo discutidas separadamente em diferentes campos do conhecimento, poucos estudos têm explorado suas interseções a partir das experiências de professores com TEA e TDAH.
Ao evidenciar essas conexões, a revisão amplia o diálogo entre os estudos da linguagem e os debates contemporâneos sobre inclusão, contribuindo para a construção de perspectivas teóricas mais sensíveis à diversidade humana. Dessa forma, reafirma-se o potencial dos estudos da linguagem para compreender não apenas os discursos produzidos sobre a diferença, mas também as formas pelas quais os próprios sujeitos constroem sentidos, identidades e possibilidades de existência em contextos educacionais marcados por desafios e transformações permanentes.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão sistemática teve como objetivo analisar a produção científica recente sobre neurodiversidade, identidade docente e capacitismo, com foco nas experiências de professores com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), considerando o período compreendido entre 2021 e 2026. A análise dos estudos selecionados permitiu identificar tendências, contribuições e lacunas que atravessam os debates contemporâneos sobre diversidade cognitiva, inclusão educacional e construção identitária.
Os resultados evidenciaram que a neurodiversidade vem se consolidando como importante paradigma para a compreensão das diferenças cognitivas, contribuindo para o deslocamento de perspectivas centradas na patologização para abordagens fundamentadas no reconhecimento da diversidade humana. Entretanto, a revisão demonstrou que esse avanço teórico ainda não se traduz integralmente em transformações institucionais capazes de garantir condições efetivas de reconhecimento e participação para docentes neurodivergentes.
A análise também permitiu compreender que a identidade docente de professores com TEA e TDAH é construída por meio de processos discursivos complexos, atravessados por experiências de pertencimento, exclusão, reconhecimento e resistência. Nesse contexto, a linguagem assume papel central na produção de sentidos sobre a docência, possibilitando que os sujeitos interpretem e ressignifiquem suas trajetórias profissionais diante das demandas e desafios presentes nos ambientes educacionais.
Outro resultado relevante refere-se à identificação do capacitismo institucional como um dos principais obstáculos à inclusão de professores neurodivergentes. A revisão evidenciou que as barreiras enfrentadas por esses profissionais não decorrem exclusivamente de suas características cognitivas, mas da interação entre sujeitos e estruturas organizacionais fundamentadas em padrões normativos de comportamento, comunicação e desempenho profissional. Tal constatação reforça a necessidade de ampliar os debates sobre inclusão para além das adaptações voltadas aos estudantes, incorporando também as experiências dos profissionais da educação.
As narrativas autobiográficas emergiram como importante instrumento para a compreensão dessas experiências. Ao valorizar a voz dos próprios sujeitos, as abordagens narrativas possibilitam acessar processos de construção identitária, produção de sentidos e elaboração das experiências vividas, ampliando a compreensão das relações entre linguagem, neurodiversidade e profissão docente.
Um dos aspectos mais significativos identificados ao longo da revisão refere-se à reduzida presença de estudos voltados aos contextos amazônicos. Embora a produção científica internacional tenha ampliado progressivamente as discussões sobre neurodiversidade, a realidade educacional da Amazônia permanece pouco representada na literatura especializada. Essa ausência evidencia uma importante lacuna epistemológica e reforça a necessidade de investigações comprometidas com a valorização das experiências produzidas em territórios historicamente periféricos nos circuitos acadêmicos nacionais e internacionais.
Nesse sentido, o presente estudo contribui para fortalecer uma agenda científica que reconhece os professores neurodivergentes como sujeitos legítimos de investigação e produção de conhecimento. Ao articular neurodiversidade, identidade docente, capacitismo institucional e narrativas autobiográficas, a revisão amplia o diálogo entre os estudos da linguagem e os debates contemporâneos sobre inclusão e diversidade.
Entretanto, algumas limitações devem ser reconhecidas. A revisão concentrou-se em um recorte temporal específico e em estudos disponíveis nas bases selecionadas, o que pode ter restringido o acesso a outras produções relevantes. Além disso, a literatura sobre professores neurodivergentes ainda constitui um campo emergente, resultando em número reduzido de investigações diretamente relacionadas ao objeto deste estudo.
Diante dessas limitações, recomenda-se que pesquisas futuras ampliem a investigação das experiências de docentes neurodivergentes por meio de estudos empíricos, especialmente aqueles fundamentados em entrevistas narrativas, histórias de vida e abordagens discursivas. Também se mostra necessária a realização de pesquisas voltadas aos contextos amazônicos, capazes de compreender como fatores territoriais, culturais e institucionais influenciam as experiências de professores com TEA e TDAH.
Por fim, conclui-se que compreender a docência neurodivergente exige reconhecer que a diversidade não está presente apenas entre os estudantes, mas também entre aqueles que ensinam. Valorizar as experiências desses profissionais representa um passo importante para a construção de sistemas educacionais mais inclusivos, democráticos e comprometidos com a justiça social, o reconhecimento da diferença e a valorização da pluralidade humana.
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