MULTILETRAMENTOS E EDUCAÇÃO EM CONTEXTOS DE TRANSFORMAÇÃO TECNOLÓGICA: PERSPECTIVAS CONTEMPORÂNEAS

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18510802


Fabrício Dias de Andrade1
Hélia Pinheiro Morais da Silva2
Ana Karla Cavalcante Ferreira3


RESUMO
As transformações tecnológicas e socioculturais das últimas décadas têm provocado mudanças significativas nas formas de produção, circulação e interpretação da linguagem, impactando diretamente os processos educativos. Nesse cenário, o conceito de multiletramentos emerge como um referencial teórico relevante para compreender as novas demandas impostas à educação contemporânea. O presente texto tem como objetivo analisar contribuições teóricas consolidadas sobre multiletramentos, destacando seus fundamentos, desdobramentos e implicações para as práticas pedagógicas, o uso das tecnologias digitais e a formação docente. A partir de uma análise da literatura da área, o estudo evidencia a superação de concepções tradicionais de letramento, centradas exclusivamente na escrita alfabética, em favor de uma compreensão ampliada da linguagem como prática social multimodal e culturalmente situada. Os autores discutidos apontam que a incorporação de múltiplas linguagens no contexto escolar exige planejamento pedagógico intencional, mediação crítica e revisão curricular. Ademais, a literatura indica que os multiletramentos estão intrinsecamente relacionados à formação de leitores e produtores de textos críticos, capazes de atuar de maneira reflexiva em ambientes digitais marcados pela intensificação dos fluxos informacionais. Destaca-se, ainda, o papel central da formação docente na efetivação dessa abordagem, considerando os desafios institucionais e as desigualdades de acesso às tecnologias. Conclui-se que os multiletramentos constituem uma perspectiva teórica consistente para repensar a educação em contextos de transformação tecnológica, contribuindo para a formação crítica dos sujeitos e para a ampliação das práticas de linguagem na escola.
Palavras-chave: Multiletramentos; Linguagem e educação; Tecnologias digitais.

ABSTRACT
The technological and sociocultural transformations of recent decades have brought about significant changes in the ways language is produced, circulated, and interpreted, directly impacting educational processes. In this context, the concept of multiliteracies emerges as a relevant theoretical framework for understanding the new demands placed on contemporary education. This paper aims to analyze consolidated theoretical contributions on multiliteracies, highlighting their foundations, developments, and implications for pedagogical practices, the use of digital technologies, and teacher education. Based on an analysis of the literature in the field, the study demonstrates a shift beyond traditional conceptions of literacy centered exclusively on alphabetic writing, toward an expanded understanding of language as a multimodal and culturally situated social practice. The authors discussed argue that the incorporation of multiple forms of language in the school context requires intentional pedagogical planning, critical mediation, and curricular revision. Moreover, the literature indicates that multiliteracies are intrinsically related to the education of critical readers and text producers, capable of acting reflexively in digital environments marked by the intensification of information flows. The central role of teacher education in the implementation of this approach is also emphasized, considering institutional challenges and inequalities in access to technologies. It is concluded that multiliteracies constitute a consistent theoretical perspective for rethinking education in contexts of technological transformation, contributing to the critical formation of subjects and to the expansion of language practices in schools.
Keywords: Multiliteracies; Language and education; Digital technologies.

1. INTRODUÇÃO

As transformações tecnológicas e socioculturais das últimas décadas têm provocado mudanças profundas nas práticas de linguagem, repercutindo de maneira direta e estrutural nos processos educativos. A expansão das tecnologias digitais, associada à globalização e à intensificação dos fluxos comunicacionais, tem redefinido as formas de produção, circulação e interpretação dos sentidos, exigindo competências ampliadas de leitura, escrita e análise crítica. Nesse contexto, os sujeitos passam a interagir cotidianamente com múltiplas linguagens, mídias e suportes, o que desafia modelos educacionais historicamente pautados na centralidade da escrita alfabética e na linearidade textual (Cope; Kalantzis, 2000; Gee, 2012).

Historicamente, o ensino da linguagem no contexto escolar esteve ancorado em concepções tradicionais de letramento, compreendido majoritariamente como domínio do código escrito. No entanto, pesquisas no campo da educação e da linguística aplicada indicam que tais modelos se mostram insuficientes para dar conta da diversidade cultural e dos modos de significação que emergem nos ambientes digitais e nas sociedades contemporâneas marcadas pela heterogeneidade social e cultural (Street, 1984; Lankshear; Knobel, 2006). Como argumenta Street (1984), o letramento deve ser entendido como prática social situada, atravessada por valores, relações de poder e contextos históricos específicos, e não apenas como uma habilidade técnica individual.

Nessa perspectiva, Gee (2012) reforça que a linguagem se constitui em práticas sociais complexas, mediadas por dimensões culturais, econômicas e institucionais, o que demanda abordagens pedagógicas mais flexíveis, inclusivas e sensíveis à diversidade dos contextos de uso da linguagem. Assim, torna-se necessário repensar as práticas educativas a partir de uma concepção ampliada de letramento, capaz de reconhecer os múltiplos modos semióticos que participam da construção de sentidos na contemporaneidade.

É nesse cenário que o conceito de multiletramentos, sistematizado pelo New London Group (1996) e difundido por Cope e Kalantzis (2000), apresenta-se como um referencial teórico central para a compreensão das novas demandas educacionais. A perspectiva dos multiletramentos propõe a ampliação do conceito de letramento ao considerar, de forma articulada, a multiplicidade cultural das populações e a multiplicidade semiótica dos textos, que integram linguagem verbal, imagens, sons, vídeos, gestos e recursos digitais na produção de significados complexos. Essa abordagem reconhece que os processos contemporâneos de leitura e escrita são, cada vez mais, multimodais, colaborativos e culturalmente situados (Lankshear; Knobel, 2006).

No contexto brasileiro, as contribuições de Rojo (2012) têm sido centrais para a consolidação e a disseminação da pedagogia dos multiletramentos no campo educacional. A autora compreende os multiletramentos como práticas sociais que exigem novas formas de leitura, escrita e análise crítica, capazes de lidar com textos hipermodais, colaborativos e híbridos, característicos dos ambientes digitais contemporâneos. Nessa abordagem, os processos de autoria e recepção deixam de ser estritamente individuais e lineares, passando a assumir um caráter coletivo, interativo e multimodal (Rojo, 2012).

A pedagogia dos multiletramentos, tal como defendida por Rojo (2012) em diálogo com o New London Group (1996), propõe a articulação entre práticas situadas, instrução aberta, enquadramento crítico e prática transformadora. Trata-se de uma perspectiva que não se limita à incorporação instrumental das tecnologias no cotidiano escolar, mas que pressupõe uma revisão curricular e pedagógica orientada pela valorização da diversidade cultural, pela crítica às relações de poder e pela formação de sujeitos capazes de atuar de maneira reflexiva em contextos sociais marcados pela intensificação dos fluxos informacionais.

Apesar das contribuições teóricas consolidadas, persistem desafios significativos relacionados à implementação dos multiletramentos na escola. Estudos indicam que a efetivação dessa abordagem depende da formação docente, do planejamento pedagógico intencional e das condições institucionais, incluindo o acesso desigual às tecnologias digitais e a existência de políticas educacionais que sustentem práticas inovadoras (Pérez-Escoda et al., 2020; Moran, 2015). Essas limitações evidenciam a distância ainda existente entre os avanços teóricos e as práticas pedagógicas efetivamente desenvolvidas nos contextos educacionais.

Diante desse cenário, o problema de pesquisa que orienta este estudo pode ser formulado da seguinte maneira: como a perspectiva dos multiletramentos pode contribuir para a reorganização das práticas pedagógicas e para a formação crítica de sujeitos em contextos educacionais atravessados por transformações tecnológicas? Tal problemática emerge da tensão entre as exigências comunicacionais contemporâneas e as práticas escolares ainda fortemente ancoradas em concepções restritas de letramento, apontando para a necessidade de novos referenciais teóricos e de aplicações pedagógicas socialmente contextualizadas.

A relevância desta pesquisa reside na possibilidade de aprofundar a compreensão teórica sobre os multiletramentos, analisar suas implicações pedagógicas e subsidiar a formação docente para o uso crítico e reflexivo das tecnologias digitais. Nesse sentido, o objetivo geral do artigo é analisar os fundamentos teóricos dos multiletramentos e suas contribuições para a educação em contextos de transformação tecnológica. Como objetivos específicos, busca-se: a) discutir a ampliação do conceito de letramento; b) examinar as relações entre multiletramentos e tecnologias digitais no contexto escolar; e c) refletir sobre os desafios e possibilidades da formação docente diante dessa abordagem.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

O estudo dos multiletramentos e suas implicações pedagógicas exige a compreensão das transformações sociais, culturais e tecnológicas que atravessam a linguagem e os processos educativos contemporâneos. A emergência de novas mídias digitais, associada à diversidade cultural e à globalização, demanda que a educação ultrapasse a visão restrita de letramento, centrada apenas na alfabetização tradicional, e considere a linguagem como prática social multimodal e situada. Nesse sentido, o referencial teórico mobilizado neste trabalho combina contribuições clássicas sobre letramento com perspectivas contemporâneas sobre multiletramentos, multimodalidade e educação digital, evidenciando lacunas e desafios ainda presentes na prática escolar.

2.1. Letramento, Linguagem e Multiletramentos

A abordagem dos multiletramentos fundamenta-se em concepções clássicas de letramento e educação que compreendem a linguagem como prática social. Brian Street (1984; 1995) introduz a distinção entre alfabetização e letramento, destacando que dominar a escrita não se restringe à decodificação de signos, mas envolve participação efetiva em práticas sociais culturalmente situadas. Para Street, a aprendizagem da linguagem está indissociavelmente ligada à experiência social e à inserção do sujeito em diferentes contextos culturais, o que constitui a base para a compreensão contemporânea de multiletramentos.

Paulo Freire (1996) complementa essa perspectiva ao enfatizar a dimensão política da linguagem e do letramento. Para o autor, a educação deve possibilitar que os sujeitos leiam criticamente o mundo, antes mesmo de interpretar palavras, promovendo processos de conscientização e autonomia intelectual. Essa abordagem evidencia que o ensino de leitura e escrita não pode se limitar à técnica, devendo considerar a capacidade de analisar, interpretar e intervir sobre a realidade social.

O conceito de multiletramentos (Cope; Kalantzis, 2000), amplia essas concepções, incorporando não apenas a diversidade cultural e linguística, mas também a multimodalidade das práticas comunicacionais contemporâneas. Os multiletramentos contemplam múltiplos modos de produção e interpretação de sentido, incluindo texto escrito, oralidade, imagem, som, vídeo, gestos e recursos digitais. Lankshear e Knobel (2006) reforçam que essa perspectiva surge em contextos de crescente digitalização, nos quais os sujeitos interagem simultaneamente com diferentes linguagens e mídias, exigindo competências comunicativas ampliadas e contextualizadas.

Estudos recentes, como os de Pérez-Escoda et al. (2020), indicam que a adoção dos multiletramentos permite a formação de sujeitos críticos e reflexivos, capazes de interpretar, produzir e ressignificar discursos em ambientes digitais complexos. No entanto, evidenciam-se lacunas significativas na implementação escolar, especialmente no que se refere à articulação entre teoria e prática, ao planejamento pedagógico e à formação docente, bem como às desigualdades de acesso às tecnologias. Gee (2012) destaca que a competência comunicativa em contextos multimodais e digitais exige do sujeito não apenas habilidades técnicas, mas também compreensão das relações sociais, políticas e culturais que permeiam os discursos.

2.2. Multiletramentos, Tecnologias Digitais e Práticas Pedagógicas

A incorporação dos multiletramentos no espaço escolar implica profundas mudanças nas práticas pedagógicas e na forma como professores e alunos interagem com linguagens e tecnologias. Moran (2015) observa que a mediação docente é central para a efetivação dos multiletramentos, sendo o professor responsável por problematizar os conteúdos, organizar experiências multimodais e estimular a reflexão crítica. Assim, a tecnologia não deve ser apenas ferramenta, mas recurso mediador que potencializa a construção de significados e a participação ativa dos alunos.

Diversas pesquisas apontam que práticas pedagógicas multimodais — como produção de infográficos, vídeos, podcasts, narrativas digitais e textos interativos — promovem o engajamento, a criatividade e a capacidade crítica dos estudantes (Lankshear; Knobel, 2006; Pérez-Escoda et al., 2020). Tais atividades permitem que os alunos articulem diferentes linguagens e representações, experimentem múltiplas formas de expressão e desenvolvam habilidades cognitivas complexas, alinhadas às demandas do século XXI.

Entretanto, a literatura evidencia desafios significativos na implementação dessa abordagem. Entre eles, destacam-se a insuficiente formação docente para lidar com práticas multimodais, a limitação de recursos tecnológicos em muitas instituições, bem como a necessidade de políticas educacionais que sustentem propostas pedagógicas inovadoras (Moran, 2015; Pérez-Escoda et al., 2020). Nesse sentido, a pesquisa sobre multiletramentos permanece relevante, pois permite compreender como essas práticas podem ser articuladas de forma efetiva, considerando o contexto específico de cada escola e as desigualdades sociais que influenciam o acesso às tecnologias.

Ao analisar o estado da arte, observa-se que os multiletramentos não apenas ampliam a concepção de linguagem na escola, mas também fornecem subsídios para repensar a educação de forma crítica, situando os alunos como participantes ativos na construção do conhecimento. A fundamentação teórica apresentada evidencia que, embora haja avanços significativos, o tema ainda exige estudos mais aprofundados, que articulem teoria, prática e políticas educacionais, visando o fortalecimento de uma educação digital crítica, inclusiva e reflexiva.

2.3. Multiletramentos e Práticas Pedagógicas em Ambientes Digitais

A consolidação dos multiletramentos como perspectiva teórica para a educação contemporânea implica repensar o papel da escola, do professor e das tecnologias digitais no processo de ensino-aprendizagem. A literatura evidencia que a simples presença de recursos tecnológicos no espaço escolar não garante aprendizagem significativa; é necessário que esses instrumentos sejam articulados a práticas pedagógicas intencionais, mediadas pelo professor e orientadas para a formação crítica dos sujeitos (Moran, 2015; Lankshear; Knobel, 2006).

Nesse contexto, os multiletramentos possibilitam a integração de múltiplas linguagens e modos de representação, promovendo experiências de aprendizagem multimodais. Cope e Kalantzis (2000) destacam que as práticas pedagógicas devem contemplar não apenas a leitura e a escrita alfabética, mas também imagens, sons, gestos, vídeos, hipertextos e outras formas de comunicação digital, reconhecendo a diversidade cultural e social dos estudantes. Essa abordagem contribui para o desenvolvimento de competências cognitivas complexas, como análise crítica, criatividade, colaboração e interpretação reflexiva dos discursos.

A incorporação de práticas multimodais no ensino envolve, ainda, a problematização dos conteúdos e das mídias utilizadas. James Paul Gee (2012) argumenta que a competência comunicativa em ambientes digitais depende da capacidade de reconhecer padrões, relações de poder e significados implícitos nos discursos. Nesse sentido, o professor atua como mediador da aprendizagem, orientando os alunos na interpretação crítica de informações, no planejamento de produções multimodais e na reflexão sobre o impacto social e cultural de suas práticas comunicativas.

Estudos recentes confirmam a relevância dessa abordagem para a formação de leitores e produtores críticos. Pérez-Escoda et al. (2020) observam que atividades como a produção de vídeos, podcasts, infográficos, narrativas digitais e textos interativos permitem aos alunos experimentar múltiplas formas de expressão, articular diferentes linguagens e desenvolver habilidades de comunicação e raciocínio crítico em contextos digitais. Além disso, práticas colaborativas em plataformas digitais fortalecem a aprendizagem social e a troca de saberes, promovendo maior engajamento e autonomia dos estudantes (Lankshear; Knobel, 2006; Moran, 2015).

Apesar dos avanços teóricos e das experiências pedagógicas bem-sucedidas, a implementação efetiva dos multiletramentos enfrenta desafios estruturais e institucionais significativos. A literatura evidencia que a desigualdade de acesso às tecnologias, a escassez de formação docente específica e a rigidez curricular limitam a aplicação de práticas multimodais em larga escala (Pérez-Escoda et al., 2020; Moran, 2015). Esse cenário evidencia a necessidade de políticas educacionais que considerem a infraestrutura tecnológica, a capacitação contínua de professores e a flexibilização curricular como condições essenciais para a promoção de uma educação digital crítica e inclusiva.

Nesse sentido, a perspectiva dos multiletramentos não se restringe à inovação tecnológica, mas implica uma revisão das concepções de ensino, aprendizagem e avaliação. Freire (1996) e Street (1984) ressaltam que a linguagem é mediadora da participação social e da construção de conhecimento; portanto, ao articular multimodalidade, diversidade cultural e uso crítico das tecnologias digitais, a escola pode formar sujeitos capazes de interpretar, produzir e ressignificar discursos de maneira autônoma e reflexiva.

Dessa forma, observa-se que os multiletramentos fornecem subsídios teóricos e metodológicos para repensar práticas pedagógicas em ambientes digitais, contribuindo para a formação de cidadãos críticos e participativos, capazes de atuar de forma consciente em sociedades marcadas pela complexidade comunicacional e pela intensificação das mídias digitais. O desafio consiste em integrar teoria e prática de maneira coerente, articulando conhecimento, mediação docente, tecnologias e contextos socioculturais específicos, de modo que a educação efetivamente responda às demandas contemporâneas.

3. METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como revisão bibliográfica de caráter exploratório, com abordagem qualitativa, voltada à análise teórica do conceito de multiletramentos e suas implicações pedagógicas em contextos de transformação tecnológica. Optou-se por essa metodologia por possibilitar a sistematização do conhecimento existente, a identificação de lacunas na literatura e a fundamentação de discussões sobre práticas pedagógicas e formação docente.

As fontes selecionadas incluíram livros e artigos científicos, priorizando obras de referência clássica, como Street (1984, 1995), Freire (1996), Cope e Kalantzis (2000), bem como publicações contemporâneas sobre multiletramentos, multimodalidade e tecnologias digitais, como Lankshear e Knobel (2006), Moran (2015) e Pérez-Escoda et al. (2020). A seleção das publicações considerou relevância temática, consistência teórica e atualidade, garantindo a confiabilidade das fontes.

O procedimento adotado consistiu na leitura crítica e fichamento das obras selecionadas, com registro das contribuições teóricas, conceitos centrais e implicações pedagógicas. Em seguida, realizou-se análise de conteúdo temática, permitindo organizar as informações em categorias relacionadas a multiletramentos, práticas pedagógicas e uso de tecnologias digitais, a fim de compreender convergências, divergências e lacunas na literatura.

Por se tratar de pesquisa bibliográfica, não houve coleta de dados com sujeitos humanos, e todas as fontes foram devidamente referenciadas, atendendo aos princípios éticos da pesquisa acadêmica.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise da literatura permite organizar as principais contribuições sobre multiletramentos e suas implicações pedagógicas em contextos mediados por tecnologias digitais. A discussão foi estruturada em três subtópicos, articulando conceituação, práticas pedagógicas e desafios, evidenciando convergências, limitações e lacunas na área.

4.1. Contribuições Conceituais e Práticas dos Multiletramentos

A fundamentação conceitual dos multiletramentos assenta-se na reconceptualização do letramento enquanto prática social situada. Street (1984, 1995) e Freire (1996) oferecem matriz teórica que desloca o foco da mera decodificação de signos para a participação em práticas sociais significativas; essa mudança de ênfase permite compreender por que os modos multimodais de produção de sentido adquirem relevância na contemporaneidade. A perspectiva consolidada por Cope e Kalantzis (2000), amplia esse quadro ao integrar a noção de design semiótico, o que possibilita analisar como diferentes modos — imagem, som, movimento, texto e interatividade — se articulam para produzir significados complexos.

A literatura empírica, por sua vez, tem demonstrado que práticas pedagógicas orientadas pelos multiletramentos favorecem capacidades cognitivas e socioafetivas específicas. Pesquisas que investigam projetos de produção multimodal apontam ganhos na habilidade de argumentação, na competência colaborativa e na autonomia dos estudantes ao criarem e revisarem produtos comunicacionais (Lankshear & Knobel, 2006; Pérez-Escoda et al., 2020). Essas investigações também evidenciam que, quando o trabalho pedagógico é organizado em sequências didáticas que problematizam contextos reais, os alunos desenvolvem maior consciência crítica sobre as implicações sociais das plataformas e dos gêneros digitais utilizados.

No plano metodológico, as contribuições teóricas e práticas convergem para a recomendação de práticas integradas que combinem análise crítica de gêneros digitais, produção orientada e avaliação formativa contínua. Moran (2015) ressalta que a mediação docente deve articular objetivos comunicacionais, seleção de ferramentas e critérios de avaliação que valorizem processos de revisão e reflexão. Em complemento, Gee (2012) enfatiza a necessidade de trabalhar com o reconhecimento de ecologias discursivas, permitindo que os estudantes identifiquem as intencionalidades e as relações de poder presentes nos textos multimodais. Dessa maneira, os multiletramentos não se configuram como um conjunto de técnicas instrumentais, mas como um projeto educativo aproximador entre linguagem, cultura e cidadania.

4.2. Desafios de Implementação e Limitações Institucionais

A análise das publicações consultadas revela que as propostas teóricas acerca dos multiletramentos colidem com restrições operacionais no cotidiano escolar. A formação inicial e continuada de professores aparece como ponto crítico; estudos apontam que grande parte dos cursos de licenciatura não oferece itinerários formativos consistentes para o desenvolvimento de competências multimodais, o que reduz a capacidade dos docentes de planejar e mediar atividades tecnológicas de caráter crítico (Pérez-Escoda et al., 2020; Moran, 2015). Essa lacuna formativa atravessa tanto conhecimentos técnicos quanto saberes pedagógicos relacionados à avaliação de produções multimodais.

As condições materiais e organizacionais das instituições educacionais agravam tais dificuldades. Infraestrutura inadequada, baixa disponibilidade de dispositivos e conectividade intermitente são fatores que restringem a implementação sistemática de práticas articuladas aos multiletramentos. Ao mesmo tempo, a heterogeneidade socioeconômica entre estudantes cria situações em que iniciativas pedagógicas bem concebidas podem gerar discrepâncias de participação, caso não sejam acompanhadas por políticas de inclusão tecnológica e suporte institucional. Em consequência, reforça-se que a incorporação dos multiletramentos exige intervenção conjunta em níveis pedagógico, administrativo e político.

Outra limitação apontada refere-se ao arcabouço metodológico predominante na área. A maioria dos estudos concentra-se em investigações qualitativas, relatos de experiência e análises de pequeno escopo, o que, por um lado, fornece densidade interpretativa e compreensão contextualizada; por outro lado, impede a construção de evidências generalizáveis sobre impacto educacional em maior escala. Esta fragmentação metodológica coloca em evidência a necessidade de projetos de pesquisa que combinem desenho experimental com análises qualitativas aprofundadas, permitindo assim avaliar efeitos de intervenções em diferentes contextos e com variados perfis sociais.

As convergências e tensões identificadas ao longo da análise permitem delinear implicações pedagógicas relevantes para a consolidação dos multiletramentos no contexto educacional. Nesse sentido, destaca-se a necessidade de conceber sequências didáticas multimodais intencionalmente estruturadas, que articulem momentos de problematização contextual, orientação técnica e semiótica, produção colaborativa e avaliação formativa de caráter reflexivo. Esse tipo de organização pedagógica favorece o engajamento dos estudantes em práticas de leitura crítica de gêneros digitais e os coloca em posição ativa como produtores de sentidos, contribuindo para aprendizagens significativas e para o exercício da cidadania comunicativa.

No que se refere à atuação docente, torna-se fundamental reorientar os processos de formação inicial e continuada de modo a integrar fundamentos teórico-críticos e experiências práticas com o uso de tecnologias digitais. A articulação entre reflexão conceitual e práticas laboratoriais possibilita o desenvolvimento simultâneo de competências técnicas e de discernimento pedagógico, ampliando a capacidade dos professores de planejar, implementar e avaliar propostas alinhadas aos princípios dos multiletramentos. Espaços de aprendizagem profissional colaborativa e programas de formação continuada mostram-se estratégicos ao favorecer a troca de saberes, a experimentação de práticas inovadoras e o ajuste das intervenções pedagógicas às especificidades dos contextos educacionais.

Do ponto de vista das políticas educacionais, a efetivação dos multiletramentos demanda investimentos consistentes em infraestrutura, ampliação do acesso a dispositivos digitais e implementação de estratégias de suporte técnico e pedagógico. Tais medidas são essenciais para evitar que iniciativas voltadas à inovação pedagógica contribuam para o aprofundamento das desigualdades educacionais já existentes. Paralelamente, a agenda de pesquisas futuras precisa avançar na investigação dos impactos de tecnologias emergentes, como os recursos de inteligência artificial, sobre os processos de leitura, escrita e produção multimodal, considerando de forma crítica as implicações éticas, pedagógicas e relacionadas à proteção de dados e à privacidade.

Por fim, compreende-se que os multiletramentos apresentam um significativo potencial transformador para a educação contemporânea, desde que articulados a políticas públicas consistentes, a processos de formação docente robustos e a pesquisas que integrem evidências empíricas e reflexão teórica. A consolidação dessas condições pode contribuir para que a escola fortaleça seu papel formativo em uma sociedade marcada pela complexidade comunicacional, possibilitando que os sujeitos desenvolvam pensamento crítico e participação consciente nos contextos sociais e digitais nos quais estão inseridos.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da análise realizada, conclui-se que o conceito de multiletramentos constitui um referencial teórico sólido para compreender e orientar práticas educativas em contextos marcados por transformações tecnológicas e sociais. A investigação evidenciou que a perspectiva de multiletramentos ultrapassa o enfoque tradicional centrado na escrita alfabética, promovendo a integração de múltiplas linguagens e modos de representação de sentido, o que contribui para a formação de sujeitos críticos, reflexivos e aptos a atuar de maneira autônoma em ambientes multimodais.

Os objetivos propostos foram atingidos, uma vez que a revisão da literatura possibilitou mapear os fundamentos teóricos do tema, identificar suas implicações pedagógicas e destacar os desafios relacionados à formação docente e à infraestrutura escolar. Observou-se que a implementação efetiva de práticas de multiletramentos depende da articulação entre planejamento pedagógico intencional, mediação docente qualificada e condições institucionais que assegurem acesso, recursos e suporte tecnológico. Essa articulação revela a importância de compreender a educação como um processo culturalmente situado, no qual a linguagem assume múltiplas formas e funções.

Apesar das contribuições evidenciadas, o estudo apresenta limitações decorrentes da própria natureza da pesquisa bibliográfica, que não envolve coleta de dados empíricos diretamente em contextos escolares. Tal limitação impede avaliar o impacto real das práticas de multiletramentos sobre a aprendizagem dos estudantes, bem como a efetividade de estratégias específicas de mediação docente. Futuros estudos poderiam combinar revisão teórica com investigação de campo, incluindo observação de práticas pedagógicas, entrevistas com docentes e análise de produções estudantis, permitindo aprofundar a compreensão das potencialidades e barreiras na aplicação prática dos multiletramentos.

As contribuições teóricas do trabalho incluem a articulação entre fundamentos clássicos e abordagens contemporâneas, evidenciando a continuidade e expansão do conceito de letramento em ambientes digitais. Do ponto de vista prático, o estudo fornece subsídios para a elaboração de políticas educacionais e estratégias de formação docente que considerem a integração de múltiplas linguagens, promovendo práticas pedagógicas reflexivas, inclusivas e adaptadas às demandas contemporâneas.

Em síntese, a perspectiva dos multiletramentos consolida-se como instrumento relevante para repensar a educação, destacando a centralidade da linguagem, da mediação docente e da inclusão tecnológica, oferecendo caminhos promissores para o desenvolvimento de competências críticas, criativas e colaborativas em contextos educacionais diversos.

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1 Doutor em Linguística Aplicada - UNISINOS. E-mail: [email protected]

2 Mestra em Letras pela Universidade Federal de Alagoas -UFAL. Doutoranda do Programa de Pós Graduação de Letras e Linguística da Universidade Federal de Alagoas. Professora de Língua Portuguesa da rede estadual de Alagoas. E-mail: [email protected]

3 Mestra em educação. Doutoranda em linguística (UPF). Linha de estudo: análise do discurso, metodologia ativa e novas tecnologias ao ensino. E-mail: [email protected]