REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/785276353
RESUMO
O objetivo é analisar as estratégias de adaptação implementadas por quatro dos maiores produtores mundiais de leite: Brasil, Índia e Estados Unidos, utilizando abordagem qualitativa e comparativa para identificar políticas e ações relevantes. Os resultados mostram que o Brasil, marcado por propriedades de menor escala, apresenta avanços em políticas indiretas ligadas à assistência técnica, crédito e qualidade, mas carece de diretrizes climáticas específicas. A Índia destaca-se pela integração entre produtividade e sustentabilidade, com foco em genética, biodigestores e uso de resíduos. Os Estados Unidos adotam um modelo consolidado, apoiado em inovação tecnológica e metas de mitigação. Já a China combina modernização tecnológica, incentivos ambientais e reciclagem de resíduos, com vínculos diretos e indiretos à agenda climática. Conclui-se que experiências internacionais oferecem subsídios para fortalecer a resiliência climática da cadeia leiteira brasileira.
Palavras-chave: Mudanças Climáticas; Produção Leiteira; Sustentabilidade; Políticas Públicas; Estratégias.
ABSTRACT
The objective is to analyze the adaptation strategies implemented by four of the world's largest milk producers: Brazil, India and the United States, using a qualitative and comparative approach to identify relevant policies and actions. The results show that Brazil, marked by smaller-scale properties, presents advances in indirect policies linked to technical assistance, credit and quality, but lacks specific climate guidelines. India stands out for its integration between productivity and sustainability, with a focus on genetics, biodigesters and the use of waste. The United States adopts a consolidated model, supported by technological innovation and mitigation targets. China combines technological modernization, environmental incentives and waste recycling, with direct and indirect links to the climate agenda. It is concluded that international experiences offer subsidies to strengthen the climate resilience of the Brazilian dairy chain.
Keywords: Climate Change; Dairy Production; Sustainability; Public Policies; Strategies.
1. INTRODUÇÃO
As mudanças climáticas referem-se a alterações no clima que podem ser atribuídas, direta ou indiretamente, às atividades humanas que modificam a composição da atmosfera global, somando-se à variabilidade climática natural observada ao longo de períodos comparáveis. Essas mudanças podem resultar de dinâmicas internas do sistema climático, das interações entre seus componentes, de influências externas de origem natural (Blank, 2015). Nesse sentido elas representam uma das maiores ameaças ambientais, econômicas e sociais do século XXI, com efeitos cada vez mais visíveis em todo o planeta. A intensificação de eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e instabilidade das estações, compromete significativamente os sistemas agropecuários, especialmente aqueles mais sensíveis à variabilidade ambiental (Menezes et al., 2023). No Brasil, esse cenário tem sido particularmente desafiador para o setor leiteiro, cuja produção depende fortemente da estabilidade climática para garantir o bem-estar dos animais e a disponibilidade de água e pastagens.
Congruente a isso, estudos indicam que variações extremas de temperatura, estiagens prolongadas e eventos climáticos intensos têm impacto direto sobre o desempenho reprodutivo e produtivo dos rebanhos, além de comprometer práticas tradicionais ligadas à produção artesanal de leite e derivados. A necessidade de estratégias de adaptação torna-se urgente para preservar a viabilidade econômica e cultural dessas atividades no país (Machado et al., 2024). Adicionalmente, estudos realizados em mesorregiões produtoras de leite em Pernambuco demonstram que o aumento do estresse térmico, tem causado redução significativa no consumo alimentar e na produção de leite, especialmente entre vacas de alta produtividade. O impacto é ainda mais acentuado em regiões que já enfrentam calor extremo, como o sertão e o litoral do estado, evidenciando a urgência de ações voltadas à adaptação do sistema produtivo às novas condições climáticas (Silva, 2009).
Nesse contexto, os impactos já observados em eventos recentes, como as enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, evidenciam a profunda vulnerabilidade da produção leiteira e do turismo gastronômico frente às alterações climáticas, afetando desde a produtividade animal até a comercialização de produtos tradicionais como o queijo colonial. A perda de rebanhos, destruição de pastagens, queda na qualidade do leite e cancelamento de eventos culturais reforçam a urgência de políticas públicas voltadas à adaptação, recuperação de infraestrutura e valorização das práticas produtivas e identitárias regionais (Machado et al., 2024).
Diante do exposto, torna-se essencial compreender quais medidas estão sendo adotadas pela legislação brasileira para mitigar os impactos das mudanças climáticas sobre a produção leiteira. Para ampliar essa análise, foi realizada uma comparação com os cinco maiores países produtores de leite do mundo, com o presente estudo tem como objetivo analisar as estratégias de adaptação implementadas por quatro dos maiores produtores mundiais de leite: Brasil, Índia e Estados Unidos. Essa abordagem permite avaliar o grau de alinhamento do Brasil com as políticas globais de adaptação e mitigação, bem como apontar possíveis caminhos para o fortalecimento da resiliência da pecuária leiteira nacional.
Além disso, os resultados deste estudo podem oferecer implicações práticas relevantes para gestores públicos, produtores rurais e formuladores de políticas, ao fornecer subsídios para decisões mais embasadas sobre investimentos em estratégias de adaptação e inovação tecnológica no setor leiteiro. Tais decisões são fundamentais para promover a resiliência da cadeia produtiva diante das mudanças climáticas, contribuindo não apenas para a sustentabilidade ambiental, mas também para o fortalecimento da economia e a geração de empregos no campo. Para atingir esse objetivo, o trabalho foi estruturado em quatro seções: referencial teórico, metodologia, análise comparativa das estratégias adotadas pelos principais países produtores de leite, e considerações finais, com destaque para as contribuições do estudo, suas implicações e sugestões para pesquisas futuras.
2. METODOLOGIA
Este estudo adota uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e comparativo, com o objetivo de analisar as estratégias de adaptação implementadas pelos quatro maiores produtores mundiais de leite: Brasil, Índia e Estados Unidos. Além disso, busca-se avaliar o grau de alinhamento do Brasil em relação a essas políticas e indicar possíveis caminhos para o fortalecimento da resiliência climática do setor.
A coleta de dados foi realizada por meio de pesquisa documental, com recorte temporal entre os meses de abril e junho de 2025. Foram analisadas fontes secundárias, como relatórios técnicos, publicações institucionais, artigos científicos e documentos de organizações internacionais, especialmente da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).
Os países selecionados para análise comparativa foram os maiores produtores de leite do mundo segundo dados da FAO: Índia, Estados Unidos e China. A escolha desses países permitiu a identificação de diferentes estratégias de adaptação e mitigação climática em contextos produtivos, econômicos e ambientais distintos, favorecendo uma análise mais abrangente e representativa.
Conforme orientam Marconi e Lakatos (2022), a pesquisa qualitativa requer a definição clara dos objetivos, a seleção criteriosa das informações relevantes, a delimitação do campo de investigação e, quando necessário, a formulação de hipóteses explicativas para os fenômenos observados.
A análise dos dados foi conduzida com base na técnica de análise de conteúdo, seguindo os procedimentos metodológicos propostos por Bardin (2011). Essa abordagem permitiu a categorização das informações, facilitando a identificação de padrões, práticas recorrentes e possíveis lacunas no enfrentamento dos desafios climáticos na pecuária leiteira, tanto em nível internacional quanto no contexto brasileiro.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
3.1. Contexto das Mudanças Climáticas na Cadeia Produtiva do Leite
A cadeia produtiva do leite é considerada uma das mais complexas e importantes dentro do agronegócio brasileiro, tanto pela sua estrutura diversificada quanto pela sua capilaridade territorial. Ela envolve diversas etapas, desde a produção primária nas propriedades rurais até o processamento industrial e a distribuição dos derivados lácteos.
Segundo Pedra, Pigatto e Santini (2008), o Brasil se destaca como um dos maiores produtores mundiais de leite, tendo evoluído de importador para exportador de produtos lácteos a partir de 2004. Essa transformação foi impulsionada por melhorias tecnológicas e pela maior articulação entre os elos da cadeia, especialmente no setor de processamento.
A competitividade da cadeia produtiva está diretamente ligada à adoção de tecnologias, à gestão eficiente nas propriedades e ao fortalecimento das cooperativas. Contudo, a estrutura de mercado em determinadas regiões ainda apresenta fragilidades. No Rio Grande do Sul, por exemplo, observou-se uma mudança de monopsonismo para maior concorrência entre processadoras, o que alterou os padrões de governança e aumentou os custos de transação entre produtores e laticínios (Breitenbach, 2008).
No contexto da agricultura familiar, a atividade leiteira enfrenta diversos desafios. No Pará, por exemplo, a cadeia é marcada por incertezas logísticas, pouca confiança nos laticínios e baixo investimento dos produtores, o que compromete a sustentabilidade da atividade (Carvalho, Tourrand; Poccard-Chapuis, 2012).
Apesar das dificuldades, estudos recentes apontam uma certa resiliência da pecuária leiteira. Durante a pandemia de COVID-19, o setor conseguiu manter níveis estáveis de produção e valor econômico, demonstrando sua capacidade de adaptação mesmo diante de crises externas (Pizzio et al., 2023). A reestruturação produtiva do agronegócio tem causado impactos significativos na sustentabilidade dos pequenos módulos rurais, especialmente na cadeia produtiva do leite. A imposição de normativas sanitárias e técnicas, muitas vezes inatingíveis para os pequenos produtores, os torna vulneráveis à perda de autonomia e à exclusão do mercado formal. Nesse contexto, o cooperativismo rural surge como alternativa viável de resistência, organização e fortalecimento social e econômico, conforme demonstrado em estudo sobre a cadeia leiteira de São Francisco do Brejão, onde foram identificados elementos de cooperação e potencial para o resgate de práticas organizacionais coletivas capazes de enfrentar o avanço da concentração do setor (Sousa; Leher, 2021).
3.2. Políticas Públicas para o Leite nos Principais Países Produtores: Brasil, Índia e Estados Unidos e China
A cadeia produtiva do leite e derivados representa um setor de expressiva importância econômica e social para o Brasil. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o Brasil ocupa a terceira posição entre os maiores produtores de leite do mundo, com mais de 34 bilhões de litros anuais, produção presente em 98% dos municípios brasileiros e predominância de pequenas e médias propriedades. Estima-se que o setor empregue cerca de 4 milhões de pessoas. O país conta com mais de 1 milhão de propriedades produtoras e, conforme as projeções da Secretaria de Política Agrícola, para 2030, permanecerão no setor os produtores mais eficientes, adaptados à adoção de tecnologias, melhorias na gestão e ganhos de eficiência técnica e econômica (BRASIL, 2025).
A Índia é atualmente o maior produtor mundial de leite, respondendo por aproximadamente 22% da produção global, seguida pelos Estados Unidos, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, 2024).
O debate sobre a intersecção entre políticas agropecuárias e mudanças climáticas tem se intensificado nos últimos anos, especialmente com a ampliação dos compromissos internacionais assumidos no âmbito do Acordo de Paris. Os setores da agricultura e da pecuária historicamente associados à emissão de gases de efeito estufa (GEE), têm buscado formas de mitigar seus impactos ambientais sem comprometer a segurança alimentar e o desenvolvimento rural (IPCC, 2022).
Nesse contexto, os governos de Brasil, China, Índia e Estados Unidos vêm adotando diferentes políticas públicas voltadas à produção leiteira, muitas das quais apresentam algum grau de relação com a agenda climática. Essas relações podem se manifestar de forma direta, quando há metas explícitas de mitigação ou adaptação, ou indireta por meio da promoção de práticas que, embora não tenham o clima como foco central, contribuem para a sustentabilidade do sistema produtivo (MAPA, 2023; USDA, 2023; NDDB, 2022).
O Brasil, por exemplo, vem incorporando gradualmente aspectos climáticos em seus programas voltados à agricultura familiar, à qualidade do leite e à recuperação de pastagens. A Índia, por sua vez, tem ampliado o foco em tecnologias de baixo custo e na valorização de sistemas produtivos adaptados às condições locais. Já os Estados Unidos têm investido fortemente em inovação tecnológica, eficiência energética e créditos de carbono, dentro de uma lógica de mercado e regulação ambiental mais robusta.
A diversidade de instrumentos adotados reflete não apenas as prioridades internas de cada país, mas também as formas pelas quais as políticas públicas vêm respondendo aos desafios globais do clima e da sustentabilidade. Enquanto alguns programas têm como objetivo central a redução das emissões de GEE ou a adaptação dos sistemas produtivos aos eventos extremos, outros atuam de maneira indireta ao promover melhorias na gestão, na infraestrutura ou na assistência técnica ao produtor (OECD, 2023).
Nesse sentido, torna-se pertinente sistematizar e comparar as principais políticas públicas voltadas ao setor leiteiro implementadas no Brasil, na Índia e nos Estados Unidos, de forma a compreender suas características centrais, seus objetivos e o grau de conexão com a agenda climática. Essa análise permite identificar sinergias, lacunas e boas práticas que podem ser adaptadas e replicadas em diferentes contextos nacionais.
A seguir, são apresentadas quatro tabelas que sintetizam o conjunto de políticas públicas adotadas pelos países em relação ao setor leiteiro. As tabelas foram organizadas com base em informações oficiais e fontes secundárias, e incluem dados como o ano de criação dos programas, os órgãos responsáveis, os objetivos principais e a natureza da relação com as mudanças climáticas (direta ou indireta).
A distinção entre políticas com relação direta e indireta às mudanças climáticas permite compreender melhor os graus de comprometimento institucional com a sustentabilidade climática. Com base nessa categorização, será possível, nos próximos tópicos, aprofundar a análise sobre o papel dessas políticas na promoção de práticas sustentáveis, na mitigação das emissões de GEE e na adaptação do setor leiteiro aos novos padrões climáticos.
Tabela 1. Políticas públicas para o setor leiteiro no Brasil e sua relação com as mudanças climáticas
Política Pública | Ano de Criação | Órgão Responsável | Objetivo Principal | Relação com Mudanças Climáticas |
Programa Nacional de Apoio à Pecuária Leiteira | 2023 | MAPA | Garantir remuneração justa, apoiar custos e estabilizar preços regionais do leite | Indiretamente relacionada, ao incentivar gestão eficiente e sustentável |
Programa Mais Leite Saudável (PMLS) | 2015 | MAPA | Conceder incentivos fiscais a laticínios que capacitam produtores e melhoram a produção | Possível contribuição via capacitação técnica e boas práticas |
Decreto nº 11.732/2023 | 2023 | MAPA e Receita Federal | Regulamenta incentivos fiscais ao leite e combate importações prejudiciais | Conexão indireta por proteger mercado nacional e estimular produção local |
Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) – Leite | 2022 | MAPA / MDS | Comprar leite da agricultura familiar para programas sociais | Apoia sistemas produtivos locais mais resilientes |
Programa Nacional de Qualidade do Leite (PNQL) | 2017 | MAPA | Garantir padrões de qualidade e segurança do leite | Indiretamente relacionada, ao qualificar sistemas produtivos sustentáveis |
Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) | 2009 | MMA, MAPA | Estabelecer metas de redução de emissões de GEE em vários setores, incluindo agropecuária | Política central para mitigação/adaptação no agro |
Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono) | 2010 | MAPA | Incentivar tecnologias sustentáveis como iLPF, recuperação de pastagens, manejo de dejetos | Direta: redução de GEE na agropecuária e adaptação climática |
Plano ABC+ | 2020 | MAPA | Reforça o ABC até 2030 com novos eixos de sustentabilidade | Direta: incorpora medidas adaptativas e mitigadoras para sistemas leiteiros |
Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima (PNA) | 2016 | MMA, MAPA | Apoiar setores vulneráveis (como a agropecuária) na adaptação climática | Direta: define diretrizes e medidas para enfrentar impactos das mudanças |
Coletânea de Fatores de Emissão da Agropecuária (MAPA) | 2024 (atualizado) | MAPA | Fornecer base técnica para inventário de emissões e apoio à gestão de carbono no campo | Direta: ferramenta de apoio à mitigação e monitoramento |
Fonte: Elaborado pelos autores com base em dados do MAPA (2023), MMA (2023) e legislações correlatas (Decretos nº 8.533/2015 e nº 11.732/2023, Lei nº 12.187/2009).
A análise das políticas públicas brasileiras voltadas ao setor leiteiro, conforme apresentado na Tabela 1, evidencia um conjunto de iniciativas que, embora nem sempre tenham como foco principal as mudanças climáticas, contribuem de maneira direta ou indireta para o enfrentamento desse desafio no contexto da pecuária leiteira. Entre os programas com impacto mais direto, destacam-se o Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono), criado em 2010, e sua versão atualizada, o Plano ABC+, lançado em 2020. Ambos incentivam o uso de tecnologias sustentáveis, como a integração lavoura-pecuária-floresta (iLPF), a recuperação de pastagens degradadas e o manejo adequado de dejetos, promovendo a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e a adaptação dos sistemas produtivos aos impactos climáticos.
Outro marco relevante é o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima (PNA), instituído em 2016, que estabelece diretrizes específicas para setores vulneráveis, como a agropecuária, e oferece subsídios para a construção de estratégias adaptativas. Complementando esse arcabouço, a Coletânea de Fatores de Emissão da Agropecuária, atualizada em 2024 pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), fornece uma base técnica fundamental para a elaboração de inventários de emissões e o desenvolvimento de políticas baseadas em evidências científicas. A Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), de 2009, embora mais abrangente, desempenha papel central ao estabelecer metas de redução de GEE no país, incluindo o setor agropecuário.
Além dessas iniciativas diretamente relacionadas ao enfrentamento das mudanças climáticas, existem políticas que exercem influência indireta, mas ainda assim relevantes. O Programa Nacional de Apoio à Pecuária Leiteira, criado em 2023, tem como foco principal a estabilização de preços e o apoio econômico aos produtores, mas ao incentivar práticas de gestão mais eficientes, pode contribuir para uma produção mais sustentável. De forma semelhante, o Programa Mais Leite Saudável (2015) e o Programa Nacional de Qualidade do Leite (2017) promovem a capacitação técnica e o aprimoramento dos padrões de qualidade, incentivando boas práticas que favorecem a resiliência dos sistemas produtivos.
Nesse sentido, fortalecer a resiliência climática da pecuária leiteira brasileira requer a ampliação de programas voltados à capacitação técnica com foco em mudanças climáticas, a integração de métricas de sustentabilidade em todas as políticas setoriais e o estímulo contínuo à pesquisa e inovação em tecnologias adaptativas. Essas medidas aproximam o país das práticas internacionais mais avançadas e consolidam a pecuária leiteira como parte integrante da transição para uma economia mais verde e sustentável.
Tabela 2. Políticas públicas para o setor leiteiro na Índia e sua relação com mudanças climáticas
Política Pública / Programa | Ano de Início | Órgão Responsável | Objetivo Principal | Relação com Mudanças Climáticas |
White Revolution (Operation Flood) | 1970 | NDDB / DAH&D | Expandir cooperativas leiteiras; tornar a Índia autossuficiente e líder em produção mundial | Indiretamente: fortaleceu cooperativas, criando base institucional para futuras ações climáticas |
Animal Husbandry Infrastructure Dev. Fund + PLI Scheme | 2021 | Ministério da Pecuária, Leite e Pesca | Incentivar infraestrutura em processamento, valor agregado e plantas de ração via fundos (~USD 2 bi) + incentivos PLI (~USD 1,5 bi) | Indireta: fortalece infraestrutura, facilita adoção de tecnologias eficientes e práticas sustentáveis |
National Programme for Dairy Development (NPDD) | 2014 | DAH&D / NDDB | Fortalecer infraestrutura de produção, coleta, processamento e comercialização de leite e derivados | Indireta: modernização inclui sistemas de refrigeração, tratamento de resíduos e práticas operacionais mais eficientes |
Rashtriya Gokul Mission | 2014 | DAH&D | Melhorar genética de raças bovinas nativas; conservar variedades locais | Indireta/direta: raças adaptadas ao clima reduzem estresse térmico e emissões por produtividade |
Nationwide Artificial Insemination Programme | ~2014 | DAH&D / NDDB | Fornecer inseminação artificial gratuita para melhorar genética e produtividade | Indireta/direta: genética melhorada reduz número de animais por litro de leite, cortando emissões per capita |
Dairy Processing & Infrastructure Dev. Fund (DIDF) | 2017 | DAH&D / NDDB | Modernizar plantas de processamento e resfriamento de leite | Direta: introdução de refrigeração eficiente, incluindo energia solar, reduz perdas e emissões |
Flexi biodigestores e manejo de dejetos | desde 2020 | NDDB com apoio de ONGs/governo | Implantação de biodigestores em propriedades e centrais; aproveitamento do biogás e transformação de dejetos em fertilizantes orgânicos | Direta: reduz emissões de metano e promove bioenergia e agricultura regenerativa |
Alimentação balanceada e aditivos redutores de metano | desde 2020 | NDDB / DAH&D | Promoção de rações balanceadas, aditivos e alimentação estratégica para reduzir metano | Direta: redução de até ~25–30% nas emissões por litro de leite |
National Livestock Mission | 2014 | DAH&D | Desenvolver produção animal e fornecimento de forragem; inclui subprogramas de alimentação e desenvolvimento tecnológico | Indireta/direta: melhoria de forragem favorece produção eficiente, reduz emissões e estresse térmico |
Agroforestry Policy | 2014 | Ministério da Agricultura / MFPI / MOEF | Integrar árvores com pastagens e lavouras para melhorar sustentabilidade | Direta: sequestra carbono, melhora microclima, protege pastagens contra estresse climático |
National Action Plan on Climate Change – NMSA | 2008 | PM Council on Climate Change / MOEF / MOAF | Inclui o “National Mission for Sustainable Agriculture” com ênfase em agricultura sustentável e adaptação | Direta: subsidiar práticas agrícolas resilientes, adaptados ao clima, integrando pecuária e pastagens |
Fonte: Elaborado pelos autores com base em dados de DAH&D, NDDB, FAO e iniciativas de clima-sustentabilidade na Índia.
A análise das políticas públicas indianas voltadas ao setor leiteiro revela um alto grau de integração entre estratégias produtivas e ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Iniciativas como o Dairy Processing & Infrastructure Development Fund (DIDF) e o Animal Husbandry Infrastructure Development Fund demonstram investimentos significativos em infraestrutura moderna e eficiente, muitas vezes com uso de energia renovável. Ao mesmo tempo, programas como a Rashtriya Gokul Mission e o Programa Nacional de Inseminação Artificial priorizam o melhoramento genético, contribuindo para uma produção mais eficiente e com menor emissão de metano por litro de leite.
Outras ações, como o incentivo ao uso de biodigestores, rações balanceadas com aditivos anti metano, e práticas de agrofloresta, reforçam o compromisso da Índia com uma pecuária leiteira resiliente e sustentável. Esses programas têm impacto direto na redução das emissões de gases de efeito estufa e na adaptação dos sistemas produtivos ao estresse climático.
Comparativamente, o Brasil possui um conjunto de políticas relevantes, como o Plano ABC e o PNA, mas muitas das suas ações ainda impactam o setor leiteiro de forma indireta. A Índia, por outro lado, apresenta maior especificidade técnica e aplicação prática das políticas no campo, com forte apoio institucional e financiamento. Isso sugere que o Brasil pode se beneficiar da experiência indiana ao avançar na implementação de medidas específicas de mitigação e adaptação no setor leiteiro, alinhando melhor suas metas climáticas às necessidades produtivas.
Tabela 3. Políticas públicas para o setor leiteiro nos EUA e relação com mudanças climáticas
Política / Programa | Ano de Início / Vigência | Órgão Responsável | Objetivo Principal | Relação com Mudanças Climáticas |
Federal Milk Marketing Orders (FMMO) | 1937 – revisões até 2024 | USDA / AMS | Garantir preços mínimos regionais por classe, estabilidade de mercado para produtores leiteiros. | Indireta: suporte econômico ao produtor permite adoção de práticas sustentáveis |
Dairy Margin Coverage (DMC) | 2018 | USDA / FSA | Seguro voluntário de margem leite/feed, protegendo renda | Indireta: segurança financeira favorecendo investimento em práticas eficientes |
Partnerships for Climate-Smart Commodities | 2022–presente | USDA | Financiamentos para projetos piloto de leite “climate-smart” (ex.: DFA com USD 45 mi) | Direta: redução de GEE, sequestro de carbono e valorização de produtos de baixo carbono |
Dairy Manure Management Incentive Program | 2024–2025 | USDA / FSA | Subsídio (até USD 1 mi/fazenda) para práticas de manejo de estrume e compostagem | Direta: reduz emissões de metano e melhora a produtividade agrícola |
USDA Climate Hubs e COMET-Farm/Planner | 2014–presente | USDA Climate Hubs / NRCS | Suporte regional, ferramentas de quantificação de GEE e educação técnica | Direta: promove planejamento de adaptação e mitigação agropecuária |
Inflation Reduction Act – NRCS/EQIP, CSP, RCPP | 2022–presente | USDA / NRCS | USD 20 bi para programas de conservação, rotação de culturas, gado rotacional | Direta: incentiva práticas agrícolas sustentáveis com redução de GEE |
Farm Energy Efficiency Program & Dairy Biogas Capture | 2011–2020 | USDA / NRCS / DIC | Eficiência energética, auditorias em fazendas leiteiras, biogás | Direta: otimização energética e captura de metano |
“Cow of the Future” – genética e nutrição | 2013–2020 | Dairy Industry Coalition / DIC / USDA | Reduzir metano entérico via alimentação, genética e saúde | Direta: menor emissão por litro de leite devido a manejo genético e alimentação |
Demonstration Farms for Net-Zero | 2023–presente | USDA, ARS, ERS, NIFA | Fazendas demonstrativas de soluções climáticas (nutrição, manejo, energia) | Direta: mostra viabilidade de produção leiteira “net-zero” em sistemas integrados |
California SB 1383 & LCFS credits | 2016–presente | Estado da Califórnia / CARB / USDA | Reduzir metano em 40% até 2030; gerar créditos via biogás | Direta: incentivos financeiros à captura de metano via biogás e armaz. de dejetos |
Dairy Business Innovation Initiatives | 2022–2024 | USDA / AMS | USD 11 mi para resiliência e inovação em negócios leiteiros regionais | Indireta: fortalece adaptação regional ao clima, aumentando valor agregado e sustentabilidade local. |
Fontes: Elaborado pelos autores com base em dados de USDA, AMS, NRCS, NRCS/COMET, Inflation Reduction Act, Dairy Farmers of America, EWG, Vox/Vox, Farm Credit Alliance.
A análise das políticas públicas voltadas ao setor leiteiro nos três principais países produtores, Índia, Brasil e Estados Unidos, mostra distintos níveis de integração entre desenvolvimento produtivo e enfrentamento das mudanças climáticas. Essas diferenças refletem não apenas as prioridades políticas internas, mas também as capacidades institucionais e econômicas de cada país para formular e implementar políticas setoriais mais ou menos alinhadas com a agenda ambiental.
Na Índia, observa-se um esforço crescente para associar o aumento da produtividade leiteira à sustentabilidade ambiental. Políticas como o National Dairy Plan e o Rashtriya Gokul Mission promovem o melhoramento genético de raças nativas e a eficiência na produção, ao mesmo tempo em que incentivam práticas sustentáveis, como o uso de biodigestores e o aproveitamento de resíduos orgânicos. Essas ações representam uma relação direta com a agenda climática, uma vez que incluem metas e mecanismos explícitos para mitigação das emissões de gases de efeito estufa (GEE), especialmente o metano, oriundo da digestão dos ruminantes e da gestão de dejetos.
O Brasil, embora seja um dos maiores produtores de leite do mundo, ainda apresenta um conjunto de políticas públicas com relação indireta ao enfrentamento das mudanças climáticas. A maior parte dos programas governamentais está voltada ao apoio estrutural da cadeia produtiva, como acesso ao crédito, assistência técnica, compras públicas e organização dos produtores. Ainda que essas políticas contribuem para o aumento da resiliência do setor e incentivem, indiretamente, práticas mais eficientes e sustentáveis, não há uma orientação estratégica clara voltada à mitigação de GEE ou à adaptação climática no setor leiteiro. A ausência de uma abordagem integrada entre produção e sustentabilidade ambiental representa um desafio importante para o país.
Já os Estados Unidos demonstram um modelo mais consolidado de políticas públicas orientadas à sustentabilidade climática. Programas como o Dairy Environmental Stewardship Program, o Climate Smart Commodities e as ações coordenadas pelo USDA integram financiamento, pesquisa e assistência técnica voltados à redução de emissões e adaptação dos sistemas produtivos. São políticas de relação direta, com metas claras de mitigação, incentivo à adoção de tecnologias de baixo carbono, gestão de dejetos e uso eficiente de recursos naturais. Esse modelo mostra como a atuação coordenada entre agências federais e estaduais pode fortalecer a transição para sistemas produtivos mais sustentáveis.
Tabela 4. Políticas públicas para o setor leiteiro na China e relação com mudanças climáticas
Política / Programa | Período | Órgão Responsável | Objetivo Principal | Relação com Mudanças Climáticas |
No 1 Central Document (Documento N.º 1) | Anual | Conselho de Estado / MARA | Diretrizes para revitalização rural, incluindo apoio à produção de leite | Indireta: fortalece base agrícola para adoção de práticas sustentáveis |
Ações do 14.º Plano Quinquenal (2021–2025) | 2021– 2025 | MARA | Garantir produção de ~41 Mt de leite e promover modernização tecnológica | Indireta: maior eficiência por IoT e infraestrutura, embora sem foco climático explícito |
Circular para reviver indústria láctea | Desde 2018 | Conselho de Estado / MARA | Aumentar qualidade, eficiência, reciclagem de resíduos e integração da cadeia | Direta: metas de reciclagem de resíduos bovinos e foco em melhorias ambientais |
Estabilização da produção de carne bovina e leite | Desde 2024 | MARA (com outros ministérios) | Estabilizar produção, ampliar crédito/seguro, e incentivar consumo de leite escolar | Indireta/Direta: melhora apoio estrutural e eficiência ambiental (emissões e consumo) |
Plano Nacional de Desenvolvimento Agrícola Sustentável (2015–2030) | 2015– 2030 | MARA / NDRC | Incentivar agricultura sustentável, conservação, manejo de lixo e água | Direta: aplicação geral de práticas de mitigação e adaptação, incluindo pecuária |
Subsídios ao sistema agrícola verde | Desde 2016 | MARA / Ministério das Finanças | Incentivos ao uso racional de fertilizantes, proteção ambiental | Direta: promove redução de insumos químicos e poluentes agrícolas |
Atualização de padrões de qualidade do leite (“Excellent Milk”) | 2024 | SAMR (via NHC) | Aprimorar padrões sanitários e qualidade do leite fermentado | Indireta: reforça confiança e qualidade, mas sem medidas climáticas explícitas |
Fonte: Elaborado com base em documentos e notícias do Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da RPC (MARA), Conselho de Estado, e Agência Estatal de Regulamentação do Mercado.
Para fins analíticos, as políticas públicas foram classificadas segundo o seu grau de vínculo com a agenda climática. Aquelas que apresentam metas, incentivos ou programas voltados à mitigação das emissões de GEE ou à adaptação ao clima são consideradas de relação direta. Por outro lado, as políticas que contribuem para o fortalecimento da cadeia produtiva sem abordar explicitamente questões climáticas, mas que favorecem a adoção de boas práticas e aumentam a resiliência do setor, foram classificadas como de relação indireta.
4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo deste estudo foi analisar as estratégias de adaptação implementadas por quatro dos maiores produtores mundiais de leite: Brasil, Índia e Estados Unidos. As mudanças climáticas impõem desafios crescentes à produção leiteira, exigindo respostas eficazes dos países produtores. A Índia e os Estados Unidos possuem políticas mais integradas à agenda climática, enquanto o Brasil ainda apresenta ações fragmentadas e de impacto indireto.
Para fortalecer a resiliência do setor leiteiro brasileiro, é fundamental ampliar políticas específicas, valorizar o conhecimento técnico e incentivar tecnologias sustentáveis, especialmente para pequenos e médios produtores. A adaptação de boas práticas internacionais pode impulsionar a transição para uma produção mais sustentável, alinhando desenvolvimento rural e enfrentamento das mudanças climáticas.
Embora este estudo ofereça uma análise comparativa relevante das estratégias de adaptação climática na cadeia produtiva do leite, algumas limitações devem ser consideradas. Em primeiro lugar, a pesquisa baseou-se principalmente em fontes documentais e dados secundários, o que pode limitar a profundidade da análise em relação a desafios locais específicos enfrentados pelos produtores.
Como sugestões para pesquisas futuras seria interessante avaliar o impacto econômico dessas medidas e o potencial de políticas regionais adaptadas, reforçando a importância de uma abordagem integrada entre governo, setor privado e academia para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas no agronegócio leiteiro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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AGRADECIMENTOS
Este trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) – Brasil, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
1 Mestra em Agronegócios pelo Programa de Pós-Graduação em Agronegócios da Universidade Federal de Santa Maria (PPGAGR). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Agronegócios. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Graduado em Administração pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Mestrando em Agronegócio pelo Programa de Pós-Graduação em Agronegócios da Universidade Federal de Santa Maria (PPGAGR). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Mestra em Desenvolvimento Rural pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR-UFRGS). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Doutor em Extensão Rural pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Professor pelo Programa de Pós-Graduação em Agronegócios da Universidade Federal de Santa Maria (PPGAGR). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Doutora em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professora pelo Programa de Pós-Graduação em Agronegócios da Universidade Federal de Santa Maria (PPGAGR). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Doutor em Administração pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Professor pelo Programa de Pós-Graduação em Agronegócios da Universidade Federal de Santa Maria (PPGAGR). Bolsista de Produtividade, Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora do CNPq - Nível C. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Graduando do Curso Superior de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) - Campus Palmeira das Missões. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
8 Graduanda do Curso Superior de Administração da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) - Campus Palmeira das Missões. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
9 Graduanda do Curso Superior de Administração da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) - Campus Palmeira das Missões. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail