REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784687482
RESUMO
A puericultura é o principal meio de garantir o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento das crianças através de assistência sistemática, sendo a estratégia de saúde da família um ambiente oportuno para a realização dessa ação pelo enfermeiro. Propõe-se neste trabalho a incorporação do modelo de enfermagem Roper, Logan e Tierney (2001) como base para o ensino aprendizagem em enfermagem. O objetivo deste estudo é identificar a presença de elementos relacionados às atividades da vida, tratadas naquele modelo, durante a assistência em puericultura pelo enfermeiro. Como método utilizou-se a revisão integrativa, cuja delimitação foi norteada pela questão: quais são as diretrizes observadas na assistência às crianças durante consulta de enfermagem em puericultura? Dos artigos selecionados extraíram-se informações quanto aos cuidados dispensados pela enfermagem na assistência à criança, que foram agrupados nas categorias propostas pelas autoras. As pesquisas evidenciaram a vinculação entre as avalições realizadas pelos enfermeiros no atendimento à criança e as atividades da vida. Destacam-se o realismo, a simplicidade e a acessibilidade do método diante do complexo processo de vida e a sua contribuição como base para o ensino aprendizagem em enfermagem na área de saúde da criança. Espera-se que este estudo possa contribuir para desenvolvimento do conhecimento do enfermeiro quanto aos cuidados à criança, facilitando sua aquisição de informações bem como o esclarecimento de dúvidas, estimulando seu raciocínio crítico-reflexivo e aproximando cada vez mais a profissão de uma assistência sistematizada e com base científica, em busca do cuidado eficiente e efetivo e consequente valorização desse profissional.
Palavras-chave: Consulta de enfermagem; cuidado à criança; enfermagem pediátrica; puericultura.
ABSTRACT
Child Health Care is the way to ensure supervision of the growing and development of children throw systematic assistance, being the family health strategy into the environment to realize this action by the nursery. It is proposed in this paper the incorporation of the Roper, Logan e Tierny (2001) model as a base to nursery teaching. The focus of this survey is to identify the presence of elements linked to activities of living suggested in that model during family health care by the nurse. Using an integrative review, guided by the question: What are the guidelines watched in the assistance of the children during nurse appointment in childcare? In selected papers extracted knowledge about some dismissed cares by the nursery in child assistance, which were arranged as the theory says. All the research shows activities of living of the theory in real life, even in implicit ways. While the theory wasn't used in the base or even cited in any of the papers in use, the relation among nurse assessment and activities of living were noted. The most important are realism, simplicity, and accessibility of the model in front of complicated of the contribution of Roper, Logan e Tierney model (2001) as a base for nursery studies in child health, in the academy as capacitation and upgrade of professionals that work in Basic Health Unit. Anticipates contribution of this survey at growing about child care, helping evaluation as the questions, stimulating critical and reflexive thinking, approximating, even more, the theory and practice looking for efficient care in nursing.
Keywords: Child care; Child health care; nurse appointment; pediatric nurse.
1. INTRODUÇÃO
Desde 1984, o Ministério da saúde vem investindo em políticas para melhoria da assistência à criança. Nesse contexto progressivo de cuidado, em 1994, a Estratégia de Saúde da Familia (ESF) foi inserida no Sistema Único de Saúde (SUS), com o intuito de reeorganizar a assistência em saúde (BRASIL, 1997).
O principal meio de garantir o acompanhamento do crescimento e do desenvolvimento das crianças é através de assistência sistemática à população infantil, sendo a ESF um ambiente oportuno para a implementação dessa ação pelo enfermeiro, um dos profissionais responsáveis pela prática de cuidado à saúde da criança. Vários autores enfatizam a assistência à saúde da criança como sendo uma atividade fundamental na fase do desenvolvimento infantil, uma vez que um acompanhamento adequado favorece a redução da incidência de doenças, ao mesmo tempo em que aumenta as oportunidades de que elas consigam um ótimo desenvolvimento e uma vida saudável. (BENICIO et al., 2016, e CAMPOS et al., 2011).
Com vistas a garantir a integralidade e resolutividade da atenção à saúde da criança, as atividades desenvolvidas pelos profissionais de saúde podem manifestar-se por meio de ações individuais e/ou coletivas, a depender dos cronogramas de atendimento. A assistência de enfermagem em caráter coletivo geralmente é realizada com base nos grupos de educação em saúde e a individual pode ser efetivada por meio consulta de enfermagem em puericultura.
A prática assistencial individualizada em enfermgem, no que tange à puericultura, demanda que sua execução ocorra de forma sistematizada e cientificamente embasada, no intuito de obter-se um cuidado integral e holistico, favorecendo o crescimento e o desenvolvimento em busca de um adulto saudável no futuro.
Tendo em vista a importância da realização da puericultura e a necessidade de seguir um viés sistematizado e cientificamente estruturado em busca da prestação do serviço de enfermagem de qualidade, é importante que o enfermeiro tenha acesso a subsídeos teórico-práticos que possam norteá-lo ao desenvolver suas atividades.
O cuidado da Enfermagem se fundamenta no conhecimento próprio da profissão e nas ciências humanas, sociais e aplicadas e é executado pelos profissionais num amplo escopo, na prática social e cotidiana de assistir, gerenciar, ensinar, educar e pesquisar. Cabe ao profissional observar que tem como um dos seus deveres aprimorar os conhecimentos técnico-científicos, ético-políticos, socioeducativos e culturais, em prol da pessoa, família e coletividade e do desenvolvimento da profissão (COFEN Nº 564/2017).
A competência técnico-cientifica para a implementação do cuidado, permanência, subjetividade e aproximação podem ser considerados e desenvolvidos, assim como o aporte teórico, no ambiente do trabalho onde ocorre a troca de saberes, com o processo ininterrupto de ensinar e de aprender (FERREIRA, 2015). Isso porque, sabendo-se que os conhecimentos são socialmente construídos, e neles recursos materiais e intelectuais de diferentes matizes estão vinculados a contextos e situações específicas, priorizar as experiências locais é uma forma de buscar outros tipos de saber, dando voz ao paciente, valorizando sua informação, atentando para os saberes locais, percebidos como indícios, sinais, pistas (ALMEIDA, C.E., 2020), o que também depende da educação, da sensibilidade e atenção do profissional que atende, no caso desta pesquisa, o enfermeiro.
Loper, Roger e Tierney (2001) propõem o modelo de atividades da vida (ALs), que descreve o que significa viver em apoio à realização do processo de enfermagem. Para desenvolvê-lo, as teóricas observaram e descreveram fatores que influenciam as ALs, observando que os cuidados de enfermagem nem sempre estão sendo prestados por enfermeiros especialistas, e acreditam que o modelo possa ser usado para o planejamento e ajuda às famílias, além de apoio para uma forma de individualizar tais cuidados. O modelo pode ser aplicado a pessoas doentes ou saudáveis, seja na comunidade, ambulatório ou hospital.
Acreditando na possibilidade de incoporação do modelo proposto no apoio ao ensino aprendizagem da assistência de enfermagem à criança e na busca do cuidado integral e holístico, este estudo tem como objetivo identificar a presença de elementos relacionados às atividades de vida propostos no referido modelo durante a assistência em puericultura pelo enfermeiro.
Este estudo é parte integrante de uma pesquisa de mestrado que objetivou criar uma ferramenta de ensino apredizagem para a capacitação de enfermeiros para a realização de puericultura na atenção primária a saúde, para isso utilizando como suporte teórico e metodológico o modelo de atividades de vida proposto por Roper, Logan e Tierney (2001).
Assim, neste artigo, recorte da referida investigação, selecionou-se a dimensão da consulta de enfermagem à criança, focando os aspectos relacionados às ALs recomendados no modelo citado acima.
O trabalho foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, CAAE nº 28709619.3.0000.5237.
1.1. Relevância e Contribuições do Estudo
O enfermeiro é um profissional que integra a equipe de atenção primária à saúde em unidades de ESF, e assim sendo é de suma importância que esse profissional seja capacitado e se sinta seguro quanto ao atendiemento em puericultura.
Portanto, a relevância desta pesquisa para o ensino da assistência de enfermagem à criança fundamenta-se na necessidade de aprofundar o conhecimento sobre o cuidado de enfermagem para as crianças e propor um modelo teórico de enfermagem para embasamento científico e desenvolvimento de uma ferramenta educativa para esses profissionais.
Acredita-se que a elucidação da teoria proposta possa colaborar para maior aquisição de conhecimento acerca da saúde das crianças, favorecendo a atuação do enfermeiro de forma a sistematizar o cuidado a elas dispensado. Espera-se que os profissionais de enfermagem tenham maior segurança para prestar assistência às crianças de seu território, uma vez que a ferramenta educativa pode proporcionar apropriação de conhecimento acerca do processo de crescimento e desenvolvimento que o indivíduo vivencia nessa fase da vida.
Em relação à pesquisa em enfermagem, este estudo poderá ampliar o campo de atuação dos enfermeiros, proporcionando autonomia e visibilidade à assistência prestada pela enfermagem, sendo ainda instrumento de estímulo para o desenvolvimento de novas pequisas, tanto na área de saúde da criança quanto em outros campos de atuação do enfermeiro.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
Roper, Logan e Tierney (2001) apresentam um referencial teórico desenvolvido com foco educacional, cujo objetivo é estimular que a enfermagem possa pensar sua prática e organizar sua assistência sobre uma base teórica realista, com vista na acessibilidade para o indivíduo em contextos de cuidados de saúde.
Tal referencial foi desenvolvido a partir da observação de usuários em diferentes situações de cuidado de enfermagem, tanto o cuidado hospitalar quanto o comunitário. Após análise dos perfis de 774 indivíduos foram evidenciados núcleos relacionados com a atividade de vida diária, sendo assim atividades essenciais e comuns aos indivíduos, de modo que o cuidado é organizado a partir dos núcleos das atividades de vida do sujeito.
O método tem como pilar o fenômeno altamente complexo que é viver e está composto por cinco conceitos principais que são interrelacionados e envolvem as atividades da vida, a duração da vida, o continuum dependência/independência, os fatores que influenciam as atividades da vida e a individualidade. São 12 tipos de atividades que se localizam num continuum que se move desde a dependência total até a independencia total do indivíduo (CAMPOVERDE, 2013).
As doze atividades da vida são distribuídas em categorias da seguinte forma: manter um ambiente seguro, comunicar, respirar, comer e beber, eliminar, cuidar da higiene pessoal e vestir-se, controlar a temperatura do corpo, mobilizar-se, trabalhar e distrair-se, exprimir sexualidade, dormir e morrer. Estas compõem o que significa o viver do indivíduo (ROPER; LOGAN; TIERNEY, 2001).
Percebe-se que as atividades de vida são realizadas de forma contínua pelo indivíduo na busca da manutenção da vida, sendo algumas realizadas de forma involuntária, como o caso de respirar e controlar a temperatura do corpo.
Fatores biológicos, psicológicos, socioculturais, ambientais, políticos e econômicos são citados como influenciadores das atividades de vida e foram introduzidos ao modelo no intuito de justificar a causa pela qual as Als são desempenhadas de formas diferentes e individuais por cada pessoa. A escolha dos fatores ocorreu pela relevância para a enfermagem e por oferecerem subsidios para a discussão (ROPER; LOGAN; TIERNEY, 2001). No que tange aos fatores biológicos, estes fazem referência à anatomia e à fisiologia do corpo humano. A herança genética do indivíduo pode estar relacionada esses fatores.
O fator psicológico se relaciona a todos os outros quatro mencionados e influencia na duração da vida, no desenvolvimento intelectual e emocional, causando impacto na realização das atividades da vida, pois tem reflexos principalmente no nível de independência e de individualidade do indivíduo. (ROPER; LOGAN; TIERNEY, 2001 e PINTO et al., 2018).
Os fatores socioculturais e ainda espirituais, religiosos e éticos precisam ser levados em consideração na prestação de assistência de enfermagem, pois contribuem para a compreensão dos seres humanos tal como se manifestam nas ALs e influenciam na forma como o indivíduo percebe o estado de saúde e doença (op. cit., 2001).
A questão político-econômica está relacionada à subordinação do cidadão às regulamentações do Estado e, por isso, influencia nas atividades cotidianas da vida. A saúde não é apenas responsabilidade dos profissionais de saúde, pois há de se reconhecer que cada vez mais os determinantes de saúde, bem como de doenças, estão entrelaçadas às realidades politicas, econômicas e sociais dominantes (op. cit., 2001).
Esses fatores influenciam direta ou indiremente a vida e até mesmo a execução das ALs. Podemos citar fatores biológicos e psicológicos que podem alterar a capacidade de alimentação e absorção dos alimentos ou situações ambientais que podem dificultar, por exemplo, a mobilidade do indivíduo ou a manutenção de ambiente seguro, quando o indivíduo mora no alto de uma comunidade e tem dificuldades de deambular e lhe é orientado realizar caminhada diárias; ou quando o indivíduo reside em uma área determinada como de risco para desabamento e não tem para onde ir, este indivíduo pode apresentar alterações psicológicas, havendo fatores políticos e econômicos envolvidos. Enfim, percebe-se que a presença de um ou mais fatores pode influenciar uma ou mais ALs.
Os fatores citados estão intrinsecamente relacionados à duração da vida, um conceito que diz sobre a totalidade da vida de cada pessoa. Essa totalidade é individual, pois é uma linha tênue que tem duração do nascimento à morte. (op. cit., 2001).
Para as autoras, a duração da vida vai do nascimento à morte e cada atividade descrita pelo modelo pode ser influenciada pela fase em que o individuo esta vivendo. Assim, durante a lactância, infância, adolescência, idade adulta e anciania, o indivíduo poderá apresentar um comportamente diferente diante das ALs. Porém, as autoras atentam para o fato de que nem todos os seres humanos passam por todas as fases, pois algumas pessoas podem morrer antes de completá-las. Deste modo, apesar de todos terem um tempo de vida, o intervLo que separa o nascimento da morte é variável.
Com o avançar da vida do indivíduo, além de observarmos uma mudança contínua, é possível perceber que cada aspecto da vida seja influenciado pelos fatores biológicos, psicológicos, socioculturais, ambientais e político - econômicos que vão se apresentando diante da mesma. Da mesma forma, também é inevitável que, em diferentes fases da vida, a dependência e independência sejam vistas em diferentes graus nas Als. (op. cit., 2001).
Um exemplo claro da relação de dependência/independência é um individuo que, por algum motivo, como por exemplo, um procedimento cirúrgico, se encontra impossibilitado de deambular, e após um tempo, recupera os movimentos; outro exemplo é o de uma criança, que ao nascer tem dependência para a atividade de vida relacionada a comer, mas com o crescimento e desenvolvimento já se apresenta independente para realizar tal atividade.
Diante do exposto é possível perceber que os fatores que influenciam cada uma das ALs se correlacionam com os demais componentes do modelo, a duração de vida e o continuum dependência/independência, além de estarem relacinados entre si. De tal modo, pode ser dificil distinguir claramente a influência dos fatores biológico e psicológicos, ou entre os fatores político-econômicos e socioculturais (PINTO et al., 2018).
Muito embora o modelo de Roper, Logan e Tierney (2001) tenha como base a identificação de núcleos das atividades vida que estão presentes no viver de todas as pessoas, o modelo propõe a individualidade como um quinto conceito formado a partir dos quatros conceitos já vistos: duração de vida, atividades de vida, fatores que influenciam as atividades de vida e o continuum dependência/independência.
A individualidade, segundo Roper, Logan e Tierney (2001), é inserida tendo em vista a necessidade de singularizar o cuidado ao usuário, visto que a vida é experienciada de forma única por cada um. Ao executar uma AL, esta é em parte determinada pela fase em que se enconta na duração da vida e pelo grau de dependencia/independência, e conforme os diversos fatores biológicos, psicológicos, socioculturais, ambientais e politico-econômicos.
As autoras enfatizam o indivíduo como base do modelo de vida, e por isso citam que a família também precisa ser considerada de forma individualizada, levando em consideração o conceito e composição de familia que se apresenta. A Figura 1 apresenta o modelo de vida segundo Roper, Logan e Tierney (2001).
Figura 1. O modelo de vida.
O modelo de atividade de vida de Roper, Logan e Tierney (2001) propõe utilizar atividades simples do cotidiano como núcleo das ações de enfermagem. O intuito é sistematizar a assistência e assim desenvolver ações específicas e individualizadas relacionadas às ALs nas diversas áreas onde se pode desenvolver o trabalho de enfermagem. Ao mesmo tempo em que as atividades de vida são simples, aqui se tornam importantes núcleos de atuação, pois são essenciais para a manutenção da vida, podendo ser uma mais importante que outra em dado momento, mas todas necessárias à sobrevivência humana.
Roper, Logan e Tierney (2001), em seu modelo, evidenciam fatores que impactam no desenvolvimento das ALs e o continuum de dependência e independência relacionadas a elas. Chama a atenção para o no quinto conceito que compõe o método, a individualidade. A observação deste conceito propicia que a enfermgem atue de maneira singular, ao mesmo tempo de forma holística, sendo capaz de avaliar o sujeito em seu contexto de vida, incluindo a observação e os cuidado da família e da comunidade.
É neste contexto complexo que encontramos o foco deste estudo, a criança, um indivíduo em fase ativa de crescimento e desenvolvimento. Portanto, o acompanhamento desses fatores, durante a consulta de enfermagem, é uma importante ação de vigilância que torna possível a detecção e intervenção precoces de alterações que podem acometer a criança e por vezes são determinantes para seu futuro.
O objetivo principal da aplicação do modelo proposto na consulta de enfermagem é colaborar para o planejamento individualizado e que seja de acordo com o modo interdisciplinar da assistência à saúde do cliente/família (COSTA et al., 2007).
Assim sendo, ao articular o tema Modelo de Atividades de Vida à assistência de enfermagem em puericultura e ao ensino aprendizagem acredita-se na possibilidade de oportunizar uma assistência de qualidade, integral e sistematizada.
3. MÉTODO
Este estudo tem como objetivo propor a assistência de enfermagem à criança à luz do Modelo de Atividades de Vida, de Roper, Logan e Tierney (2001). As etapas percorridas na elaboração do estudo foram: elaboração da questão de pesquisa, busca na literatura dos estudos primários, extração de dados, avaliação dos estudos primários incluídos, interpretação dos resultados e apresentação da revisão.
Na primeira etapa desenvolveu-se a pergunta norteadora para direcionar a busca literária. Para a construção da mesma utilizou-se a estratégia PICO, que representa um acrônimo para Paciente, Intervenção, Comparação e "Outcomes" (desfecho), conforme proposto pela prática baseada em evidência (PBE), onde problemas clínicos, sejam eles trazidos da prática assistencial, de ensino ou pesquisa, devem ser decompostos e a seguir organizados segundo essa estratégia (SANTOS et al., 2007).
Assim sendo, a questão de pesquisa delimitada foi: quais são as diretrizes observadas na assistência às crianças durante uma consulta de enfermagem em puericultura?
Na questão proposta, o primeiro elemento da estratégia (P) consiste na criança; o segundo (I), as diretrizes; o terceiro (C), por meio da Teoria de Roper, Logan e Tierney (2001); o quarto elemento (O), consulta de enfermagem. Na revisão integrativa proposta utilizaram-se todos os elementos da estratégia PICO.
Na segunda etapa, foi realizada a revisão integrativa da literatura em busca de identificar as diretrizes de cuidados abordadas pelos enfermeiros durante a consulta de enfermagem. Foram procuradas referências nos artigos pela necessidade de aproximar-se a observação à prática vivenciada pelos enfermeiros em atenção primária.
Nessa fase, como critério de inclusão na seleção dos estudos foram utilizados artigos científicos extraídos das bases de dados Scientific Electronic Library Online – (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Portal de Periódicos da CAPES/MC, com os descritores “consulta de enfermagem”, “cuidados da criança”, “saúde da criança” e “enfermagem pediátrica”, publicados no período de janeiro de 2014 a dezembro de 2019, em português, em forma de artigo e abordando a consulta de enfermagem em puericultura. Estudos apresentados como monografias, teses, implantação de protocolos, artigos em línguas estrangeiras, sem resumo ou texto completo indisponível, formaram o critério de exclusão nessa etapa do estudo.
Foram encontrados um total de 342 artigos, sendo 01 na SciELO, 76 na BVS e 265 na CAPES/MC. Ao aplicar os filtros citados foram excluídos 203 estudos pelo não enquadamento no critério de inclusão. A amostra de artigos elegíveis totalizou 139, e após a leitura do título, 53 exemplares foram descartados, por se tratarem de teses, protocolos e não versar sobre a temática. Por repetição, foram eliminadas 13 pesquisas. Ao realizar a leitura dos resumos da amostra apresentada, 09 artigos científicos foram selecionados por tratarem da temática proposta, nos quais se efetuou a leitura na íntegra e desta forma, incluídos no estudo (Figura. A Figura 1 apresenta fluxo da seleção dos estudos primários incluídos na revisão integrativa, de acordo com as bases de dados de 2020.
Figura 1. Fluxograma do processo de busca e seleção dos estudos incluídos na primeira etapa da revisão integrativa. Volta Redonda, RJ. 2020.
Para a etapa de extração de dados, realizou-se a leitura dos artigos com destaque das diretrizes assistenciais de enfermagem adotadas durante a consulta de enfermagem às crianças. Os dados foram organizados em planilhas por autor, ano e base de dados, objetivo do estudo e cuidados realizados na assistência do enfermeiro. Após essa organização, as informações acerca das diretrizes avaliadas durante a consulta de enfermagem foram correlacionadas às categorias das ALs de Roper, Logan e Tierney (2001).
4. RESULTADO E DISCUSSÃO
Optou-se pela criação de um quadro síntese onde foram relacionados o autor, ano de publicação, objetivos dos estudos e os achados investigativos da consulta de enfermagem em puericultura.
Quadro 1. Síntese dos estudos primários incluídos na revisão integrativa (n=09), segundo autor e ano, objetivo, aspectos investigados durante a consulta e conclusão do estudo. Volta Redonda, RJ. 2020.
Autor/Ano | Objetivo | Aspectos investigados |
(Vieira et al., 2019) | Investigar o processo de trabalho de enfermeiros nas consultas de puericultura em relação à vigilância do desenvolvimento infantil em unidades de saúde da família. | Dados do nascimento Como passou nos últimos dias Perímetros cefálico, abdominal e torácico Vacina Estatura e peso Aleitamento e alimentação Tônus muscular Engatinhar Levantar Andar Falar |
(Ferreira et al., 2019) | Identificar os principais problemas apresentados nas crianças menores de 2 anos durante a consulta de enfermagem em puericultura. | Desenvolvimento neuropsicomotor Prevenção de acidentes na Infância Aleitamento e alimentação Dúvidas e dificuldades da mãe/cuidador |
(Menezes et al., 2019) | Analisar a atuação do enfermeiro da atenção primária em saúde na assistência à criança e sua família | Contexto socioeconômico e cultural, estrutura das relações familiares Especificidades da família Violência Cuidado com a criança Vacina Peso, altura, perímetro cefálico e perímetro abdominal; Estado nutricional Marcos do desenvolvimento infantil; Reflexos Comportamento e relações interpessoais intrafamiliares e no ambiente escolar Sinais e sintomas de doenças prevalentes na infância |
(Moreira; Gaíva, 2017) | Analisar as ações desenvolvidas pelos enfermeiros durante consultas relacionadas ao contexto de vida e ambiente familiar da criança na perspectiva de promover saúde. | Aparelho respiratório Aleitamento materno e Alimentação Higiene bucal Eliminação Sono Ambiente Condições socioeconômicas |
(Lima; Frazão; QueirogA, 2016) | Conhecer a abordagem de enfermeiros sobre o desenvolvimento da linguagem nas consultas de puericultura. | Desenvolvimento motor Relato da mãe; Exame físico com as medidas antropométricas |
(Pereira et al., 2015) | Identificar a concepção de educação em saúde que norteia a prática educativa de enfermeirasque atuam na Atenção Primária à Saúde, visando à promoção do desenvolvimento infantil saudável. | Questões higienistas Estado vacinal e nutricional Alimentação saudável Desenvolvimento neuropsicomotor |
(Carneiro et al., 2015) | Descrever o crescimento durante a introdução da alimentação complementar em lactentes atendidos na consulta de Enfermagem em puericultura. | Estado nutricional Crescimento Desenvolvimento Identificação dos agravos |
(Baratieri et al., 2014) | Analisar a puericultura realizada pelo enfermeiro, apontando as potencialidades e limitações. | Peso Estatura e perímetro cefálico Alimentação Desenvolvimento neuropsicomotor Cuidado com seus filhos |
(Reichert et al., 2016) | Identificar se existe vínculo entre enfermeiras e mães de crianças menores de dois anos na consulta de enfermagem, na percepção de enfermeiras que atuam na Estratégia Saúde da Família.
| Cuidado individualizado, humanizado e integral. Vínculo Cultural |
Fonte: Os autores (2026).
As diretrizes adotadas pelos enfermeiros para a assistência à criança descritas nos estudos evidenciam que, num contexto geral, a criança é avaliada com um olhar que alcança aspectos biopsicosociais, economicos e ambientais, e cada profissional elenca diretrizes que julga importante.
Após organizar as informações acerca das diretrizes identificadas nos estudos e avaliadas durante a consulta de enfermagem, tratou-se de correlacioná-las às categorias das Als de Roper, Logan e Tierney (2001). A correlação das atividades da vida aos aspectos investigados durante a consulta de enfermagem conforme visto na literatura constituiu o quadro2.
Quadro 2. Correlação das atividades da vida aos aspectos investigados
Atividades da Vida | Frequência% | Autores |
Manter um ambiente seguro | 78% | Ferreira et al.; Moreira et al.; Menezes et al.; Pereira et al.; Carneiro et al.; Reichert et al.. |
Comunicação | 90% | Reichert et al.; Baratieri et al.; Carneiro et al.; Pereira et al.; Menezes et al.; Ferreira et al.;Vieira et al.. |
Respirar | 11% | Moreira et al.. |
Comer e beber | 90% | Baratieri et al.; Carneiro et al.; Pereira et al.; Moreira et al.; Menezes et al.; Ferreira et al.; Vieira et al. |
Eliminar | 11% | Moreira et al.. |
Higiene Pessoal e vestir-se | 65% | Pereira et al.; Moreira et al.. |
Mobilizar-se | 78% | Reichert et al.; Baratieri et al.; Pereira et al.; Lima et al.; Menezes et al.; Ferreira et al.; Vieira et al.. |
Trabalhar e distrair-se | 100% | Reichert et al.; Moreira et al.; Menezes et al.; Vieira et al.. |
Exprimir sexualidade | 65% | Reichert et al.; Carneiro et al.; Pereira et al.; Moreira et al.; Menezes et al.. |
Dormir | 11% | Moreira et al.. |
Fonte: Os autoras (2026).
Nos estudos utilizados nesta pesquisa, as ALs propostas no modelo de Roper, Logan, Tierney (2001) puderam ser evidenciadas durante a assistência de enfermagem em puericultura. Algumas puderam ser claramente identificadas nas descrições apresentadas, assim foram evidenciadas: prevenção de acidentes na infância, aleitamento materno, alimentação complementar, comunicação, higiene, sono, nutrição, higienização, aspecto psico-social, estado nutricional, identificação dos agravos.
No entanto, analisando os demais aspectos observados na consulta, percebe-se que algumas Als apresentaram-se subentendidas nos termos: cuidado individualizado, humanizado e integral, crescimento, cartão de vacina, imunização, desenvolvimento neuropsicomotor, contexto socioeconômico e cultural, contexto social e cultural e ganho de peso. Esses aspectos estão relacionados ao proposto no estudo, portanto foram incluídos.
Em referência a AL manter um ambiente seguro, foi abordada em 78% dos estudos, observam-se várias formas de abordagem, como prevenção de acidentes e cuidado dos filhos. Podemos relacionar ainda as orientações quanto a questões higienistas e higienização, contexto socioeconômico, violência, comportamento e relações interpessoais. Considera-se aqui a pertinência de serem fornecidas orientações quanto ao uso de cadeirinha no automóvel, prevenção de acidentes domésticos diversos e atenção quanto a locais com presença de focos infecciosos.
A respiração, uma Als vital, precisa ser incluida na avaliação sistemática de enfermagem. Citada como um fator investigado durante as consultas, aparece apenas em 11% dos relatos, ao ser informado que a criança estava tossindo. Em sua obra, Roper, Logan e Tierney (2001) chamam a atenção para o fato de a respiração ser uma AL de que as pessoas não tem consciência até que qualquer circunstância anormal chame a atenção. Completam dizendo que inspirar pela primeira vez no nascimento do bebê tem importância vital e evidencia se ele terá ou não uma existência viável, e dir-se-ia ainda, se seria ou não dependente de prótese respiratória.
Als como comer e beber estiveram presentes de forma expressiva nos relatos de investigação do aleitamento materno, alimentação complementar, nutrição e estado nutricional. Para Roper, Logan e Tierney (2001) a refeição oportuniza a criança aprender os rituais referentes a distribuição da comida e comece a perceber que ela pode ter significado social ligados às relações interpessoais.
Já a comunicação, citada em apenas um estudo em referência a investigação da fala, se identificada como um fator incluido na avaliação do desenvolvimento neuropsicomotor, pode ser considerar presente em outros trabalhos. Para Roper, Logan e Tierney (2001), a idade é uma das circunstâncias que influenciam na comunicação, requerendo competência para decodificar tanto a comunicação verbal como a não verbal dos bebês e das crianças. Além disso, por razões como deficiência mental ou física específica e dificuldades importantes de aprendizagem, as crianças poderão estar depedentes da ajuda de outros.
Trabalhar e distrair-se é uma categoria que surge com frequência máxima nos relatos: 100%. Pode ser contemplada no contexto cultural e socioeconômico, violência, cuidado com os filhos, ambiente, comportamento e relações interpessoais, intrafamiliares e no ambiente escolar. Roper, Logan e Tierney (2001) apontam que, para alguns pais com vários filhos e pais solteiros, muitas diversões são caras e isso pode ser um problema para essa familía. O fato, segundo as teóricas, é reconhecido em alguns países que oferecem, por exemplo, preços reduzidos em entradas de lazer. As autoras chamam atenção ainda para o trabalho infantil e para a necessidade do cumprimento das leis para a proteção das crianças, que, segundo enfatizam, nunca conhecerão a escola ou o luxo de uma brincadeira, pois muitas vezes a sobrevivência da família depende das quantias que as mesmas crianças recebem ao trabalhar.
Considera-se que podem ser agregados a essa categoria fatores relacionados ao segmento da puericultura, calendário vacinal, além do incentivo para realização de atividades que estimulem o desenvolvimento neuropsicomotor da criança, com a inclusão de brincadeiras no domicílio e massagens de conforto.
Quanto à eliminação, questões dirigidas para a frequência e características das excreções são fatores importantes para determinar condutas e orientações nas consultas em puericultura, e surgiram em 11% dos relatos. No referencial trabalhado, é uma resposta que faz parte da vida diária e implica mais do que atos físicos, estando intimamente relacionada com as ALs mobilizar-se, higiene pessoal e vestir-se.
A AL exprimir sexualidade está presente em 65% dos relatos. Salienta-se a importância de sua avaliação durante a consulta de enfermagem. Roper, Logan e Tierney (2001) chamam a atenção para questões relacionadas aos abusos sexuais, com potenciais prejuízos para as crianças, que também poderão estar presentes em pessoas que, desde a infância, sentem que nasceram com um sexo contrário ao da estrutura com que se apresentam.
A categoria dormir foi identificada em apenas 11% dos relatos. Roper, Logan e Tierney (2001) consideram a sua relevância quando se trata das Als, pois as crianças, efetivamente, necessitam de mais sono do que os adultos e esses passam em média, cerca de um quarto a um terço das suas vidas dormindo.
As categorias controlar a temperatura do corpo e morte não foram identificadas nos estudos analisados, por isso não compuseram a discussão acima. No entanto, para uma assistência integral à criança, as duas categorias podem e devem ser avaliadas e abordadas durante a consulta de enfermagem. A aferição da temperatura da criança durante o atendimento do enfermeiro é uma forma de realizar a prevenção e identificação de agravos à saúde. O procedimento é capaz de oferer ainda informação quanto ao conforto do vestuário, adequando-o ao clima local. As teóricas salientam que a adaptação interna do corpo é o fator mais importante para o controle da temperatura, mas lembram que a escassez de recurso financeiro ou a condição socioeconômica colocam as pessoas expostas aos efeitos adversos do clima, e as crianças e idosos são mais vulneráveis às condições de hipotermia.
Da mesma forma, a AL morte pode estar relacionada a causas acidentais ou morte súbita (ROPER, LOGAN, TIERNEY, 2001). Então podem também ter espaço nas orientações sobre a prevenção e devem ser trabalhadas temáticas como a morte súbita, broncoaspiração e prevenção de acidentes domésticos e automobilíticos, entre outros.
5. CONCLUSÃO
As pesquisas, em sua totalidade, evidenciaram a possibilidade de correlacionar as ALs mencionadas pelas teóricas, que constituíram a base deste estudo, à assistência de enfermagem. Em vários estudos, foram identificadas e estavam descritas de forma clara, em outros, se mostraram de forma mais implícita.
Dessa maneira, a correlação das diretrizes de cuidado à criança durante a consulta de enfermagem com as atividades de vida trouxe consigo a possibilidade de enfatizar pontos que devem merecer atenção durante o ensino aprendizagem para enfermeiros no que se refere à consulta de puericultura.
Pelo realismo, a simplicidade e a acessibilidade das contribuições do modelo de enfermagem Roper, Logan e Tierney (2001), conclui-se que é possível tê-lo como base para o ensino aprendizagem de enfermeiros na área de saúde da criança, com abrangência tanto na educação formal quanta na não-formal.
Assim, destaca-se a possibilidade de utilizar esse modelo para o desenvolvimento da ferramenta de ensino, proposta no curso de Mestrado de Educação em Saúde e Meio Ambiente, na área de saúde da criança para enfermeiros, obtendo-se desta forma um instrumento preparado com rigor metodológico e embasamento científico, ao mesmo tempo garantindo que a assistência de enfermagem seja oferecida de forma sistematizada e com a possibilidade palpável de ser aplicada, por ter sido desenvolvida diante da realidade dos atendimentos que se apresentam nas unidades de saúde da atenção primária, apoiando-se na prestação de cuidados à criança pelos enfermeiros.
Aponta-se a necessidade de desenvolver a assistência, bem como o ensino em enfermagem, sob arcabouços teóricos, de forma a garantir sua cientificidade, principalmente no que diz respeito à assistência prestada por esses profissionais.
Esperamos que este estudo possa contribuir para o desenvolvimento do conhecimento acerca dos cuidados à criança, facilitando a aquisição de informações, bem como o esclarecimento de dúvidas acerca do cuidado, estimulando o raciocínio crítico-reflexivo e aproximando cada vez mais a profissão de uma assistência sistematizada e da cientificidade em busca da implementação do cuidado eficiente e efetivo em enfermagem.
Espera-se que este estudo seja instrumento de estímulo para o desenvolvimento de outros, tanta na área de saúde da criança quanto em outros campos de atuação do enfermeiro.
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1 Discente do curso de Mestrado Profissional em Ensino em Ciências da Saúde e do Meio Ambiente do Centro Universitário de Volta Redonda - UnIFOA, e-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Doutora e Pós-Doutora em Ciências, Enfermeira, Docente do curso de Mestrado Profissional em Ensino em Ciências da Saúde e do Meio Ambiente do Centro Universitário de Volta Redonda - UnIFOA, e-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail