REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/788224453
RESUMO
A escola constitui um espaço privilegiado para a construção de conhecimentos, relações sociais, valores e identidades. Entretanto, a formação escolar ultrapassa a dimensão cognitiva ao favorecer experiências que permitem às crianças reconhecerem-se como parte de uma comunidade historicamente constituída. Este capítulo apresenta o projeto "CBNB: Eu faço parte dessa história", desenvolvido com estudantes do Ensino Fundamental I no Colégio Brigadeiro Newton Braga (CBNB), instituição assistencial vinculada à Força Aérea Brasileira. O projeto tem como finalidade promover o sentimento de pertencimento por meio da valorização da memória institucional, envolvendo atividades investigativas, visitas aos diferentes espaços da escola, pesquisas documentais, entrevistas com ex-alunos, gestores, professores e servidores, além da realização de exposições produzidas pelas próprias crianças. Fundamentado nas contribuições de Paulo Freire, Lev Vygotsky, Maurice Halbwachs, Michael Pollak, Pierre Nora, Magda Soares, Dermeval Saviani e António Nóvoa, o texto discute como a memória escolar constitui importante instrumento para a formação da identidade, da cidadania e do protagonismo infantil. Defende-se que conhecer a história da própria escola favorece aprendizagens significativas, fortalece vínculos afetivos e amplia o compromisso das crianças com a preservação do patrimônio material e imaterial da instituição.
Palavras-chave: memória escolar; pertencimento; identidade; alfabetização; educação patrimonial.
ABSTRACT
The school constitutes a privileged space for the construction of knowledge, social relationships, values, and identities. However, school education goes beyond the cognitive dimension by fostering experiences that allow children to recognize themselves as part of a historically constituted community. This chapter presents the project “CBNB: I Am Part of This History”, developed with Elementary School students at Colégio Brigadeiro Newton Braga (CBNB), a welfare institution affiliated with the Brazilian Air Force. The project aims to promote a sense of belonging through the appreciation of institutional memory, involving investigative activities, visits to different areas of the school, documentary research, interviews with former students, administrators, teachers, and staff members, as well as exhibitions produced by the children themselves. Based on the contributions of Paulo Freire, Lev Vygotsky, Maurice Halbwachs, Michael Pollak, Pierre Nora, Magda Soares, Dermeval Saviani, and António Nóvoa, the text discusses how school memory constitutes an important instrument for the formation of identity, citizenship, and children’s agency. It is argued that knowing the history of one’s own school promotes meaningful learning, strengthens affective bonds, and increases children’s commitment to the preservation of the institution’s tangible and intangible heritage.
Keywords: school memory; belonging; identity; literacy; heritage education.
INTRODUÇÃO
Toda escola possui uma história. Antes mesmo da chegada de seus estudantes, professores e gestores atuais, outras pessoas ocuparam aqueles mesmos espaços, construíram relações, compartilharam saberes e deixaram marcas que continuam presentes nos corredores, nas fotografias, nos documentos, nas lembranças e, sobretudo, na memória coletiva da instituição. Essa história, muitas vezes silenciosa, constitui um patrimônio educativo de valor inestimável, pois preserva experiências, valores e tradições que ajudam a compreender a identidade da comunidade escolar.
Entretanto, apesar da riqueza desse patrimônio, nem sempre as crianças têm oportunidade de conhecer a trajetória da instituição onde estudam. Frequentam diariamente salas de aula, bibliotecas, pátios e laboratórios sem perceber que esses espaços guardam narrativas que atravessam gerações. Consequentemente, a escola pode ser compreendida apenas como um local destinado às atividades pedagógicas, e não como um ambiente de construção de identidade, memória e pertencimento.
Foi a partir dessa reflexão que nasceu o projeto "CBNB: eu faço parte dessa história", desenvolvido no Colégio Brigadeiro Newton Braga (CBNB), instituição assistencial vinculada à Força Aérea Brasileira. A iniciativa surgiu do desejo de aproximar as crianças da história da própria escola, permitindo que compreendessem que fazem parte de uma trajetória construída por diferentes gerações e que suas vivências também integrarão a memória institucional.
Embora o projeto envolva atividades de pesquisa histórica, sua finalidade ultrapassa o estudo cronológico dos acontecimentos. O objetivo maior consiste em desenvolver, desde os primeiros anos do Ensino Fundamental, o sentimento de pertencimento, favorecendo a construção da identidade escolar e fortalecendo vínculos entre estudantes, professores, famílias e comunidade.
Essa perspectiva encontra respaldo na compreensão de que a educação não se restringe à transmissão de conteúdos. Educar implica formar sujeitos capazes de compreender sua realidade, reconhecer seu papel social e participar ativamente da construção da sociedade. Como afirma Paulo Freire (1996), ensinar exige reconhecer que homens e mulheres são seres históricos, inacabados, permanentemente inseridos em processos de transformação. Assim, ao conhecerem a história da escola, as crianças não apenas aprendem sobre o passado, mas descobrem que também são autoras da história que está sendo escrita diariamente.
Nesse contexto, o sentimento de pertencimento assume papel central. Sentir-se pertencente significa reconhecer-se como parte de um grupo, identificar-se com seus valores, compreender sua história e assumir responsabilidades pela continuidade dessa trajetória. Trata-se de uma dimensão afetiva, cultural e social que influencia diretamente a maneira como o estudante estabelece relações com a escola, com seus colegas e consigo mesmo.
Sob essa perspectiva, o projeto dialoga com princípios presentes na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), especialmente aqueles relacionados à valorização da diversidade cultural, ao desenvolvimento da cidadania, ao exercício da empatia, da cooperação, da responsabilidade e da participação social. Ao promover experiências investigativas que envolvem memória, patrimônio e identidade, a proposta amplia as possibilidades de aprendizagem para além dos conteúdos disciplinares, favorecendo a formação integral das crianças.
Ao mesmo tempo, o projeto reconhece que a alfabetização não se limita ao domínio do sistema de escrita alfabética. Conforme defende Magda Soares (2004), alfabetizar implica inserir o sujeito nas práticas sociais da leitura e da escrita, possibilitando-lhe compreender e produzir sentidos em diferentes contextos culturais. Quando as crianças entrevistam ex-alunos, registram descobertas, analisam fotografias antigas, produzem relatos e organizam exposições, elas vivenciam práticas reais de leitura e escrita, atribuindo significado às aprendizagens desenvolvidas em sala de aula.
Dessa forma, a memória institucional transforma-se em objeto de investigação, produção textual, oralidade, leitura, pesquisa e construção coletiva do conhecimento, aproximando alfabetização, letramento e formação cidadã.
Este capítulo apresenta os fundamentos teóricos que sustentam essa proposta pedagógica, descreve o percurso metodológico desenvolvido no Colégio Brigadeiro Newton Braga e analisa os impactos observados na formação das crianças, evidenciando como a valorização da memória institucional pode constituir importante estratégia para fortalecer a identidade, o pertencimento e o protagonismo estudantil.
A ESCOLA COMO LUGAR DE MEMÓRIA, IDENTIDADE E PERTENCIMENTO
A memória ocupa lugar central na constituição das sociedades. É por meio dela que indivíduos e grupos preservam experiências, compartilham tradições, constroem referências comuns e produzem sentimentos de identidade. Longe de representar apenas um conjunto de recordações individuais, a memória constitui um fenômeno essencialmente social, continuamente reconstruído pelas relações estabelecidas entre sujeitos e grupos.
Maurice Halbwachs (1990), ao desenvolver o conceito de memória coletiva, demonstra que nossas lembranças são organizadas a partir dos grupos sociais dos quais participamos. Família, comunidade, escola, instituições religiosas e organizações diversas constituem espaços nos quais as experiências individuais adquirem significado coletivo. Não recordamos isoladamente; recordamos porque pertencemos a grupos que compartilham narrativas, símbolos e referências comuns.
Sob essa perspectiva, a escola configura-se como um dos principais espaços de produção de memória coletiva. Ao longo de décadas, milhares de estudantes transitam pelos mesmos corredores, participam de celebrações, estabelecem vínculos afetivos, aprendem com diferentes professores e constroem experiências que passam a integrar a história institucional. Essa memória não permanece apenas nos arquivos ou documentos oficiais; ela se manifesta nas narrativas compartilhadas, nos objetos preservados, nas fotografias, nos símbolos e nos valores que caracterizam cada instituição.
Michael Pollak (1992) amplia essa discussão ao afirmar que memória e identidade constituem processos inseparáveis. Segundo o autor, a identidade de indivíduos e grupos é continuamente construída a partir das lembranças que selecionam, preservam e compartilham. A memória, portanto, não representa apenas um registro do passado, mas um elemento ativo na definição de quem somos e de como nos reconhecemos enquanto sujeitos pertencentes a determinada coletividade.
Essa compreensão revela a importância de projetos pedagógicos que aproximem as crianças da história da escola. Ao conhecerem acontecimentos, personagens e transformações que marcaram a instituição, os estudantes passam a reconhecer-se como integrantes dessa comunidade histórica. Desenvolvem não apenas conhecimento sobre o passado, mas também vínculos afetivos que fortalecem o compromisso com a preservação do patrimônio institucional.
Nesse sentido, Pierre Nora (1993) introduz uma contribuição particularmente relevante ao propor o conceito de "lugares de memória". Para o historiador francês, determinados espaços, objetos, documentos e monumentos tornam-se depositários da memória coletiva porque concentram significados compartilhados por uma comunidade. Mais do que simples construções físicas, esses lugares representam referências simbólicas que mantêm viva a identidade dos grupos sociais.
O Centro de Memórias do Colégio Brigadeiro Newton Braga constitui um exemplo concreto desse conceito. Fotografias, documentos históricos, uniformes, objetos antigos e registros institucionais deixam de representar apenas arquivos preservados para tornarem-se elementos vivos da história escolar. Quando as crianças entram em contato com esses materiais, estabelecem conexões entre passado e presente, compreendendo que a instituição é resultado das contribuições de inúmeras pessoas que por ali passaram.
Ao visitar esses espaços, observar fotografias antigas ou ouvir relatos de ex-alunos e professores, os estudantes deixam de perceber a escola apenas como cenário cotidiano e passam a reconhecê-la como patrimônio coletivo, construído historicamente e permanentemente ressignificado pelas novas gerações.
Essa mudança de percepção constitui um dos fundamentos do projeto "CBNB: eu faço parte dessa história". Mais do que transmitir informações históricas, pretende-se favorecer experiências capazes de despertar nas crianças o reconhecimento de que elas próprias também participam da construção dessa memória coletiva.
É justamente nesse ponto que memória, identidade e pertencimento convergem. Ao compreender que sua presença integra uma história maior, a criança fortalece o vínculo afetivo com a escola, desenvolve responsabilidade pelo cuidado com os espaços comuns e amplia sua participação na vida institucional. O pertencimento deixa de ser um conceito abstrato para transformar-se em experiência vivida, construída diariamente nas relações estabelecidas entre sujeitos, lugares e memórias.
O COLÉGIO BRIGADEIRO NEWTON BRAGA: EDUCAR PARA FORMAR CIDADÃOS
O Colégio Brigadeiro Newton Braga (CBNB), instituição assistencial vinculada à Força Aérea Brasileira, consolidou, ao longo de sua trajetória, uma proposta educativa que ultrapassa a transmissão de conhecimentos escolares. Sua missão está voltada para a formação integral de crianças e adolescentes, articulando excelência acadêmica, valores éticos, responsabilidade social, respeito à diversidade e compromisso com a cidadania.
Nesse contexto, compreender a história da própria instituição constitui uma oportunidade pedagógica singular. Mais do que conhecer datas, fatos ou personagens, trata-se de reconhecer que a escola é um espaço socialmente construído, onde diferentes gerações compartilharam experiências, produziram conhecimentos e deixaram marcas que continuam presentes na cultura institucional.
Ao longo dos anos, milhares de estudantes passaram pelas salas de aula do CBNB. Professores, servidores civis e militares, gestores e famílias contribuíram para consolidar uma identidade própria, marcada pelo compromisso com a educação, pela valorização do conhecimento e pelo fortalecimento dos princípios que orientam a Força Aérea Brasileira, como disciplina, respeito, cooperação, ética e espírito de coletividade.
No entanto, a identidade institucional não se preserva apenas por documentos oficiais ou registros administrativos. Ela permanece viva quando é conhecida, valorizada e apropriada pelas novas gerações. Foi justamente essa compreensão que motivou a elaboração do projeto "CBNB: eu faço parte dessa história".
Ao aproximar as crianças da memória institucional, buscou-se desenvolver uma relação de pertencimento capaz de fortalecer os vínculos afetivos com a escola e ampliar a compreensão de que todos os membros da comunidade educativa são responsáveis pela preservação de sua história.
A ORIGEM DO PROJETO: QUANDO UMA PERGUNTA TRANSFORMA A PRÁTICA PEDAGÓGICA
No cotidiano das turmas do Ensino Fundamental I, tornou-se recorrente perceber que muitas crianças demonstravam enorme curiosidade sobre a escola. Perguntavam quem havia construído determinados espaços, por que algumas salas possuíam nomes específicos, quem aparecia nas fotografias expostas pelos corredores ou como era o colégio quando seus pais ainda eram crianças.
Esses questionamentos revelavam algo importante: havia interesse genuíno em conhecer a história do lugar onde estudavam, mas esse conhecimento ainda não fazia parte da experiência escolar cotidiana.
Ao mesmo tempo, observava-se que, embora utilizassem diariamente diferentes ambientes da instituição, muitas crianças não reconheciam esses espaços como parte de um patrimônio histórico e cultural.
Foi dessa constatação que surgiu a ideia de transformar a própria escola em objeto de investigação.
Em vez de buscar referências apenas em livros didáticos ou em contextos distantes da realidade infantil, decidiu-se partir daquilo que estava mais próximo das crianças: sua própria escola.
Essa escolha dialoga diretamente com Paulo Freire, quando defende que a aprendizagem deve partir da realidade concreta dos educandos. Conhecer o mundo começa por compreender o lugar onde se vive, as relações que se estabelecem cotidianamente e as histórias que fazem parte da experiência de cada sujeito.
Assim nasceu o projeto "CBNB: eu faço parte dessa história", envolvendo turmas do Ensino Fundamental I, incluindo estudantes em processo de alfabetização.
OBJETIVOS DO PROJETO
O objetivo geral consiste em fortalecer o sentimento de pertencimento das crianças por meio do conhecimento da história institucional do Colégio Brigadeiro Newton Braga.
Como objetivos específicos, o projeto busca:
promover o reconhecimento da escola como patrimônio histórico, cultural e afetivo da comunidade escolar;
desenvolver atitudes de cuidado, preservação e valorização dos espaços coletivos;
estimular a curiosidade científica por meio da investigação histórica;
favorecer práticas significativas de leitura, escrita, oralidade e pesquisa;
incentivar o diálogo entre diferentes gerações da comunidade escolar;
fortalecer a identidade institucional e o protagonismo infantil;
integrar diferentes componentes curriculares em torno de uma temática comum.
Esses objetivos evidenciam que a proposta ultrapassa o ensino da História enquanto disciplina escolar, constituindo uma experiência interdisciplinar que mobiliza diferentes campos do conhecimento.
O PERCURSO METODOLÓGICO
O projeto foi estruturado segundo uma abordagem investigativa, compreendendo que as crianças aprendem de maneira mais significativa quando participam ativamente da construção do conhecimento.
Em lugar de apresentar informações prontas, optou-se por organizar situações de pesquisa capazes de despertar curiosidade, formular hipóteses, levantar perguntas, analisar evidências e produzir interpretações.
Essa metodologia aproxima-se da perspectiva defendida por Vygotsky, segundo a qual a aprendizagem ocorre mediante interações sociais e mediações culturais.
Ao longo do desenvolvimento do projeto, cada turma foi incentivada a assumir o papel de pesquisadora da história do CBNB.
O trabalho iniciou-se com rodas de conversa nas quais os estudantes compartilharam seus conhecimentos prévios sobre a instituição.
Perguntas como "Quem fundou nossa escola?", "Como ela era antigamente?", "Quem estudou aqui antes de nós?" e "O que mudou ao longo dos anos?" orientaram toda a investigação. Essas perguntas não tinham respostas imediatas. Ao contrário, tornaram-se desafios que impulsionaram o desenvolvimento das atividades seguintes.
PRIMEIRA ETAPA: DESCOBRINDO A ESCOLA COM NOVOS OLHARES
A primeira experiência consistiu em percorrer diferentes espaços do colégio. Embora esses ambientes fizessem parte da rotina escolar, passaram a ser observados sob uma perspectiva completamente diferente. Cada corredor, mural, jardim, sala de aula, quadra esportiva, biblioteca e espaço de convivência foi apresentado como parte da história institucional.
Durante as visitas, professores compartilhavam informações históricas, curiosidades e relatos sobre mudanças ocorridas ao longo do tempo. As crianças comparavam fotografias antigas com a configuração atual dos ambientes, identificando permanências e transformações.
Esse exercício favoreceu o desenvolvimento da observação, da comparação e da percepção histórica. Pouco a pouco, os espaços deixaram de ser vistos apenas como locais de circulação cotidiana para transformarem-se em lugares carregados de significados.
Era possível perceber o encantamento dos estudantes ao descobrir que muitas áreas da escola haviam passado por modificações ao longo dos anos e que diferentes gerações haviam estudado exatamente naqueles mesmos locais. A escola começava a revelar sua história.
SEGUNDA ETAPA: O CENTRO DE MEMÓRIAS COMO LABORATÓRIO DE APRENDIZAGEM
A visita ao Centro de Memórias representou um dos momentos mais marcantes do projeto. Para muitas crianças, foi a primeira oportunidade de entrar em contato direto com documentos históricos preservados pela instituição. Fotografias antigas, uniformes, objetos utilizados em diferentes períodos, registros administrativos, jornais, troféus, documentos oficiais e materiais diversos despertaram intensa curiosidade.
Cada objeto suscitava perguntas. Quem usou esse uniforme? Quando essa fotografia foi tirada? Por que esse documento foi guardado? Quem aparece nessa imagem?
Essas perguntas revelavam que as crianças não estavam apenas observando objetos antigos. Elas estavam produzindo interpretações sobre o passado. Nesse momento, concretizava-se aquilo que Pierre Nora denomina "lugares de memória".
O Centro de Memórias deixava de ser apenas um espaço de conservação documental para transformar-se em ambiente de aprendizagem, investigação e construção de sentidos.
A experiência permitiu que os estudantes compreendessem que preservar documentos significa preservar pessoas, histórias, sentimentos e identidades.
TERCEIRA ETAPA: APRENDENDO COM QUEM VIVEU ESSA HISTÓRIA
Um dos diferenciais do projeto foi a realização de entrevistas com diferentes membros da comunidade escolar. Participaram dessa etapa ex-alunos, professores aposentados e em exercício, gestores, servidores civis e militares, além de outros colaboradores que, em diferentes momentos, contribuíram para a história do Colégio Brigadeiro Newton Braga.
As entrevistas foram cuidadosamente preparadas pelas próprias crianças.
Antes dos encontros, os estudantes organizaram roteiros de perguntas, discutiram quais informações desejavam conhecer e refletiram sobre a importância da escuta respeitosa.
Durante as conversas, descobriram histórias que dificilmente apareceriam em documentos oficiais. Relatos sobre festas escolares, mudanças na estrutura física, antigos projetos pedagógicos, amizades construídas na escola e experiências marcantes revelaram que a história institucional é composta por vivências humanas.
Ao ouvir esses depoimentos, as crianças compreenderam que a memória também se transmite pela palavra, pela emoção e pelas narrativas compartilhadas. Esses encontros fortaleceram os vínculos entre gerações e permitiram que os estudantes percebessem que a história do CBNB continua viva nas pessoas que passaram pela instituição.
Mais do que ouvir relatos, as crianças aprenderam que toda história merece ser registrada, preservada e compartilhada.
OS RESULTADOS DO PROJETO: QUANDO A ESCOLA PASSA A FAZER PARTE DA IDENTIDADE DA CRIANÇA
Ao longo do desenvolvimento do projeto "CBNB: eu faço parte dessa história", tornou-se evidente que o maior resultado alcançado não pode ser mensurado apenas pelo número de atividades realizadas ou pelos produtos apresentados nas exposições. Seu impacto mais significativo manifestou-se na transformação da relação estabelecida entre as crianças e a escola.
Desde as primeiras visitas aos diferentes espaços institucionais até os momentos finais de socialização das pesquisas, observou-se uma mudança gradual na maneira como os estudantes passaram a perceber o Colégio Brigadeiro Newton Braga. A instituição deixou de representar apenas o lugar onde estudavam para constituir um espaço carregado de significados afetivos, históricos e culturais. Essa mudança revela que o sentimento de pertencimento não é produzido por discursos, mas por experiências vividas.
Ao conhecerem a história da escola, conversarem com pessoas que ajudaram a construi-la, analisarem fotografias antigas e entrarem em contato com documentos preservados no Centro de Memórias, as crianças passaram a compreender que a instituição possui uma trajetória que começou muito antes de sua chegada e continuará sendo escrita pelas gerações futuras.
Esse reconhecimento provocou mudanças perceptíveis no cotidiano escolar. As crianças passaram a identificar fotografias antigas expostas pelos corredores, comentavam acontecimentos históricos durante as aulas e demonstravam satisfação ao reconhecer que seus próprios registros também fariam parte da memória institucional.
Esse aspecto confirma as reflexões de Halbwachs (1990), segundo as quais a memória coletiva fortalece o sentimento de pertencimento ao permitir que os indivíduos reconheçam seu lugar dentro de um grupo social.
No caso do CBNB, esse grupo é constituído por estudantes, professores, gestores, servidores, famílias e ex-alunos que compartilham uma história comum. Ao inserir as crianças nessa rede de relações, o projeto amplia significativamente sua identidade institucional.
Da mesma forma, Pollak (1992) afirma que a memória constitui importante elemento na construção da identidade social.
Durante o desenvolvimento do projeto, percebeu-se que os estudantes passaram a utilizar com maior frequência expressões como "nossa escola", "nossa história", "nosso Centro de Memórias" e "nós fazemos parte disso".
Essas mudanças linguísticas revelam transformações mais profundas na maneira como as crianças passaram a compreender sua relação com a instituição. O pronome "nosso" deixou de indicar apenas posse e passou a expressar pertencimento.
Sob a perspectiva de Vygotsky (1998), os resultados também evidenciam a importância das interações sociais no desenvolvimento infantil. As aprendizagens mais significativas ocorreram justamente nos momentos em que as crianças dialogaram com outras pessoas.
As entrevistas constituíram oportunidades privilegiadas para o desenvolvimento da oralidade, da escuta sensível, da formulação de perguntas e da interpretação de narrativas.
Ao mesmo tempo, as produções escritas realizadas ao longo do projeto atribuíram novos sentidos ao processo de alfabetização.
Os registros deixaram de representar simples exercícios escolares e passaram a constituir documentos destinados à preservação da memória institucional. Nesse aspecto, confirma-se a concepção defendida por Magda Soares (2004), segundo a qual alfabetização e letramento devem ocorrer de maneira integrada, inserindo as crianças em práticas sociais reais de leitura e escrita.
Escrever sobre a própria escola, registrar entrevistas, elaborar legendas para fotografias e produzir textos para exposições conferiu sentido às aprendizagens desenvolvidas durante o processo de alfabetização.
Sob a ótica de Paulo Freire (1996), o projeto reafirma que a educação acontece quando os estudantes assumem papel ativo na construção do conhecimento.
Ao investigarem a história do CBNB, as crianças deixaram de ocupar posição passiva para tornarem-se pesquisadoras de sua própria realidade. Elas formularam perguntas, levantaram hipóteses, produziram registros, interpretaram documentos e compartilharam descobertas com a comunidade escolar.
Esse movimento caracteriza uma educação fundamentada no diálogo, na investigação e na valorização da experiência. Também merece destaque o fortalecimento das relações entre diferentes gerações da comunidade escolar.
Ao promover encontros entre estudantes, ex-alunos, professores, gestores e servidores, o projeto possibilitou a circulação de narrativas que dificilmente seriam preservadas apenas por documentos escritos. Esses relatos constituem importante patrimônio imaterial da instituição e contribuem para manter viva sua memória coletiva.
Outro aspecto relevante refere-se à interdisciplinaridade. Embora o projeto tenha sido desenvolvido a partir da valorização da história institucional, seus desdobramentos alcançaram diferentes componentes curriculares. Em Língua Portuguesa, fortaleceram-se práticas de leitura, escrita e oralidade. Na História, ampliou-se a compreensão das relações entre passado e presente. Na Geografia, desenvolveram-se noções de lugar e pertencimento. Nas Artes, as exposições favoreceram diferentes formas de expressão estética.
Esse caráter interdisciplinar demonstra que projetos de memória institucional constituem importantes estratégias para integrar conhecimentos e promover aprendizagens contextualizadas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao refletirmos sobre o percurso desenvolvido no projeto "CBNB: eu faço parte dessa história", compreendemos que conhecer a história da escola significa muito mais do que estudar acontecimentos do passado. Significa reconhecer que a educação é construída diariamente pelas pessoas que compartilham um mesmo espaço, uma mesma cultura institucional e um mesmo compromisso com a formação humana.
As experiências vivenciadas pelas crianças evidenciam que o sentimento de pertencimento nasce quando elas se reconhecem como participantes da história da instituição. Ao investigarem documentos, ouvirem relatos, visitarem espaços históricos, registrarem descobertas e socializarem conhecimentos, passaram a compreender que também produzem memórias que integrarão a trajetória do Colégio Brigadeiro Newton Braga.
Os referenciais de Maurice Halbwachs, Michael Pollak e Pierre Nora permitiram compreender que memória, identidade e patrimônio constituem dimensões inseparáveis da vida coletiva. As contribuições de Paulo Freire, Lev Vygotsky, Magda Soares, Dermeval Saviani e António Nóvoa evidenciaram que a aprendizagem acontece quando o conhecimento dialoga com a realidade, promove interações significativas e reconhece os estudantes como sujeitos históricos.
Nesse sentido, o projeto reafirma que alfabetizar também significa ensinar as crianças a lerem os espaços que habitam, as histórias que as antecedem e as relações que constroem diariamente. Ao escreverem sobre sua própria escola, elas não apenas aprendem a utilizar a linguagem escrita; aprendem a reconhecer-se como autoras de uma memória coletiva em permanente construção.
Como educadores, acreditamos que toda instituição escolar guarda um patrimônio material e imaterial capaz de transformar-se em potente recurso pedagógico. Valorizar esse patrimônio significa fortalecer vínculos, promover o respeito à história, estimular a pesquisa, ampliar as práticas de leitura e escrita e formar sujeitos comprometidos com a preservação da memória coletiva.
No Colégio Brigadeiro Newton Braga, essa experiência permitiu compreender que a história institucional não pertence apenas ao passado. Ela continua sendo escrita todos os dias, por cada criança que atravessa seus portões, ocupa suas salas de aula, estabelece novas amizades, aprende, ensina, sonha e deixa suas próprias marcas.
Talvez esse seja o maior legado do projeto: fazer com que cada estudante possa afirmar, com convicção e orgulho, "Eu faço parte dessa história."
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1 Pós-Doutora em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Doutora pela Universidade Católica de Petrópolis e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Pedagoga formada pela UERJ. Psicopedagoga. Especialista em Educação Inclusiva. Adjunta e Assessora Pedagógica da Divisão de Ensino no Colégio Brigadeiro Newton Braga, na Cidade do Rio de Janeiro, no Brasil. Membro do GRUFOP na Universidade Católica de Petrópolis. Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Práticas e Saberes Docentes (GEPSAD), no CBNB.