MANEJO CAT FRIENDLY: ESTRATÉGIAS PARA UM MELHOR ATENDIMENTO AOS FELINOS – REVISÃO DE LITERATURA

CAT-FRIENDLY HANDLING: STRATEGIES FOR IMPROVED CARE OF FELINES – A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793862834

RESUMO
O manejo Cat Friendly tem se tornado uma abordagem essencial na medicina felina por considerar as particularidades comportamentais e emocionais dos gatos e propor estratégias que reduzam o estresse durante o atendimento veterinário. Este trabalho teve como objetivo descrever práticas do manejo Cat Friendly e analisar como adaptações ambientais, técnicas de contenção suave e estratégias de interação podem melhorar a qualidade do atendimento. Realizou-se uma revisão integrativa da literatura com buscas em bases científicas entre 2015 e 2025, selecionando estudos relacionados ao manejo felino e ao estresse em consultas. A análise dos artigos indicou que ambientes adaptados, uso de feromônios sintéticos, interpretação da linguagem corporal e participação do tutor contribuem para reduzir comportamentos defensivos, facilitar o exame físico e tornar a experiência clínica mais segura para o animal e os profissionais. Conclui-se que a adoção de práticas Cat Friendly representa um avanço na medicina felina ao promover atendimentos mais humanizados, prevenir experiências negativas e fortalecer a adesão dos tutores aos cuidados preventivos.
Palavras-chave: felinos; estresse; comportamento; atendimento veterinário; manejo Cat Friendly.

ABSTRACT
The Cat Friendly approach has become essential in feline veterinary medicine by addressing the behavioral and emotional needs of cats and applying strategies to reduce stress during clinical care. This study aimed to describe Cat Friendly practices and analyze how environmental adaptations and gentle handling techniques improve the quality of veterinary consultations. An integrative literature review was conducted using scientific databases from 2015 to 2025, selecting studies related to feline handling and stress during clinical visits. The analysis showed that environmental modifications, the use of synthetic pheromones, proper interpretation of feline body language, and caregiver participation contribute to reducing defensive behaviors and facilitating physical examinations, resulting in safer and more positive clinical experiences. It is concluded that implementing Cat Friendly practices advances feline medicine by promoting humane care and encouraging routine veterinary visits.
Keywords: felines; stress; behavior; veterinary care; Cat Friendly.

1. INTRODUÇÃO

Com base no levantamento da Comissão de Animais de Companhia (2022), o Brasil ultrapassou a marca de 85 milhões de animais de estimação, registrando crescimento de 4,5% em relação ao ano anterior. Estimativas mais recentes indicam que o país ocupa a terceira posição mundial em população de pet, com valores entre 150 e 160 milhões de animais, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da China (Abinpet, 2024)

Contudo, a população de gatos domésticos (Felis Catus) também apresenta um crescimento significativo, em decorrência disso, também ocorreu uma maior procura por atendimentos voltados aos felinos (Pereira et al., 2016). De acordo com o Instituto Pet Brasil (2025), a população de gatos nos lares brasileiros atingiu 30,8 milhões de animais em maio de 2025, evidenciando um aumento de 5,4% em relação a estimativa de 2022, representando uma parcela expressiva de população de animais de estimação no país.

Os gatos domésticos foram domesticados mais tarde que os cães e, por isso, ainda mantêm muitos traços comportamentais de seus ancestrais selvagens (Bradshaw, 2018). Essa domesticação mais recente contribui para que mantenham comportamento territorial e instintos de caça bastante evidentes, incluindo o padrão de luta ou fuga como mecanismo de defesa (Bradshaw, 2018; Cecchetti et al., 2021; Ottobeli et al., 2022).

De acordo com Little (2015), o medo e a ansiedade são fatores determinantes nas reações de agressividade e nos comportamentos inadequados durante o atendimento a felinos. Esses sentimentos correspondem a respostas naturais de defesa, acionadas principalmente em ambientes desconhecidos ou diante de experiências negativas anteriores, podendo intensificar comportamentos de luta e fuga (Pereira et al., 2016). Dessa forma, é imprescindível que o profissional veterinário compreenda a relação entre medo e comportamento, adotando estratégias que reduzam o estresse do animal e promovam um atendimento mais seguro e eficaz (Little, 2015).

O estresse relacionado à ida ao veterinário contribui para a ausência de cuidados preventivos e atrasos nos atendimentos. Isso porque a experiência pode ser estressante tanto para o gato como para o tutor. O estresse inicia antes mesmo da consulta e pode perdurar por vários dias (Rodan, 2016). Por isso é fundamental que os veterinários tenham conhecimento técnico sobre o manejo amigável e saibam aplicá-lo de forma correta com o intuito de garantir um atendimento tranquilo, seguro e eficaz tanto para os pacientes como para os tutores (Ottobeli et al., 2022).

Além disso, níveis elevados de estresse nos felinos podem desencadear comportamentos agressivos, tornando o manejo durante o atendimento veterinário significativamente mais difícil e arriscado, tanto para o profissional quanto para o animal (Damasceno et al, 2022). Ainda, o estresse pode interferir diretamente em parâmetros fisiológicos, causando alterações em amostras sanguíneas, exames laboratoriais imprecisos e comprometendo a confiabilidade de diagnósticos e decisões clínicas subsequentes (Little, 2015; Heath, 2018). O estresse não se limita somente à consulta: experiências traumáticas podem gerar associações negativas com o ambiente clínico, levando tutores a adiar ou evitar futuras visitas, prejudicando o acompanhamento preventivo (Pereira et al., 2016). Assim, compreender e minimizar fatores estressores é essencial para o bem-estar do felino e potencializa a eficácia de diagnósticos e tratamentos.

O programa CAT FRIENDLY PRACTICE surge como uma solução para proporcionar uma melhor experiência para os gatos no atendimento veterinário. Com o objetivo de promover adaptações no manejo e no ambiente para diminuir o estresse dos felinos. O atendimento mais cuidadoso com esses animais garante uma avaliação mais precisa, além de deixar os tutores mais confortáveis e confiantes a realizarem consultas com mais frequência, contribuindo para o bem-estar desses animais a longo prazo.

2. REVISÃO DA LITERATURA

2.1. Origem e Evolução do Gato Doméstico

O gato-selvagem africano (Felis silvestris lybica), habitante de regiões do Norte da África e do Oriente próximo, é considerado como o principal ancestral do gato doméstico atualmente. Seu comportamento é de um animal solitário, territorial e com hábitos noturnos, em que a alimentação se baseia principalmente em roedores, insetos, répteis e mamíferos menores (Atkinson, 2018). Sua aparência se assemelha a um gato doméstico, porém um pouco maior e com patas longas. A hipótese para socialização dos gatos-selvagens com os humanos se dá pelo fato deles possuírem um comportamento mais dócil, sendo decisiva sua aproximação gradual aos assentamentos humanos antigos (Heath, 2018)

Com isso começou uma parceria considerada mutualista entre o ser humano e o gato doméstico; enquanto os felinos ajudavam no controle de roedores, em troca o homem oferecia abrigo e alimentos. A partir do Oriente Médio, a espécie começou a expandir por todo o Velho Mundo por rotas comerciais da antiguidade. O convívio com as pessoas se tornou cada vez mais íntimo ganhando, mais popularidade em muitos lugares, perpetuando até os dias atuais (Machado et al., 2019).

2.2. Comportamento Felino

O comportamento de um gato é fruto de uma inter-relação da sua genética com as experiências que viveu no passado e o meio atual no qual vive agora. E por mais que alguns comportamentos sejam relativamente comuns dentro da espécie, outros são exclusivos de cada indivíduo (Little, 2015). Contudo, o nível de conhecimento sobre os comportamentos felinos ainda é limitado e pouco difundido em relação aos cães. Infelizmente essa falta de compreensão pode ser um fator determinante para o desenvolvimento do estresse felino (Atkinson, 2018).

Para Howitz e Rodan (2018), pelo fato de os gatos serem descendentes de animais solitários, eles tendem a esconder sinais de dor ou doença, já que na natureza apresentar fraqueza pode comprometer sua sobrevivência. Sendo comum, então, o hábito de se isolar fazendo parte do seu comportamento natural. De acordo com Amat (2016), os felinos utilizam seus sentidos para analisar o ambiente e detectar possíveis ameaças. Alterações na rotina, no ambiente em que vivem e odores de outros felinos ou animais são interpretadas como um fator de ameaça.

2.2.1. Linguagem Corporal

Os gatos utilizam a linguagem corporal para se comunicar com outros gatos e com seres humanos. De maneira geral, características como o arqueamento do dorso e o eriçamento dos pelos podem ser indicativos de medo ou agressão em felinos, como demonstrado na Figura 1. Esses sinais, associados ao tamanho e à posição da cauda, bem como à visibilidade dos dentes, representam formas de comunicação utilizadas pelos gatos para interagir tanto com outros felinos quanto com animais de outras espécies e seres humanos (Little, 2015).

Figura 1. Expressões corporais felinas.

Fonte: Adaptada de Little (2015).

2.2.2. Visão e Posição das Orelhas

A visão e a posição das orelhas são importantes indicadores comportamentais em felinos. Os gatos possuem visão binocular adaptada à detecção de movimentos em baixa luminosidade, permitindo identificar ameaças ou estímulos no ambiente. Alterações pupilares, como dilatação intensa, podem refletir excitação, medo ou comportamento agressivo (Heath, 2018). A posição das orelhas fornece sinais adicionais sobre o estado emocional do animal. Felinos agressivos ou defensivos tendem a manter as orelhas achatadas contra a cabeça ou voltadas para trás, enquanto gatos relaxados ou curiosos posicionam as orelhas eretas e voltadas para frente, como representado na Figura 2 (Ellis et al., 2023; Pereira et al., 2016).

Figura 2. Quadro ilustrativo dos sinais faciais em gatos. Observa-se que, quanto mais para baixo, maior é a demonstração de medo e, quanto mais à direita, maior é o indicativo de agressividade.

Fonte: Adaptada de Little (2015)

2.2.3. Vocalização

Já o repertório vocal dos felinos costuma ser bastante variado e utilizado em momentos específicos, como período reprodutivo, comunicação da mãe para os filhotes e até mesmo com os humanos. O ronronar é frequentemente ligado à busca por interações e cuidados, mas também pode acontecer quando ele está em situações de dor ou com alguma enfermidade. Por outro lado, sons como grunhidos, gemidos, rosnados e gritos produzidos quando a boca está aberta e relativamente fixa ocorrem geralmente a situações de agressividade ou conflito (Carvalho; Nunes; Maldonado, 2016).

2.2.4. Olfato

A produção de feromônios em felinos ocorre em estruturas de face, como a região perioral e as bochechas nos gatos, nos coxins palmares e plantares, na região mamária, na glândula supracaudal e na região urogenital (Figura 3); eles utilizam o cheiro para se comunicar e marcar território (Henzel; Ramos., 2018). Esses feromônios auxiliam em reconhecer lugares e outros animais. O ato de esfregar-se é um comportamento comum e importante entre os gatos porque é essencial para manter a comunicação e a sensação de segurança no ambiente (Carvalho; Nunes; Maldonado, 2016). Eles possuem um órgão sensorial chamado órgão vomeronasal, também conhecido como órgão de Jacobson, que é responsável pela percepção de feromônios que, pelo movimento de flehmer, capta o feromônio e o encaminha para o sistema límbico (Rodan, 2016).

Figura 3. Localização das glândulas produtoras de feromônio felino.

Fonte: Revista Clínica Veterinária (2015).

2.3. Estresse e Medo em Felinos

O estresse nos felinos é uma resposta adaptativa a fatores percebidos como ameaçadores, mas quando elevado ou prolongado pode desencadear diversas alterações comportamentais, fisiológicas e clínicas, impactando diretamente o bem-estar e a saúde do animal (Little, 2015).

Quanto ao comportamento, gatos estressados podem apresentar agressividade, tentativas de fuga, vocalizações excessivas, arranhões e marcação urinária em locais inadequados, dificultando o manejo durante consultas, aumentando o risco de acidentes e prejudicando a interação com tutores e outros animais (Rodan; Pereira et al., 2016).

O estresse em felinos é desencadeado pela percepção de estímulos ambientais ameaçadores, ativando o sistema nervoso simpático e o eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HHA). Essa ativação promove a liberação de catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) e cortisol, responsáveis por alterações cardiovasculares, metabólicas e comportamentais, como taquicardia, hiperglicemia, midríase, vocalização e agressividade (Damasceno et al., 2022).

Consequentemente, felinos cronicamente estressados tornam-se mais suscetíveis a doenças infecciosas, distúrbios gastrointestinais, dermatopatias e desordens urinárias, como cistite idiopática felina (Little et al., 2015).

Além disso, o estresse pode interferir em exames laboratoriais, provocando alterações temporárias em parâmetros hematológicos, conhecidas como leucograma do estresse, caracterizado por neutrofilia, monocitose, linfopenia e eosinopenia (Silva; Suyena, 2019). Entretanto, a intensidade da resposta ao estresse varia entre os indivíduos, de modo que situações consideradas angustiantes para um gato podem não desencadear nenhuma reação em outro (Howitz; Rodan, 2018).

Pozzato (2022) afirma que gatos estressados podem apresentar lambedura excessiva ou até mesmo arrancar o próprio pelo, assim como as orelhas podem ficar mais abaixadas, olhares ansiosos ou negação de contato visual. Por outro lado, quando sentem medo, o felino tenta parecer menor, com orelhas para trás, para os lados, abaixadas ou se movimentando, demonstrando que está em estado de alerta, com pupilas dilatadas e cauda próxima ao corpo, como ilustrado na Figura 4.

Figura 4. Gato apresentando uma postura corporal de medo.

Fonte: Adaptada de Rodan (2022)

Além disso, eles podem ter uma reação mais agressiva motivada pelo medo, geralmente ocorre quando o mesmo se vê em uma situação que o assusta e não sabe como lidar, assumindo uma postura defensiva e, caso não consiga fugir ou se esconder, a agressividade pode se tornar mais intensa. Nesse caso, podem emitir sons como rosnados ou assobios, corpo arqueado, pelos eriçados e cauda esticada para parecer maior e afastar possíveis ameaças, conforme observado na Figura 5 (Schãfer et al., 2021).

Figura 5. Gato em postura mais defensiva com o dorso arqueado para parecer maior.

Fonte: Adaptada de Atkinson (2018).

2.4. Manejo Cat Friendly

Com o aumento da população dos gatos, fez-se necessário proporcionar aos felinos um atendimento de qualidade (Ottobeli et al., 2022). Com isso, em 2012 houve uma resposta a essa demanda então, com o intuito de melhorar o padrão dos cuidados fornecidos aos felinos, a American Association of Feline Practitioners (AAFP) e a International Society of Feline Medicine (ISFM) criaram o programa Cat Friendly Practice, com o objetivo de oferecer um atendimento de qualidade, minimizando o estresse dos felinos e tutores (André; Rodrigues, 2023). O que envolve uma série de adaptações para tornar a experiência do felino no ambiente veterinário mais tranquila possível, no entanto, vale ressaltar que, mesmo com todos esses cuidados, nem todo estresse pode ser totalmente evitado (Ottobeli et al., 2022).

Conforme destaca Melo (2021), outra diretriz importante é atender às necessidades individuais de cada gato. Isso porque os felinos são muito sensíveis ao ambiente e ao redor; quando expostos a situações estressantes podem desenvolver supressão de comportamento fisiológico e emoções negativas. Ao seguir as diretrizes do programa, a clínica veterinária recebe um certificado de Cat Friendly (CF) concedido pela AAFP, que atesta a qualidade e reconhece que o local está preparado para atender às necessidades dos felinos (André; Rodrigues, 2023).

2.4.1. Princípios Cat Friendly

Em 2022, durante as comemorações dos 10 anos do programa ISFM, foram apresentados os sete princípios do manejo Cat Friendly (CF), sendo três voltados às interações entre gatos e humanos e quatro voltados às atitudes e práticas dos profissionais, representados na Tabela 1 (Bessant et al., 2022). Esses princípios reforçam a importância de uma abordagem centrada no respeito ao comportamento natural do gato, destacando aspectos como minimização do estresse, promoção de um ambiente seguro e previsível; e comunicação empática entre tutor e equipe veterinária, consolidando o modelo CF como referência global em medicina felina moderna (Rodan et al., 2022).

Tabela 1. Sete princípios do manejo Cat Friendly

1º Respeitar os felinos

Compreender que cada gato possui personalidade própria; alguns são mais sociáveis, outros mais reservados ou avessos ao toque. O respeito às características individuais torna o atendimento mais tranquilo, seguro e acolhedor (Ellis, 2023)

2º Manter o gato bem

Considerando a saúde física e mental do felino. O estresse e o medo afetam sua saúde, portanto, o veterinário deve identificar sinais de desconforto e adotar estratégias que promovam o bem-estar integral (Bessant et al., 2022).

3º Não causar sofrimento físico ou emocional

Evitar agressões físicas, negligência no tratamento, falta de alimento ou água e qualquer forma de descuido ético (Bessant et al., 2022).

4º Ser a solução para o gato

Buscar tratamentos baseados em evidências científicas, adaptados à realidade do tutor e às necessidades do animal (Bessant et al., 2022).

5º Ser a porta-voz do gato

Ensinar aos tutores como melhorar a qualidade de vida do felino em casa e garantir que toda a equipe clínica pratique o manejo amigável (Bessant et al., 2022).

6º Trabalhar junto pelos gatos

Promover a troca de conhecimentos em medicina felina entre profissionais, favorecendo discussões e soluções mais eficazes (Bessant et al., 2022).

7º Evoluir pelos felinos

Buscar constantemente novos conhecimentos para aprimorar o manejo e os tratamentos, sempre priorizando o bem-estar dos gatos (Bessant et al., 2022).

Fonte: Autoria própria (2025).

2.5. Benefício do Manejo Cat Friendly

O manejo Cat Friendly (CF) apresenta diversos benefícios para felinos, tutores e profissionais. Técnicas como adaptação ambiental, contenção suave e interação respeitosa contribuem significativamente para a redução do estresse e da ansiedade, diminuindo os níveis de cortisol nos gatos e promovendo maior conforto durante consultas e procedimentos clínicos (Bessant et al., 2022). Além disso, o respeito à personalidade individual de cada gato e a aplicação de estratégias adequadas promovem melhora no comportamento durante o atendimento, reduzindo comportamentos agressivos e de fuga e facilitando a realização de exames e procedimentos veterinários (Little, 2015). Essa abordagem aumenta a segurança de profissionais e tutores, reduzindo agressividade, estresse e risco de acidentes (Bessant et al., 2022; Ellis, 2023).

O manejo CF também favorece a precisão em exames e diagnósticos, uma vez que felinos menos estressados apresentam respostas fisiológicas mais estáveis, permitindo a coleta de amostras laboratoriais confiáveis e diagnósticos clínicos mais precisos (Little, 2015). Paralelamente, promove o fortalecimento da relação tutor-animal, pois um atendimento tranquilo e acolhedor melhora a experiência do tutor, incentivando visitas regulares e aumentando a adesão a tratamentos e programas preventivos (Pereira et al., 2016).

Um estudo feito por Soares (2022) analisou como o manejo CF pode influenciar a qualidade da sedação e dos cuidados da anestesia em gatos. Os resultados destacaram que o atendimento mais cuidadoso e amigável também contribui para uma sedação, indução, manutenção e recuperação mais eficiente, necessitando de doses menores de propofol, resultando em menos efeitos colaterais e recuperação mais rápida.

Além dos efeitos imediatos sobre comportamento e segurança, o manejo Cat Friendly contribui para o bem-estar integral do felino, considerando saúde física, mental e comportamental, prevenindo doenças relacionadas ao estresse e aumentando a longevidade do animal (Bessant et al., 2022).

Por fim, a prática do manejo CF estimula o desenvolvimento profissional e científico, incentivando a atualização contínua, a troca de conhecimentos entre profissionais e a aplicação de protocolos baseados em evidências, fortalecendo a medicina felina como um todo (Bessant et al., 2022).

2.6. Técnicas e Práticas Cat Friendly

Segundo Ottobeli (2022), um dos pontos-chave para o sucesso dessas diretrizes é fazer com que o tutor participe ativamente do processo, isso significa orientá-lo sobre o preparo do gato antes da consulta e como lidar com ele depois. Pelo fato de os felinos serem muito sensíveis a mudanças e ambientes desconhecidos, esse apoio do tutor ajuda a atenuar o estresse.

A adaptação à caixa de transporte é uma etapa fundamental, o ideal é que esse processo comece com antecedência, de forma gradual e tranquila, deixando a caixa aberta em um canto do ambiente com brinquedos, petiscos ou cobertores confortáveis, facilitando ao felino enxergar como um lugar seguro. Optar por modelos de caixa de transporte que abram parcialmente são ainda melhores, pois permitem que ele entra e saia no seu tempo, reduzindo a sensação de ameaça (Pozzato et al., 2022).

Um estudo feito por Pratsch (2018) mostrou que gatos acostumados com a caixa de transporte ficam menos estressados durante as viagens e consultas, apresentam menor nível de medo e maior sensação de segurança, reforçando a importância de preparar o felino com antecedência para essas situações. Shu e Gu (2021) afirmam que estratégias como deixar a caixa de transporte acessível em casa, utilizar feromônios sintéticos e recompensar comportamentos calmos, utilizar cobertores ou roupas com o cheiro do ambiente doméstico, bem como brinquedos, petiscos ou outras substâncias atrativas como catnip (erva-do-gato), incentivam a permanência voluntária do animal na caixa.

Além disso, o trajeto até a clínica deve ser planejado de forma a minimizar estímulos estressantes, mantendo o veículo silencioso, evitando movimentos bruscos e garantindo que a caixa esteja segura e confortável. Essas medidas ajudam a reduzir a ativação do sistema de estresse do felino antes mesmo da chegada ao consultório, contribuindo para um atendimento mais tranquilo e seguro (Mendes, 2022).

2.6.1. Preparo do Ambiente Adequado

O ambiente destinado ao atendimento felino deve ser planejado para minimizar estímulos estressores, como ruídos intensos, odores de outras espécies e excesso de movimentação (Damasceno et a., 2022). Recomenda-se a separação física entre cães e gatos, iluminação suave, superfícies antiderrapantes e disponibilidade de esconderijos ou caixas, utilização de feromônios sintéticos, manejo silencioso da equipe e organização prévia dos materiais contribuem para reduzir a ativação do eixo do estresse (Rodan, 2022)

A sala de espera também é um fator importante para que os felinos tenham uma experiência positiva (Nascimento; Junior, 2024). O ambiente deve ser adaptado para as particularidades felinas, utilizando enriquecimento ambiental como fontes de água e aquários para auxiliar a manter a calma dos felinos, assim como também deve evitar o contato com espécies diferentes, optando por agendamento em horários distintos para as espécies, sempre que possível. Outra alternativa é o uso de salas de espera diferentes para cães e gatos (Ottobeli et al., 2022).

É válido mencionar que os felinos se sentem mais seguros quando acima do nível do chão, assim, os tutores podem segurar a caixa no colo na falta de espaços elevados para manter o gato (Nascimento; Junior, 2024). Outro ponto importante para se considerar é o olfato aguçado desses animais, por isso, é fundamental que o espaço e todas as superfícies com as quais o gato tem contato sejam constantemente higienizados. A manutenção de áreas limpas contribui para reduzir possíveis conflitos com odores de outros animais (Ottobelli et al., 2022).

Rodan (2016) pontua que ambientes barulhentos deixam os felinos mais medrosos comparados a um ambiente mais silêncios, um ambiente mais calmo e silencioso pode ser benéfico para os gatos.

Nascimento e Junior (2024) mencionam que utilizar músicas suaves tocando ao fundo ajuda no bem-estar dos gatos durante as visitas clínicas, além de os tutores se sentirem mais confortáveis. Isso é importante porque, quando os tutores estão mais tranquilos, seus animais tendem também a ficar mais calmos.

É válido mencionar que o manejo adequado dos felinos em clínicas veterinárias depende não apenas do veterinário, mas de toda a equipe envolvida no atendimento. Estudos demonstram que a participação ativa de recepcionistas, auxiliares e equipe de limpeza é fundamental para criar um ambiente tranquilo e reduzir o estresse dos gatos (Melo., 2021). A recepção desempenha papel essencial ao minimizar ruídos e estímulos estressantes, além de reconhecer sinais comportamentais de ansiedade nos animais. Já a equipe de limpeza contribui ao manter o ambiente higienizado, utilizando produtos que não deixam odores fortes e prevenindo o contato com cheiros de outros animais, fatores que podem desencadear comportamentos defensivos (Ottobeli et al., 2022).

2.6.2. Feromônios Sintéticos

Os feromônios sintéticos são substâncias químicas artificiais que imitam sinais naturais emitidos pelos gatos e têm sido utilizados para modular comportamentos e reduzir o estresse em diferentes contextos. Entre eles, destaca-se o Feline Facial Pheromone (F3), que apresenta eficácia na diminuição de ansiedade, agressividade e comportamentos indesejados, promovendo maior bem-estar felino (Freitag; Morato, 2018).

O Feliway® assim como outros produtos comerciais à base de feromônios sintéticos, como FeliComfort® e Felifriend®, reduz o estresse felino por conter um complexo sintético de feromônios faciais que sinalizam segurança ao sistema límbico por meio do órgão vomeronasal, diminuindo a ativação do eixo HHA (Deporter et al., 2019). Em pesquisa recente com mais de 600 gatos, o uso contínuo do feromônio resultou em melhora comportamental estatisticamente significativa em até 28 dias. Esses achados reforçam o uso de feromônio sintético como ferramenta eficaz no manejo multimodal do estresse felino (Endersby et al., 2024).

A aplicação desses feromônios pode ocorrer por difusores ambientais, sprays (Figura 6) ou colares, mostrando resultados positivos principalmente em situações de estresse agudo (Freitag; Morato, 2018).

Além de reduzir sinais comportamentais de estresse, os feromônios sintéticos contribuem para melhorar a interação entre gato e tutor, facilitando o manejo tanto em casa quanto em clínicas veterinárias (Deporter et al., 2019). Após o uso de feromônios sintéticos, os gatos apresentam comportamentos mais tranquilos e dóceis durante o manejo (Pereira et al., 2016).

Figura 6. FeliComfort ® feromônio sintético em spray.

Fonte: Autoria própria (2025).

2.6.3. Atendimento

A consulta dá início com a preparação do histórico com o paciente, esse momento deve ser aproveitado para o gato conhecer o ambiente e relaxar. O felino não deve ser forçado a sair da caixa de transporte, sendo uma etapa tranquila (Ottobeli et al., 2022).

A Figura 7 demonstra uma forma de facilitar a saída do felino: oferecendo petiscos na caixa, mesa ou chão, evitando que seja diretamente da mão, pois pode gerar desconfiança e ansiedade (Rodan et al., 2016).

Figura 7. Tentativa de facilitar a saída com petisco.

Fonte: Autoria própria (2025).

Caso o felino não saia sozinho, a avaliação física deve ser realizada dentro da caixa de transporte, como representado na Figura 8, se esta for do tipo com tampa removível.

Figura 8. Avaliação física feita dentro da caixa de transporte.

Fonte: Autoria própria (2025).

Quando não for possível utilizar esse recurso, é preferível tentar retirar o animal com o auxílio de uma coberta, envolvendo-o de forma cuidadosa para minimizar movimentos bruscos e reduzir o estresse. Essa abordagem não apenas protege o profissional e o tutor, mas também mantém o bem-estar do gato, evitando respostas defensivas ou acidentes durante o manejo (Ottobeli et al., 2022).

Quando o felino sair da caixa de transporte, ela deve ser tirada de vista para que o gato não tente voltar e se isolar. Nesse momento, é importante utilizar toalhas e cobertores que tenham o cheiro do gato para, além de oferecer conforto físico, também trazer sensação de segurança e familiaridade (Nascimento; Junior, 2024). Ao manejar o felino, é preferível tocar em região de pescoço e cabeça, pois, se for em outro lugar, os felinos tendem a ficar estressados (Ottobeli et al., 2022).

É importante avaliar a linguagem corporal do gato nesse momento para definir o manuseio apropriado. Se o gato apresentar que está calmo e relaxado, com orelhas erguidas, caudas para cima, corpo relaxado e curioso pelo ambiente, o exame prossegue. Por outro lado, se o felino apresentar sinais de defesa, é necessário oferecer um lugar mais seguro durante o atendimento (Rodan et al., 2016). Recomenda-se evitar olhar diretamente nos olhos dos felinos, sendo preferíveis movimentos cautelosos e precisos, abordando o gato lateralmente e se mantendo no mesmo nível do gato (Rodan et al., 2022).

O manejo farmacológico do estresse em felinos tem se mostrado uma ferramenta complementar importante ao manejo comportamental. A gabapentina é amplamente utilizada para reduzir ansiedade e agressividade em gatos durante procedimentos clínicos e transportes (Magdanelo; Rodríguez, 2023).

Estudos demonstram que a administração prévia de gabapentina diminui significativamente os níveis de cortisol e comportamentos indesejados, como vocalizações excessivas e resistência ao manejo. Dados quantitativos indicam que gatos que recebem gabapentina apresentam valores médios de cortisol de 4,9 µg/dL, em comparação com 7,3 µg/dL em gatos que não recebem o fármaco (Pereira et al., 2016; Silva; Suyena, 2019).

Ottobeli (2022) afirma que a gabapentina pode ser administrada uma a duas horas antes do atendimento veterinário com o objetivo de reduzir o estresse do felino durante a consulta. Lima (2021) destaca que a utilização da gabapentina deve ser cuidadosamente planejada pelo profissional, considerando a dose adequada, o estado de saúde do animal e o histórico clínico, de modo a garantir a segurança e eficácia do procedimento.

Além da gabapentina, outros fármacos podem ser utilizados no controle do estresse felino, a pregabalina é um fármaco análogo da gabapentina que atua na modulação dos canais de cálcio dependentes de voltagem, reduzindo a liberação de neurotransmissores excitatórios e promovendo efeito ansiolítico e sedativo leve em felinos. Assim como a gabapentina, seu uso deve ser individualizado e integrado a estratégias de manejo Cat Friendly, visando maior segurança e bem-estar durante o atendimento clínico (Magdanelo; Rodríguez, 2023).

2.6.4. Exame Físico

Sempre que possível, é recomendado começar por procedimentos menos invasivos ou estressantes. Para tornar aplicações mais confortáveis, podem ser utilizados medicamentos e vacinas em temperatura ambiente, caso não comprometa sua eficácia, utilizando agulhas mais finas para aplicação ou, se for o caso de receber mais de uma, utilizar anestésicos tópicos (Rodan et al., 2016).

A contenção, quando necessária, é ideal que envolva todo o corpo do felino; enrolar o pescoço com uma toalha ajuda a controlar a cabeça com mais segurança, como ilustrado na Figura 9. Utilizar alimentos como distração pode ser uma boa estratégia, permitindo uma contenção mínima necessária (Ottobeli et al., 2022).

Caso o gato resista à contenção por mais de três tentativas, é preferível reagendar a consulta, já que insistir pode causar traumas, reações agressivas e tornar futuras consultas ainda mais difíceis (Pozzato et al., 2022). Já que gatos aprendem com o que vivem, se sua primeira experiência for dolorosa ou estressante, é provável que ele desenvolva medo, o que dificultaria atendimentos futuros (Rodan et al., 2022).

Figura 9. Contenção feita com a toalha envolvendo todo o corpo do gato.

Fonte: Autoria própria (2025).

Cobrir os olhos do felino com uma toalha pode ajudá-lo a se acalmar, pois permite maior sensação de segurança ao felino, reduz a necessidade de força física excessiva e contribui para um atendimento mais calmo e seguro tanto para o animal quanto para a equipe veterinária. A utilização de luvas pode oferecer proteção, mas é válido ressaltar que elas não ajudam a conter o gato com tanta eficácia quanto uma toalha (Rodan et al., 2022).

Durante a avaliação clínica, o ideal é começar de forma gradual (Ottobeli et al., 2022). Iniciando com observação do comportamento antes de qualquer contato físico e utilizando contenção mínima para reduzir respostas de medo e estresse. O exame físico deve ser conduzido gradualmente, com aferições de frequência cardíaca, respiratória e pressão arterial realizadas de forma gentil e pausada, respeitando a adaptação do gato ao ambiente clínico (Nascimento e Oliveira Junior (2024).

Para a coleta de sangue, o ideal é usar a veia jugular, cefálica ou safena medial. Utilizar um cateter na safena medial é uma boa escolha, pois permite que o procedimento tenha menos contenção, logo menos estresse e conforto para o paciente felino.

Outra alternativa para grandes quantidades de sangue é utilizar o dispositivo de coleta conhecido como escalpe, já que facilita o procedimento, evitando várias punções e reduzindo o risco de colapso da veia (Rodan et al., 2022).

É importante destacar que a abordagem Cat Friendly não se limita somente aos veterinários e às modificações das clínicas; o papel do tutor em casa é fundamental nesse processo, por isso é essencial manter uma comunicação constante com os tutores. Isso é importante porque, após uma consulta, ele pode estar com novos odores provenientes de um ambiente diferente (Melo, 2021).

3. METODOLOGIA

3.1. Tipo de Pesquisa

Trata-se de uma revisão integrativa de literatura que foi desenvolvida a partir de pesquisas e análises de publicações científicas que abordassem o manejo Cat Friendly.

3.2. Amostragem da Pesquisa

Foram realizadas buscas de artigos em plataformas científicas como Google Acadêmico e Scientific Electronic Library Online (SCIELO) e PubMed, utilizando os descritores como (Cat Friendly) OR (Manejo de felinos) AND (Atendimento) OR (Baixo estresse).

A seleção dos artigos foi feita pelos seguintes critérios: publicações entre 2015 e 2025 com os descritores de interesse. A exclusão foi feita por artigos sem relação direta com manejo felino, trabalhos sem acesso completo ao texto.

3.3. Análise e Apresentação dos Dados

Os estudos selecionados foram lidos na íntegra e organizados em categorias temáticas para análise qualitativa, observando objetivos, estratégia aplicada e resultados. Posteriormente foi organizado em quadro que permitiu uma análise dos resultados.

3.4. Aspecto Ético

Por se tratar de uma revisão bibliográfica, este trabalho não envolveu seres humanos; com isso, não foi necessário o encaminhamento ao Comitê de Ética e Pesquisas (CEP). Dessa forma, também não foi encaminhado para a Comissão de Ética na Utilização de Animais (CEUA), por não possuir contatos com animais.

A coleta e análise de informação têm como objetivo promover a discussão de uma temática visando à ampliação de conhecimentos, tendo como base o seguimento da construção de uma pesquisa que evite o plágio de outros estudos e respeite a veracidade dos fatos.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

4.1. Caracterização da Amostra Bibliográfica

A presente revisão integrativa analisou um conjunto de 15 artigos (100%) entre 2015 e 2025. Houve a necessidade de exclusão de 1 (6,67%) artigo por falta de acesso. Após a lida de 14 (93,33%) abstracts, houve a necessidade de exclusão de 3 (35,71%) por não se enquadrarem nos objetivos. Assim foram finalmente incluídos 9 artigos (Figura 10).

Figura 10. Fluxograma do número de artigos encontrados e selecionados após o critério de exclusão e inclusão.

Fonte: Autoria própria (2025).

4.2. Técnicas de Manejo Cat Friendly para Redução de Estresse

As práticas de manejo CF se consolidaram como estratégias eficazes para minimizar o estresse dos felinos durante o atendimento veterinário, evidenciadas no Quadro 1. A literatura mostra que adaptações no ambiente e comportamento são capazes de modificar significativamente a experiência do felino (André, Rodrigues, 2023; Pereira, 2016).

Quadro 1. Técnicas de Manejo Cat Friendly e seus efeitos na redução do estresse felino em consultas veterinárias

Autor

Título

Resultados observados

Pozzato et al. (2022).

Técnicas para redução de estresse no atendimento clínico de cães e gatos durante consulta veterinária.

Preparo do ambiente amigável e interpretação da linguagem corporal reduzem estresse agudo, melhoram exames complementares e diminuem riscos de acidentes, promovendo adesão ao tratamento e condicionamento positivo.

Taylor et al. (2022).

2022 ISFM/AAFP Cat Friendly Veterinary Environment Guidelines.

Ajustes ambientais como salas separadas, redução de estímulos sensoriais e equipamentos cat friendly minimizam estresse, promovem emoções positivas e melhoram a experiência geral na clínica veterinária.

Nascimento e Oliveira Junior (2024).

Atendimento clínico felino eficiente para reduzir estresse e alterações em exames complementares.

Estratégias positivas de manejo cat friendly respeitam individualidades, reduzem alterações fisiológicas como leucograma de estresse, otimizam recuperação e aumentam visitas regulares para diagnósticos precoces.

Fonte: Autoria própria (2025).

Os artigos convergem na eficácia das técnicas de manejo CF como uma abordagem estratégica para diminuir o estresse dos felinos durante consultas. Pozzato (2022) destacam que o preparo do ambiente clínico é fundamental para evitar respostas de estresse agudo, melhorando a qualidade dos exames complementares e reduzindo incidentes como mordidas ou arranhões. Essa abordagem promove um condicionamento positivo, incentivando os tutores a manterem a adesão ao tratamento, o que é essencial para a saúde contínua dos gatos.

De acordo com Nascimento e Oliveira Junior (2024), o manejo amigável para felinos, que considera as sensibilidades olfativas, visuais, táteis e sonoras da espécie, é essencial para reduzir alterações fisiológicas como o leucograma de estresse, caracterizado por neutrofilia, linfopenia e eosinopenia. Essa abordagem converge com as diretrizes propostas por Taylor et al. (2022), que enfatizam a adaptação do ambiente clínico para respeitar as necessidades comportamentais dos gatos, evitando estímulos negativos que possam desencadear respostas fisiológicas adversas. Ambos autores destacam que ambientes otimizados preservam o estado emocional dos animais e facilitam diagnósticos precoces, incentivando visitas regulares dos tutores e reduzindo resistências a experiências traumáticas.

Taylor (2022) fornecem um arcabouço prático com as diretrizes ISFM/AAFP, sugerindo ajustes simples e eficazes, como a separação de espécies em salas de espera e o uso de equipamentos elevados, que respeitam o comportamento territorial e predatório dos felinos. Esses ajustes não apenas reduzem o estresse, mas também promovem emoções positivas, melhorando a interação entre o gato, o tutor e a equipe veterinária. A integração desses achados indica que o sucesso do manejo Cat Friendly depende de um equilíbrio entre adaptações ambientais e treinamento da equipe para interpretar e responder aos sinais comportamentais dos felinos.

Em complemento, Nascimento e Oliveira Junior (2024) relatam que temperatura e iluminação controladas, livres de odores fortes e ambientes silenciosos diminuem os estímulos ameaçadores, facilitando o exame físico. Além disso, eles afirmam que utilizar superfícies antiderrapantes e toalhas macias proporciona sensação de estabilidade, auxiliando na redução de reatividade. A integração dessas medidas demonstra que o manejo CF é tanto preventivo quanto terapêutico, transformando o contexto de atendimento em um espaço de segurança e previsibilidade para o animal.

Nascimento e Oliveira Junior (2024) e Pozzato et al. (2022) apontam que identificar sinais comportamentais logo no início e oferecer ambientes adaptados ajuda a prevenir alterações clínicas e reduzir o estresse dos felinos. Taylor et al. (2022) reforçam essa perspectiva ao destacar programas globais, como o Cat Friendly Clinic, que padronizam o manejo e promovem atendimentos mais seguros. Em conjunto, esses autores evidenciam que priorizar o bem-estar felino melhora a qualidade do atendimento, fortalece a relação com os tutores e favorece uma prática mais preventiva e eficiente.

4.3. Fatores Que Causam Estresse e Agressividade Durante o Atendimento

A identificação de fatores que causam estresse e agressividade durante o atendimento veterinário revela uma complexidade multifatorial, influenciada por aspectos ambientais, comportamentais e humanos (Quadro 2).

Quadro 2. Fatores causadores de estresse e agressividade em felinos.

Autor

Título

Resultados observados

Karn-Buehler e Kuhne (2022).

Perception of stress in cats by German cat owners and influencing factors regarding veterinary care.

88,7% dos gatos são percebidos como estressados em consultas, com fatores como estresse do tutor, perda de território e falta de manejo amigável contribuindo para agressividade e redução na frequência de visitas.

Barrios et al. (2025).

Tools for the approach of fear, anxiety, and stress in the domestic feline: An update.

Estímulos sensoriais (olfativos, visuais), falta de socialização precoce e ambientes clínicos hostis são fatores que causam estresse e agressividade, sendo mitigados por manejo farmacológico e adaptações ambientais.

Griesser et al. (2025).

Self-reported cat-friendly practices and attitudes of German, French and Swiss veterinarians.

36,2% dos veterinários utilizam contenção forçada, influenciada por falta de treinamento em comportamento, aumentando estresse e agressividade.

Fonte: Autoria própria (2025).

Karn-Buehler e Kuhne (2022) destacam que 88,7% dos tutores alemães percebem seus gatos como estressados durante consultas veterinárias, influenciados pelo estresse dos próprios donos, que aumenta a probabilidade de identificar sinais negativos nos animais. Essa percepção converge com Barrios et al. (2025), que enfatizam como o estresse crônico em gatos, decorrente de visitas ao veterinário, compromete a saúde e a relação humano-animal, recomendando abordagens para mitigar medo e ansiedade. Ambas as fontes indicam que o estresse do tutor afeta diretamente a frequência de visitas, reduzindo cuidados preventivos.

Barrios et al. (2025) complementam essa análise ao identificar estímulos sensoriais, como odores fortes e ruídos, e a falta de socialização como causas primárias de estresse e respostas agressivas. A revisão sugere que ambientes clínicos não adaptados perpetuam ansiedade crônica, recomendando intervenções como feromônios sintéticos e medicamentos para mitigar esses efeitos. Essa abordagem destaca a natureza solitária dos felinos, que interpretam contenções como ameaças, justificando a necessidade de adaptações específicas.

Griesser et al. (2025) revelam que 36,2% dos veterinários recorrem à contenção forçada, uma prática associada à falta de treinamento em comportamento felino, o que exacerba o estresse e a agressividade. Integrando esses achados, observa-se que o estresse não é uma resposta inerente, mas sim um reflexo de interações inadequadas, como a contenção forçada (Griesser et al., 2025) e a exposição sensorial excessiva (Barrios et al., 2025).

Karn-Buehler e Kuhne (2022) revelam que a transmissão emocional tutor-gato aponta para a necessidade de educar os tutores, reforçam que intervenções combinadas (ambientais e farmacológicas) são essenciais para romper ciclos de estresse, evitando impactos negativos na saúde felina.

Assim, a mitigação requer uma abordagem holística, integrando treinamento e adaptações, para promover um atendimento mais seguro e eficaz.

Karn-Buehler e Kuhne (2022) e Griesser et al. (2025) convergem ao mostrar que o estresse percebido nos gatos influencia negativamente as visitas veterinárias, com donos estressados relatando maior resistência. Barrios et al. (2025) complementam ao sugerir ferramentas preventivas, como treinamento de filhotes, para mitigar esses efeitos. Essa síntese indica que promover atitudes Cat Friendly entre veterinários e educar tutores pode elevar a qualidade do cuidado, prevenindo patologias associadas ao estresse crônico.

4.4. Benefícios na Qualidade do Atendimento e Satisfação dos Tutores

Os benefícios do manejo Cat Friendly são amplamente evidenciados nos artigos analisados, impactando positivamente a qualidade do atendimento, o comportamento dos gatos e a satisfação dos tutores (Quadro 3).

Quadro 3. Benefícios na qualidade do atendimento, comportamento e satisfação.

Autor

Título

Resultados observados

Andre e Rodrigues (2023).

Manejo cat friendly: Revisão Integrativa.

A adoção de manejo Cat Friendly aumenta a confiança dos tutores, eleva a frequência de visitas e melhora a eficiência do cuidado, com impacto positivo no comportamento felino e na satisfação geral.

St Denis et al. (2023).

Cat Friendly Practice improves feline visits, resulting in increased laboratory testing and increased diagnosis of certain common feline conditions.

Clínicas Cat Friendly aumentam visitas anuais por gato, realizam testes laboratoriais em 12% mais consultas e detectam mais condições comuns, melhorando a qualidade do atendimento e a satisfação dos tutores.

Antunes e Madureira (2024).

Análise e pesquisa científica da abordagem cat friendly inserida na rotina clínica veterinária.

O manejo diferenciado melhora o comportamento felino, aumenta a satisfação dos tutores e cria oportunidades de mercado para clínicas especializadas, reduzindo insatisfação em consultas.

Fonte: Autoria própria (2025).

Andre e Rodrigues (2023) sintetizam que a implementação dessas práticas fomenta a confiança dos tutores, resultando em mais visitas regulares e maior eficiência no cuidado, com melhorias no comportamento felino. Essa confiança é um fator-chave para a adesão a protocolos de saúde preventiva.

St Denis et al. (2023) quantificam esses benefícios, mostrando que clínicas Cat Friendly aumentam as visitas anuais por gato e elevam em 12% a realização de testes laboratoriais, permitindo a detecção precoce de condições como doenças renais e endócrinas. Essa melhoria na qualidade do atendimento reflete na satisfação dos tutores, que percebem um cuidado mais atento. Antunes e Madureira (2024) corroboram esses achados, destacando que o manejo diferenciado melhora o comportamento felino e abre espaço de mercado, com tutores relatando maior contentamento e menos insatisfação em consultas.

Integrando esses resultados, observa-se que os benefícios são múltiplos, abrangendo desde a redução de alterações fisiológicas (St Denis et al., 2023) até o fortalecimento da relação tutor-gato (Andre e Rodrigues, 2023). A satisfação dos tutores é impulsionada por experiências menos traumáticas, incentivando visitas regulares, enquanto o comportamento cooperativo dos gatos facilita diagnósticos mais precisos (Antunes e Madureira, 2024).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O manejo Cat Friendly representa um importante avanço na medicina veterinária felina ao reconhecer as particularidades comportamentais dos gatos e oferecer estratégias eficazes para reduzir o estresse durante o atendimento. Os estudos revisados mostram que adaptações ambientais, capacitação da equipe e contenção suave são fundamentais para promover o bem-estar, melhorar a qualidade dos diagnósticos, aumentar a segurança dos profissionais e elevar a satisfação dos tutores.

Além de diminuir respostas fisiológicas ao estresse, essas práticas fortalecem o vínculo entre animal, tutor e veterinário, favorecendo uma experiência clínica mais positiva e estimulando a adesão aos cuidados preventivos. A literatura evidencia ainda que o manejo adequado contribui para maior precisão nos exames e eficiência nos tratamentos.

Dado o exposto, a implementação dessas práticas nas clínicas veterinárias representa um passo essencial para a evolução da medicina felina, garantindo que o atendimento seja cada vez mais humanizado, seguro e voltado ao bem-estar dos gatos, contribuindo para uma convivência mais harmoniosa e saudável entre humanos e felinos.

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1 Bacharela em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário INTA – INTA (Sobral-CE). Médica veterinária atuante na área de clínica médica de pequenos animais. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-2418-5083

2 Bacharela em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário INTA – UNINTA (Sobral-CE). Médica veterinária atuante na área de clínica médica de pequenos animais. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-5056-0870

3 Bacharela em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário INTA – UNINTA (Sobral-CE). Médica veterinária atuante na área de clínica médica de pequenos animais. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Bacharela em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário INTA – UNINTA (Sobral-CE). Médica veterinária atuante na área de clínica médica de pequenos animais. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

5 Médico-veterinário, mestre em Zootecnia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), com ênfase em nematóides gastrintestinais de ovinos. Pós-graduando em Patologia Clínica Veterinária. Possui interesse nas áreas de Parasitologia Veterinária, Patologia Clínica e análises laboratoriais. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-1345-6371

6 Graduado em Medicina Veterinária (Universidade Federal de Rondônia - UNIR). Residente em Saúde integrada á saúde Pública (Centro Universitário INTA, Sobral – CE). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-1063-3311

7 Mestre em Biotecnologia (Centro Universitário INTA - UNINTA). Especializada em Clínica Médica de Cães e Gatos (EQUALIS). Médica Veterinária vinculada ao Hospital Veterinário INTA - UNINTA no setor de internação de cães e gatos. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-9838-9950

8 Discente do curso de Medicina Veterinária no Centro Universitário INTA (UNINTA, campus Sobral-CE). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-3152-4294

9 Doutor em Ciência Animal (Universidade Estadual do Maranhão - UEMA). Docente do Centro Universitário INTA - UNINTA (Campus Fortaleza). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6640-1363

10 Mestre em Biotecnologia (Centro Universitário INTA - UNINTA). Especializado em Clínica e Cirúrgica de Felinos Qualittas. Docente do Centro Universitário INTA – UNINTA (Campus de Sobral - CE). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7489-011X