LÍNGUA DE ESPECIALIDADE: ANTES, DENTRO E DEPOIS DA PORTEIRA EM UM ESTUDO SOBRE A VARIAÇÃO TERMINOLÓGICA NO AGRONEGÓCIO

SPECIALTY LANGUAGE: BEFORE, INSIDE, AND AFTER THE FARM GATE IN A STUDY ON TERMINOLOGICAL VARIATION IN AGRIBUSINESS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791783430

RESUMO
A dinâmica socioeconômica contemporânea exige constante renovação das práticas agropecuárias e agroindustriais. À medida que novas etapas produtivas se consolidam, surge a necessidade de denominar tais processos. No âmbito da linguagem de especialidade, este artigo analisa a variação terminológica e denominativa no Português do Brasil associada aos eixos "antes da porteira", "dentro da porteira" e "depois da porteira" no domínio do Agronegócio. O aporte teórico fundamenta-se na Teoria Comunicativa da Terminologia (Cabré, 1999), nos pressupostos de Variação Terminológica de Freixa (2002; 2013) e Faulstich (2002), e nas diretrizes terminográficas de Pavel e Nolet (2001) e Krieger e Finatto (2004). O corpus de pesquisa reúne 134 trabalhos acadêmicos stricto sensu (130 dissertações e 4 teses), 10 boletins informativos e textos institucionais de portais do setor (EMBRAPA, CEPEA, ABAG, GV Agro, PENSA e SOBER). O tratamento computacional foi conduzido via software Unitex para extração e contagem automatizada das unidades sintagmáticas e variantes lexicais. Os resultados revelam uma marcante assimetria distributiva: o segmento posterior à produção ("depois da porteira") concentra o maior número de variantes denominativas (9 variantes), impulsionado pela complexidade logística e pluralidade de atores do setor pós-colheita. Observa-se que o suporte discursivo atua como fator condicionante da variação funcional (Freixa, 2013): enquanto o gênero acadêmico (teses e dissertações) apresenta hegemonia expressiva dos neologismos eruditos montante (93,4%) e jusante (74,4%), os boletins informativos e portais institucionais priorizam sintagmas metafóricos e expressivos (porteira pra fora, pós-porteira), visando à adequação comunicativa pragmática com o público amplo. Conclui-se que a terminologia do agronegócio reflete a maleabilidade e heterogeneidade imanentes à língua natural.
Palavras-chave: Teoria Comunicativa da Terminologia; Variação terminológica; Agronegócio; Língua de especialidade; Socioterminologia.

ABSTRACT
Contemporary socioeconomic dynamics demand constant renewal of agricultural and agro-industrial practices. As new production stages consolidate, there is a fundamental need to designate these emerging processes. Within the scope of specialized language, this article analyzes terminological and denominative variation in Brazilian Portuguese associated with the domains "before the farm gate", "inside the farm gate", and "after the farm gate" in Agribusiness. The theoretical framework relies on the Communicative Theory of Terminology (Cabré, 1999), the principles of Terminological Variation by Freixa (2002; 2013) and Faulstich (2002), and terminographic guidelines by Pavel and Nolet (2001) and Krieger and Finatto (2004). The research corpus comprises 134 stricto sensu academic works (130 master's dissertations and 4 doctoral theses), 10 newsletter editions, and institutional texts extracted from sector websites (EMBRAPA, CEPEA, ABAG, GV Agro, PENSA, and SOBER). Computational processing was carried out using Unitex software for automated extraction and frequency counting of syntagmatic units and lexical variants. Results reveal a striking distributional asymmetry: the post-production segment ("after the gate") concentrates the highest number of denominative variants (9 variants), driven by supply chain complexity and stakeholder diversity in the post-harvest sector. Furthermore, discourse genres act as conditioning factors for functional variation (Freixa, 2013): while academic genres (theses and dissertations) show expressive dominance of learned terms upstream (montante, 93.4%) and downstream (jusante, 74.4%), newsletters and institutional websites favor metaphorical syntagmas (porteira pra fora, pós-porteira), aiming for pragmatic communicative adequacy with broader audiences. The study concludes that agribusiness terminology reflects the inherent flexibility and heterogeneity of natural language. 
Keywords: Communicative Theory of Terminology; Terminological variation; Agribusiness; Specialized language; Socioterminology.

1. INTRODUÇÃO

A língua é viva e está em constante mutação, visto que acompanha assiduamente as transformações históricas, sociais, identitárias, geográficas, tecnológicas e culturais das comunidades humanas. Entre as diversas consequências decorrentes dessas propriedades dinâmicas, destaca-se a permanente inserção de novas unidades léxicas ou a atribuição de novos significados a unidades já existentes no sistema linguístico. A emergência dessas novas unidades léxicas ou o redimensionamento semântico de vocábulos preexistentes evidenciam que a linguagem é um fenômeno mutável e propenso à variação, manifestando-se tanto em contextos de uso geral da língua quanto em discursos e contextos de especialidade (Ciapuscio, 2003; Alves, 2007).

Os usos da língua em contextos especializados, por constituírem parte integrante da própria língua natural, modificam-se e reestruturam-se continuadamente. O repertório terminológico de determinada área do conhecimento é modificado à medida que novos saberes, processos, objetos e práticas emergem no meio científico e produtivo. Assim, a cada nova necessidade de nomear, o acervo lexical é ampliado e renovado. Ocorre, evidentemente, também o processo inverso: enquanto alguns vocábulos podem cair em desuso, ser deixados de lado ou gradativamente substituídos em virtude dos mesmos fatores históricos e tecnológicos supramencionados, outros vocábulos penetram vigorosamente no repertório discursivo de uma comunidade ou área específica.

Ao longo do século XX e no limiar do século XXI, os intensos avanços tecnológicosinaram e contribuíram sobremaneira para o surgimento e o fortalecimento de diversas áreas do conhecimento que continuam se consolidando com o passar dos anos. O Agronegócio, área cuja terminologia se constitui como objeto central de estudo neste texto, inscreve-se com destaque nesse panorama. Trata-se de um domínio multifacetado que, desde meados da década de 1960, perpassando as formulações inaugurais do conceito de agribusiness por Davis e Goldberg (1957), vem se fortalecendo continuamente em todos os seus aspectos constitutivos: econômico, tecnológico, social e terminológico.

Caracterizado intrinsecamente como um campo interdisciplinar, o Agronegócio compartilha a sua terminologia com a Agronomia, as Engenharias, a Economia, a Administração, a Zootecnia e o Direito, dentre outras áreas do conhecimento. As unidades léxicas utilizadas para denominar seus instrumentos, processos, insumos e produtos, bem como os conceitos representados, caracterizam-se como construções suscetíveis de sofrer variação terminológica contínua.

A variação terminológica ocorre ativamente nos usos da língua em contexts especializados. Este saber lexical conta com o estudo sistemático da variação, fenômeno teórico e metodológico desafiador que concebe a língua de especialidade com as mesmas propriedades heterogêneas pertencentes ao uso da língua em contexto geral (L'Homme, 2004; Kondo, 2013).

Diante disso, neste trabalho, propomos analisar a ocorrência de variação denominativa dos termos do Agronegócio compreendidos nos eixos "antes da porteira", "dentro da porteira" e "depois da porteira" em um corpus especializado representativo. O corpus analisado é composto por 150 documentos distribuídos em três suportes discursivos: (i) materiais extraídos de sítios eletrônicos institucionais (CEPEA/ESALQ-USP, EMBRAPA, GV Agro/FGV, PENSA/USP, SOBER e ABAG); (ii) 10 edições de boletins informativos produzidos no Instituto Federal Goiano – Câmpus Iporá; e (iii) 130 dissertações de mestrado e 4 teses de doutorado produzidas por alunos e pesquisadores vinculados a 15 instituições de ensino superior do Brasil no período de 2005 a 2017.

Sob os moldes teóricos e metodológicos da Terminologia contemporânea, este estudo ancora-se nos pressupostos teóricos da Teoria Comunicativa da Terminologia (Cabré, 1999) e nas categorizações sobre variação propostas por Freixa (2002; 2005; 2013) e Faulstich (2002). A pesquisa busca não apenas mapear o inventário das variantes, mas investigar de que maneira o suporte e o grau de especialização do gênero discursivo atuam como condicionantes da variação funcional e discursiva (Freixa, 2013), explicando o comportamento distributivo entre termos eruditos (como montante e jusante) e sintagmas metafóricos (como porteira pra fora e pós-porteira).

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. A Variação Denominativa à Luz de Parâmetros Teóricos da Terminologia

A ocorrência de variação terminológica é um tema amplamente abordado por diferentes autores ao longo das últimas décadas, sobressaindo-se com maior tonicidade a partir dos anos 1990 do século XX. Diversos pesquisadores, como Faulstich (2002), Freixa (2002; 2005; 2013), Silva (2008), Nadin (2013), Ciapuscio (2003) e Kondo (2013), descreveram casos concretos de variação na terminologia de diferentes áreas do conhecimento a partir dos mais variados pontos de vista teóricos, pragmáticos e metodológicos.

Como já se afirmou e ratificou em muitas publicações da área, o fenômeno da variação terminológica passou a ser amplamente descrito e discutido a partir das reavaliações críticas da Teoria Geral da Terminologia (TGT), idealizada por Eugen Wüster. O olhar empreendido pelo autor austríaco, embora pautado por uma perspectiva acentuadamente técnica e prescritiva, haja vista a sua formação original no campo da Engenharia e não da Linguística, abriu relevantes e históricas portas para a evolução da Terminologia como área de estudo autônoma.

Wüster (1998 [1979]), na elaboração da Teoria Geral da Terminologia (TGT), defendia formalmente que as variações terminológicas constituíam "erros" ou ruídos comunicativos que deveriam ser resolvidos mediante a padronização e a normalização rigorosa dos termos. O autor não aceitava que a língua em contextos de especialidade apresentasse os mesmos fenômenos linguísticos que caracterizam a língua geral, tais como a ambiguidade, a polissemia, a sinonímia ou a homonímia. Diferente das abordagens linguísticas contemporâneas, a TGT atribuía ao termo uma natureza estática, monossêmica e biunívoca, não acolhendo os estudos que aceitam a variação denominativa como um processo imanente, dinâmico e constitutivo da linguagem especializada.

As profundas inquietações surgidas nos anos 1990 em relação ao pensamento wüsteriano transformaram radicalmente a variação em um dos objetos centrais de investigação dos estudos terminológicos. Após a releitura crítica da TGT, a variação passou a constituir um objeto privileged de observação estudado pelas correntes teóricas sucessoras, tais como a Socioterminologia (Faulstich, 2002), a Teoria Comunicativa da Terminologia (Cabré, 1999) e a Teoria Sociocognitiva da Terminologia (Temmerman, 2000). Tais correntes promoveram uma expressiva ampliação dos estudos de Wüster mediante reflexões e parâmetros estritamente linguísticos e pragmáticos, conferindo atenção central a fenômenos que haviam sido secundarizados pela doutrina tradicional, como é o caso explícito da variação (Cabré, 1999; Bessé, 1997).

O diálogo cotidiano entre profissionais, especialistas e usuários leigos pode acontecer com toda a gama de heterogeneidade linguística, pois as línguas de especialidade, assim como as línguas naturais, passam inevitavelmente pelos mesmos processos e dinâmicas funcionais (L'Homme, 2004).

Autoras como Faulstich (2002) e Temmerman (2000), vinculadas respectivamente aos domínios da Socioterminologia e da Terminologia Sociocognitiva, também defendem com firmeza a existência e a naturalidade da variação linguística nos discursos de especialidade. Temmerman (2000) afirma categoricamente que fenômenos como a polissemia e a sinonímia são constitutivos e inevitáveis nos estudos terminológicos. Nesta mesma linha de raciocínio, os pesquisadores da atualidade levam em conta as variações sociais e situacionais, atribuindo à língua de especialidade todos os fenômenos, recursos e propriedades pertencentes à língua geral (Ciapuscio, 2003; Alves, 2007).

Para Freixa (2002), a variação ocorre previamente motivada por fatores naturais e linguísticos, podendo também sofrer influências dialetais, interlinguísticas, funcionais, discursivas e cognitivas/conceituais. Diferente da TGT, que atribui ao termo uma natureza estática e rígida, os estudos atuais aceitam a variação denominativa como um processo imanente à linguagem especializada.

A variação denominativa verifica-se propriamente quando são apresentadas, no mínimo, duas formas léxicas distintas para denominar um mesmo conceito ou referente especializado, como se observa no par denominativo "antes da porteira" e "antes da fazenda". Freixa (2012; 2013) sistematiza e apresenta 06 (seis) possíveis causas desencadeadoras da variação denominativa no âmbito terminológico, as quais são identificadas como: (i) causas prévias, (ii) causas dialetais, (iii) causas funcionais, (iv) causas discursivas, (v) causas interlinguísticas e (vi) causas cognitivas.

Na primeira categoria, designada por "Causas prévias", a autora argumenta que a existência da variação é motivada por fatores intrinsecamente linguísticos e estruturais. Devido ao caráter maleável, flexível e vivo da língua, não se pode determinar uma única e perpétua denominação para representar determinado referente.

A segunda categoria refere-se às "Causas dialetais", as quais se produzem entre falantes ou comunidades distintas e são ocasionadas, em geral, por elementos externos à estrutura linguística propriamente dita, estando diretamente relacionadas aos aspectos geográficos, sociais, profissionais e cronológicos. Já a terceira categoria, composta pelas "Causas funcionais", compreende fatores internos de adequação comunicativa, manifestando-se quando o mesmo falante se apropria de diferentes denominações a depender do contexto pragmático e do nível de especialização da interlocução.

As "Causas discursivas" reportam-se às motivações estilísticas, à busca pela economia linguística, ao recurso à ênfase e ao exercício da criatividade. Um dos principais intuitos pragmáticos desta causa é evitar repetições vocabulares contínuas ao longo do texto. Segundo Freixa (2013), do ponto de vista qualitativo e quantitativo, o recurso deliberado empregado para "evitar repetições" configura-se como a causa principal desencadeadora da variação denominativa.

As "Causas interlinguísticas" referem-se ao uso concomitante e paralelo do termo local/autóctone em relação ao empréstimo lexical estrangeiro. Por fim, a sexta e última categoria, denominada "Causas cognitivas", atrela-se diretamente à imprecisão conceitual, à instabilidade ou aos diferentes níveis de apreensão de determinado conceito pelos sujeitos em determinado momento histórico.

A partir dessa rigorosa divisão em causas motivadoras, Freixa (2013) busca explicar os múltiplos fatores que podem provocar a variação no âmbito terminológico, enfatizando constantemente que na língua de especialidade ocorrem exatamente os mesmos fenômenos observados na língua geral, haja vista que o que se altera não é a natureza da língua em si, mas sim os espaços discursivos e contextos em que ela efetivamente se materializa.

2.2. Contexto dos Conceitos no Agronegócio

A compreensão da evolução terminológica do Agronegócio exige uma reconstituição histórica das transformações estruturais que incidiram sobre o setor produtivo rural, transicionando de uma lógica de subsistência para uma complexa cadeia agroindustrial integrada. Como destacam Davis e Goldberg (1957) e Zylbersztajn (2000), a conceituação do agronegócio ultrapassa a mera produção primária, englobando a totalidade das operações de fabricação e distribuição de suprimentos agrícolas, as operações de produção nas fazendas, bem como o armazenamento, processamento e distribuição das commodities agrícolas e seus derivados.

Antigamente, as atividades agrícolas e pecuárias de subsistência envolviam primordialmente o fazendeiro e seus ajudantes diretos, sendo praticamente todas executadas e esgotadas dentro do contexto estritamente rural. Os adubos, ferramentas cotidianas de trabalho e sementes eram produzidos ou selecionados na própria fazenda, enquanto os alimentos e as poucas mercadorias prontas para o consumo permaneciam armazenados na própria propriedade rural.

Nesse período, os trabalhadores rurais produziam em pequena escala e quase tudo era realizado no espaço interno da fazenda, de modo que os recursos rudimentares ali disponíveis atendiam às necessidades básicas da comunidade rural. Com o passar do tempo e o advento da modernização, as atividades desenvolvidas no campo passaram a contar crescentemente com mão de obra especializada, ferramentas industriais e insumos externos que não compunham a dinâmica tradicional da fazenda. Com o expressivo surgimento e disseminação de novas tecnologias mecânicas, químicas e biológicas, a agricultura foi profundamente redirecionada, aderindo ao desenvolvimento industrial e estabelecendo parcerias e conexões externas à propriedade rural.

As transformações operadas no setor foram de tal magnitude que o simples entendimento da atividade agrícola tradicional como apenas "agricultura" passou a ser conceitualmente insuficiente. Conforme sintetiza Araújo (2010, p. 10), esse quadro alterou-se radicalmente porque: [...] as atividades, antes desenvolvidas quase exclusivamente dentro das fazendas, passaram a ser efetuadas predominantemente fora, tanto antes como depois da produção agropecuária propriamente dita (Araújo, 2010, p. 10).

Diante desta nova e complexa dinâmica socioeconômica, o contexto tradicional de produção e armazenamento foi amplamente redimensionado. Para produzir com elevada qualidade e em grande escala, os produtores rurais passaram a focar a sua atuação produtiva em uma quantidade mais restrita de produtos. Para alcançar tais metas, adquiriram ferramentas modernas de trabalho, sementes selecionadas, adubos químicos e diversos outros insumos destinados a facilitar e acelerar o ritmo produtivo, passando a contar também com a mão de obra ágil e qualificada de especialistas e com um maquinário industrial específico para cada atividade rural.

Ademais, ao passarem a produzir em grande escala voltada ao mercado interno e externo, tornou-se indispensável planejar detalhadamente o processo que ocorre após a colheita, contemplando etapas como o armazenamento adequado, a conservação dos gêneros e o deslocamento logístico do produto até o seu destino final. Para tanto, esse novo segmento produtivo passou a demandar uma estreita interdependência entre fazendeiros, empresários, indústrias e agentes comerciais (Araújo, 2010; Zylbersztajn, 2000). É precisamente nesse contexto de ampliação das possibilidades da atividade agrícola para além dos elementos que compunham o fazer de subsistência que emergem os conceitos representados pelas expressões "antes da porteira", "dentro da porteira" e "depois da porteira", os quais passaremos a analisar detidamente nas subseções a seguir.

2.2.1. Antes da Porteira

Araújo (2010) pontua como elementos fundamentais que compõem o segmento "antes da porteira" as máquinas, os implementos agrícolas, equipamentos, complementos, recursos hídricos, energia, corretivos de solo, fertilizantes, agroquímicos, compostos orgânicos, materiais genéticos, hormônios, inoculantes, rações balanceadas, sais minerais e produtos veterinários. Isto é, engloba-se sob este conceito tudo aquilo que colabora diretamente para o preparo prévio do solo, do plantio ou da criação animal.

Neste segmento, múltiplos fatores determinantes são criteriosamente observados no planejamento produtivo, tais como a disponibilidade e qualidade da água, o tipo de solo e o suprimento de energia para projetar adequadamente a lavoura e/ou a criação de gado. Tais análises verificam a necessidade de implantação de projetos de irrigação ou a perfuração de poços artesianos. Em relação à matriz energética, examina-se a conveniência de incorporar fontes de energia solar, eólica, hidráulica, bem como o uso de biodigestores, aproveitamento de resíduos e energias renováveis na propriedade. Quanto ao solo, após análises laboratoriais minuciosas, observa-se a necessidade do emprego de calcário agrícola para calagem, gesso, adubos orgânicos e fertilizantes agroquímicos (Araújo, 2010).

Diante deste novo cenário produtivo, todas as variáveis passam a ser metodicamente investigadas. Um olhar atento e científico é lançado sobre a água, o solo e a energia, manifestando-se uma preocupação constante com a rapidez, a qualidade e a eficiência dos resultados. Para viabilizar tais padrões, são adquiridas ferramentas especializadas, maquinários modernos e materiais genéticos de ponta, como mudas selecionadas, sementes de alta germinação, sêmen provado e óvulos, além de hormônios, inoculantes, rações e insumos veterinários.

O conceito de "antes da porteira" não envolve exclusivamente os profissionais e indústrias que trabalham com o fornecimento direto de insumos, mas abarca também estudiosos, pesquisadores, consultores e trabalhadores rurais encarregados de verificar os projetos técnicos, a captação de recursos, o acesso a créditos e financiamentos bancários, a infraestrutura logística e a qualificação da mão de obra. Diferente da época em que o agricultor contava com equipamentos improvisados, adaptados ou de confecção própria, produzia artesanalmente suas próprias mudas e criava animais sem seleção, atualmente, para produzir mais alimentos em menor área e tempo, fez-se imperiosa a busca contínua por novas técnicas e ferramentas tecnológicas (Araújo, 2010).

Com o acelerado avanço tecnológico e econômico, a agilidade, a qualidade e a produtividade em escala passaram a integrar a dinâmica cotidiana da fazenda. Para tanto, as propriedades rurais passaram a priorizar e a focar a sua atuação na produção especializada de grãos, fibras ou na criação intensiva de animais, passando a comercializar e adquirir no mercado outros recursos essenciais, como equipamentos, maquinários, sementes, mudas, matrizes, fertilizantes e defensivos químicos. Trata-se, portanto, de tudo aquilo que antecede rigorosamente a prática da agricultura e da pecuária no espaço rural.

Diante dessa realidade consolidada, a agricultura e a pecuária ganharam novos rumos, de modo que suas etapas passaram a ser previamente analisadas, projetadas e monitoradas, prevendo-se os desafios futuros e as suas respectivas soluções técnicas e econômicas (Araújo, 2010).

2.2.2. Dentro da Porteira

Este segmento corresponde às práticas mais tradicionais do meio rural, constituindo propriamente a produção agrícola ou a criação de animais, ou seja, representa o conjunto de trabalhos e manejos desenvolvidos no interior da propriedade rural. Nesta etapa, existem múltiplos fatores que são observados e controlados, tais como a produção agrícola, o acompanhamento do ciclo vegetativo das culturas, o manejo de plantas anuais, perenes e semiperenes, bem como os procedimentos de colheita e armazenamento interno. Em relação à pecuária, observam-se atentamente o sistema de criação adotado, o manejo sanitário e nutricional e os coeficientes técnicos pecuários.

O aspecto que vem se alterando profundamente nesta etapa é que, a cada dia, os produtores rurais buscam aperfeiçoar-se e especializar-se em uma quantidade menor de produtos, almejando a incorporação de mais tecnologias, o emprego otimizado de mão de obra e a obtenção de elevados padrões de qualidade (Araújo, 2010). Os graus de tecnologias aplicadas são de fundamental relevância para este segmento, visto que o seu uso efetivo estará sempre condicionado a diversos fatores, tais como os "recursos financeiros, recursos humanos qualificados e características topográficas da região" (Callado, 2011, p. 07). Na medida em que a proliferação tecnológica se expande no meio rural, mais alternativas, insumos e inovações são apresentados aos produtores.

Neste segmento, a dinâmica e os termos são constantemente modificados de acordo com a inserção de novas práticas e equipamentos no contexto "dentro da porteira", isto é, nos seus diferentes subsetores: nas atividades estritamente agrícolas e pecuárias, nos serviços rurais, nas atividades de transformação primária e nas tarefas complementares.

2.2.3. Depois da Porteira

Este segmento contempla o conjunto de atividades econômicas e logísticas que envolvem o produto agropecuário a partir da sua saída da propriedade rural até a sua chegada efetiva ao consumidor final. Como leciona Callado (2011, p. 72), "os produtos agropecuários seguem por diversos caminhos até chegar aos consumidores, tanto na forma in natura, como beneficiados, processados ou transformados".

Na antiga agricultura de subsistência, este segmento não apresentava grande expressividade, haja vista que a produção era voltada ao consumo familiar e, quando ocorria a venda de excedentes, esta se dava em pequena escala local. Por essa razão, os produtores não precisavam se preocupar com embalagens duradouras, conservação industrial ou estruturas complexas de armazenamento e transporte capazes de preservar a qualidade do produto ao longo de extensas cadeias de distribuição.

Atualmente, este segmento atua de forma vigorosa e estratégica, preocupando-se com as operações pós-colheita, embalagem, processamento agroindustrial, logística e distribuição dos alimentos, enquanto na pecuária contempla as etapas de abate, higienização, conservação pelo frio e locomoção até os pontos de venda. Ao longo deste percurso, diversos aspectos socioeconômicos, regulatórios e culturais são rigorosamente observados, exercendo influência direta sobre todo o fluxo integração produção-distribuição.

Neste contexto de produção em grande escala, os produtos são cultivados, armazenados, embalados e comercializados de acordo com as exigências do mercado consumidor e das normas estabelecidas pelos órgãos sanitários e fiscalizadores. Alguns produtos saem da propriedade rural na forma in natura, sendo transportados para o processamento em agroindústrias ou entregues diretamente ao consumidor a granel. Durante este trajeto, os produtos passam por diversos processos de agregação de valor, tais como a limpeza de animais, a higienização de frutas, legumes e verduras, a classificação e o fracionamento (Callado, 2011).

Callado (2011) salienta que os canais de comercialização abrangem as diferentes rotas e intermediários através dos quais os produtos percorrem até o destino final. Os produtores rurais podem distribuir as suas mercadorias diretamente aos consumidores finais ou estabelecer múltiplos níveis de comercialização, entregando a produção a pequenos comerciantes rurais, os quais a repassam para feirantes ou comerciantes de maior porte. Ou seja, este processo abarca desde a simples retirada do produto da fazenda para entrega direta ao consumidor até o repasse a intermediários que abastecerão agroindústrias, mercados centrais de produtores, representantes comerciais, distribuidores, atacadistas, redes de supermercados, pontos de venda no varejo, feirantes, empresas exportadoras, importadoras e consumidores finais.

Para tanto, este segmento abrange toda a dinâmica e os fenômenos que ocorrem e integram o processo "depois da porteira", reunindo: produtores rurais; intermediários (primários, secundários, terciários); agroindústrias; mercados de produtores e entrepostos concentradores; representantes comerciais; agentes bancários e de seguro; órgãos governamentais de fiscalização; empresas de embalagens, armazenamento e distribuição; agentes de mensuração de valor do produto; tecnologias logísticas envolvidas; mão de obra especializada e órgãos de controle de qualidade, englobando todos os sujeitos que se envolvem direta ou indiretamente com o produto (Callado, 2011).

Por sua vez, Batalha (2011), diferenciando-se metodologicamente de Araújo (2010), denomina e analisa toda essa cadeia de produção agroindustrial não estritamente pelos termos coloquiais "antes", "dentro" e "depois da porteira", mas segmenta o sistema agroindustrial em dois grandes fluxos, jusante e montante articulados em três macrossegmentos: comercialização; industrialização e produção de matérias-primas. O autor defende que "as condicionantes impostas pelo consumidor final são os principais indutores de mudanças no status quo do sistema" (Batalha, 2011, p. 07). Isto é, de forma simplificadora, para este autor o sistema agroindustrial deve ser observado e analisado a partir das demandas do produto final no mercado consumidor.

Sob a ótica da Terminologia contemporânea e da Socioterminologia (Cabré, 1999; Faulstich, 2002; Freixa, 2013), essa coexistência de abordagens conceituais e nomenclaturas operacionais entre autores do agronegócio, transicionando da metáfora espacial da "porteira" (Araújo, 2010) para a terminologia sistêmico-econômica de "montante" e "jusante" (Batalha, 2011), não constitui mero desacordo terminológico, mas manifesta propriamente o dinamismo e a produtividade da variação denominativa motivada por causas funcionais, cognitivas e discursivas na linguagem de especialidade.

3. METODOLOGIA

Após a observação detalhada dos três segmentos fundamentais utilizados para compreender o complexo do Agronegócio, antes da porteira, dentro da porteira e depois da porteira, este trabalho propõe uma reflexão fundamentada sobre as suas variantes terminológicas e denominativas no Português do Brasil. Para operacionalizar este estudo e garantir o rigor terminológico e terminographic proposto por autores de referência na Linguística de Corpus e na Terminologia, tais como Pavel e Nolet (2001) e Krieger e Finatto (2004), estabelecemos os seguintes passos teóricos e procedimentos metodológicos:

3.1. Seleção, Dimensionamento e Justificativa do Corpus (Subcorpora)

A constituição do corpus de pesquisa foi pautada pelo princípio da representatividade (Biderman, 2001), buscando congregar diferentes vozes discursivas, variados graus de abstração/especialização e múltiplos suportes de circulação do saber agroindustrial. A este respeito, Biderman (2001) salienta a relevância e a necessidade da proporcionalidade na arquitetura dos dados linguísticos:

No desenho do corpus é necessário que haja uma proporção equilibrada dos diferentes tipos de texto e/ou de temas nele incluídos. É também importante que o corpus seja representativo dos diferentes gêneros e variedades dos usos linguísticos, ou seja, impõe-se a representatividade dos diferentes níveis de linguagem para assegurar a inclusão de todos os aspectos do idioma. Só assim o corpus pode representar, em miniatura, o universo multifacetado da língua (Biderman, 2001, p. 79).

Atendendo a essas premissas, o corpus total da pesquisa foi estruturado em três subcorpora específicos, perfazendo um universo documental de 150 textos representativos:

  1. Subcorpus 1 – Informativo/Didático (Baixa/Média Especialização): Formado por 10 edições de Boletins Informativos do Agronegócio elaborados por discentes sob supervisão docente entre os anos de 2013 e 2014 no Instituto Federal Goiano – Câmpus Iporá. Trata-se de um suporte de circulação regional e didático-divulgativa.

  2. Subcorpus 2 – Acadêmico Stricto Sensu (Alta Especialização): Formado por 130 dissertações de mestrado e 4 teses de doutorado pertencentes a programas de pós-graduação stricto sensu de 15 Instituições de Ensino Superior (IES) distribuídas pelas distintas regiões do Brasil. As IES abrangidas são: Universidade de São Paulo (USP); Universidade Estadual Paulista (UNESP); Fundação Getulio Vargas (FGV); Universidade Federal de Goiás (UFG); Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS); Universidade de Brasília (UnB); Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ); Universidade Estadual de Maringá (UEM); Universidade Federal de Rondônia (UNIR); Universidade do Contestado (UNC); Universidade Federal de Lavras (UFLA); e Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (UNIDERP).

  • Justificativa do Recorte Temporal (2005–2017): A delimitação temporal do subcorpus acadêmico entre 2005 e 2017 justifica-se por razões metodológico-diacrônicas. Trata-se do período histórico marcante em que a pesquisa acadêmica em Sistemas Agroindustriais (SAG) e Economia do Agronegócio se consolidou e expandiu nos programas de pós-graduação do país, viabilizando o mapeamento da fixação e variação dos termos no auge da consolidação teórico-conceitual do setor no Brasil.

  1. Subcorpus 3 – Institucional/Técnico (Média Especialização): Formado por textos técnicos e institucionais coletados nos sítios eletrônicos oficiais de seis órgãos de referência nacional no setor: Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA/ESALQ-USP); Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA); Centro de Estudos do Agronegócio (GV Agro - FGV); Centro de Conhecimento em Agronegócios (PENSA/USP); Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER); e Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).

A confluência dessas fontes resulta em um repertório denso que reúne a circulação discursiva de três grupos de sujeitos: estudantes em formação profissional, docentes/pesquisadores acadêmicos consagrados e especialistas de instituições técnico-governamentais.

3.2. Informatização, Normalização e Padronização Computacional

O tratamento técnico dos materiais seguiu rigorosos procedimentos de preparação para análise linguística computacional:

  • Conversão e Limpeza: Os documentos coletados originalmente em formato digital portátil (PDF) foram convertidos para o formato editável .doc/.docx por meio da plataforma Smallpdf e, na sequência, convertidos para o formato de texto simples sem formatação (.txt), codificados no padrão Unicode (UTF-8).

  • Normalização: Realizou-se uma varredura manual e automatizada para eliminação de ruídos de conversão (quebras involuntárias de linha, hifenizações de final de página, cabeçalhos, rodapés repetitivos e elementos não textuais), garantindo a integridade sintática necessária ao processamento de concordâncias.

3.3. Processamento Automatizado Via Unitex e Expressões de Busca

Para superação das limitações das buscas de palavras simples, o processamento do corpus foi conduzido com o suporte da suíte computacional Unitex/GramLab (sistema multipropósito de Linguística Computacional baseado em autômatos de estados finitos e gramáticas locais).

Para capturar tanto os termos núcleos simples quanto os sintagmas complexos e descontínuos (incluindo variações de preposição e expansões adjetivais), foram desenvolvidas rotas de busca e expressões regulares específicas no Unitex:

  1. Expressões para a dimensão "Antes": 

  • Padrão regular: <montante> | (antes (da|de) (porteira|fazenda))

  • Extensão sintagmática: (a montante|antes da porteira) (da|da produção)? (agropecuária|agrícola)?

  1. Expressões para a dimensão "Dentro":

  • Padrão regular: (dentro (da|de) (porteira|fazenda)) | (produção agropecuária propriamente dita)

  1. Expressões para a dimensão "Depois":

  • Padrão regular: <jusante> | (depois|após|fora) (da|de) (porteira|fazenda) | (porteira pra fora) | (pós-porteira)

  • Extensão sintagmática: (a jusante|depois da porteira) (da|da produção)? (agropecuária|agrícola)?

A aplicação desses autômatos no Unitex permitiu extrair não apenas contagens automatizadas, mas gerar concordâncias no formato KWIC (Key Word in Context), viabilizando o exame do ambiente sintático-discursivo imediato de cada ocorrência do termo no texto.

3.4. Métricas de Análise Quantitativa e Categorização Qualitativa

O tratamento dos dados extraídos do Unitex foi estruturado em duas etapas analíticas integradas:

  1. Análise Quantitativa e Estatística Descritiva:

As ocorrências foram contabilizadas e tabuladas para determinar a Frequência Absoluta (f) de cada variante e a Frequência Relativa (%), calculada pela relação entre o número de ocorrências da variante específica e o subtotal do segmento conceitual correspondente:

FrequênciaRelativa(%)=(fvariante∑fsegmento)×100

Adicionalmente, os dados foram submetidos ao cruzamento comparativo por suporte/gênero discursivo para aferir a distribuição percentual das variantes entre o discurso acadêmico (teses/dissertações), institucional (sites) e informativo (boletins).

  1. Análise Qualitativa e Aplicação do Modelo de Freixa (2013): Concluída a etapa quantitativa, articulou-se a reflexão linguística teórica de Cabré (1999), Faulstich (2002), Pavel e Nolet (2001) e Freixa (2012; 2013) com o aporte conceitual da economia e gestão agrária (Araújo, 2010; Callado, 2011; Batalha, 2011). A análise qualitativa debruçou-se sobre as linhas de concordância para classificar as causas motivadoras da variação terminológica identificadas no corpus, com ênfase nas causas funcionais (adequação ao nível de especialização do suporte) e causas discursivas (autovariação e recursos estilísticos/coesivos para evitar repetições no texto).

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

4.1. Análise Quantitativa e Produtividade das Variantes

A análise computacional do corpus registrou ao todo 606 ocorrências associadas aos três segmentos analíticos do agronegócio. A Tabela 1 apresenta a distribuição consolidada de frequências das unidades terminológicas centrais e suas variantes identificadas no corpus geral.

Tabela 1. Distribuição de frequências das unidades terminológicas centrais e suas variantes no corpus total

Segmento Conceitual

Unidade Terminológica / Variante Léxica

Frequência Absoluta (f)

Frequência Relativa (%)

Antes da Porteira

Montante

269

93,4%

 

Antes da porteira

9

3,1%

 

Montante da produção agropecuária

6

2,1%

 

Antes da fazenda / Antes da porteira da fazenda

4

1,4%

 

Subtotal Antes

288

100,0%

Dentro da Porteira

Dentro da porteira

85

61,6%

 

Produção agropecuária propriamente dita

38

27,5%

 

Dentro da fazenda

15

10,9%

 

Subtotal Dentro

138

100,0%

Depois da Porteira

Jusante

134

74,4%

 

Depois da porteira / Pós-porteira

21

11,7%

 

Jusante da produção agropecuária

12

6,7%

 

Porteira pra fora / Fora da porteira / Outras variantes*

13

7,2%

 

Subtotal Depois

180

100,0%

*Inclui as variantes: fora da fazenda, depois da porteira da fazenda e após a "porteira agrícola". Fonte: Dados extraídos do corpus via Unitex.

Os dados da Tabela 1 demonstram a marcante produtividade neológica do segmento depois da porteira, no qual foram mapeadas 9 variantes distintas, em comparação às 5 variantes de antes da porteira e 3 de dentro da porteira. Esse fenômeno fundamenta-se na própria evolução socioeconômica do agronegócio: enquanto a fase estritamente agrícola/produtiva engloba rotinas seculares padronizadas, a fase pós-colheita incorporou uma vasta gama de novos atores (distribuidores, tradings, agroindústrias, redes varejistas e órgãos reguladores), demandando maior plasticidade e criatividade denominativa para referenciar suas etapas (Araújo, 2010; Callado, 2011).

4.2. Variação Funcional por Gênero e Suporte Discursivo

Para testar a hipótese de que o grau de especialização e a tipologia do suporte condicionam a seleção terminológica (Freixa, 2013), realizou-se o cruzamento da ocorrência das unidades terminológicas entre os três subcorpora constitutivos. A Tabela 2 explicita essa distribuição comparativa.

Tabela 2. Distribuição comparativa de termos centrais e variantes segundo o suporte/gênero discursivo

Categoria Terminológica

Subcorpus Acadêmico (Teses/Dissertações) (f / %)

Subcorpus Institucional (Sítios Eletrônicos) (f / %)

Subcorpus Informativo (Boletins IF Goiano) (f / %)

Total (f)

Montante (Erudito)

210 (78,1%)

51 (19,0%)

8 (2,9%)

269

Antes da porteira (Metafórico)

2 (22,2%)

4 (44,4%)

3 (33,3%)

9

Jusante (Erudito)

108 (80,6%)

22 (16,4%)

4 (3,0%)

134

Porteira pra fora / Pós-porteira / Variantes

1 (7,7%)

5 (38,5%)

7 (53,8%)

13

Dentro da porteira / Dentro da fazenda

22 (22,0%)

48 (48,0%)

30 (30,0%)

100

Fonte: Dados compilados da pesquisa.

A análise dos dados da Tabela 2 comprova empiricamente a atuação das causas funcionais descritas por Freixa (2013):

  1. Hegemonia erudita no gênero acadêmico: As formas montante (78,1% das suas ocorrências totais) e jusante (80,6%) concentram-se fortemente nas teses e dissertações. Esse comportamento responde às exigências formais do discurso científico-acadêmico de pós-graduação, que prioriza a densidade conceitual, a brevidade e o rigor taxonômico herdado da economia agrária.

  2. Predomínio metafórico em suportes informativos/didáticos: Em contrapartida, as variantes sintagmáticas de caráter visual e metafórico, como porteira pra fora, pós-porteira e antes da porteira, apresentam sua maior densidade relativa nos boletins informativos (53,8% das variantes coloquiais de "depois") e nos portais institucionais (44,4% de "antes"). Nesses contextos pragmáticos de comunicação técnico-divulgativa, o uso de metáforas espaciais ("porteira") funciona como importante estratégia de facilitação e adequação ao público leigo, estudantes e produtores rurais.

4.3. Análise Qualitativa em Contexto (Linhas de Concordância)

Abaixo, analisam-se excertos reais extraídos do corpus para ilustrar os modos de funcionamento sintático e as motivações discursivas das variantes no texto.

Exemplo 1: Emprego da Variante Erudita em Texto Científico (Densidade Conceitual)

“[...] a análise das cadeias agroindustriais de grãos exige investigar os custos operacionais situados a montante da produção agropecuária, englobando o setor de fertilizantes e maquinários (Tese_USP_2015, p. 45).”

Análise: O termo neológico erudito montante opera inserido no sintagma preposicionado "a montante da...", funcionando como adjunto de delimitação técnica. O rigor do gênero acadêmico impõe a seleção dessa unidade terminológica consolidada no escopo da Economia Agroindustrial.

Exemplo 2: Uso de Variante Metafórica em Suporte Informativo (Adequação Pragmática)

“[...] para o produtor rural obter rentabilidade na safra atual, não basta focar no plantio; as maiores oportunidades de agregação de valor estão no segmento porteira pra fora (Boletim_IFGoiano_2014, n. 3, p. 2).”

Análise: A variante porteira pra fora atua no texto jornalístico/didático como recurso de aproximação expressiva com o leitor regional. O emprego do elemento coloquial "pra" em substituição ao formal "para" denota oralidade e busca adesão comunicativa imediata.

Exemplo 3: Autovariação Coesiva (Causa Discursiva)

“[...] enquanto as inovações tecnológicas transformaram os processos situados depois da porteira, alterando o transporte de grãos, as agroindústrias localizadas a jusante passaram a ditar as exigências de qualidade do mercado (Dissertação_UFRGS_2012, p. 88).”

Análise: No fragmento da Dissertação_UFRGS_2012, o mesmo autor mobiliza no mesmo parágrafo a forma sintagmática depois da porteira e o termo técnico a jusante. Trata-se de uma demonstração nítida de autovariação motivada por causa discursiva (Freixa, 2013), em que o pesquisador alterna os sinônimos para evitar a repetição lexical monótona e manter a fluidez e a elegância estilística do texto.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A língua, em seu caráter poliédrico, dinâmico e social, busca assegurar a comunicação eficiente em diferentes instâncias discursivas. No âmbito do contexto de especialidade, a linguagem transita do nível menos especializado ao mais condensado e erudito, adequando-se continuamente às propriedades inerentes à sua própria natureza linguística e aos fatores extralinguísticos, tais como a história, a cultura, a tecnologia e a economia (Ciapuscio, 2003; Bessé, 1997).

Com os acelerados avanços tecnológicos verificados no campo, consolidou-se uma profunda expansão socioeconômica que alterou toda a dinâmica do sistema tradicional de produção, industrialização e logística rural. Na medida em que novas práticas, ferramentas, máquinas e insumos foram sendo inseridos no processo produtivo, a necessidade de ampliação lexical fez-se premente, visto que a expansão terminológica acompanha lado a lado o progresso das áreas de especialização. Assim, diante dessa explosão socioeconômica, a área do Agronegócio também contou com uma expressiva ampliação lexical, viabilizando a criação, adaptação e apropriação de novos termos.

Neste patamar de reflexão, observamos que foram criados termos específicos para denominar novos contextos funcionais, os quais englobam desde as atividades anteriores à chegada na propriedade rural até o momento em que o produto atinge o consumidor final. Esta dinâmica de inserção de novos termos e adaptação dos preexistentes levou-nos a inferir que, por se tratar de uma prática produtiva secular, a atividade agrícola interna (dentro da porteira), embora tenha sofrido alterações, apresentou poucas variantes terminológicas, comportamento idêntico ao observado no segmento antes da porteira. Em contrapartida, para o segmento pós-produção (depois da porteira), que configura um contexto altamente inovador e em franca expansão econômica, identificou-se uma quantidade expressiva de variantes denominativas. Trata-se de um contexto que mobiliza pessoas de diferentes níveis de escolaridade, origens geográficas, identidades e extratos sociais, além de integrar diversificadas áreas do conhecimento, tais como a Economia, a Administração, a Agronomia, a Zootecnia e a Engenharia, o que resulta naturalmente em uma quantidade maior de variantes terminológicas.

A checagem empírica conduzida nesta pesquisa corroborou quantitativa e qualitativamente essas inferências: o segmento depois da porteira concentrou o maior leque denominativo (9 variantes mapeadas). Ademais, a análise comparativa entre os subcorpora permitiu confirmar que o grau de especialização do suporte discursivo atua como fator condicionante da variação funcional (Freixa, 2013). Ficou demonstrado que, enquanto a escrita acadêmica de alta especialização (teses e dissertações) exige o emprego hegemônico das unidades eruditas e condensadas montante (93,4%) e jusante (74,4%), os suportes de divulgação técnico-institucional e informativo (sites e boletins) recorrem sistematicamente aos sintagmas metafóricos e visuais (porteira pra fora, pós-porteira). Trata-se de uma estratégia consciente de adequação pragmática ao interlocutor e de autovariação discursiva para garantia da coesão e fluidez estilística do texto.

O uso especializado da língua está sujeito, portanto, a manifestar diferentes fenômenos linguísticos, incluindo expressivamente a variação denominativa, uma vez que a terminologia também comporta dimensões pragmáticas, sintáticas, semânticas, cognitivas e socioculturais (Cabré, 1999; Freixa, 2013).

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1 Doutora em Linguística e Língua Portuguesa, professora de Línguas no IF Goiano-Campus Iporá. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail