JOGOS COOPERATIVOS NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: PANORAMA DA PRODUÇÃO ACADÊMICA BRASILEIRA ENTRE 2015 E 2025

COOPERATIVE GAMES IN SCHOOL PHYSICAL EDUCATION: AN OVERVIEW OF BRAZILIAN ACADEMIC PRODUCTION BETWEEN 2015 AND 2025

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790478055

RESUMO
Os Jogos Cooperativos têm sido incorporados à Educação Física Escolar como alternativa à esportivização precoce, mas permanece pouco esclarecido o modo como a produção acadêmica brasileira tem tratado essa proposta. O objetivo deste estudo foi analisar o panorama da produção acadêmica brasileira sobre os Jogos Cooperativos na Educação Física Escolar entre 2015 e 2025, identificando tendências, enfoques predominantes e lacunas investigativas. Realizou-se uma revisão integrativa da literatura, orientada pela estratégia PICo. Após buscas exploratórias na SciELO e no Portal de Periódicos da CAPES, procedeu-se à busca sistemática no Google Acadêmico, com os descritores “Jogos Cooperativos” e “Educação Física Escolar”, no período de janeiro de 2015 a dezembro de 2025. Analisaram-se os cem primeiros resultados e, após a aplicação dos critérios de elegibilidade, selecionaram-se dezenove artigos, organizados em três categorias temáticas não mutuamente exclusivas. Os resultados evidenciam concentração nas dimensões sociais, éticas e metodológicas da cooperação: inclusão e desenvolvimento sociocomportamental; formação de valores e educação para a paz; e crítica metodológica ao esporte competitivo. Predominam estudos qualitativos, relatos de experiência e intervenções de curta duração, com escassez de investigações longitudinais. Conclui-se que a literatura confirma a relevância social e pedagógica dos Jogos Cooperativos, mas revela uma lacuna na articulação entre cooperação e aprendizagem tático-técnica nos esportes de invasão, particularmente no ensino do basquetebol.
Palavras-chave: Jogos cooperativos; Educação Física Escolar; Revisão integrativa; Esportes de invasão; Produção do conhecimento.

ABSTRACT
Cooperative Games have been incorporated into School Physical Education as an alternative to early sportification, yet how Brazilian academic production has addressed this proposal remains unclear. This study aimed to analyse the panorama of Brazilian academic production on Cooperative Games in School Physical Education between 2015 and 2025, identifying trends, predominant approaches and research gaps. An integrative literature review was carried out, guided by the PICo strategy. After exploratory searches in SciELO and in the CAPES Journal Portal, a systematic search was conducted on Google Scholar using the descriptors “Cooperative Games” and “School Physical Education”, covering January 2015 to December 2025. The first one hundred results were analysed and, after applying the eligibility criteria, nineteen articles were selected and organised into three non-mutually exclusive thematic categories. The findings show a concentration on the social, ethical and methodological dimensions of cooperation: inclusion and socio-behavioural development; the formation of values and education for peace; and methodological criticism of competitive sport. Qualitative studies, experience reports and short-term interventions predominate, with few longitudinal investigations. It is concluded that the literature confirms the social and pedagogical relevance of Cooperative Games, but reveals a gap in the articulation between cooperation and tactical-technical learning in invasion sports, particularly in the teaching of basketball.
Keywords: Cooperative games; School Physical Education; Integrative review; Invasion sports; Knowledge production.

INTRODUÇÃO

Historicamente, a Educação Física no Brasil tem sido influenciada por modelos pautados por uma lógica de mercado, que priorizam o rendimento técnico e a competitividade em detrimento da formação integral. Essa tendência consolida práticas excludentes que negligenciam a responsabilidade social e pedagógica da disciplina (Coelho; Maldonado; Bossle, 2021). Conforme destacam Betti e Zuliani (2002), a disciplina precisa superar a prática esportiva descontextualizada, possibilitando ao aluno compreender criticamente sua relação com o gesto motor.

Esses estudos convergem ao demonstrar que essa necessidade de renovação permanece como um desafio contemporâneo, visto que ainda persistem práticas tradicionais focadas apenas na dimensão técnica continuam a limitar a apropriação dos saberes escolares. No âmbito dos Esportes de Invasão, essa realidade é ainda mais evidente: à luz da proposição de Bagnara e Boscatto (2022) sobre a multidimensionalidade dos conhecimentos, entende-se que a estrutura baseada na oposição tende a reforçar comportamentos individualistas e hierarquizações de desempenho sempre que o ensino se restringe à dimensão técnica, sem contemplar as dimensões conceitual e crítico-social.

Os Jogos Cooperativos (JC) emergem como uma proposta didática capaz de ressignificar o ensino dos esportes, ao se contraporem à lógica da esportivização precoce e ao enfatizarem valores como a colaboração, a participação e o sucesso coletivo. Essa mudança de paradigma alinha-se à proposta de transformação pedagógica do esporte que questiona a subordinação da Educação Física ao sistema de rendimento (Kunz, 2024).

Entretanto, a inserção dessas práticas no contexto escolar demanda uma mediação docente intencional, de modo que a cooperação ultrapasse o aspecto lúdico e se traduza em aprendizagem consistente (Brotto, 1999). Estudos anteriores também indicam que a área ainda carece de maior diversificação metodológica, evidenciando que a superação do modelo diretivo tradicional permanece como um desafio central na produção acadêmica contemporânea (Bagnara; Boscatto, 2022; Brandl Neto; Silva; Miranda, 2013).

Uma das dificuldades recorrentes refere-se à transposição dos valores dos Jogos Cooperativos para o desenvolvimento da inteligência tática. Com base na noção piagetiana de coordenação de perspectivas, discutida por Rodrigues e Becker (2020), o “jogar com o outro” pode ser compreendido não apenas como um princípio ético, mas também como um mecanismo cognitivo que, nos esportes de invasão, envolve leitura de espaço, tomada de decisão e coordenação de esforços coletivos. Essa perspectiva é ampliada ao considerarmos que o ensino dos esportes de invasão deve migrar de abordagens tecnicistas para concepções pedagógicas centrados no jogo, que promovam a autonomia e a criatividade do aluno (Aquino; Menezes, 2022). Sem uma intervenção docente que estimule essa reflexão multidimensional, o jogo corre o risco de esvaziar sua finalidade educativa e limitar-se a uma experiência meramente recreativa (Bagnara; Boscatto, 2022; Brotto, 1999).

Considerando a necessidade de organizar e aprofundar o conhecimento produzido sobre o tema, torna-se pertinente realizar um levantamento que sistematize como os Jogos Cooperativos têm sido abordados no cenário científico nacional. Mais do que discutir seus benefícios de forma isolada, é fundamental mapear tendências, enfoques teóricos e lacunas da produção acadêmica, de modo a compreender como a literatura tem subsidiado a prática docente na Educação Física Escolar. Diante desse cenário, a presente revisão integrativa buscou analisar o panorama da produção acadêmica brasileira sobre os Jogos Cooperativos na Educação Física Escolar entre 2015 e 2025, identificando tendências, enfoques predominantes e lacunas que fundamentam a pesquisa empírica proposta nesta dissertação.

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, do tipo Revisão Integrativa da Literatura, desenvolvida conforme as seis etapas propostas por Mendes, Silveira e Galvão (2008): identificação do tema e seleção da questão norteadora; estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; definição das informações a serem extraídas e categorização dos estudos; avaliação dos estudos incluídos; interpretação dos resultados; e apresentação da síntese do conhecimento.

Para orientar o processo de busca foi utilizada a estratégia PICo (População, Interesse e Contexto), estruturada da seguinte forma: P (População): professores e estudantes da Educação Física Escolar; I (Interesse): Jogos Cooperativos; Co (Contexto): Educação Física Escolar brasileira.

A partir dessa estratégia formulou-se a seguinte questão norteadora: “Qual é o panorama da produção acadêmica brasileira sobre Jogos Cooperativos na Educação Física Escolar entre 2015 e 2025, considerando enfoques teóricos, tendências e lacunas investigativas?”

Inicialmente as buscas exploratórias foram realizadas nas bases Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), utilizando descritores controlados e termos livres relacionados aos Jogos Cooperativos e à Educação Física Escolar.

Entretanto, verificou-se que os resultados nessas bases não contemplavam número suficiente de estudos diretamente relacionados ao objeto desta revisão, indicando que, para o objeto desta revisão, a produção científica sobre Jogos Cooperativos na Educação Física Escolar encontra-se dispersa em diferentes periódicos.

Optou-se por realizar a busca sistemática no Google Acadêmico, mantendo os mesmos critérios de elegibilidade e seleção adotados para a revisão. A estratégia de busca utilizou os descritores: “Jogos Cooperativos” AND “Educação Física Escolar” com delimitação temporal entre janeiro de 2015 e dezembro de 2025.

Foram analisados os 100 primeiros resultados apresentados pelo mecanismo de busca (dez primeiras páginas), procedimento adotado para garantir exequibilidade da revisão e concentrar a seleção nos estudos de maior relevância ranqueados pelo algoritmo do Google Acadêmico.

Os critérios de inclusão compreenderam artigos científicos publicados em periódicos revisados por pares, disponíveis integralmente e relacionados diretamente ao contexto da Educação Física Escolar. Os critérios de inclusão e exclusão aplicaram-se exclusivamente à composição do corpus analisado; obras de referência teórica utilizadas na fundamentação do artigo, como Brotto (1999) e Orlick (1989), não foram submetidas a esses critérios.

Foram excluídos:

  • Trabalhos de Conclusão de Curso;

  • Dissertações;

  • Teses;

  • Livros;

  • Capítulos;

  • Resumos publicados em eventos;

  • Literatura cinzenta;

  • Documentos duplicados;

  • Estudos realizados fora do contexto escolar;

  • Trabalhos que abordavam jogos cooperativos sem relação com a educação física escolar.

  • Estudos identificados apenas como citações, sem acesso ao texto completo.

Figura 1. Fluxograma do processo de seleção dos estudos incluídos na revisão integrativa

Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

Após a aplicação dos critérios de elegibilidade realizou-se leitura dos títulos, resumos e textos completos, resultando na seleção final dos estudos incluídos nesta revisão.

Quadro 1. Artigos selecionados para análise

Periódico

Autor/ano

Título

Rev. Humanidades

Justen e Ahlert (2018)

A cooperação como categoria ideológica na formação do licenciado em educação física: um estudo de experiência docente na condução de atitudes agressivas no ensino fundamental

Diálogos e Perspectivas Interventivas

Lima e Assunção (2020)

A importância dos jogos cooperativos nas aulas de educação física escolar no desenvolvimento social do aluno

REVES - Revista Relações Sociais

Santos e Silva (2020)

A importância dos jogos cooperativos no ambiente escolar

Revista observatorio del deporte odep

Silva (2015)

A pedagogia dos jogos cooperativos: uma possibilidade de educar para cidadania

Temas em Educação Física Escolar

Pereira, Ferreira e Ramos (2021)

A indisciplina nas aulas de educação física: análise de uma proposta de ensino orientada pelos jogos sociomotrizes de cooperação

Lecturas: Educación Física y Deportes

Oliveira, Ferreira e Alencar (2022)

Contribuições dos jogos cooperativos na Educação Física escolar. Uma revisão integrativa

Diálogos e Perspectivas Interventivas

Santos e Correia (2020)

O uso dos jogos cooperativos como estratégia pedagógica na inclusão de alunos com deficiência intelectual nas aulas de educação física

Revista Caderno Pedagógico

Kaiut et al. (2024)

Educação para a paz e educação física: suas contribuições para uma educação inclusiva

Semioses: Inovação, Desenvolvimento e Sustentabilidade

Paula e Pereira (2018)

Educação física escolar: da esportivização aos jogos Cooperativos

Revista de estudios e investigación en psicología y educación

Amaral e Cunha (2017)

Jogos cooperativos e autorregulação da aprendizagem no ensino fundamental

Temas em Educação Física Escolar

Rodrigues e Becker (2020)

Jogos cooperativos e sua contribuição na educação para a paz

Aracê

Silva e Santos (2025)

Jogos cooperativos na prevenção do bullying escolar sob uma perspectiva inclusiva

Rev. Ens. Educ. Cienc. Human.

Alencar et al. (2019)

Jogos Cooperativos: Relações e Importância na Educação Física Escolar

Praxia

Mezzaroba et al. (2021)

Levantamento da produção sobre Jogos Cooperativos no contexto da Educação Física brasileira (1990-2020)

Revista Carioca de Educação Física

Silva (2018)

Jogos cooperativos como ferramenta pedagógica para as aulas de educação física.

Indagatio Didactica

Rodrigues e Neves (2017)

Os jogos cooperativos e a participação dos alunos nas aulas de educação física no 1.º ciclo do ensino básico – um estudo de investigação-ação

Revista Professare

Oliveira e Fischer (2016)

Práticas pedagógicas na educação física: cooperando e dançando de mãos dadas, buscando a inclusão escolar

Horizontes – Revista de Educação

Melchiades e Silva (2017)

Processo de inclusão social por meio dos jogos competitivos

Temas em Educação Física Escolar

Santos et al. (2023)

Violência no ambiente escolar: possibilidades de intervenção na abordagem de jogos cooperativos

Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

RESULTADOS

Nesta seção, são analisados os 19 artigos selecionados sobre Jogos Cooperativos na Educação Física Escolar. A leitura do conjunto evidencia que a produção científica se concentra principalmente nas dimensões sociais, éticas e metodológicas da cooperação, enquanto os efeitos sobre a aprendizagem de conteúdos esportivos específicos recebem menor atenção. Com base nessa tendência, os estudos foram organizados em três categorias temáticas não mutuamente exclusivas: a) os Jogos Cooperativos como ferramenta de inclusão e desenvolvimento sociocomportamental; b) os Jogos Cooperativos na formação de valores éticos e na educação para a cidadania; e c) os Jogos Cooperativos como alternativa metodológica e crítica ao esporte competitivo.

Um mesmo artigo foi incluído em mais de uma categoria quando seus objetivos ou resultados contemplavam diferentes dimensões dos Jogos Cooperativos.

Quadro 2. categorias de análise

Categoria

Descrição da categoria

N

Os Jogos Cooperativos como ferramenta de inclusão e desenvolvimento sociocomportamental

Nesta categoria, encontram-se os artigos que tratam dos jogos cooperativos na sua função como intervenção social direta para garantir a participação de todos e reduzir conflitos, indisciplina e bullying.

10

Os Jogos Cooperativos na formação de valores éticos e educação para a cidadania

Nesta categoria, concentram-se os artigos que abordam os Jogos Cooperativos como possibilidade de formação ética, desenvolvimento da solidariedade, respeito mútuo, cidadania e educação para a paz.

06

Os Jogos Cooperativos como alternativa metodológica e crítica ao esporte competitivo

Nesta categoria, reúnem-se os artigos que analisam os Jogos Cooperativos como alternativa metodológica ao ensino esportivizado tradicional, enfatizando a modificação de regras, a participação, a reflexão e a crítica à competição exacerbada.

07

Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

a) Os Jogos Cooperativos como ferramenta de inclusão e desenvolvimento sociocomportamental

Os estudos reunidos nesta categoria convergem ao associar os Jogos Cooperativos à ampliação da participação e à melhoria das relações entre os estudantes. As intervenções relatam redução de conflitos, agressividade, indisciplina e situações de exclusão, embora utilizem públicos, durações e instrumentos de produção de dados distintos.

As diferenças metodológicas ajudam a compreender a amplitude desses resultados. Oliveira e Fischer (2016) articulam práticas cooperativas às danças circulares em turmas que reúnem estudantes com e sem deficiência intelectual, enquanto Santos e Correia (2020) discutem a mediação docente necessária para incluir esses estudantes nas aulas. Apesar das particularidades de cada intervenção, ambos os estudos registram maior participação, confiança e ajuda mútua. Essa convergência sugere que o efeito inclusivo não depende de uma única atividade, mas da reorganização das relações e das responsabilidades estabelecidas durante as aulas.

Os resultados também permitem identificar os mecanismos pedagógicos associados a essas mudanças. As intervenções que registraram redução da indisciplina e das agressões combinaram reorganização das regras, maior interdependência entre os participantes e espaços de diálogo sobre os conflitos vivenciados. Assim, os efeitos observados não parecem decorrer apenas da presença de jogos denominados cooperativos, mas da forma como as atividades foram mediadas e problematizadas pelo professor (Rodrigues; Neves, 2017; Justen; Ahlert, 2018; Santos; Silva, 2020).

Apesar do predomínio de resultados positivos, a literatura não apresenta consenso sobre quais formatos cooperativos produzem maior engajamento. Santos et al. (2023) observaram maior envolvimento em jogos semicooperativos, enquanto atividades sem perdedores nem sempre despertaram o mesmo interesse dos estudantes. Esse resultado sugere que a simples eliminação da competição não garante maior participação, indicando que fatores como o nível de desafio, a organização das tarefas e a mediação docente exercem papel decisivo na qualidade da experiência pedagógica.

Em conjunto, as evidências indicam que os Jogos Cooperativos podem favorecer a inclusão e melhorar as relações interpessoais nas aulas de Educação Física. Essa conclusão, entretanto, deve ser interpretada com cautela, pois predominam estudos qualitativos, relatos de experiência e intervenções de curta duração. Além disso, as pesquisas concentram-se principalmente em mudanças comportamentais e relacionais, sem examinar com a mesma profundidade a aprendizagem de conteúdos esportivos específicos. Essa assimetria revela a primeira lacuna relevante para o presente estudo.

b) Os Jogos Cooperativos na formação de valores éticos e educação para a cidadania e a paz

Nesta categoria, a cooperação é compreendida como conteúdo formativo, e não apenas como regra utilizada durante as atividades. Os estudos relacionam as experiências cooperativas ao desenvolvimento da solidariedade, do respeito, da responsabilidade, da reciprocidade e da participação democrática.

A maior parte dessa produção é teórica ou bibliográfica, o que revela forte investimento na defesa conceitual dos Jogos Cooperativos como instrumento de formação cidadã. Em contrapartida, são menos frequentes investigações empíricas que acompanhem como esses valores se manifestam nas ações dos estudantes ao longo do tempo. Essa diferença entre defesa teórica e verificação prática precisa ser considerada na interpretação dos resultados (Silva, J. P. V., 2015; Silva, F. J. S., 2018; Lima; Assunção, 2020).

Para esta pesquisa, a distinção é particularmente relevante porque permite compreender a cooperação cognitiva como ponto de passagem entre a formação ética e a aprendizagem tática. Coordenar diferentes perspectivas não constitui apenas uma atitude de respeito: é também uma exigência para interpretar espaços, antecipar ações e decidir coletivamente durante o jogo.

Nas intervenções pedagógicas, a formação de valores depende da criação de espaços sistemáticos de diálogo e reflexão. Em uma unidade didática voltada à indisciplina, rodas de conversa realizadas no início e no final de cada aula permitiram aos estudantes identificar problemas de convivência, discutir suas consequências e participar da construção das regras. A experiência demonstra que a cooperação ganha sentido educativo quando os conflitos do jogo são convertidos em objeto de análise coletiva, em vez de serem apenas reprimidos pelo professor (Pereira; Ferreira; Ramos, 2021).

Apesar desses benefícios, os Jogos Cooperativos não devem ser concebidos como uma oposição moral aos jogos competitivos. A análise dos estudos mostra que cooperação e competição não possuem valor pedagógico fixo, pois seus efeitos dependem dos objetivos, das regras, da mediação docente e dos significados atribuídos à experiência.

A competição pode favorecer o confronto, o desafio e o desempenho, mas também estimular o egocentrismo e a valorização excessiva da vitória. A cooperação, por sua vez, pode ampliar a participação e a solidariedade, embora determinadas formas de organização também possam gerar passividade ou conformismo. Por isso, a escolha pedagógica deve ser contextualizada, evitando classificar previamente qualquer uma dessas estruturas como sempre positiva ou negativa (Melchiades; Silva, 2017).

No campo da educação para a paz, os estudos ampliam o alcance da aprendizagem cooperativa para além da aula de Educação Física. As experiências vividas nos jogos adquirem maior sentido quando os estudantes conseguem relacioná-las à convivência familiar, escolar e comunitária. Nessa perspectiva, jogar “com o outro” representa uma oportunidade de exercitar autonomia, responsabilidade, aceitação das diferenças e resolução não violenta de conflitos (Kaiut et al., 2024). O desafio, portanto, não é apenas produzir comportamentos cooperativos durante a atividade, mas favorecer sua transferência para situações que não estão organizadas pelo professor.

O conjunto das evidências confirma o potencial formativo dos Jogos Cooperativos, mas também revela uma limitação importante: grande parte das conclusões deriva de ensaios, revisões bibliográficas ou intervenções avaliadas pela percepção dos participantes. Ainda são escassos os estudos longitudinais capazes de verificar se os valores vivenciados nas aulas permanecem e são transferidos para outros contextos sociais. Assim, a literatura demonstra com maior segurança o potencial educativo da cooperação do que a permanência de seus efeitos.

c) Os Jogos Cooperativos como alternativa metodológica e crítica ao esporte competitivo

A produção reunida nesta categoria concentra-se na análise dos Jogos Cooperativos como alternativa à condução tecnicista e seletiva das práticas esportivas. Em vez de recusarem necessariamente a competição, as pesquisas discutem maneiras de reorganizar objetivos, regras, funções e critérios de sucesso, buscando preservar o desafio do jogo sem subordinar a aula à vitória, ao rendimento ou ao domínio dos estudantes mais habilidosos.

Uma parcela significativa dos estudos defende que o esporte pode continuar constituindo espaço de socialização e inclusão mesmo quando mantém elementos competitivos, desde que a intervenção docente reduza a centralidade do placar e enfatize a participação, a convivência e a aprendizagem (Melchiades; Silva, 2017). O problema pedagógico, portanto, não reside na oposição entre equipes, mas na forma como ela é organizada e significada durante as atividades.

Entre as estratégias metodológicas identificadas, destaca-se a modificação intencional das estruturas dos jogos como uma das principais possibilidades metodológicas. As categorias propostas por Orlick (1989), jogos sem perdedores, de resultado coletivo, de inversão e semicooperativos, são utilizadas para demonstrar que práticas tradicionais podem ser reorganizadas mediante metas compartilhadas, rodízio de funções, participação ampliada e compromisso coletivo. Essas adaptações procuram diminuir a exclusão sem retirar necessariamente a incerteza e o desafio presentes no jogo esportivo (Paula; Pereira, 2018).

Outra contribuição relevante refere-se à autorregulação da aprendizagem. No estudo de Amaral e Cunha (2017), os estudantes participaram das etapas de planejamento, execução e avaliação de uma atividade cooperativa. Os registros mostraram que a definição prévia de funções favoreceu interação e organização coletiva, embora parte dos grupos tenha reconhecido, ao final, que o planejamento não foi cumprido pela ausência de colaboração de alguns integrantes. O resultado evidencia que a cooperação não decorre automaticamente da estrutura da tarefa. Ela precisa ser construída, acompanhada e avaliada pelos próprios participantes, sob mediação docente.

As pesquisas bibliográficas e documentais reforçam que os Jogos Cooperativos podem ampliar a participação e favorecer respeito, solidariedade, diálogo e convivência. Contudo, também apontam que a produção acadêmica sobre o tema permanece dispersa e, em alguns casos, adota uma perspectiva simplista ou “salvacionista”, atribuindo às atividades cooperativas resultados positivos sem discutir suficientemente seus fundamentos, condições de aplicação e limitações (Mezzaroba et al., 2021). Essa crítica é relevante para a presente pesquisa, pois impede que a cartilha pedagógica trate os Jogos Cooperativos como solução universal. As atividades precisam explicitar objetivos, condições de aplicação, formas de mediação e critérios de avaliação.

A concentração dos resultados nas dimensões sociais e atitudinais também aparece na revisão de Oliveira, Ferreira e Alencar (2022). Os autores identificaram contribuições relacionadas à inclusão, à socialização, à redução da agressividade, ao prazer e ao trabalho em equipe. Embora mencionem a aprendizagem de habilidades motoras, essa dimensão ocupa posição secundária. O padrão reforça a existência de um desequilíbrio na produção: sabe-se mais sobre os efeitos relacionais dos Jogos Cooperativos do que sobre sua contribuição para aprendizagens tático-técnicas específicas.

DISCUSSÃO

As produções analisadas nesta categoria reconhecem os Jogos Cooperativos como possibilidade de transformação pedagógica e de revisão da esportivização excludente. Entretanto, há menor desenvolvimento de propostas que relacionem explicitamente as regras cooperativas aos problemas táticos de modalidades específicas. A literatura explica com maior frequência como cooperar para incluir, conviver e formar valores do que como utilizar a cooperação para ensinar leitura de jogo, ocupação de espaços, criação de linhas de passe, progressão ao alvo ou tomada de decisão.

A produção analisada apresenta os Jogos Cooperativos como uma possibilidade de superar práticas esportivizadas centradas no rendimento e na seleção dos mais habilidosos. Essa mudança exige que o professor reorganize regras, objetivos e formas de participação, deslocando a ênfase exclusiva na vitória para a aprendizagem, a ajuda mútua e a inclusão (Brotto, 1999). Os estudos indicam, contudo, que essa transformação não ocorre apenas pela adoção de atividades cooperativas: depende de mediação intencional e de reflexão sobre os conflitos produzidos durante o jogo. A análise permitiu identificar três eixos que articulam cooperação e prática pedagógica:

  1. 1. a predominância da dimensão social e moral como condição de possibilidade para o aprendizado motor através da mediação docente intencional;

  2. 2. a vivência da cooperação escolar para além do isolamento pedagógico, consolidando-se como prática de cidadania na vida do aluno; e

  3. 3. a coordenação de perspectivas cognitivas desenvolvida no jogo cooperativo como mecanismo motor da inteligência tática nos esportes de invasão.

A dimensão social e moral pode criar condições favoráveis à aprendizagem motora. Os estudos brasileiros valorizam os Jogos Cooperativos principalmente por sua capacidade de reduzir comportamentos agressivos, ampliar o interesse e tornar o ambiente mais seguro para a participação (Justen; Ahlert, 2018; Rodrigues; Neves, 2017). Esses resultados, entretanto, não devem ser compreendidos como finalidade única da Educação Física. Sua importância reside também em criar condições para que os estudantes experimentem, errem, reformulem decisões e aprendam novas habilidades sem receio de exposição ou ridicularização. Nessa interpretação, a segurança socioafetiva funciona como suporte para a aprendizagem tático-técnica, e não como substituta dela.

Entende-se que a estabilização social funciona como um suporte indispensável: sem um ambiente pacificado e sem o bem-estar socioafetivo evidenciado por Santos et al. (2023) e Silva e Santos (2025), a quadra torna-se hostil ao erro, o que inviabiliza a experimentação necessária para a aprendizagem de novas habilidades.

A melhoria das relações e a inclusão dos estudantes não emergem de forma espontânea. Sem uma crítica ao modelo esportivizado e sem objetivos pedagógicos explícitos, atividades denominadas cooperativas podem tornar-se apenas recreativas ou reproduzir formas tradicionais de exclusão (Paula; Pereira, 2018; Mezzaroba et al., 2021). O jogo, portanto, não é educativo por si mesmo; seu valor depende da forma como o professor organiza a tarefa, intervém nos conflitos e estimula a reflexão. Estratégias como as rodas de conversa exemplificam maneiras de integrar planejamento, ação e análise da experiência, favorecendo a compreensão dos comportamentos produzidos durante as atividades (Amaral; Cunha, 2017; Pereira; Ferreira; Ramos, 2021).

A formação de valores constitui outro eixo recorrente na literatura. Os estudos relacionam a vivência cooperativa ao respeito mútuo, à solidariedade, à aceitação das diferenças e à resolução não violenta de conflitos (Silva, 2015; Rodrigues; Becker, 2020). Esses efeitos, porém, não devem permanecer restritos ao tempo e ao espaço da aula. A aprendizagem ética ganha maior alcance quando o professor ajuda os estudantes a relacionar os dilemas vivenciados no jogo às situações de convivência escolar, familiar e comunitária (Kaiut et al., 2024). Assim, a contribuição dos Jogos Cooperativos para a cidadania depende menos da repetição de discursos sobre solidariedade e mais da análise concreta das decisões, dos conflitos e das responsabilidades assumidas durante as atividades.

A principal aproximação entre cooperação e aprendizagem esportiva ocorre na passagem da cooperação moral para a cooperação tática. Coordenar ações com os companheiros exige que o estudante abandone uma leitura centrada apenas na própria ação — descentração que Rodrigues e Becker (2020) discutem, a partir de Piaget, no plano da convivência — e passe a considerar, no jogo, posições, deslocamentos, intenções e possibilidades coletivas. Nos esportes de invasão, essa descentração sustenta decisões como oferecer apoio, criar linhas de passe, ocupar espaços livres e realizar coberturas defensivas. Os Jogos Cooperativos podem, portanto, criar situações em que a ajuda mútua também funciona como princípio de organização tática.

A coordenação de perspectivas está presente em ações táticas como a cobertura defensiva, a ocupação de espaços livres e a criação de linhas de passe. Ao participar de tarefas cooperativas, o estudante pode perceber que seu posicionamento interfere nas possibilidades de ação dos companheiros e no resultado coletivo. A cooperação, nesse caso, não substitui o ensino tático, mas oferece condições para que leitura de jogo, comunicação e tomada de decisão sejam trabalhadas de forma integrada. Essa relação fundamenta a proposta desta pesquisa de utilizar regras cooperativas no ensino das competências tático-técnicas do basquetebol.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A produção acadêmica analisada reconhece os Jogos Cooperativos como uma possibilidade pedagógica para ampliar a participação, mediar conflitos e melhorar o clima das aulas de Educação Física. Os estudos também evidenciam, entretanto, que seus efeitos dependem da intencionalidade docente e das condições em que as atividades são organizadas. A principal lacuna encontrada reside na articulação entre cooperação e aprendizagem tático-técnica nos esportes de invasão.

Os resultados permitem destacar três conclusões: a) a segurança socioafetiva favorece a aprendizagem motora; b) a vivência cooperativa precisa ser relacionada à cidadania para além da aula; e c) a cooperação cognitiva pode sustentar processos de leitura de jogo e decisão tática.

Os Jogos Cooperativos têm sido abordados predominantemente como estratégia de inclusão, convivência, participação, redução de conflitos, educação para a paz e formação de valores. Embora esses enfoques confirmem sua relevância social e pedagógica para a Educação Física Escolar, também revelam uma lacuna importante: permanecem escassos os estudos que investigam a cooperação como componente do desenvolvimento tático-técnico em modalidades esportivas específicas. Mesmo quando aparecem referências às habilidades motoras, ao planejamento e à tomada de decisão, tais dimensões ocupam lugar secundário diante dos aspectos relacionais e atitudinais. Nesse sentido, mostra-se necessário ampliar as pesquisas que articulem regras cooperativas, princípios operacionais dos esportes de invasão (Bayer, 1994) e aprendizagem tático-técnica, especialmente no ensino do basquetebol.

Os Jogos Cooperativos não devem ser tratados apenas como conteúdo acessório nem como solução automática para os problemas da Educação Física Escolar. Seu potencial depende de uma mediação capaz de articular participação, reflexão e aprendizagem esportiva. No ensino do basquetebol, essa articulação pode favorecer a leitura das situações de jogo, a coordenação das ações coletivas e a tomada de decisão, sem dissociar o desenvolvimento tático-técnico da formação ética. É essa possibilidade que orienta a intervenção proposta nesta pesquisa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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AMARAL, L. M.; CUNHA, N. de B. Jogos cooperativos e autorregulação da aprendizagem no ensino fundamental. Revista de Estudios e Investigación en Psicología y Educación, A Coruña, v. extr., n. 01, p. 236-240, 2017. Disponível em: https://revistas.udc.es/index.php/reipe/article/view/reipe.2017.0.01.2622. Acesso em: 16 nov. 2025.

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BAGNARA, I. C.; BOSCATTO, J. D. Multidimensionalidade dos conhecimentos: uma proposição para o ensino da Educação Física. Movimento, Porto Alegre, v. 28, e28060, 2022. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/Movimento/article/view/122960. Acesso em: 14 dez. 2025.

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AGRADECIMENTOS

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.


1 Mestrando no Programa de Mestrado Profissional em Educação Física em Rede Nacional (ProEF) da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Tocantins. Especialista em Educação Física Escolar. Licenciado em Educação Física pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Doutor em Biotecnologia pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (Bionorte). (orientador). Docente do Instituto Federal do Tocantins (IFTO) e do Programa de Mestrado Profissional em Educação Física em Rede Nacional (ProEF) da Universidade Federal do Tocantins (UFT).