INTERNAÇÃO NEONATAL E CONJUGALIDADE: CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA HOSPITALAR NO CUIDADO AOS PAIS DE BEBÊS INTERNADOS EM UTIN

NEONATAL HOSPITALIZATION AND CONJUGALITY: CONTRIBUTIONS OF HOSPITAL PSYCHOLOGY IN THE CARE OF PARENTS OF BABIES ADMITTED TO THE NICU

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792464855

RESUMO
A internação de um recém-nascido em unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN) constitui uma experiência que pode produzir sofrimento psicológico e modificar a organização da vida familiar. Nesse contexto, torna-se relevante compreender não apenas as repercussões emocionais da hospitalização para os pais, mas também seus possíveis reflexos na relação conjugal e as possibilidades de atuação da psicologia hospitalar. Este estudo teve como objetivo analisar a partir da literatura científica, as repercussões psicológicas da hospitalização neonatal na experiência dos pais e discutir possibilidades de atuação da Psicologia hospitalar voltadas ao casal e a família. Especificamente buscou-se identificar as principais repercussões psicológicas da internação neonatal na experiência dos pais; discutir possíveis repercussões da hospitalização na relação conjugal dos pais; compreender as contribuições da psicologia hospitalar e das práticas de cuidado humanizado no suporte aos pais e à família durante a internação neonatal. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter exploratório e descritivo, realizada a partir da análise de artigos científicos e documentos oficiais. Os resultados indicam que ansiedade, estresse, medo, tristeza, culpa, sensação de impotência e dificuldades relacionadas ao exercício do papel parental aparecem entre as manifestações discutidas pela literatura. Os estudos também apontam uma relação entre suporte social, condições de convivência, sofrimento psicológico e qualidade da relação conjugal, além de destacarem a participação parental e o cuidado centrado na família. Conclui-se que a psicologia hospitalar pode contribuir por meio do acolhimento, da escuta qualificada, da psicoeducação, da mediação de comunicação e identificação de situações que demandam encaminhamento, sem pressupor que a hospitalização produza necessariamente deterioração da relação conjugal. 
Palavras-chave: Conjugalidade; Humanização; Parentalidade; Psicologia Hospitalar; Unidade de terapia intensiva neonatal.

ABSTRACT
The hospitalization of a newborn in a neonatal intensive care unit (NICU) constitutes an experience that may cause psychological distress and alter the organization of family life. In this context, it is relevant to understand not only the emotional repercussions of hospitalization for parents but also its potential effects on the marital relationship and the possibilities for intervention by hospital psychology. This study aimed to analyze, based on the scientific literature, the psychological repercussions of neonatal hospitalization on parents’ experiences and to discuss possible interventions by hospital psychology aimed at couples and families. Specifically, it sought to identify the main psychological repercussions of neonatal hospitalization on parents’ experiences; to discuss the potential effects of hospitalization on parents’ marital relationships; and to understand the contributions of hospital psychology and humanized care practices in supporting parents and families during neonatal hospitalization. This is a bibliographic study with a qualitative approach and an exploratory and descriptive design, based on the analysis of scientific articles and official documents. The results indicate that anxiety, stress, fear, sadness, guilt, feelings of helplessness, and difficulties related to the exercise of the parental role are among the manifestations discussed in the literature. The studies also indicate a relationship between social support, living conditions, psychological distress, and the quality of the marital relationship, while highlighting parental participation and family-centered care. It is concluded that hospital psychology can contribute through emotional support, active listening, psychoeducation, communication facilitation, and the identification of situations requiring referral to other professionals or services. These contributions should be considered without assuming that hospitalization necessarily leads to deterioration of the marital relationship.
Keywords: Conjugality; Humanization; Hospital psychology; Neonatal intensive care unit; Parenthood.

1. INTRODUÇÃO

A chegada de um filho representa um período de importantes transformações na dinâmica familiar, marcado pela construção de expectativas e idealizações acerca do bebê, além da ressignificação dos papéis e da adaptação às novas responsabilidades decorrentes das mudanças. No entanto, esse processo pode ser atravessado por intercorrências que diferem das expectativas construídas durante a gestação, especialmente quando o recém-nascido necessita de cuidados médicos e hospitalização (Silva, 2025; Rodrigues et al., 2024).

Nesse contexto, o recém-nascido apresenta um quadro de saúde que evidencia a necessidade de um cuidado especializado. Diante disso, a internação em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) passa a constituir uma nova realidade para o bebê e a família, o que pode implicar impactos emocionais e conjugais sobre os pais (Rocha et al., 2022).

Diante disso, o presente estudo delimita-se a compreender as contribuições da psicologia hospitalar na assistência aos pais de recém-nascidos internados em UTIN, considerando as repercussões psicológicas da internação e seus possíveis impactos conjugais.

A relevância deste estudo está relacionada à necessidade de compreender o cuidado neonatal para além da sobrevivência clínica do recém-nascido, considerando que os pais também vivenciam necessidades de informação, acolhimento, participação e suporte emocional durante a hospitalização. Nesse contexto, discutir as repercussões psicológicas da internação neonatal e suas possíveis relações com a conjugalidade pode contribuir para ampliar a compreensão do cuidado à família e das possibilidades de atuação do psicólogo hospitalar.

O presente estudo parte da seguinte questão norteadora: Quais as contribuições da psicologia hospitalar são apontadas pela literatura diante das repercussões psicológicas da internação neonatal e das possíveis dificuldades vivenciadas na relação conjugal de pais com bebês internados em UTIN?

Para responder a essa questão o estudo tem como objetivo geral: analisar, a partir da literatura científica, as repercussões psicológicas da hospitalização neonatal na experiência dos pais e na relação conjugal, discutindo as contribuições da psicologia hospitalar nesse contexto. Para alcançá-lo, foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos: identificar as principais repercussões psicológicas da internação neonatal na experiência dos pais; discutir possíveis repercussões da hospitalização na relação conjugal dos pais; compreender as contribuições da psicologia hospitalar e das práticas de cuidado humanizado no suporte aos pais e à família durante a internação neonatal.

Metodologicamente, este estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter exploratório e descritivo. Para sua realização, foram considerados artigos científicos, documentos oficiais e referências teóricas relacionadas à hospitalização neonatal, sofrimento parental, conjugalidade, cuidado centrado na família, método canguru, e atuação da psicologia hospitalar. As buscas foram realizadas no Google Acadêmico, na Scientific Electronic Library Online (SciELO) e no PePSCIC, mediante a utilização dos termos; Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, hospitalização neonatal, psicologia hospitalar, humanização da assistência e as respectivas combinações, pais de neonato e a conjugalidade, assistência humanizada aos pais de neonatos. Também foram consultados documentos oficiais do Ministério da Saúde relacionados à assistência neonatal e ao método canguru.

A seleção dos materiais contemplou publicações em língua portuguesa, disponíveis na íntegra e publicadas entre 2016 e 2026, que apresentassem relação com a temática. Excluíram-se publicações em outros idiomas, materiais incompletos, trabalhos publicados fora do período estabelecido. Após as buscas e a aplicação dos critérios estabelecidos os materiais selecionados foram organizados e analisados de acordo com sua relação com o problema e os objetivos do estudo. 

Quanto às limitações deste estudo, por se tratar de uma pesquisa bibliográfica, não foi possível realizar coleta de dados em campo, o que impossibilitou acessar de forma direta a experiência e a percepção dos pais diante da internação do filho em UTIN para compreender as repercussões psicológicas e conjugais decorrentes. Além disto, observou-se uma produção científica ainda limitada acerca da temática de forma específica a considerar as repercussões psicológicas conjugais vivenciadas pelos pais, o que pode restringir a abrangência das discussões apresentadas neste estudo.

Quanto à organização, o presente estudo está estruturado em três eixos de discussão. Inicialmente, são apresentadas as repercussões psicológicas da internação neonatal na experiência parental. Em seguida, são discutidas as repercussões conjugais da internação neonatal na relação dos pais. Por fim, aborda-se o papel da psicologia hospitalar e as práticas de cuidado humanizado no suporte aos pais e à família. Após o Desenvolvimento, são apresentadas as Considerações e Resultados do estudo.

2. RERPERCUSSÕES DA INTERNAÇÃO NEONATAL E CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA HOSPITALAR

2.1. Hospitalização Neonatal e Repercussões Psicológicas e Conjugais nos Pais

A Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) é um setor hospitalar especializado destinado à internação e ao cuidado intensivo de recém-nascidos que apresentam condições clínicas graves ou com risco potencial de agravamento. Essa unidade conta com uma equipe multiprofissional capacitada e habilitada para exercer práticas assistenciais especializadas que considerem as especificidades do quadro clínico de cada neonato (Oliveira; Lima; Oliveira, 2025; Rodrigues et al., 2024).

Além disso, a UTIN dispõe de uma estrutura física de alta complexidade, equipada com dispositivos tecnológicos avançados que possibilitam o monitoramento contínuo do bebê e contribuem para a eficiência da assistência especializada prestada ao neonato e à família (Oliveira; Lima; Oliveira, 2025; Rodrigues et al., 2024). Nesse sentido, o Ministério da Saúde, por meio da Portaria n.º 930 estabelece que:

A Unidade Neonatal é um serviço de internação responsável pelo cuidado integral ao recém-nascido grave ou potencialmente grave, dotado de estruturas assistenciais que possuam condições técnicas adequadas à prestação de assistência especializada, incluindo instalações físicas, equipamentos e recursos humanos (Brasil, 2012, p. 1).

Embora a UTIN desempenhe um papel importante no cuidado e na recuperação do neonato, sua dinâmica assistencial e suas características podem ser percebidas como estressantes tanto para o bebê quanto para os familiares. Isso se deve aos ruídos constantes dos equipamentos médicos e ao fluxo permanente de profissionais, que, quando associados ao afastamento do bebê da família e às mudanças na rotina familiar, podem tornar a experiência da internação ainda mais traumática (Rodrigues et al., 2024).

Diante disso, a internação neonatal pode desencadear uma série de reações emocionais complexas nos pais. Gomes e Silva (2019) afirmam que pais de bebês internados em UTIN apresentam níveis elevados de estresse e ansiedade, podendo desenvolver sintomas de depressão ou transtorno de estresse pós-traumático. Nesse sentido, Molin et al. (2023, p. 31999) destacam que “o sofrimento da família na UTIN pode se manifestar de diversas maneiras, como ansiedade, medo, angústia, tristeza e culpa, além de uma sensação de impotência diante da situação”.

Essas manifestações emocionais não estão relacionadas apenas à gravidade do quadro clínico do recém-nascido, mas também às mudanças que a dinâmica familiar sofre diante da hospitalização do bebê. A necessidade de adaptação à rotina da UTIN, as incertezas quanto à evolução clínica do bebê, o afastamento do convívio familiar e a sensação de perda do controle sobre a situação podem intensificar o sofrimento vivenciado pelos pais (Schneider; Medeiros, 2012).

Nesse contexto Strauss e Antoniolli (2019) discutem que a internação neonatal representa um evento crítico que atravessa múltiplas dimensões da vida familiar, e afirmam que "a crise neonatal não é apenas uma questão médica, mas uma experiência existencial que redefine identidades parentais" (Strauss; Antoniolli 2019, p. 156).

Além das mudanças na dinâmica familiar e das repercussões emocionais que os pais experimentam, a experiência da hospitalização também pode influenciar a dinâmica conjugal. As mudanças impostas pelo processo de internação, as incertezas diante do quadro clínico do bebê, e a necessidade de reorganização familiar, repercute diretamente na relação entre os cônjuges (Barreto; Boeckel, 2019; Schneider; Medeiros, 2012).

É necessário considerar que a maneira como cada casal vivencia esse período é particular, uma vez que, enquanto alguns casais experimentam uma maior aproximação nessa fase, outros casais vivenciam um distanciamento significativo (Barreto; Boeckel, 2019). Nesse contexto, Barreto e Boeckel (2019) afirmam que a forma como os cônjuges se comunicam durante o período de internação do filho e as mudanças associadas, pode ser compreendida como um elemento importante tanto para o fortalecimento da relação conjugal quanto para a intensificação das dificuldades já vivenciadas pelo casal.

De acordo com um estudo realizado por Barreto e Boeckel (2019), os homens e as mulheres tendem a expressar seu sofrimento diante da internação do filho de maneiras distintas. Enquanto as mães costumam expressar com mais facilidade suas emoções e sentimentos e percebem o apoio emocional do cônjuge como importante para o enfrentamento dos fatores associados ao estado de saúde do filho, os pais frequentemente guardam suas preocupações e angústias para si, como uma tentativa de proteger a companheira.

Nesse sentido, a experiência traumática da internação neonatal pode gerar dinâmicas de isolamento emocional entre os cônjuges. Enquanto cada pai processa individualmente o trauma da situação, a falta de comunicação efetiva e de suporte mútuo pode levar ao afastamento conjugal, transformando uma crise que deveria unir o casal em um fator de desintegração relacional (Barreto; Boeckel, 2019). Strauss e Antoniolli (2019) apontam que a assistência ao recém-nascido prematuro na UTIN frequentemente negligencia a dimensão psicológica dos pais, focando exclusivamente na sobrevivência técnica do bebê, o que agrava o sofrimento emocional e conjugal.

2.2. A Humanização do Cuidado, Participação Familiar e o Fortalecimento da Conjugalidade

A humanização do cuidado emerge como um elemento fundamental na UTIN, não apenas para a recuperação clínica do recém-nascido, mas também para o bem-estar psicológico e relacional da família. Rodrigues, Oliveira e Brandão (2018) definem o cuidado humanizado como aquele que visa atender as necessidades do recém-nascido de forma integral, considerando sua singularidade e respeitando a participação ativa dos pais no processo terapêutico. Essa perspectiva reforça que o cuidado não deve ser fragmentado em dimensões técnicas isoladas, mas sim articulado. Os autores afirmam que:

A humanização do cuidado neonatal representa uma mudança paradigmática que reconhece o recém-nascido não como um objeto de intervenção técnica, mas como um ser em desenvolvimento cujas necessidades biopsicossociais demandam uma resposta integrada da equipe de saúde e da família, transformando a UTIN de um espaço de sobrevivência em um espaço de cuidado relacional (Rodrigues; Oliveira; Brandão, 2018, p. 179).

Dessa forma, as práticas de assistência humanizada na UTIN ultrapassam os cuidados direcionados ao neonato, abrangendo também os familiares que estão envolvidos no processo de hospitalização do recém-nascido. Essas práticas podem contribuir para a redução da preocupação, do estresse, do sofrimento, das incertezas e do desgaste emocional causados pelo quadro clínico do recém-nascido e pelos fatores associados à hospitalização deste, favorecendo o bem-estar emocional da família e uma maior compreensão sobre a condição do neonato (Fonseca et al., 2020; Moura; Santos; Oliveira, 2024; Oliveira; Lima; Oliveira, 2025).

Nesse contexto, a criação e o fortalecimento do vínculo entre os pais e o filho torna-se um dos aspectos fundamentais durante o processo de hospitalização do neonato. De acordo com Bowlby (1969), pioneiro da teoria do apego, a separação abrupta entre pais e filho ativa mecanismos de angústia evolutivamente ancorados que transcendem a díade mãe-bebê.

Assim, a hospitalização do recém-nascido pode interferir na construção e na manutenção desse vínculo, tornando necessário o uso de estratégias que favoreçam essa relação, dentre essas estratégias, destaca-se o Método Canguru. Considerando que a participação ativa dos pais no cuidado do recém-nascido internado constitui uma estratégia essencial para a construção do vínculo afetivo e para a redução do sofrimento psicológico vivenciado durante a hospitalização, o Método Canguru oferece benefícios significativos para o vínculo entre o recém-nascido e os pais (Souza et al., 2022).

De acordo com o Ministério da Saúde (2017), em suas diretrizes sobre atenção humanizada ao recém-nascido, recomenda-se o Método Canguru como prática que promove contato pele a pele entre pais e bebê, beneficiando tanto a estabilidade clínica do recém-nascido quanto o bem-estar emocional dos genitores. Essa prática, quando implementada adequadamente, permite que os pais recuperem seu papel ativo no cuidado, reduzindo o sentimento de impotência e fortalecendo a sensação de competência parental (Souza et al., 2022). O documento ministerial enfatiza que:

O método canguru não é apenas uma técnica de termorregulação, mas uma filosofia de cuidado que reconhece os pais como agentes terapêuticos fundamentais, promovendo o contato físico contínuo que restaura a sensação de segurança tanto para o bebê quanto para os genitores, transformando a experiência de internação em uma oportunidade de fortalecimento do vínculo familiar (Brasil, 2017, p. 46).

A inserção da família no cuidado, defendida por autores como Reichert, Lins e Collet (2012), é essencial para o fortalecimento do vínculo afetivo e para a recuperação do recém-nascido. Estratégias como o contato pele a pele, a presença contínua dos pais e a comunicação efetiva com a equipe multidisciplinar são apontadas como benéficas tanto para o bebê quanto para os pais, permitindo que o casal vivencie a experiência de forma mais integrada e menos fragmentada. Assim:

A presença contínua dos pais na UTIN não representa apenas uma concessão institucional, mas uma necessidade fundamental que reconhece a família como unidade indivisível de cuidado, cujas interações afetivas e práticas de cuidado são tão essenciais para a recuperação neonatal quanto as intervenções técnicas, estabelecendo uma relação de complementaridade entre o saber científico e o saber relacional que caracteriza a verdadeira humanização (Reichert; Lins; Collet, 2012, p. 190).

Nessa perspectiva, os pais deixam de ser espectadores passivos e tornam-se agentes ativos de cuidado, participando de decisões, oferecendo conforto físico e emocional ao bebê e recebendo suporte para processar sua própria experiência traumática. Essa abordagem integrada não apenas otimiza os indicadores clínicos de recuperação neonatal, mas também preserva e fortalece a vida conjugal dos pais, permitindo que emerjam dessa crise com seu vínculo relacional estável e com compreensão renovada de sua capacidade de cuidado e responsabilidade mútua (Reichert; Lins; Collet, 2012; Silva et al., 2023).

Diante disto, as práticas de assistência humanizada na UTIN demonstram sua importância para além da melhora do quadro clínico do recém-nascido, mas também por promover a inclusão da família no processo de cuidado e favorecer a criação e o fortalecimento do vínculo afetivo (Silva et al., 2023). Corroborando essa perspectiva, Soares (2024, p. 16) afirma que “[...] a humanização dos cuidados é fundamental nesse contexto, pois permite que os bebês sejam vistos como sujeitos de direitos e que suas famílias sejam acolhidas e envolvidas no processo de cuidado”.

Em suma, a implementação efetiva da humanização do cuidado na UTIN demanda mais do que a simples adoção de protocolos técnicos, envolvendo a construção de um ambiente acolhedor, que considere as necessidades específicas do neonato e de sua família, por meio da atuação integrada da equipe multiprofissional, com o intuito de promover o bem-estar destes (Oliveira; Lima; Oliveira, 2025; Soares, 2024).

2.3. A Psicologia Hospitalar Como Mediadora da Experiência Traumática e Fortalecedora da Vida Conjugal

A psicologia hospitalar desempenha papel importante na mediação da experiência traumática da internação neonatal, oferecendo suporte emocional qualificado que vai além do acolhimento superficial. Ao reconhecer que o processo de adoecimento e hospitalização do neonato possui implicações que vão além dos aspectos biológicos, a psicologia hospitalar atua no suporte aos familiares e acompanhantes por compreender que estes também vivenciam intensamente as mudanças ocasionadas pela hospitalização (Araujo; Silva Júnior; Corrêa, 2025).

Os familiares experimentam mudanças significativas em diferentes áreas de suas vidas, sejam elas sociais, financeiras e psicológicas. Diante da necessidade de acompanhar o recém-nascido durante a internação, os pais podem vivenciar alterações na rotina, na dinâmica familiar, além de, em alguns casos, precisarem se afastar das atividades laborais, o que pode acarretar dificuldades financeiras; além do mais, experimentam sentimentos de medo, insegurança, incerteza e ansiedade, evidenciando, assim, a necessidade de ampliar a assistência e o cuidado para além do neonato (Prata; Silva, 2017).

Nesse tipo de assistência, o sofrimento dos responsáveis é imensurável, provido de medo e angústias e o psicólogo pode oferecer o acolhimento seguro, mantendo o respeito sem desvalidar os sentimentos manifestados pela família [...]. O psicólogo, ao proporcionar um espaço de escuta acolhedora auxilia os familiares a compreenderem as suas próprias reações emocionais e a encontrar estratégias para lidar com as dificuldades do momento. De acordo com Soares (2024, p. 12).

Nesse contexto, o psicólogo hospitalar atua na promoção de um espaço de escuta acolhedor, no suporte emocional, na mediação entre as expectativas familiares e os limites institucionais do cuidado, no fortalecimento das relações familiares e na promoção de estratégias de enfrentamento coletivo, com o objetivo de propiciar o bem-estar emocional de toda a família (Araujo; Silva Júnior; Corrêa, 2025; Soares, 2024).

A atuação do psicólogo no contexto de internação da UTIN desempenha um papel fundamental no suporte emocional aos pais, auxiliando-os na compreensão e elaboração de suas vivências, expectativas e medos relacionados ao quadro clínico do filho e suas implicações. Além do mais, ao receberem suporte psicológico especializado, passam a reconhecer seus papéis complementares e enfrentar conjuntamente os desafios da internação, fortalece-se o vínculo conjugal, promovendo um senso de parceria, confiança mútua e corresponsabilidade, em vez de afastamento e isolamento emocional (Barreto; Boeckel, 2019).

Corroborando essa perspectiva Gomes e Silva (2019) afirmam que o suporte psicológico qualificado permite que os pais processem o trauma da internação não como indivíduos isolados, mas como um casal que compartilha a mesma experiência crítica. Essa abordagem relacional do suporte psicológico é fundamental para evitar que a crise da internação neonatal se transforme em uma crise conjugal adicional. Como afirmam os autores:

A intervenção psicológica que reconhece a dinâmica conjugal como unidade de cuidado possibilita que o casal ressignifique a experiência traumática, transformando-a em oportunidade de fortalecimento relacional e crescimento emocional compartilhado, permitindo que ambos os pais se tornem agentes ativos na recuperação do bebê e na preservação de seu vínculo conjugal (Gomes; Silva, 2019, p. 268).

Diante disso, a intervenção psicológica contribui para minimizar o sofrimento psicológico dos pais e fortalecer a vida conjugal, permitindo que o casal emerja dessa experiência crítica com seu vínculo preservado e transformado pela experiência compartilhada de cuidado e responsabilidade mútua. Nessa perspectiva, a psicologia hospitalar torna-se um elemento importante na promoção de cuidado ao proporcionar um espaço de escuta e acolhimento por meio de uma assistência pautada nos princípios éticos e na humanização do cuidado (Gomes; Silva, 2019).

3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS

O presente estudo teve como objetivo analisar, a partir da literatura científica, as repercussões psicológicas da hospitalização neonatal na experiência dos pais e na relação conjugal, discutindo as contribuições da psicologia hospitalar nesse contexto. A literatura analisada indica que a internação de um bebê em UTIN pode estar associada a diferentes manifestações de sofrimento psicológico parental no qual os pais podem experimentar níveis elevados de estresse e ansiedade, sentimentos de medo, angústia, tristeza e culpa, sensação de impotência diante da situação, além das mudanças na organização familiar e conjugal.

Entretanto, os estudos não sustentam que a hospitalização produza necessariamente o enfraquecimento da relação do casal, uma vez que essa experiência também está relacionada a fatores individuais, relacionais, clínicos e institucionais. Dessa forma, as repercussões na relação do casal podem assumir diferentes configurações, estando relacionadas principalmente à forma como o casal percebe e enfrenta a situação, podendo gerar tanto aproximação quanto distanciamento.

Quanto às práticas de cuidado, os resultados sustentam a importância do cuidado centrado na família e das diretrizes do Método Canguru. A participação parental, o contato pele a pele quando indicado, o acolhimento e a comunicação com a equipe podem favorecer vínculo, competência parental e redução da sensação de impotência. Essas estratégias não substituem o tratamento neonatal, mas ampliam a compreensão do cuidado para além da dimensão exclusivamente técnica.

Diante dos estudos analisados, a psicologia hospitalar pode contribuir para o cuidado dos pais durante a internação por meio de práticas voltadas ao acolhimento, à identificação das necessidades emocionais, à comunicação e à articulação do cuidado. No âmbito conjugal, essas contribuições devem ser compreendidas como possibilidades de favorecer o diálogo, o suporte mútuo e o enfrentamento conjunto das dificuldades decorrentes da hospitalização e do quadro clínico do filho.

Em suma, os resultados da literatura analisada permitiram compreender que a psicologia hospitalar pode contribuir para minimizar impactos psicológicos da internação neonatal e favorecer condições que protejam a relação conjugal, sobretudo quando inserida em uma assistência humanizada, interdisciplinar e centrada na família. Entretanto, essa contribuição não deve ser apresentada como garantia de preservação da relação, pois os resultados dependem de múltiplos fatores individuais, familiares, clínicos e institucionais.

Considerando as limitações deste estudo, uma vez que ainda possui uma produção científica limitada acerca da temática, destaca-se a necessidade de ampliar as investigações sobre a temática a partir de diferentes tipos de pesquisa. Nesse sentido, estudos futuros poderão aprofundar a análise por meio de pesquisas que possibilitem uma maior compreensão das experiências dos pais diante da internação do filho em UTIN, especialmente em relação às repercussões psicológicas e conjugais. Dessa forma, novas pesquisas poderão ampliar a compreensão e discussão sobre os diferentes aspectos envolvidos na experiência de internação neonatal e contribuir para o aprofundamento das discussões sobre as contribuições da psicologia hospitalar por meio da humanização do cuidado na assistência aos pais nesse contexto.

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1 Acadêmico(a) do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail