INTEGRAÇÃO DAS ATIVIDADES DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO ÀS DISCIPLINAS DA ÁREA DE GESTÃO

INTEGRATION OF TEACHING, RESEARCH, AND EXTENSION ACTIVITIES INTO MANAGEMENT-AREA COURSES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778437612

RESUMO
O tripé ensino–pesquisa–extensão é fundamental nas disciplinas de gestão por integrar teoria, investigação e prática social, formando profissionais mais críticos, completos e preparados para desafios reais. Portanto, no presente relato de experiência docente foi proposto um método de ensino integrado ao tripé ensino–pesquisa–extensão, descrevendo sua construção, evolução e expectativas formativas. Foi aplicada, em turmas de Administração e Ciências Contábeis, uma programação de ensino que integrou o conteúdo das disciplinas (ensino) a práticas de consultoria (pesquisa) para pequenas empresas, com entrega de relatórios gerenciais (extensão) aos seus gestores. Os resultados demonstraram que produção acadêmica, as aprovações de trabalhos em eventos científicos e as ações de extensão cresceram continuamente ao longo período de aplicação e observação. Conclui-se que o método integrado ao tripé ensino–pesquisa–extensão reforçou a formação acadêmica ao promover um aprendizado mais crítico, significativo e socialmente conectado, desde que sustentado por planejamento, capacitação docente e apoio institucional.
Palavras-chave: Ensino; Pesquisa; Extensão; Gestão.

ABSTRACT
The teaching–research–extension triad is essential in management courses because it integrates theory, inquiry, and social practice, preparing professionals to be more critical, complete, and ready for real-world challenges. In this teaching experience report, a teaching method integrated into the triad was proposed, describing its construction, evolution, and formative expectations. The method was applied in Administration and Accounting classes through a teaching program that combined course content (teaching) with consulting practices (research) for small businesses, culminating in the delivery of managerial reports (extension) to their managers. The results showed continuous growth in academic production, approval of papers in scientific events, and extension activities throughout the implementation period. It is concluded that the method integrated into the teaching–research–extension triad strengthened academic training by promoting more critical, meaningful, and socially connected learning, provided it is supported by planning, faculty development, and institutional backing.
Keywords: Teaching; Research; Extension; Management.

1. INTRODUÇÃO

A reestruturação pedagógica é um processo contínuo nas universidades brasileiras e centros universitários. Essas instituições de ensino superior têm como base de trabalho e funcionamento o indissociável tripé de ensino, pesquisa e extensão, sendo que o diferencial ficará a cargo da produção do conhecimento e estabelecimento de pontes com diferentes ramificações da sociedade (Leite et al., 2023). Nas Instituições de Ensino Superior (IES), o relato de experiência aparece em publicações de docentes e discentes, incluindo os pilares de ensino, pesquisa e extensão. Nas ações de ensino estão presentes os relatos dos mais diversos componentes curriculares, especialmente nas atividades de estágios, que constroem o arcabouço do conhecimento essencial para a formação acadêmica, profissional e humana (Flores et al., 2019).

O conhecimento científico oriundo dos relatos de experiência pode beneficiar a construção de novas tecnologias tanto no meio acadêmico quanto no meio social, além de contribuir para o avanço de intervenções educacionais, possibilitando a emergência e compartilhamento de novas metodologias de ensino. Porém, faz-se necessário que este tipo de pesquisa científica se torne mais comum, principalmente porque há poucas referências que tratam desse tipo de método (Mussi; Flores; Almeida, 2021)

Sob essa perspectiva, esta pesquisa tem como objetivo geral relatar uma experiência docente sobre um método de ensino que se alinha às atividades de pesquisa e de extensão. Como objetivos específicos, buscou-se descrever o método de programação do tripé, assim como demonstrar a sua construção e evolução durante seu período de criação, incluindo as expectativas docentes para o incremento do ensino alinhado à pesquisa e extensão.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

A discussão sobre a educação superior tem ganhado força em diferentes instâncias e âmbitos sociais, trazendo a extensão universitária para o centro das contendas. Nesse contexto, a Resolução nº 7/2018, que regulamenta a curricularização da extensão conforme o Plano Nacional de Educação, tornou-se um ponto importante, orientando novos rumos e impulsionando mudanças significativas nas instituições de ensino (Félix, 2025). O compromisso acadêmico e a importância da extensão universitária, no contexto social e contemporâneo, demonstram que a extensão passou por diferentes fases e por um longo processo de institucionalização, sendo marcado pela diversidade de concepções e práticas. No Brasil, o conceito de extensão universitária é multifacetado, variando conforme os contextos histórico-sociais que moldaram a constituição e o desenvolvimento da educação superior (Faria; Almeida, 2025).

A extensão universitária de acordo com a história ocupou um papel acessório nas universidades brasileiras, mesmo sendo parte do princípio constitucional de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, reconhecido como tripé universitário. Diante de seu grande valor social e formativo, especialmente para grupos vulneráveis, tornou-se essencial discutir e trocar experiências que demonstrem sua importância e seus desafios, fronteiras e possibilidades, bem como para conduzir sua creditação (Fontenele, 2024). Em 2018, o Conselho Nacional de Educação traçou diretrizes para a extensão e a tornou obrigatória na curricularização das universidades, induzindo sua inserção e avaliação como parte do projeto educacional. No entanto, poucas instituições têm adotado diferentes formatos para a inserção da extensão nos currículos, dedicando pouca ou nenhuma atenção aos seus desdobramentos, sendo ainda escassas as práticas dessa modalidade (Oliveira; Santos, 2024a).

Mesmo com limitações, a institucionalização da avaliação da extensão demonstra o local que essa atividade adota nos planos acadêmicos, já que envolve inúmeras instâncias e se dissemina pelas unidades da universidade. Os preceitos que orientam essa avaliação expressam o ajuste institucional com o aperfeiçoamento da extensão, adotando sua importância estratégica. No entanto, sua concretização depende principalmente de financiamento público contínuo e regular para amparar a execução das atividades (Oliveira; Santos, 2024b). Segundo Gomes et al. (2024), a literatura tem evidenciado que os projetos de extensão são essenciais para a formação acadêmica e profissional, pois oferecem conhecimentos práticos que aproximam os estudantes da realidade social e do trabalho. Essas experiências desenvolvem competências essenciais para a atuação na futura profissão, reforçando a necessidade de mais investigações sobre a inclusão dos egressos no mercado e o impacto da extensão em seu desempenho profissional.

É importante que se reflita sobre o papel da universidade no panorama contemporâneo e revise o acordo de fortalecer práticas docentes que respondam às transformações atuais. Além disso, é importante enfrentar os desafios do ensino superior, valorizando a participação de todos os atores envolvidos, inclusive sobre a promoção de ações que tornem a educação mais inclusiva, crítica e alinhada às demandas da sociedade. Portanto, os progressos contínuos da extensão são considerados um passo elementar para a qualificação profissional dos estudantes em um cenário de mudança constante (Moraes et al., 2024).

Santos, Oliveira e Michaloski (2020), investigaram como a extensão universitária pode fortalecer a relação entre universidade e sociedade, a partir da análise da gestão de projetos em uma instituição federal do sul do Brasil. Com base em análise documental, concluíram que, embora a gestão seja funcional, ainda necessita de melhorias para implementação desses projetos, especialmente no monitoramento e na capacitação das equipes, abrindo espaço para novas investigações sobre a gestão da extensão. Francisco et al. (2022), indicam que a extensão universitária atua como eixo do ensino e da aprendizagem, favorecendo o desenvolvimento de competências essenciais. Destacam ainda que, embora sua importância seja evidente na formação do Administrador, a produção científica sobre o tema é restrita, reforçando a necessidade de expandir as reflexões sobre o papel da extensão na educação superior brasileira.

3. METODOLOGIA

A presente pesquisa trata de um relato de experiência docente de cursos de gestão. O ensino de disciplinas da área de gestão muitas vezes é programado sem prática ou vivência, pois, às vezes é complexo realizar eventos com convidados externos à instituição de ensino seja pela falta de recursos financeiros ou tecnológicos. As primeiras programações de pesquisa e extensão envolveram as disciplinas de Introdução à Administração (1º período de Administração e Ciências Contábeis Bacharelado) e de Gestão de Pessoas (4º período de Administração) que foram programadas nas seguintes Etapas e Fases (Ver Tabela 1).

Tabela 1 - Etapas do Procedimento de Programação das Atividades de Pesquisa e Extensão

Etapa

Fases

Atividade

I

1. Apresentação das atividades e *materiais no plano de Ensino

Formativa

 

2. Leitura do capítulo que apresenta a Escala [1].

Formativa

 

3. Criação de grupos de WhatsApp entre docente(s) e discentes pesquisadores.

Formativa

 

4. Escolha da organização ou departamento de uma organização.

Formativa

 

5. Preparação dos ofícios para autorização do funcionamento nas organizações.

Formativa

 

6. Agendamento e aplicação da pesquisa.

Formativa

 

7. Elaboração do fichamento sobre as definições de cada fator da escala [2].

Somativa

II

1. Cálculo das médias fatoriais [3].

Somativa

 

2. Montagem dos slides de apresentação de seminário [4].

Formativa

 

3. Elaboração do Resumo Científico [5].

Somativa

 

4. Apresentação dos Resultados em formato de Seminário

Somativa

III

1. Preparação do Relatório de Gestão para o Gestor da Organização Participante [6].

Formativa

Nota: * [1]. Leitura do Capítulo das Escalas (Pdf); [2]. Template para o fichamento (Word); [3]. Template para o cálculo das respostas dos participantes (Excel); [3]. Vídeos de Apoio para o cálculo (MP4); [4]. Template para a montagem da apresentação dos resultados (Power Point); [5]. Template do Resumo Científico (Word); [6]. Template do Relatório de Gestão para o Gestor da Organização Participante (Word).
Fonte: Elaborada pelos autores (2026)

As Etapas de I a II, referem-se às atividades de Pesquisa, enquanto a Etapa III, refere- se à Extensão. Na Etapa I, a fase 1 consistia na apresentação do plano de ensino com critérios de avaliação de atividades somativas e formativas para ações de pesquisa e de extensão, sendo essa última apenas de caráter formativo, com direito a certificação pela participação no evento e, portanto, não compulsória. A fase 2 consistia na leitura do capítulo em que a escala (instrumento de coleta de dados da pesquisa) é apresentada. As escalas escolhidas como procedimento de pesquisa e ensino faziam parte dos livros “Medidas do comportamento organizacional: ferramentas de diagnóstico e de gestão” (Siqueira, 2008) e “Novas medidas do comportamento organizacional: ferramentas de diagnóstico e de gestão” (Siqueira, 2008). Na fase 3, era criado o grupo de WhatsApp para facilitar a comunicação entre orientador e orientandos. Na fase 4, os discentes buscavam parceria com as organizações a fim de aplicar os formulários. Na fase 5, era o momento de oficializar a aplicação e participação do evento de extensão. Na fase 6, era agendada e aplicada a coleta de dados. Na fase 7, os discentes pesquisavam as definições e conceitos sobre os fatores da escala para montar um fichamento.

Na Etapa II, a fase 1 consistia nos cálculos das médias fatoriais da escala, um vídeo facilitava os cálculos ensinados pelo professor. Os cálculos eram obtidos pela média fatorial dos fatores de cada escala. Este cálculo é realizado a partir da somatória dos itens, dividido pelo número de participantes que somados geram uma média geral, desta média é dividido pelo número total de itens em cada fator. A maioria dessas escalas são avaliadas por pontos Likert de concordância ou frequência. Na fase II, os discentes montavam a apresentação dos resultados indicando uma introdução (cenário atual do mercado ou empresa), problema de pesquisa, objetivo geral e até três específicos, geralmente, usados os mesmos para todas as equipes mudando apenas o tipo de organização. Como objetivo geral era traçado avaliar a percepção dos colaboradores sobre o fenômeno estudado e o tipo de organização pesquisada, como objetivos específicos eram traçados a apresentação do perfil sociodemográfico dos participantes, apontamento do maior e menor item relatado na percepção. Neste modelo, segue um tópico para o referencial teórico, contendo as citações feitas no fichamento (Ver Fase 7, da Etapa I).

A metodologia foi descrita pelos critérios de seleção dos participantes, descrição das questões sociodemográficas e da escala em questão. Os formulários eram montados na plataforma Google forms, em três sessões: 1. Termo Consentimento Livre Esclarecido, 2. Questões Sociodemográficas, e 3. Instruções da Escala, perguntas divididas nos fatores e randomização dos itens da escala Likert para evitar o controle da posição da resposta do participante. A análise de dados foi descrita por termos percentuais para as questões sociodemográficas e pelos indicadores Likert em termos das apresentações desses indicadores. Os resultados foram demonstrados em tabelas tanto para as questões sociodemográficas, quanto para os resultados por cada fator e itens de menor e maior percepção relatados pelos participantes. Encerra-se a apresentação com as considerações finais, conclusões e referências.

Na fase 4, um dos discentes era sorteado no momento da apresentação para apresentar sozinho o resultado de pesquisa em seminário. A última etapa descreve a elaboração do Relatório de Gestão para o Gestor da Organização Participante, de acordo com o template, e a entrega ao gestor no evento de extensão. Para os discentes das disciplinas de Empreendedorismo (6º período de Administração e 2º período de Ciências Contábeis Bacharelado) foram programadas as seguintes Etapas e Fases (Ver Tabela 2).

Tabela 2 - Etapas e Fases do Procedimento de Programação das Atividades

Etapa

Fases

Atividade

I

1. Apresentação das atividades e *materiais no plano de Ensino

Formativa

 

2. Aplicação de Dinâmica de Design Thinking e Modelo de Negócios Canvas.

Formativa

 

3. Criação de grupos de WhatsApp entre docente(s) e discentes pesquisadores.

Formativa

 

4. Escolha de um Microempreendedor Individual (MEI).

Formativa

 

5. Preparação dos ofícios para autorização do funcionamento nas organizações.

Formativa

 

6. Agendamento e aplicação da pesquisa em várias sessões.

Formativa

 

7. Treinamento Geral e Cadastros na Plataforma PNBOX do SEBRAE

Formativa

II

1. Aplicação da Entrevista com o MEI – Plano de Negócios e Financeiro

Formativa

 

2. Download e Impressão do Relatório PNBOX [1].

Formativa

III

1. Montagem dos slides de apresentação de seminário do Plano Financeiro [2].

Formativa

 

2. Montagem dos slides de apresentação de seminário do Plano de Negócios [3].

Formativa

 

3. Elaboração do Resumo Científico do Plano Financeiro [4].

Somativa

 

4. Elaboração do Resumo Científico do Plano de Negócios [5].

Somativa

 

5. Apresentação dos Resultados em formato de Seminário

Somativa

Nota: * [1]. Download e Impressão do Relatório PNBOX para o Gestor da Organização Participante (PDF).); [2]. Template dos slides de apresentação de seminário do Plano Financeiro (Power Point) [3]. Template dos slides de apresentação de seminário do Plano de Negócios (Power Point); [4]. Template do Resumo Científico do Plano Financeiro (Word); [5]. Template do Resumo Científico do Plano de Negócios (Word).
Fonte: Elaborada pelos autores (2026)

Nesta Etapa I, a fase I era semelhante o modelo anterior (Ver Tabela 1). Na fase 2, os alunos são expostos a uma atividade de Design Thinking e Modelo de Negócios Canvas para que eles experimentem a necessidade de pensar em soluções criativas para os problemas e organizar toda a estrutura organizacional em uma folha de papel A4, respectivamente, o objetivo destas duas atividades. Nas fases 3, 4, 5 e 6, o delineamento segue a mesma programação do modelo anterior (Ver Tabela 1). Na fase 7, os alunos são expostos ao cadastro e treinamento geral do PNBOX. Foi criado pelo professor um tutorial do passo a passo para o preenchimento do sistema, além dele também ser indutivo para o cadastro das informações, com vídeos e instruções. A fase 1 da Etapa II, consistia em uma série de entrevistas com o MEI para formatação do Plano de Negócios e Financeiro a partir da Segmentação de Mercado, Geração de Personas, Jornada do Cliente, Proposta de Valor, Análise da Concorrência, Quadro de Experimentação, Canais de Aquisição de Clientes, Investimentos, Ganhos, Custos e Demonstração do Resultado do Exercício. A fase 2 seria a finalização do plano e o download para impressão.

Na fase 1 da Etapa III e IV, os discentes elaboravam os slides de apresentação de seminário do Plano Financeiro e de Negócios, respectivamente, ilustrando o cenário de mercado na introdução, delineando o problema e objetivos da pesquisa, método, resultados e discussão baseados nos cenários observados, concluindo esta fase com as considerações finais. Outras referências deveriam ser citadas para incrementar a discussão dos resultados.

Na Etapa V, as fases 3 e 4, serão produzidos os resumos a partir da visualização das apresentações feitas nas fases 1 e 2. Esses resumos simples devem seguir as normas exigidas pelos eventos que irão ser submetidos. Na fase 5, sugere-se que a apresentação seja feita por cada par de pesquisadores ao invés de sortear apenas um dos integrantes, como foi programado no modelo anterior. Essas apresentações, outrora apresentadas e corrigidas em sala de aula, serviam de base para a devolutiva que cada equipe de trabalho apresentava aos responsáveis das empresas participantes.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A primeira concepção do alinhamento de pesquisa foi no ano de 2021, logo após retorno as aulas presenciais no pós-COVID-19. No primeiro semestre de 2021, as turmas de administração e ciências contábeis, produziram respectivamente 8 e 9 pesquisas sobre liderança. Foi utilizado a Escala de Liderança Gerencial (Melo, 2014) no projeto de Consultoria para avaliar a percepção dos colaboradores de uma pequena empresa ou departamento sobre seus líderes, por fim foi gerado um relatório gerencial sobre essa análise e apresentado aos gestores. O mesmo documento foi transformado em resumo/artigos científicos levando em consideração o cenário de mercado da organização em questão. Esse documento tinha por finalidade avaliar o status quo da organização e auxiliar o(s) gestore(s) no processo de tomada de decisão sobre quais intervenções seriam pertinentes em caso de situações desfavoráveis.

Nesse período, apenas três equipes submeteram e tiveram os resumos aprovados em eventos científicos, no ano seguinte, em 2022. Uma equipe de ciências contábeis teve o trabalho aceito em um congresso de gestão nacional e uma equipe de administração e outra de contábeis obtiveram seus resumos aprovados em evento científico regional. Como se tratava de um período pandêmico, e o isolamento social era necessário, os relatórios gerenciais produzidos para a comunidade empresarial pelos alunos e professor, foram apenas encaminhados aos gestores das empresas via e-mail, colocando-se a disposição para quaisquer informações dos resultados e processos de tomada de decisão gerencial (Ver Tabela 3).

Tabela 3 - Síntese do alinhamento entre pesquisa, extensão e disciplinas (2021–2024)

Ano / Semestre

Disciplina
(Turmas)

Produção Acadêmica

Submissões e Aprovações em Eventos

Atividades de Extensão

2021.1

Introdução à Administração
(CC/ADM)

8 pesquisas (ADM) e 9 pesquisas (CC) sobre liderança

1 (CC) em congresso nacional de gestão, 1 (ADM) e 1 (CC) em evento regional

3 trabalhos aprovados em eventos científicos, com relatórios enviados por e-mail devido ao pós-pandemia e disponibilidade para dúvidas e informações

2021.2

Gestão de Pessoas (ADM) – Recursos Humanos [RH] e Empreendedorismo- Plano de Negócios [PN] (CC/ADM)

6 em RH e 12 PN (com planos financeiros) — até 24 resultados

3 de RH e 2 PN em evento regionais

3 trabalhos aprovados em evento científico, com o 1º evento de extensão: 16 equipes e gestores (12 PN e 4 RH), além da disponibilidade para informações dos relatórios gerenciais

2022.1

Introdução à Administração
(ADM e CC)

11 (ADM) e 12 (CC) sobre liderança

3 de ADM em eventos nacionais

3 trabalhos (ADM) aprovados em evento científico, com o 2º evento de extensão e participação da maioria dos gestores das empresas, além da disponibilidade para informações dos relatórios gerenciais

2023

Introdução à Administração (ADM e CC)

7 (ADM) e 8 (CC) sobre liderança

7 (ADM) e 8 (CC) em evento regional

15 trabalhos aprovados em evento científico, com o 3º evento de extensão e participação dos 15 gestores das empresas, além da disponibilidade para informações dos relatórios gerenciais

2024

Gestão de Pessoas e Sociologia das Organizações (ADM)

8 em RH e 11 em Cultura Organizacional -CO

19 (ADM): 18 em evento regional e 1 nacional

19 resumos aprovados no evento científico da universidade, com o 3º evento de extensão e participação dos 19 gestores das empresas, além da disponibilidade para informações dos relatórios gerenciais

Nota: ADM: Curso de Administração; CC: Curso de Ciências Contábeis; RH: Políticas e Práticas de RH
Fonte: Elaborada pelos autores (2026)

No segundo semestre de 2021, as turmas de administração e de ciências contábeis, respectivamente realizaram, respectivamente, seis pesquisas sobre a percepção sobre as políticas e práticas de recursos humanos e 12 planos de negócios, que contém um plano financeiro embutido, ou seja, podendo gerar até 24 resultados de pesquisa. A parte financeira teve a contribuição de três professores do curso de contabilidade. Os planos de negócio foram elaborados no programa Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE, denominado de PNBOX - Plano de Negócios in a Box. A pesquisa de Gestão de Pessoas envolveu a utilização da Escala de Políticas de Práticas de Recursos Humanos (Demo et al., 2014) para elaboração dos materiais de pesquisa e extensão.

Nesta época, na disciplina não era exigida a elaboração do resumo simples. No evento científico da universidade, apenas três das equipes de gestão de pessoas tiveram o trabalho aprovado em evento científico, enquanto apenas uma equipe de empreendedorismo teve aprovado um plano de negócios e outro financeiro. Um total de 30 trabalhos foram produzidos e apenas três aprovados e registrados em anais, sendo que neste semestre foi realizado o primeiro evento de extensão com os gestores e empresários, totalizando 16 equipes e gestores participantes, sendo 12 de empreendedorismos e quatro de gestão de pessoas. Os professores e alunos ficaram à disposição dos empresários para quaisquer informações sobre os resultados das consultorias. Depois do evento, a equipe de professores e alunos ficou à disposição dos empresários para esclarecer dúvidas sobre os resultados das consultorias.

No primeiro semestre de 2022, os discentes da disciplina de Introdução a Administração, para as turma de administração e ciências contábeis, respectivamente, concluíram 11 e 12 pesquisas de consultoria em liderança com a Escala de Liderança Gerencial (Melo, 2014). Contudo, apenas três equipes do cursos de Administração submeteram e tiveram aprovados os trabalhos em evento científico. O evento de extensão ocorreu com a participação da maioria dos empresários nas devolutivas. A equipe de professores e alunos também ficou disponível para esclarecer dúvidas sobre os resultados dos relatórios de consultoria.

No segundo semestre de 2022, os resumos científicos passaram a ser atividade somativa obrigatória para as turmas de Gestão de Pessoas e Empreendedorismo. No entanto, apenas cinco das seis equipes de Gestão de Pessoas e dez dos 13 planos de negócios (dez planos de negócios e dez planos financeiros), tiveram seus resumos aprovados em evento científico. Nesse período foram utilizados a Escala de Políticas e Práticas de Recursos Humanos (Demo et al., 2014) e o PNBOX para elaborar os materiais de pesquisa e extensão. Desse total apenas 16 dos resumos submetidos pelas equipes foram aprovados em evento científico regional. O evento de extensão foi realizado e a grande maioria dos empresários participaram das devolutivas. Além disso, a equipe de professores e alunos ficou à disposição dos empresários para elucidar as dúvidas sobre os resultados dos relatórios de consultoria e plano de negócios.

No primeiro semestre de 2023, a disciplina de Introdução à Administração foi ministrada para os alunos do curso de Administração e Ciências Contábeis, resultando na aprovação de 15 resumos simples no evento científico, sendo sete aprovados do primeiro curso e oito do segundo, sendo utilizada a Escala de Liderança Gerencial (Melo, 2014) para elaboração dos materiais de pesquisa e extensão. No evento de extensão foi programada a devolutiva dos relatórios de consultoria, no qual todos os 15 gestores das organizações participaram. Professores e alunos se colocaram à disposição dos empresários para explicar e detalhar os resultados das consultorias, após o evento.

Em 2024, as disciplinas de Gestão de Pessoas e Sociologia das Organizações foi ministrada para os alunos do curso de Administração, resultando na aprovação de oito resumos simples para a primeira disciplina e 11 outros resumos simples para a segunda, contabilizando 19 trabalhos aprovados no evento científicos da universidade e um em evento nacional. Para elaborar os materiais de pesquisa e extensão foram utilizados a escala de Políticas e Práticas de Recursos Humanos (Demo et al., 2014), na disciplina de Gestão de Pessoas, e o Inventário Brasileiro de Avaliação da Cultura Organizacional (Ferreira; Assmar, 2008) na disciplina de Sociologia das Organizações. O evento de extensão foi aderido por 19 empresários que vieram até a universidade receber seus relatórios gerenciais. Após esse evento, os docentes e discentes mantiveram-se acessíveis aos empresários para eventuais esclarecimentos referentes aos resultados das consultorias.

Observou-se um crescimento progressivo da integração entre pesquisa, ensino e extensão ao longo dos períodos acadêmicos, acompanhado por um aumento significativo no número de trabalhos submetidos e aprovados a partir de 2022, quando o resumo simples passou a ser obrigatório. Os eventos de extensão se consolidaram, com participação crescente dos empresários e devolutivas presenciais cada vez mais estruturadas. Paralelamente, houve um fortalecimento da cultura de pesquisa nas disciplinas de gestão, refletido na ampliação da participação discente em eventos científicos regionais e nacionais. Além da aprendizagem em consultoria para os alunos de Ciências Contábeis e Administração Bacharelado.

Esse avanço dialoga diretamente com o panorama nacional, no qual a extensão passou a ocupar posição central nas políticas educacionais após a Resolução nº 7/2018, que regulamentou sua curricularização e incentivou mudanças estruturais nas instituições de ensino (Félix, 2025). O aumento do número de produções acadêmicas, submissões e aprovações em eventos, bem como a realização de eventos próprios de extensão, demonstrou que a prática extensionista tem se materializado como elemento formativo relevante, alinhando-se a compreensão de que a extensão é multifacetada e historicamente pontuada por diferentes percepções e práticas (Faria; Almeida, 2025).

Os resultados revelam que, ao longo dos períodos avaliados, houve maior adesão entre estudantes, docentes e gestores das organizações envolvidas, o que indica o papel social da extensão como conexão entre universidade e sociedade. Esse aspecto aponta uma conformidade com Fontenele (2024), ao destacar a extensão, mesmo que historicamente tratada como atividade acessória, como atividade de grande valor formativo e social, especialmente para públicos vulneráveis. Essa evidência pode ser percebida na crescente participação dos gestores nos eventos de extensão que de três participações em 2021 passou para dezenove no final de 2024, demonstrando o fortalecimento e consolidação dessas práticas que aproximam o aluno da realidade profissional.

Apesar dos tímidos avanços na literatura, Oliveira e Santos (2024a) destacam que muitas instituições ainda enfrentam dificuldades na implementação efetiva da curricularização da extensão, o que pode se refletir na necessidade de aprimoramento contínuo das práticas docentes e dos processos de gestão. Além disso, Oliveira e Santos (2024b) sugerem que a consolidação da extensão depende de mecanismos institucionais de avaliação e, sobretudo, de financiamento contínuo, elementos essenciais para sustentar o crescimento observado nos resultados da presente pesquisa.

Por fim, a necessidade de refinamento na gestão dos projetos, apontada por Santos, Oliveira e Michaloski (2020), também se mostra conexo aos presentes resultados analisados, especialmente diante da ampliação das atividades e do número crescente de participantes. À medida que os projetos se tornam mais complexos e abrangentes, torna-se indispensável os investimentos na capacitação de coordenadores e equipes, garantindo monitoramento adequado, documentação consistente e continuidade das ações, considerados aspectos essenciais para a consolidação da extensão como prática institucional estratégica.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados demonstrados ao longo do presente estudo evidenciaram que a experiência docente relatada, fundamentada no método de programação do tripé ensino–pesquisa–extensão, contribuiu expressivamente para o fortalecimento das práticas formativas no ensino superior. A sistematização desse método demonstrou que a articulação entre as três dimensões acadêmicas pode potencializar o desenvolvimento de competências profissionais, além de ampliar o engajamento discente a partir do alinhamento da programação do ensino, pesquisa e extensão. Deste modo, a evolução do método ao longo de seu processo de criação revelou que a integração entre pesquisa e extensão não apenas qualifica o ensino, mas também amplia o entendimento dos estudantes sobre sua futura atuação profissional e sobre o papel social da universidade.

A despeito dos avanços observados, reconhece-se que a consolidação de práticas pedagógicas alinhadas ao tripé exige continuidade, aperfeiçoamento e institucionalização. A experiência analisada aponta para a necessidade de ampliar espaços de formação docente, fortalecer mecanismos de acompanhamento das atividades e incentivar a participação de diferentes atores institucionais na construção de metodologias inovadoras. Nesse sentido, a experiência relatada reforça que a docência no ensino superior deve se manter aberta a processos de revisão, experimentação e diálogo permanente com as demandas contemporâneas da educação.

Como sugestões para futuros estudos, recomenda-se investigar a percepção dos estudantes sobre o efeito da aplicação desse método na sua formação, analisando comparativamente a proposta em diferentes cursos ou instituições de ensino, com vistas a observar como esses indicadores de desempenho são mantidos. Outra sugestão seria avaliar como a curricularização da extensão pode influenciar na adoção de metodologias semelhantes e quais os desafios que emergem nessa implementação em larga escala.

Conclui-se que o método de programação do tripé ensino–pesquisa–extensão pode constituir de uma estratégia eficaz para fortalecer a formação acadêmica e ampliar o alcance social da prática docente. A experiência relatada demonstrou que a integração entre essas três dimensões pode promover um processo formativo mais significativo, crítico e conectado às demandas contemporâneas da educação superior. Ao mesmo tempo, evidenciou-se que sua consolidação depende de planejamento contínuo, capacitação docente e condições institucionais que favoreçam sua implementação. Assim, o estudo reafirmou o potencial transformador do tripé universitário com destaque para a importância do aprofundamento das iniciativas que consolidem essa articulação como eixo estruturante do ensino.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FERREIRA, M.C.; ASSMAR, E. M. L. Cultura Organizacional. In: SIQUEIRA M. M. M. (org.). Medidas do comportamento organizacional: ferramentas de diagnóstico e de gestão. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 125-138.

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1 Doutor em Teoria e Pesquisa do Comportamento, Universidade Federal do Pará, Belém, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-5461-0160

2 Doutora em Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-2296-2369

3 Mestra em Teoria e Pesquisa do Comportamento, Universidade Federal do Pará, Belém, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-2442-2235

4 Mestre em Teoria e Pesquisa do Comportamento, Universidade Federal do Pará, Belém, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0009-0008-8484-8231

5 Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Ensino de Matemática, Belém, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0009-0008-8484-8231