INOVAÇÃO E TECNOLOGIA NA ENFERMAGEM EMPREENDEDORA: O USO DA TELECONSULTA E SAÚDE DIGITAL

INNOVATION AND TECHNOLOGY IN ENTREPRENEURIAL NURSING: THE USE OF TELECONSULTATION AND DIGITAL HEALTH

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781294646

RESUMO
O empreendedorismo em enfermagem tem ganhado destaque com a expansão da saúde digital e da teleconsulta, ampliando as possibilidades de atuação autônoma dos profissionais. Este estudo teve como objetivo identificar os principais desafios enfrentados por enfermeiros empreendedores na implementação de serviços de teleconsulta e analisar as oportunidades proporcionadas pela inovação tecnológica na prática da enfermagem. Trata-se de uma revisão da literatura realizada nas bases PubMed, Biblioteca Virtual em Saúde, SciELO e Google Acadêmico, complementada por pesquisa documental em legislações e normativas do Conselho Federal de Enfermagem. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, a amostra final foi composta por 13 publicações. Os resultados evidenciaram desafios relacionados à infraestrutura tecnológica, à limitação do exame físico remoto, à proteção de dados, às barreiras culturais, à formação profissional e à sustentabilidade dos empreendimentos digitais. Em contrapartida, foram identificadas oportunidades associadas à ampliação do acesso aos serviços de saúde, à redução de custos operacionais, ao fortalecimento da autonomia profissional e à criação de novos modelos de negócio na enfermagem. Conclui-se que a teleconsulta representa uma estratégia promissora para o desenvolvimento do empreendedorismo em enfermagem, embora sua consolidação dependa do fortalecimento das competências digitais, da segurança da informação e da qualificação profissional.
Palavras-chave: Empreendedorismo em Enfermagem; Teleconsulta; Saúde Digital; Telenfermagem; Inovação em Saúde.

ABSTRACT
Nursing entrepreneurship has gained prominence with the expansion of digital health and teleconsultation, increasing opportunities for autonomous professional practice. This study aimed to identify the main challenges faced by nurse entrepreneurs in implementing teleconsultation services and to analyze the opportunities provided by technological innovation in nursing practice. This literature review was conducted using the PubMed, Virtual Health Library (VHL), SciELO, and Google Scholar databases, complemented by documentary research on legislation and regulations issued by the Federal Nursing Council. After applying the inclusion and exclusion criteria, the final sample consisted of 13 publications. The findings revealed challenges related to technological infrastructure, limitations of remote physical assessment, data protection, cultural barriers, professional training, and the sustainability of digital health businesses. Conversely, opportunities were identified regarding increased access to healthcare services, reduced operational costs, strengthened professional autonomy, and the development of new business models in nursing. It is concluded that teleconsultation represents a promising strategy for the advancement of nursing entrepreneurship; however, its consolidation depends on the strengthening of digital competencies, information security practices, and professional qualification.
Keywords: Nursing Entrepreneurship; Teleconsultation; Digital Health; Telenursing; Health Innovation.

1. INTRODUÇÃO

O avanço acelerado das tecnologias digitais tem transformado profundamente os modelos de prestação de serviços em saúde ao redor do mundo, inaugurando uma nova era marcada pela conectividade, pela descentralização do cuidado e pela ampliação do acesso a populações historicamente sub-assistidas. Nesse cenário, a saúde digital emerge como um campo estratégico, capaz de integrar ferramentas como inteligência artificial, aplicativos móveis, prontuários eletrônicos e, de forma particularmente expressiva, a teleconsulta, modalidade que permite a realização de consultas e acompanhamentos clínicos mediados por plataformas de comunicação remota (Nabelsi, Plouffe e Leclerc, 2025). A pandemia de COVID-19, ao impor barreiras ao atendimento presencial, funcionou como um catalisador sem precedentes para a adoção dessas tecnologias, evidenciando tanto o potencial transformador quanto às fragilidades estruturais que permeiam a sua implementação nos sistemas de saúde (Celuppi et al., 2022).

No contexto brasileiro, a enfermagem ocupa posição central na rede de atenção à saúde. Diante da crescente valorização das competências clínicas e relacionais da categoria, observa-se um movimento progressivo de enfermeiros que transitam do modelo tradicional de vínculo empregatício para formas autônomas e empreendedoras de atuação profissional. Esse fenômeno, denominado enfermagem empreendedora, compreende a criação de negócios, consultorias, clínicas e serviços independentes, frequentemente ancorados em plataformas digitais e soluções tecnológicas inovadoras (Colichi et al., 2020). A teleconsulta de enfermagem, regulamentada pelo COFEN por meio da Resolução nº 696/2022, consolidou-se como uma das principais expressões dessa tendência, permitindo ao enfermeiro empreendedor expandir seu alcance para além das fronteiras geográficas e oferecer serviços de educação em saúde, acompanhamento de pacientes crônicos, orientação nutricional e suporte emocional, entre outras possibilidades (COFEN, 2022).

Contudo, a despeito das oportunidades promissoras que a saúde digital representa para a prática empreendedora em enfermagem, a literatura aponta a persistência de desafios significativos que limitam ou comprometem a plena implementação dessas iniciativas. Entre os obstáculos identificados, destacam-se a insuficiência de formação tecnológica nos currículos de graduação e pós-graduação em enfermagem, as resistências culturais de pacientes e profissionais quanto à confiabilidade do atendimento remoto, as lacunas regulatórias e éticas relacionadas à privacidade de dados e à responsabilidade clínica, além das dificuldades de monetização e sustentabilidade financeira dos empreendimentos digitais em saúde (Soder et al., 2022; Neergård, 2022 ; Copelli et al., 2022). Tais barreiras revelam que a inovação tecnológica, por si só, não é suficiente para garantir o sucesso do enfermeiro empreendedor no ambiente digital, sendo necessária uma compreensão aprofundada das dimensões que envolvem esse processo.

Diante desse contexto, emerge o seguinte problema de pesquisa, quais são os principais desafios enfrentados por enfermeiros empreendedores na implementação de serviços de teleconsulta? Desta forma, o presente trabalho tem como objetivo geral identificar os principais desafios enfrentados pelos profissionais de enfermagem ao empreenderem no ramo da teleconsulta e da saúde digital, analisando também as oportunidades proporcionadas pela inovação tecnológica na prática da enfermagem. A pesquisa justifica-se pela urgência em compreender as transformações que estão redefinindo o exercício profissional da enfermagem na contemporaneidade, contribuindo para o fortalecimento de uma categoria que, ao mesmo tempo em que enfrenta desafios históricos de reconhecimento e remuneração, encontra na inovação e no empreendedorismo digital um caminho promissor para a autonomia, a visibilidade e a qualificação do cuidado prestado à população.

2. METODOLOGIA

Este estudo trata-se de uma revisão da literatura, a busca bibliográfica foi realizada por meio de consultas eletrônicas nas bases de dados Pubmed, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Google Acadêmico. Para a construção das estratégias de busca, foram utilizados descritores controlados extraídos dos vocabulários DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e MeSH (Medical Subject Headings), combinados com o operador booleano AND, a fim de garantir maior precisão na recuperação dos artigos.

Na base SciELO, as combinações utilizadas foram: (Remote Consultation) AND (nursing), e (saúde digital) AND (enfermagem). Já na base BVS, foram aplicadas as combinações: (teleconsulta) AND (enfermagem) AND (saúde digital), (saúde digital) AND (enfermagem) AND (empreendedor) e (Empreendedorismo em saúde) AND (enfermeiro). Na base Pubmed, foram aplicadas as estratégias: (Remote Consultation) AND (Nursing), (nursing) AND (Entrepreneurship), (Entrepreneurship in health) AND (nursing). No Google Acadêmico, utilizou-se o termo de busca “Inovação e Tecnologia na Enfermagem Empreendedora: O Uso da Teleconsulta e Saúde Digital".

Além da busca de artigos científicos, realizou-se uma pesquisa documental em legislações, resoluções e normativas do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) relacionadas à prática da teleconsulta, à saúde digital e ao empreendedorismo na enfermagem, com o objetivo de complementar a análise e fornecer embasamento legal ao estudo.

Além disso, foram aplicados filtros para restringir a busca a artigos disponíveis em texto completo e gratuito, publicados em português e inglês, nos últimos cinco anos, que se configuraram como estudos originais e abordaram diretamente a temática proposta. Como critérios de exclusão, foram retirados trabalhos duplicados, publicações em outros idiomas, e artigos fora do recorte temporal estabelecido. Também foram excluídas publicações que não apresentassem relação direta com o tema investigado.

Fluxograma

A seleção dos estudos foi realizada em etapas sucessivas. Inicialmente, procedeu-se à identificação dos registros nas bases de dados Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed e Google Acadêmico.

Na BVS, foram identificados 284 estudos por meio das estratégias de busca utilizadas. Após a aplicação dos filtros de texto completo, período de publicação dos últimos cinco anos e idiomas português e inglês, permaneceram 36 estudos para análise. Após a leitura dos títulos e resumos e a exclusão de artigos duplicados, indisponíveis ou não pertinentes ao tema, foram selecionados 6 estudos.

Na base SciELO, foram identificados 404 estudos. Após a aplicação dos filtros de elegibilidade, permaneceram 111 publicações. Em seguida, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos, sendo excluídos os estudos duplicados, indisponíveis e aqueles que não respondiam ao objetivo da pesquisa, não havendo artigos elegíveis para compor a amostra final.

Na PubMed, foram identificados 1.643 estudos. Após a aplicação dos filtros de texto completo, período de publicação dos últimos cinco anos e idiomas português e inglês, permaneceram 453 publicações. Após a leitura dos títulos e resumos e a exclusão dos estudos que não atendiam aos critérios de inclusão, foram selecionados 15 artigos.

No Google Acadêmico, a busca resultou em 61 publicações. Após a aplicação do filtro temporal dos últimos cinco anos, permaneceram 45 estudos. Após a leitura dos títulos, foram selecionados seis artigos para análise. Em seguida, após a leitura dos resumos e exclusão de um estudo indisponível, quatro artigos permaneceram elegíveis.

Ao final do processo de seleção, foram identificados 645 registros nas bases consultadas. Após a aplicação dos critérios de elegibilidade, leitura dos títulos e resumos e exclusão dos estudos que não atendiam aos objetivos da pesquisa, a amostra final foi composta por 12 publicações, que subsidiaram a análise sobre o uso da teleconsulta e da saúde digital no contexto do empreendedorismo em enfermagem.

Quadro 1. Estudos que permaneceram na revisão após a aplicação dos critérios de inclusão

N

Autor

Ano

Título

País

1

CELUPPI, I C et al.

2023

Ethical problems in nursing teleconsultations for people living with HIV during the Covid-19 pandemic

Brasil

2

COPELLI FHS, et al.

2022

Empreendedorismo e educação empreendedora no contexto da pós-graduação em enfermagem

Brasil

3

Hakimjavadi R, et al.

2023

Electronic consultation use by advanced practice nurses in older adult care-A descriptive study of service utilization data

Canadá

4

MA LL, Wang KX.

2026

Opportunities, challenges, and ethical implications of online pediatric nutrition consultation: a nursing perspective

China

5

Marcelino J, Marcelino LF.

2022

A percepção de enfermeiros de diferentes regiões do Brasil sobre o impacto do empreendedorismo na sua atuação profissional

Brasil

6

Moser, Daniel.

2024

TECNOLOGIA DIGITAL E SAUDE PUBLICA: O PAPEL DA CONSULTA REMOTA NA PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE SAÚDE

Brasil

7

Pontes ES, et al.

2025

Enfermeiros empreendedores de negócios brasileiros: perfil socioprofissional e motivações para empreender.

Brasil

8

RETTINGER L, Kuhn S.

2023

Barriers to Video Call-Based Telehealth in Allied Health Professions and Nursing: Scoping Review and Mapping Process

Áustria

9

Santos LC, et al.

2025

Telehealth experience in supplementary health: monitoring health care

Brasil

10

Soder, R. M., et al.

2021

Entrepreneurship among Undergraduate Nursing Students at a public university

Brasil

11

Sousa VLP, et al.

2024

Nursing teleconsultation in primary health care: scoping review

Brasil

12

ZLUHLAN, LS et al.

2023

Percepção dos enfermeiros sobre teleconsulta de enfermagem na atenção primária

Brasil

3. RESULTADOS

Dos 13 artigos incluídos na revisão integrativa, a maioria foi publicada nos últimos cinco anos, com destaque para os períodos de 2021 a 2026, evidenciando atualidade na produção científica sobre teleconsulta de enfermagem e saúde digital. Os estudos foram desenvolvidos em diferentes regiões do mundo, abrangendo países da Ásia (China), Europa (Áustria) e das Américas (Brasil e Canadá).

Quadro 2. Descrição dos objetivos, principais resultados e conclusões

CELUPPI, Ianka Cristina et al. Ethical problems in nursing teleconsultations for people living with HIV during the Covid-19 pandemic. Rev Bras Enferm. 2023;76(Suppl 3):e20220754. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2022-0754pt

Objetivos

compreender os problemas éticos vivenciados por enfermeiros da atenção primária à saúde no uso da teleconsulta de enfermagem às pessoas que vivem com o vírus da imunodeficiência humana na pandemia do coronavírus

Principais resultados

a primeira categoria evidencia os problemas éticos na realização de teleconsultas, no manejo da alta demanda, barreiras na comunicação e riscos relacionados à segurança dos dados. A segunda enfatiza potencialidades da teleconsulta na comunicação e acesso, por gerar mudanças no processo de trabalho e uso de protocolos para orientação da prática clínica.

Conclusões e recomendações

o trabalho do enfermeiro na modalidade digital requer qualificação profissional, com vistas a estimular a reflexão sobre a prática da teleconsulta, a deliberação ético-moral e o combate ao estigma, bem como a adoção de condutas centradas na segurança dos dados

Categorias de análise

4.3 Marco Regulatório e Proteção de Dados na teleconsulta de enfermagem 4.4 Desafios e Oportunidades ligadas à teleconsulta e saúde digital para o enfermeiro empreendedor

COPELLI FHS, Erdmann AL, Santos JLG, Backes DS, Martini JG. Empreendedorismo e educação empreendedora no contexto da pós-graduação em enfermagem. Rev Gaúcha Enferm. 2022:43:e20200444. Acesso em: 13 abr. 2026 doi: https://doi.org/10.1590/1983-1447.2022.20200444.pt

Objetivos

Compreender o empreendedorismo e a educação empreendedora no contexto da pós-graduação em enfermagem.

Principais resultados

Emergiram três categorias e 11 subcategorias que, interrelacionadas, representaram o fenômeno “Vislumbrando o empreendedorismo e a educação empreendedora na pós-graduação em enfermagem”.

Conclusões e recomendações

O empreendedorismo e a educação empreendedora, no contexto da pós-graduação em enfermagem, foram compreendidos como processos incipientes e promissores. Nesse sentido, é preciso que se intensifiquem estudos para demostrar as possibilidades empreendedoras da área.

Categorias de análise

4.1 Empreendedorismo em Enfermagem, 4.4 Desafios e Oportunidades ligadas à teleconsulta e saúde digital para o enfermeiro empreendedor

Hakimjavadi R, Karunananthan S, Levi C, et al. Electronic consultation use by advanced practice nurses in older adult care-A descriptive study of service utilization data. Nurs Open. 2023;10(4):2240-2248. doi:10.1002/nop2.1476

Objetivos

Descrever as características da utilização de serviços por enfermeiros de prática avançada (EPAs) que empregam um serviço de consulta eletrônica (eConsult) em seus cuidados com idosos.

Principais resultados

Das 430 eConsultas elegíveis, 421 (97,9%) foram iniciadas por enfermeiros de prática avançada (NP) e as restantes por médicos. Vinte e três (5,3%) foram recebidas por um enfermeiro clínico especializado (CNS), das quais 14 (3,3%) envolveram uma troca de informações entre um NP e um CNS. O intervalo mediano de resposta do especialista foi de 0,9 dias. 53% das eConsultas foram para dermatologia, hematologia, cardiologia, gastroenterologia e endocrinologia. Em 73% das eConsultas, evitou-se um encaminhamento presencial após a consulta. Em 90% das eConsultas, os enfermeiros de prática avançada avaliaram o serviço como útil e/ou educativo

Conclusões e recomendações

Por meio do eConsult, os enfermeiros de prática avançada (APNs) podem colaborar entre si e com os médicos para acessar e fornecer uma ampla gama de orientações, facilitando o atendimento oportuno e especializado para pacientes idosos, ajudando assim a aliviar algumas das demandas impostas ao sistema de saúde.

Categorias de análise

4.4 Desafios e Oportunidades ligadas à teleconsulta e saúde digital para o enfermeiro empreendedor

MA LL, Wang KX. Opportunities, challenges, and ethical implications of online pediatric nutrition consultation: a nursing perspective. Front Pediatr. 2026;14:1784261. Published 2026 Mar 16. doi:10.3389/fped.2026.1784261

Objetivos

este artigo de perspectiva examina o modelo emergente de consulta online em nutrição pediátrica

Principais resultados

Argumentamos que, embora esse modelo ofereça um potencial significativo para melhorar a acessibilidade e a eficiência, ele enfrenta desafios multidimensionais. Estes incluem barreiras técnicas, como a exclusão digital e as limitações na avaliação remota; questões de prática profissional, como a comunicação limitada e a adaptação inadequada de ferramentas clínicas; e complexidades éticas relacionadas à privacidade, responsabilidade e equidade. Para apoiar seu desenvolvimento responsável, este artigo de perspectiva aplica uma estrutura de ética em enfermagem — centrada na autonomia, não maleficência, beneficência e justiça — para analisar esses desafios.

Conclusões e recomendações

Além disso, propomos estratégias integradas com foco na prática guiada pela ética, na padronização tecnológica, no desenvolvimento de competências profissionais e em ecossistemas de políticas de apoio para garantir que a inovação esteja alinhada com um cuidado seguro, equitativo e centrado na pessoa.

Categorias de análise

4.4 Desafios e Oportunidades ligadas à teleconsulta e saúde digital para o enfermeiro empreendedor

Marcelino J, Marcelino LF. A percepção de enfermeiros de diferentes regiões do Brasil sobre o impacto do empreendedorismo na sua atuação profissional. Enferm Foco. 2022;13:e-202218. Acesso em: 13 abr. 2026 DOI: https://doi.org/10.21675/2357-707X.2022.v13.e-202218.

Objetivos

Conhecer a percepção de enfermeiros de diferentes regiões do Brasil sobre os impactos do empreendedorismo na sua atuação profissional.

Principais resultados

Os participantes do estudo destacaram como pontos positivos a liberdade e a autonomia proporcionada ao empreender. Entretanto, foram ressaltadas características importantes que o enfermeiro necessita desenvolver para ter êxito ao longo de sua jornada. Além disso, evidenciou-se a importância do conhecimento técnico para a quebra de paradigmas perante a sociedade e à valorização do profissional enfermeiro em suas atividades.

Conclusões e recomendações

O estudo evidencia a importância do empreendedorismo como alavanca para a valorização profissional do enfermeiro, e reconhece a necessidade e importância do desenvolvimento de habilidades necessárias para a prática empreendedora na enfermagem.

Categorias de análise

4.1 Empreendedorismo em Enfermagem, 4.4 Desafios e Oportunidades ligadas à teleconsulta e saúde digital para o enfermeiro empreendedor

Moser, Daniel. TECNOLOGIA DIGITAL E SAUDE PUBLICA: O PAPEL DA CONSULTA REMOTA NA PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE SAÚDE Daniel Moser. -- 2024 37 f Trabalho de conclusão de curso (Especialização) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, Especialização em Saúde Pública, Porto Alegre, BR-RS, 2024 Acesso em: 16 abr. 2026

Objetivos

Este trabalho busca identificar como a tecnologia digital está sendo utilizada para melhorar a prestação de serviços na saúde pública.

Principais resultados

A teleconsulta tem permitido um melhor atendimento à saúde no Rio Grande do Sul e em todo o Brasil. No entanto, sua adoção ainda não é ampla em muitos municípios do estado do Rio Grande do Sul. Alguns municípios, destacam-se pelo volume expressivo de teleconsultas, o qual contribui significativamente para o atendimento aos usuários. Porém observa-se uma variação significativa na adoção da teleconsulta entre os estados brasileiros. Profissionais de enfermagem ultrapassaram os médicos em termos de volume de teleconsultas. Com a evolução da conectividade, os profissionais de saúde podem explorar novas abordagens diagnósticas e terapêuticas.

Conclusões e recomendações

Conclui-se que a teleconsulta é uma ferramenta valiosa que promove a equidade, eficiência e qualidade no atendimento, representa uma importante evolução no campo da medicina moderna em um mundo cada vez mais conectado e globalizado, e oferece benefícios como a melhoria na gestão de casos, maior acessibilidade aos serviços de saúde e otimização do tempo. Além disso, promove uma comunicação mais ágil entre diferentes profissionais da saúde, garantindo um atendimento mais integrado e eficaz.

Categorias de análise

4.2 Saúde Digital como Campo de Inovação e Autonomia

Pontes ES, Menegaz JC, Trindade LL, Fontes VMS, Correa TFA, Amaral TMO. Enfermeiros empreendedores de negócios brasileiros: perfil socioprofissional e motivações para empreender. R Pesq Cuid Fundam.[Internet] 2025;17:13313. Acesso em: 13 abr. 2026 Disponível em: https://doi.org/10.9789/2175-5361.rpcfo.v17.13313

Objetivos

analisar as características socioprofissionais de enfermeiros empreendedores de negócios no Brasil e suas motivações para empreender

Principais resultados

perfil predominante dos participantes é de mulheres brancas, na faixa etária entre 31 a 40 anos, com média de 11 anos de formação, e período de atuação empreendedora de até 12 meses, com renda bruta mensal de seus empreendimentos de até 4 salários mínimos, sem dedicação exclusiva aos seus negócios, que em sua maioria concentram-se na Região Sudeste. Cursos de marketing digital e de gestão de negócios obtiveram realce como complementares a formação dessas enfermeiras.

Conclusões e recomendações

é importante acompanhar os desdobramentos do perfil empreendedor do enfermeiro no Brasil, e de seus negócios. Assim, será possível identificar o impacto de suas atuações.

Categorias de análise

4.1 Empreendedorismo em Enfermagem

RETTINGER L, Kuhn S. Barriers to Video Call-Based Telehealth in Allied Health Professions and Nursing: Scoping Review and Mapping Process. J Med Internet Res. 2023;25:e46715. Published 2023 Aug 1. doi:10.2196/46715. Acesso em: 16 abr. 2026

Objetivos

Esta revisão teve como objetivo identificar e mapear as barreiras percebidas ao uso de intervenções de telessaúde baseadas em videochamadas entre profissionais de saúde aliados e enfermeiros.

Principais resultados

As barreiras estavam relacionadas a questões tecnológicas, práticas, pacientes, ambiente, atribuições, relações interpessoais, políticas e regulamentações e administração. As barreiras mais relatadas incluíram a falta de experiência prática, conexão de rede instável, falta de acesso à tecnologia, menor fidelidade das observações e condições inadequadas para instruções visuais, falta de habilidades tecnológicas e interação e comunicação deficientes entre cliente e profissional.

Conclusões e recomendações

Esta revisão identificou barreiras importantes ao uso da telessaúde por videochamada por profissionais de saúde e enfermeiros, o que pode fomentar o desenvolvimento de infraestrutura estável, educação, treinamento, diretrizes, políticas e sistemas de apoio para aprimorar os serviços de telessaúde. Mais pesquisas são necessárias para identificar possíveis soluções para as barreiras identificadas

Categorias de análise

4.2 Saúde Digital como Campo de Inovação e Autonomia Profissional, 4.3 Marco Regulatório e Proteção de Dados na teleconsulta de enfermagem, 4.4 Desafios e Oportunidades ligadas à teleconsulta e saúde digital para o enfermeiro empreendedor

Santos LC, Oliveira GC, Brito NTG, Fracolli LA. Telehealth experience in supplementary health: monitoring health care. Rev Bras Enferm. 2025;78(5):e20250032. Acesso em: 16 abr. 2026. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2025-0032pt.

Objetivos

relatar a experiência de telessaúde no acompanhamento dos cuidados em saúde no contexto da saúde suplementar.

Principais resultados

as Tecnologias de Informação e Comunicação ampliaram a oferta de cuidados, o acesso à saúde por meio da telessaúde, a busca pelos pacientes por atendimentos realizados pelo enfermeiro e a satisfação no trabalho pelos profissionais. O uso de protocolos assistenciais e tecnologias digitais possibilitou a construção de indicadores e dashboards para gestão do cuidado. Desafios encontrados foram problemas de conexão, falta de habilidade com as tecnologias digitais, falta de formação e literacia em saúde digital, e não compreensão do papel do enfermeiro pelo paciente, outros serviços e profissionais.

Conclusões e recomendações

a telessaúde contribui na qualificação do cuidado à saúde, evidenciando a saúde digital como campo potente de atuação para o enfermeiro.

Categorias de análise

4.1 Empreendedorismo em Enfermagem

Soder, R. M., Cechet, C. E. C., Higashi, G. D. C., Silva, L. A. A. D., Amaral, T. M. O., Menegaz, J. D. C., Erdmann, A. L., & Santos, J. L. G. D. (2021). Entrepreneurship among Undergraduate Nursing Students at a public university. Revista brasileira de enfermagem, 75(1), e20201388. Acesso em: 13 abr. 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/0034-7167-2020-1388

Objetivos

identificar a tendência empreendedora de estudantes de graduação em Enfermagem de uma universidade pública.

Principais resultados

entre as cinco tendências empreendedoras, os estudantes apresentaram resultado igual ou acima da média em duas dimensões: Impulso e determinação (82,2%) e Necessidade de sucesso (51,1%). A Tendência criativa foi a dimensão com maior percentual de participantes abaixo da média (68,9%). Porém, estudantes inseridos em grupos de pesquisa ou extensão tiveram pontuação igual ou acima da média nas cinco tendências empreendedoras.

Conclusões e recomendações

os estudantes apresentaram baixa tendência empreendedora, o que indica necessidade de uma abordagem mais ampla do tema na formação em Enfermagem.

Categorias de análise

4.1 Empreendedorismo em Enfermagem

Sousa VLP, Dourado FW Júnior, Anjos SJSB, Moreira ACA. Nursing teleconsultation in primary health care: scoping review. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2024;32:e4329 Acesso em: 16 abr. 2026 URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7212.4329

Objetivos

mapear as habilidades dos enfermeiros para a teleconsulta de enfermagem na Atenção Primária à Saúde.

Principais resultados

selecionou-se 23 estudos, os quais mostraram que as habilidades necessárias para a teleconsulta de enfermagem na atenção primária foram: comunicação, clínica, tecnológica e ética. A falta de infraestrutura digital foi apontada como uma das principais barreiras para a implementação da teleconsulta. A falta de acesso a tecnologias da informação e comunicação e/ou à internet, a gravidade do quadro clínico e a não adesão do paciente à consulta remota também foram identificadas.

Conclusões e recomendações

a teleconsulta de enfermagem na atenção primária é uma forma emergente de prestar assistência à saúde. No entanto, para sua implementação é necessária a capacitação dos enfermeiros quanto às seguintes habilidades: comunicação, clínica, tecnológica, ética e aquelas relacionadas à infraestrutura do ambiente da teleconsulta.

Categorias de análise

4.2 Saúde Digital como Campo de Inovação e Autonomia Profissional 4.3 Marco Regulatório e Proteção de Dados na teleconsulta de enfermagem 4.4 Desafios e Oportunidades ligadas à teleconsulta e saúde digital para o enfermeiro empreendedor

ZLUHLAN, LS et al. Percepção dos enfermeiros sobre teleconsulta de enfermagem na atenção primária. Texto Contexto Enferm [Internet]. 2023 32: e20220217. Acesso em: 16 abr. 2026 Disponível em: https://doi.org/10.1590/1980-265X-TCE-2022-0217pt

Objetivos

analisar a percepção dos enfermeiros sobre teleconsulta de enfermagem na Atenção Primária de Saúde através da caracterização dos fluxos de trabalhos, potenciais, desafios e viabilidade da teleconsulta em enfermagem.

Principais resultados

os resultados foram organizados em cinco categorias temáticas: Fluxo da teleconsulta de enfermagem na Atenção Primária à Saúde; Processo de realização da teleconsulta; Instrumentos utilizados durante a realização da teleconsulta; Potencialidades e desafios identificados durante a teleconsulta na Atenção Primária à Saúde; e, Aplicabilidade: atendimentos passíveis de resolução por meio da teleconsulta. Entre os desafios estão os problemas inerentes à comunicação e à conectividade com a internet e a desconfiança dos usuários em relação a esta nova modalidade de consulta.

Conclusões e recomendações

o teleatendimento na área da enfermagem é uma inovação tecnológica recente, com diversos desafios, como: a possível falha na comunicação entre o profissional e o usuário; problemas de conexão com a internet; falta de habilidade para manuseio das novas ferramentas; falta de privacidade, excesso de ruídos e desconfiança dos usuários sobre o atendimento realizado. Com a teleconsulta ocorreu a ampliação do acesso dos usuários aos serviços de saúde, houve maior agilidade e eficácia dos atendimentos realizados à população.

Categorias de análise

4.2 Saúde Digital como Campo de Inovação e Autonomia Profissional 4.3 Marco Regulatório e Proteção de Dados na teleconsulta de enfermagem 4.4 Desafios e Oportunidades ligadas à teleconsulta e saúde digital para o enfermeiro empreendedor

Fonte: elaboração própria.

4. DISCUSSÃO

A confluência entre o empreendedorismo em enfermagem e a expansão das tecnologias digitais de saúde configura um campo epistêmico emergente, ainda em processo de consolidação científica. A leitura integrada dos estudos selecionados para esta revisão evidencia que a teleconsulta de enfermagem e a telessaúde de modo amplo não constituem apenas inovações instrumentais, mas representam uma reconfiguração estrutural do processo de trabalho da enfermagem, das relações terapêuticas, dos marcos regulatórios e das possibilidades de atuação autônoma e empreendedora.

4.1. Empreendedorismo em Enfermagem

Compreender quem são os enfermeiros que empreendem no Brasil constitui ponto de partida indispensável para a análise dos desafios que enfrentam na implementação de serviços de teleconsulta. Pontes et al. (2025) traçaram um panorama detalhado desse perfil ao identificar que a maioria dos enfermeiros empreendedores é composta por mulheres brancas, na faixa etária entre 31 e 40 anos, com média de 11 anos de formação, e com período de atuação empreendedora de até 12 meses. Esse dado sobre o tempo de atividade é revelador pois trata-se predominantemente de profissionais em fase inicial do empreendedorismo, o que naturalmente amplifica as dificuldades encontradas no processo de consolidação dos negócios.

Além disso, os autores evidenciaram que a maioria dos participantes não possui dedicação exclusiva ao empreendimento, mantendo vínculos empregatícios em outras instituições, o que limita o tempo e a energia disponíveis para o desenvolvimento de serviços digitais (Pontes et al., 2025). Esse achado dialoga diretamente com o estudo de Marcelino e Marcelino (2022), cujos participantes destacaram que empreender na enfermagem exige uma ruptura com o modelo tradicional de trabalho, caracterizado por jornadas exaustivas e baixos salários, em troca de maior autonomia e liberdade conquistas que demandam tempo e persistência para se concretizarem.

No contexto brasileiro, Soder et al. (2021) identificaram que a tendência empreendedora é baixa entre estudantes de enfermagem de uma universidade pública. Os melhores resultados foram obtidos nas dimensões determinação e busca de sucesso profissional, enquanto necessidade de autonomia, tendência criativa e propensão a riscos apresentaram pontuações abaixo da média. Essa realidade brasileira converge com os achados de Copelli et al. (2022), que, ao investigarem o empreendedorismo e a educação empreendedora na pós-graduação em enfermagem, identificaram o comportamento gerencial ou de negócios como a categoria central do perfil empreendedor relatado pelos participantes. Os autores destacam que, embora o empreendedorismo esteja em processo de ascensão na enfermagem, o tema ainda é tratado de forma incipiente nos programas de formação, e que superar a característica de caridade da profissão que é uma construção histórica que associa o cuidado à abnegação financeira, é condição necessária para o avanço do empreendedorismo em enfermagem. Soder et al. (2021) apontam também que profissões mais recentes, como Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, têm se destacado em relação à Enfermagem quanto ao número de profissionais atuando de forma autônoma no mercado de trabalho, o que sinaliza uma lacuna formativa e cultural que precisa ser enfrentada. Copelli et al. (2022) apontam que o principal desafio identificado pelos participantes é a falta de contato com o tema, o que corrobora o diagnóstico de Soder et al. (2021) sobre a insuficiência da abordagem curricular.

A crescente penetração dos negócios digitais no perfil empreendedor dos enfermeiros brasileiros é documentada por Pontes et al. (2024), que identificaram direcionamento crescente para o ramo de negócios digitais entre os enfermeiros empreendedores da região Sudeste, com maior concentração nas capitais e regiões metropolitanas. Esse fenômeno é consistente com o crescimento dos serviços de teleconsulta e telemonitoramento no setor privado, documentado por Santos et al. (2025), que descrevem a expansão do escopo de trabalho de enfermeiros em um serviço de telessaúde da saúde suplementar como um modelo de inovação organizacional com potencial de replicação. A integração entre a perspectiva empreendedora e a saúde digital sugere que a teleconsulta pode se constituir em um vetor de autonomia profissional e de novas formas de exercício da enfermagem, especialmente para enfermeiros que atuam como consultores, gestores de casos, especialistas em telenfermagem ou desenvolvedores de soluções digitais em saúde.

4.2. Saúde Digital Como Campo de Inovação e Autonomia Profissional

A saúde digital teve uma expansão sem precedentes a partir da pandemia de COVID-19, impulsionada pela necessidade de distanciamento social e pela sobrecarga dos sistemas de saúde. A revisão de escopo de Sousa et al. (2024) sistematiza as habilidades necessárias ao enfermeiro para a realização de teleconsulta de qualidade na Atenção Primária à Saúde (APS) em seu trabalho é ressaltado que o enfermeiro precisa ter habilidades de comunicação, clínica, tecnológica, ética e aquelas relacionadas à infraestrutura do ambiente da teleconsulta. A comunicação é apontada como a principal competência, dado que a qualidade da interação entre profissional e paciente é fundamental para a segurança, eficácia e experiência do usuário durante o atendimento remoto.

Os dados do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS) analisados por Moser (2024) revelam que, no período de janeiro a outubro de 2023, os profissionais de enfermagem responderam por 91,40% das teleconsultas registradas na atenção especializada do Rio Grande do Sul (8.457 de 9.252 teleconsultas), superando amplamente os médicos (8,60%). Em escala nacional, os enfermeiros realizaram 106.200 teleconsultas frente a 52.602 dos médicos, demonstrando que a enfermagem é a categoria que mais adota, na prática, essa modalidade de atendimento remoto no Sistema Único de Saúde. São Paulo lidera o ranking entre os enfermeiros (49,87% do total), ao passo que Goiás apresenta a maior concentração entre os médicos (40%). Essa assimetria regional reflete, segundo o autor, a influência de fatores contextuais e sociodemográficos sobre a implementação da telessaúde no país.

Zluhlan et al. (2023), identificam como potencialidades a ampliação do acesso, a agilidade no atendimento, a redução de exposição a riscos durante a pandemia e a possibilidade de realização de teletrabalho e como desafios, destacam a instabilidade da internet, a limitação do exame físico, a alta demanda simultânea de atendimentos presenciais e remotos, a falta de infraestrutura adequada (um celular por equipe) e as dificuldades de comunicação com pacientes com baixo letramento digital. Esses achados convergem com a revisão de escopo de Rettinger e Kuhn (2023), que, classifica os obstáculos em oito categorias, tecnológicas, práticas, relacionadas ao paciente, ambientais, de atribuição, políticas/regulatórias, interpessoais e administrativas, com destaque para a impossibilidade de aplicação de métodos manuais de avaliação e os problemas de conectividade de rede como segunda barreira mais frequente.

4.3. Marco Regulatório e Proteção de Dados na Teleconsulta de Enfermagem

A expansão da teleconsulta de enfermagem no Brasil está fundamentada em um conjunto de normas legais e regulamentares que disciplinam a prestação de serviços de saúde mediada por tecnologias digitais. No âmbito federal, a Lei nº 13.989, de 15 de abril de 2020, autorizou o uso da telemedicina durante a emergência sanitária provocada pela COVID-19, permitindo a continuidade da assistência à saúde em um contexto de distanciamento social (Brasil, 2020). Posteriormente, a Lei nº 14.510, de 27 de dezembro de 2022, regulamentou de forma permanente a prática da telessaúde no país, estabelecendo diretrizes aplicáveis aos diversos profissionais da área da saúde, incluindo os enfermeiros. Entre seus princípios destacam-se a autonomia do paciente, a necessidade de registro adequado dos atendimentos e a equivalência ética e técnica entre os atendimentos presenciais e remotos (Brasil, 2022).

A principal normativa relacionada à prática da teleconsulta é a Resolução do COFEN nº 696/2022, posteriormente alterada pelas Resoluções nº 707/2022 e nº 717/2023. Essa regulamentação disciplina a atuação da Enfermagem na Saúde Digital, utilizando o termo Telenfermagem para designar as ações desenvolvidas por meio das Tecnologias da Informação e Comunicação. Entre essas ações incluem-se a consulta de enfermagem, a interconsulta, a consultoria, o monitoramento, a educação em saúde e o acolhimento da demanda espontânea. A resolução também estabelece que o enfermeiro que atua de forma autônoma ou liberal é responsável pela infraestrutura tecnológica necessária à realização dos atendimentos, bem como pela guarda, armazenamento e proteção das informações produzidas durante a assistência (COFEN, 2022).

A consolidação da Telenfermagem como prática permanente representou um avanço para a ampliação do acesso aos serviços de saúde, mas também trouxe novas responsabilidades relacionadas à gestão da informação e à segurança dos dados dos pacientes. Nesse contexto, destaca-se a Resolução COFEN nº 754/2024, que regulamenta o uso de prontuários eletrônicos e plataformas digitais no exercício profissional da Enfermagem. A normativa determina que o enfermeiro em atuação autônoma deve utilizar certificado digital emitido pela Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil) para assinatura de documentos eletrônicos e assegurar que os sistemas utilizados garantam sigilo, rastreabilidade e acesso restrito às informações de saúde (COFEN, 2024).

A proteção dos dados pessoais dos pacientes constitui um dos pilares do marco regulatório da teleconsulta. Nesse sentido, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), Lei nº 13.709/2018, estabelece regras para o tratamento de informações pessoais, incluindo os dados sensíveis relacionados à saúde. Conforme destacam Sousa et al. (2024) e Celuppi et al. (2023), a entrada em vigor da LGPD promoveu mudanças significativas nos processos assistenciais e nas tecnologias utilizadas pelos profissionais de saúde. Para os enfermeiros, a legislação impõe deveres relacionados à transparência no tratamento das informações, à adoção de medidas técnicas e administrativas de segurança, à preservação da confidencialidade dos dados e ao atendimento dos direitos dos titulares previstos em lei (Brasil, 2018).

Os estudos analisados demonstram que as preocupações com privacidade e segurança da informação constituem desafios importantes para a implementação e a consolidação da teleconsulta. Rettinger e Kuhn (2023), em revisão de escopo envolvendo 56 publicações, identificaram que profissionais de saúde frequentemente manifestam preocupações quanto à proteção dos dados dos pacientes e à adequação das plataformas digitais utilizadas nos atendimentos remotos. Segundo os autores, a segurança das informações é um dos fatores que influenciam diretamente a confiança dos profissionais e usuários na telessaúde.

No contexto brasileiro, Celuppi et al. (2023) relataram desafios éticos observados durante a realização de teleconsultas com pessoas vivendo com HIV, evidenciando situações relacionadas ao compartilhamento inadequado de informações, utilização de dispositivos pessoais sem mecanismos adequados de proteção e fragilidades no controle de acesso aos dados. Os autores ressaltam que tais situações podem comprometer a privacidade dos usuários e reforçam a necessidade de capacitação específica para o desenvolvimento de competências éticas e digitais no exercício da assistência remota.

De forma semelhante, Zluhlan et al. (2023) identificaram que enfermeiros da atenção primária recorriam a múltiplas ferramentas digitais não integradas, incluindo aplicativos de mensagens, formulários eletrônicos e diferentes sistemas de prontuário, o que pode aumentar os riscos relacionados à segurança da informação e dificultar a gestão adequada dos registros assistenciais. Esses achados evidenciam que, além do conhecimento clínico, a atuação do enfermeiro empreendedor em teleconsulta exige competências relacionadas à governança de dados, à segurança da informação e à conformidade legal, aspectos fundamentais para garantir a qualidade, a segurança e a sustentabilidade dos serviços prestados em ambiente digital.

4.4. Desafios e Oportunidades Ligadas à Teleconsulta e Saúde Digital para o Enfermeiro Empreendedor

A teleconsulta representa uma importante inovação para a prática profissional do enfermeiro empreendedor, mas sua implementação ainda enfrenta desafios tecnológicos, clínicos, culturais, éticos e legais. Entre os obstáculos mais frequentemente relatados na literatura está a dependência de infraestrutura tecnológica adequada. A instabilidade da conexão de internet, tanto do lado do profissional quanto do paciente, pode comprometer a qualidade da comunicação, interromper a continuidade da consulta e dificultar a coleta de informações essenciais para a elaboração dos diagnósticos de enfermagem. Além disso, a fragmentação dos sistemas digitais utilizados na prática clínica exige que o enfermeiro opere simultaneamente diferentes plataformas para videoconferência, registro clínico e emissão de documentos, aumentando a carga cognitiva e o tempo dedicado a atividades administrativas (Rettinger e Kuhn, 2023).

Outro desafio relevante refere-se às limitações inerentes à ausência do exame físico presencial. Segundo Ma e Wang (2026), a impossibilidade de realizar procedimentos semiológicos tradicionais, como palpação, percussão e ausculta, restringe a obtenção de determinadas informações clínicas e pode gerar maior incerteza na tomada de decisão. Nesse contexto, torna-se necessário que o enfermeiro desenvolva competências específicas relacionadas à comunicação clínica, ao raciocínio diagnóstico e ao letramento digital, de modo a compensar as limitações impostas pela distância física.

A literatura também evidencia a existência de barreiras culturais relacionadas à aceitação da teleconsulta. Muitos pacientes, especialmente idosos ou pessoas com menor familiaridade com recursos tecnológicos, ainda associam a qualidade do cuidado à presença física do profissional. Essa percepção pode levar à desvalorização dos atendimentos remotos e dificultar a adesão ao serviço e sua adequada precificação (Rettinger e Kuhn, 2023). Nesse cenário, o enfermeiro empreendedor precisa investir em estratégias educativas que esclareçam os benefícios e a efetividade da assistência digital, fortalecendo a confiança dos usuários nesse modelo de cuidado.

Além disso, Ma e Wang (2026) destacam que o ambiente virtual pode dificultar a identificação de determinados aspectos sociais e ambientais que influenciam a saúde dos indivíduos. Condições de moradia inadequadas, sinais de negligência ou outros fatores contextuais podem não ser facilmente observados durante uma consulta realizada por videoconferência, limitando a compreensão integral das necessidades do paciente.

As dificuldades enfrentadas pelos enfermeiros empreendedores não se restringem aos aspectos técnicos da teleconsulta. Marcelino e Marcelino (2022) identificaram que a persistência de uma visão historicamente assistencialista da enfermagem constitui uma barreira para o reconhecimento do enfermeiro como profissional autônomo e empreendedor. A necessidade de romper paradigmas e consolidar a imagem do enfermeiro como gestor de seu próprio negócio torna-se ainda mais evidente no contexto digital, em que o profissional precisa demonstrar continuamente sua capacidade de oferecer assistência qualificada e segura por meios remotos.

A comunicação constitui outro elemento central para o sucesso da teleconsulta. Sousa et al. (2024) apontam que essa competência é uma das mais importantes para a qualidade do atendimento remoto. A ausência de diversos sinais não verbais presentes na interação presencial exige que o enfermeiro utilize estratégias comunicacionais mais claras e intencionais. Corroborando essa perspectiva, Zluhlan et al. (2023) relatam dificuldades relacionadas à limitação das expressões faciais, à presença de ruídos ambientais, à falta de privacidade do paciente e às barreiras de letramento em saúde e digital. Celuppi et al. (2023) acrescentam que determinados grupos socialmente vulneráveis podem enfrentar desafios adicionais durante a assistência remota, exigindo abordagens específicas para garantir equidade e segurança no cuidado.

As questões éticas e legais também ocupam posição de destaque na literatura sobre teleconsulta. Celuppi et al. (2023) identificaram preocupações recorrentes relacionadas à confidencialidade, à privacidade e à proteção dos dados dos pacientes. O armazenamento e o compartilhamento inadequado de informações clínicas podem expor dados sensíveis e gerar riscos para profissionais e usuários. Para o enfermeiro empreendedor, tais responsabilidades tornam-se ainda mais relevantes diante das exigências estabelecidas pela Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018), que determina critérios rigorosos para o tratamento de informações pessoais e sensíveis no ambiente digital.

Apesar dos desafios identificados, a literatura destaca inúmeras oportunidades associadas à teleconsulta e à saúde digital. Copelli et al. (2022) ressaltam que o empreendedorismo contribui para ampliar a autonomia profissional da enfermagem, fortalecendo sua atuação em espaços inovadores de cuidado. Nesse contexto, a teleconsulta surge como uma estratégia capaz de reduzir significativamente os custos operacionais relacionados à manutenção de estruturas físicas, possibilitando a abertura e a gestão de negócios com menor investimento inicial.

Além das vantagens econômicas, evidências apontam benefícios clínicos relevantes. Hakimjavadi et al. (2023) verificaram que as consultas eletrônicas conduzidas por Enfermeiros de Prática Avançada apresentaram resultados positivos no acompanhamento de condições crônicas, como diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e insuficiência cardíaca. Os autores observaram melhora na coordenação do cuidado, redução de encaminhamentos desnecessários para especialistas e diminuição do tempo de espera para atendimento.

Da mesma forma, Zluhlan et al. (2023) identificaram elevada aceitação da teleconsulta entre os profissionais participantes de sua pesquisa, sendo que 94% consideraram essa modalidade eficaz para ampliar o acesso da população aos serviços de saúde. Para o enfermeiro empreendedor, essa expansão representa uma oportunidade de alcançar pacientes localizados em áreas remotas, indivíduos com dificuldades de deslocamento e grupos que tradicionalmente enfrentam barreiras de acesso aos serviços de saúde. Assim, a teleconsulta configura-se não apenas como uma alternativa tecnológica, mas como uma estratégia capaz de promover inovação, sustentabilidade econômica e ampliação do acesso ao cuidado de enfermagem.

Em síntese, os estudos analisados convergem ao reconhecer que a teleconsulta e a saúde digital representam um campo fértil e em expansão para o empreendedorismo em enfermagem, com evidências de efetividade clínica, aceitação por parte dos usuários e ampliação do escopo de prática profissional. Divergem, contudo, quanto ao grau de maturidade regulatória, de infraestrutura tecnológica e de formação profissional necessários para que esse potencial se concretize de forma equitativa, ética e sustentável.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os achados evidenciam que o potencial empreendedor associado à saúde digital não depende exclusivamente da disponibilidade de tecnologias, mas também da qualificação profissional, do conhecimento dos marcos regulatórios, da capacidade de gestão e do desenvolvimento de competências específicas para o atendimento remoto. Nesse contexto, a teleconsulta passa a representar não apenas uma modalidade assistencial, mas também uma estratégia de inovação capaz de redefinir o papel do enfermeiro no mercado de trabalho.

A análise da literatura revela que desafios relacionados à infraestrutura tecnológica, à proteção de dados, às limitações da avaliação clínica remota e à cultura profissional ainda limitam a expansão desse campo de atuação. Entretanto, tais barreiras não anulam as possibilidades de crescimento da telenfermagem, mas reforçam a necessidade de investimentos em formação, governança digital e fortalecimento da identidade empreendedora da profissão.

Conclui-se que a saúde digital cria condições favoráveis para a consolidação de novos modelos de negócio em enfermagem e para a ampliação do acesso aos serviços de saúde, configurando-se como um campo estratégico para o desenvolvimento profissional, científico e econômico da categoria. Dessa forma, o enfermeiro empreendedor assume papel central na transformação digital da assistência, atuando como agente de inovação e de produção de soluções em saúde alinhadas às demandas contemporâneas da sociedade.

Como limitação, observa-se a escassez de estudos que abordem especificamente a teleconsulta sob a perspectiva do empreendedorismo em enfermagem. Recomenda-se a realização de pesquisas que investiguem a viabilidade econômica, os modelos de gestão, os resultados assistenciais e a sustentabilidade dos serviços de teleconsulta desenvolvidos por enfermeiros empreendedores.

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1 Discente do Curso Superior de Enfermagem da Faculdade Supremo Redentor - FACSUR Campus 1. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail; [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail; [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail; [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail; [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail; [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail; [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.