REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/794087666
RESUMO
A paralisia cerebral é uma condição neurológica permanente que compromete o desenvolvimento motor infantil e pode estar associada a alterações sensoriais, cognitivas, comunicativas e comportamentais, exigindo cuidados contínuos e acompanhamento multiprofissional. O diagnóstico repercute significativamente na dinâmica familiar, especialmente na vida das mães cuidadoras, que geralmente assumem grande parte das responsabilidades relacionadas ao cuidado diário. Este estudo teve como objetivo descrever os impactos do diagnóstico de paralisia cerebral na vida familiar e a atuação da equipe de enfermagem nesse contexto. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, realizada na Biblioteca Virtual em Saúde, utilizando os descritores “paralisia cerebral” AND “enfermagem” AND “impacto”. A busca identificou 57 artigos, dos quais oito foram selecionados para leitura na íntegra e composição da análise final, conforme os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos. Os resultados foram organizados em dois eixos temáticos: repercussões emocionais, sociais e econômicas do diagnóstico na dinâmica familiar; e atuação da enfermagem no acolhimento, orientação e suporte às famílias. Os estudos evidenciaram sentimentos de medo, insegurança e tristeza, além de sobrecarga dos cuidadores, isolamento social, reorganização da rotina e dificuldades financeiras. Verificou-se, ainda, que a comunicação efetiva, o acolhimento e as orientações profissionais contínuas favorecem a adaptação familiar e o enfrentamento das demandas do cuidado. Conclui-se que a enfermagem desempenha papel fundamental no suporte às famílias, por meio da escuta qualificada, educação em saúde, assistência humanizada e articulação multiprofissional, contribuindo para minimizar a sobrecarga dos cuidadores e promover o cuidado integral à criança e sua família.
Palavras-chave: Paralisia cerebral; Família; Enfermagem.
ABSTRACT
Cerebral palsy is a permanent neurological condition that affects motor development in children and may be associated with sensory, cognitive, communicative, and behavioral impairments, requiring continuous care and multidisciplinary follow-up. The diagnosis has a significant impact on family dynamics, particularly on the lives of mothers who act as primary caregivers and generally assume most of the responsibilities related to daily care. This study aimed to describe the impact of a cerebral palsy diagnosis on family life and the role of the nursing team in this context. This is an integrative literature review with a qualitative approach and descriptive design, conducted through the Virtual Health Library (VHL), using the descriptors “cerebral palsy” AND “nursing” AND “impact.” The search identified 57 articles, of which eight were selected for full-text reading and inclusion in the final analysis, according to the established inclusion and exclusion criteria. The results were organized into two thematic categories: the emotional, social, and economic repercussions of the diagnosis on family dynamics; and the role of nursing in welcoming, guiding, and supporting families. The studies revealed feelings of fear, insecurity, and sadness, as well as caregiver burden, social isolation, changes in daily routines, and financial difficulties. Furthermore, effective communication, compassionate care, and ongoing professional guidance were found to promote family adaptation and coping with caregiving demands. It is concluded that nursing plays a fundamental role in supporting families through active listening, health education, humanized care, and multidisciplinary coordination, helping to reduce caregiver burden and promote comprehensive care for children and their families.
Keywords: Cerebral palsy; Family; Nursing.
1. INTRODUÇÃO
A paralisia cerebral (PC) é considerada uma das principais causas de incapacidade física na infância e caracteriza-se por um grupo de desordens permanentes do desenvolvimento do movimento e da postura, atribuídas a distúrbios não progressivos que ocorrem no cérebro imaturo. Essas limitações frequentemente vêm acompanhadas de alterações sensoriais, cognitivas, comunicativas e comportamentais, exigindo da criança cuidados contínuos e especializados (Rodrigues et al., 2024).
Os estudos epidemiológicos da paralisia cerebral demonstram dados variados, com incidência aproximada de 2 (dois) a 3 (três) casos por 1000 nascidos vivos em países desenvolvidos, podendo atingir cerca de 7 (sete) casos por 1000 nascidos vivos em países em desenvolvimento, variação que se relaciona a fatores como condições socioeconômicas, qualidade da assistência pré-natal, acesso aos serviços de saúde e desigualdades regionais (Silva et al., 2022).
Embora o diagnóstico de paralisia cerebral seja um marco na vida da criança, suas consequências ultrapassam o aspecto clínico, refletindo diretamente na estrutura familiar. Impactam toda a família, mas principalmente as mães, por serem geralmente as principais responsáveis pelos cuidados diários. Essas mães vivenciam intensas mudanças emocionais, sociais e econômicas, a descoberta da condição gera sentimentos de choque, negação, tristeza e até mesmo culpa, tornando o processo de aceitação uma jornada complexa e dolorosa (Rabello et al., 2021).
Nesse cenário, a literatura evidencia que o apoio da equipe de saúde contribui para o acolhimento e para a oferta de informações claras, favorecendo a redução da ansiedade e auxiliando as famílias na reorganização de suas rotinas (Marting; Oliveira, 2023). No entanto, muitos pais relatam dificuldades no relacionamento com os profissionais, seja pela comunicação inadequada, seja pela ausência de práticas de humanização no atendimento ou pela limitação de orientações fornecidas. Essa situação pode intensificar a sobrecarga materna e o sentimento de desamparo diante das novas responsabilidades impostas pelo diagnóstico (Bezerra, Silva; Pontes, 2020).
Além das questões emocionais, o impacto da paralisia cerebral na vida das mães também se manifesta em outras dimensões. A dedicação quase integral ao cuidado pode levar ao afastamento do convívio social, à diminuição das oportunidades de lazer e à restrição no acesso ao mercado de trabalho (Gomes; Gonçalves, 2024). Muitas vezes, essas mulheres abdicam de seus projetos pessoais e profissionais para atender às demandas específicas de seus filhos, o que compromete sua qualidade de vida e pode gerar sobrecarga física e psicológica (Gomes; Gonçalves, 2024).
Outro aspecto relevante refere-se à necessidade de acompanhamento multiprofissional para a criança com paralisia cerebral, envolvendo médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos e enfermeiros. Entretanto, a organização e o acompanhamento dessas demandas recaem, em grande parte, sobre as mães, que precisam administrar rotinas intensas de consultas e terapias. Esse processo pode resultar em desgaste emocional e impacto financeiro, especialmente quando os serviços disponíveis na rede pública não atendem plenamente às necessidades (Rodrigues et al., 2024).
A enfermagem se destaca nesse contexto por manter contato direto e contínuo com a criança e sua família, contribuindo com ações de acolhimento, orientação e apoio emocional, favorecendo uma assistência humanizada e integral. Estratégias como escuta ativa, construção de vínculo e educação em saúde contribuem para fortalecer as mães diante das demandas cotidianas do cuidado (Faria; Sales; Santos, 2025).
Considerando esse panorama, torna-se pertinente investigar os impactos do diagnóstico de paralisia cerebral na vida da família, uma vez que essa compreensão possibilita identificar necessidades, orientar práticas de cuidado mais adequadas e contribuir para o fortalecimento da rede de apoio em saúde.
Assim, o objetivo do trabalho foi descrever o impacto do diagnóstico de paralisia cerebral na vida da família e a atuação da equipe de enfermagem.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter descritivo, do tipo revisão integrativa de literatura. A busca foi realizada no banco de dados da BIREME (Biblioteca Virtual em Saúde), utilizando os descritores: “paralisia cerebral” AND “enfermagem” AND “impacto”, resultando inicialmente em 57 artigos, nos idiomas inglês, português e espanhol, sendo 37 artigos do MEDLINE (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online), 10 (dez) artigos do LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), 09 (nove) artigos do BDENF( ase de Dados em Enfermagem) e 01 (um) artigo do IBECS (Índice Bibliográfico Español en Ciencias de la Salud).
Após a aplicação do filtro “texto completo”, foram selecionados 18 artigos, dos quais 09 (nove) pertenciam ao MEDLINE, 05 (cinco) ao LILACS e 04 (quatro) ao BDENF. Como critérios de inclusão, consideraram-se artigos primários completos, publicados nos idiomas inglês, português e espanhol, que abordassem diretamente a temática proposta. Optou-se pela seleção de estudos publicados nos últimos dez anos, considerando a identificação prévia de escassez de produções científicas recentes sobre o tema.
Posteriormente, realizou-se a leitura dos resumos, com exclusão de artigos que não atendiam ao objetivo do estudo, duplicados e revisões de literatura. Ao final desse processo, foram selecionados 08 (oito) artigos para leitura na íntegra.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Após a seleção e leitura na íntegra de todos os artigos, para facilitar a apresentação dos resultados, foi elaborada uma tabela que mostra o título, autores, ano de publicação, revista, objetivos, método e principais resultados, a fim de facilitar a compreensão do leitor, conforme apresentado no Quadro 1.
Quadro 1. Descrição dos artigos selecionados
Título | Autor (ano) | Revista | Objetivos | Método | Principais resultados |
Informal caregivers of children with cerebral palsy: ways of coping with the uncertainty of illness. | Carvalho et al. (2023) | Revista da Escola de Enfermagem da USP. | Compreender como cuidadoras informais de crianças com paralisia cerebral enfrentam a incerteza relacionada ao adoecimento e ao cuidado cotidiano. | Pesquisa-ação qualitativa, desenvolvida com cuidadoras informais, com construção coletiva de estratégias de enfrentamento. | O estudo mostrou que espaços coletivos de escuta e troca favoreceram o enfrentamento das incertezas, o autocuidado, o empoderamento das mães e o sentimento de pertencimento, indicando que intervenções dialógicas podem fortalecer emocionalmente as cuidadoras. |
“Feeling like you can't do anything because you don't know where to start”: parents' perspectives of barriers and facilitators to accessing early detection for children at risk of cerebral palsy. | Davidson et al. (2025) | Child: Care, Health and Development. | Explorar, na perspectiva dos pais, as barreiras e os facilitadores para o acesso à detecção precoce em crianças com risco de paralisia cerebral. | Estudo qualitativo com pais/cuidadores, baseado em relatos de experiência e análise temática. | Os pais relataram demora nos encaminhamentos, falta de orientação, dificuldade para navegar no sistema de saúde e sensação de impotência diante do atraso diagnóstico, enquanto o suporte profissional e o acesso organizado aos serviços foram vistos como facilitadores importantes. |
Tornar-se mãe de uma criança com paralisia cerebral: sentimentos vivenciados. | Freitag, Milbrath e Motta (2020) | Psicologia em Estudo. | Compreender os sentimentos vivenciados por mães de crianças com paralisia cerebral. | Estudo qualitativo de abordagem fenomenológica. | Evidenciou sofrimento emocional intenso no momento do diagnóstico, com presença de luto, tristeza, medo e insegurança, seguido de adaptação progressiva e ressignificação da maternidade diante das demandas do cuidado. |
Health-related quality of life and associated factors among primary caregivers of children with cerebral palsy, in Bahir Dar and Gondar cities, Ethiopia, 2022. | Kassa et al. (2024) | PLOS ONE. | Avaliar a qualidade de vida relacionada à saúde de cuidadores primários de crianças com paralisia cerebral e identificar fatores associados. | Estudo transversal analítico com aplicação de instrumentos padronizados a cuidadores primários. | O estudo identificou baixa qualidade de vida nos componentes físico e mental, associada a fatores como baixa renda, sono insuficiente, ausência de apoio no cuidado e características familiares, revelando elevada vulnerabilidade desses cuidadores. |
Caregiver perceptions of communication about early cerebral palsy or high-risk designation in infants | Kim et al. (2025) | JAMA Network Open. | Investigar como cuidadores percebem a comunicação profissional sobre diagnóstico precoce ou alto risco para paralisia cerebral em lactentes. | Estudo qualitativo com cuidadores, baseado em entrevistas e análise temática. | Os participantes valorizaram conversas precoces, claras e sensíveis, mas muitos relataram despreparo profissional, comunicação pouco acolhedora e falta de orientações práticas após a notícia, o que ampliou a carga emocional do diagnóstico. |
Paralisia cerebral: sentimentos de pais diante do diagnóstico e após a reabilitação. | Camelo et al. (2024) | Lecturas: Educación Física y Deportes. | Identificar os sentimentos de pais de crianças com paralisia cerebral diante do diagnóstico e após o processo de reabilitação. | Pesquisa qualitativa, com entrevistas e análise de conteúdo. | Os resultados apontaram forte impacto emocional inicial, marcado por choque, medo, tristeza e negação, seguido de mudanças graduais após a reabilitação, com emergência de esperança, aceitação e adaptação à realidade vivida. |
Percepções de cuidadoras de crianças com Paralisia Cerebral sobre profissionais de saúde. | Bezerra, Silva e Pontes. (2020) | Psicologia Revista. | Descrever as percepções de cuidadoras de crianças com paralisia cerebral sobre os profissionais de saúde e identificar dúvidas no processo assistencial. | Estudo quali-quantitativo, com entrevistas e análise de conteúdo. | As cuidadoras relataram fragilidades na comunicação do diagnóstico e na orientação recebida, embora reconhecessem aspectos positivos no acompanhamento posterior, mostrando que a qualidade da interação com os profissionais interfere diretamente na experiência de cuidado. |
The level and factors associated with caregiver experience among parents of children with cerebral palsy: a cross-sectional study in Southwest China. | Zhong e Wijesinghe (2025) | Frontiers in Public Health. | Analisar o nível de experiência/sobrecarga do cuidador e os fatores associados entre pais de crianças com paralisia cerebral. | Estudo transversal com aplicação de escalas e análise estatística de fatores associados. | Foi identificada sobrecarga moderada a elevada entre os cuidadores, associada a menor escolaridade, maior tempo dedicado ao cuidado, fadiga, sintomas depressivos e condições clínicas da criança, evidenciando repercussões importantes na vida familiar. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
A análise dos estudos selecionados permitiu identificar dois eixos temáticos centrais que estruturam a compreensão do fenômeno investigado, sendo estes: “As repercussões emocionais, sociais e econômicas do diagnóstico de paralisia cerebral na dinâmica familiar” e “A atuação da enfermagem no acolhimento, orientação e suporte às famílias”.
3.1. Eixo Temático I: As Repercussões Emocionais, Sociais e Econômicas do Diagnóstico de Paralisia Cerebral na Dinâmica Familiar.
No que se refere ao primeiro eixo, Camelo et al. (2024) identificaram que o diagnóstico de paralisia cerebral é vivenciado pelos pais como um evento de forte impacto emocional, marcado por sentimentos de choque, negação, tristeza, medo e dificuldade de compreensão da condição da criança, enquanto Freitag, Milbrath e Motta (2020) evidenciaram a presença de angústia, insegurança e vivência do luto pelo filho idealizado no momento da confirmação diagnóstica.
Na mesma direção, Kim et al. (2025), ao investigarem a percepção de 23 cuidadores sobre a comunicação do diagnóstico precoce ou da condição de alto risco para paralisia cerebral, verificaram que a maior parte dos participantes se sentiu despreparada para essas conversas, relatou resposta emocional negativa e referiu a necessidade de maior clareza, linguagem mais acolhedora e orientações práticas após a comunicação da notícia.
Davidson et al. (2025) identificaram, a partir da perspectiva de mães de crianças que não receberam rastreio padronizado em tempo oportuno, três temas centrais relacionados à resposta aos atrasos, às barreiras sistêmicas e às complexidades do diagnóstico, mostrando que a falta de informação, a dificuldade de navegação nos serviços e a demora nos encaminhamentos produziram sentimentos de impotência, confusão e desamparo.
Carvalho et al. (2023), em pesquisa-ação qualitativa realizada com 12 cuidadoras informais, trouxeram que todas as mães observaram que intervenções construídas coletivamente favoreceram o enfrentamento das incertezas, o autocuidado, o empoderamento e o sentimento de pertencimento ao grupo. Já o estudo de Kassa et al. (2024) encontraram baixa qualidade de vida relacionada à saúde entre cuidadores primários de crianças com paralisia cerebral, tanto no componente físico quanto no mental, associando esse quadro à baixa renda, ao sono insuficiente, à ausência de ajudantes e a características da composição familiar, enquanto Zhong e Wijesinghe (2025) verificaram sobrecarga moderada a elevada entre pais cuidadores, influenciada por menor escolaridade, maior tempo de cuidado, depressão, fadiga e presença de deficiência visual na criança.
Corroborando com esses achados, Gomes e Gonçalves (2024) destacam que a sobrecarga emocional tende a se prolongar no cotidiano das mães cuidadoras, manifestando-se por meio de estresse, ansiedade, isolamento social e sintomas depressivos, o que indica que o impacto não se restringe ao momento inicial do diagnóstico, mas permanece ao longo do processo de cuidado. Nessa perspectiva, os dados encontrados nos estudos empíricos reforçam que a vivência da família diante da paralisia cerebral envolve repercussões contínuas, que se distribuem entre a esfera emocional, a reorganização da rotina e a necessidade de adaptação progressiva à nova realidade (Gomes; Gonçalves, 2024).
Bezerra, Silva e Pontes (2020) apontam que a forma como o diagnóstico é comunicado pelos profissionais de saúde exerce influência direta na intensidade dessas reações, uma vez que falhas na comunicação, ausência de acolhimento e falta de orientação adequada aumentam a insegurança e dificultam a adaptação familiar, aspecto que é reforçado por Marting e Oliveira (2023), ao indicarem que a insuficiência de suporte profissional compromete a compreensão da doença e a reorganização da rotina familiar.
Em diálogo com esses aspectos, Faria, Sales e Santos (2025) defendem que práticas humanizadas no cuidado contribuem para minimizar o sofrimento emocional, favorecendo o vínculo entre equipe de saúde e família e possibilitando maior segurança no enfrentamento da condição.
No que se refere às dimensões sociais, Gomes e Gonçalves (2024) evidenciam que a dedicação quase integral ao cuidado da criança com paralisia cerebral leva ao afastamento do convívio social, à redução das atividades de lazer e à limitação da inserção no mercado de trabalho, realidade também observada por Freitag, Milbrath e Motta (2020), que destacam a reorganização completa da vida materna em função das demandas do cuidado. Camelo et al. (2024) acrescentam que, ao longo do processo de reabilitação, pode ocorrer uma ressignificação gradual da experiência, na qual sentimentos inicialmente negativos dão lugar à aceitação, esperança e adaptação, ainda que a sobrecarga permaneça presente.
No aspecto econômico, Silva et al. (2022) ressaltam que a paralisia cerebral demanda acompanhamento contínuo e multiprofissional, incluindo intervenções fisioterapêuticas, aquisição de tecnologias assistivas e atendimentos especializados, o que gera custos elevados para as famílias, especialmente em contextos de vulnerabilidade social.
Rodrigues et al. (2024) acrescentam que a necessidade de múltiplos atendimentos e a organização de rotinas complexas de cuidado intensificam o desgaste financeiro e logístico, uma vez que essa responsabilidade recai majoritariamente sobre os cuidadores, evidenciando a inter-relação entre os impactos emocional, social e econômico na dinâmica familiar.
Dessa maneira, os resultados encontrados nos estudos mais recentes confirmam e aprofundam a compreensão de que a sobrecarga relacionada à paralisia cerebral compromete amplamente a vida cotidiana das famílias, trazendo amplas repercussões emocionais, sociais e econômicas na dinâmica familiar.
3.2. Eixo Temático II: A Atuação da Enfermagem no Acolhimento, Orientação e Suporte às Famílias.
No segundo eixo temático, os estudos que abordaram diretamente a experiência das famílias mostraram que a qualidade da comunicação e do acompanhamento profissional interfere de forma significativa na vivência do diagnóstico e na organização do cuidado.
Bezerra, Silva e Pontes (2020) verificaram que a percepção das cuidadoras sobre os profissionais de saúde esteve associada à forma como a notícia foi comunicada e ao suporte oferecido no seguimento, enquanto Kim et al. (2025) identificaram que os cuidadores valorizam conversas precoces, diretas e sensíveis, com linguagem clara, foco nas potencialidades da criança e definição de próximos passos.
Zhong e Wijesinghe (2025), ao analisarem a experiência de pais cuidadores de crianças com paralisia cerebral no sudoeste da China, identificaram sobrecarga moderada a elevada entre os participantes, associada a fatores como menor escolaridade, maior tempo dedicado ao cuidado, fadiga, sintomas depressivos e condições clínicas da criança. Esses achados reforçam que o acompanhamento profissional não deve se limitar às necessidades da criança, mas também precisa incluir a avaliação contínua do cuidador, considerando sinais de desgaste físico e emocional, necessidade de orientação, apoio psicossocial e encaminhamento para redes de suporte capazes de reduzir a sobrecarga familiar.
Davidson et al. (2025) em seu trabalho acerca das perspectivas dos pais sobre as barreiras e os facilitadores para o acesso à detecção precoce de crianças com risco de paralisia cerebral, também mostraram que a ausência de orientação ao longo do percurso assistencial, somada à dificuldade de acesso aos serviços, amplia o desgaste das famílias e dificulta o encaminhamento oportuno para avaliação e intervenção.
Carvalho et al. (2023) observaram que intervenções desenvolvidas com cuidadoras informais favoreceram o enfrentamento das incertezas, estimularam o autocuidado e fortaleceram o sentimento de pertencimento, indicando efeitos positivos de ações coletivas, educativas e dialógicas no acompanhamento dessas famílias.
Esses achados mostram que estratégias de acolhimento, escuta e orientação contínua da equipe produzem repercussões favoráveis na forma como as cuidadoras compreendem a condição da criança e lidam com as demandas do cuidado (Bezerra; Silva; Pontes, 2020; Carvalho et al., 2023; Davidson et al., 2025; Zhong e Wijesinghe, 2025).
Faria, Sales e Santos (2025) destacam que a humanização da assistência, baseada em empatia, escuta qualificada e inclusão da família no processo de cuidado, contribui para a melhoria da qualidade de vida e para a adesão ao tratamento. Nessa mesma direção, Marting e Oliveira (2023) reforçam que o enfermeiro atua no acolhimento e na orientação das famílias desde o momento do diagnóstico, auxiliando na compreensão da condição clínica e no desenvolvimento de estratégias de cuidado.
A leitura conjunta desses estudos permite compreender que a enfermagem participa da construção de um cuidado mais próximo da realidade vivenciada pela família, favorecendo maior segurança diante das demandas que surgem após a confirmação diagnóstica (Bezerra, Silva; Pontes, 2020; Carvalho et al., 2023; Marting e Oliveira. 2023; Faria, Sales e Santos, 2025; Zhong e Wijesinghe, 2025).
Rodrigues et al. (2024) evidenciam que a atuação da enfermagem no cuidado domiciliar e na articulação com a equipe multiprofissional favorece a continuidade da assistência e a organização das demandas terapêuticas. Gomes e Gonçalves (2024) acrescentam que ações voltadas ao suporte às mães cuidadoras, incluindo orientações e intervenções que promovam seu bem-estar, contribuem para reduzir a sobrecarga e fortalecer o enfrentamento das dificuldades cotidianas. Assim, os dados discutidos indicam que a enfermagem, ao acolher, orientar e acompanhar a família, contribui para qualificar o cuidado ofertado à criança com paralisia cerebral e para ampliar o suporte percebido pelos cuidadores.
4. CONCLUSÃO
Este estudo permitiu compreender que o diagnóstico de paralisia cerebral repercute de forma ampla na vida familiar, com efeitos emocionais, sociais e econômicos que atingem com maior intensidade as mães cuidadoras, diante da sobrecarga cotidiana, da reorganização da rotina e das incertezas relacionadas ao cuidado contínuo da criança. Os achados também mostraram que a forma como o diagnóstico é comunicado e o suporte ofertado pelos serviços de saúde influenciam diretamente a adaptação da família e o enfrentamento dessa realidade.
Nesse contexto, a atuação da enfermagem se mostrou relevante no acolhimento, na orientação e no acompanhamento das famílias, favorecendo um cuidado mais humanizado, sensível e próximo de suas necessidades. Assim, conclui-se que fortalecer a comunicação entre profissionais e cuidadores, ampliar as estratégias de apoio e qualificar a assistência prestada à criança e à família são medidas que podem contribuir para reduzir a sobrecarga vivenciada e promover melhor qualidade no cuidado.
Diante do exposto, percebe-se que o diagnóstico de paralisia cerebral não deve ser compreendido apenas como uma condição clínica da criança, mas como uma realidade que transforma a dinâmica familiar e exige cuidado ampliado, contínuo e humanizado. A revisão evidenciou que as famílias, especialmente as mães cuidadoras, vivenciam sentimentos de medo, insegurança, sobrecarga e necessidade constante de adaptação, o que reforça a importância de uma assistência em saúde que considere também as demandas emocionais, sociais e econômicas dos cuidadores. Nesse sentido, a enfermagem assume uma função significativa ao estabelecer vínculo, oferecer informações acessíveis, promover acolhimento e atuar de forma integrada com a rede multiprofissional, contribuindo para que o cuidado à criança com paralisia cerebral seja mais qualificado e para que a família se sinta mais apoiada no enfrentamento das necessidades cotidianas.
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1 Discente do Curso Superior de Enfermagem da Universidade do Estado de Minas Gerais, Campus Passos-MG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso Superior de Enfermagem da Universidade do Estado de Minas Gerais, Campus Passos-MG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Docente da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e Faculdade Santa Casa de Passos E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Docente da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e Docente da Faculdade Atenas Campus Passos-MG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Docente da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e Docente da Faculdade Atenas Campus Passos-MG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Docente da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e Docente da Faculdade Atenas Campus Passos-MG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
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