REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780447077
RESUMO
Esta pesquisa visa apresentar a educação bilíngue nos primeiros anos do Ensino Fundamental, com ênfase no Livro Didático de Língua Inglesa. Conduz-se uma revisão de literatura sobre o assunto para analisar como os documentos oficiais que orientam o currículo brasileiro influenciam as matrizes adotadas pelas escolas bilíngues, destacando a mercantilização intrínseca a esse processo no modelo neoliberal. A análise concentrou-se na primeira unidade do livro Educate, da editora Richmond, direcionado ao 1º ano do Ensino Fundamental – Anos Iniciais. A pesquisa revelou a carência de uma legislação nacional específica que regule as escolas bilíngues no país. Constata-se que, apesar de muitas famílias matricularem seus filhos em instituições autodenominadas bilíngues desde a Educação Infantil, o que o mercado frequentemente oferece é a intensificação do ensino de um segundo idioma, e não uma formação bilíngue integral. Portanto, evidencia-se a urgência de implementar uma legislação nacional que regulamente essas instituições, bem como os materiais didáticos e seus currículos no Brasil, contribuindo para um ensino mais eficaz e igualitário.
Palavras-chave: Livro Didático de Inglês; Educação Bilíngue; BNCC; Mercantilização da Educação.
ABSTRACT
This research aims to present bilingual education in the early years of Elementary School, with an emphasis on the English language textbook. It conducts a literature review on the subject to analyze how official documents guiding the Brazilian curriculum influence the curricula adopted by bilingual schools, highlighting the intrinsic commodification within this process under the neoliberal model. The analysis focused on the first unit of the book Educate, published by Richmond and aimed at the first grade of Elementary School. The research revealed the absence of comprehensive national legislation regulating bilingual schools in the country. It is noted that despite many parents enrolling their children in institutions that self-identify as bilingual from Preschool, what is frequently offered is an intensification of second language teaching rather than a fully bilingual education. Therefore, there is an urgent need to implement national legislation to regulate bilingual schools, teaching materials, and their curricula in Brazil, which would contribute to more effective and equitable education for all.
Keywords: English Textbook; Bilingual Education; BNCC; Education Commodification.
1. INTRODUÇÃO
O fascínio e a necessidade da aprendizagem da língua inglesa têm impulsionado transformações significativas no cenário educacional brasileiro. Historicamente restrito a cursos livres, o ensino de idiomas tem sido progressivamente incorporado à educação regular por meio de propostas autodenominadas "escolas bilíngues". Contudo, essa expansão, majoritariamente concentrada no setor privado, ocorre em um cenário de indefinição legal e curricular em nível nacional, especialmente nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
É exatamente nessa lacuna regulatória que se instaura o problema de pesquisa deste estudo. Na ausência de diretrizes federais específicas que definam os parâmetros estruturais da educação bilíngue para a primeira infância, o mercado editorial e as instituições privadas assumem o protagonismo na formulação dos currículos. Conforme alerta Laval (2019), sob a égide do neoliberalismo, a escola sofre um processo de mercantilização, no qual a educação deixa de ser um direito inalienável para se tornar um serviço pautado pela lógica de consumo, eficiência e lucratividade. Nesse contexto, o Livro Didático (LD) transcende sua função pedagógica e converte-se em um produto comercial cuja atratividade mercadológica muitas vezes se sobrepõe à adequação cognitiva e curricular.
Diante desse cenário, a lacuna de pesquisa (gap) que este artigo busca preencher reside na escassez de estudos empíricos que cruzem a análise crítica dos materiais didáticos bilíngues — produzidos pela lógica de mercado — com as diretrizes oficiais de alfabetização do Brasil (BNCC).
Assim, o objetivo deste trabalho é analisar a adequação pedagógica e ideológica do livro didático Educate (da editora Richmond), voltado ao 1º ano do Ensino Fundamental, investigando como a mercantilização da educação influencia o currículo bilíngue. A justificativa para este estudo ancora-se na urgência de fornecer subsídios críticos para educadores e formuladores de políticas públicas, evidenciando que a delegação do currículo ao livre mercado gera um "pseudo-bilinguismo" que atropela as fases de desenvolvimento infantil em prol de resultados mercadológicos.
2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS
Esta seção aborda os fundamentos teóricos que orientam este estudo, dividindo-se na discussão do bilinguismo frente às políticas públicas e na análise do neoliberalismo no ambiente escolar.
2.1. Bilinguismo e o Vácuo Curricular Brasileiro
A definição de indivíduo bilíngue e de educação bilíngue é multifacetada e alvo de intenso debate acadêmico. Hamers e Blanc (2000) caracterizam o sistema bilíngue como aquele em que a instrução é planejada e ministrada simultânea ou consecutivamente em pelo menos duas línguas, exigindo do falante a competência mínima nas habilidades de falar, ouvir, ler e escrever. No Brasil, Moura (2009) defende que o currículo deve integrar a língua adicional como meio de instrução nas diversas áreas do conhecimento, e não apenas como uma disciplina estanque com carga horária ampliada.
Em contraposição a essas descrições acadêmicas, muitos gestores e coordenadores escolares sustentam, com base no senso comum, que ser bilíngue equivale a quase negar a própria língua materna e subvalorizar a cultura na qual o aluno está imerso. Refutando essa visão, Lado (1964) baseia-se na psicologia para definir esse processo de aprendizagem, corroborando que:
[...] o objetivo de aprender uma língua estrangeira como a habilidade de usá-la, compreender seus significados e conotação em termos da língua e da cultura alvo, e a habilidade de compreender a fala e a escrita dos nativos da cultura alvo, tanto em termos de seus significados como também de suas grandes ideias e realizações. Essa definição exclui a necessidade a prender a agir como um nativo, mas inclui a de entender o que o nativo quis dizer quando ele diz e age de uma forma específica. Isso inclui a necessidade de conhecer que interpretação o nativo dará quando lhe é dito que alguém agiu de uma forma específica. (Lado, 1964, p. 25 apud Paiva, 2014, p. 18)
Dessa forma, a educação bilíngue abrange o desenvolvimento indissociável de habilidades linguísticas e culturais. No entanto, certas instituições escolares escolhem priorizar a expansão mercadológica de um segundo idioma, tratando-o como um troféu a ser exibido, ao invés de adotá-lo como uma ferramenta de interação cidadã.
Apesar de a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN 9394/96) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, Brasil, 2017) reconhecerem a importância da língua estrangeira, a obrigatoriedade restringe-se aos Anos Finais do Ensino Fundamental. O ensino nos Anos Iniciais opera em um vácuo federal, sendo regulado de forma heterogênea pelos Conselhos Estaduais e Municipais, conforme mostra o Quadro 1.
Quadro 1: Orientações de Conselhos de Educação sobre o Ensino Bilíngue
CONSELHO | PARECER |
Conselho Municipal de Educação do Rio de Janeiro | Parecer nº 01/2007:"Para uma escola ser bilíngue não basta ministrar aulas de língua estrangeira (...). A escola deve ser o lugar onde se falam duas línguas, ao nosso ver, de no mínimo duas horas diárias." (Rio de Janeiro, 2007, p.2). |
Conselho Municipal de Educação de São Paulo | Parecer nº 135/2008: "Cumpre à escola particular estar conduzindo suas atividades sob a perspectiva de possibilitar outros aprendizados, dentro das diretrizes da educação infantil, sem que haja predominância de uma língua." (São Paulo, 2008, p. 2). |
Conselho Estadual de Educação do Paraná | Parecer nº 26/2012: "[...] as propostas pedagógicas [...] bilíngue e internacional têm em comum a comunicação e o uso das linguagens por meio da língua portuguesa e em outra. Não se trata apenas da oferta de línguas (...) de forma estanque." (Paraná, 2012, p. 16). |
Conselho Estadual de Educação do Piauí | Parecer nº 054/2013: "As novas relações sociais (...) determinam as mudanças na formação dos cidadãos e, por conseguinte, as mudanças nos processos educativos, principalmente curriculares e metodológicos." (Piauí, 2013, p. 10) |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
Observa-se no Quadro 1 que diversos enfoques podem ser adotados na organização da educação bilíngue, englobando desde o tempo destinado à imersão até a forma de comunicação intercultural. Dado esse cenário de fragmentação legislativa, a integração dos saberes recomendada pela BNCC (2017, p. 182) torna-se dependente da interpretação isolada de cada escola privada.
2.2. Mercantilização da Educação e o Papel do Livro Didático (LD)
Em contraposição à educação escolar como força antimercadoria, voltada à preservação da cultura erudita (Saviani, 2005), o modelo neoliberal transforma a escola em um espaço de eficiência gerencial. Para Laval (2019), as instituições passam a formar "capital humano" adaptável ao mercado, e o conhecimento adquire status de produto perecível.
Nessa lógica, o Livro Didático (LD) assume centralidade. Embora o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) tente garantir a qualidade e a pluralidade dos materiais na rede pública, o setor privado de escolas bilíngues opera sob a livre concorrência. As editoras utilizam estratégias agressivas, empacotando soluções educacionais ("sistemas de ensino") que induzem o professor à execução acrítica do material. Tal engessamento aliena o docente do processo de planejamento, ignorando a diversidade cultural e as necessidades reais dos alunos em prol de uma padronização rentável e facilmente replicável. O Quadro 2 resume a evolução mercadológica e pedagógica dos LDs.
Quadro 2: Evolução metodológica e estrutural dos livros didáticos de Língua Inglesa
PERÍODO | FOCO METODOLÓGICO E CARACTERÍSTICAS EDITORIAIS |
Séculos XVIII e XIX: | Os primeiros LDs de língua inglesa surgiram nos séculos XVIII e XIX, mas seu conteúdo era frequentemente focado na gramática e tradução. O ensino de línguas era centrado na memorização de regras e no estudo das estruturas gramaticais, com pouca ênfase na prática da fala e da compreensão oral. |
Século XX: Abordagens comunicativas | No início do século XX, houve uma mudança significativa nas abordagens de ensino de línguas, incluindo o inglês. As teorias comunicativas começaram a ganhar destaque, enfatizando a importância da comunicação oral e das habilidades práticas em língua estrangeira. Os materiais didáticos também começaram a incorporar diálogos, exercícios de conversação e situações da vida real para promover a comunicação efetiva. |
Décadas de 1950 a 1970: Áudio e diálogos | Nas décadas de 1950 a 1970, com o desenvolvimento da tecnologia de áudio, os LDs começaram a incluir fitas cassete e, mais tarde, CDs para fornecer exemplos autênticos de pronúncia e melhorar a habilidade auditiva dos alunos. Os diálogos foram aprimorados, e os materiais passaram a refletir situações da vida real, como viagens, trabalho e interações sociais. |
Décadas de 1980 a 2000: Enfoque nas competências comunicativas | Nesse período, os LDs de língua inglesa começaram a enfatizar ainda mais as competências comunicativas e interculturais dos alunos. O ensino de gramática tornou-se mais indutivo, incorporando atividades que incentivavam os alunos a deduzirem regras e padrões linguísticos por meio da exposição do idioma. Os materiais também passaram a abordar questões culturais e globais para promover a conscientização intercultural. |
Século XXI: Tecnologia e recursos digitais | Com a popularização da tecnologia digital, os LDs de língua inglesa incorporaram recursos interativos, mídias digitais e acesso a conteúdo online. Além dos livros físicos, as editoras passaram a oferecer versões digitais e plataformas de aprendizado online, que permitem a personalização do ensino de acordo com as necessidades individuais dos alunos. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
Percebe-se que, ao longo dos anos, os LDs vêm se modernizando para se adaptar às novas realidades de consumo educacional, buscando atender à premissa destacada pela própria BNCC:
Aprender a língua inglesa propicia a criação de novas formas de engajamento e participação dos alunos em um mundo social cada vez mais globalizado e plural, [...] É esse caráter formativo que inscreve a aprendizagem de inglês em uma perspectiva de educação linguística, consciente e crítica, na qual as dimensões pedagógicas e políticas estão intrinsecamente ligadas. (BNCC, 2017, p. 241)
Destaca-se, contudo, que essa perspectiva crítica frequentemente esbarra na mecadologização dos conteúdos. Conforme a variedade de produtos educativos aumenta no mercado e as escolas se engajam em competições entre si, a própria atividade educacional passa a ser tratada de maneira comercial. Uma questão crítica que surge é a preservação da autonomia do espaço educacional e da prática de ensino em um mundo onde o lucro dita as diretrizes curriculares. Tem-se, então, que a mercantilização da escola prioriza resultados quantitativos em detrimento do desenvolvimento humano, tornando fundamental repensar o papel do professor e a validade estrutural dos materiais adotados.
3. METODOLOGIA
Para atender ao objetivo proposto, esta pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de natureza exploratório-descritiva e documental. O corpus de análise é constituído pelo livro didático do aluno e pelo manual do professor do programa bilíngue Educate (editora Richmond), especificamente a Unidade 1, destinada ao 1º ano do Ensino Fundamental – Anos Iniciais. A escolha deste material justifica-se por sua ampla adoção em escolas privadas brasileiras (atingindo mais de 20 mil alunos) e por representar o segmento eminentemente mercadológico não regulamentado pelo PNLD.
Os dados foram submetidos à Análise de Conteúdo, com base nos princípios de categorização e inferência. A intenção metodológica é desvelar como escolhas aparentemente pedagógicas do material operam, na verdade, como estratégias de mercadologização, onde a estética e a promessa de fluência rápida mascaram inadequações cognitivas. Para garantir esse rigor analítico, foram estabelecidos dois eixos de escrutínio: 1) Eixo Pedagógico (Alinhamento Documental): Avalia-se a consonância das propostas das atividades do LD com os marcos de desenvolvimento cognitivo e de letramento estabelecidos pela BNCC (Brasil, 2017) para a fase de alfabetização (1º ano). 2) Eixo Ideológico-Mercadológico: Analisa-se, sob a ótica de Laval (2019), como a estrutura do livro e os recursos oferecidos refletem a racionalidade neoliberal, priorizando a vendabilidade e a atratividade publicitária do material em detrimento da funcionalidade pedagógica efetiva (ex: inadequação de espaços para escrita, exigências autônomas prematuras e estética visual padronizada).
Cumpre dizer que a análise da “Unidade 1” do Educate é tomada como unidade representativa, partindo-se do pressuposto de que a estrutura pedagógica e visual é sistemática ao longo da obra.
4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
O programa bilíngue analisado, que atende a uma ampla parcela do mercado privado de ensino, define-se institucionalmente com um apelo direto à formação global, operando sob a promessa de entregar "para escolas, professores e alunos uma experiência bilíngue, abrangente e inovadora" (Richmond, 2023).
A unidade 1, intitulada "What are schools for?", divide-se em quatro eixos temáticos. O projeto gráfico demonstra alta qualidade técnica, característica inerente aos produtos voltados à rede privada, buscando legitimar o status de "inovação" vendido pela marca, como podemos observar na estrutura traçada pelo manual do professor e na capa do material do aluno.
Figura 1 - Divisão do Teacher’s Guide
Figura 2 - Capa do livro do aluno
A escola analisada adotou o modelo bilíngue focado na expansão de carga horária, mas o escrutínio do material revela conflitos imediatos entre a embalagem comercial do produto vendido e a viabilidade de execução em sala de aula.
4.1. Descompasso Entre Proposta de Mercado e Realidade Cognitiva
Logo na introdução da unidade, detalhada no escopo geral (Figura 3) e nas atividades de sondagem (Figura 4), o material sugere que o professor distribua papéis para que os alunos de 6 anos escrevam seus nomes livremente, interagindo em língua estrangeira desde o primeiro dia de aula.
Figura 3 - Scope and Sequence da Unit 1
Figura 4: Warm up
No entanto, essa instrução de warm-up entra em conflito direto com o currículo de caligrafia das escolas brasileiras. A BNCC (Brasil, 2017) estipula que, no primeiro ano do Ensino Fundamental, as crianças encontram-se em transição da educação infantil, utilizando letras bastão e necessitando de bases estruturais, como linhas pontilhadas. Portanto, a prática de escrita livre torna-se impraticável e expõe uma falha típica da mercadologização do ensino: o produto é desenhado para parecer avançado e internacional, ignorando completamente a realidade psicomotora do sujeito (o aluno em fase inicial de alfabetização).
Avançando para a seção "Why do we need numbers?", o livro introduz a contagem de 1 a 10 (Figura 5), mesclando a quantificação de objetos escolares com o reconhecimento numérico.
Figura 5: Primeira parte da Unit 1 – Why do we need numbers?
É interessante observar que a aproximação com os símbolos matemáticos está alinhada à BNCC (Brasil, 2017) quanto ao desenvolvimento da capacidade de representação:.
Nos dois primeiros anos do Ensino Fundamental, a ação pedagógica deve ter como foco a alfabetização, à fim de garantir amplas oportunidades para que os alunos se apropriem do sistema de escrita alfabética de modo articulado ao seu envolvimento em práticas diversificadas de letramento [...] (Brasil, 2017, p.55. BNCC).
O problema, contudo, reside na execução funcional demonstrada na Figura 6.
Figura 6: Exercícios primeira parte Unit 1
O exercício 1 propõe uma tarefa de casa (homework) que exige a leitura de enunciados em inglês sem o acompanhamento do docente. Essa exigência precoce de autonomia não tem finalidade pedagógica real para uma criança de 6 anos; trata-se de uma estratégia de mercadologização conteudista. O objetivo latente é demonstrar aos pais, que são os clientes financiadores do produto, um suposto e acelerado avanço acadêmico, exigindo que uma criança ainda não alfabetizada decodifique sentenças em língua estrangeira isoladamente.
4.2. Oralidade, Escrita e a Padronização Neoliberal
A segunda parte da unidade, “What objects do we need at school?”, direciona o foco para o eixo da oralidade e a identificação de itens escolares (Figura 7), culminando em atividades de cópia e resposta escrita (Figura 8).
Figura 7: Segunda parte da Unit 1 – What objects do we need at school?
Figura 8: Exercícios segunda parte Unit 1
A BNCC (Brasil, 2017) estipula que o ensino da escrita nessa idade deve focar na consciência grafofonêmica gradual. No entanto, no exercício de fixação do LD (Figura 8), exige-se que a criança copie respostas completas em inglês, incluindo formas gramaticais negativas complexas, em espaços severamente reduzidos. Aqui, o Eixo Ideológico-Mercadológico delineado na metodologia, torna-se irrefutável: a estética limpa e publicitária da página do livro, projetada para impressionar os adultos, sobrepõe-se à necessidade ergonômica da criança. Assim, a editora vende a "solução educacional", mas transfere ao professor o desgaste de tentar adaptar um material estruturalmente enviesado pelo mercado.
Nas etapas de interpretação de leitura, "What can we do at school?" (Figuras 9 e 10), o livro apresenta textos curtos e multimodais.
Figura 9: Terceira parte Unit 1 – What can we do at school?
Nessa parte, aborda-se a interpretação textual, que se encaixa no eixo de leitura da BNCC (2017 p. 67). O objetivo desta seção é aprimorar as habilidades de leitura, introduzindo gradualmente estratégias de compreensão. Mais uma vez, busca-se amparo nas diretrizes de Língua Portuguesa, já que o inglês carece de normatização própria para essa fase:
O eixo Leitura compreende a aprendizagem da decodificação de palavras e textos [...] o desenvolvimento de habilidades de compreensão e interpretação de textos verbais e multimodais e, ainda, a identificação de gêneros textuais, que esclarecem a contextualização dos textos na situação comunicativa, o que é essencial para compreendê-los. (Brasil, 2017, p. 64. BNCC).
Nota-se que o texto presente na Figura 9 disponibiliza um vocabulário de fácil compreensão e imagens autoexplicativas, aproximando-se dos interesses das crianças, o que também se reflete no desenvolvimento da escrita na Figura 10.
Figura 10: Exercícios terceira parte Unit 1
Embora a atividade envolva textos multimodais (conforme prevê a BNCC), é essencial submeter essa roupagem gráfica aos critérios rigorosos exigidos pelo Estado para materiais públicos (PNLD, 2012), que orientam que os LDs devem: 1) Estar livres de estereótipos de condição socioeconômica, regional, étnico–racial;2) Estar isentos de imagens e textos que contenham apelos ou publicidade comercial.
Sob a lente crítica da mercantilização, as ilustrações do material privado — embora inegavelmente atrativas e de alta qualidade gráfica — operam como vetores de uma cultura globalizada e higienizada. O apelo visual serve para embalar o produto em uma estética eurocêntrica e padronizada, carecendo de representatividades profundas das reais diversidades regionais, raciais e sociais brasileiras.
Por fim, a unidade é encerrada com a exploração do alfabeto na seção "What do we use the alphabet for?" (Figuras 11 e 12).
Figura 11: Quarta parte Unit 1 – What do we use the alphabet for?
Figura 12: Exercícios Quarta Parte Unit 1
Percebe-se, então, que o ensino alfabético é crucial para a decodificação da escrita. Ao longo de toda a unidade analisada, verifica-se que a estrutura editorial do LD apresenta uma organização estandardizada, espelhando as atividades (leitura, compreensão oral, escrita e produção) como uma fórmula a ser repetida em todos os capítulos.
Essa análise do primeiro capítulo do livro Educate, publicado pela editora Richmond (2023), foi realizada levando em consideração as principais diretrizes do primeiro ciclo do Ensino Fundamental estabelecidas pela BNCC, uma vez que o PNLD aborda o ensino de inglês apenas para o Ensino Fundamental – Anos Finais. No entanto, é importante ressaltar que, devido à limitação de escopo desta análise, outros elementos do material didático, como o guia do professor e o material digital disponibilizado aos alunos, não foram considerados durante a análise.
Quanto à estrutura editorial, observou-se que o material é bem organizado, apresentando clareza funcional e com imagens apropriadas e adequadas aos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. No entanto, é importante notar que as atividades de escrita podem ser aprimoradas, pois o espaçamento para a escrita do aluno não é ideal para esta fase de alfabetização. Além disso, a linguagem utilizada é coerente com o desenvolvimento léxico-gramatical das crianças e de fácil compreensão.
No que diz respeito às ilustrações, elas foram escolhas inteligentes e apropriadas, facilitando a compreensão dos enunciados e textos e com disposição adequada nas páginas. O material apresenta uma variedade de formatos de ilustrações, incluindo desenhos, fotos e figuras, que contribuem para a aprendizagem e o reconhecimento dos conceitos propostos. Contudo, é possível notar que ainda há espaço para melhorias na representação da diversidade étnica e na inclusão de uma abordagem mais abrangente da pluralidade social.
É imprescindível pontuar que esta organização fluida, as escolhas ilustrativas ditas "inteligentes" e a clareza funcional da diagramação não são simples triunfos pedagógicos; elas constituem a própria essência da mercadologização. O livro é diagramado como um pacote de consumo de alta eficiência técnica. A linguagem visual não visa primordialmente a inclusão ou a pluralidade social (como preconiza o PNLD), mas sim o convencimento imediato das famílias que investem na educação privada, evidenciando que a adequação comercial se sobrepôs à adequação cognitiva da fase de alfabetização.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise do livro didático Educate revela as contradições intrínsecas ao processo de expansão da educação bilíngue no Brasil. Constata-se que a ausência de uma base curricular nacional diretiva para o ensino de línguas estrangeiras nos Anos Iniciais cria um ambiente propício para que a lógica de mercado — e não a lógica pedagógica emancipatória — dite os rumos do ensino.
Por meio dos critérios metodológicos estabelecidos, ficou evidenciado que o LD analisado, apesar de seu inegável apelo estético e organização gráfica (típicos de mercadorias de alto valor agregado), apresenta severos descompassos com o desenvolvimento cognitivo e motor de crianças em fase de alfabetização. Exigências de cópia de estruturas complexas, ausência de pautas adequadas e tarefas de casa que demandam letramento autônomo prematuro configuram o que chamamos de adequação mercadológica: o material visa agradar aos pais (compradores) mostrando "resultados visíveis", enquanto atropela o tempo cognitivo da criança (usuária).
Confirma-se a tese de Laval (2019) de que a mercantilização escolar transforma o ensino em um produto de consumo, engessando o currículo e delegando a responsabilidade de adaptação inteiramente ao docente. Para superar essa realidade, é imperativo que os órgãos regulamentadores federais estabeleçam diretrizes sólidas para a educação bilíngue na primeira infância — balizadas com o mesmo rigor exigido pelo PNLD —, e que os processos de formação continuada fomentem a autonomia crítica. O professor não pode ser um mero executor de cartilhas editoriais globais, devendo atuar como intelectual capaz de subverter os pacotes educacionais em prol de uma educação que respeite a infância e fomente uma verdadeira cidadania global e inclusiva.
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