REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779558550
RESUMO
O presente artigo propõe-se a apresentar as Histórias em Quadrinhos como um recurso pedagógico no processo de alfabetização e letramento de crianças nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, rompendo com a ideia de que este gênero textual constitui-se apenas como uma leitura de entretenimento. Coexistiram no Brasil, historicamente, diversas concepções de alfabetização, trazendo consigo métodos e materiais variados, bem como, do surgimento do conceito de letramento, que suscitou limites e possibilidades ao processo de alfabetização. As Histórias em Quadrinhos também passaram por visões diferentes no decorrer do tempo, sendo rejeitadas por uma visão mais conservadora de estudiosos da linguagem, porém, a partir de estudos mais atuais, passaram a ser atreladas à educação. Este artigo, recupera o histórico das Histórias em Quadrinhos, da alfabetização e do letramento no Brasil, resultado de uma pesquisa bibliográfica, de cunho qualitativo. Compreende-se que os quadrinhos podem ser utilizados no contexto escolar, como ferramenta auxiliar no processo de ensino-aprendizagem, e parte disso se dá pelo seu caráter de entretenimento, que pode ser explorado em sala de aula, tornando a leitura prazerosa para a criança em processo de alfabetização.
Palavras-chave: Histórias em Quadrinhos; Alfabetização; Letramento; Formação do leitor.
ABSTRACT
This article aims to present comic books as a pedagogical resource in the literacy process of children in the early years of elementary school, breaking with the idea that this textual genre is merely a form of entertainment reading. Historically, various conceptions of literacy have coexisted in Brazil, bringing with them varied methods and materials, as well as the emergence of the concept of literacy itself, which has created both limits and possibilities for the literacy process. Comic books have also been viewed differently over time, being rejected by a more conservative view of language scholars, but, based on more recent studies, have become linked to education. This article recovers the history of comic books, literacy, and reading in Brazil, based on qualitative bibliographic research. It is understood that comic books can be used in the school context as an auxiliary tool in the teaching-learning process, and part of this is due to their entertainment value, which can be explored in the classroom, making reading enjoyable for children in the literacy process.
Keywords: Comic books; Literacy; Reading comprehension; Reader development.
INTRODUÇÃO
O presente artigo tem como objetivo analisar a utilização das Histórias em Quadrinhos, como recurso pedagógico no processo de ensino-aprendizagem da aquisição da leitura e da escrita – alfabetização – partindo do pressusposto, de que a formação do leitor inicia desde o momento em que a criança é inserida na sociedade letrada, ou seja, a partir do primeiro contato desta, com os diferentes gêneros textuais.
Partindo desse pressuposto, assume-se neste artigo, que a linguagem é síntese das interações sociais estabelecidas entre os seres sociais em comunicação, logo, a concepção que guiou os processos de investigação, análise e exposição aqui expressa, centra-se na perspectiva da linguagem como interação – perspectiva interacionista – com base na Psicologia Histórico Cultural, em específico, as contribuições vygotskyanas.
Enquanto interação, compreende-se que a linguagem é fruto das relações que são estabelecidas entre os sujeitos e entre os sujeitos e seus instrumentos de trabalho, como forma de comunicação e estabelecimento da própria constituição do ser social. O trabalho, como categoria fundante do ser social é indissociável da categoria linguagem, pois partir da confecção dos instrumentos de trabalho, os homens passaram a sentir a necessidade de comunicar os instrumentos do seu trabalho e, nesse sentido, a função comunicativa emerge historicamente, socialmente e influencia biologicamente o ser humano. A partir desta compreensão, admite-se que a formação do bom leitor, antecede a educação institucionalizada realizada na escola, pois é uma formação instrínseca a socialização da linguagem enquanto constituição humana e patrimônio histórico e cultural da humanidade (Vigotskii; Luria; Leontiev, 1988).
O letramento, enquanto prática social em que se faz uso da leitura e da escrita em sociedade, e que ocorre em ambientes escolares e não escolares, é um conceito indispensável e indissociável da alfabetização, esta, compreendida enquanto processo sistemático e escolarizado de ensino-aprendizagem do sistema convencional de escrita alfabética e ortográfica. Logo, neste artigo, optamos pela abordagem indissociável entre alfabetização e letramento, proposta por Magda Soares: o alfaletrar (Bordignon; Paim, 2017; Soares, 2004a; 2004b).
Nesse sentido, nossa proposta de trabalho foi investigar um gênero textual pouco utilizado como recurso pedagógico para “alfaletrar” as crianças nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental: as Histórias em Quadrinhos (HQs). Pouco conhecidas enquanto gênero textual, mas muito consumidas pela leitura de entretenimento, as HQs, no Brasil e no mundo, conquistaram o público infantil pela leitura prazerosa das imagens e da escrita repleta de elementos próximos da linguagem oral cotidiana das crianças. Nesse sentido, guiamos o processo de investigação desta pesquisa procurando responder a seguinte interrogativa: como se constituiu, historicamente, a utilização das Histórias em Quadrinhos como recurso pedagógico no processo de alfabetização?
Esta pesquisa é de cunho qualitativo, em que o objeto de conhecimento – HQs – foi analisado em suas múltiplas relações com a área da educação – trabalho, linguagem, alfabetização, bem como, sua função enquanto mercadoria de entretenimento. Como metodologia de trabalho, optamos por uma pesquisa bibliográfica, que nos forneceu o arcabouço teórico para analisar as categorias que emergiram das primeiras aproximações com o objeto de pesquisa, a saber: Histórias em Quadrinhos, Alfabetização, Letramento e Formação do Leitor.
O presente artigo está estruturado a partir de quatro análises empreendidas a fim de alcançar o objetivo anunciado, a saber: a primeira, acerca da linguagem enquanto construção social, síntese do trabalho e das trocas entre os homens como forma de comunicação e constituição do ser social; a segunda, da contextualização da alfabetização no Brasil, desde a fase centrada nos métodos, passando pela fase de desvalorização da alfabetização e invenção do letramento, até a fase da reivenção da alfabetização; a terceira, da constituição das HQs enquanto gênero textual, discutindo desde a sua inserção enquanto leitura de entretenimento para consumo rápido, até a sua compreensão enquanto leitura valorizada; e, por último, da proposta de utilização desse gênero textual como recurso pedagógico para a alfabetização nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
O Terreno da Alfabetização: A Linguagem Enquanto Construção Social
Na formação inicial do Pedagogo, um dos temas fulcrais para o exercício da prática docente nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental é a alfabetização. Esta temática é de suma importância, pois todo o processo escolar do sujeito, depende de práticas exitosas na aquisição da linguagem escrita, bem como, no desenvolvimento da competência de saber utilizar a mesma em práticas sociais do uso da linguagem.
Desde o início da história da humanização, o ser humano tem a necessidade de comunicar-se e a linguagem é a mediação entre o ser humano e seus instrumentos de trabalho (externos), bem como, um meio de interação entre os indivíduos, para a produção da sua condição enquanto seres sociais e históricos. O ser humano, ao longo do seu processo de desenvolvimento (enquanto espécie e indivíduo), vai demarcando sua existência no mundo por meio dos gestos e movimentos (escritas no ar), dos desenhos infantis (o movimento fixado no papel), dos jogos simbólicos (atividade de brinquedo), da linguagem oral (fala), da linguagem interna (pensamento) e, por meio da linguagem escrita (ler e escrever). A partir dessa compreensão, o indivíduo nasce e é inserido num processo de letramento social, cujas várias linguagens vão contribuindo para o seu tornar-se gênero humano (Vigotskii; Luria; Leontiev, 1988).
Logo, compreender o desenvolvimento da linguagem, enquanto desenvolvimento social do ser humano, é admitir, que a mesma, cumpre uma função crucial nos rumos do desenvolvimento individual (ontogênese) e da humanidade (filogênese). A educação, nesse sentido, é o ato de produzir a humanidade, que é coletiva e social, no indivíduo, por meio da linguagem, seja esta em sua pré-história da linguagem, ou em seu mais alto grau de complexidade: a linguagem escrita (Vigotskii; Luria; Leontiev, 1988; Vigotski, 2009).
Nesse sentido, a educação escolar tem como função, contribuir para o processo de desenvolvimento da linguagem escrita no indivíduo, a partir de um processo sistemático, orientado, mediado, chamado de alfabetização. Esse processo de aquisição e apropriação do sistema da escrita, alfabético e ortográfico, é muito complexo do ponto de vista das funções psicológicas superiores envolvidas, e portanto, difere-se muito da fala, que é uma linguagem espontânea e não-arbitrária.
Essa visão interacionista de linguagem, é uma abordagem da Psicologia Histórico-Cultural, que compreende que o indivíduo nasce em uma sociedade mediada pela linguagem e que, por meio das interações com os outros indivíduos, vai se apropriando da linguagem em suas diferentes dimensões. Nessa abordagem, a criança em idade escolar vai desenvolvendo diferentes tipos de linguagem, vai interagindo com diferentes gêneros textuais, até o momento em que chega a etapa da educação onde será alfabetizada, ou seja, momento em que ocorre a
[...] consciência fonológica e fonêmica, identificação das relações fonema–grafema, habilidades de codificação e decodificação da língua escrita, conhecimento e reconhecimento dos processos de tradução da forma sonora da fala para a forma gráfica da escrita (Soares, 2004a, p. 15).
Nessa perspectiva teórica, a linguagem escrita é a linguagem desenvolvida em seu máximo grau de complexidade, logo, alfabetizar uma criança é um proceso que exige conhecimento – teórico e prático – bem como, a disponibilidade de diferentes materiais e ferramentas pedagógicas que possam auxiliar a criança nesse momento. Segundo Vigotski, na obra intitulada A construção do pensamento e da linguagem,
[...] a linguagem escrita requer para o seu transcurso pelo menos um desenvolvimento mínimo de um alto grau de abstração. Trata-se de uma linguagem sem seu aspecto musical, entonacional, expressivo, em suma, sonoro. É uma linguagem de pensamento, de representação, mas uma linguagem desprovida do traço mais substancial da fala o som material. A criança deve abstrair o aspecto sensorial da sua própria fala, passar a uma linguagem abstrata, que não usa palavras, mas representações de palavras (Vigotski, 2009, p. 312-313 apud Feitosa; Moraes; Carmo, 2021).
Como a linguagem escrita é uma linguagem sem interlocutor, a alfabetização, ou seja, o conhecimento e reconhecimento dos processos de tradução da forma sonora da fala para a forma gráfica da escrita, torna-se um processo que requer para sua assimilação, processos formais e sistemáticos. No entanto, compreendemos que alfabetizar não pode ser um treino motor, uma atividade automatizada, mas sim, uma atividade sistemática, progressiva, de pesquisa e investigação: um momento da escolarização que valorize a função cultural complexa da linguagem escrita em sociedade, prioritariamente, de forma prazerosa para a criança.
Histórico da Alfabetização no Brasil: Da Cartilha Caminho Suave Ao Alfaletrar
A alfabetização é uma etapa fundamental no processo de escolarização do sujeito e é um momento ansiado por familiares e professores. Regularmente, ocorre nos dois primeiros Anos do Ensino Fundamental, mas pode variar, dependendo de situações sociais, econômicas, culturais, educacionais e individuais.
Segundo Soares (2004a, p. 16), a alfabetização é a aquisição do sistema convencional de escrita, ou mais especificamente, o “processo de aquisição e apropriação do sistema da escrita, alfabético e ortográfico”. Compreende-se assim, que esse processo é sistemático e precisa da mediação de um professor – alfabetizador – munido de conhecimentos teóricos e práticos acerca da especificidade da alfabetização.
Durante muito tempo, até a década de 1980, no Brasil, a alfabetização era concebida como um “processo mecânico” em que o aluno aprendia a codificar (escrever) e decodificar (ler) um código – o sistema de escrita alfabética, que é notacional5. Nesse processo, o professor alfabetizador utilizava métodos rígidos, baseados em concepções de linguagem que não contemplavam as práticas sociais nas quais os alunos estavam inseridos, dificultando assim, o processo de compreensão sobre o que se escrevia e o que se lia. Nesse momento, o Paradigma Behaviorista conduziu os processos de alfabetização, compreendendo-os como comportamentos operantes verbais a serem estimulados no intuito de obterem-se respostas (Bordignon; Paim, 2017; Soares, 2004a; 2004b).
Os métodos de alfabetização utilizados nesse período eram chamados de métodos sintéticos, pois iam da menor unidade de sentido (grafema) para a maior unidade de sentido (palavra) no momento de alfabetizar. Ou seja, partia-se das letras (vogais e consoantes) para as sílabas e das sílabas para as palavras. Dentre os métodos sintéticos estão: o método alfabético, o método fônico e o método silábico. Haviam também, os métodos chamados de analíticos, que se propunham o caminho inverso, pois iam da maior unidade de sentido (palavra) para a menor unidade de sentido (grafema). Dentre esses estão: o método da palavração, o método da sentenciação e o método global (Bordignon; Paim, 2017; Soares, 2004a; 2004b).
Ressaltamos sobre esses métodos, os materiais utilizados para auxiliar na alfabetização: os recursos pedagógicos. Lançada em 1967, a cartilha Caminho Suave foi uma edição vinculada ao Livro Didático de Alfabetização, escrita por Branca Alves de Lima e tornou-se um referencial de manual de alfabetização para a época. Seus exercícios de pontilhados, caligrafia, repetição e textos, cujas palavras demarcavam a mesma família silábica, tinham a intenção de fazer com que o aluno estabelecesse relações grafofônicas, esvaziando seu conteúdo de sentido. No entanto, por estabelecer associação entre letras e respectivas pistas visuais em seu conteúdo, foi considerado um material progressista para a época, pois acreditava-se que isso facilitava muito a aprendizagem no momento da alfabetização (Bordignon; Paim, 2017; Soares, 2004a; 2004b).
Essas cartilhas estavam embasadas numa concepção de linguagem tecnicista, oriunda do Paradigma Behaviorista dominante nas décadas de 1960 a 1980 no Brasil, em que a repetição era o enfoque do processo educacional e a alfabetização era concebida estritamente como codificação e decodificação. O aluno aprendia a ler e a escrever, mas a formação do leitor, do aluno que faz uso crítico da linguagem em suas práticas sociais não estava colocada como horizonte do processo de ensino-aprendizagem (Soares, 2004a; 2004b).
Com o desenvolvimento das discussões em torno do conceito de letramento, no Brasil e no mundo, e das variações linguísticas, que extrapolam a norma privilegiada da Língua Portuguesa, a linguagem passa a ser compreendida de uma outra maneira a partir de 1985, resultado do Paradigma Cognitivista de aprendizagem que emerge no Brasil sob a nomenclatura de construtivismo (Soares, 2004a; 2004b).
Alguns estudiosos contribuíram significativamente para a ampliação das concepções em torno do processo de alfabetização, dentre eles, destacam-se as pesquisas de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky (1985), os trabalhos de Leda Tfouni (1988; 1995), os estudos empreendidos por Magda Soares (2004a; 2004b), bem como, os estudos de Lev Semenovitch Vygotski (1988; 2009), que chegam ao país desconstruindo os marcos de desenvolvimento da linguagem no indivíduo, conhecidos até então (Bordignon; Paim, 2017).
Nesse sentido, o conceito de alfabetização sofreu alterações, incluindo as discussões sobre letramento, que estavam em voga em meados da década de 1980 no Brasil. Soares (2004a; 2004b), defende que existe uma indissociabilidade entre alfabetizar e letrar, mas que, mesmo assim, esses dois processos possuem especificidades bem demarcadas. Para a autora, alfabetizar é um processo sistemático e orientado, que demanda conhecimentos específicos sobre teorias e métodos, enquanto que letramento, é um processo mais flexível e exige outras teorias e práticas para assegurar sua efetividade no processo de ensino-aprendizagem.
Soares (2004a; 2004b) afirmou que no Brasil, a história da alfabetização passou por alguns momentos: primeiramente, o da alfabetização dita “tradicional”, com seus métodos sintéticos e analíticos, do Paradigma Behaviorista (1960-1970); depois, o da invenção e valorização restrita do letramento, em que métodos de alfabetização foram descartados e, consequentemente, gerando a desinvenção da alfabetização, em que teorias e métodos do processo de aquisição do sistema de escrita alfabética sofreram ataques sistemáticos do Paradigma Cognitivista à moda brasileira, de que a “criança constroi seu próprio conhecimento”; e, o da reinvenção da alfabetização, movimento ocorrido após meados da década de 1990, em que observou-se a necessidade de compreender a indissociabilidade entre alfabetizar e letrar, assentado em um Paradigma Sociocultural (Bordignon; Paim, 2017).
Nesse movimento, de reinvenção da alfabetização, novos materiais são utilizados como recurso pedagógico para a alfabetização. Novos gêneros textuais passam a ser considerados dignos de serem estudados nas cadeiras escolares, dentre esses, as Histórias em Quadrinhos.
Com a introdução da concepção de linguagem (interacionista), da concepção de indissociabilidade entre alfabetização e letramento (alfaletrar) e de uma nova concepção acerca dos gêneros textuais (Histórias em Quadrinhos), podemos vislumbrar, a partir de meados da década de 1980 (coincidentemente, período da Redemocratização do Brasil), início da década de 1990, uma possibilidade de, as Histórias em Quadrinhos, constituírem-se, como recurso pedagógico no processo de alfabetização nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
Histórias em Quadrinhos: Que Gênero Textual é Esse e Qual a Sua Estrutura Textual?
As Histórias em Quadrinhos (HQs), ao contrário do que muitos pensam, não constituem um gênero literário, mas sim, um gênero textual narrativo, que é denominado de a nona arte, sendo chamado por Will Eisner6 de arte sequencial, pois, um dos pontos mais notáveis do objeto em questão são as imagens que seguem uma sequência de acontecimentos, passando assim, um sentimento e uma ideia de ação dos personagens. Cagnin (1975, p. 25), define o gênero das HQs como “ [...] um sistema narrativo formado de dois códigos de signos gráficos: - a imagem, obtida pelo desenho; - a linguagem escrita” (Cagnin apud Meireles, 2015, p. 52).
Segundo Oliveira e Andrade (2022), a representação de acontecimentos por meio de figuras sequenciais já era comum ao ser humano do Período Neolítico, podendo ser observada em diversas civilizações antigas no decorrer da história. Essa forma de contar histórias continuou e, após milhares de anos numa escala evolutiva, se configurou em um gênero narrativo de imagens, atrelados a escrita de diálogos: as HQs. Essa forma de comunicação se expandiu, tornando-se uma fonte de entretenimento, que pode, por meio dos temas que desenvolve, alcançar pessoas de todas as idades.
Ao longo dos anos, foi fortemente debatido pelos estudiosos desse gênero textual, qual país teria sido o “berço” das HQs. Batista (2013), aponta que nessa disputa se encontram, além dos Estados Unidos, a Alemanha, a França, a Suíça, o Japão e até mesmo o Brasil, este último, pela publicação de As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, de Angelo Agostini. História esta, que iniciou circulação em 30 de janeiro de 1869, e é considerada a primeira história em quadrinhos do Brasil (Gomes, 2008).
Porém, autores como Iannone e Iannone (1995), situam como patrono das HQs os americanos, considerando o Brasil apenas precursor de um dos quadrinhos modernos, assim como muitos outros, pois nas As Aventuras de Nhô Quim, não haviam os característicos balões de fala, figura marcante e um dos símbolos que viria a ser uma marca das HQs, e que foi definida como parte da estrutura padrão, juntamente com outros elementos, apenas em outubro de 1896, em um jornal norte americano de William Randolph Hearst7 (Batista, 2013).
A nomenclatura, Histórias em Quadrinhos, é utilizada no Brasil e em Portugal, mas, nos Estados Unidos (país que “batizou” o gênero textual) esta surgiu como comics – palavra em inglês para cômico – devido ao teor humorístico e satírico presente nos primeiros exemplares de quadrinhos lançados. Apesar da tentativa, na década de 1920, de mudar a nomenclatura dos quadrinhos a depender da temática abordada nas histórias – no caso as adventures strips, traduzido como tiras de aventura – a nomenclatura usual HQs segue a mesma, independente do conteúdo (Iannone; Iannone, 1995).
A estrutura textual das HQs sofreu diversas alterações com o passar do tempo e das publicações, chegando no padrão atual conhecido, ainda no início do século XX. Atualmente, no que diz respeito a formulação desse gênero textual, observam-se os seguintes elementos: a presença de vinhetas, que são os próprios quadrinhos, nos quais estão contidos os acontecimentos; as imagens, que representam as histórias; os personagens, divididos em protagonistas (heróis) ou coadjuvantes (personagens secundários); as sarjetas, que são os espaços entre as vinhetas; os balões de texto ou imagem; e, as onomatopéias, que indicam os sons e ruídos produzidos nas histórias (Assis, 2020; Iannone; Iannone, 1995).
Ainda, sobre como se estruturam as HQs, apontam-se os elementos padrões de um texto narrativo: enredo, início, conflito, clímax e desfecho. A presença de diálogos é recorrente, mas, assim como nos demais textos narrativos, não é obrigatório, podendo também existir os denominados quadrinhos mudos, que apenas com imagens e alguns signos contam uma história (Santos, 2015).
Os elementos presentes na estrutura das HQs, unidos, auxiliam na compreensão dos fatos e ações, podendo ser modificados pelos cartunistas, afim de comunicar ao leitor algum sentimento, ação ou ideia presente na narrativa. Exemplos destacáveis são as variações no formato dos balões, utilizados para indicar diferentes tons de voz e ações, que podem passar do formato padrão que é redondo com um “rabinho”; para um formato pontiagudo, representando um estrondo ou grito; ou um contorno pontilhado, que indica um sussurro; ou em forma de geleira, indicando tom de indiferença ou medo nos personagens; ou até mesmo, em formato de nuvens, o que não representa som ou fala, mas sim, um pensamento ou sonho implícito na narrativa (Assis, 2020; Iannone; Iannone, 1995).
A linguagem utilizada na maioria das HQs é comum no uso cotidiano das crianças em classes de alfabetização e reflete uma linguagem mais informal. Nessa, estão representadas as interjeições – típicas da linguagem falada (oral), que expressam emoções, sensações, apelos, tais como, ufa!, ainda bem!, oba! – que não são comumente encontradas em outros gêneros textuais. Outra forma utilizada de linguagem, que aproxima-se da realidade do público, são as onomatopéias – figuras de linguagem que reproduzem sons e ruídos naturais que são representados pela escrita, como crec, para um som de vidro quebrando, por exemplo. Essa forma de representação da linguagem escrita pode ser compreendida como uma aproximação da realidade do leitor e, desta forma, minimizando a complexidade da linguagem escrita no processo de alfabetização.
Principalmente durante o século XX, por constitui-se num gênero textual razoavelmente novo, as HQs sofreram preconceito pelos escritores e leitores mais conservadores, sendo combatidas tanto por religiosos, quanto por pessoas da academia na área das linguagens, fato que ocorreu em todo o cenário mundial, até mesmo no Brasil, tornando o consumo de quadrinhos algo marginalizado, por ser considerada uma leitura pobre e rasa, que levaria ao “emburrecimento” do leitor. Isso explica, porque as HQs não compunham, naquele momento, um gênero textual apropriado nas classes de alfabetização, pois a linguagem escrita ali expressa, não utilizava a norma culta e padrão da língua e, portanto, precisavam ser combatidas.
No Brasil, até meados da década de 1980, o ensino de Língua Portuguesa, por exemplo, excluía da sua grade curricular todo e qualquer gênero textual que não se enquadrava nos clássicos da literatura e da gramática. A partir da socialização das discussões em torna da Línguística, do preconceito linguístico e do letramento, a incorporação de gêneros textuais utilizados no cotidiano dos alunos, repleto de variações linguísticas que chocavam-se com a norma privilegiada da língua, passaram a constituir material didático no processo de ensino-aprendizagem da língua escrita – alfabetização, dentre esses, as Histórias em Quadrinhos.
Histórias em Quadrinhos no Brasil
A depender da referência teórica, a história das HQs no Brasil teve início ainda no século XIX, com a publicação de As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, de Angelo Agostini, no dia 30 de Janeiro de 1869, porém, este não é considerado o marco inicial do gênero no país. Mesmo assim, foi criado o Dia do Quadrinho Nacional, que ocorre no dia 30 de Janeiro, homenageando o título mencionado e a data da sua publicação (Gomes, 2008; Iannone; Iannone, 1995; Moya; Cirne, 2002).
Para os que não consideram essa uma HQs, por não seguir a formulação “definitiva” proposta para o gênero textual, o início se deu um pouco mais tarde, com a revista carioca infantil O Tico-Tico, que, passou a publicar traduções de quadrinhos em 1905 e teve duração de 72 anos no país (Gomes, 2008; Iannone; Iannone, 1995; Moya; Cirne, 2002).
Historicamente, a próxima revista direcionada ao público infantil que passou a publicar HQs foi a Gazetinha, da Gazeta, em 1929. Após essa data, em 1934, foi publicado por Adolfo Aizen8, nome importante para a difusão dos quadrinhos no Brasil, o Suplemento Infantil9, que se logo foi intitulado o Suplemento Juvenil. Segundo Gomes (2008, p. 3), “A penetração em massa de material estrangeiro de quadrinhos no país – em especial os comics norte-americanos – pode ser simbolizada através da publicação do Suplemento Juvenil por Adolfo Aizen entre 1933 e 1934”.
No ano de 1939, em resposta ao sucesso do Suplemento Juvenil, Roberto Marinho10 lançou O Globo Juvenil, buscando também conquistar o público infanto-juvenil (Gomes, 2008; Iannone; Iannone, 1995; Moya; Cirne, 2002).
A década de 1940, no que diz respeito aos quadrinhos, foi marcada por produções americanas, tendo pouca visibilidade para os quadrinistas brasileiros. Para as revistas, o material estrangeiro era mais lucrativo, pois pagavam apenas o direito de uso da história e o valor do trabalho do tradutor e, assim, as mesmas histórias circulavam pelo mundo, tornando quase inviável o investimento na criação de quadrinhos brasileiros. Esta, foi também uma década marcada pela crescente nos quadrinhos de terror, algo que foi julgado por grupos religiosos, o que fez com que, em 1954, nos Estados Unidos, fosse implementada uma censura às revistas com essa temática, algo que foi considerado bom para o mercado brasileiro, pois impulsionou as publicações nacionais nesse período (Gomes, 2008).
Foi também na passagem da década de 1940 para a década de 1950, que começaram a ser produzidas e mais comentadas as Edições Maravilhosas, histórias já existentes e publicadas no formato de livros e que foram adaptadas para o formato de quadrinhos, o que trouxe um novo público para o gênero textual. Porém, essas adaptações passaram a ser consideradas por alguns, como uma forma de “desestimular” a leitura dos livros, assim, passando a conter uma advertência ao final de cada obra.
No final da maioria dos volumes vinha a seguinte nota editorial: ‘As adaptações de romances ou obras clássicas para a EDIÇÃO MARAVILHOSA são apenas um ‘aperitivo’ para o deleite do leitor. Se você gostou, procure ler o livro em sua tradução e organize a sua biblioteca – que uma boa biblioteca é um sinal de cultura e bom gosto’. Apesar de bem intencionado, é um aviso – em sua formulação – que compromete a possível força expressional dos quadrinhos (Cirne, 1990, p. 32, apud Gomes, 2008, p. 7).
As Histórias Maravilhosas dividiram opiniões em meio aos defensores das HQs enquanto gênero textual. De um lado, elas auxiliaram na difusão desses, popularizando o gênero textual e ampliando o número de leitores. No entanto, de outra perspectiva, conforme citação acima, o consumo desse gênero textual era visto com desprezo pelos conservadores da linguagem, uma vez que a linguagem escrita presente nesse gênero textual era incompleta, rasa e sem conteúdo, passando adiante a ideia de uma leitura fácil que “emburrece” o leitor e não valoriza a linguagem em seus aspectos mais complexos – norma culta e/ou privilegiada.
Em 1960 foi publicada a primeira revista em quadrinhos colorida do Brasil, chamada O Pererê, criada por Ziraldo11. A revista misturava elementos do folclore brasileiro com os acontecimentos da época e tinha como função noticiar. Foi encerrada sua última publicação em 1964, devido ao alto custo da produção, bem como, pelo período que irrompia o Brasil: a Ditadura Militar. Perto deste, em 1959, ocorreu no jornal A Folha de São Paulo, a primeira publicação de Maurício de Sousa12, do que viria a tornar-se, anos a frente, A Turma da Mônica. Porém, nessas primeiras publicações, apresentava-se apenas um dos personagens da turma, o Bidu, e infelizmente, essa primeira versão teve apenas quatro edições (Gomes, 2008; Iannone; Iannone, 1995).
Com o Golpe Militar de 1964, os quadrinhos foram, como quase tudo no país, censurados, mas, como sinal de resistência, houve uma crescente nos chamados quadrinhos marginais - que tratavam de temas considerados tabus. Por meio desses, os quadrinistas realizavam críticas à ditadura e o modelo se consolidou na década de 1970, sendo usado como ferramenta de protesto político e contra a sociedade conservadora da época. Em 1969, o jornal O Pasquim, foi um dos símbolos de resistência no país, que sofreu muitas tentativas de repressão, pois nele, eram publicados além de textos, quadrinhos com sátiras e críticas ao autoritarismo dos governos militares (Iannone; Iannone, 1995; Moya; Cirne, 2002;).
Após o fim do período ditatorial e a retomada da democracia no país, em 1985, autores como Laerte Coutinho, Glauco Villas Boas e Arnaldo Angeli Filho, ganharam destaque com seus trabalhos humorísticos, escrachados e satíricos, que faziam críticas. As tiras de Laerte, seguem até o século atual fazendo sucesso, agora no meio digital.
A produção de quadrinhos no Brasil passou por um período de estagnação durante a década de 1990, retornando no século XXI. Muito desse movimento de retomada se deve ao advento da Internet, que trouxe à tona o interesse pelo gênero textual, introduzindo os quadrinhos de países japoneses, os mangás, ao público brasileiro (Assis, 2020).
A partir da década de 1970, não foram encontrados tantos marcos nas publicações dos quadrinhos no Brasil, porém, seu estudo enquanto gênero textual passou por uma crescente, por meio de diversos teóricos importantes que consolidaram essa modalidade de leitura no país, tais como: Antônio Luiz Cagnin, Álvaro de Moya, Moacy Cirne, Waldomiro Vergueiro, dentre outros.
Percebemos, a partir dos estudos teóricos acerca das HQs, que esse gênero textual foi essencial para a formação de um público leitor no país, mesmo que de forma muito tímida, por meio da inclusão em materiais didáticos, utilizados nas escolas, bem como, sua valorização enquanto material de leitura. O consumo das Histórias em Quadrinhos no país surgiu, inicialmente, como uma leitura de entretenimento, destinada aos leitores como uma forma de lazer, para depois, consolidar-se como um gênero textual, utilizado como material pedagógico em escolas.
Principais Histórias em Quadrinhos em Circulação no Brasil
A presente investigação, teve como foco central, as Histórias em Quadrinhos destinadas ao público infantil – às crianças. Portanto, neste subitem, serão tratados os quadrinhos brasileiros e internacionais destinados a esse público em específico.
O principal quadrinho, mais conhecido por gibi, e que primeiro vêm à memória do público quando se fala de entretenimento para as crianças no Brasil, são as revistinhas da Turma da Mônica, pensadas e criadas pelo quadrinista Maurício de Sousa, único brasileiro a ganhar o prêmio Yellow Kid13 durante a década de 1970 – uma espécie de “oscar” dos quadrinhos. As histórias da turminha ganharam repercussão mundial, e, atualmente, estão em circulação em 40 países, sendo traduzidas para 14 idiomas (Iannone; Iannone, 1995).
Outro quadrinista importante para o desenvolvimento das HQs no Brasil, foi Ziraldo Alves Pinto, que, mesmo após seu falecimento, em 2024, segue conhecido por seus quadrinhos, principalmente pelo personagem do Menino Maluquinho, protagonista de uma série de histórias desenvolvidas entre 1989 e 2007.
Ainda no contexto de produções brasileiras, destacamos a adaptação do clássico Sítio do Picapau Amarelo, criado por Monteiro Lobato, em 1920 e que, ao longo dos anos, recebeu diversas adaptações para o gênero textual dos quadrinhos, a mais recente sendo publicada em 2023, por Franco de Rosa14.
Destacamos também, algumas produções em quadrinhos estrangeiras, que são destinadas ao público infantil e distribuídas no Brasil: Calvin e Haroldo, de Bill Watterson, que são tiras que contam a história de um menino (Calvin) e seu amigo (Haroldo), um tigre de pelúcia; Garfield, de Jim Davis, que conta as histórias de um gato e seu dono (Jon); e por fim, o quadrinho latino americano Mafalda, do quadrinista argentino Quino, que conta as histórias e pensamentos da menina Mafalda.
Percebemos, a partir dessa breve pesquisa sobre as principais HQs que circulavam no Brasil, nacionais e internacionais, que esse gênero textual direcionado especificamente ao público infantil, construiu e constituiu nosso repertório simbólico enquanto indivíduos leitores na infância. Impossível não lembrar da passagem de alguns dos personagens mencionados acima e de como a associação das imagens com a linguagem escrita, própria desse gênero textual, contribuiu de forma positiva para a ampliação da capacidade leitora de milhares de crianças no país.
As Histórias em Quadrinhos Como Recurso Pedagógico na Alfabetização
O contato da criança com a leitura, seja por meio da interação com o material físico e/ou por meio da contação de histórias, ainda que não seja leitora fluente, auxilia em seu processo de alfabetização e letramento. A introdução dessa criança na linguagem escrita por meio da compreensão da função social de comunicação que a leitura cumpre na sociedade, “porque ler” e “porque escrever”, é de suma importância para garantir o sucesso do processo de ensino-aprendizagem nessa etapa da educação escolarizada. A compreensão do professor alfabetizador, de que a alfabetização é indissociável do letramento, facilita e potencializa o processo de aquisição do sistema convencional de escrita, inserindo a criança aos poucos em uma cultura letrada, e, consequentemente, contribuindo na formação de um futuro leitor.
De acordo com Passos e Vieira,
Desde muito cedo, as crianças já estão em contato com as letras, palavras, textos. Em uma sociedade centrada na cultura escrita, é necessário processar informações que nos chegam por meio de diferentes mídias: impressa, digital, televisiva, radiofônica, etc. É preciso, portanto, desenvolvermos habilidades de leitura para lidar com uma variedade de informações. Mas, a leitura por si só, não tem significado. A habilidade de interpretar tornou-se então essencial e este passou a ser um dos grandes objetivos da escola (Passos; Vieira, 2014, p. 2).
Portanto, é essencial para o desenvolvimento do leitor que a escola ofereça um bom processo de letramento alicerçado na alfabetização, para isso, deve promover o contato com diversos gêneros textuais, mostrando sua finalidade, forma como se estrutura e a linguagem nele contida, conteúdos estes, que estão previstos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Segundo o documento,
Nos dois primeiros anos do Ensino Fundamental, a ação pedagógica deve ter como foco a alfabetização, a fim de garantir amplas oportunidades para que os alunos se apropriem do sistema de escrita alfabética de modo articulado ao desenvolvimento de outras habilidades de leitura e de escrita e ao seu envolvimento em práticas diversificadas de letramentos (Brasil, 2018, p. 61).
A alfabetização é, sem dúvidas, uma das fases mais importantes da escolarização e, também, na vida do sujeito que aprende, pois trata-se da aquisição da tecnologia da escrita, que torna possível a codificação e decodificação de palavras e textos, bem como, a entrada no mundo da linguagem escrita. Esse processo, para Soares (2004a; 2004b) deve ocorrer simultaneamente ao processo de letramento, o que a autora chama de “alfaletrar” – prática que insere o indivíduo num contexto social mais abrangente, fazendo com que esse tenha acesso a formas de cultura e conhecimento, ampliando seu repertório simbólico.
Nesse processo de “alfaletrar”, na educação institucionalizada, diversos tipos de textos sociais são apresentados aos alunos nas escolas brasileiras, porém, um gênero textual que muitas vezes é marginalizado no processo da introdução da linguagem escrita são as Histórias em Quadrinhos, que, mesmo estando cada vez mais presentes nas páginas de livros didáticos, ainda têm seu uso muitas vezes limitado a pequenas tirinhas, demonstrando um contato muito curto da criança com esse gênero textual, limitando a formação do leitor por meio desse recurso.
Com a popularização dos quadrinhos e a mudança da visão de parte da sociedade sobre eles, este passou a ser cada vez mais pesquisado e debatido no meio educacional, o que é apontado por Gomes (2008) e Oliveira e Andrade (2022), porém, os mesmos autores apontam que as HQs, como recurso no processo de alfabetização, em uma perspectiva com maior enfoque no Letramento, ainda é pouco contemplada nessas novas pesquisas.
O consumo das HQs enquanto gênero textual passou por diversas fases ao longo do tempo. Segundo Vergueiro e Ramos (2009), as “[...] revistas em quadrinhos eram tidas como material que geravam ‘preguiça mental’ nos estudantes e que afastavam os alunos da chamada boa leitura” (Vergueiro; Ramos, 2009 apud Catunda, 2021, p. 140), porém, atualmente, a visão acadêmica sobre este gênero textual tem se alterado, passando a ser considerado um material rico, que pode ser estudado e utilizado para diversas áreas da educação, como um possível recurso pedagógico, que é apontado por Catunda (2021), como um material que pode auxiliar no aprendizado e ser um incentivo à leitura.
De acordo com que pontuam Santos e Ganzarolli (2011) quadrinhos é um recurso muito eficiente como incentivo à leitura contribuinte para a formação de leitores competentes. Ainda de acordo com as autoras o uso das HQ`s por vezes podem promover e incentivar a leitura em turmas de pré-escola, ajudando na alfabetização das crianças, tornando imagens associadas a linguagem falada dos balões compreendendo assim melhor a escrita e, consequentemente, aprendem a leitura com mais facilidade. Ademais esse recurso deve ser utilizado em conjunto com demais recursos de ensino e não somente de forma isolada (Oliveira; Andrade, 2022, p. 13).
Esse incentivo à leitura é algo fundamental, que vai para além do letramento, auxiliando também no processo da alfabetização e, por consequência impactando positivamente o desenvolvimento escolar da criança. O exercício da leitura leva a um contato maior com vocábulos antes desconhecidos pela criança, aumentando seu repertório linguístico e vocabular.
As HQs, como citado anteriormente, são constituídas por uma combinação da linguagem escrita e da linguagem visual, os desenhos, um elemento que traz ludicidade para o gênero devido as suas formas, cores e expressões bem demarcadas, podendo ser um atrativo para as crianças, ou seja, uma leitura que, por ser prazerosa pode ser tornar “leve” e repleta de significados. Essa união de elementos durante a leitura, além de capturar a atenção, oferece ao leitor uma interpretação mais assertiva do texto, pois fornece à ele mais formas para interpretar a história, o que facilita em um contexto de alfabetização, pois, no início da decodificação pela criança, podemos observar maior dificuldade na interpretação dos enunciados escritos.
Histórias em Quadrinhos voltadas para o público infantil, como o clássico brasileiro, “Turma da Mônica”, promovem identificação por parte das crianças, tendo como protagonistas centrais, personagens que também são crianças, assim como o foco em temáticas comuns do cotidiano infantil, mesmo que, por vezes, misture a esta realidade um toque fantasioso. O elemento da fantasia é algo positivo, pois traz ludicidade à história, que é um elemento fundamental para o aprendizado das crianças, e que conquista e captura a atenção das mesmas, estimulando também a sua criatividade (Iannone; Iannone, 1995).
A semelhança das situações narradas nas HQs, com as vivenciadas pela criança, traz uma identificação que faz com que a história tenha sentido para ela, e nesse sentido, a alfabetização, ainda que seja um processo sistemático de codificação e decodificação da língua, necessita dessa “raiz dinâmica” para sua atividade, pois as vivências do sujeito que lê conecta-o ao texto, gerando uma maior compreensão e prazer durante a leitura.
No que diz respeito a acusação da suposta “preguiça mental” gerada por esse gênero textual, muitos afirmavam que as HQs, por serem ilustradas, não estimulavam a imaginação, porém, isso se mostrou uma afirmação errônea, pois o uso da imaginação é estimulado durante a leitura dos quadrinhos, justamente pela presença das sarjetas, que espaçam uma imagem e outra e elucidam uma sequência de acontecimentos. A criatividade da criança nesse momento é estimulada para “interligar” os fatos da história contada, integrando as imagens à sua imaginação – estímulo das sequências (Iannone; Iannone, 1995).
Por ser um formato textual geralmente baseado em diálogos, as HQs têm como característica, a concreticidade da linguagem oral registrada por meio da linguagem escrita, aproximando essas linguagens presentes no cotidiano da criança por meio de figuras de linguagem como as interjeições. Os quadrinhos são uma ferramenta híbrida, que une escrita e figuras, auxiliando na interpretação da criança acerca dos acontecimentos presentes na história contada. Podem também ser usados como um recurso pedagógico de transição da linguagem oral para a linguagem escrita, por meio das onomatopéias presentes na narrativa, que representam os sons, demarcando uma das especificidades da alfabetização, a transcrição de fonemas na forma de grafemas, contribuindo na consciência fonológica.
O uso de HQs em sala de aula deve seguir uma intencionalidade, no caso da investigação proposta neste artigo, seria o incentivo a prática da leitura, assim como a inserção em uma cultura letrada por meio da alfabetização. Portanto, o professor alfabetizador que utiliza HQs para essa finalidade, precisa contextualizar seu uso, ensinando às crianças as especificidades desse recurso pedagógico, que possui estruturas comunicativas definidas por sua função social, conteúdo e estilo, e que, ainda que seja uma fonte de entretenimento, está inserido em um contexto escolar, logo, um gênero textual.
Segundo Catunda (2021, p. 141) “A utilização da leitura de gibis como um momento de relaxamento para os alunos, uma espécie de descanso no uso de materiais mais nobres, pode atingir resultados exatamente opostos aos pretendidos”, portanto, não pode ser um objeto limitado a leitura de entretenimento, ao final da aula, quando há um “tempo sobrando”, e sim, ser trabalhado em suas especificidades com as crianças, com um planejamento sério, recrutando-o como um recurso pedagógico.
Ainda, as HQs podem ser utilizadas como um recurso pedagógico multidisciplinar, integrando a prática da alfabetização e do letramento aos demais componentes curriculares. Por exemplo, com a seleção de algum quadrinho como, Angola Janga: uma História de Palmares, de Marcelo D’Salete, que problemtiza a história vivenciada no início do Quilombo dos Palmares, pode-se discutir a questão da cultura Afro-brasileira. Logo, a utilização das HQs em sala de aula pode ser variada, tendo uma infinidade de possibilidades, porém, “esse olhar” compete ao professor alfabetizador.
Por ser uma leitura leve, com uma linguagem simples e acessível, as HQs podem servir como “porta de entrada” das crianças no mundo da leitura, introduzindo-as em outros gêneros textuais, ou, apresentando-as aos quadrinhos mais complexos, que requerem maior conhecimento da linguagem escrita para sua compreensão. Sendo assim, compreendemos que as Histórias em Quadrinhos incentivam o hábito literário e aprimoram o nível alfabético e ortográfico do aluno nas áreas de leitura e escrita, a partir da ampliação em seu vocabulário e, concomitantemente, exercitando o letramento.
Portanto, constatamos que as Histórias em Quadrinhos são um material rico e que pode ser explorado e utilizado de diversas formas em sala de aula, sobretudo como um recurso pedagógico para a alfabetização na perspectiva do letramento, pois esse gênero textual, representa de forma lúdica um cotidiano próximo ao da criança que está sendo alfabetizada, com elementos presentes na vida real, o que traz um sentimento de identificação e pertencimento ao leitor. Somando-se a isso, nas HQs também estão presentes os elementos da ludicidade e da fantasia, que estimulam a criatividade, a capacidade de abstração e a captura da atenção do público infantil.
Tecendo Considerações Finais
O desenvolvimento da pesquisa, que resultou neste artigo, possibilitou a aproximação da história da alfabetização no Brasil com a história das Histórias em Quadrinhos enquanto gênero textual. Dois assuntos que convergiram para a elaboração da temática desenvolvida neste texto, cujo objetivo central era investigar, analisar e compreender como as Histórias em Quadrinhos poderiam se tornar um recurso pedagógico no processo de alfabetização e letramento de crianças nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, rompendo com a ideia de que esse gênero textual serve apenas como uma leitura de entretenimento.
Ao longo do desenvolvimento deste artigo, compreendemos que para desenvolver um trabalho de alfabetização com um gênero textual como as Histórias em Quadrinhos, faz-se necessário partir de uma concepção de linguagem e alfabetização que compreenda a aquisição da linguagem escrita atrelada, indissociavelmente, a prática social do uso da leitura e da escrita em sociedade. Ou seja, compreender a alfabetização e suas especificidades, bem como a valorização do letramento, uma vez que ambos, são necessários para a formação do bom leitor, fluente na codificação e decodificação, mas principalmente, fluente na leitura do mundo, pois como nos ensinou Paulo Freire (1989, p. 9), “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente”.
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1 Graduada em Pedagogia: Docência e Gestão Educacional pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Professora Colaboradora da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
3 Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
4 Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
5 Segundo Morais (2005, p. 32) “Diferentemente dos outros animais, nós, os seres humanos, temos uma capacidade cognitiva especial: a de produzir notações, marcas externas, símbolos registrados sobre superfícies, que atuam em substituição a objetos ou eventos do mundo real. É uma capacidade exclusiva de nossa espécie, que transmite às gerações seguintes os princípios de uso e habilidades para tratarmos a realidade através de sistemas simbólicos tão complexos como a notação alfabética, a notação numérica, a cartográfica e a musical”.
6 Famoso quadrinista americano, criador de obras como Um contrato com Deus e The spirit.
7 Empresário americano, dono de uma grande rede de jornais.
8 Foi um jornalista e editor naturalizado brasileiro de grande importância para a introdução das HQs no Brasil, sendo conhecido pelo apelido de “pai dos quadrinhos no Brasil”.
9 Publicado em 14 de março de 1934, no jornal A Nação, essas HQs introduziram no Brasil os quadrinhos de aventura norte-americanos, contribuindo para emergência da indústria de gibis no país.
10 Jornalista e empresário brasilero, proprietário do Grupo Globo entre 1925 e 2003.
11 Foi um grande cartunista e chargista brasileiro, conhecido por obras como “O Menino Maluquinho”.
12 Famoso quadrinista e empresário brasileiro, criador do clássico “Turma da Mônica”.
13 Premiação de Histórias em Quadrinhos concedida anualmente, de 1970 a 2005, na Itália, onde concorriam ao prêmio quadrinistas, chargistas e artistas do mundo todo. A premiação recebeu esse nome em homenagem ao personagem Mickey Dugan, conhecido como Yellow Kid, das clássicas tiras Hogan's Alley, produzidas por Richard Felton Outcault.
14 Francisco Paulo Amaral de Rosa, conhecido por Franco de Rosa é um jornalista, editor e quadrinista brasileiro, criador de obras como “Festa no céu” e “Vitória-Régia”.