HESITAÇÃO VACINAL FRENTE À VACINA CONTRA A DENGUE NO BRASIL: DESAFIOS PARA A ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA E PARA A SAÚDE PÚBLICA

VACCINE HESITANCY REGARDING THE DENGUE VACCINE IN BRAZIL: CHALLENGES FOR THE FAMILY HEALTH STRATEGY AND PUBLIC HEALTH

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784585719

RESUMO
Objetivo: Analisar as evidências científicas acerca da hesitação vacinal frente à vacina contra a dengue no Brasil, identificando seus principais fatores determinantes e os desafios para a Estratégia Saúde da Família (ESF) e para a saúde pública. Metodologia: Revisão integrativa da literatura realizada de forma sistemática nas bases de dados PubMed/MEDLINE, SciELO, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Web of Science e Scopus, contemplando publicações entre os anos de 2023 e 2026. A estratégia de busca foi construída a partir de descritores controlados dos Medical Subject Headings (MeSH) e dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), combinados por operadores booleanos, resultando em uma amostra final de 24 estudos elegíveis para a síntese das evidências. Resultados e Discussão: Os estudos demonstraram que a hesitação vacinal frente à vacina contra a dengue é influenciada por fatores relacionados à confiança nos imunizantes, percepção do risco da doença, receio de eventos adversos, disseminação de desinformação, limitações na comunicação em saúde e dificuldades de acesso aos serviços de vacinação. Evidenciou-se que a atuação da Estratégia Saúde da Família, especialmente por meio da educação em saúde, da recomendação qualificada dos profissionais e da atuação dos Agentes Comunitários de Saúde, constitui importante estratégia para ampliar a aceitação vacinal. Entretanto, persistem desafios relacionados às desigualdades territoriais, à necessidade de capacitação permanente das equipes e ao fortalecimento das campanhas de comunicação baseadas em evidências. Conclusão: A hesitação vacinal representa um obstáculo relevante para o sucesso das estratégias de prevenção da dengue no Brasil. O fortalecimento da Atenção Primária à Saúde, associado à implementação de ações educativas, combate à desinformação e ampliação do acesso à vacinação, mostra-se essencial para aumentar a cobertura vacinal e potencializar o impacto das políticas públicas de controle da dengue.
Palavras-chave: Dengue; Vacinas contra dengue; Hesitação vacinal; Estratégia Saúde da Família; Saúde Pública.

ABSTRACT
Objective: To analyze scientific evidence regarding vaccine hesitancy concerning the dengue vaccine in Brazil, identifying key determinants and challenges for the Family Health Strategy (ESF) and public health. Methodology: An integrative literature review was systematically conducted using the PubMed/MEDLINE, SciELO, Virtual Health Library (VHL/BVS), Web of Science, and Scopus databases, covering publications from 2023 to 2026. The search strategy utilized controlled descriptors from Medical Subject Headings (MeSH) and Health Sciences Descriptors (DeCS) combined with Boolean operators, resulting in a final sample of 24 studies eligible for evidence synthesis. Results and Discussion: Studies demonstrated that hesitancy regarding the dengue vaccine is influenced by factors such as trust in the vaccines, perception of disease risk, fear of adverse events, the spread of misinformation, limitations in health communication, and barriers to accessing vaccination services. The role of the Family Health Strategy—particularly through health education, informed recommendations by professionals, and the work of Community Health Agents—was shown to be a crucial strategy for increasing vaccine acceptance. However, challenges persist regarding territorial inequalities, the need for continuous team training, and the strengthening of evidence-based communication campaigns. Conclusion: Vaccine hesitancy poses a significant obstacle to the success of dengue prevention strategies in Brazil. Strengthening Primary Health Care—combined with the implementation of educational initiatives, efforts to combat misinformation, and expanded access to vaccination—is essential for increasing vaccine coverage and maximizing the impact of public policies aimed at controlling dengue.
Keywords: Dengue; Dengue vaccines; Vaccine hesitancy; Family Health Strategy; Public health.

1. INTRODUÇÃO

A dengue permanece como uma das principais arboviroses de impacto mundial, configurando importante problema de saúde pública em países tropicais, especialmente no Brasil, onde a elevada circulação viral, a expansão do vetor Aedes aegypti e a ocorrência de epidemias sucessivas resultam em expressiva morbimortalidade e sobrecarga dos serviços de saúde. Nesse cenário, a incorporação da vacina contra a dengue representa um avanço estratégico para a prevenção da doença, complementando as ações tradicionais de vigilância epidemiológica e controle vetorial. Entretanto, a efetividade dessa medida depende da elevada adesão da população aos programas de imunização, tornando a hesitação vacinal um desafio crescente para o Sistema Único de Saúde (SUS) e para a Estratégia Saúde da Família (ESF), principal porta de entrada das ações de promoção e prevenção em saúde (Scott et al., 2023; Charoenwisedsil et al., 2025).

A hesitação vacinal caracteriza-se pelo atraso ou recusa da vacinação, mesmo quando os imunizantes estão disponíveis, sendo influenciada por fatores relacionados à confiança, complacência e conveniência, além da disseminação de desinformação e da percepção dos riscos associados às vacinas. No contexto da vacinação contra a dengue, esse fenômeno apresenta características particulares, decorrentes das discussões sobre eficácia, segurança, critérios de indicação e comunicação de eventos adversos, fatores que repercutem diretamente na decisão da população em aceitar o imunizante. Evidências demonstram que percepções equivocadas, experiências prévias e o acesso a informações não confiáveis contribuem significativamente para o aumento da insegurança vacinal, comprometendo o alcance das coberturas esperadas (Cunha; Freitas; Vaz Junior, 2024; Charoenwisedsil et al., 2025; Scott et al., 2023).

No Brasil, estudos recentes apontam que a hesitação vacinal ultrapassa o contexto da dengue e reflete uma tendência observada em diferentes programas de imunização, influenciada por fatores socioculturais, políticos e comunicacionais. A divulgação de sinais de segurança relacionados à vacinação contra a dengue, por exemplo, demonstrou impacto negativo na cobertura vacinal entre adolescentes, reforçando a importância de estratégias de comunicação baseadas em evidências e da atuação dos profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) na reconstrução da confiança da população. Além disso, pesquisas qualitativas evidenciam que dúvidas sobre segurança, eficácia e necessidade das vacinas permanecem entre pais, responsáveis e demais grupos populacionais, favorecendo a redução das coberturas vacinais e o recrudescimento de doenças imunopreveníveis (Percio et al., 2026; De Sousa; Furtado, 2024; De Souza Amorim Matos et al., 2024; Lopes et al., 2023).

Diante desse contexto, a ESF assume papel fundamental na identificação dos determinantes da hesitação vacinal, no fortalecimento da educação em saúde e na promoção da confiança nos imunizantes, por meio de ações contínuas de orientação, busca ativa e comunicação qualificada junto às comunidades. Considerando a recente incorporação da vacina contra a dengue ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) e os desafios relacionados à sua aceitação, torna-se relevante sintetizar as evidências disponíveis sobre os fatores associados à hesitação vacinal e suas implicações para o SUS. Assim, esta revisão integrativa tem como objetivo analisar a produção científica acerca da hesitação vacinal frente à vacina contra a dengue no Brasil, destacando seus determinantes, impactos e os desafios enfrentados pela ESF para ampliar a cobertura vacinal e fortalecer as ações de prevenção da dengue.

A vacinação contra a dengue insere-se em um contexto epidemiológico complexo, marcado pela cocirculação de diferentes sorotipos do vírus, pelo aumento da incidência de casos graves e pelas mudanças no perfil epidemiológico da doença observadas nos últimos anos. Nesse cenário, a imunização representa uma importante estratégia de redução da morbidade, hospitalizações e óbitos, especialmente entre os grupos prioritários definidos pelas autoridades sanitárias. No entanto, o sucesso dessa intervenção depende não apenas da disponibilidade do imunizante, mas também da compreensão da população acerca de seus benefícios, limitações e indicações, evidenciando a necessidade de ações permanentes de educação em saúde desenvolvidas pela Atenção Primária à Saúde. A atuação integrada entre vigilância epidemiológica, equipes da Estratégia Saúde da Família e gestores torna-se essencial para fortalecer a confiança nas vacinas e ampliar a adesão aos programas de imunização (Scott et al., 2023; Cunha; Freitas; Vaz Junior, 2024).

Outro aspecto relevante refere-se ao impacto das mídias digitais e das redes sociais na construção das percepções sobre a vacinação. A rápida disseminação de informações falsas ou distorcidas acerca da segurança, eficácia e possíveis eventos adversos da vacina contra a dengue favorece o surgimento de dúvidas e receios entre a população, influenciando diretamente a tomada de decisão vacinal. Esse fenômeno exige que os profissionais de saúde adotem estratégias de comunicação baseadas em evidências científicas, utilizando linguagem acessível e fortalecendo o diálogo com os usuários, de modo a combater a desinformação e promover maior alfabetização em saúde. Assim, a comunicação qualificada configura-se como um dos principais instrumentos para enfrentar a hesitação vacinal e fortalecer a credibilidade do Programa Nacional de Imunizações (De Sousa; Furtado, 2024; Lopes et al., 2023).

Além dos fatores relacionados à informação, aspectos socioeconômicos e organizacionais também influenciam a adesão à vacinação contra a dengue. Barreiras como dificuldades de acesso aos serviços de saúde, horários limitados de funcionamento das unidades, desigualdades territoriais e insuficiência de campanhas educativas podem comprometer a cobertura vacinal, sobretudo em populações socialmente vulneráveis. Nesse contexto, a Estratégia Saúde da Família desempenha papel estratégico ao desenvolver ações de busca ativa, visitas domiciliares e acompanhamento contínuo das famílias, possibilitando a identificação precoce dos indivíduos não vacinados e a implementação de intervenções direcionadas para reduzir as iniquidades no acesso à imunização (Percio et al., 2026; De Souza Amorim Matos et al., 2024).

Dessa forma, compreender os múltiplos fatores que permeiam a hesitação vacinal frente à vacina contra a dengue torna-se indispensável para subsidiar políticas públicas mais efetivas e fortalecer as ações desenvolvidas no âmbito do SUS. A produção de evidências científicas sobre os determinantes da aceitação vacinal contribui para o planejamento de estratégias intersetoriais que envolvam educação em saúde, comunicação social, qualificação dos profissionais e participação comunitária. Nesse sentido, ampliar o conhecimento sobre esse fenômeno possibilita o desenvolvimento de intervenções capazes de elevar as coberturas vacinais, reduzir a transmissão da dengue e consolidar a vacinação como uma das principais ferramentas de prevenção e proteção da saúde coletiva no Brasil (Charoenwisedsil et al., 2025; Scott et al., 2023; Percio et al., 2026).

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A hesitação vacinal é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos principais desafios para os programas de imunização, sendo caracterizada pelo atraso ou recusa da vacinação mesmo diante da disponibilidade dos imunizantes. Esse fenômeno resulta da interação entre fatores individuais, sociais, culturais e institucionais, incluindo a confiança nas vacinas, nos profissionais de saúde e nas políticas públicas. No Brasil, pesquisas recentes demonstram que a hesitação vacinal parental permanece presente e influencia diretamente a adesão aos calendários vacinais, evidenciando que crenças, experiências prévias e o acesso a informações confiáveis constituem determinantes importantes para a decisão de vacinar no SUS (Nascimento et al., 2025; Júnior et al., 2024).

No contexto da dengue, a hesitação vacinal apresenta características específicas relacionadas às particularidades epidemiológicas da doença e ao histórico de desenvolvimento das vacinas disponíveis. Aspectos como dúvidas sobre eficácia, receio de eventos adversos, critérios de elegibilidade, desconhecimento sobre os benefícios da imunização e baixa percepção do risco da doença figuram entre os principais fatores que limitam a aceitação da vacina. Além disso, países de baixa e média renda enfrentam obstáculos adicionais, como desigualdades no acesso aos serviços de saúde, dificuldades logísticas, limitações na oferta de imunizantes e fragilidade das estratégias de comunicação, comprometendo a ampliação das coberturas vacinais (Santi et al., 2025; Vadibeler et al., 2026).

A disseminação de desinformação e o fortalecimento do negacionismo científico representam fatores determinantes para o aumento da hesitação vacinal. Durante a epidemia de dengue de 2024 no Brasil, a circulação de informações falsas sobre a doença e sobre a segurança das vacinas intensificou a desconfiança da população, favorecendo a propagação de conteúdos sem respaldo científico nas redes sociais. Esse cenário evidencia a necessidade de fortalecer estratégias de comunicação em saúde baseadas em evidências, capazes de combater a desinformação e ampliar a confiança nas recomendações emitidas pelas autoridades sanitárias e pelos profissionais da APS (Silva, 2025; Júnior et al., 2024).

A ESF desempenha papel central no enfrentamento da hesitação vacinal, sobretudo pela atuação multiprofissional e pela proximidade com as comunidades. Nesse contexto, os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) constituem importantes mediadores entre os serviços de saúde e a população, contribuindo para identificar dúvidas, reconhecer barreiras ao acesso e desenvolver ações educativas voltadas à promoção da vacinação. Evidências recentes demonstram que a atuação dos ACS favorece o esclarecimento de informações, fortalece o vínculo com os usuários e auxilia na redução da resistência à vacina contra a dengue, especialmente em populações mais vulneráveis (Petean et al., 2025).

Além da atuação das equipes da APS, a implementação de estratégias intersetoriais pode ampliar significativamente a adesão às campanhas de vacinação. Estudos apontam que programas de vacinação em ambiente escolar apresentam elevada aceitação pelos cuidadores quando acompanhados de informações claras, comunicação transparente e participação ativa das famílias, constituindo uma alternativa para aumentar as coberturas vacinais entre crianças e adolescentes. Dessa forma, o enfrentamento da hesitação vacinal frente à vacina contra a dengue exige ações integradas entre os serviços de saúde, instituições de ensino, gestores públicos e sociedade civil, visando fortalecer a confiança nas vacinas e consolidar uma cultura de prevenção das arboviroses no Brasil (Barberia et al., 2025; Vadibeler et al., 2026).

3. METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, desenvolvida por meio de um processo sistemático, criterioso e abrangente de identificação, seleção, avaliação crítica e síntese das evidências científicas disponíveis acerca da hesitação vacinal frente à vacina contra a dengue no Brasil e seus impactos para a ESF e para o SUS. A revisão foi estruturada conforme as etapas metodológicas clássicas desse delineamento, compreendendo: definição do tema e da questão norteadora, estabelecimento dos critérios de elegibilidade, elaboração da estratégia de busca, seleção dos estudos, extração e organização dos dados, análise crítica das evidências e síntese dos resultados. A escolha por esse método fundamenta-se na capacidade da revisão integrativa de reunir estudos com diferentes delineamentos metodológicos, permitindo uma compreensão ampla e multidimensional do fenômeno investigado.

Para a delimitação do problema de pesquisa empregou-se a estratégia PICo (População, Fenômeno de Interesse e Contexto). A População correspondeu aos indivíduos elegíveis para vacinação contra a dengue, profissionais da APS e gestores envolvidos nas ações de imunização; o Fenômeno de Interesse consistiu na hesitação vacinal relacionada à vacina contra a dengue, incluindo seus fatores determinantes, barreiras e impactos sobre a cobertura vacinal; e o Contexto compreendeu a ESF, a APS e as políticas públicas de imunização desenvolvidas no âmbito do SUS. A partir dessa estrutura, definiu-se a seguinte questão norteadora: "Quais são as evidências científicas publicadas entre 2023 e 2026 acerca dos fatores associados à hesitação vacinal frente à vacina contra a dengue e quais os principais desafios para a Estratégia Saúde da Família e para a saúde pública brasileira?".

A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados National Library of Medicine (PubMed/MEDLINE), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Web of Science e Scopus, por serem reconhecidas internacionalmente pela elevada qualidade metodológica das publicações na área da saúde. Complementarmente, foram consultados periódicos especializados em imunização, infectologia, saúde coletiva e saúde pública, buscando ampliar a abrangência da revisão e reduzir possíveis vieses de seleção.

A estratégia de busca foi construída utilizando descritores controlados dos Medical Subject Headings (MeSH) e dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), associados a palavras-chave livres e combinados pelos operadores booleanos “AND” e “OR”. A estratégia principal empregada foi estruturada da seguinte forma: (Dengue Vaccines OR Dengue Vaccine OR TAK-003) AND (Vaccine Hesitancy OR Vaccination Refusal OR Vaccination Coverage OR Immunization Programs) AND (Primary Health Care OR Family Health Strategy OR Public Health OR Brazil). As estratégias foram adaptadas conforme as especificidades de indexação de cada base consultada.

Os critérios de inclusão contemplaram artigos originais, revisões sistemáticas, revisões integrativas, estudos observacionais, pesquisas qualitativas, estudos transversais, métodos mistos e capítulos de livros publicados entre os anos de 2023 e 2026, disponíveis integralmente nos idiomas português, inglês ou espanhol. Foram incluídas exclusivamente publicações que abordassem a vacina contra a dengue, hesitação vacinal, aceitação da vacinação, cobertura vacinal, barreiras ao acesso, fatores comportamentais, atuação da Atenção Primária à Saúde, Estratégia Saúde da Família ou políticas públicas de imunização. Excluíram-se editoriais, cartas ao editor, opiniões, resumos de eventos científicos, duplicatas entre as bases de dados, estudos sem acesso ao texto completo e publicações que abordassem exclusivamente aspectos laboratoriais, imunológicos ou farmacológicos da vacina, sem discutir sua aceitação ou implementação nos serviços de saúde.

A seleção dos estudos foi realizada em duas etapas independentes por dois revisores. Inicialmente procedeu-se à leitura dos títulos e resumos para identificação dos estudos potencialmente elegíveis. Posteriormente, os artigos selecionados foram analisados na íntegra para confirmação dos critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos. As divergências entre os revisores foram solucionadas por consenso após reavaliação conjunta dos manuscritos, assegurando maior rigor metodológico durante o processo de seleção.

Ao término do processo de elegibilidade, 24 estudos científicos atenderam integralmente aos critérios estabelecidos e compuseram a amostra final desta revisão integrativa. As informações foram extraídas por meio de uma matriz padronizada contendo autoria, ano de publicação, país de realização, delineamento metodológico, população estudada, fatores associados à hesitação vacinal, barreiras para aceitação da vacina contra a dengue, estratégias propostas para aumento da cobertura vacinal, principais resultados e implicações para a Estratégia Saúde da Família e para a saúde pública. A análise integrada dessas evidências permitiu identificar os principais determinantes da hesitação vacinal, bem como discutir estratégias capazes de fortalecer as ações de imunização e ampliar a adesão da população à vacina contra a dengue no contexto brasileiro.

Tabela 1. Síntese das etapas metodológicas da revisão integrativa da literatura

Etapa

Descrição

Tipo de estudo

Revisão integrativa da literatura, conduzida de forma sistemática para identificar, selecionar, analisar criticamente e sintetizar evidências científicas sobre a hesitação vacinal frente à vacina contra a dengue no Brasil.

Questão norteadora

Quais são as evidências científicas publicadas entre 2023 e 2026 acerca dos fatores associados à hesitação vacinal frente à vacina contra a dengue e quais os principais desafios para a Estratégia Saúde da Família e para a saúde pública brasileira?

Estratégia metodológica

Utilização da estratégia PICo (População, Fenômeno de Interesse e Contexto).

População (P)

Indivíduos elegíveis para vacinação contra a dengue, profissionais da Atenção Primária à Saúde e gestores envolvidos nas ações de imunização.

Fenômeno de Interesse (I)

Hesitação vacinal relacionada à vacina contra a dengue, incluindo fatores determinantes, barreiras e impactos sobre a cobertura vacinal.

Contexto (Co)

Estratégia Saúde da Família, Atenção Primária à Saúde e Sistema Único de Saúde.

Bases de dados

PubMed/MEDLINE, SciELO, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Web of Science e Scopus.

Estratégia de busca

Descritores MeSH e DeCS associados por operadores booleanos AND e OR: (Dengue Vaccines OR Dengue Vaccine OR TAK-003) AND (Vaccine Hesitancy OR Vaccination Refusal OR Vaccination Coverage OR Immunization Programs) AND (Primary Health Care OR Family Health Strategy OR Public Health OR Brazil).

Critérios de inclusão

Artigos originais, revisões sistemáticas, revisões integrativas, estudos observacionais, qualitativos, transversais, métodos mistos e capítulos de livros publicados entre 2023 e 2026, disponíveis na íntegra nos idiomas português, inglês ou espanhol, abordando vacinação contra a dengue, hesitação vacinal, cobertura vacinal, Atenção Primária à Saúde, Estratégia Saúde da Família e políticas públicas de imunização.

Critérios de exclusão

Editoriais, cartas ao editor, opiniões, resumos de eventos científicos, duplicatas, estudos sem acesso ao texto completo e publicações centradas exclusivamente em aspectos laboratoriais, imunológicos ou farmacológicos da vacina, sem abordar sua aceitação ou implementação.

Processo de seleção

Leitura dos títulos e resumos, seguida da avaliação dos textos completos por dois revisores independentes, com resolução das divergências por consenso.

Amostra final

24 estudos científicos selecionados após aplicação dos critérios de elegibilidade.

Extração dos dados

Matriz padronizada contendo autoria, ano, país, delineamento metodológico, população estudada, fatores associados à hesitação vacinal, barreiras, estratégias para ampliação da cobertura vacinal, principais resultados e implicações para a ESF e para o SUS.

Análise dos dados

Análise crítica e síntese integrativa das evidências científicas, identificando os principais determinantes da hesitação vacinal e estratégias para fortalecimento da imunização.

Fonte: Elaborado pelos autores (2026).

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise dos estudos evidenciou que a hesitação vacinal frente à vacina contra a dengue constitui um fenômeno multifatorial, influenciado por aspectos individuais, sociais, estruturais e institucionais. Apesar dos avanços obtidos pelo PNI, a incorporação de novas vacinas ainda enfrenta desafios relacionados à construção da confiança da população, à comunicação de riscos e à implementação de políticas públicas sustentáveis. Nesse contexto, a vacinação contra a dengue exige estratégias que conciliem inovação tecnológica, acesso equitativo e fortalecimento das ações de educação em saúde, considerando as particularidades epidemiológicas e socioeconômicas das diferentes regiões brasileiras (De Menezes; Borges, 2024).

Os estudos analisados demonstraram que a aceitabilidade da vacina está diretamente associada ao conhecimento da população acerca da dengue, da gravidade da doença e dos benefícios da imunização. Pesquisas realizadas em países endêmicos da América Latina evidenciaram que indivíduos com maior compreensão sobre formas de transmissão, prevenção e complicações clínicas apresentaram maior predisposição para receber a vacina. Em contrapartida, dúvidas relacionadas à eficácia, segurança, duração da proteção e possíveis eventos adversos foram apontadas como importantes fatores para a recusa vacinal, indicando que a percepção de risco exerce influência significativa sobre a decisão de vacinar (Cañari-Casaño et al., 2026; Ortega et al., 2025; Shafie et al., 2023).

Outro aspecto recorrente refere-se ao papel dos profissionais de saúde na recomendação da vacina. Os estudos apontaram que médicos, enfermeiros e demais trabalhadores da APS constituem a principal fonte de informação confiável para a população, influenciando positivamente a aceitação vacinal quando apresentam conhecimento atualizado e segurança na orientação dos usuários. Entretanto, foram identificadas lacunas relacionadas ao conhecimento sobre indicações, esquemas vacinais e critérios de elegibilidade, evidenciando a necessidade de programas permanentes de capacitação profissional para fortalecer a comunicação e ampliar a confiança nas estratégias de imunização (López-Medina; Di Pasquale; Green, 2026; Green; Di Pasquale; Lopez-Medina, 2026).

Os resultados também evidenciaram que fatores estruturais representam importantes barreiras para o aumento das coberturas vacinais. Limitações relacionadas à disponibilidade dos imunizantes, dificuldades de acesso aos serviços de saúde, desigualdades territoriais e fragilidades logísticas comprometem a efetividade das campanhas de vacinação, principalmente em populações residentes em áreas rurais, comunidades ribeirinhas e regiões de difícil acesso. Estudos conduzidos na Amazônia brasileira demonstraram que a atuação dos profissionais da APS, associada ao uso de tecnologias sociais e estratégias adaptadas às características locais, contribui significativamente para reduzir essas desigualdades e ampliar o acesso às vacinas (De Lima et al., 2025).

Outro achado relevante refere-se à necessidade de integrar a vacinação às demais medidas de controle da dengue. A literatura demonstra que a imunização não deve ser compreendida como estratégia isolada, mas como componente de um conjunto de intervenções envolvendo vigilância epidemiológica, controle vetorial, educação em saúde, saneamento básico e mobilização comunitária. Modelos epidemiológicos aplicados ao município de Dourados, Mato Grosso do Sul, indicam que a utilização da vacina TAK-003, quando associada às estratégias tradicionais de enfrentamento da doença, apresenta potencial para reduzir significativamente a incidência de casos e otimizar os resultados das políticas públicas de controle das arboviroses (Ghezzi et al., 2025; Côrtes et al., 2023).

Os estudos internacionais também revelaram que fatores comportamentais, culturais e contextuais influenciam significativamente a adesão à vacina contra a dengue. Entre os principais determinantes destacam-se a confiança nas autoridades sanitárias, a percepção da efetividade da vacina, recomendações de profissionais de saúde, experiências anteriores com programas de imunização e influência das redes sociais. Esses achados reforçam que intervenções focadas exclusivamente na oferta do imunizante são insuficientes para alcançar elevadas coberturas vacinais, sendo indispensável investir em estratégias permanentes de comunicação em saúde, combate à desinformação e fortalecimento do vínculo entre os serviços de saúde e a população (Charoenwisedsil et al., 2026; Cañari-Casaño et al., 2026; Shafie et al., 2023).

De maneira geral, os resultados desta revisão demonstram que a hesitação vacinal frente à vacina contra a dengue representa um desafio complexo para a Estratégia Saúde da Família e para a saúde pública brasileira. O enfrentamento desse fenômeno requer ações articuladas entre gestores, profissionais de saúde, instituições de ensino e comunidade, contemplando educação em saúde baseada em evidências, qualificação permanente das equipes, fortalecimento das campanhas de comunicação e garantia do acesso equitativo aos imunizantes. Dessa forma, a ampliação da cobertura vacinal dependerá não apenas da disponibilidade da vacina, mas também da construção de confiança social e do fortalecimento das políticas públicas de imunização, fundamentais para reduzir a carga da dengue e promover maior proteção coletiva.

Além dos fatores individuais e estruturais, os estudos evidenciaram que a confiança institucional exerce papel decisivo na aceitação da vacina contra a dengue. A credibilidade atribuída ao Sistema Único de Saúde, ao Programa Nacional de Imunizações e aos órgãos responsáveis pela vigilância sanitária influencia diretamente a percepção de segurança da população em relação aos imunizantes. Quando as informações são transmitidas de forma clara, transparente e baseada em evidências científicas, observa-se maior adesão às campanhas vacinais. Em contrapartida, mensagens contraditórias, divulgação inadequada de eventos adversos e falhas na comunicação institucional favorecem o fortalecimento da hesitação vacinal e reduzem a confiança nas estratégias de imunização (Percio et al., 2026; Scott et al., 2023).

Os estudos também destacaram a relevância das ações desenvolvidas pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) no enfrentamento da hesitação vacinal. Por meio das visitas domiciliares, do acompanhamento longitudinal das famílias e do conhecimento das características socioculturais dos territórios, esses profissionais contribuem para identificar precocemente indivíduos não vacinados, esclarecer dúvidas e combater informações equivocadas disseminadas na comunidade. A proximidade estabelecida entre os ACS e a população favorece o fortalecimento do vínculo com os serviços de saúde, tornando a Estratégia Saúde da Família um importante espaço para promoção da confiança, educação em saúde e ampliação das coberturas vacinais (De Sousa; Furtado, 2024; Lopes et al., 2023).

Outro aspecto observado refere-se à necessidade de monitoramento contínuo das coberturas vacinais e dos indicadores epidemiológicos relacionados à dengue. A utilização de sistemas de informação em saúde permite identificar áreas com baixa adesão à vacinação, direcionar campanhas educativas e subsidiar o planejamento de intervenções mais eficientes pelos gestores municipais. Além disso, o acompanhamento sistemático dos indicadores possibilita avaliar o impacto das estratégias implementadas, contribuindo para o aperfeiçoamento das políticas públicas e para a adoção de medidas oportunas diante de mudanças no comportamento epidemiológico da doença (De Menezes; Borges, 2024; Ghezzi et al., 2025).

Por fim, as evidências analisadas demonstram que o enfrentamento da hesitação vacinal requer uma abordagem intersetorial, envolvendo os setores da saúde, educação, comunicação e assistência social. A implementação de campanhas educativas permanentes, associadas ao fortalecimento da alfabetização em saúde, ao uso responsável das mídias digitais e à participação ativa da comunidade, representa uma estratégia promissora para ampliar a confiança da população na vacinação contra a dengue. Nesse contexto, a atuação integrada entre gestores, profissionais da Atenção Primária à Saúde, instituições de ensino e lideranças comunitárias mostra-se essencial para consolidar uma cultura de valorização da imunização, reduzir desigualdades no acesso às vacinas e fortalecer a capacidade de resposta do SUS frente às arboviroses (Charoenwisedsil et al., 2026; Cañari-Casaño et al., 2026; Green; Di Pasquale; Lopez-Medina, 2026).

5. CONCLUSÃO

Os achados desta revisão integrativa evidenciam que a hesitação vacinal frente à vacina contra a dengue representa um importante desafio para a saúde pública brasileira, sendo influenciada por fatores relacionados à confiança nos imunizantes, à disseminação de desinformação, à percepção do risco da doença e às barreiras de acesso aos serviços de saúde. Observou-se que a baixa aceitação da vacina pode comprometer a efetividade das estratégias de prevenção da dengue, especialmente em um cenário de elevada circulação viral e recorrência de epidemias. Nesse contexto, a Estratégia Saúde da Família destaca-se como elemento essencial para o fortalecimento das ações de educação em saúde, da comunicação baseada em evidências e da aproximação entre os serviços de saúde e a comunidade.

Dessa forma, conclui-se que o enfrentamento da hesitação vacinal exige a implementação de políticas públicas integradas que contemplem a qualificação permanente dos profissionais da Atenção Primária, o fortalecimento das campanhas de comunicação, o combate à desinformação e a ampliação do acesso equitativo à vacinação. Além disso, torna-se necessário incentivar novas pesquisas que avaliem os fatores associados à aceitação da vacina contra a dengue em diferentes contextos brasileiros, subsidiando estratégias mais efetivas para o aumento da cobertura vacinal e para a redução da morbimortalidade causada pela doença.

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1 Especialista em Epidemiologia e Vigilância em Saúde pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) Campus Teresina. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário Santa Maria (UNIFSM) Campus Cajazeiras. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Farmacêutica Especialista em Farmácia Clínica Direcionada à Prescrição Farmacêutica pela Universidade Faculeste Campus Coronel Fabriciano. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Discente do Curso Superior de Enfermagem da Faculdade 05 de Julho (F5) Campus Sobral. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

5 Acadêmica de Farmácia pelo Centro Universitário INTA (UNINTA) Campus Sobral. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

6 Acadêmico de Medicina pela UniAtenas Paracatu Campus Paracatu. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

7 Acadêmica de Farmácia pelo Centro Universitário INTA (UNINTA) Campus Sobral. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

8 Médica Clínica. Pós-graduada em Medicina de Família e Comunidade pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Graduada pela Universidad Internacional Tres Fronteras (UNINTER)/Universidade Estadual de Londrina (UEL) Campus Londrina. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

9 Acadêmico de Farmácia pelo Centro Universitário INTA (UNINTA) Campus Sobral. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

10 Mestrando em Avaliação de Políticas Públicas pela Universidade Federal do Ceará (UFC) Campus Fortaleza. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

11 Mestre em Ciências pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) Campus Petrolina. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

12 Acadêmico em Farmácia pelo Centro Universitário Inta – UNINTA Campus Sobral. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

13 Acadêmica do Curso de Farmácia, Centro Universitário Uninta, E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

14 Acadêmico de Farmácia pelo Centro Universitário INTA (UNINTA) Campus Sobral. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

15 Doutora em Enfermagem Fundamental pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) Campus Coroatá. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

16 Professora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) Campus Teresina. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail