GEOGRAFIAS ANTIRRACISTAS: A EXPERIÊNCIA DO “FÓRUM DE NEGRAS, NEGROS E NEGRES” DA GEOGRAFIA DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ (UECE) E SEUS IMPACTOS

ANTIRACIST GEOGRAPHIES: THE EXPERIENCE OF THE ‘FORUM OF BLACK WOMEN, MEN AND NON-BINARY PEOPLE’ IN GEOGRAPHY AT THE STATE UNIVERSITY OF CEARÁ (UECE) AND THEIR IMPACTS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/788968652

RESUMO
A estrutura acadêmica ainda se perpetua como elitizada e racista em suas diversas dimensões, seja na composição étnica e racial do corpo discente, que pelo histórico resultado da segregação socioespacial e do racismo estrutural, suprimiu a presença dos corpos negros dentro das Universidades, quanto pela escolha temática de inúmeros docentes, que em diversas ocasiões não incluem nos currículos disciplinares, temáticas como África, Geografias Negras, Quilombolas e Indígenas. Nesta perspectiva surge esta pesquisa, tendo por objetivo geral, analisar como a organização e a trajetória do “Fórum de Negras, Negros e Negres” influenciou na experiência de estudantes racializados do curso de Geografia da Universidade Estadual do Ceará (UECE), em suas modalidades bacharelado e licenciatura. Os resultados, colhidos por meio da aplicação de formulário via "Google Forms", apontaram que houve uma influência positiva e direta na dinâmica acadêmica das e dos estudantes racializados.
Palavras-chave: Geografias Negras; Antirracismo; UECE.

ABSTRACT
The academic structure still appears to be elitist and racist in various respects, whether in terms of the ethnic and racial composition of the student body – which, as a historical consequence of socio-spatial segregation and structural racism, has suppressed the presence of Black people within universities – or through the subject choices of numerous lecturers, who on numerous occasions fail to include topics such as Africa, Black Geographies, Quilombolas and Indigenous peoples in their course syllabuses. It is against this backdrop that this article emerges, with the overarching aim of analysing how the organisation and trajectories of the ‘Forum for Black Women, Black Men and Black People’ influenced the experience of racialised students on the Geography course at the State University of Ceará (UECE), in both its bachelor’s and teacher-training programmes. The results, collected via ‘Google Forms’, indicate that there was a direct positive influence on the academic dynamics of racialised students.
Keywords: Black Geographies; Antiracism; UECE.

1. INTRODUÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

“Se wo were fi no wa sankofa a yenkyi”, “nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou atrás”. A partir desta sabedoria, presente em Sankofa, da Filosofia Adinkra6, que iniciamos este trabalho, compreendendo a importância de olhar para o passado para entender nosso presente e assim, projetar nosso futuro.

Nesta perspectiva, retornamos ao ano de 2019, mais precisamente no mês de julho, quando surge a proposta de organização de uma chapa para disputar o Centro Acadêmico Autônomo de Geografia (CAAGEO) da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Na ocasião, a ideia central seria que, houvesse somente integrantes negras, negros e negres7 em sua composição, tendo em vista um acumulado político e teórico da compreensão acerca da ocupação de pessoas pretas em espaços de poder e decisão.

Após algumas semanas de reuniões e formações políticas, nasceu em agosto do mesmo ano, a chapa “Por uma nova Geografia” (figura 1), composta somente por discentes negres do curso, presentes em ambas as modalidades, bacharelado e licenciatura. Além disso, vale ressaltar que, tal mobilização foi algo histórico, tendo em vista que, nunca ocorreu nos mais de 40 anos da instituição (ao que se tem registro), uma organização de pessoas negras para disputar a gestão do Centro Acadêmico de Geografia, tendo em seus princípios a afrocentricidade e a renovação política partindo da negritude.

Figura 1. Chapa “Por uma nova Geografia”

Fonte: Autores, 2019.

A decisão conjunta pela escolha do nome, veio a partir da nossa principal referência teórica e intelectual da ciência geográfica, o Prof. Dr. Milton Santos, que por ter sido um homem negro a frente do seu tempo, abriu inúmeras portas à presença negra nos departamentos de Geografia do Brasil. Sua obra “Por uma Geografia Nova” (2012), foi a bússola para nossa organização, direcionando inclusive, nossos discursos e práticas militantes dentro da institucionalidade.

Vale pontuar que, a decolonialidade esteve intrinsicamente atrelada as nossas ideias para constituição da Chapa, visando inclusive que se eleitos, potencializaríamos tal discussão nas disciplinas curriculares. Além da proposta de mudança do Projeto Pedagógico do curso (PPC) em suas duas modalidades (licenciatura e bacharelado), com a inclusão das temáticas voltadas às Relações Étnico-raciais e a Geografia, por entendermos que a ciências geográfica foi por décadas utilizada para legitimar o poder e a lógica eurocêntricos.

Dessa forma, a colonialidade do poder, do ser e da natureza não é uma forma de dominação que usa exclusivamente os meio coercitivos para o exercício do poder; não se trata apenas de reprimir os dominados, mas também da instituição e naturalização do imaginário cultural europeu como única forma de relacionamento com a natureza, com o mundo social e com a própria subjetividade (Cruz; Oliveira, 2017, p. 16).

Além disso, outra categoria bastante presente em nossos debates foi a da Interseccionalidade, por termos maioria mulheres negras e integrantes trans, sabíamos da necessidade de um olhar mais atento para esta realidade, pois como bem apresenta a Carla Akotirene (2018), o papel do Feminismo Negro é transformador quando compreendemos nosso local nos espaços que ocupamos e os recortes sociais que nos atravessam, como Gênero, Raça, Sexualidade, Classe etc.

O Feminismo Negro dialoga concomitante entre/com as encruzilhadas, digo, avenidas identitárias do racismo, cisheteropatriarcado e capitalismo. O letramento produzido neste campo discursivo precisa ser aprendido por Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais, Queer e Intersexos (LGBTQI), pessoas deficientes, indígenas, religiosos do candomblé e trabalhadoras (Akotirene, 2018, p. 18).

Neste caminhar, dias após a constituição da chapa, iniciou-se o processo eleitoral, período ao qual nós tínhamos para divulgar nossas propostas e o que nós queríamos para o curso. Realizamos diversas atividades, como oficina de cartazes, roda de conversas e diálogos com as/os/es estudantes do departamento, além da participação nos debates eleitorais promovidos pela comissão responsável.

Infelizmente, o período foi bastante turbulento e nos deparamos com o que hoje compreendemos como a articulação da branquitude, trazida pela escritora e teórica Cida Bento (2022). Durante a campanha, algumas pessoas (brancas) iniciaram um processo de depreciação de nossa chapa, com argumentos esdrúxulos de que nós estaríamos cometendo “racismo reverso” por termos apenas pessoas negras em nossa composição, o que seria uma forma de “segregação” das e dos estudantes brancos do curso.

É evidente que os brancos não promovem reuniões secretas às cinco da manhã para definir como vão manter seus privilégios e excluir os negros. Mas é como se assim fosse: as formas de exclusão e de manutenção de privilégios nos mais diferentes tipos de instituições são similares e sistematicamente negadas ou silenciadas. Esse pacto da branquitude possui um componente narcísico, de autopreservação, como se o “diferente” ameaçasse o “normal”, o “universal” (Bento, 2022, p. 18).

Essas falas impulsionaram e convenceram diversos estudantes do curso de que nossa proposta de ocupação e ressignificação de um espaço de poder eram de fato “prejudiciais”, o que levou, além de outras razões, a nossa não eleição, por falta de quórum mínimo para votação. Ou seja, por um convencimento do pacto da branquitude, diversos estudantes não chegaram a votar e o pleito não se concluiu, ou melhor, se desencadeou em nossa desvalorização.

Vale uma reflexão importante: durante anos, houve gestões do Centro Acadêmico (CAAGEO) compostas somente ou por maioria de pessoas brancas, mas esse empenho em desestabilizar ou boicotar tal realidade não se fez presente. Somente quando as estruturas enfim foram mexidas e o domínio eurocêntrico foi ameaçado, que emergiram tais discursos negativos.

Nesse sentido, surgiu a necessidade urgente de uma organização política e bem mais estruturada, de estudantes racialializados, visando não somente um espaço de proteção e uma rede afetiva, mas uma possibilidade de reestruturação epistêmica do departamento de Geografia, tendo em vista que a própria ciência geográfica, se absteve e se abstém do debate racial e da preocupação real com as dinâmicas das populações historicamente marginalizadas, como bem pontua Claudino (2026):

As ciências humanas e sociais, por muito tempo reticentes e cegas, quase sempre reproduzindo preconceitos transmutados em racismo científico, veem-se diante do acertar de contas com a história do povo negro e indígena, num movimento de reavaliação de seus métodos, conceitos e propósitos políticos e sociais (Claudino, 2026, p. 15).

Nasce então o Fórum de Negras, Negros e Negres do curso de Geografia da Universidade Estadual do Ceará (UECE), reunindo discentes em ambas as modalidades, bacharelado e licenciatura, posteriormente incluindo discentes do Programa de Pós-graduação em Geografia (PROPGEO). O processo organizativo do coletivo será melhor abordado posteriormente, no terceiro capítulo.

Nesse ínterim, ao pensarmos neste trabalho, o Objetivo Central é: analisar como o Fórum de Negres, influenciou na experiência de estudantes racializados do curso de Geografia da UECE. A metodologia utilizada foi a pesquisa qualitativa e participante (tendo em vista que nós estivemos presente em todo o processo por sermos co-fundadores do coletivo), na qual foi realizada uma aplicação de questionários via plataforma “Google Forms”.

2. TERRITORIALIDADES NEGRAS E O ESPAÇO ACADÊMICO

No espaço acadêmico as semelhanças se cruzam e os (as) estudantes negros passam a se identificar em características semelhantes como religião; classe social; localidades de moradia, entre outros. Desta maneira, o encontro entre identidades semelhantes, torna possível uma reconfiguração territorial, a partir do sentimento de pertencimento, como bem pontua Santos (2012): “a identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é o fundamento do trabalho, o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida”.

Nesta perspectiva, é relevante assimilar o conceito de território, para entender a importância das trocas sociais, na formação de identidades negras, que se tornam símbolo de resistência no dia a dia da universidade. É importante levar em consideração os (as) estudantes negros que são presentes dentro do ambiente acadêmico, em específico, nos cursos de Geografia, escala ao qual estamos analisando. Esses (as) estudantes são em sua maioria moradores das periferias sociais da cidade de Fortaleza, de classe média e baixa, e que através da formação em nível superior resistem e lutam por melhorias em suas realidades sociais. Logo,

O Território é o lugar em que desembocam todas as ações, todas as paixões, todos os poderes, todas as forças, todas as fraquezas, isto é, onde a história do homem plenamente se realiza a partir das manifestações da sua existência (Santos, 2012, p. 8).

Dentro da universidade, os (as) estudantes negros (as), passaram a ser notados com mais evidência e a serem percebidos em grupos, com características parecidas entre si, mas que se diferenciam dos outros grupos de estudantes brancos e de classes sociais mais elevadas.

Vale destacar a importância histórica das Políticas de Ações Afirmativas, em especial representadas pelas Cotas, que por meio da reserva de vagas destinadas a estudantes inserido no público-alvo desta política, como pessoas negras, indígenas, população trans e pessoas com deficiência (PCD), observamos uma mudança estrutural nas instituições de ensino superior.

As ações afirmativas são políticas públicas destinadas a atender grupos sociais que se encontram em condições de desvantagem ou vulnerabilidade social em decorrência de fatores históricos, culturais e econômicos (Fonseca, 2024, p. 11).

Desde sua implementação no ano de 2012, a Lei nº 12.711, tem trazido resultados significativos no que diz respeito a presença negra nas universidades públicas de nosso país. No entanto, enfrentamos desafios ao que tange a sua finalidade, que é a reparação de uma população historicamente subalternizada. Podemos apontar como o principal, a fraude na ocupação das vagas destinadas à política de cotas raciais, por parte de pessoas brancas, além da não existência de Bancas de Heteroidentificação, que facilita tal problemática.

Tais desafios são confrontados por organizações e coletivos auto-organizados por estudantes negres, que entendem que tal reivindicação precisa atender o público central, além obviamente de se tratar de um direito reparatório para o povo preto.

Nesse ínterim, passamos a nos reafirmar, mostrando nossas identidades negras, como nossa cultura, maneiras de ser e agir. E passamos a lutar por nossa representativa dentro do ambiente acadêmico, reivindicando por exemplo nas ementas de nossas cadeiras, a inclusão de temas étnico-raciais, textos escritos por autores (as) negros (as) ou indígenas, posicionamentos antirracistas e vozes ativas dentro e fora de sala de aula, pelos corredores e auditórios, ecoando que a universidade é sim, o lugar para pretos, pobres e periféricos.

Assim, território ultrapassa a concepção político-administrativa, meramente formal e ganha a dimensão de um espaço socialmente demarcado pelas ações e intenções de sujeitos sociais. O território significa, portanto, a constituição necessária de laços que se definem pela apropriação e uso das condições materiais e dos investimentos simbólicos, estéticos e éticos, que revelam o sentido da própria sociedade instituída. Pertencemos a um território, o guardamos, o habitamos e nos impregnamos dele ao realizar nosso modo de existir (Barbosa; Silva, 2013, p. 117-118).

Percebemos enquanto estudantes negros (as), as problemáticas estruturais sendo reveladas dentro do ambiente acadêmico, local que deve ser educacional, onde haja rompimento de padrões de reproduções preconceituosos e racistas que são espelho da sociedade. Por isso, nos organizamos para lutar por nossos direitos e reparações. Afim, de conseguir reconfigurar o território, enfatizando nossa presença, e que nossas pautas devem ser acatadas assim, para que os demais estudantes negros que chegassem futuramente na universidade, pudessem colher os frutos, e ter contato por exemplo com autores negros, que são comprometidos com a criticidade.

3. GEOGRAFIAS ANTIRRACISTAS NOS CORREDORES DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ

A partir do que foi apresentado anteriormente, chegamos a um momento crucial do desenvolvimento deste trabalho, a efetiva organização do Fórum e o marco de um emergir negro dentro do departamento de Geografia da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Como já citada, a persistente e perceptível tentativa do pacto da branquitude em enfraquecer e desestruturar organizações negras, surgiu mais uma vez a resistência no chão da Universidade.

Após a perda de nossa chapa na disputa do pleito estudantil em 2019, composta majoritariamente por estudantes negres nas eleições para composição da Gestão do Centro Acadêmico Autônomo de Geografia (CAAGEO), nasceu então, a necessidade da organização de um coletivo, que tivesse por finalidade fortalecer os laços das e dos sujeitos negres no curso, entendendo as diversidades e semelhanças que nos cruzam na sociedade e na Academia, permeadas pelo Racismo Individual, Estrutural e o Institucional (Almeida, 2018).

Após algumas reuniões e percepções de demandas urgentes de aquilombamento de nós estudantes negres, no dia 17 de março de 2020 aconteceu oficialmente o primeiro encontro do Fórum de Negras, Negros e Negres da Geografia (figura 2), ocupando o espaço do Centro Acadêmico com cerca de 15 discentes. Vale destacar que, na ocasião nossa principal proposta era criar um ambiente seguro para troca de afetos, desabafos da vida cotidiana, além de possíveis denúncias de racismo dentro e fora do ambiente acadêmico.

Figura 2. Primeiro encontro do Fórum

Fonte: Autores, 2020.

O Fórum passou então a organizar momentos que possibilitam aprendizagens e experiências decorrentes da nossa agenda enquanto estudante negres em uma Universidade Pública e infelizmente ainda elitizada. Tais como: Grupos de Estudos, Oficinas, Socialização de Experiências, Eventos Acadêmicos, Manifestações, Sarau Cultural dentre outros. Além daquela ida ao barzinho ou praia para descontrair, assimilamos a importância de algumas vezes escapar daquele academicismo, que mesmo possuindo sua importância, não define a totalidade de nossas experiências enquanto pessoas acadêmicas.

Uma das maiores urgências do Fórum foi a criação de momentos que contribuíssem teoricamente para nosso conhecimento quanto negres, devido a necessidade de nos reconhecemos no tempo e no espaço, saber sobre nossa ancestralidade e adquirir conhecimentos sobre temas que nos cruzam, como medida também de autodefesa sob as problemáticas raciais que se apresentam em nosso cotidiano. Daí a importância de se projetar e construir Geografias Negras, como bem trás Claudino (2026):

As Geografias Negras têm se tornado mais do que um campo d epesquisa, materializando-se como uma forma orgânica de luta contra o racismo e de valorização da cultura afrobrasileira e africana, pois ao mesmo tempo que permite descortinar o véu racista no conhecimento geográfico, propõe transformações no mundo social e científico (Claudino, 2026, p. 19).

Demos início então em março de 2020 ao “Grupo de Estudos Étnicos-Raciais”. Em nossos encontros, estudamos obras como “O que é Racismo Estrutural” obra do professor Silvio Almeida (2018), “Ideias para adiar o fim do mundo” do escritor indigena Ailton Krenak (2019), “Por uma Geografia Nova” de nosso querido Milton Santos (2012), “Necropolítica” de Achille Mbembe (2018), entre outras obras.

Devido a pandemia da Covid-19, demos uma pausa de alguns meses e retornamos no ano de 2021. Os encontros do Grupo de Estudos passaram a acontecer de forma virtual, em decorrência da necessidade sanitária de isolamento social. O espaço resistiu mesmo em um período tão delicado que enfrentávamos e se tornou também um momento de troca de afeto.

Vale destacar que, o Fórum, enquanto Coletivo Estudantil, se fez presente em atos políticos nas ruas de Fortaleza, contra uma política facista, racista, misógina e intolerante, propagada pelo então presidente. Fomos às ruas em defesa do SUS e da democracia. Além de somarmos forças a outros atos e mobilizações, tais como no ano de 2020: “Vidas Negras Importam”; “João Presente”; “Racismo no supermercado não é caso isolado”, entre outros.

Além disso, outro grande feito idealizado e promovido pelo Fórum foi a realização dos “Simpósios de Geografia e Negritudes”, com a proposta de trazer temáticas relevantes no que diz respeito a produção científica negra. Foram realizadas 5 edições, sendo a primeira e a segunda remotamente (devido à pandemia) nos anos de 2020 e 2021 respectivamente e as terceira, quarta e quinta edições, nos anos de 2022, 2023 e 2025, presencialmente, nos espaços do Campus do Itaperi da UECE.

Ressaltamos o terceiro Simpósio (figura 3), que marcou a ocupação negra dentro dos espaços do curso de Geografia da UECE, algo nunca visto antes. Fizemos questão naquela edição de homenagear professores e professoras de geografia negros e negras que fizeram e fazem história, por meio de suas trajetórias e da ancestralidade. Em especial à Profa. Dra. Anna Érika, que veio a falecer no mesmo ano e que contribuiu grandemente para os estudos de Territórios e Comunidades Tradicionais no estado do Ceará.

Figura 3. Card de divulgação III Simpósio

Fonte: Thalita Vieira, 2022.

A realização destes eventos foi sem dúvidas um divisor na perspectiva da disputa da narrativa científica dentro do âmbito das relações étnico-raciais e da geografia. Afinal a proposta era mostrar que tais assuntos se interseccionam e são passíveis de validação científica, tendo em vista que até o presente momento enfrentamos argumentos conservadores de que essas temáticas não configuram saber científico, sobretudo dentro do Departamento de Geografia.

Um destaque vai para criação do Prêmio “Alex Ratts” (figura 4), que teve sua primeira edição no ano de 2025, trazendo como proposta homenagear geógrafas e geógrafos negres do Ceará, pelas suas trajetórias acadêmicas e científicas, bem como suas contribuições para o processo de contra colonização de nossa ciência geográfica. Na primeira edição homenageamos o Prof. Dr. Alex Ratts (o qual nos inspiramos para criar a premiação) e a Profa. Ma. Ingrid Gomes, que atuou como professora substituta da UECE.

Figura 4. Prêmio Alex Ratts

Fonte: Ana Beatriz, 2025.

Neste ano de 2026, que estamos finalizando este trabalho, realizaremos a VI edição do Simpósio, no mês de setembro, trazendo como tema o “Centenário de Milton Santos”, homenageando na segunda edição do Prêmio: Profa. Dra. Ângela Falcão, Profa. Ma. Fabíola Freitas e Profa. Dra. Mairla Brasileiro. O que nos enche de alegria, tendo em vista que mesmo após tantos anos o evento permaneceu firme, ganhando cada vez mais importância e reconhecimento.

4. RESULTADOS

Com a finalidade de analisar e compreender a influência do Fórum de Negres na vida das e dos estudantes radicalizados do Curso de Geografia da UECE, nós aplicamos um formulário de pesquisa no ano de 2024 para as/os/es integrantes da nossa organização. Foram três questões objetivas e uma subjetiva. Obtivemos 27 respostas, divididas entre algumas questões. A primeira (figura 5) acerca dos semestres aos quais cada integrante está/esteve presente:

Figura 5. Semestres das e dos entrevistados/as/es

Fonte: Autores, 2024.

É possível perceber a integração de estudantes calouros (11,1%), assim como a participação de estudantes que já estavam nos semestres finais (14,8%) e que já concluíram a graduação (22,2%). Vale ressaltar que contamos atualmente com a presença ativa de estudantes negres da Pós-graduação que estão cursando o mestrado e doutorado.

Para entender as reconfigurações no curso e percepções dos (as) estudantes nas perguntas posteriores, perguntamos em que ano os (as) pesquisados (as) passaram a ter contato com o Forúm (figura 6):

Figura 6. Período de participação

Fonte: Autores, 2024.

De acordo com as respostas, a maioria dos que responderam, representam 63% dos participantes, estiverem presentes no Curso de Geografia desde o ano de 2019 até o ano de 2024, o que representa que a maioria dos (as) pesquisados (as) apresentam uma visão maior de tempo e espaço das reconfigurações que o Fórum possibilitou desde seu surgimento até o então momento de aplicação dos questionários.

A última questão objetiva (figura 7), visava compreender de acordo com eles, se a nossa atuação enquanto Fórum havia contribuído para o processo de reconhecimento e pertencimento étnico-racial. Os resultados, para nosso contentamento foram positivos e 92,6% responderam que “sim”, demostrando que nossa organização havia influenciado positivamente em suas trajetórias acadêmicas.

Figura 7. Percepção dos estudantes

Gráfico de respostas do Google Formulários. Título da pergunta: Você considera que o Fórum de Negres contribuiu para o seu processo de reconhecimento e pertencimento étnico-racial? . Número de respostas: 27 respostas.
Fonte: Autores, 2024.

Por fim, a questão subjetiva, tinha por finalidade, deixar um espaço para que as e os discentes colocassem suas impressões e sentimentos acerca do Fórum, pois ainda que as respostas objetivas demostrassem um resultado positivo, a subjetividade tinha um valor grandioso do ponto de vista do nosso objetivo central. Vale ressaltar que, foi unânime e consensual os resultados positivos apresentados nas respostas de cada um/uma. Trouxemos a seguir, duas respostas (figura 8) que consideramos mais marcantes dentre todas.

Figura 8. Respostas subjetivas

Fonte: Autores, 2024.

De acordo com as respostas obtidas, percebemos a mudança e reconfiguração dos cursos de Geografia da UECE, onde além das atividades e intervenções promovidas pelo Fórum, alguns professores da casa passaram a incluir estudos e debates étnico-raciais nas emendas de suas perspectivas disciplinas, resultante das inquietações e demandas dos (as) estudantes negres.

Chegamos ao resultado crucial para nosso trabalho e a finalidade de nosso objetivo central foi alcançada: o Fórum influenciou positivamente nas trajetórias das e dos discentes racializados do curso de Geografia da UECE.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS: UM DEVIR NEGRO À GEOGRAFIA CEARENSE

Enquanto cofundadores do Fórum de Negres da UECE, percebemos desde o seu início quais dificuldades acadêmicas e sociais nos levaram a idealizar e lutar para construção desse movimento que nos possibilitam um aquilombamento, pois através da nossa união seremos sempre mais fortes e poderemos resistir dentro dos muros da universidade.

Hoje comprovamos, para além dos dados obtivos, mas com a empiria, que os (as) estudantes têm mais conhecimento racial, assim tendo mais sabedoria para enfrentar as adversidades que se apresentam no ambiente acadêmico e social, tendo maior respaldo para enfrentar o racismo e não se deixar esmorecer. Percebemos também a evolução da autonomia, mas não nos sentimos mais sozinhos em um ambiente elitizado.

Umas das maiores conquistas observadas nessa reconfiguração é inclusão das questões etnico-raciais serem reivindicadas e serem inseridas nas ementas das disciplinas dos cursos (Licenciatura e Bacharelado), resultando também no atual engajamento de alguns professores.

Nesse interim, ressaltamos que os relatos e os dados que trouxemos, são apenas os resultados do início do que há porvir. Almejamos alcançar ações afirmativas dentro da Graduação e Programa de Pós-Graduação da Geografia/UECE. Estamos ativos e ativas na luta para que mais professores e colegiados de outros cursos se engajem nas ações antirracistas tanto na UECE como em outras universidades e sobretudo, defendendo o legado que nosso o ancestral Milton Santos nos deixou, de colocarmos em prática uma Geografia Crítica e engajada na luta daqueles e daquelas que foram historicamente marginalizados. Axé!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ALMEIDA, Silvio Luiz de. O que é racismo estrutural?. Belo Horizonte: Letramento, 2018.

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BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

CLAUDINO, Guilherme dos Santos (org). A dimensão racial na história do pensamento geográfico: constelações orí e nervuras da raça. Rio de Janeiro: Consequência Editora, 2026.

CRUZ, Valter do Carmo; OLIVEIRA, Denílson Araújo de (orgs.). Geografia e giro descolonial: experiências, ideias e horizontes de renovação do pensamento crítico. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2017.

FONSECA, Dagoberto José. Políticas e Ações Afirmativas. São Paulo: Summus, 2024.

SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova: da crítica da geografia a uma geografia crítica. 6. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012.


1 Discente do Doutorado do Programa de Pós-graduação em Geografia (PROPGEO) da Universidade Estadual do Ceará (UECE) Campus Itaperi. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente do Programa de Mestrado Profissional em Sociologia em Rede Nacional (ProfSocio) da Universidade Federal do Ceará (UFC) Campus Centro de Humanidades. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Professora da Rede Estadual de Ensino do Ceará (SEDUC CE). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Professor da Rede Estadual de Ensino do Ceará (SEDUC CE). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

5 Universidade Estadual do Ceará (UECE). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

6 Adinkra é um sistema de escrita, a partir da simbologia dos povos Akan de Gana na África. Cada símbolo possui uma sabedoria e um significado próprio.

7 Vale destacar que no decorrer deste artigo, poderão ser utilizadas palavras em gênero neutro como orientação para abarcar todas as identidades presentes em suas diversidades.