REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/774929942
RESUMO
Este artigo propõe uma análise em busca da emancipação na Educação de Jovens e Adultos (EJA), explorando abordagens para a compreensão da educação e o desenvolvimento de estratégias que visam a emancipação dos alunos em busca de uma sociedade mais justa e plural. A fim de fundamentar o presente diálogo, o pensamento do filósofo Byung-Chul Han, especialmente sua obra "Sociedade do Cansaço", é fundamental. Han propõe uma visão peculiar da emancipação, centrada na libertação do eu em uma sociedade sobrecarregada pela exaustão. Além disso, o artigo considera a teoria social de Theodor W. Adorno, que, ao abordar a emancipação do indivíduo, contribui para a compreensão de novos caminhos na educação. A análise também utiliza a perspectiva de Jacques Lacan, que usa a Linguística como paradigma para investigar fenômenos inconscientes, enfatizando a centralidade da linguagem. Dessa forma, este estudo busca não apenas compreender, mas também sugerir novas práticas educacionais que possam conduzir à emancipação dos alunos, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.
Palavras-chave: discurso, educação, emancipação, EJA.
ABSTRACT
This article proposes an analysis aimed at emancipation in Youth and Adult Education (EJA), exploring approaches to understanding education and developing strategies that seek students’ emancipation in the pursuit of a more just and plural society. In order to ground this discussion, the thought of the philosopher Byung-Chul Han—especially his work The Burnout Society—is fundamental. Han offers a distinctive view of emancipation, centered on the liberation of the self in a society overwhelmed by exhaustion. In addition, the article considers the social theory of Theodor W. Adorno, who, by addressing individual emancipation, contributes to the understanding of new pathways in education. The analysis also draws on the perspective of Jacques Lacan, who uses Linguistics as a paradigm to investigate unconscious phenomena, emphasizing the centrality of language. Thus, this study seeks not only to understand but also to suggest new educational practices that may lead to students’ emancipation, contributing to the construction of a more just and inclusive society.
Keywords: Discourse, education, emancipation, EJA.
1. INTRODUÇÃO
A escola se revela como um espaço das mais diferentes interações, sendo agente modelador de grande parte do desenvolvimento social e intelectual de quem passa por ela. Dentro desta observação, nos voltamos para o âmbito escolar iniciando pelos documentos oficiais que regem o sistema educacional no Brasil - tais como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - 9394/96 (BRASIL, 1996), os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (SEF, 1998) e os Parâmetros Curriculares Nacionais (SEF, 1997), emanados do Ministério da Educação (MEC), que o trabalho com a linguagem, especialmente com a linguagem escrita, é inerente à atividade do professor, seja na Educação Básica, no Ensino Médio ou na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Sendo assim, o professor de qualquer área de conhecimento, que atue em qualquer ano de escolaridade dos Ensinos Fundamental e Médio, bem como na EJA, deve trabalhar um currículo que ultrapassa a linguagem, pelo trabalho com a língua materna e, consequentemente, pela escrita.
A escola é o lugar de referência onde os encontros entre o professor e seus alunos se materializam. O que a identifica são justamente as suas práticas que se repetem no decorrer da história e lhe fornecem uma marca. Em qualquer lugar do mundo é possível identificar “as formas físicas das escolas e as formas de fazer dos docentes” (ARROYO, 2013, p. 152). Este jeito de ser desta instituição e dos seus sujeitos sociais são resultantes dos ritos e dos fazeres que durante décadas e séculos foram sendo incorporados às práticas dos professores e alunos, assegurando o papel exercido pela escola na sociedade. Arroyo (2013, p. 152) destaca também que “somos o que produzimos. Nosso fazer é nosso espelho, a escola é a síntese de um amontoado de práticas do coletivo [...]”
Nada é possível aprender da experiência do outro, a menos que essa experiência seja revivida (LARROSA, 1998). De igual modo, para Oliveira e Romão (2020), podemos considerar que o aluno não deixa seu passado na área externa da escola, pelo contrário, ele adentra os portões da escola com suas trajetórias de vida, com tudo que experienciou. Esse princípio é especialmente relevante ao abordarmos a Educação de Jovens e Adultos (EJA), onde os estudantes frequentemente trazem consigo uma bagagem única de vivências e desafios.
Deste modo, o discurso que o professor e o aluno podem construir sobre aquilo que foi e é experimentado em suas vidas, se traduz em possibilidades de aprendizagens. Na EJA, essas experiências passadas ganham destaque, pois os alunos, muitas vezes, têm vivências mais amplas e diversas. Eles se fazem e se refazem na caminhada da vida, tendo como referência seus percursos familiares e suas trajetórias de escolarização, bem como as relações estabelecidas em seus espaços de formação. Dessa forma, a abordagem pedagógica na EJA deve reconhecer e valorizar a riqueza das experiências trazidas pelos alunos, incorporando-as no processo educativo de maneira a enriquecer o aprendizado e promover uma educação mais contextualizada e significativa.
A experiências vividas no espaço escolar são relevantes na formação de um indivíduo. As ações desenvolvidas neste ambiente são carregadas de intencionalidade, sendo planejadas com objetivos a serem alcançados. Desde a mais tenra idade, o ser humano adentra os portões de uma unidade escolar para a aquisição de um conhecimento que ultrapassa o sentido do aprendizado da matéria, dos conteúdos programados, do saber institucionalizado. A aprendizagem na convivência com pessoas que não compõem o núcleo familiar mais próximo ensina ainda mais o respeito aos limites, instrui sobre a alteridade em um mundo cada vez mais plural. Oliveira e Romão (2020)
O sujeito nessa perspectiva, é entendido não como indivíduo, mas como um posicionamento no discurso que é atravessado pelos dizeres de outros, isto é, por vozes e sentidos que circulam ou já circularam antes em outro lugar, ao que chamamos interdiscurso, e que fornecem a matéria-prima para o fio discursivo tomado/construído pelo sujeito, ao que chamamos intradiscurso. A estrutura dos significantes e a ancoragem destes no interdiscurso passam pela tensão entre paráfrase e polissemia, entre o mesmo (a repetição) e o diferente (a polissemia); com isso, o sujeito ao se comunicar para que seus dizeres façam sentido, precisa retomar o que já foi dito e instaurar algo novo. Nesse processo de fazer circular sentidos, encontramos o sujeito imerso na trama da linguagem, do discurso, um sujeito que luta para ocupar posições na disputa desses mesmos sentidos, podendo ou não ocupar a posição discursiva de autor. Souza e Pacífico (2011)
Um dos elementos que possibilita uma escola mais humana, segundo Freire (1996), é a presença de um professor que esteja aberto, que tenha coragem de querer bem aos educandos e ao exercício da sua prática pedagógica. Que compreenda a afetividade como uma possibilidade de aproximação entre ele e os alunos. Um docente que se permita sorrir diante das pequenas conquistas no cotidiano das suas turmas. Que autêntica, que deixa sua marca, no compromisso com a formação humana das pessoas que dividem com ele o espaço de aprendizagem formal.
Assim também, uma escola humanizada está a depender, entre outros, das relações construídas com o professor e seus colegas, mas, igualmente, da disposição do aluno em se envolver na dinâmica da sala de aula. Docentes dispostos a ensinar para que seus alunos aprendam e discentes abertos para entrar no mundo do desconhecido, estabelecer relações, compreender a realidade como ela é e não como querem que seja vista. Aprender a discernir, a escolher o que lhe serve e o que não serve. Alunos e professores conscientes do seu papel e da parceria que precisa ser estabelecida entre ambos durante a caminhada do processo de ensinagem e aprendizagem.
É de suma importância evitar que tenha professores que despeja o conteúdo como se o aluno fosse um vasilhame, prática essa contestada na teoria freiriana. Nesta perspectiva, os saberes adquiridos pelo docente em suas vivências cotidianas se autenticam na postura que os educandos assumem a cada desafio apresentado no processo de ensino e aprendizagem. Por conseguinte, Tardiff (2014) salienta que o maior desafio para o professor é transformar seus alunos em parceiros no processo pedagógico. A formação inicial habilita o professor a assumir a liderança de uma turma de alunos em uma unidade escolar, mas será no cotidiano da docência, nas relações estabelecidas com o outro, que este profissional vai aprimorar os saberes necessários para caminhar.
2. PROFESSOR E ALUNO NO ESPAÇO ESCOLAR
Outrossim, nas relações estabelecidas na sala de aula, os saberes dos professores e dos alunos vão se materializando e se reconstruindo na medida em que chegam neste espaço trazendo suas experiências de formação e adquirem novos saberes no processo de trocas vivenciadas no cotidiano da escola. Romão (2014, p. 1076) destaca que “é o outro que me (in)completa e, portanto, me educa – nos espaços da família, da escola, da sociedade. O outro me educa porque toda aproximação gera o conflito, tende a desassossegar”. Estar com o outro nem sempre se traduz em uma aproximação pacífica, e este espaço de desassossego pode se tornar em um terreno propício para se forjar o respeito às diferenças e a formação de uma postura ética. Ninguém aprende nem desconstrói suas certezas se não desassossegar-se, pois os desassossegados entram no processo de busca permanente de autoria e da apropriação de sua própria história.
Hoje, mais que nunca, torna-se necessário dizer da opção pela educação libertadora, a escola está compelida a ser um espaço libertador, embora muitas delas estejam sob as amarras de uma mentalidade e ação que mais aliena que conscientiza, que mais aprisiona que liberta. Paulo Freire, ao ressaltar a importância da convivência, afirma que “ninguém liberta ninguém sozinho: os homens se libertam em comunhão” (FREIRE, 1987, p. 52). Assim na escola, tanto o professor quanto seus alunos, são expostos a um ambiente de interações que possui um caráter formativo desde as fases iniciais de escolarização. Trazer à memória para este tempo, relacionar as lembranças, e trazê-las em narrativas, se configuram em experiências únicas no que diz respeito à reinvenção de si.
Com isso, voltamos à questão da formação do professor que precisa instaurar novos dizeres, tecer e fazer circular novos sentidos no espaço escolar (para que isso também ocorra fora dele), partindo da repetição mecânica de situações e tarefas no que se refere às práticas de leitura e escrita desenvolvidas nesse espaço, assumindo seus dizeres e permitindo a produção de sentidos ao ler e ser lido, ao escrever e permitir a escrita do sujeito-aluno. Torna-se necessário a discussão de questões relacionadas à constituição do sujeito-autor na formação de professores, na instituição escolar, para que possam vivenciar, ou resgatar, o desejo de escrever sobre as múltiplas possibilidades encontradas na “leitura polissêmica” que podemos fazer do mundo, e de autorizarem-se a inscreverem (se) no Outro (interdiscurso), memória constitutiva dos dizeres. Segundo Souza e Pacífico (2011)
Partindo das análises apresentadas, deste modo entendemos a importância de se buscar reflexos de transmissões pedagógicas por parte dos educadores para que se crie e incentive o desenvolvimento de discursos que incorporem novos dizeres que viabilizam a emancipação da narrativa do sujeito sobre seu lugar no espaço escolar.
3. EJA E A PEDAGOGIA DA INTEGRAÇÃO
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) desempenha um papel crucial na promoção da inclusão educacional abrindo portas para aqueles que, por diversas razões, não tiveram a oportunidade de completar sua formação na idade tradicional. Neste capítulo, exploraremos a interseção entre a EJA e a Pedagogia da Integração, destacando como essa abordagem pedagógica pode contribuir significativamente para a eficácia do processo educacional, garantindo uma formação completa e inclusiva. A EJA, ao longo dos anos, tem evoluído para além de uma mera oferta de oportunidades educacionais para adultos que não concluíram o ensino fundamental ou médio, ela se tornou um instrumento poderoso de transformação social, atendendo a uma diversidade de públicos, como trabalhadores, mães que retornam à escola e outros grupos que buscam a educação como meio de empoderamento.
A Pedagogia da Integração é uma abordagem que busca unificar diferentes áreas de conhecimento e práticas educacionais, promovendo uma aprendizagem mais holística e contextualizada. No contexto da EJA, essa pedagogia assume um papel fundamental ao reconhecer a variedade de experiências de vida e conhecimentos prévios que os estudantes adultos trazem consigo. Ao invés de segmentar disciplinas, a Pedagogia da Integração propõe a integração de conteúdos, conectando-os com as experiências cotidianas dos aprendizes. Integrar diversos conhecimentos e experiências no contexto da EJA apresenta desafios, mas também oferece oportunidades únicas, pois é necessário superar a fragmentação típica de currículos tradicionais, reconhecendo a interconexão entre as disciplinas e sua relevância para a vida dos estudantes adultos. Além disso, a Pedagogia da Integração estimula a participação ativa dos aprendizes na construção do conhecimento, fortalecendo sua autonomia e senso de pertencimento à comunidade escolar.
A interseção entre a EJA e a Pedagogia da Integração oferece uma perspectiva promissora para o desenvolvimento educacional de jovens e adultos. Ao reconhecer a diversidade de backgrounds e experiências, a Pedagogia da Integração proporciona uma abordagem mais abrangente e significativa, contribuindo para a construção de uma sociedade mais inclusiva e educacionalmente justa. Este capítulo ressalta a importância de uma prática pedagógica que integra, une e valoriza as diversas dimensões do conhecimento, promovendo uma educação transformadora na vida de adultos que buscam continuamente o aprendizado.
A Pedagogia da Integração, ao considerar a diversidade de trajetórias educacionais e profissionais dos adultos na EJA, propõe estratégias que transcendem a abordagem convencional do ensino. Isso inclui a incorporação de metodologias ativas, projetos práticos e a utilização de recursos tecnológicos para ampliar as possibilidades de aprendizagem e enriquecer a compreensão dos conteúdos. Ao integrar conhecimentos de diversas disciplinas e conectá-los com a realidade vivida pelos adultos na EJA, a Pedagogia da Integração contribui para o desenvolvimento de competências essenciais para a vida. Habilidades como pensamento crítico, resolução de problemas, comunicação eficaz e colaboração são enfatizadas, preparando os aprendizes não apenas para desafios acadêmicos, mas também para enfrentar situações práticas em suas vidas pessoais e profissionais.
A abordagem integradora na EJA reconhece que a aprendizagem não ocorre apenas dentro das paredes da sala de aula, mas também nos contextos sociais e culturais em que os estudantes estão inseridos. Portanto, a Pedagogia da Integração busca estabelecer pontes entre o conhecimento formal e as experiências cotidianas, promovendo uma aprendizagem mais significativa e aplicável ao priorizar a individualidade dos aprendizes e conectar os conhecimentos com suas vivências, essa abordagem não apenas fortalece a formação acadêmica, mas também promove o desenvolvimento integral, capacitando os estudantes para enfrentar os desafios de uma sociedade em constante evolução.
4. EMPODERAMENTO COLETIVO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS (EJA)
A busca pelo empoderamento coletivo na Educação de Jovens e Adultos (EJA) emerge como um tema central, especialmente quando inserido na perspectiva da Pedagogia Integradora, este enfoque educacional não apenas visa transmitir conhecimento, mas também se propõe a promover a emancipação do eu, fornecendo um espaço para o florescimento individual dentro do contexto educacional coletivo. Nessa conjuntura, a interconexão entre a Pedagogia Integradora e o empoderamento coletivo ganha destaque, delineando um caminho que transcende a mera instrução acadêmica, direcionando-se à autonomia, à valorização das narrativas individuais e à construção de uma identidade escolar rica em diversidade e inclusão. Esta introdução busca explorar a interseção entre a Pedagogia Integradora e o empoderamento coletivo na EJA, destacando a importância dessa abordagem para a emancipação dos indivíduos em seu percurso educacional.
A interligação entre essa Pedagogia e o empoderamento coletivo na Educação de Jovens e Adultos (EJA) representa um paradigma transformador que vai além da simples transmissão de conhecimento. A Pedagogia Integradora, ao incorporar práticas pedagógicas que valorizam a participação ativa, a troca de experiências e a construção colaborativa do saber, assume um papel crucial na promoção do empoderamento coletivo, nesse contexto, a emancipação do eu na EJA não se limita apenas à aquisição de habilidades acadêmicas, mas também à capacidade dos indivíduos moldarem ativamente suas próprias narrativas. Essa pedagogia proporciona um ambiente educacional propício para a expressão autêntica das experiências pessoais, fortalecendo a voz de cada aprendiz e contribuindo para a formação de uma identidade escolar coletiva enriquecedora.
Ao fomentar a participação ativa, ela não apenas respeita a diversidade de histórias de vida na sala de aula da EJA, mas também as utiliza como fonte de aprendizado mútuo, este processo colaborativo de construção do conhecimento não apenas empodera individualmente os alunos, mas também cria uma dinâmica coletiva onde a diversidade é celebrada e a aprendizagem se torna um ato enriquecedor para todos, assim, esta exploração sobre a interseção entre a Pedagogia Integradora e o empoderamento coletivo na EJA busca destacar não apenas a importância de adotar práticas pedagógicas inovadoras, mas também ressalta o potencial revolucionário dessa abordagem para a formação de cidadãos autônomos, críticos e plenamente engajados em suas jornadas educacionais.
Em termos gerais, a Pedagogia Integradora procura integrar conhecimentos teóricos com a prática, relacionando os conteúdos escolares com a realidade vivida pelos alunos. Na EJA, essa perspectiva se torna ainda mais significativa, uma vez que muitos desses alunos trazem consigo uma bagagem de experiências e saberes acumulados ao longo da vida. A emancipação do eu, no contexto da EJA com a Pedagogia Integradora, refere-se à capacidade dos alunos adultos de se tornarem agentes ativos no processo educacional, isso implica reconhecer e valorizar as experiências individuais, permitindo que os alunos construam suas próprias narrativas de aprendizado. A ideia é que, ao relacionar os conteúdos com as experiências pessoais, os alunos se tornem mais engajados, críticos e autônomos em sua busca pelo conhecimento.
Essa abordagem não apenas reconhece a importância da diversidade de histórias de vida na sala de aula, mas também utiliza essa diversidade como um recurso pedagógico valioso. Os alunos são incentivados a compartilhar suas experiências, contribuindo assim para um ambiente de aprendizagem mais enriquecedor para todos. No processo de emancipação do eu, a Pedagogia Integradora na EJA busca superar barreiras tradicionais e desafia o modelo educacional convencional, proporcionando aos adultos uma oportunidade de se reconhecerem como sujeitos ativos na construção do próprio conhecimento. Essa abordagem visa, em última instância, não apenas a transmissão de informações, mas a formação de cidadãos críticos, reflexivos e capazes de aplicar seus aprendizados em suas vidas cotidianas.
Na contemporaneidade, a sociedade é marcada por um ritmo acelerado, caracterizado por incessantes demandas e uma cultura que preconiza a positividade constante. Nesse cenário, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) surge como um espaço desafiador e, ao mesmo tempo, potencialmente transformador. A obra "Sociedade do Cansaço", de Byung-Chul Han, oferece uma lente analítica penetrante sobre as dinâmicas exaustivas e as complexidades da positividade exacerbada presentes na sociedade moderna. Ao aplicar as ideias de Han à EJA, podemos explorar como a Pedagogia Integradora pode se tornar uma resposta inovadora, proporcionando um ambiente educacional que não apenas desafia os padrões de exaustão, mas também fomenta o empoderamento coletivo. Esta análise busca, assim, lançar luz sobre a interseção entre as teorias de Han e as práticas educacionais na EJA, destacando como a integração pedagógica pode ser um catalisador para a construção de uma educação mais humana, colaborativa e verdadeiramente capacitadora para os alunos adultos.
Na obra "Sociedade do Cansaço", Byung-Chul Han propõe uma reflexão profunda sobre os desafios contemporâneos que envolvem a sociedade moderna, destacando a prevalência da exaustão física e mental, além da cultura excessivamente positiva que permeia diversos aspectos da vida. No contexto da Educação de Jovens e Adultos (EJA), essas análises de Han ganham relevância ao considerarmos como esses elementos afetam o empoderamento coletivo. A EJA lida frequentemente com indivíduos que, muitas vezes, enfrentam desafios específicos, como conciliar estudos com responsabilidades familiares e profissionais, a pressão e a exaustão, como apontadas por Han, podem comprometer o engajamento ativo desses alunos na busca pelo conhecimento, nesse sentido, a Pedagogia Integradora na EJA torna-se uma ferramenta valiosa ao oferecer um ambiente educacional mais colaborativo e menos exaustivo.
Ao adotar práticas pedagógicas integradoras, a EJA pode promover um empoderamento coletivo que transcende as barreiras individuais impostas pela sociedade do cansaço com a ênfase na construção conjunta do conhecimento, na valorização das experiências de vida dos alunos e na promoção de um ambiente de aprendizado mais humano e solidário pode funcionar como um contraponto às pressões excessivas da contemporaneidade. A noção de positividade coletiva, sugerida por Han, também pode ser incorporada na abordagem da EJA, ao invés de focar apenas em objetivos individuais, a Pedagogia Integradora pode cultivar uma atmosfera onde o sucesso é compartilhado, o apoio mútuo é incentivado e a jornada educacional se torna menos solitária.
Com isso, a EJA pode incorporar elementos de pausa e reflexão, permitindo que os alunos não apenas absorvam conhecimento, mas também processem suas próprias experiências, construindo uma compreensão mais profunda de si mesmos e de seu papel na sociedade, assim, a aplicação da perspectiva de Byung-Chul Han na Educação de Jovens e Adultos destaca a importância de repensar não apenas a forma como aprendemos, mas também como promovemos o empoderamento coletivo, reconhecendo e enfrentando os desafios impostos pela sociedade contemporânea.
Além disso, a proposta de pausas e reflexões, sugerida por Han, encontra eco na abordagem integradora, onde momentos de contemplação e discussão crítica são incorporados, permitindo que os alunos não apenas absorvam informações, mas também processem e integrem esses conhecimentos em suas próprias vidas. Assim, ao explorar a relação entre a perspectiva de Byung-Chul Han e a prática educacional na EJA, surge uma oportunidade de redefinir não apenas como ensinamos e aprendemos, mas também como podemos criar ambientes educacionais que promovam o empoderamento coletivo, contrapondo as demandas exaustivas da sociedade contemporânea.
5. A EMANCIPAÇÃO DO EU
Para Adorno (2022), emancipação significa conscientização, a saída de um estágio de ignorância por meio do esclarecimento. Este mesmo termo é utilizado por Adorno e Horkheimer como um processo de 'desencantamento do mundo, pelo qual as pessoas se liberam do medo de uma natureza conhecida, à qual atribuem poderes ocultos para explicar seu desamparo em face dela' (ADORNO, 1995B, p. 7-8). No âmbito da Educação de Jovens e Adultos (EJA), a busca pela emancipação ganha contornos específicos, sendo entendida como um caminho para a conscientização e superação de lacunas educacionais. Ainda segundo o autor, compreende-se que quando se tem a emancipação humana como objetivo, fortalece-se e substancia-se a formação educacional de volta a seu próprio objetivo ontológico, que se materializa na humanização."
O autor diz ainda que a exigência de emancipação parece ser evidente numa democracia, para fortalecer a questão o filosofo remete ao breve ensaio de Kant intitulado "Resposta à pergunta: o que é esclarecimento?". Neste momento ele define a menoridade ou tutela e, com isso a emancipação afirmando que neste estado de menoridade o indivíduo é autoinculpável quando sua causa não é a falta de entendimento, mas a falta de decisão e de coragem para servir-se do conhecimento sem a orientação de outrem.
Segundo Wolfang Leo Maar (APUD ADORNO, 2022), a educação não é necessariamente um fator de emancipação. Numa época em que educação, ciência e tecnologia se apresentam agora globalmente, conforme a atualidade - como passaportes para um mundo moderno conforme os ideais de humanização, essas considerações de Adorno podem soar como um melancólico desânimo. No entanto, ao se aplicar tais reflexões ao cenário da Educação de Jovens e Adultos (EJA), torna-se ainda mais evidente a necessidade da crítica permanente. Segundo ele, Após Auschwitz, é preciso elaborar o passado e criticar o presente prejudicado, evitando que este perdure e, assim, que aquele se repita.
O filósofo reflete acerca dos educadores em relação ao deslumbramento geral, mais especificamente o que é o relativo à educação, que ameaça o conteúdo ético do processo formativo em função de sua determinação social, deste modo aqui podemos incluir também a modalidade EJA. Isto é, adverte os efeitos de um processo educacional pautado meramente numa estratégia de esclarecimento da consciência, sem levar em conta a forma social em que a educação se concretiza como apropriação de conhecimentos técnicos. Explanando Adorno em seu último parágrafo da Minima moralia, quanto mais a educação procura se fechar a sua disciplina mais ela se converte em mera presa da situação social existente. O cenario do “sonho de uma humanidade que torna o mundo humano, sonho que o próprio mundo sufoca com obstinação na humanidade”! (ADORNO 2022, p. 11-12). O desenvolvimento da sociedade a partir da ilustração em que cabe o importante papel de oferecer educação e formação cultural, conduziu inexoravelmente à barbárie. Ou, para dizer o mesmo pelo reverso: o próprio processo que impõe a barbárie aos homens ao mesmo tempo constitui a base de sua sobrevivência. Eis aqui o nó a ser desatado.
A função da teoria crítica seria justamente analisar a formação social em que isso se dá, revelando as raízes deste movimento que não são acidentais e descobrindo as condições para interferir em seu rumo. O essencial é pensar a sociedade e a educação, incluindo a EJA, em seu devir. Só assim seria possível fixar alternativas tendo como base a emancipação de todos no sentido de se tornarem sujeitos refletidos de história aptos a interromper a barbárie e realizar o conteúdo positivo, emancipatório. Porém, seria uma tarefa que diz respeito a características do objeto de formação social em seu movimento, por isso a educação é necessária para produzir a situação vigente, parece impotente para transformá-la.
Ainda sobre a emancipação do eu, Byung-Chul Han (2017), no capítulo cinco do seu livro Sociedade do Cansaço diz que a vida contemplativa pressupõe uma pedagogia específica do ver. No Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche (1888 APUD HAN, 2017) formula três tarefas, em vista das quais a gente precisa de educadores. Quando devemos aprender a ler, pensar, falar e escrever. A meta desse aprendizado seria, segundo Nietzsche, a cultura distinta, porque aprender a ver significado “habituar o olho ao descanso, à paciência, ao deixar-aproximar-se-de-si”, isto é, capacitar o olho a uma atenção profunda a um olhar demorado e lento, esse aprender-a-ver seria a primeira pré-escolarização para o caráter do espírito (Geistigkeit). Temos que aprender a não reagir imediatamente a um estímulo, mas tomar o controle dos instintos inibidos.
A falta de espírito, falta de cultura se atrela na incapacidade de oferecer resistência a um estímulo de reagir de imediato e seguir a todo e qualquer impulso que já se considera uma doença, uma decadência. Nesse sentido, ao considerar a Educação de Jovens e Adultos (EJA), percebemos que o aprender-a-ver não é apenas uma prerrogativa da juventude, mas também uma necessidade para os adultos que buscam a revitalização da vida contemplativa. Essa vida não é um abrir-se passivo que diz sim a tudo que advém e acontece. Ao contrário, ela oferece resistência aos estímulos opressivos. A EJA, ao propor esse aprendizado, desafia a visão convencional da educação como restrita apenas à juventude, reconhecendo a importância da cultura distinta para todos, independentemente da idade.
Isto corresponde uma instituição escolar em cuja estruturação não se perpetua em desigualdades especificas das classes, mas que, partindo de uma superação das barreiras classistas, torna possível o desenvolvimento em direção a emancipação mediante uma motivação do aprendizado baseada numa oferta diversificada. Para nos expressarmos em termos gerais, isso não significa emancipação mediante a escola para todos, mas emancipação pela demolição da estruturação vigente em três níveis e por intermédio de uma oferta formativa diferenciada e múltipla em todos os níveis da pré-escola até o aperfeiçoamento permanente que possibilita o desenvolvimento da autonomia em cada indivíduo o qual precisa assegurar sua emancipação em um mundo que está determinado a governa-lo
Parece-me ser possível mostrar claramente a partir de toda a concepção educacional até hoje existente na Alemanha Federal que no fundo não somos educados para a emancipação. Pensando na simples situação da estruturação tríplice de nossa educação em escolas para os denominados altamente dotados, em escolas para os denominados medianamente dotados e em muitas escolas para os que seriam praticamente desprovidos de talento, encontra-se nela já prefigurada uma determinada menoridade inicial.[...] Acredito que não fazemos jus completamente a questão da emancipação se não iniciamos por superar, por meio do esclarecimento, o falso conceito de talento, determinante em nossa educação. Muitos de nossos ouvintes sabem que recentemente publicamos o laudo "Talento e aprendizado", do "Conselho Alemão de Educação, em que procuramos tornar claro com base em catorze laudos de psicólogos e sociólogos que o talento não se encontra previamente configurado nos homens, mas que, em seu desenvolvimento, ele depende do desafio a que cada um e submetido. Isto quer dizer que é possível "conferir talento" a alguém. A partir disto a possibilidade de levar cada um a "aprender por intermédio da motivação" converte-se numa forma particular do desenvolvimento da emancipação. (ADORNO, 2022)
Diante do que foi exposto fica evidente a necessidade de se construir uma educação que deslumbre a construção da narrativa dos indivíduos para além dos limites estritamente pedagógicos, através de mecanismos dialéticos que possam transgredir a estrutura de um mundo aparentemente pré-determinado.
6. CONCLUSÃO
Em síntese, a abordagem da Pedagogia integradora e emancipação são pilares essenciais para o empoderamento educacional pois revela-se como um caminho promissor para garantir a essência disciplinar e fomentar uma experiência compartilhada no âmbito educacional. Ao explorar as contribuições dos pensadores citados no texto, o presente artigo ressalta a importância de uma educação que transcende os limites do currículo convencional.
A análise enfatiza a relevância de uma abordagem autocontemplativa que permita ao indivíduo descobrir-se na realidade em que está inserido, promovendo a superação de sua própria visão sobre o mundo e sobre si mesmo, essa perspectiva contribui significativamente para a construção do empoderamento individual e da narrativa pessoal, além de fortalecer as relações interpessoais. A proposta delineada ao longo do texto destaca a necessidade de uma educação que ultrapasse a realidade imediata, visando a formação de indivíduos conscientes de si mesmos e da construção do mundo natural. Nesse contexto, a inclusão da Educação de Jovens e Adultos (EJA) reforça a importância de adaptar e ampliar as práticas educacionais para atender às diversas demandas e realidades dos jovens e adultos envolvidos no processo de aprendizagem.
Portanto, ao buscar uma emancipação efetiva dos espaços escolares, é imperativo reconhecer a singularidade de cada indivíduo, proporcionando uma educação que não apenas instrua, mas também inspire a reflexão crítica, a autodescoberta e o contínuo desenvolvimento pessoal. Essa abordagem, enraizada na aceitação e na dinâmica de rotação de palavras, promove uma transformação profunda nos modos de ensinar e aprender, contribuindo para a construção de uma sociedade mais consciente, inclusiva e capaz de enfrentar os desafios contemporâneos.
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1 Graduanda de Licenciatura em Filosofia da Universidade do Estado do Amapá
2 Professor da Universidade do Estado do Amapá, doutor em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Goiás (PPGFIL), na linha de Lógica e Filosofia da Linguagem.