FORMAÇÃO MÉDICA E PROMOÇÃO DO ALEITAMENTO MATERNO NA ADOLESCÊNCIA EM TERRITÓRIO VULNERÁVEL NA AMAZÔNIA: RELATO DE EXPERIÊNCIA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE

MEDICAL TRAINING AND THE PROMOTION OF BREASTFEEDING AMONG ADOLESCENTS IN A VULNERABLE AREA OF THE AMAZON: NA EXPERIENCE REPORT IN PRIMARY HEALTH CARE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782180720

RESUMO
A Atenção Primária à Saúde (APS) desempenha papel fundamental na promoção da saúde e na redução das desigualdades sociais, especialmente em territórios caracterizados por vulnerabilidade social. Nesse contexto, a inserção de acadêmicos de medicina nos serviços da Estratégia Saúde da Família (ESF) contribui para o fortalecimento da integração ensino-serviço-comunidade e para o desenvolvimento de competências profissionais alinhadas aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). O presente estudo tem como objetivo relatar a experiência de acadêmicos do curso de Medicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ) no acompanhamento das atividades assistenciais e educativas desenvolvidas na Estratégia Saúde da Família Pratinha I, localizada no município de Belém, Pará, com ênfase nas ações voltadas à promoção do aleitamento materno na adolescência. Trata-se de um estudo descritivo, qualitativo, do tipo relato de experiência, desenvolvido entre fevereiro de 2024 e junho de 2026. Durante o período, os acadêmicos participaram de atividades de acolhimento, triagem, acompanhamento pré-natal, visitas domiciliares, campanhas de vacinação e ações de educação em saúde voltadas principalmente para gestantes e lactantes adolescentes. As experiências vivenciadas permitiram compreender a importância da APS como espaço estratégico para promoção da saúde materno-infantil e fortalecimento do vínculo entre comunidade e serviços de saúde. Além disso, a inserção dos discentes em território vulnerável favoreceu o desenvolvimento de competências clínicas, sociais e humanísticas essenciais à formação médica. Conclui-se que as ações extensionistas desenvolvidas na APS contribuem significativamente tanto para a qualificação da formação acadêmica quanto para o fortalecimento das estratégias de cuidado integral à população.
Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Aleitamento Materno; Adolescência; Educação em Saúde; Formação Médica.

ABSTRACT
Primary Health Care (PHC) plays a fundamental role in promoting health and reducing social inequalities, especially in territories characterized by social vulnerability. In this context, the inclusion of medical students in the services of the Family Health Strategy (FHS) contributes to strengthening the integration of teaching, service, and community and to the development of professional competencies aligned with the principles of the Unified Health System (SUS). This study aims to report the experience of medical students from the Metropolitan University Center of the Amazon (UNIFAMAZ) in monitoring the care and educational activities developed in the Pratinha I Family Health Strategy, located in the municipality of Belem Para, with an emphasis on actions aimed at promoting breastfeeding in adolescence. This is a descriptive, qualitative study, of the experience report type, developed between February 2024 and June 2026. During this period, the students participated in welcoming activities, screening, prenatal care, home visits, vaccination campaigns, and health education actions aimed mainly at pregnant and lactating adolescents. The experiences lived allowed us to understand the importance of PHC as a strategic space for promoting maternal and child health and strengthening the bond between the community and health services. In addition, the insertion of students in vulnerable territory favored the development of clinical, social, and humanistic skills essential to medical training. It is concluded that the extension activities developed in PHC contribute significantly both to the qualification of academic training and to the strengthening of comprehensive care strategies for the population.
Keywords: Primary Health Care; Breastfeeding; Adolescence; Health Education; Medical Training.

1. INTRODUÇÃO

A Atenção Primária à Saúde (APS) representa o primeiro nível de contato da população com o Sistema Único de Saúde (SUS) e constitui um dos pilares fundamentais para a organização da rede de cuidados em saúde no Brasil. Estruturada a partir de princípios como acessibilidade, integralidade, longitudinalidade do cuidado e coordenação da atenção, a APS busca atender às necessidades da população por meio de ações de promoção da saúde, prevenção de doenças, diagnóstico precoce e assistência contínua dos usuários (Giovanella et al., 2020; Rodrigues et al., 2024; Souza et al., 2024).

Dentro desse contexto, o modelo organizador da atenção básica chamado de Estratégia Saúde da Família (ESF) foi criado e desenvolvido com o intuito de promover um cuidado integral da população; ampliando o acesso aos serviços, assim como, reduzindo as desigualdades em saúde, especialmente em territórios caracterizados por vulnerabilidade social, onde são frequentemente observados limitações estruturais, condições precárias de moradia e ausência de saneamento básico (Furtado et al., 2021; Sousa et al., 2026).

A inserção precoce de estudantes de medicina nos serviços da atenção primária tem sido apontada e reconhecida como uma importante estratégia pedagógica para fortalecer a integração ensino-serviço-comunidade e, dessa maneira, contribuir para a formação de profissionais mais comprometidos com os princípios do SUS. Essa aproximação com o território permite aos estudantes compreender de forma mais ampla os fatores sociais, econômicos e ambientais que influenciam o processo saúde-doença, além de possibilitar o desenvolvimento de competências clínicas, sociais e humanísticas alinhadas às necessidades da população (Silveira et al., 2020; Espíndola et al., 2025).

Dentre os diversos temas abordados no âmbito da APS, destaca-se a promoção do aleitamento materno, pois, trata-se de uma das estratégias mais eficazes para a redução da morbimortalidade infantil e para a promoção da saúde materno-infantil. Sendo o incentivo ao aleitamento materno um tópico ainda mais relevante em contextos de gestação na adolescência, situação associada a maior vulnerabilidade social e a desafios específicos relacionados ao cuidado com o recém-nascido (WHO, 2021).

Nesse cenário, as ações educativas desenvolvidas nas unidades de saúde tornam-se essenciais e fundamentais no apoio às gestantes e lactantes adolescentes, contribuindo assim, para o fortalecimento de práticas de cuidado e para a promoção da saúde infantil (Brasil, 2022).

2. OBJETIVO

Relatar a experiência de acadêmicos do curso de Medicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), no acompanhamento das atividades assistenciais e educativas desenvolvidas na Unidade Saúde da Família (USF) localizada no bairro Pratinha I, no município de Belém, Pará, com ênfase nas ações voltadas à assistência materno-infantil, educação em saúde e campanhas sobre o aleitamento materno na adolescência.

3. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, de cunho qualitativo, do tipo relato de experiência, vivenciado pelos alunos do curso de Medicina de uma instituição privada do Estado do Pará. O mesmo, desenvolveu-se no período de fevereiro de 2024 à junho de 2026, na Estratégia Saúde da Família (ESF) Pratinha I, em Belém do Pará.

3.1. Relato da Experiência

O projeto de extensão foi desenvolvido a partir do primeiro semestre de 2024, por seis discentes do curso de medicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), inseridos na antiga Unidade Municipal de Saúde (UMS) localizada no bairro Pratinha I, no município de Belém, estado do Pará. O mesmo fez parte das atividades propostas pela unidade curricular do curso chamada de Integração, Ensino, Serviço e Comunidade (IESCG), tendo como público alvo, adolescentes gestantes ou lactantes.

Destaca-se que, no início de 2024, a unidade passou por uma transição e tornou-se uma Estratégia Saúde da Família (ESF), passando a contar com uma equipe multiprofissional e com a incorporação de agentes comunitários aos serviços de saúde (ACS). Estes agentes são oriundos da próprio bairro, conhecem as lideranças populares e são capazes de criar vínculos estreitos entre os setores, trabalhando assim, à favor da comunidade Pratinha, mediante a realização de atividades balizadas pela lógica territorial de organização dos serviços, como visitas domiciliares e cadastramento da população.

O território atendido pela unidade caracteriza-se por apresentar importantes vulnerabilidades sociais, incluindo limitações relacionadas à infraestrutura urbana, ausência ou precariedade de saneamento básico em diversas áreas e condições socioeconômicas que impactam diretamente as condições de saúde da população. Nesse contexto, a unidade de saúde desempenha papel essencial na oferta de serviços de promoção da saúde, prevenção de doenças e acompanhamento longitudinal dos usuários.

A ESF Pratinha I oferece serviços de todos os programas preconizados pelo Ministério da Saúde, contudo, em decorrência das necessidades do bairro, observou-se efetivamente os programas voltados à Saúde do Idoso, Saúde da Mulher e Saúde da Criança. A unidade possui horário de atendimento das 8h às 17h, e conta com atendimento odontológico, psicológico, nutricional, sala de vacinação e ainda, conta com o Programa de Prevenção de Câncer do Colo Uterino (PCCU).

A unidade de saúde encontra-se organizada segundo a lógica da Estratégia Saúde da Família (ESF), contando com seis equipes multiprofissionais responsáveis pelo acompanhamento da população adscrita do território. Cada equipe é composta por um médico, um enfermeiro, um técnico de enfermagem e cinco agentes comunitários de saúde, os quais receberam capacitação técnica complementar ao longo da atuação profissional. Os integrantes das equipes exercem carga horária semanal de 40 horas, conforme estabelecido para os serviços de Atenção Primária à Saúde, desempenhando funções relacionadas ao cuidado integral da comunidade. Entre suas atribuições destacam-se a realização de visitas domiciliares, acompanhamento familiar, agendamento de consultas, ações de acolhimento e triagem, bem como atividades de educação em saúde voltadas à promoção da saúde e prevenção de agravos.

Além dos profissionais assistenciais, a unidade conta com equipe administrativa e profissionais responsáveis pelos serviços gerais, garantindo o funcionamento adequado das atividades desenvolvidas. Estruturalmente, a ESF dispõe de consultórios médicos e de enfermagem, sala de vacinação, setor de triagem, atendimento psicológico, atendimento odontológico, acompanhamento nutricional, farmácia e espaço destinado à realização de testes rápidos. Ademais, a unidade apresenta área externa utilizada para campanhas educativas, ações coletivas e atividades de promoção da saúde desenvolvidas junto à comunidade.

No primeiro semestre do curso, com o intuito de promover o reconhecimento da realidade comunitária e proporcionar aos discentes um período inicial de familiarização com a unidade, os estudantes participaram de atividades na sala de triagem de pacientes, onde tiveram a oportunidade de aplicar conhecimentos técnicos sob supervisão qualificada da preceptora. Durante essas experiências, os discentes aprenderam a realizar medidas antropométricas, aferição da pressão arterial e verificação da glicemia capilar e realização de testes rápidos para HIV, Sífilis, Hepatite B e C; o que contribuiu significativamente para o desenvolvimento de competências clínicas e para a compreensão ampliada dos cuidados em saúde no contexto da atenção primária.

Ademais dessa vivência inicial, os discentes tiveram oportunidade de realizar diversas reuniões com os ACS, com o intuito de identificar as principais demandas enfrentadas pela unidade de saúde e os desafios que precisariam ser enfrentados para o desenvolvimento do projeto. Como principal desafio, identificou-se a dificuldade na implementação de ações de saúde na comunidade, especialmente nas áreas mais afastadas da unidade, assim como, a grande quantidade de atendimentos de grupos específicos, como idosos e gestantes.

Aliás, o contato com gestantes e lactantes tornou-se mais estreito durante os dois primeiros semestres, uma vez que realizou-se seu acompanhamento, sob supervisão da equipe de enfermagem, com atendimentos voltados ao cuidado materno-infantil, especialmente consultas de pré-natal. Paralelamente às atividades assistenciais, o grupo desenvolveu ações de educação em saúde voltadas às gestantes, abordando temas relacionados ao acompanhamento gestacional, cuidados no período gravídico-puerperal e incentivo ao aleitamento materno.

A partir da observação criteriosa da comunidade atendida pela ESF e considerando a demanda do território, optou-se por definir como eixo central em educação em saúde o tema “A importância do aleitamento materno na adolescência”. A escolha do mesmo ocorreu em virtude da presença de grande número de gestantes em idade precoce na comunidade Pratinha I, assim como, da necessidade de fortalecer práticas de cuidado voltadas à saúde materno-infantil.

As orientações repassadas enfatizavam, dentre outras coisas, a importância da amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida, conforme recomendado pela Organização Mundial da Saúde, destacando seus benefícios nutricionais, imunológicos e emocionais para o desenvolvimento infantil (WHO, 2021). As atividades educativas foram desenvolvidas por meio de palestras, rodas de conversa e distribuição de materiais informativos destinados às gestantes, puérperas e familiares. Durante esses encontros, foram abordados temas como benefícios do aleitamento materno, técnicas adequadas de amamentação, prevenção de dificuldades no processo de amamentação e armazenamento do leite materno, além da importância do apoio familiar nesse período.

Durante os anos de 2024 a 2026, foram organizadas ações e executadas atividades de educação em saúde associadas a campanhas nacionais de prevenção, dentre elas pode-se destacar o Março Lilás, voltado à prevenção do câncer do colo do útero; Agosto Dourado, dedicado à promoção do aleitamento materno; Outubro Rosa, relacionado à prevenção do câncer de mama; e Novembro Azul, voltado à conscientização sobre a saúde do homem. Durante essas campanhas, foram realizadas palestras educativas, orientações individuais e distribuição de folders, buscando ampliar o acesso da população a informações relacionadas à promoção da saúde e prevenção de doenças.

Outra atividade relevante foi a participação em campanhas de vacinação desenvolvidas na unidade, assim como, em escolas públicas de ensino fundamental da comunidade Pratinha I. Auxiliando na organização do fluxo de usuários, na orientação da população e no apoio às atividades da equipe de imunização, reforçando a importância da vacinação como uma das estratégias mais eficazes para a prevenção de doenças imunopreveníveis.

Além das atividades assistenciais, foram desenvolvidas ações de educação em saúde e atualização dentro da própria ESF Pratinha I, com intuito de promover momentos de orientação coletiva das equipes formadas pelos agentes comunitários do setor, sobre temas relevantes para a saúde pública, e, dessa forma, conseguir minimizar a superlotação da unidade, reduzir a evasão dos usuários do sistema e promover maior adesão ao atendimento e acompanhamento pelos profissionais de saúde.

Destaca-se ainda, a realização de diversas visitas domiciliares acompanhando a equipe de saúde e com o auxílio dos agentes comunitários; ingressando diretamente no Bairro Pratinha I para atender, desde gestantes e lactantes, a pessoas idosas com dificuldade de locomoção ou incapacidades. Estas visitas foram realizadas adentrando ruas estreitas e vias sem saída, palafitas e prédios praticamente abandonados, contudo, as mesmas possibilitaram maior aproximação com a realidade social da comunidade, permitindo observar aspectos relacionados às condições de moradia, estrutura familiar e fatores ambientais que influenciam diretamente o processo saúde-doença.

Nos semestres subsequentes, as atividades passaram a ser acompanhadas pelo médico da unidade, o Dr. Matheus Oliveira, possibilitando maior inserção nas atividades clínicas desenvolvidas no âmbito da Atenção Primária à Saúde. Durante esse período, os acadêmicos participaram de atividades de acolhimento e triagem dos usuários, contribuindo para a identificação das principais demandas de saúde da população atendida.

Apesar de que o atendimento médico foi mais evidente entre a população idosa, os discentes ainda tiveram a oportunidade de desenvolver atividades educativas focadas para o público alvo do projeto, ou seja, para adolescentes, tanto gestantes quanto lactantes. O foco das atividades principal foi a educação em saúde, proporcionando informações relevantes a respeito do ato de amamentar e sua importância para ambas as partes (mãe e bebê).

Durante ação educativa realizada em alusão ao Dia das Mães, foram desenvolvidas estratégias lúdicas e interativas com distribuição de brindes simbólicos, objetivando estimular a participação das usuárias e ampliar o interesse pelas orientações relacionadas ao aleitamento materno. Observou-se elevada adesão das participantes, favorecendo esclarecimento de dúvidas, troca de experiências e fortalecimento das ações educativas desenvolvidas pela equipe multiprofissional.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A experiência relatada na Estratégia Saúde da Família do bairro Pratinha I evidencia o potencial transformador das ações voltadas para a extensão acadêmica no contexto da Atenção Primária à Saúde (APS), demonstrando a importância desse eixo estruturante, principalmente por se tratar de um território socialmente vulnerável. Assim, as unidades de saúde tornam-se um espaço privilegiado para a formação de profissionais de saúde comprometidos com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), promovendo equidade em saúde e garantindo acesso a ações preventivas, assistenciais e educacionais (Mendonça et al., 2018; Furtado et al., 2021; Rodrigues et al., 2024).

A integração entre ensino e serviço, quando orientada por princípios da educação popular e da promoção da saúde, pode gerar impactos positivos tanto na formação discente quanto na qualificação do cuidado prestado à comunidade. Diante do exposto, torna-se evidente que a inserção de estudantes nos serviços de APS permite a aproximação com a realidade social da população e favorece o desenvolvimento de competências relacionadas à prática clínica, comunicação em saúde e trabalho em equipe multiprofissional (Da Costa et al., 2025; Espíndola et al., 2025).

Em territórios caracterizados por vulnerabilidade social, as unidades básicas muitas vezes representam o principal ponto de acesso da população aos serviços de saúde, sendo responsáveis por ações assistenciais e educativas que buscam fortalecer o cuidado integral (Souza et al., 2024). A cidade de Belém, capital do Estado do Pará, já foi citada pelo Ministério da Saúde (MS) como uma das mais exitosas experiências de implantação da Estratégia Saúde da Família no país. Contudo, de acordo com as estatísticas do Departamento de Atenção Básica (DAB) do Ministério da Saúde, até o ano de 2022, registrou-se em termos de cobertura populacional, que apenas 32,97% da população é atendida pela ESF.

Sabe-se que, esse quantitativo foi obtido através do novo método de cálculo instituído pelo Programa Previne Brasil (Portaria nº 2.979, de 12 de novembro de 2019), o qual considera o quantitativo de população cadastrada pelas Equipes de Saúde da Família (eSF) e Equipes de Atenção Primária (eAP) financiadas pelo Ministério da Saúde (MS) em relação à população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Porém, deve-se destacar que o indicador considerado não engloba aspectos amplos relacionados ao processo saúde-doença, o que pode sugerir que a problemática envolvendo a atenção primária à saúde em Belém é ainda mais complexa.

O bairro Pratinha, localizado na zona norte, ao lado do Aeroporto Internacional de Belém, é cortado pela importante rodovia Arthur Bernardes e pertence ao Distrito Administrativo do Bengui (DABEN). Este bairro abriga diversas fábricas, possuindo intensa atividade industrial e portuária, pois situa-se às margens da Baía do Guajará. Com uma população estimada em cerca de 22.916 habitantes, no bairro proliferam conjuntos habitacionais bem como ocupações irregulares de famílias de baixa renda, com problemas de infraestrutura, saneamento deficiente e déficit de segurança (IBGE, 2022).

Nesse contexto de vulnerabilidade social, observa-se que fatores relacionados à baixa renda, limitações no acesso à informação, precariedade habitacional e dificuldades de acesso contínuo aos serviços de saúde podem impactar diretamente os indicadores de saúde materno-infantil da comunidade. Além disso, a gestação na adolescência, frequentemente associada a contextos de maior fragilidade socioeconômica, representa importante desafio para a adesão às práticas adequadas de cuidado durante o período gestacional e puerperal. Dessa forma, as ações desenvolvidas pela equipe multiprofissional da Estratégia Saúde da Família tornam-se essenciais para fortalecer o vínculo com as usuárias, ampliar o acesso à informação e promover estratégias de educação em saúde voltadas ao cuidado integral da mãe e do recém-nascido (Sousa et al, 2026).

A atuação da equipe multiprofissional, especialmente no acompanhamento de gestantes e lactantes, reforça a importância do cuidado integral durante o período gestacional e puerperal. O acompanhamento adequado no pré-natal contribui para a prevenção de complicações maternas e neonatais, além de favorecer melhores desfechos em saúde para mãe e criança. Nesse cenário, a atuação da equipe de enfermagem mostrou-se essencial na realização de consultas, orientações e acompanhamento contínuo das gestantes.

Ainda no que se refere à saúde materno-infantil, pode-se destacar que o incentivo ao aleitamento materno constitui uma estratégia essencial para a promoção da saúde da criança e para a prevenção de doenças. Estudos apontam que a amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida está associada à redução significativa da mortalidade infantil, além de contribuir para o desenvolvimento imunológico, nutricional e cognitivo da criança (Victora et al., 2023).

Tratando-se da gestação na adolescência, ações educativas voltadas ao apoio às mães jovens tornam-se ainda mais relevantes, uma vez que esse grupo frequentemente enfrenta desafios adicionais relacionados ao acesso à informação, apoio social e continuidade dos cuidados de saúde (WHO, 2022).

A literatura já evidencia que o desenvolvimento de programas de educação em saúde aliados a abordagens lúdicas e participativas são capazes de melhorar significativamente o autocuidado dos usuários do SUS, promovendo autonomia. Por isso, as ações de educação em saúde realizadas demonstraram-se ferramentas importantes para o empoderamento da população, possibilitando maior compreensão sobre prevenção de doenças e promoção da saúde. Uma vez que, a abordagem de temas como; aleitamento materno, câncer de mama, câncer de colo do útero e saúde do homem permitiram ampliar o acesso à informação e estimular o autocuidado. Além disso, a participação em campanhas de vacinação reforçaram a importância das estratégias coletivas de prevenção, fundamentais para o controle de doenças imunopreveníveis (Miranda et al., 2024).

Nesse contexto, iniciativas de educação em saúde desenvolvidas no âmbito da Atenção Primária foram essenciais para fortalecer o vínculo entre profissionais de saúde e comunidade, promovendo, dessa forma, maior autonomia dos usuários e incentivando práticas de cuidado mais saudáveis. Além disso, os projetos extensionistas ampliam a capacidade de resposta das unidades de APS, ao mesmo tempo que favorecem o aprendizado ativo, o desenvolvimento de competências interprofissionais e o fortalecimento do compromisso social dos profissionais da área de saúde (Musselin et al., 2020).

Por fim, a participação em visitas domiciliares permitiu ampliar a compreensão dos determinantes sociais da saúde, evidenciando como fatores relacionados às condições de moradia, infraestrutura urbana e contexto socioeconômico influenciam diretamente os processos de adoecimento e cuidado (Souza Torres et al., 2021).

Diante do exposto, pode-se afirmar que, para os acadêmicos de medicina, a inserção nesse cenário contribui significativamente para o desenvolvimento de competências relacionadas à prática clínica, comunicação em saúde, trabalho em equipe e compreensão da realidade social da população atendida pelo SUS; fortalecendo, dessa forma, a formação de profissionais mais preparados para atuar em contextos diversos e complexos do sistema de saúde (Santana et al., 2021; Schott et al., 2023).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A experiência vivenciada na Estratégia Saúde da Família (ESF) do bairro Pratinha I permitiu aos acadêmicos de Medicina ampliar sua compreensão sobre a dinâmica da Atenção Primária à Saúde (APS) e, a respeito dos desafios relacionados à assistência em territórios caracterizados por vulnerabilidade social.

A participação em atividades assistenciais, educativas e preventivas, foram estratégias fundamentais para a promoção de saúde e prevenção de doenças, contribuindo para o desenvolvimento de competências essenciais à formação médica, tais como; a comunicação com pacientes, trabalho em equipe multiprofissional e compreensão da realidade social da população atendida. Representando, dessa forma, uma oportunidade significativa de aprendizado para os acadêmicos, permitindo a integração entre formação acadêmica e prática em saúde pública, e promovendo o fortalecimento do vínculo entre os serviços de saúde e a comunidade.

As ações voltadas à promoção do aleitamento materno na adolescência destacaram a importância das estratégias de educação em saúde voltadas para o acolhimento e orientação da população jovem, promovendo o estreitamento e aprimoramento do cuidado materno-infantil, assim como, a promoção de práticas de saúde mais adequadas e viáveis para mães consideradas inexperientes. Ademais, a experiência permitiu compreender que a promoção do aleitamento materno na adolescência ultrapassa aspectos exclusivamente biológicos, envolvendo também determinantes sociais, emocionais e culturais que influenciam diretamente o cuidado materno-infantil.

Dessa forma, o fortalecimento das ações educativas e da integração entre universidade, serviços de saúde e comunidade mostra-se indispensável para consolidação de práticas assistenciais mais humanizadas, resolutivas e socialmente comprometidas.

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1 Discente do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), Belém – PA. 

2 Discente do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), Belém – PA. 

3 Discente do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), Belém – PA. 

4 Discente do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), Belém – PA. 

5 Discente do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), Belém – PA. 

6 Discente do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), Belém – PA. 

7 Docente da Unidade Saúde da Família (USF) Pratinha I, Belém – PA.