FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO INCLUSIVA DE ESTUDANTES SURDOS: CONTRIBUIÇÕES DA PEDAGOGIA VISUAL NA PERSPECTIVA BILÍNGUE

CONTINUING TEACHER EDUCATION FOR THE INCLUSIVE EDUCATION OF DEAF STUDENTS: CONTRIBUTIONS OF VISUAL PEDAGOGY FROM A BILINGUAL PERSPECTIVE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/785192727

RESUMO
A formação continuada de professores constitui elemento central para a efetivação da educação inclusiva de estudantes surdos na perspectiva bilíngue, considerando a Libras como primeira língua e a Língua Portuguesa escrita como segunda língua. Este artigo tem como objetivo analisar as contribuições da Pedagogia Visual para a formação docente voltada ao atendimento educacional de estudantes surdos em contextos inclusivos. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, fundamentada nos Estudos Surdos e na educação bilíngue. A discussão teórica apoia-se em Skliar (1998), Quadros (2004, 2006), Lacerda (2013), Strobel (2009), Campelo (2008), Lebedeff (2010), Albres (2005) e Perlin (1998). Os resultados indicam que a formação continuada precisa contemplar conhecimentos linguísticos sobre a Libras, aspectos culturais e identitários da comunidade surda, estratégias de ensino baseadas na visualidade e o planejamento de práticas pedagógicas bilíngues. Conclui-se que a formação continuada necessita superar o modelo meramente instrumental, constituindo-se como um espaço reflexivo de reconfiguração epistemológica, no qual a visualidade é compreendida não como um mero recurso de apoio, mas como a modalidade central de cognição, linguagem e mediação do conhecimento do sujeito surdo. e que a Pedagogia Visual constitui um eixo estruturante da educação de surdos, contribuindo para a acessibilidade comunicacional, para a aprendizagem significativa e para a valorização da diferença linguística e cultural dos estudantes surdos.
Palavras-chave: Educação de Surdos; Educação Bilingue; Formação Continuada; Pedagogia Visual; Inclusão Escolar.

ABSTRACT
Continuing teacher education is a central element in the implementation of inclusive education for deaf students within a bilingual framework, recognizing Libras (Brazilian Sign Language) as the first language and written Portuguese as the second language. This article aims to analyze the contributions of Visual Pedagogy to teacher training focused on the educational needs of deaf students in inclusive settings. It is a qualitative bibliographic study grounded in Deaf Studies and bilingual education. The theoretical discussion draws upon the work of Skliar (1998), Quadros (2004, 2006), Lacerda (2013), Strobel (2009), Campelo (2008), Lebedeff (2010), Albres (2005), and Perlin (1998). The results indicate that continuing education must encompass linguistic knowledge regarding Libras, the cultural and identity-related aspects of the deaf community, visuality-based teaching strategies, and the planning of bilingual pedagogical practices. The study concludes that continuing education needs to move beyond a merely instrumental model and instead serve as a reflective space for epistemological reconfiguration—one where visuality is understood not merely as a support resource, but as the central modality of cognition, language, and knowledge mediation for the deaf individual. Furthermore, it establishes Visual Pedagogy as a structural pillar of deaf education, contributing to communicative accessibility, meaningful learning, and the valuing of deaf students' linguistic and cultural diferences.
Keywords: Deaf Education; Bilingual Education; Continuing Education; Visual Pedagogy; School Inclusion.

1. INTRODUÇÃO

A consolidação da Educação Bilíngue para Surdos no cenário educacional brasileiro — formalizada como modalidade de ensino pela Lei nº 14.191/2021 na LDB — exige transformações que vão além de adequações normativas. Historicamente submetidos a abordagens oralistas e integracionistas que buscavam normatizar a deficiência, os estudantes surdos passam a ter reconhecido o direito a uma escolarização pautada na Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua (L1) e na Língua Portuguesa na modalidade escrita como segunda língua (L2).

Nesse contexto, a formação continuada assume papel estratégico para a transformação das práticas pedagógicas. Segundo Lacerda (2013), a inclusão de estudantes surdos não se resume à matrícula em classes comuns, mas exige reorganização curricular, acessibilidade comunicacional e profissionais preparados para atuar em contextos bilíngues. A ausência dessa preparação compromete o desenvolvimento acadêmico e social dos estudantes surdos, reforçando práticas ouvintistas historicamente presentes na escola (SKLIAR, 1998).

Diante desse panorama, o problema central desta pesquisa sintetiza-se na questão: Como a formação continuada de professores, articulada aos pressupostos da Pedagogia Visual na perspectiva bilíngue, pode ressignificar as práticas pedagógicas para a efetiva inclusão e aprendizagem de estudantes surdos?

2. REVISÃO DA LITERATURA

2.1. Educação Bilíngue de Surdos e Formação Docente

A educação bilíngue para surdos compreende a Libras como primeira língua (L1) e a Língua Portuguesa, na modalidade escrita, como segunda língua (L2). Para Quadros (2004), essa proposta reconhece a surdez como diferença linguística e cultural, afastando-se de concepções clínicas centradas na deficiência.

De acordo com Skliar (1998), a educação de surdos deve ser compreendida como um campo de produção de identidades e de resistência às práticas de normalização. O autor critica o modelo escolar que subordina a experiência surda à lógica da oralidade, defendendo a constituição de espaços bilíngues em que a língua de sinais seja efetivamente língua de instrução.

A formação docente é elemento indispensável para a concretização dessa proposta. Cicilino et al. (2018) destacam que os cursos de formação precisam articular conhecimentos linguísticos, pedagógicos e culturais, possibilitando ao professor compreender a aquisição da Libras, o ensino de português escrito para surdos e as especificidades da aprendizagem visual.

Além disso, Albres (2005) evidencia que as políticas educacionais voltadas à educação de surdos passaram a enfatizar, a partir dos anos 1990, a necessidade de formação específica para atuação em contextos bilíngues, culminando na criação de cursos de Letras-Libras e em programas de formação continuada.

2.2. A Pedagogia Visual: Os Fundamentos e Contribuições

A Pedagogia Visual baseia-se no reconhecimento da visualidade como dimensão constitutiva da experiência surda. Campelo (2008) afirma que o sujeito surdo organiza sua relação com o mundo prioritariamente por meio de experiências visuais e espaciais, o que demanda práticas pedagógicas coerentes com essa forma de apreensão da realidade.

Conforme Lebedeff (2010) argumenta que a visualidade não deve ser entendida apenas como uso de imagens, mas como uma lógica de organização do ensino que envolve o corpo, o espaço, o movimento e a interação em língua de sinais. Nessa perspectiva, o professor precisa aprender a:

  • Utilizar recursos visuais e multimodais;

  • planejar aulas com apoio de vídeos em Libras;

  • explorar mapas conceituais, infográficos e esquemas visuais;

  • organizar o espaço da sala para favorecer a comunicação visual;

  • utilizar expressões faciais e corporais como elementos de mediação pedagógica.

Conforme Gomes e Souza (2020), ao analisarem recursos visuais em um livro didático digital acessível, concluíram que vídeos em Libras, ilustrações e objetos pedagógicos contribuíram significativamente para a compreensão dos conteúdos por estudantes surdos, embora a mediação docente permanecesse fundamental para atribuição de significado às atividades.

2.3. A Formação Continuada e as Práticas Pedagógicas Inclusivas

A formação continuada deve ser concebida como processo permanente de reflexão crítica sobre a prática. Para Nóvoa (1995), o desenvolvimento profissional docente ocorre na articulação entre experiência, estudo e colaboração entre pares.

No caso da educação de surdos, essa formação precisa contemplar dimensões específicas, apresentadas no quadro a seguir.

Quadro 1. Eixos da formação continuada para educação de estudantes surdos

Eixo formativo

Contribuições para a prática docente

Libras

Amplia a comunicação direta com o estudante surdo.

Cultura e identidade surda

Favorece práticas não ouvintistas e o respeito à diferença.

Pedagogia Visual

Possibilita estratégias de ensino baseadas na visualidade.

Ensino de português escrito

Auxilia na aprendizagem da L2 em perspectiva bilíngue.

Tecnologias acessíveis

Promove acessibilidade comunicacional e digital.

Planejamento colaborativo

Integra professor regente, AEE e TILSP.

Fonte: Elaborado pela autora (2026).

Os estudos recentes sobre formação continuada apontam que os professores reconhecem lacunas em sua preparação para trabalhar com estudantes surdos, especialmente quanto ao domínio da Libras e à elaboração de materiais visuais acessíveis (Caldas, 2024).

Além disso, documentos orientadores sobre educação bilíngue inclusiva reforçam que a formação deve ocorrer de forma contextualizada, articulada às demandas reais das redes de ensino e com participação da comunidade surda nos processos formativos.

3. METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter descritivo. Foram consultadas obras de referência sobre educação bilíngue de surdos, pedagogia visual, formação docente e educação inclusiva.

A análise dos dados foi realizada por meio da análise de conteúdo proposta por Bardin (2016), seguindo as etapas de pré-análise, exploração do material e interpretação dos resultados. As categorias temáticas foram organizadas em: (i) educação bilíngue de surdo e formação docente ( ii ) a Pedagogia visual os fundamentos e contribuições (iii) a formação continuada e as práticas pedagógicas inclusivas (iiii). Com base nos autores referentes a temática, buscou-se na base de dados do Google Acadêmico, Scielo e demais fontes online.

3.1. Educação Bilíngue de Estudantes Surdos

A educação bilíngue de surdos fundamenta-se no reconhecimento da Libras como língua natural da comunidade surda e do português escrito como segunda língua. Para Quadros (2004), essa proposta rompe com modelos oralistas e possibilita o acesso ao conhecimento por meio de uma língua plenamente acessível ao estudante surdo.

Como Lebedeff (2010) enfatiza que recursos como imagens, mapas conceituais, vídeos em Libras, infográficos e objetos digitais de aprendizagem favorecem a compreensão dos conteúdos e ampliam a autonomia do estudante surdo.

Além dos recursos didáticos, a visualidade envolve a organização do ambiente escolar, a disposição das carteiras, a iluminação adequada e a garantia de contato visual entre professor, intérprete e estudantes. Tais elementos contribuem para uma comunicação mais eficiente e para a participação ativa do aluno surdo nas atividades escolares.

3.2. Pedagogia da Visualidade e Aprendizagem do Estudante Surdo

A pedagogia visual compreende a visualidade como eixo estruturante da aprendizagem do estudante surdo. Campello (2008) afirma que a construção do conhecimento ocorre por meio de experiências visuais, espaciais e corporais, exigindo estratégias pedagógicas que privilegiem a percepção visual e a organização imagética das informações.

Além dos recursos didáticos, a visualidade envolve a organização do ambiente escolar, a disposição das carteiras, a iluminação adequada e a garantia de contato visual entre professor, intérprete e estudantes. Tais elementos contribuem para uma comunicação mais eficiente e para a participação ativa do aluno surdo nas atividades escolares

3.3. Formação de Professores para a Educação Inclusiva

A formação docente constitui um dos principais fatores para a efetivação da educação inclusiva. Tardif (2014) compreende os saberes docentes como um conjunto de conhecimentos profissionais, curriculares e experienciais construídos ao longo da trajetória do professor.

Sendo assim Nóvoa (1992) defende que a formação continuada deve estar articulada à prática pedagógica e à reflexão crítica sobre o cotidiano escolar. No caso da educação de surdos, isso implica desenvolver competências relacionadas à Libras, cultura surda, à adaptação curricular e ao uso de metodologias visuais.

Conforme Mantoan (2003) ressalta que a inclusão escolar exige mudanças estruturais e pedagógicas, superando práticas excludentes e garantindo condições de aprendizagem para todos os estudantes.

Quadro 2. Contribuições teóricas para a formação docente

Autor

Contribuição

Quadros (2004)

Educação bilíngue e Libras

Skliar (1997)

Surdez como diferença linguística

Strobel (2008)

Cultura e identidade surda

Karnopp (2012)

Práticas pedagógicas em Libras

Campello (2008)

Pedagogia visual

Lebedeff (2010)

Recursos visuais e aprendizagem

Mantoan (2003)

Educação inclusiva

Tardif (2014)

Saberes docentes

Nóvoa (1992)

Desenvolvimento profissional

Fonte: Elaborado pela autora (2026).

Os estudos analisados revelam desafios recorrentes na formação de professores para a educação de estudantes surdos.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A análise das obras permitiu identificar que a formação continuada baseada na perspectiva bilíngue e da visualidade promove mudanças significativas nas práticas pedagógicas. Professores que participam de cursos de Libras e de oficinas sobre pedagogia visual tendem a utilizar estratégias mais interativas, com maior presença de recursos imagéticos e tecnológicos.

Observou-se também que a compreensão da cultura surda contribui para a construção de relações pedagógicas mais respeitosas e para o reconhecimento do estudante surdo como sujeito de direitos linguísticos e culturais.

Os resultados corroboram as discussões de Quadros (2004) e Campello (2008), ao evidenciar que a aprendizagem do estudante surdo é potencializada quando o ensino ocorre em uma língua acessível e por meio de experiências visuais significativas.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A formação continuada de professores na perspectiva bilíngue e da pedagogia visual constitui elemento indispensável para a efetivação da educação inclusiva de estudantes surdos. A ausência de conhecimentos em Libras e de metodologias visuais ainda representa uma barreira importante nas escolas brasileiras.

Por outro lado, práticas formativas que articulam Libras, cultura surda, recursos visuais e reflexão sobre a prática docente favorecem a construção de ambientes escolares mais acessíveis, colaborativos e inclusivos.

Defende-se, portanto, a ampliação de políticas públicas de formação docente voltadas à educação bilíngue de surdos, bem como o investimento na produção de materiais didáticos visuais e bilíngues. A inclusão do estudante surdo não depende apenas da sua matrícula na escola comum, mas da garantia de condições linguísticas, pedagógicas e culturais que assegurem sua participação e aprendizagem em igualdade de oportunidades.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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STROBEL, Karin. As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis: UFSC, 2009.


1 Discente do Curso Superior de Pós-graduação da Universidade Estadual do Maranhão – UEMA Campus São Luís. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Docente: do Curso Superior da Universidade Estadual do Maranhão – UEMA Campus São Luís. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail