FESTIVAL LITERÁRIO E ARTÍSTICO E FORMAÇÃO DE LEITORES: PRÁTICAS DE LETRAMENTO EXPANDIDO E CIRCULAÇÃO DE GÊNEROS DISCURSIVOS NA ESCOLA PÚBLICA

LITERARY AND ARTISTIC FESTIVAL AND READER EDUCATION: EXPANDED LITERACY PRACTICES AND THE CIRCULATION OF DISCURSIVE GENRES IN PUBLIC SCHOOLS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/774822083

RESUMO
Este artigo analisa o Festival Literário e Artístico de Canaã dos Carajás (FLACC) como uma prática de promoção da leitura no contexto da educação pública, à luz dos pressupostos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e das teorias dos gêneros do discurso e do letramento como prática social. Parte-se do seguinte problema de pesquisa: em que medida o FLACC contribui para a constituição de práticas de leitura socialmente situadas e para a ampliação da participação dos sujeitos nas diferentes esferas de circulação da linguagem? O objetivo do estudo é analisar o impacto do festival na formação de leitores, considerando a articulação entre escola, cultura e comunidade. Metodologicamente, trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, com elementos quantitativos, desenvolvido a partir da aplicação de questionários, análise de dados institucionais e observação das práticas de linguagem mobilizadas durante o evento. Os resultados indicam que a inserção da leitura em contextos sociais ampliados favorece o engajamento dos participantes, amplia a produção de sentidos e fortalece práticas de letramento social. Evidencia-se, ainda, que a integração entre diferentes linguagens, gêneros discursivos e mídias contribui para a construção de experiências significativas de leitura, em consonância com a perspectiva dos multiletramentos. Conclui-se que o FLACC se configura como um dispositivo relevante de ressignificação das práticas de leitura, embora sua efetividade dependa da continuidade das ações e de sua articulação com o cotidiano escolar.
Palavras-chave: Letramento social. Gêneros discursivos. BNCC. Multiletramentos. Leitura.

ABSTRACT
This article analyzes the Canaã dos Carajás Literary and Artistic Festival (FLACC) as a strategy for promoting reading in public education, based on the principles of the Brazilian National Common Curricular Base (BNCC) and on theories of discourse genres and literacy as a social practice. The study addresses the following research question: to what extent does the FLACC contribute to the development of socially situated reading practices and to the expansion of subjects’ participation in different spheres of language circulation? The objective is to examine the impact of the festival on reader formation, considering the articulation between school, culture, and community. Methodologically, this is a qualitative study with quantitative elements, based on questionnaires, institutional data analysis, and observation of language practices during the event. The results indicate that inserting reading into broader social contexts enhances participants’ engagement, expands meaning-making processes, and strengthens social literacy practices. Furthermore, the integration of multiple languages, discourse genres, and media contributes to meaningful reading experiences, in line with the multiliteracies perspective. The study concludes that the FLACC represents a relevant device for re-signifying reading practices, although its effectiveness depends on the continuity of actions and their integration into everyday school practices.
Keywords: Social literacy. Discourse genres. BNCC. Multiliteracies. Reading.

1. INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, o ensino de leitura no contexto escolar brasileiro tem sido tensionado por novas demandas sociais, culturais e tecnológicas, que exigem a superação de práticas centradas na decodificação e na abordagem instrumental da linguagem. Nesse cenário, a leitura passa a ser compreendida como prática social situada, vinculada a diferentes esferas de circulação e atravessada por dimensões ideológicas, culturais e discursivas, conforme apontam os estudos de Mikhail Bakhtin. Tal perspectiva encontra ressonância na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que propõe a organização do ensino de Língua Portuguesa a partir de práticas de linguagem articuladas aos campos de atuação, enfatizando o uso social dos gêneros discursivos.

Apesar desses avanços teóricos e normativos, ainda se observam, no cotidiano escolar, práticas de leitura frequentemente desvinculadas de contextos reais de uso, o que compromete a formação de leitores críticos e participativos. Nesse sentido, iniciativas que extrapolam os limites da sala de aula, como eventos literários e culturais, emergem como possibilidades de ressignificação das práticas pedagógicas, ao promoverem a integração entre escola, comunidade e diferentes manifestações da linguagem.

É nesse contexto que se insere o Festival Literário e Artístico de Canaã dos Carajás (FLACC), concebido como uma ação pedagógica e cultural voltada à promoção da leitura, à valorização da produção artística e à ampliação do repertório cultural dos estudantes. Mais do que um evento pontual, o festival configura-se como espaço de circulação de múltiplos gêneros discursivos, envolvendo práticas de leitura, escrita, oralidade e produção multissemiótica, em consonância com as diretrizes da BNCC.

Nesse contexto, a ampliação das práticas de leitura também se relaciona à noção de multiletramentos, que considera a diversidade de linguagens, mídias e contextos culturais presentes na sociedade contemporânea. De acordo com Roxane Rojo (2013), a escola precisa incorporar práticas que articulem diferentes semioses — como texto, imagem, som e recursos digitais — de modo a formar sujeitos capazes de atuar criticamente em múltiplos contextos comunicativos. Tal perspectiva dialoga diretamente com as orientações da BNCC e reforça a necessidade de práticas pedagógicas que ultrapassem o ensino tradicional da leitura.

A relevância deste estudo justifica-se pela necessidade de investigar práticas pedagógicas que dialoguem com as demandas contemporâneas de formação leitora, especialmente em contextos públicos de ensino. Ao analisar o FLACC como uma prática de linguagem situada, busca-se compreender em que medida ações dessa natureza podem contribuir para a construção de sujeitos leitores mais autônomos, críticos e socialmente engajados.

Para tanto, o artigo está organizado da seguinte forma: inicialmente, apresenta-se o referencial teórico que fundamenta a discussão sobre linguagem, gêneros discursivos e letramento; em seguida, descrevem-se os procedimentos metodológicos adotados; posteriormente, são analisados e discutidos os dados obtidos a partir da realização do festival; por fim, apresentam-se as considerações finais, destacando as contribuições e limites da pesquisa.

Diante desse cenário, este estudo parte do seguinte problema de pesquisa: em que medida o Festival Literário e Artístico contribui para a constituição de práticas de leitura como prática social, ampliando os modos de participação dos sujeitos nas diferentes esferas de circulação da linguagem? A partir dessa questão, tem-se como objetivo analisar o impacto do festival na promoção de práticas de letramento social, considerando sua articulação com os pressupostos da BNCC e com a teoria dos gêneros do discurso.

Como hipótese interpretativa, propõe-se compreender o festival como um dispositivo de letramento expandido comunitário, na medida em que articula práticas escolares e sociais em um espaço híbrido de circulação discursiva. Tal perspectiva permite deslocar a análise de uma abordagem descritiva para uma compreensão crítica das práticas de linguagem, evidenciando tensões, limites e potencialidades na formação de leitores em contextos públicos de ensino.

2. O FESTIVAL COMO PRÁTICA DE LETRAMENTO SOCIAL

O Festival Literário e Artístico de Canaã dos Carajás (FLACC) foi concebido como uma ação pedagógica articulada às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), especialmente no que se refere à organização do ensino de Língua Portuguesa por meio de práticas de linguagem situadas em diferentes campos de atuação. A proposta buscou integrar gêneros discursivos a práticas sociais concretas, promovendo experiências que extrapolassem os limites da sala de aula.

A proposta do FLACC também pode ser compreendida à luz dos multiletramentos, uma vez que integra diferentes linguagens e formas de expressão — literárias, artísticas e midiáticas — em um mesmo espaço de interação. Conforme Rojo (2013), práticas pedagógicas que mobilizam múltiplos letramentos favorecem a construção de sentidos mais complexos e ampliam as possibilidades de participação social dos sujeitos. Nesse sentido, o festival configura-se como um ambiente que potencializa a articulação entre leitura, cultura e tecnologia, aproximando-se das demandas contemporâneas de formação leitora.

Nesse sentido, o festival não se restringiu à exposição de atividades escolares, mas configurou-se como um espaço de circulação de múltiplos discursos, no qual estudantes, professores e comunidade participaram ativamente de práticas de leitura, escrita, oralidade e produção artística. Tal configuração aproxima-se da concepção de linguagem defendida por Mikhail Bakhtin, segundo a qual os enunciados se constituem em situações concretas de interação social, sendo os gêneros discursivos formas relativamente estáveis que organizam essas práticas.

A compreensão da leitura como prática social implica deslocá-la de uma perspectiva técnica para uma abordagem situada, em que os sentidos são produzidos nas interações entre sujeitos, textos e contextos. Nessa direção, Mikhail Bakhtin concebe a linguagem como atividade social concreta, materializada em enunciados que emergem de diferentes esferas da atividade humana. Tal perspectiva é ampliada pelos estudos do letramento, especialmente em Angela Kleiman e Magda Soares, que evidenciam que as práticas de leitura e escrita estão imbricadas em relações sociais, culturais e ideológicas.

No entanto, é importante tensionar a apropriação dessas teorias no contexto escolar, uma vez que, frequentemente, práticas pedagógicas que se dizem alinhadas ao letramento social ainda operam sob uma lógica transmissiva. Nesse sentido, a incorporação dos multiletramentos, conforme propõe Roxane Rojo, exige não apenas a ampliação de linguagens e mídias, mas uma reconfiguração das formas de participação dos sujeitos, de modo a promover experiências efetivamente dialógicas e críticas.

Sob a perspectiva do letramento, o festival configura-se como uma prática que ultrapassa a dimensão escolar tradicional da leitura, ao promover situações reais de uso da linguagem. Ao envolver a comunidade, integrar diferentes linguagens e valorizar produções locais, o FLACC contribui para a constituição de práticas de letramento social, nas quais a leitura deixa de ser uma atividade exclusivamente escolar e passa a assumir funções sociais mais amplas.

Entretanto, é necessário problematizar em que medida tais práticas conseguem efetivamente romper com modelos tradicionais de ensino. Embora o festival tenha proporcionado experiências significativas, há indícios de que parte das atividades ainda se organiza a partir de uma lógica expositiva, centrada na apresentação de conteúdos, o que pode limitar o potencial crítico das práticas de leitura. Nesse sentido, a efetividade do evento como espaço de formação de leitores depende não apenas da diversidade de gêneros mobilizados, mas também da forma como os sujeitos se apropriam dessas práticas.

Outro aspecto relevante refere-se à dimensão inclusiva do festival. A presença de atividades em Libras, obras em braille e participação de sujeitos com deficiência evidencia um avanço no sentido da democratização do acesso à leitura. Contudo, à luz das discussões sobre inclusão, é fundamental compreender tais ações não apenas como estratégias pontuais, mas como parte de um projeto contínuo de construção de práticas pedagógicas mais equitativas.

Essa discussão dialoga com o modelo ideológico de letramento proposto por Brian Street, para quem as práticas de leitura e escrita não são neutras, mas atravessadas por relações de poder e contextos culturais específicos. A partir dessa perspectiva, compreender o FLACC como prática de letramento implica analisá-lo não apenas como evento pedagógico, mas como espaço de disputa de sentidos, no qual diferentes formas de linguagem e de participação social são legitimadas ou silenciadas.

Além disso, a articulação entre literatura e outras áreas do conhecimento — como no caso da linguagem matemática — aponta para uma perspectiva interdisciplinar que amplia as possibilidades de compreensão da linguagem. Essa integração contribui para a construção de sentidos mais complexos, em consonância com as orientações da BNCC, que enfatizam a necessidade de práticas interdisciplinares e contextualizadas.

Desse modo, o FLACC pode ser compreendido como uma experiência relevante de ressignificação das práticas de leitura no contexto escolar, ao promover a circulação de diferentes gêneros discursivos em situações sociais concretas. Contudo, sua análise revela que o potencial transformador dessas iniciativas está diretamente relacionado ao modo como são apropriadas pelos sujeitos e às condições em que se inserem no cotidiano escolar.

3. METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de abordagem qualitativa, com elementos quantitativos, configurando-se como um estudo de caso, uma vez que analisa uma experiência específica de intervenção pedagógica no contexto da rede pública de ensino do município de Canaã dos Carajás.

O objeto de análise consiste no Festival Literário e Artístico de Canaã dos Carajás (FLACC), compreendido como prática de linguagem situada, que articula diferentes gêneros discursivos e práticas sociais de leitura. A investigação buscou compreender em que medida essa iniciativa contribui para a promoção do letramento social, em consonância com os pressupostos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Os dados foram coletados por meio de diferentes instrumentos, a saber: (i) aplicação de questionário estruturado ao público participante do evento, com questões voltadas à avaliação da experiência; (ii) análise de registros institucionais, incluindo dados de participação e desempenho escolar; e (iii) observação das atividades desenvolvidas durante o festival, considerando a interação entre estudantes, professores e comunidade.

O questionário foi aplicado a 527 participantes, contendo quatro questões objetivas relacionadas à percepção do evento, à qualidade das atividades desenvolvidas e à intenção de participação em futuras edições. Além disso, foram considerados dados complementares de 96 participantes que, embora não tenham respondido ao instrumento, participaram das atividades propostas.

Para a análise dos dados, adotou-se uma perspectiva interpretativa, articulando os resultados empíricos com o referencial teórico adotado, especialmente no que se refere às concepções de linguagem como prática social e aos gêneros discursivos. Os dados quantitativos foram utilizados como suporte para a compreensão dos fenômenos observados, enquanto os dados qualitativos possibilitaram a problematização das práticas desenvolvidas.

Desse modo, a metodologia adotada permitiu não apenas descrever o evento, mas analisar criticamente suas contribuições e limites no contexto da formação de leitores, considerando as dimensões pedagógicas, sociais e culturais envolvidas.

Do ponto de vista epistemológico, a pesquisa ancora-se em uma perspectiva interpretativista, compreendendo a linguagem como prática social e os fenômenos analisados como construções situadas. Assim, a análise não busca estabelecer relações de causalidade direta, mas compreender os sentidos produzidos nas práticas observadas, articulando dados empíricos e referencial teórico em uma abordagem crítica.

4. GÊNEROS TEXTUAIS NAS ESFERAS DE CIRCULAÇÃO: UMA ABORDAGEM DISCURSIVA

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe uma reorganização do ensino de Língua Portuguesa a partir das práticas de linguagem, estruturadas nos eixos de oralidade, leitura/escuta, produção (escrita e multissemiótica) e análise linguística/semiótica. Tal organização desloca o foco do ensino da língua como sistema para a linguagem em uso, enfatizando a inserção dos sujeitos em diferentes esferas de circulação social.

Nessa perspectiva, os gêneros textuais deixam de ser compreendidos apenas como modelos formais e passam a ser concebidos como formas de ação social, vinculadas a contextos específicos de produção, circulação e recepção. Essa concepção dialoga diretamente com os pressupostos de Mikhail Bakhtin, para quem os gêneros do discurso constituem enunciados relativamente estáveis que emergem das necessidades comunicativas dos diferentes campos da atividade humana.

Dessa forma, a diversidade de gêneros presentes no cotidiano — sejam eles de natureza literária, midiática, científica, jurídica ou publicitária — evidencia a multiplicidade de práticas sociais mediadas pela linguagem. No entanto, mais do que enumerar tais gêneros, torna-se fundamental compreender as condições de sua circulação e os sentidos que produzem em contextos concretos. É nesse ponto que o ensino orientado pela BNCC propõe uma abordagem que privilegia o uso social da linguagem, permitindo ao estudante atuar de maneira mais crítica e participativa na sociedade.

Nessa perspectiva, a linguagem é compreendida como prática social, realizada em contextos concretos de interação. Como afirma Bakhtin (2003, p. 261), o uso da língua ocorre por meio de enunciados concretos, produzidos nas diferentes esferas da atividade humana. Tal compreensão fundamenta a análise do festival como espaço de circulação de gêneros discursivos em situações reais de uso.

No contexto do Festival Literário e Artístico de Canaã dos Carajás (FLACC), essa perspectiva materializa-se na articulação entre diferentes gêneros discursivos e práticas de linguagem situadas. Ao promover a circulação de textos literários, midiáticos e cotidianos em um espaço ampliado de interação social, o festival possibilita que os sujeitos experienciem a linguagem em sua dimensão viva e dinâmica, aproximando-se daquilo que Bakhtin denomina como prática enunciativa concreta.

Além disso, a presença de gêneros digitais e midiáticos evidencia a incorporação das transformações contemporâneas nas formas de comunicação, em consonância com as orientações da BNCC, especialmente no que se refere ao desenvolvimento da cultura digital. A mobilização de diferentes linguagens, mídias e tecnologias amplia as possibilidades de produção de sentidos, contribuindo para a formação de sujeitos capazes de transitar entre múltiplas semioses.

Outro aspecto relevante refere-se à dimensão estética e formativa da leitura literária. Conforme preconiza a BNCC, o contato com textos literários deve favorecer não apenas a compreensão, mas também a fruição, o desenvolvimento do imaginário e a ampliação do repertório cultural dos estudantes. Assim, práticas como as desenvolvidas no festival reforçam o potencial humanizador da literatura, ao promover experiências que articulam emoção, reflexão e construção de sentidos.

Contudo, é necessário considerar que a simples exposição à diversidade de gêneros não garante, por si só, a formação de leitores críticos. A efetividade dessas práticas depende da mediação pedagógica e das condições de participação dos sujeitos nos processos de leitura e produção textual. Assim, o desafio que se coloca não é apenas ampliar o repertório de gêneros trabalhados, mas assegurar que esses sejam apropriados de forma significativa pelos estudantes, em situações que favoreçam a reflexão sobre a linguagem e suas funções sociais.

Diante disso, a análise do FLACC evidencia que iniciativas que articulam gêneros textuais às esferas de circulação social podem contribuir para a ressignificação das práticas de leitura no contexto escolar. No entanto, tal potencial transformador está diretamente relacionado à forma como essas práticas são conduzidas e integradas ao cotidiano pedagógico, exigindo uma atuação docente que vá além da exposição de conteúdos e se configure como mediação crítica da linguagem.

5. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise dos dados evidencia que o Festival Literário e Artístico de Canaã dos Carajás (FLACC) constituiu-se como uma experiência relevante de ampliação das práticas de leitura para além do espaço escolar, aproximando sujeitos, textos e contextos sociais diversos. Desde sua concepção, o projeto buscou articular práticas pedagógicas às dimensões culturais e sociolinguísticas da linguagem, promovendo uma abordagem que considera a leitura como prática social situada.

No que se refere à percepção do público, os resultados do questionário aplicado indicam um elevado índice de aprovação do evento. Das 527 respostas obtidas, a totalidade dos participantes avaliou positivamente a experiência geral, enquanto a grande maioria demonstrou satisfação com as explicações nos estandes e com a atuação dos expositores. Além disso, praticamente todos os respondentes afirmaram que participariam novamente do evento, o que evidencia não apenas aceitação, mas engajamento com a proposta.

Entretanto, mais do que evidenciar altos índices de satisfação, tais dados sugerem que práticas de leitura inseridas em contextos sociais ampliados tendem a mobilizar maior interesse dos sujeitos, corroborando a perspectiva de letramento como prática social. Ao deslocar a leitura de um espaço exclusivamente escolar para um ambiente de interação comunitária, o festival possibilitou que os participantes atribuíssem novos sentidos às práticas de linguagem, aproximando-as de suas vivências.

Os resultados observados também podem ser interpretados a partir da perspectiva dos multiletramentos, na medida em que indicam que os sujeitos se engajam mais intensamente quando expostos a práticas diversificadas de linguagem. Como aponta Rojo (2013), a ampliação dos modos de produção e circulação de textos na contemporaneidade exige práticas pedagógicas que contemplem diferentes linguagens e mídias, favorecendo a construção de sentidos em contextos mais dinâmicos e interativos.

A análise dos dados permite observar que o festival opera em uma zona de tensão entre práticas inovadoras e estruturas tradicionais de ensino. Se, por um lado, amplia os espaços de circulação da leitura e promove o engajamento dos sujeitos, por outro, ainda reproduz, em certa medida, dinâmicas expositivas que podem limitar a participação ativa e a construção crítica de sentidos.

Essa ambivalência evidencia que a inserção de práticas de letramento social no contexto escolar não se dá de forma linear, mas por meio de processos híbridos, nos quais coexistem avanços e permanências. Nessa perspectiva, compreender o FLACC como prática de letramento expandido implica reconhecer tanto seu potencial transformador quanto seus limites estruturais.

A repercussão do evento em diferentes meios de comunicação local também indica sua relevância sociocultural, contribuindo para a valorização da leitura como prática coletiva. No entanto, é importante considerar que a visibilidade e o reconhecimento social não garantem, por si só, a consolidação de práticas leitoras duradouras, sendo necessário que tais iniciativas estejam articuladas a ações contínuas no contexto escolar.

No âmbito pedagógico, os dados relativos ao desempenho dos estudantes, especialmente nas turmas de 9º ano, apontam para uma evolução nas habilidades de leitura e produção textual ao longo do período analisado. Embora não se possa estabelecer uma relação causal direta, os resultados sugerem que práticas que integram leitura, produção e circulação de gêneros discursivos em contextos significativos podem contribuir para o desenvolvimento dessas competências.

Essa relação pode ser compreendida à luz da perspectiva de que o aprendizado se torna mais efetivo quando associado a experiências que envolvem engajamento, sentido e participação ativa dos sujeitos. Ao promover situações em que a leitura se apresenta como prática social significativa — e não apenas como atividade escolar obrigatória — o festival favorece a construção de uma relação mais autônoma e crítica com a linguagem.

Por outro lado, a análise também revela a necessidade de problematizar os limites dessa experiência. Embora o evento tenha promovido a circulação de diferentes gêneros discursivos, há indícios de que parte das práticas ainda se organiza sob uma lógica expositiva, o que pode restringir a participação efetiva dos sujeitos na construção de sentidos. Desse modo, o desafio consiste em avançar de uma perspectiva de apresentação de conteúdos para uma abordagem que privilegie a interação, a autoria e a reflexão crítica.

Embora os dados evidenciem elevados índices de aprovação do festival, é necessário problematizar tais resultados para além de uma leitura quantitativa de sucesso. A adesão dos participantes pode indicar não apenas o engajamento com a proposta, mas também a legitimidade social atribuída a práticas culturais institucionalizadas, o que exige refletir sobre o tipo de relação com a leitura que está sendo efetivamente construído.

Assim, a análise sugere que, ainda que o FLACC amplie as práticas de leitura para além do espaço escolar, persistem tensões entre propostas inovadoras e formas tradicionais de organização pedagógica. A presença de atividades centradas na exposição de conteúdos indica que a transição para uma abordagem verdadeiramente dialógica e participativa ainda se encontra em processo, revelando os limites e desafios da implementação de práticas de letramento social no contexto escolar.

Desse modo, os resultados indicam que o FLACC possui potencial para atuar como espaço de ressignificação das práticas de leitura, ao integrar escola e comunidade em torno da linguagem. Contudo, sua efetividade como prática de letramento social depende de sua continuidade e de sua articulação com o cotidiano escolar, de modo a garantir que as experiências vivenciadas no evento se desdobrem em práticas pedagógicas permanentes.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise do Festival Literário e Artístico permite compreendê-lo como um dispositivo de letramento expandido comunitário, que tensiona as fronteiras entre práticas escolares e sociais de linguagem. Ao promover a circulação de múltiplos gêneros discursivos em um espaço ampliado de interação, o evento contribui para ressignificar o lugar da leitura, deslocando-a de uma atividade escolar obrigatória para uma prática social carregada de sentidos culturais, identitários e políticos.

Os resultados indicam que a inserção de práticas de leitura em contextos sociais ampliados favorece o engajamento dos sujeitos e amplia as possibilidades de construção de sentidos, corroborando a concepção de linguagem como prática social e a perspectiva dos gêneros discursivos enquanto formas de ação situadas. Nesse sentido, o FLACC contribui para deslocar a leitura de uma abordagem centrada na obrigatoriedade escolar para uma dimensão mais significativa, participativa e culturalmente situada.

Do ponto de vista pedagógico, o estudo evidencia que práticas que integram leitura, produção textual e circulação de gêneros em situações concretas podem favorecer o desenvolvimento das competências previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), especialmente no que se refere à atuação dos sujeitos em diferentes campos de atividade. Além disso, a valorização da diversidade de linguagens e a incorporação de práticas inclusivas reforçam o potencial do festival como espaço de democratização do acesso à leitura.

Entretanto, a análise também revela que o potencial transformador de iniciativas como o FLACC não se realiza de forma automática. A permanência de práticas expositivas e a necessidade de maior aprofundamento na mediação pedagógica indicam que a efetividade dessas ações depende de sua continuidade e de sua integração ao cotidiano escolar. Assim, o desafio consiste em consolidar tais experiências como práticas permanentes de letramento, e não como eventos pontuais.

Por fim, este estudo contribui para o campo ao evidenciar que práticas pedagógicas que articulam escola e comunidade podem operar como dispositivos de letramento social, desde que acompanhadas de uma mediação crítica que favoreça a participação ativa dos sujeitos. Desse modo, reforça-se que a formação de leitores, em contextos contemporâneos, demanda não apenas o acesso aos textos, mas a inserção dos sujeitos em práticas sociais significativas de linguagem, capazes de promover participação crítica e transformação social.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, Celso. Como desenvolver as competências em sala de aula. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: Ministério da Educação, 2017.

COLOMER, Teresa. Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo: Global, 2007.

COLOMER, Teresa; CAMPS, Anna. Ensinar a ler, ensinar a compreender. Porto Alegre: Artmed, 2002.

COSTA, S. R. A construção de títulos em gêneros diversos: um processo discursivo polifônico e plurissêmico. In: ROJO, Roxane (org.). A prática de linguagem em sala de aula. São Paulo: Educ; Campinas: Mercado de Letras, 2002.

KLEIMAN, Angela B. Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995.

ROJO, Roxane; MOURA, Eduardo (orgs.). Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

SOARES, Magda. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação, n. 25, p. 5-17, jan./abr. 2004.

STREET, Brian. Letramentos sociais: abordagens críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na educação. São Paulo: Parábola Editorial, 2014.

ZAPPONE, Mirian H. Y. Modelos de letramento literário e ensino da literatura: problemas e perspectivas. Revista Teoria e Prática da Educação, v. 11, n. 1, p. 49-60, jan./abr. 2008.