REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792110655
RESUMO
O desenvolvimento psicomotor na infância resulta da interação entre maturação neurológica, experiências corporais e relações sociais, influenciado pelas oportunidades de movimento e exploração do ambiente. Nesse contexto, a ampliação do uso de telas e dispositivos eletrônicos tem alterado a rotina infantil e suscitado questionamentos sobre seus efeitos no desenvolvimento motor e psicomotor. O objetivo foi analisar as associações descritas na literatura entre a exposição a telas e dispositivos eletrônicos e o desenvolvimento de crianças de zero a cinco anos, considerando os aspectos motores, cognitivos, linguísticos e socioemocionais, o sono, o comportamento sedentário, as oportunidades de movimento e a mediação dos responsáveis. Trata-se de revisão bibliográfica narrativa, qualitativa e descritivo-interpretativa, realizada mediante a análise de artigos científicos, revisões e documentos institucionais publicados entre 2016 e 2026, em português e inglês, consultados em bases nacionais e internacionais. A literatura indica que os efeitos da exposição digital não dependem exclusivamente do tempo de uso, mas também da qualidade do conteúdo, da mediação dos responsáveis e do possível deslocamento de experiências corporais, interações sociais, brincadeiras e práticas de movimento. Os estudos sugerem que o uso elevado ou inadequado de telas pode estar associado à redução das oportunidades de exploração motora, brincadeira ativa e interação social, especialmente quando substitui experiências importantes ao desenvolvimento infantil. Conclui-se que a utilização de dispositivos eletrônicos deve ocorrer de maneira equilibrada, acompanhada e integrada a contextos que favoreçam o movimento e a interação social, destacando-se a importância da Educação Física na promoção de experiências corporais na primeira infância.
Palavras-chave: desenvolvimento psicomotor; infância; tempo de tela; educação física; desenvolvimento motor.
ABSTRACT
Psychomotor development in childhood results from the interaction between neurological maturation, bodily experiences, and social relationships, influenced by opportunities for movement and environmental exploration. In this context, the increased use of screens and electronic devices has altered children's daily routines and raised questions regarding its effects on motor and psychomotor development. This study aimed to analyze the associations described in the literature between exposure to screens and electronic devices and the development of children aged zero to five years, considering motor, cognitive, linguistic, and socio-emotional aspects, as well as sleep, sedentary behavior, movement opportunities, and parental mediation. This is a qualitative narrative literature review with a descriptive-interpretative approach, conducted through the analysis of scientific articles, reviews, and institutional documents published between 2016 and 2026, in Portuguese and English, retrieved from national and international databases. The analyzed literature indicates that the effects of digital exposure do not depend exclusively on screen time, but also on content quality, parental mediation, and the potential displacement of bodily experiences, social interactions, play, and movement practices. The studies suggest that high or inappropriate screen use may be associated with a reduction in opportunities for motor exploration, active play, and social interaction, especially when replacing experiences essential to child development. In conclusion, the use of electronic devices should occur in a balanced, supervised manner and integrated into contexts that foster movement and social interaction, highlighting the importance of Physical Education in promoting bodily experiences in early childhood.
Keywords: psychomotor development; childhood; screen time; physical education; motor development.
1. INTRODUÇÃO
A primeira infância é marcada por rápidas transformações físicas, motoras, cognitivas, linguísticas, afetivas e sociais. O crescimento refere-se principalmente às mudanças quantitativas do corpo, enquanto o desenvolvimento compreende mudanças qualitativas relacionadas à aquisição de habilidades motoras, cognitivas, comunicativas e socioemocionais. Entre o nascimento e os cinco anos, a criança desenvolve progressivamente competências relacionadas ao controle postural, à locomoção, à manipulação de objetos, à linguagem e à interação social (Britto et al., 2017; Coelho; De Marco; Tolocka, 2019; Munhoz et al., 2022).
O desenvolvimento infantil não ocorre exclusivamente em razão da maturação biológica. Ele resulta da interação entre características individuais, condições ambientais, relações familiares, oportunidades de movimento, qualidade do sono, alimentação, experiências lúdicas e estímulos sociais. No campo da Educação Física, essa compreensão é especialmente relevante, pois o brincar, a exploração do ambiente e as experiências corporais contribuem para o desenvolvimento das habilidades motoras fundamentais, da autonomia e da participação da criança em diferentes práticas corporais (Barnett et al., 2016; Black et al., 2017; Munhoz et al., 2022).
A Organização Mundial da Saúde recomenda que crianças menores de dois anos não sejam expostas a atividades sedentárias diante de telas. Para crianças de dois anos, o tempo sedentário diante de telas não deve ultrapassar uma hora diária, sendo preferível que seja inferior. Para crianças de três e quatro anos, também se recomenda limite máximo de uma hora diária, com preferência por tempo inferior (World Health Organization, 2019). Essas recomendações têm finalidade orientadora e não devem ser utilizadas, isoladamente, como critérios para diagnosticar atrasos ou alterações no desenvolvimento individual.
Diante da crescente presença de telas e dispositivos eletrônicos na rotina infantil, torna-se necessário compreender como a literatura científica tem descrito as possíveis associações entre esse tipo de exposição e o desenvolvimento na primeira infância.
Considerando que os efeitos do uso de telas podem variar conforme o tempo de exposição, o conteúdo acessado, o contexto de utilização, o período do dia, as oportunidades de movimento, o sono e a mediação dos responsáveis, esta revisão não parte da premissa de que toda exposição produz consequências negativas.
Assim, o problema desta pesquisa é formulado pela seguinte questão: quais associações são descritas na literatura entre a exposição a telas e dispositivos eletrônicos e o desenvolvimento de crianças de zero a cinco anos, considerando os aspectos motores, cognitivos, linguísticos e socioemocionais, bem como o sono, o comportamento sedentário, as oportunidades de movimento e a mediação dos responsáveis?
A pesquisa justifica-se pela necessidade de organizar evidências sobre a exposição de crianças pequenas às telas e suas possíveis relações com o desenvolvimento infantil, o sono, o comportamento sedentário e as oportunidades de movimento. O tema envolve a saúde, a educação, a dinâmica familiar e a atuação de profissionais da Educação Física.
A revisão também se justifica pela necessidade de superar interpretações simplificadoras, evitando tanto a ideia de que toda tecnologia é prejudicial quanto a suposição de que todo conteúdo digital é educativo ou benéfico.
O objetivo geral deste estudo foi analisar, por meio de uma revisão bibliográfica narrativa, as associações descritas na literatura entre a exposição a telas e dispositivos eletrônicos e o desenvolvimento de crianças de zero a cinco anos, considerando os aspectos motores, cognitivos, linguísticos e socioemocionais, o sono, o comportamento sedentário, as oportunidades de movimento e a mediação dos responsáveis.
Especificamente, buscou-se: analisar as associações descritas na literatura entre a exposição a telas e o desenvolvimento motor de crianças de zero a cinco anos; verificar as relações apresentadas nos estudos entre exposição às telas, sono e comportamento sedentário; discutir a possível substituição do brincar ativo, das experiências corporais e das interações presenciais pelo uso de dispositivos eletrônicos; examinar a influência do tempo de exposição, do conteúdo, da finalidade, do horário, do contexto e da mediação dos responsáveis; identificar as principais limitações metodológicas dos estudos analisados; apontar implicações dos achados para familiares, educadores e profissionais da Educação Física.
2. MÉTODOS
2.1. Tipo de Estudo
Trata-se de uma revisão bibliográfica narrativa, de abordagem qualitativa e caráter descritivo-interpretativo. Esse tipo de revisão foi escolhido por permitir a reunião, a organização e a discussão crítica de diferentes contribuições científicas sobre a exposição a telas e o desenvolvimento infantil. A análise não teve como finalidade produzir uma estimativa estatística combinada nem estabelecer relações causais, mas identificar tendências, convergências, divergências, limitações e lacunas presentes na literatura. A primeira infância foi delimitada como o período correspondente a crianças de zero a cinco anos (World Health Organization, 2019).
2.2. Estratégias de Busca
As buscas bibliográficas foram realizadas entre fevereiro de 2026 e outubro de 2026, no mecanismo de busca Google Acadêmico e nas bases Scientific Electronic Library Online (SciELO), MEDLINE/PubMed e Web of Science. Foram utilizadas combinações dos descritores relacionados à exposição a telas, ao desenvolvimento infantil e à primeira infância, em português e inglês. As estratégias completas utilizadas em cada base estão apresentadas na Tabela 1.
Em português, foram utilizados “desenvolvimento psicomotor”, “desenvolvimento motor”, “infância”, “criança”, “tempo de tela”, “telas” e “dispositivos eletrônicos”; em inglês, “psychomotor development”, “motor development”, “child*”, “childhood”, “screen time”, “digital media” e “electronic devices”, combinados pelos operadores booleanos AND e OR e adaptados às especificidades de cada base.
Tabela 1. Registro das buscas bibliográficas realizadas
Base de dados | Data da busca | Estratégia de busca utilizada | Resultados encontrados | Duplicatas | Registros avaliados por título/resumo | Textos lidos integralmente | Estudos incluídos |
Google Acadêmico | De 06/07/2026 a 01/10/2026 | "desenvolvimento motor" AND "tempo de tela" AND "primeira infância" | 10 | 1 | 9 | 5 | 3 |
SciELO | De 06/07/2026 a 01/10/2026 | "desenvolvimento motor" AND ("brincar" OR "psicomotricidade") AND "educação infantil" | 15 | 5 | 10 | 9 | 5 |
MEDLINE/PubMed | De 06/07/2026 a 01/10/2026 | "desenvolvimento infantil"[Title/Abstract] AND "fatores associados"[Title/Abstract] | 26 | 9 | 17 | 14 | 9 |
Web of Science | De 06/07/2026 a 01/10/2026 | TS=("desenvolvimento motor" AND "primeira infância" AND "interação social") | 2 | 0 | 2 | 2 | 1 |
Total | — | — | 53 | 15 | 38 | 30 | 18 |
Fonte: Elaborada pelos autores (2026).
Inicialmente, foram identificados 53 registros. Após a remoção de 15 duplicatas, permaneceram 38 publicações para a triagem por título e resumo. Nessa etapa, 8 registros foram excluídos por não abordarem crianças de zero a cinco anos, não examinarem a exposição a telas ou não apresentarem relação com o desenvolvimento infantil. Em seguida, 30 textos foram lidos integralmente. Após essa leitura, 12 estudos foram excluídos pelos motivos descritos na Tabela 3, resultando em 18 estudos utilizados na análise final.
Foram considerados estudos publicados entre 2016 e 2026, nos idiomas português e inglês, além de documentos institucionais de referência, como as diretrizes da Organização Mundial da Saúde para atividade física, comportamento sedentário e sono em crianças menores de cinco anos (World Health Organization, 2019). A escolha desse recorte temporal acompanha tanto a intensificação das pesquisas sobre tempo de tela na infância quanto a consolidação de diretrizes internacionais específicas para essa faixa etária.
Tabela 2. Estratégias de busca utilizadas nas bases consultadas
Base | Estratégia completa |
Google Acadêmico | "screen time" AND child* AND ("child development" OR "motor development" OR psychomotor) |
SciELO | ("desenvolvimento motor" OR "desenvolvimento infantil" OR "psicomotricidade" OR "competência motora") AND ("tempo de tela" OR "brincar" OR "interação social" OR "primeira infância") |
MEDLINE/PubMed | ("Child, Preschool"[Mesh] OR "Infant"[Mesh] OR "early childhood"[Title/Abstract]) AND ("Motor Skills"[Mesh] OR "Motor Activity"[Mesh] OR "motor competence"[Title/Abstract] OR "motor development"[Title/Abstract]) AND ("Screen Time"[Mesh] OR "screen time"[Title/Abstract] OR "media use"[Title/Abstract] OR "sedentary behavior"[Title/Abstract]) |
Web of Science | TS=(("early childhood" OR "preschool*") AND ("motor competence" OR "motor development" OR "fundamental movement skills") AND ("screen time" OR "physical activity" OR "sociocultural")) |
Fonte: Elaborada pelos autores (2026).
2.3. Critérios de Seleção
A seleção dos estudos não seguiu protocolo estruturado de revisão sistemática. Priorizou-se a relevância temática e a contribuição analítica de cada trabalho para a discussão proposta, característica própria do delineamento narrativo.
Também foram considerados documentos institucionais diretamente relacionados às recomendações de exposição a telas na primeira infância.
Foram excluídos estudos que não contemplassem a faixa etária delimitada, trabalhos sem relação direta com o problema de pesquisa, publicações duplicadas, textos incompletos, opiniões sem fundamentação científica, trabalhos exclusivamente voltados a adolescentes ou adultos e estudos que mencionassem telas apenas de forma secundária, sem analisar sua relação com o desenvolvimento infantil.
Tabela 3. Motivos para exclusão das publicações na etapa de seleção
Motivo da exclusão | Quantidade |
Faixa etária incompatível | 4 |
Tema não relacionado ao desenvolvimento infantil | 2 |
Exposição a telas não analisada | 1 |
Tipo de publicação incompatível | 1 |
Ausência de relação com o problema de pesquisa | 4 |
Total excluído | 12 |
Fonte: Elaborada pelos autores (2026).
O percurso de seleção compreendeu leitura exploratória de títulos e resumos, seguida de leitura integral dos textos potencialmente pertinentes, com decisão conjunta dos autores. Reconhece-se que a definição final do conjunto analisado envolveu julgamento interpretativo, o que é próprio da revisão narrativa.
2.4. Processo de Análise
Os estudos selecionados foram organizados em uma matriz de análise contendo autoria, ano de publicação, país de realização, objetivo, delineamento metodológico, faixa etária dos participantes, característica da exposição a telas, duração ou frequência do uso, principais desfechos investigados e resultados observados. Posteriormente, os estudos foram agrupados por aproximação temática, considerando os domínios do desenvolvimento infantil, o sono, o comportamento sedentário, as experiências corporais, o conteúdo acessado e a mediação dos responsáveis.
A seleção das publicações foi realizada conjuntamente pelos dois autores. Nos casos em que surgiram dúvidas quanto à pertinência de determinado estudo, os critérios de inclusão e exclusão foram retomados e o texto foi reavaliado integralmente. As divergências foram resolvidas por discussão entre os autores, considerando o problema de pesquisa, os objetivos, a faixa etária e a pertinência temática do estudo. Após a obtenção de consenso, as informações foram registradas em uma matriz única de análise.
2.5. Aspectos Éticos e Integridade Acadêmica
Por se tratar de uma pesquisa bibliográfica baseada em documentos científicos de acesso público, sem participação direta de seres humanos, não foi necessária a submissão do estudo a Comitê de Ética em Pesquisa. Foram observados os princípios de integridade acadêmica, o registro fiel das fontes consultadas, a citação adequada e a normalização conforme as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas e as orientações institucionais.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Após a aplicação dos critérios de seleção, foram incluídos 18 estudos na análise final. As características gerais das publicações estão apresentadas no Quadro 1, que reúne informações sobre autoria, ano, país, objetivo, delineamento, faixa etária, exposição investigada, duração ou frequência do uso de telas e principais resultados. Em seguida, os achados foram organizados em eixos temáticos relacionados ao desenvolvimento motor, aos domínios cognitivo e linguístico, aos aspectos socioemocionais, ao sono, ao comportamento sedentário e à mediação dos responsáveis.
Quadro 1. Caracterização dos estudos incluídos na revisão bibliográfica narrativa
Autoria e ano | País | Objetivo | Delineamento | Faixa etária | Exposição analisada | Duração ou frequência | Principais resultados |
Barnett et al. (2016) | Austrália (âmbito global) | Identificar os fatores correlacionados à competência motora grossa em jovens. | Revisão sistemática e meta-análise | 3 a 18 anos | Fatores biológicos, comportamentais, sociodemográficos e ambientais. | Avaliação contínua dos hábitos diários de atividade física e comportamento. | A idade, o sexo masculino e a prática regular de atividade física relacionam-se positivamente com a competência motora. |
Barnett, Stodden & Cohen (2019) | Austrália e EUA | Discutir a importância do desenvolvimento de habilidades motoras fundamentais ao longo da infância. | Ensaio teórico e revisão narrativa | 2 a 12 anos | Ensino e prática orientada de habilidades motoras básicas (correr, saltar, arremessar). | Prática regular inserida na rotina escolar e de lazer. | O domínio das habilidades motoras fundamentais melhora a aptidão física e incentiva um estilo de vida ativo permanente. |
Black et al. (2017) | EUA (âmbito internacional) | Analisar a ciência do desenvolvimento na primeira infância ao longo do curso de vida. | Revisão narrativa de literatura | 0 a 5 anos | Riscos ambientais, pobreza, desnutrição e estresse na infância. | Exposição contínua aos fatores socioeconômicos durante os primeiros anos. | Intervenções precoces protegem a saúde cerebral, reduzem desigualdades e promovem ganhos para toda a vida. |
Bragagnolo & Correia-Zanini (2025) | Brasil | Investigar a relação entre o movimento corporal e o brincar simbólico na primeira infância. | Estudo qualitativo observacional | 0 a 3 anos | Ação corporal, mediação dos educadores e espaço para brincadeiras simbólicas. | Rotina diária de atividades na educação infantil. | O movimento livre e a mediação pedagógica estimulam diretamente a imaginação e o desenvolvimento do pensamento. |
Britto et al. (2017) | EUA / Suíça (âmbito global) | Avaliar o impacto do cuidado integral (nurturing care) no desenvolvimento infantil. | Revisão sistemática e síntese de evidências | 0 a 3 anos | Cuidado afetivo, nutrição, proteção, saúde e oportunidades de aprendizagem. | Acompanhamento contínuo dos cuidados parentais diários. | A combinação de afeto, saúde e estímulo nos primeiros mil dias de vida garante o pleno desenvolvimento cognitivo e motor. |
Carter et al. (2016) | Reino Unido | Avaliar se o uso ou presença de telas no quarto prejudica o sono das crianças. | Revisão sistemática e meta-análise | 6 a 19 anos | Acesso ou uso de dispositivos eletrônicos (celulares, tablets, TVs) antes de dormir. | Uso diário no momento de ir para a cama. | O acesso a telas na hora de dormir duplica o risco de sono inadequado, sonolência diurna e insônia. |
Coelho, De Marco & Tolocka (2019) | Brasil | Identificar o conhecimento dos professores sobre os marcos do desenvolvimento motor. | Estudo descritivo transversal | Educadores (foco em crianças de 0 a 5 anos) | Formação docente e acompanhamento dos marcos motoras em creches e pré-escolas. | Atendimento diário no ambiente escolar. | Há necessidade de maior capacitação dos profissionais para reconhecer atrasos motores e promover estímulos adequados. |
Haywood & Getchell (2020) | EUA | Apresentar os conceitos e transformações do desenvolvimento motor durante todas as fases da vida. | Livro-texto científico | Do nascimento à terceira idade | Fatores individuais (biológicos), ambientais e da tarefa ao longo da vida. | Acompanhamento longitudinal de hábitos e envelhecimento. | O desenvolvimento motor é contínuo, dinâmico e moldado pela interação diária entre o corpo, a tarefa e o ambiente. |
Madigan et al. (2020) | Canadá | Investigar a associação entre o tempo de tela e atrasos no desenvolvimento da linguagem. | Revisão sistemática e meta-análise | 0 a 12 anos | Exposição a mídias baseadas em telas (televisão, celulares e tablets). | Horas diárias de exposição a telas. | Maior tempo de tela está diretamente associado a prejuízos e atrasos na aquisição de habilidades de linguagem. |
Mallawaarachchi et al. (2024) | Austrália | Analisar os contextos do uso de telas e seus impactos no desenvolvimento cognitivo e psicossocial. | Revisão sistemática e meta-análise | 0 a 5 anos | Tipos de uso de tela (co-uso com os pais, conteúdo educativo vs. uso solitário passivo). | Frequência diária e ambiente de exposição. | O uso passivo e solitário traz prejuízos, enquanto o conteúdo educativo compartilhado com adultos atenua impactos negativos. |
Menezes & Eugênio (2025) | Brasil | Discutir a mediação pedagógica e as interações sociais na infância sob a ótica sociocultural. | Estudo teórico-reflexivo | 0 a 6 anos | Interações sociais compartilhadas entre crianças, pares e professores. | Vivência diária nas instituições de educação infantil. | A mediação ativa do professor impulsiona o desenvolvimento de funções psicológicas superiores e a socialização. |
Munhoz et al. (2022) | Brasil | Avaliar os fatores associados ao desenvolvimento de crianças participantes do Programa Criança Feliz. | Estudo transversal | 0 a 3 anos | Visitas domiciliares, vulnerabilidade social, renda e estímulo familiar. | Acompanhamento semanal e quinzenal das famílias. | Condições socioeconômicas favoráveis e estímulos no ambiente familiar previnem atrasos no desenvolvimento infantil. |
Rogoff (2017) | EUA | Analisar a aprendizagem e o desenvolvimento infantil sob a perspectiva sociocultural da participação. | Estudo teórico e conceitual | 0 a 18 anos | Participação cultural, observação e cooperação comunitária. | Práticas e rotinas culturais do cotidiano. | O desenvolvimento ocorre por meio da participação ativa das crianças nas atividades socioculturais de sua comunidade. |
Santos et al. (2026) | Brasil | Explorar a psicomotricidade como ferramenta inclusiva de estimulação precoce na educação infantil. | Estudo descritivo-qualitativo | 0 a 6 anos | Práticas psicomotoras inclusivas, brincadeiras adaptadas e estímulo sensorial. | Sessões regulares no contexto escolar. | A psicomotricidade promove a inclusão, o fortalecimento da autonomia e a coordenação motora de todas as crianças. |
Santos & Lopes (2019) | Brasil | Investigar como o brincar heurístico contribui para a aprendizagem sensório-motora na creche. | Pesquisa qualitativa intervencional | 0 a 3 anos | Exploração de objetos não estruturados (brincar heurístico) e liberdade de movimento. | Sessões diárias ou semanais de exploração livre. | O contato com materiais diversos amplia a curiosidade, a autonomia e refina a coordenação sensório-motora. |
Silva & Oliveira (2019) | Brasil | Analisar a linguagem como elemento mediador do desenvolvimento na perspectiva histórico-cultural. | Ensaio teórico-conceitual | 0 a 6 anos | Mediação verbal, interações sociais e uso da linguagem na rotina infantil. | Uso diário da linguagem nas relações sociais. | A linguagem reorganiza a percepção e o pensamento, atuando como o principal motor do desenvolvimento humano. |
Takahashi et al. (2023) | Japão | Verificar se o tempo de tela com 1 ano de idade causa atrasos de desenvolvimento aos 2 e 4 anos. | Estudo de corte longitudinal | 1 a 4 anos | Tempo diário de tela medido aos 12 meses de vida. | Variando de menos de 1 h/dia a mais de 4 h/dia. | Quanto maior o tempo de tela com 1 ano, maior o risco de atrasos na comunicação e na resolução de problemas aos 2 e 4 anos. |
World Health Organization (2019) | Suíça (âmbito global) | Definir diretrizes globais de atividade física, comportamento sedentário e sono para crianças pequenas. | Diretriz técnica (revisão de evidências) | 0 a 4 anos | Atividade física diária, tempo máximo de tela e horas de sono. | Recomendações para a rotina diária de 24 horas. | Menores de 1 ano não devem expor-se a telas; de 1 a 4 anos, limite máximo de 1 hora/dia (quanto menos, melhor). |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026), com base nos estudos selecionados.
3.1. Diretrizes Internacionais, Recomendações e Padrões Epidemiológicos de Exposição
Para contextualizar os parâmetros normativos de saúde infantil em relação ao comportamento sedentário e ao tempo de tela, a Tabela 4 sintetiza as recomendações globais formuladas pela Organização Mundial da Saúde (WHO, 2019) para crianças de zero a três anos.
Tabela 4. Recomendações da Organização Mundial da Saúde para atividade física, comportamento sedentário e sono na primeira infância
Faixa Etária | Tempo Sedentário de Tela Recomendado | Atividade Física Diária Exigida | Sono Diário Recomendado |
Menos de 1 ano | Não recomendado (0 horas/dia) | Pelo menos 30 minutos em posição de bruços (tummy time) | 14 a 17 horas (0-3 meses) / 12 a 16 horas (4-11 meses) |
1 ano | Não recomendado aos 12 meses; limite máximo de 1 hora/dia aos 2 anos (preferível menos) | Pelo menos 180 minutos em atividades de qualquer intensidade | 11 a 14 horas, incluindo cochilos |
2 anos | Limite máximo de 1 hora/dia (preferível menos) | Pelo menos 180 minutos, sendo 60 min em intensidade moderada a vigorosa | 10 a 13 horas, podendo incluir cochilos |
3 a 4 anos | Limite máximo de 1 hora/dia (preferível menos) | Pelo menos 180 minutos, sendo 60 min em intensidade moderada a vigorosa | 10 a 13 horas, podendo incluir cochilos |
Fonte: Adaptado de World Health Organization (2019).
A literatura sugere que o aumento do tempo de tela pode estar associado à redução do período disponível para o brincar ativo e para outras experiências corporais, especialmente quando o uso de dispositivos substitui atividades de movimento, interação social ou sono. Todavia, as diretrizes possuem caráter orientador e de promoção da saúde, não devendo ser empregadas, isoladamente, como instrumentos de diagnóstico individual de atraso neuropsicomotor.
3.2. Impactos nos Domínios do Desenvolvimento: Cognitivo, Linguístico, Socioemocional e Motor
As evidências que correlacionam a exposição digital aos diferentes domínios do desenvolvimento mostram variações expressivas conforme o desenho metodológico e o desfecho investigado. A Tabela 5 apresenta o mapeamento sintético dos principais achados encontrados na literatura examinada.
Tabela 5. Associações descritas entre exposição a telas e diferentes domínios do desenvolvimento infantil
Domínio | Síntese dos achados | Cautela interpretativa | Estudos de apoio |
Linguagem e comunicação | Maior exposição foi associada, em alguns estudos, a menores escores de linguagem e comunicação. | Os resultados podem variar conforme idade, conteúdo e mediação adulta. | Madigan et al. (2020); Takahashi et al. (2023). |
Cognição e resolução de problemas | Alguns estudos relacionaram maior exposição precoce a menor desempenho em determinadas tarefas cognitivas. | Não permite estabelecer relação causal isolada. | Takahashi et al. (2023); Mallawaarachchi et al. (2024). |
Coordenação motora global | Parte dos estudos identificou associação entre maior exposição e menor desempenho em equilíbrio ou coordenação global. | É necessário considerar oportunidades de movimento e nível de atividade física. | World Health Organization (2019). |
Aspectos socioemocionais | Foram descritas associações com irritabilidade, interação social e controle comportamental. | Os resultados podem ser influenciados por características familiares e contextuais. | Mallawaarachchi et al. (2024). |
Fonte: Elaborada pelos autores (2026), com base nos estudos indicados na última coluna.
No domínio motor, os estudos analisados sugerem que as associações entre maior exposição a telas e desempenho motor podem variar conforme o tipo de habilidade investigada, o contexto de uso e as oportunidades de movimento disponíveis à criança. Embora algumas atividades em dispositivos eletrônicos envolvam movimentos manuais de pequena amplitude, habilidades como equilíbrio, locomoção e coordenação motora global dependem de experiências corporais diversificadas e da exploração do espaço físico. Dessa forma, os achados não permitem atribuir à tela um efeito isolado sobre o desenvolvimento motor, mas indicam que o uso prolongado pode estar relacionado à redução do tempo destinado ao brincar ativo e às práticas de movimento.
No tocante ao desenvolvimento cognitivo e linguístico, os referenciais de Vygotsky, Piaget e Wallon fornecem sustentação teórica para compreender que a criança aprende pela ação corporal, pela manipulação concreta e pela interatividade social mediada. O empobrecimento das trocas verbais presenciais e da exploração heurística em ambientes virtuais passivos reduz as experiências necessárias para a construção de esquemas sensório-motores.
3.3. A Hipótese do Deslocamento de Experiências Corporais e o Papel do Sono
A análise analítica das evidências aponta que o prejuízo no desenvolvimento psicomotor não é provocado, unicamente, pelo estímulo visual em si, mas pela hipótese do deslocamento de experiências. O período dispendido diante dos dispositivos eletrônicos substitui a prática de habilidades motoras fundamentais (correr, saltar, equilibrar-se, lançar e receber) e a vivência de brincadeiras ativas.
Adicionalmente, a qualidade do sono surge como uma via indireta determinante para o desenvolvimento. A literatura demonstra que o acesso ou uso de mídias portáteis, principalmente no período noturno, está fortemente associado ao encurtamento da duração e ao declínio da qualidade do sono. Estudos têm descrito associações entre o uso de dispositivos eletrônicos no período noturno e menor duração ou pior qualidade do sono infantil. Entretanto, a intensidade dessas relações pode variar conforme o horário de uso, o tipo de conteúdo, a rotina familiar e as características metodológicas de cada estudo. Por isso, os achados devem ser interpretados como associações, e não como demonstração de causalidade individual.
3.4. Moduladores da Exposição: Conteúdo, Contexto, Mediação Adulta e Determinantes Sociais
Os dados compilados evidenciam que a exposição digital não possui um efeito uniforme. A Tabela 6 sumariza os fatores mediadores que alteram o impacto do tempo de tela sobre os desfechos infantis.
Tabela 6. Associações descritas segundo o tempo, o conteúdo, o contexto e a mediação do uso de telas
Aspecto analisado | Associação descrita | Cautela interpretativa | Estudos de apoio |
Maior tempo de exposição | Pode estar associado a menor tempo de movimento e sono. | A relação pode ser influenciada por rotina familiar e nível socioeconômico. | Mallawaarachchi et al. (2024). |
Uso próximo ao horário de dormir | Pode estar associado à redução da duração ou da qualidade do sono. | É necessário considerar horário, duração e conteúdo. | Carter et al. (2016). |
Conteúdo educativo | Alguns estudos descrevem possíveis associações favoráveis quando o conteúdo é adequado à idade. | O benefício depende da qualidade, finalidade e mediação. | Mallawaarachchi et al. (2024). |
Uso acompanhado por adultos | Pode favorecer interação e compreensão do conteúdo. | Não significa benefício universal ou automático. | Mallawaarachchi et al. (2024). |
Uso durante refeições | Pode estar relacionado à redução da interação familiar durante as refeições. | A associação também envolve hábitos e organização familiar. | Mallawaarachchi et al. (2024). |
Fonte: Elaborada pelos autores (2026), com base nos estudos indicados na última coluna.
A análise dos moduladores (Tabela 3) evidencia que o foco analítico deve deslocar-se do parâmetro meramente quantitativo (“quanto tempo”) para parâmetros qualitativos (“como”, “com quem” e “para quê”). O uso compartilhado e dialógico atua como fator de proteção, abrandando prejuízos na linguagem e na sociabilidade.
Por fim, a literatura expõe que a exposição excessiva a telas é atravessada por vulnerabilidades socioeconômicas. Diante do déficit de infraestrutura urbana, da escassez de espaços públicos seguros para o lazer e da sobrecarga de trabalho familiar, os dispositivos digitais passam a desempenhar uma função compensatória de manejo do tempo e segurança. O tempo de tela revela-se, portanto, também como um indicador de desigualdade no acesso a oportunidades de movimento e práticas corporais.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão bibliográfica narrativa analisou as associações descritas na literatura entre a exposição a telas e dispositivos eletrônicos e o desenvolvimento de crianças de zero a cinco anos. Os estudos examinados sugerem que a relação entre o uso de telas e o desenvolvimento infantil não deve ser compreendida exclusivamente a partir do tempo de exposição, uma vez que fatores como conteúdo, contexto, horário, mediação dos responsáveis, sono e oportunidades de movimento também participam dessa relação.
No domínio motor, parte da literatura associa o uso elevado de telas à redução do tempo destinado ao brincar ativo, à exploração do ambiente e às experiências corporais. Nos domínios cognitivo, linguístico e socioemocional, foram descritas associações variadas, que podem sofrer influência da qualidade do conteúdo, da interação com os responsáveis, da rotina familiar e das condições sociais em que a criança está inserida.
Entretanto, a heterogeneidade dos estudos analisados, a predominância de delineamentos observacionais e as diferenças na forma de mensuração do tempo de tela não permitem estabelecer relações causais definitivas. Dessa forma, recomenda-se que o uso de dispositivos eletrônicos seja analisado de maneira contextualizada, sem generalizações que considerem toda exposição necessariamente prejudicial ou todo conteúdo digital automaticamente benéfico.
Para a Educação Física e a Educação Infantil, os achados reforçam a importância da oferta de oportunidades regulares de movimento, brincadeira ativa, exploração do espaço e interação social. Pesquisas futuras podem aprofundar a análise longitudinal do tema, especialmente em populações brasileiras e em contextos de maior vulnerabilidade social.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Acadêmico do curso de Educação Física.
2 Acadêmico do curso de Educação Física.
3 Professor do curso de Educação Física.