REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791555318
RESUMO
O presente artigo relata o percurso de um projeto extensionista que buscava, junto aos estudantes da universidade, cuidar dos efeitos subjetivos decorrentes ou intensificados pela pandemia de COVID-19, tais como ansiedade, tristeza e diminuição do tônus vital. Para fazer frente a esse quadro pandêmico, construímos dispositivos coletivos de cuidado e de experimentação sensível por meio de plataformas digitais. Tais dispositivos visavam produzir estratégias que engajassem os estudantes numa relação ativa de cuidado consigo mesmos, com o grupo e seus participantes e com a comunidade mais ampla na qual se inseriam. Avaliamos que os encontros que promovemos coletivamente viabilizaram espaços/tempos de partilha e de continência frente à experiência disruptiva deflagrada pela pandemia. Encontros em que foi possível colocar em análise o tempo, a relação mediada por tecnologias digitais, a solidão das políticas de subjetivação contemporâneas, os fascismos vigentes, bem como ensaiar coletivamente saídas para o que constrange a vida.
Palavras-chave: subjetividade; pandemia; tecnocentrismo; grupalidade; universidade.
ABSTRACT
This article describes the progress of an extension project that, in collaboration with university students, sought to address the subjective effects arising from or intensified by the COVID-19 pandemic, such as anxiety, sadness, and a decline in vitality. To address this pandemic situation, we developed collective mechanisms for care and sensory experimentation through digital platforms. These mechanisms aimed to develop strategies that would engage students in an active relationship of care—toward themselves, the group and its participants, and the broader community in which they were embedded. We assess that the gatherings we collectively organized created spaces and moments for sharing and for coping with the disruptive experience triggered by the pandemic. These gatherings provided an opportunity to analyze time, relationships mediated by digital technologies, the loneliness inherent in contemporary subjectivation policies, and prevailing forms of fascism, as well as to collectively explore ways out of what constrains life.
Keywords: subjectivity; pandemic; technocentrism; group dynamics; university.
1. INTRODUÇÃO
1.1. Pandemônio
Primeiro ano da pandemia de Covid-19. Em tom de ironia e negando a gravidade do problema, o presidente em exercício defendia a massificação de medicamentos não aprovados pela medicina científica e se insurgia contra o isolamento social imposto por prefeitos e governadores em todo o país. Um governo que orquestrava cotidianamente uma política de morte, que intensificava o que, retomando Paul Virilio, Safatle (2020) denominou estado suicidário. Trata-se de um estado que caminha rumo à gestão da morte de sua população e flerta com a própria destruição, promovendo uma violência estatal sem precedentes no Brasil.
Neste período da pandemia, nos tornamos alvos, como aponta o autor, de um grande experimento de gestão estatal fascista que se mostrava indiferente ao crescente e assustador número de mortos que assolaram o país. O negacionismo, como estratégia política, manifestava-se na rejeição deliberada de fatos históricos e científicos, tornando-se uma tática populista que resultava na banalização de mortes e na oposição a medidas preventivas diante da pandemia de Covid-19.
Durante esse período, os campi das universidades foram fechados e as aulas presenciais foram substituídas por atividades virtuais (síncronas e assíncronas), por meio de plataformas online. Uma mudança que impactou sobremaneira o ensino, a pesquisa, a extensão e os estágios, além de trazer inúmeros desafios para o processo de ensino e aprendizagem, entre eles, a dificuldade de acesso de parte dos estudantes a computadores e à internet de qualidade, o que revelava desigualdades sociais de grande impacto e evidenciava a necessidade de políticas de permanência estudantil no contexto pandêmico.
Diante desse cenário, premidos pela situação emergencial decorrente da pandemia, fomos tentando inventar condições de trabalho e práticas pedagógicas possíveis, a partir da consolidação do exercício de solidariedade e de apoio recíprocos entre docentes e estudantes.
Em meio a uma difícil travessia, própria aos tempos pandêmicos, nasce o projeto: “Experimentações sensíveis e tecnocentrismo digital: cuidando dos efeitos subjetivos junto aos estudantes da UFF”, realizado no período da pandemia de Covid 19, por meio de uma parceria entre dois campi, Niterói e Campos dos Goytacazes, que desenvolviam projetos de estágio curricular específico nos quais se destacavam as dimensões da corporeidade e da experiência sensível como eixos formativos. No entanto, o projeto de extensão que ora tomamos como deflagrador de movimentos de pensar, nasce, no caso do Campus de Niterói, num hiato temporal, no qual os Estágios encontravam-se suspensos, porque estava em discussão a viabilidade pedagógica, ética e política de adaptá-los ao formato remoto. No caso do Campus de Campos dos Goytacazes, por se tratar de uma pesquisa, “O Corpo sem álibi” não experimentou esse hiato temporal e, neste sentido, teve um caráter de continuidade, quando ambos os projetos (estágio e pesquisa) se articularam de modo a prosseguirmos em contato (online), ativando uma roda de conversas e algumas experimentações dirigidas ao cuidado de si e dos coletivos envolvidos.
Como objetivo mais geral, o projeto, batizado pelos discentes de PROGESTOS, buscava, junto aos estudantes da universidade, cuidar dos efeitos subjetivos decorrentes ou intensificados pela pandemia de COVID-19 e seus desdobramentos sociosanitários, tais como ansiedade, tristeza e diminuição do tônus vital. Para fazer frente a esse quadro pandêmico, construímos dispositivos coletivos de cuidado e de experimentação sensível por meio de plataformas digitais. Tais dispositivos visavam fabricar estratégias que engajassem os estudantes numa relação ativa de cuidado consigo mesmos, com o grupo e seus participantes e com a comunidade mais ampla na qual se inseriam.
Subitamente lançados nesse tecnocentrismo digital, pervadido pelas imagens e pelo seu poder plástico de apresentação acrítica do mundo, é impossível ignorar o que nos torna contemporâneos: a tarefa ética e constitutiva de cultura — o cuidado. Medo. Depressão. Ansiedade. Tédio. Prontidão.
Assim abalados, motivados, no eixo entre pesquisa e extensão, produzimos uma interferência no território da Universidade e de seu corpo estudantil, engendrando novos arranjos na relação entre corporeidades e tecnocentrismo digital. Em tempos de suspensão das atividades presenciais e de ruptura nas redes regulares de sociabilidade e sustentação existencial, tratou-se de criar estratégias coletivas e autogestoras de cuidado em saúde mental, fortalecendo os laços entre a comunidade universitária e, simultaneamente, por meio da dimensão investigativa presente nesta ação, subsidiar projetos e práticas de cuidado dirigidos a este segmento, bem como permitir a aproximação e a problematização das políticas de subjetivação em curso. Cabe destacar que o projeto foi fundamental para a adaptação posterior do Estágio ao formato remoto, quando a pandemia se revelou mais duradoura do que se esperava no início.
Novos afetos nos convocaram: pesquisas, protocolos, providências, numa gangorra ainda insolúvel, e até mesmo demolidora das certezas, onde informação e experiência tendiam a se contradizer: à proliferação ilimitada de diferentes mundos e meios, presenciamos a sensação de isolamento e apagamento das diferenças compartilháveis; ao incremento da velocidade dos fluxos de mensagens e conexões, inversamente acompanhamos o esvaziamento dos contatos e da capacidade de composição; ao aumento do poder de acesso à informação, correspondiam afetos e sintomas decorrentes da diminuição da potência de significar, de dar sentido; à multiplicação da oferta de tudo, pronta para criar demanda, crescia a urgência de inventar novas maneiras de viver e também pensar.
Algumas questões e problemas nortearam nosso trabalho: como ativar a dimensão do cuidado em tempos pandêmicos, no âmbito do processo formativo implementado pelas instituições de ensino? Como avaliar a intercessão entre, de um lado, os usos libertários que as tecnologias da informação e seus dispositivos permitem aos coletivos de corpos interessados e desejantes rumo a "uma inteligência ou uma imaginação coletiva", tal como proposto por Lévy (1997) e, por outro lado, a institucionalização desses usos, transformando o tempo de uso da internet em espaço de controle e expropriação da experiência?
Acopla-se a essas questões a dimensão da saúde mental dos estudantes, sinalizada pelo Conselho Superior de Ensino e Pesquisa como aspecto a ser considerado na retomada do Calendário Acadêmico, o que a torna, portanto, uma questão institucional relevante naquele momento. Entretanto, quanto aos processos subjetivos que se apresentavam como “problemas de saúde mental”, entendemos que se tornou fundamental não psicologizar as questões emergentes como se fossem oriundas de singularidades somáticas, mas tomá-las como resultantes do embate entre a necropolítica dominante Mbembe (2018), intensificada na gestão da pandemia, e a dimensão vital dos corpos que resistiam ao extermínio, em diferentes âmbitos, inclusive no âmbito do subjetivo.
Portanto, interferir no território da Universidade Pública e de seu corpo estudantil, tendo como dispositivo o cuidado, nos convocava ao exercício de uma clínica paradoxal. Paradoxal, porque a prática clínica é por nós entendida como um efeito e, ao mesmo tempo, como um instrumento do contemporâneo, forjado nessa “urgência” que o caracteriza. A clínica do contemporâneo, no contemporâneo, é fundamentalmente utópica e intempestiva. Isto porque, para os outros, essas duas figuras, uma do espaço (utopia) e outra do tempo (extemporânea), se entrelaçam pela característica comum da instabilidade (Passos, Barros, 2000). Buscamos, portanto, fazer convergir a intempestividade da clínica com a instabilidade gerada pela pandemia e experimentada pelos corpos docentes e discentes na universidade, a fim de produzir desvios éticos na construção de coletivos de cuidado e vida.
2. PROGESTOS E A APOSTA NUM CONTÁGIO OUTRO
Assim iniciamos as oficinas. “Com gente chegando daqui e dali e de todo lugar que se tem pra partir”, como diz a letra de “Chegança”, de Edu Lobo. Com a música, buscávamos criar uma ambiência sonora que pretendia envolver quem chegava numa espécie de abraço neste ambiente liso de subsunção da materialidade corpórea, no qual escorregávamos, tateando algum apoio possível para o contato.
Inauguramos o projeto “experimentações sensíveis e tecnocentrismo digital: cuidando dos efeitos subjetivos da pandemia junto aos estudantes da UFF” na tentativa do que é sempre mais difícil, a saber, “ancorar um navio no espaço” (Cesar, 1991), ou, ao menos, criar um ancoradouro possível quando tudo parecia à deriva, em decorrência da pandemia da Covid-19. Em meados de 2020, após alguns meses de perplexidade paralisante, a Universidade retomou suas atividades, excepcionalmente no formato “remoto”, com aulas, reuniões e tudo mais, mediadas por computadores e celulares. Ouvindo relatos de deriva subjetiva entre os estudantes (e em meio à nossa própria deriva), abandonamos a tentativa de ancorar o navio no espaço digital e, com os materiais disponíveis, construímos uma pequena jangada que ajudasse a atravessar tempos incertos e sustentar coletivamente a política de formação e aprendizagem na qual apostamos. Política que se tece entre muitos, pois o que apreciamos é o que pode um corpo, e como podemos aprender a construir um plano comum que comporte, ao mesmo tempo, o com-um, os processos de diferenciação engendrados nos encontros grupais por meio de proposições que ativam o cuidado de si.
Com quantos paus se faz uma jangada?
Três professoras, sete estudantes, todes dos cursos de psicologia dos campi de Niterói e Campos dos Goytacazes da Universidade Federal Fluminense. Um edital, muita correria. Como sustentar o paradoxo de ter de utilizar o meio que nos fadiga e nos aplaina para gerar acolhimento e cuidado coletivo? Como convencer os olhos cansados de tela e os corpos moídos de tanta cadeira de que poderíamos extrair daquilo que nos exaure um pouco de ar para prosseguirmos vivos? Em tempos de pandemia, em que o isolamento social é um luxo ao qual poucos tiveram acesso, como converter os meios tecnológicos que visam a nos tornar consumidores de imagens, produtos e sensações estandardizadas em oportunidade de encontro, cuidado e singularização?
Em nosso encontro de chegança pedimos a cada um que se apresentasse não com o nome próprio do registro civil ou com a narrativa bem estruturada de si mesmo, mas a partir de como estava chegando naquele momento. A consigna foi: “Hoje eu sou…”. Recusando as estratificações demasiado redutoras, buscávamos mapear estados do corpo e engajar os participantes em outras experiências de si. Hecceidade sem sujeito, si mesmo contingente emergindo do agenciamento proposto. O diagrama que abre esta seção foi construído coletivamente a partir dos nomes-rastros-de-intensidades trazidos pelos participantes. Escolhemos que cor, tamanho e posição deviam ter cada rastro e as linhas subjacentes que conectavam palavras, sensações, direções, construindo o registro de um encontro que faz lembrar um mapa celeste, repleto de pontos luminosos, constelações, buracos negros.
No âmbito da dimensão metodológica, o PROGESTOS iniciava com o trabalho semanal do coletivo propositor. Um trabalho de escuta mútua, da palavra que circula na roda, do rodízio entre nós, em que todos os componentes puderam assumir o lugar de condutores do trabalho junto aos participantes. O trabalho desdobrava-se, então, em dois grupos: 1) o grupo propositor, formado por três professoras e sete estudantes de Psicologia de dois campi da UFF, Campos dos Goytacazes e Niterói; e 2) o grupo participante, formado por estudantes de diferentes cursos da UFF, que chegaram por meio da divulgação online do projeto.
Os participantes do grupo propositor, professoras e estudantes de Psicologia, se encontravam semanalmente para mapear os afetos deflagrados pelo isolamento social e sua relação com a universidade e formular propostas de ativação da corporeidade/plano sensível dirigidas a outro grupo, constituído por estudantes da universidade que se inscreveram para participar das oficinas. Realizamos 16 encontros em 2020. Com a persistência da pandemia e do formato remoto de ensino, o Projeto passou a adotar outra configuração no ano seguinte, em 2021, período que não será abordado neste ensaio. Os encontros realizavam-se por meio da plataforma Google Meet e tinham duração média de duas horas, podendo se estender ou desdobrar-se em encontros específicos entre as duplas propositoras, formadas por estudantes e professoras, para o detalhamento da proposta discutida coletivamente por todos, a ser dirigida ao grupo participante.
Iniciamos esta seção com um “print” da tela do final do nosso primeiro encontro, quando propusemos uma apresentação a ser feita por todos os presentes, propositores e participantes. Aqui se constituía um terceiro grupo ou, antes, uma terceira experiência de grupalização, pois propositores não estavam a salvo nos lugares resguardados de especialistas, mas também participavam ativamente da oficina, operando uma dilatação nos lugares fixados, neste caso, por meio da substituição da clássica apresentação com o nome próprio por uma “apresentação intensiva”, que buscava compartilhar o estado de corpo por meio de uma palavra/expressão, embaralhando os cristalizados lugares de professor/aluno; propositor/participante.
Assim, no primeiro encontro, não estavam presentes apenas Ana, Beth, Silvana e Pedro, mas também “alegria laranja”, “bifurcação”, “eu não tenho nome”, rastros dos estados de presença de um tempo em que a existência era condenada à solidão da interminável quarentena. Como propunha Tarde (2007), deslocamo-nos da tirania do verbo ser e pudemos experimentar as variações intensivas do verbo estar como modos de se apropriar, por contágio. Tal operação permitia desmanchar coagulações subjetivas tão sedimentadas na experiência de um eu encapsulado em si mesmo e abrigar a aposta relacional de um fazer-se no mundo, como o mundo, entre mundos.
Nesse contexto, a escuta, ferramenta tão cara aos psicólogos como meio de acesso à verdade psíquica daqueles a quem se dirigem, deslocou-se e passou a operar como um estado transversal de recepção ativa, engajando diferentes sentidos e elementos. Uma escuta pautada numa perspectiva cartográfica (Passos; Kastrup; Escóssia, 2009). Isso implica afirmar que os diferentes enunciados que se fizeram presentes trouxeram um conjunto de elementos — afetivos, políticos, sociais, familiares, entre outros — que se tornaram matéria-prima do trabalho. Essa dimensão singular e, ao mesmo tempo, coletiva dos enunciados é que faz da subjetividade uma instância múltipla, indissociável de práticas sociais concretas.
Nos encontros semanais do grupo propositor, pautamos uma avaliação sistemática dos “erros e acertos” sobre os quais nos debruçamos de forma sensível e, ao mesmo tempo, rigorosa. Evitamos os excessos de explicações, e de queixas, não por desprezo aos seus significados, mas por priorizarmos a aprendizagem do que pode um corpo, na construção de um plano comum que comportasse, ao mesmo tempo, o com-um, no sentido de sustentar os processos de diferenciação engendrados nos encontros grupais, trabalhando com proposições que ativaram o cuidado de si, indissociável do cuidado do/no coletivo.
E mesmo com uma tecnologia precária, limitados cada um em sua tela, em sua morada, com inúmeros ruídos que desviavam a atenção, procurou-se - por uma sinfonia de vozes expressadas juntas ou diferenciadas pelo delay de cada aparelho, mas cujo efeito foi capaz de fazer sentir - um pouco de calor, um pouco de cor, um pouco de aconchego entre nós, e, portanto, um pouco de carinho e sustentação em mais um dia durante a dura pandemia em que estávamos inseridos. Carinho que portava o gesto de enlaçar o outro em um plano comum de experiência, dissolvendo a fina camada privada da solidão e dando a ver que a vida só se tece coletivamente. Aposta ética e clínico-política.
Nas experimentações conduzidas por professoras e estudantes, exploramos bastante o plano baixo (convocando a memória sensível das costas, nosso primeiro suporte - colo): vibramos, alongamos, recolhemos, percebemos, acolhemos, e isso nos permitiu construir um território expressivo, próximo a um ritornelo existencial, como o de um pássaro que pousa, enche o peito e canta para o mundo. Ritornelo, palavra retirada da música, podendo ser traduzida por rondó ou ladainha, é, a rigor, uma repetição expressiva ou, ainda, uma repetição tornada consistente que desafia as forças caóticas do meio, retirando desse meio a expressividade, de modo a produzir um corpo intenso ou uma morada expressiva. (Deleuze & Guattari, 1997).
Marcamos o chão com nossos corpos dentro de nossa morada expressiva e, com movimentos de alongamento de pernas, braços, pescoço, tronco e quadril, fomos flexibilizando nossos limites, aumentando a confiança no grupo, virando um grupo. Assim, nossos encontros foram se tornando mais aconchegantes e capazes de interferir no cotidiano invadido pelo tecnocentrismo digital e pela necropolítica pandêmica.
Ao ouvir as narrativas de pessoas de diferentes lugares, com suas singularidades, percebemos a dificuldade de aprender a sustentar um certo silêncio, e os imprevistos exigiram ação rápida. Aprendemos que há outra temporalidade que se constitui em meio remoto, colocando-nos expostos a um tempo raso e intermitente, como pixels na tela. Os encontros presenciais são habitados por suspiros, balanços, toques, gestos que vão dando consistência ao encontro na mesma medida que as palavras. Na tela, estamos submetidos à onipresença escópica, com o rosto em evidência, como se existisse sem o corpo, uma exigência permanente de contato visual, sem implicar outros regimes de contato. Olhar sem ver, ver sem sentir. Estar juntos sem esbarrar. Fina película que filtra intensidades e, supostamente, as neutraliza na tela plana do computador ou do celular. Com o projeto, adentramos um universo de novos signos, temporalidades, armadilhas e possibilidades, convocando a um trabalho minucioso na produção de estados de corpo em pulsação vital. Como aponta, Martins:
Se o pensamento não é algo abstrato que se expressa no corpo e afirmarmos sua dimensão corpórea, o que corre riscos com a aposta única de uma escrita acadêmica que se quer mais séria do que pictórica, mais rígido que plástico, é o próprio corpo. (Martins, 2018, pg. 164)
Tomando o pensamento e sua dimensão corpórea como direção, algumas análises elaboradas pela equipe, sobre o projeto e os processos por ele engendrados, nos apontaram que o espaço tecnológico resiste — e muito mais do que inicialmente esperado — à apropriação. O ensino remoto mostrou-se um contexto extremamente objetivo, no qual há, predominantemente, encontros para breves discussões sobre o que se deve continuar a fazer sozinho: ler textos, fazer estudos dirigidos, assistir a vídeos. O assíncrono é a regra; o síncrono é um luxo que, muitas vezes, acontece às avessas, pois perde a dimensão do encontro e da presença possíveis, sendo utilizado para organizar o período assíncrono. A exposição constante a este modo de funcionamento cerceia as possibilidades relacionais: as reuniões frequentemente não são espaços de abertura, de troca nem de criação. Assim, a subjetividade, transformada em tela pixelada, se embaraça e reduz sua potência de singularização e de coletivização, o que limita a deflagração de processos grupais.
Mesmo assim, nesse contexto digital, agravado pela pandemia de Covid-19, os objetivos propostos neste projeto foram parcialmente alcançados. Tanto do ponto de vista do coletivo propositor quanto dos participantes inscritos, foi possível, por meio das experimentações sensíveis, contribuir para a ampliação e a preservação dos laços acadêmicos entre estudantes, docentes e integrantes da equipe ao longo dos três meses em que realizamos nossos encontros.
Assim, a partir das plataformas digitais, inauguramos um regime de virtualidades no qual foram experimentadas estratégias transversais de cuidado coletivo e de autocuidado. Cuidado e autocuidado, pautados na escuta de um corpo sensível, na experimentação do lúdico, na partilha da “dor e delícia” de fazer frente aos constrangimentos que um regime extraordinário de ensino remoto acionou e que se agravaram num contexto de isolamento social em tempos pandêmicos.
A investigação das possibilidades de cuidado em formato remoto, da dinâmica relacional e dos estados de corpo/subjetividade nesse período de isolamento social, bem como a experimentação de dispositivos remotos de grupalização, subsidiaram a reconfiguração da disciplina “Estágio Específico” no Instituto de Psicologia de Niterói, anteriormente oferecida presencialmente, o que propiciou sua retomada no segundo semestre de 2020. Assim também, as experimentações com as oficinas de corpo praticadas presencialmente pelo projeto de pesquisa "O corpo sem álibi", do polo universitário de Campos dos Goytacazes, puderam ser realizadas em ambiente virtual, ampliando as possibilidades de dispositivos de sensibilização, propriocepção e compartilhamento, dando matéria expressiva às sensações silenciosas. As vivências criadas nas oficinas do PROGESTOS teceram a confiança necessária à continuidade dos encontros desse projeto, por meio de métodos até então considerados inviáveis fora do regime presencial.
Foi possível transformar um espaço pesado e cansativo (as telas) em um encontro com outros que compartilhavam o desejo de se cuidar, se ouvir, cuidar do outro, acolher e ser acolhido, por meio de uma escuta sensível do corpo, em um tempo de isolamento. Por meio de encontros remotos, cada um em sua casa, interpelado pela rotina doméstica, experimentamos encontros reais entre pessoas, corpos, tensões, histórias, efeitos da pandemia, casas, móveis, brinquedos, camas, armários, texturas, desenhos. A cada troca nas oficinas, com a difícil despedida do último dia, percebemos que as quartas-feiras instauraram outras regularidades e desdobravam as rotinas e os contextos. As oficinas eram espaços para respirar olhos, peles, músculos, boca e nariz. Ser você, ser outros, ser inútil, como nos advertiu Krenak (2020), exercendo a possibilidade de ruptura com o modo produtivista do capitalismo contemporâneo.
Mas, em tempos pandêmicos, tornava-se fundamental diferenciar o apelo produtivista de que continuávamos sendo alvo — aulas, avaliações, reuniões, atividades de estágio supervisionado — todos na modalidade remota, do desejo de elegermos encontros que abrissem espaços/tempos de partilha de outra natureza. Encontros em que fosse possível colocar em análise o tempo, com todos os fascismos vigentes, bem como a elaboração coletiva de possíveis saídas para tudo o que constrange a vida.
3. REVERBERAÇÕES
O que importa é nos tornarmos contemporâneos do que nos torna o que somos e o que estamos em vias de nos tornar. (Foucault, 2005, p.351).
Nosso contemporâneo nos tem imposto a pior, talvez, das violências: a indiferença – um modo de hostilidade mais sutil, porém não menos cruel. Essa é a situação que parece nos convocar a criar meios para mantermos a dimensão vívida de nossos encontros, salvaguardando o plano paradoxal de nossa potência – nossa fragilidade. Sermos frágeis não configura fraqueza ou fracasso, mas sim uma porosidade capaz de nos tornar afetáveis ao que se passa e, sabemos, o afeto pensa e faz pensar.
Temos testemunhado a banalização do uso de armas e de atos extremos cometidos contra mulheres e crianças, o que nos leva a supor que a precarização das vidas, enquanto potência criativa e expressiva de agir e de pensar, tem dado lugar ao sintoma substitutivo do poder perverso de extermínio.
Nessa vertente, o cotidiano de mortes provocadas pela cínica indiferença daquele governo durante a pandemia, parece ter sido recrudescido pelo uso indiscriminado das telas de celulares que mais favoreceu a subjetividade do hiper indivíduo atual, com seu poder de tudo gravar, mas sem efetivamente estar presente em gesto, simulando presença no ato compulsivo de registrar. Os tempos atuais ecoam o que Foucault (1992) trouxe com firmeza em seu livro “As palavras e as coisas”, ao mostrar que o homem é um produto de suas práticas, e não uma essência imutável. Ninguém nasce terminado.
Podemos nos tornar vil, de extrema vileza, se não estivermos atentos ao que nos afeta em nosso cotidiano e ao modo como atravessamos afetos difíceis, sintonizando a dupla dimensão de nossos gestos: dimensão contratual, verbal, pela qual somos lançados à sociabilidade compulsória, e a outra dimensão, não-verbal, acessível porém inapreensível — a dimensão do contato, pré-pático, infra-sensível, além ou aquém mas, com certeza, fora do plano sensório motor e, portanto, um potente analisador do quanto a dimensão experiencial de nossas vivências pode superar nossa razão, nos implicando ao plano intensivo dos acontecimentos.
Assim, tecemos práticas somáticas capazes de ativar o plano estético e o plano ético de nossas vulnerabilidades, supondo a inextricável implicação a que estamos sujeitos por não sermos donos de nossa causalidade interna, mas sim efeito-sujeitos de nossos encontros, sejam eles bons ou maus.
E se agimos também em ressonância a nossos afetos, não só por comportamento aprendido, nosso projeto de oficinas visou — ao limite – a experimentação de nossa afetabilidade ao outro, sendo, este outro, um qualquer, a ser vivenciado enquanto abertura ao possível e aos mundos que exprime: Toda atenção à escuta de nossos corpos, em seu encontro pático — sem álibi e, portanto, capaz de barrar o sujeito do juízo e o sujeito sintomático em sua retração apática ou patética.
Urge pensar e experimentar o corpo e sua potência impessoal de inventar mundo (s) nos espaços formativos, de modo a confrontar o modus operandi desse tecnocentrismo digital e os efeitos que a máquina capitalista atual impõe às comunicações. Momento em que a experiência do corpo a corpo, substituída pelo uso de telas, torna a interatividade dos encontros, simultaneamente, excluída e reintegrada por meio da subordinação maquínica aos algoritmos e às redes sociais.
Ainda que a pandemia tenha sido o momento em que o tecnocentrismo digital se fortaleceu como o novo oásis de biossegurança a ser investido com avidez, ela não constituiu seus limites absolutos. Contrariamente, o que vivemos lá, em estado bruto e germinal, se desdobra aqui, com a onipresença da Inteligência Artificial como conquista humana inquestionável, ainda que devore rios inteiros e seja capaz de acelerar a já dramática crise climática global. De acordo com o Portal G1 (2025), uma mulher japonesa se casou com um avatar de inteligência artificial em dezembro de 2025.
Mas não precisamos ir tão longe para perceber a centralidade digital por meio do assujeitamento dos corpos às redes sociais, aos aplicativos de relacionamento, ao controle de peso, à prescrição de modos de vida, etc. A Inteligência Artificial radicaliza este processo de encapsulamento em bolhas, no qual a alteridade é banida como um vírus.
Assim, consumidos e processados por uma cooperação sem memória, como meras peças de um jogo, nossa afetabilidade torna-se refém e passível de exploração. Assistimos à reedição de nazi-fascismos e de seus dispositivos, tais como o fechamento das fronteiras do Estado-nação e suas burocracias abstratas, além do reforço do valor da família nuclear edipiana e da reprodução de todos os tipos de racismo.
Tal configuração impõe problematizar a produção de subjetividade e seus marcadores no contemporâneo a partir de um referencial crítico-clínico do duplo vínculo operado pelo capitalismo atual, ora desterritorializando a economia pela globalização, ora reeditando estruturas conservadoras para conter os fluxos das relações pessoais (reterritorialização). A urgência desse momento mundial nos convoca a cartografar os efeitos subjetivantes sobre os modos de sentir, agir e pensar, problematizando o desejo que se retorce em violência e juízo, substituindo sua potência de fazer existir e criar.
Trata-se de restituir ao corpo e à dimensão vívida dos encontros o plano de consistência da vida, e de reinventar modos de existência mais simples, mais encarnados no território e nos corpos que somos. Restituir à voz e à escuta seu poder ancestral de ressonância.
Desse modo, pensamos fortalecer as interações entre pessoas em espaços vivenciais de cooperação como caminhos para fazer valer a oralidade e seu poder de transmissão; um efeito clínico não individualizante, restituindo a espessura dos encontros e as práticas ancestrais de trabalho e confiança. Constituir um campo problemático, tomando o capitalismo contemporâneo não como ideologia ou estrutura econômica, mas como máquina social de regulação de fluxos no acontecimento geopolítico-social.
Afinal, sabemos que a terra dá, a terra quer (Bispo,2023) e, se traçarmos linhas de fuga, não será para fugir do mundo, mas para fazer o mundo fugir e assim, talvez, adiar o fim do mundo. A terra dá, a terra quer, como princípio cosmológico relacional e, assim, fazendo este mundo fugir, revelando a contingência do tecnocentrismo digital capitalista, talvez seja possível reencontrarmos outra IA, a Inteligência Ancestral, como lembra Yakuy Tupinambá (2026), a sabedoria cosmológica ancestral que tem sustentado a vida no planeta por muitos milênios, com tecnologias complexas e coletivas.
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TUPINAMBÁ, Yakuy. Aula aberta com Yakuy Tupinambá: Memória, ancestralidade e movimento — o modo de vida Tupinambá. Aula aberta da Disciplina “Teoria da Memória e Movimentos sociais”, Programa de Pós-graduação em Sociologia, Universidade Federal Fluminense (UFF), 2026. Acesso em: 29 set. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yvepht73Wew&t=11s.
1 Docente do Curso Superior do Instituto de Psicologia da UFF/Niterói-RJ. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Docente do Curso Superior da Universidade Federal Fluminense, Campos de Goytacazes/RJ. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Docente do Curso Superior do Instituto de Psicologia da UFF/Niterói-RJ. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail