ESTRATÉGIAS DE INTERAÇÃO E SINGULARIDADES PARA O TRATAMENTO ODONTOLÓGICO DE CRIANÇAS DIAGNOSTICADAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA

INTERACTION STRATEGIES AND SINGULARITIES FOR THE DENTAL TREATMENT OF CHILDREN DIAGNOSED WITH AUTISM SPECTRUM DISORDER

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791481871

RESUMO
A criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresenta desafios em interação social, comunicação e comportamentos repetitivos, resultantes de alterações neurológicas. A saúde bucal desses indivíduos é precária devido à limitação motora, alimentação inadequada e efeitos colaterais medicamentosos, exigindo atenção odontológica especializada. No entanto, as dificuldades de rotina, comunicação e a falta de treinamento adequado dos profissionais tornam o tratamento estressante e desafiador para pacientes e dentistas, destacando a necessidade de abordagens específicas e capacitação profissional. Objetivo do presente trabalho é realizar uma revisão de literatura acerca das estratégias de interação e singularidades para o tratamento odontológico de crianças diagnosticadas com transtorno do espectro autista, realizando uma análise acerca das técnicas e táticas que odontopediatra exercesse sobre esses pacientes e quais as particularidades que podem ser observadas na região oral. Matérias e Métodos Os artigos foram buscados nas bases de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e PubMed, este último foi escolhido bases de dados Lilacs, Ibecs, Medline, Cochrane e SciELO. Resultados foram organizados na forma de tabela. Discussão relata as dificuldades alimentares e problemas bucais em crianças com TEA, destaca-se a ligação entre preferências alimentares específicas e questões como má oclusão e cáries e sugere abordagens como manejo comportamental, uso de sistemas de comunicação alternativa e adaptações no ambiente odontológico. Conclusão requer abordagens sensíveis, incluindo comunicação clara, rotinas previsíveis e adaptação do ambiente, para promover uma experiência positiva.
Palavras-chave: Transtorno do espectro autista; odontologia e comportamento infantil.

ABSTRACT
Children with Autism Spectrum Disorder (ASD) face challenges regarding social interaction, communication, and repetitive behaviors, all stemming from neurological differences. The oral health of these individuals is often compromised due to motor limitations, inadequate diet, and medication side effects, necessitating specialized dental care. However, difficulties with routines and communication, combined with a lack of adequate professional training, make treatment stressful and challenging for both patients and dentists, highlighting the need for specific approaches and professional training. The objective of this study is to conduct a literature review on interaction strategies and unique considerations for the dental treatment of children diagnosed with ASD, analyzing the techniques and tactics employed by pediatric dentists and the specific oral characteristics observed in these patients. Materials and Methods: Articles were searched in the Virtual Health Library (VHL) and PubMed databases (the latter encompassing LILACS, IBECS, MEDLINE, Cochrane, and SciELO). Results were organized into a table. The discussion addresses dietary difficulties and oral health issues in children with ASD, highlighting the link between specific food preferences and conditions such as malocclusion and caries, while suggesting approaches such as behavioral management, the use of alternative communication systems, and adaptations to the dental environment. The conclusion emphasizes the need for sensitive approaches—including clear communication, predictable routines, and environmental adaptations—to foster a positive experience.
Keywords: Autism spectrum disorder; dentistry; child behavior.

INTRODUÇÃO

Nos últimos anos os números de crianças diagnosticadas com transtorno do espectro autista (TEA) tem aumentado de maneira significativa. Esse transtorno afeta todos os grupos étnicos, raciais e socioeconômicos e atinge em sua maioria indivíduos do sexo masculino. O TEA tende apresentar dificuldade em três domínios: interação social, comunicação e comportamento repetitivos ou interesses restritos devido seu sistema neurológico afetado que altera seu comportamento, linguagem e função cognitivas.  Sua coordenação motora é reduzida, alguns possuem hipersensibilidade auditiva, tátil, visual, interesse em atividades reservadas entre outros padrões de comportamento (CHANIN et. Al, 2023).

Segundo a organização mundial de saúde (OMS), dois terços da população com deficiência não recebem atendimento odontológico por ser difícil o tratamento. Logo é possível perceber sua predominância mundial, colocando a prova todos os profissionais. Alguns problemas relacionados ao autismo são o bruxismo, alto índice de prevalência de carie, doença periodontal e traumas bucais. As crianças autistas têm necessidade de acompanhamento odontológico, visto que essas crianças têm sua coordenação motora comprometida, fato esse que não contribui para uma boa higienização bucal, e o consumo exacerbado de alimentos açucarados muitas vezes oferecido como forma de prêmio para evitar a birra, um fator que colabora para o desenvolvimento da cárie dental (FERRER-COBA et. Al, 2022)

É indispensável procurar diferentes abordagens e técnicas comportamentais para que se consiga um atendimento eficaz, considerando seu estado de saúde físico, mental e social. É importante conhecer o correto diagnóstico, e os principais sintomas que afetam o paciente. Conhecendo o histórico e as manifestações, contribuirá para um planejamento personalizado e análise das alterações bucais, buscado ações de manejo para atender suas necessidades. (Oliva-Olvera et al, 2021)

Muitos estudos demonstram que a saúde bucal dos indivíduos com TEA são piores que a população geral, isso se dá devido à má higienização acarretada pela limitação motora, alimentação pouco saudável, e os medicamentos usados por eles que podem causar a diminuição salivar. Esses diferentes fatores podem contribuir para dores na região bucal, distúrbio do sono e como consequência gera agressividade e excesso de raiva (PIRANEH et. Al, 2022).

É importante que os indivíduos com TEA tenha acompanhamento com o cirurgião dentista devido os vários fatores significativos das doenças bucais que estão propicias. Mas devido as diversas dificuldades como a quebra de rotina, interações, comunicação social deficiente e sensibilidade sensorial que podem ser encontradas no consultório, torna uma experiencia estressante que provoca certas resistências. Outro ponto importante de destacar são as experiencias que os próprios profissionais enfrentam, em sua maioria não tem o treinamento e a confiança necessárias para tratar desses pacientes o que dificulta o acesso desses pacientes em encontrar profissionais capacitados para atender suas necessidades (ERWIN et. Al, 2021)

Com isso, o objetivo do presente trabalho é realizar uma revisão de literatura acerca das estratégias de interação e singularidades para o tratamento odontológico de crianças diagnosticadas com transtorno do espectro autista, realizando uma análise acerca das técnicas e táticas que odontopediatra exercesse sobre esses pacientes e quais as particularidades que podem ser observadas na região oral.

MATERIAL E MÉTODOS

Decidiu-se realizar uma revisão abrangente da literatura usando uma abordagem teórica reflexiva. Os artigos foram buscados nas bases de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e PubMed. Este último foi escolhido por sua abrangência de coleções de publicações das bases de dados Lilacs, Ibecs, Medline, Cochrane e SciELO. Assim, constituindo uma ferramenta adequada para uma revisão ampla.

Os artigos originais incluídos no estudo atenderam aos objetivos da pesquisa e foram publicados entre 2018 e 2023, recorte temporal adotado é admissível por se tratar dos últimos cinco anos de desenvolvimento de pesquisa. Os critérios de exclusão são definidos em termos de dissertações ou trabalhos inacabados. Além disso, não foram selecionados artigos que não abordassem temas de barreiras e estratégias no processo de desenvolvimento de pacientes pediátricos com diagnóstico de transtorno do espectro do autismo. Inicialmente houve uma identificação dos artigos nas bases de dados online utilizando os descritores “Transtorno do espectro autista”,” odontologia” e “comportamento infantil”. Empregou-se para a combinação desses descritores nas bases de dados, o operador booleano “AND” obtendo a partir disso 73 artigos, sendo desses 35 encontrados na PUBMED e 38 na BVS. Para refinar o resultado da busca utilizou-se o filtro “texto completo”.

Após isso, desenvolveu-se a leitura dos títulos e resumos dos artigos pré-selecionados, dos quais 28 obedeciam aos critérios de elegibilidade. Em seguida se aplicou os critérios de exclusão, onde se exclui da pesquisa 9 artigos por não articularem o tema proposto comportamento infantil e 1 artigo duplicado, incluindo-se na pesquisa 18 estudos.

Todos os artigos foram então analisados ​​detalhadamente, relendo o material selecionado e fichados nas seções mais importantes para analisar e extrair dados organizados por meio de gráficos e tabelas usando o Microsoft Excel (versão 2022) e word (versão 2022). A análise foi feita a partir de uma leitura sistemática dos artigos para extrair as ideias centrais de cada estudo, e os resultados são apresentados em uma tabela analisando cinco categorias de artigos: título, ano de publicação, objetivo, metodologia e conclusão.

Fluxograma do Processo de Inclusão dos Artigos

RESULTADOS

Tabela 1. Reação dos artigos utilizados na revisão de literatura.

Autor Ano

Artigo

Publicação

Conclusão

Alsharat 2021

Conhecimento de saúde bucal e comportamento odontológico entre indivíduos com autismo na Jordânia: um estudo de caso-controle

BMC Oral Health

Os autores concluíram que há uma falta de conhecimento por parte do grupo com TEA sobre as doenças bucais principalmente as que englobam doenças gengivais e periodontais, fazendo-se necessário a promoção em educação da higiene oral, uma rede de apoio que atinja essas crianças com autistas e suas famílias, além de se consultório adaptado para atendê-los.

Alshibli 2020

Barreiras ao atendimento odontológico profissional entre crianças com Transtorno do Espectro Autista

Journal of Autism and Developmental Disorders

No presente estudos foram relatados as principais causas do abandono no tratamento odontológico pelos pais das crianças autistas como: custo do tratamento, comportamento do paciente, falta de seguro e dificuldade em encontrar um profissional habilitado.

Chanin 2023

Percepções dos pais sobre o comportamento da criança durante o atendimento odontológico inicial

International Journal of Environmental Research and Public Health

O estudo demonstra que a cooperação dos pais nas consultas odontológicas dos pacientes com TEA é fundamental para se obter sucesso no manejo do tratamento dessas crianças.

Dalmau 2020

Revisão sistemática de disparidade e diferenças no acesso e uso de serviços aliados de saúde entre crianças com Distúrbio do Espectro Autista

Journal of Autism and Developmental Disorders

Das observações notaram à medida que a criança com autismo for envelhecendo menor o acesso ao tratamento odontológico, assim como o nível de escolaridade dos pais, renda familiar e etnia tem influência a esse acesso.

Diekamp 2020

Restauração de um dente anterior em um adolescente com distúrbio do espectro autista: Relato de caso de um aluno

Journal Child

Observações relataram que há um déficit nas universidades no que diz respeito a tratamento de pacientes com necessidades especiais, as práticas de manejo, ambiente adequado, elementos visuais, sessões para adaptação do paciente, tempo de consulta adequado.

Du 2018

Comportamento de saúde bucal de crianças pré-escolares com distúrbios do espectro autista e suas barreiras ao atendimento odontológico

Journal of Autism and Developmental Disorders

No presente estudo os pais das crianças com TEA mostraram maior conhecimento sobre saúde bucal que os pais das crianças neurotípicas, porém as crianças autistas relatam maiores dificuldades na realização da escovação bucal e nos tratamentos odontológicos.

Erwin 2021

Fatores que influenciam os comportamentos de saúde bucal, acesso e prestação de atendimento odontológico para crianças e adolescentes autista em países com índice de desenvolvimento humano muito alto: Protocolo para uma revisão sistemática de métodos mistos

International Journal of Environmental Research and Public Health

Revisão sistemática com análise de saúde bucal, atendimento odontológico e fatores que influenciam os cuidados orais para compreensão das desigualdades em saúde bucal vivida pelas crianças e jovens com TEA.

Erwin 2022

Fatores que influenciam os comportamentos de saúde bucal, acesso e prestação de atendimento odontológico para crianças e adolescentes autista: Uma revisão sistemática de métodos mistos

Journal Pediatrics

Os autores analisaram que existe muito falha no sistema de atendimento odontológicos de paciente com TEA, necessitando de estudos e melhores para acompanhar as necessidades desses pacientes.

Fenning 2021

Treinamento de pais para atendimento odontológico em crianças carentes com autismo: um teste controlado e aleatório

Journal Pediatrics

Os autores observaram eficácia do treinamento dos pais para proporcionar saúde bucal em crianças com autismo com dificuldades ao acesso ao tratamento odontológico.

Ferrer-Coba 2022

Assistência odontológica abrangente para crianças com transtorno do espectro autista

Revista de Ciências Médicas de Pinar del Río

As análises do presente artigo revelaram que as intervenções estomatológicas tiveram respostas positivas contribuindo para uma boa higiene bucal promovendo a independência dos pacientes com TEA, também fizeram de um bom protocolo que evoluiu a parte da criação de vínculos afetivos.

Garcia 2019

Associação entre problemas de alimentação e estudo de saúde bucal em crianças com transtorno do espectro autista

Journal of Autism and Developmental Disorders

Os autores analisaram que crianças com TEA apresentam uma maior prevalência de doenças bucais e que a seletividade alimentar teve associação com problemas como má oclusão, doenças periodontais e bruxismo.

Mangione 2019

Pacientes autistas: Um estudo retrospectivo sobre suas necessidades odontológicas e a abordagem comportamental

Clinical Oral Investigations

Os estudos demostraram a utilização do óxido nitroso e da anestesia geral como meios eficientes para tratamento odontológico de pacientes com TEA, além da interação entre os psiquiatras e os dentista sejam um fator importante para o tratamento.

Moorthy 2021

Exposição ao açúcar na dieta e estado de saúde bucal em crianças com transtorno de espectro autista: um estudo de caso-controle

Journal of Autism and Developmental Disorders

No estudo notou-se que há uma prevalência maior, porém não muito elevada, de deficiência em saúde bucal em crianças autistas comparadas com os comportamentos típicos, que mostra a importância do dentista para orientação e técnicas em higiene bucal. Hábitos orais anormais também foram observados nessas crianças com TEA necessitando de diagnóstico precoce para melhorar a eficácia do tratamento.

Olvera 2021

Manejo e interação odontológicos do paciente pediátrico com transtorno de Asperger

Revista ADM

As análises demostraram a importância de dominar pontos como integração com modificação das interações, modificação com uso do reforço positivo, conscientização sobre o tratamento odontológico, importância da higiene bucal e controle das consultas.

Pai Khot 2023

Avaliação de um "Reforço de ilustração assistida por imagem" (PAR) Sistema de Higiene Oral em Crianças com Autismo: Um estudo duplo-cego randomizado controlado

Journal Child

Os estudos trouxeram resposta positivas para o Sistema de Comunicação Picture Assisted Illustration Reinforcement melhorando os escores gengivais e de higiene bucal para crianças com TEA.

Piranch 2022

Saúde bucal e experiência de cárie dentária entre estudantes de 7 a 15 anos com transtornos do espectro autista em Teerã, Irã

Journal BMC Pediatrics

Observações assolaram a maior frequência de escovação e menor ingestão de doces com uma boa saúde bucal, assim como educação sobre higiene oral levam os pacientes autistas a uma melhora no autocuidado da saúde bucal.

Renuka 2022

Sistema de comunicação por troca de imagens como técnica de modificação de comportamento para avaliação da saúde bucal em crianças autistas.

Journal of Clinical Pediatric Dentistry

Os programas PECS tiveram respostas positivas para o tratamento odontológico de crianças autistas, criando um ambiente mais favorável para esses pacientes excluindo a necessidade de tratamentos muito extensos.

Sawicki 2023

Padrões de prática entre anestesiologistas dentistas para pediatria pacientes com Transtorno do Espectro Autista

Pediatric Dentistry Journal

As observações feitas pelos autores foram que os dentista anestesiologistas tiveram respostas satisfatórias para a sedação durante o tratamento de pacientes com TEA.

A análise dos artigos selecionados revela diversas particularidades e desafios relacionados ao tratamento odontológico de crianças com TEA, evidenciando a necessidade de estratégias específicas para esse público.

Alshatrat (2021) destacou a falta de conhecimento sobre doenças bucais em indivíduos com TEA, especialmente no que se refere a condições gengivais e periodontais, o que enfatiza a importância da educação em saúde bucal e da criação de ambientes odontológicos adaptados. Já Alshihri (2020) apontou barreiras significativas enfrentadas pelas famílias, como o custo elevado do tratamento, dificuldades comportamentais dos pacientes e a escassez de profissionais treinados, fatores que contribuem para o abandono dos tratamentos odontológicos.

O papel dos responsáveis no manejo do comportamento e na colaboração durante as consultas foi salientado por Chanin (2023), que mostrou que o envolvimento dos pais é fundamental para o sucesso do tratamento. Por outro lado, Dallman (2020) demonstrou que fatores socioeconômicos, como a renda familiar e o nível educacional dos pais, influenciam diretamente no acesso aos serviços odontológicos.

Diekamp (2020) e Olvera (2021) destacaram a importância de ambientes clínicos modificados, com adoção de práticas que promovam conforto e adaptação, assim como a necessidade de treinamento dos profissionais para manejo adequado desses pacientes. Ferrer-Coba et al. (2022) evidenciaram respostas positivas em intervenções odontológicas que promovem a independência e vínculo afetivo com os pacientes.

Quanto às singularidades bucais em crianças com TEA, Garcia (2019) e Moorthy (2021) relataram maior prevalência de problemas como cáries, má oclusão e bruxismo, associados a preferências alimentares restritas e dificuldades na higiene oral. Essas condições podem agravar-se devido à xerostomia decorrente do uso de medicações, conforme Mangione (2019) e Renuka (2022).

Ferramentas de comunicação alternativa, como o sistema PECS (Renuka, 2022) e o reforço por imagens (Pai Khot, 2023), mostraram-se eficazes na modificação comportamental e melhora da higiene bucal. Fenning (2021) reforçou a importância do treinamento dos pais para otimizar a saúde oral em crianças autistas.

No tratamento clínico, Mangione (2019) e Sawicki (2023) destacaram o uso de anestesia geral e óxido nitroso como opções viáveis para contornar a resistência comportamental, especialmente em casos mais severos.

As estratégias comportamentais envolvem o uso do reforço positivo, controle de voz, utilização de símbolos e desenhos, além da adaptação do ambiente com estímulos auditivos e visuais controlados, como sugerido por Erwin (2021, 2022) e Olvera (2021). Essas técnicas visam minimizar a ansiedade e promover a cooperação do paciente.

Em suma, a literatura enfatiza a necessidade de um atendimento odontológico humanizado, interdisciplinar e personalizado, que considere as singularidades sensoriais e comportamentais do paciente com TEA, buscando oferecer uma experiência positiva e eficaz.

DISCUSSÃO

É frequente observar em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) a ocorrência de dificuldades alimentares, como uma preferência por alimentos de textura macia, sem partes rígidas, e a tendência de reter esses alimentos na boca. Isso pode ser atribuído às características peculiares desses indivíduos, que muitas vezes seguem rotinas rígidas e resistem a mudanças. Estudos recentes apontam a conexão entre a seletividade alimentar e problemas bucais que a recusa de certos alimentos e uma dieta restrita estão relacionadas a uma maior incidência de problemas dentários, incluindo más oclusões, índices periodontais comunitários anormais e bruxismo em crianças TEA em comparação com o grupo de crianças neurotípicas. (Garcia et al., 2019). Há uma incidência bastante significativa nesses hábitos anormais tornando esses pacientes autistas respiradores bucal (Moorthy et al., 2021), além de problemas de má oclusão afeta severamente esses pacientes (Mangione et al., 2019) havendo estudos que mostram a relação entre as condutas diruptiva durante as refeições com os problemas de má oclusão principalmente de classe II e mordida aberta (Garcia et al., 2019). Com base nas dificuldades de processamento sensorial, é possível que indivíduos afetados manifestem hipossensibilidade, refletida em tônus muscular reduzido, desafios na mastigação e adoção de padrões mastigatórios atípicos. Esses aspectos podem, por conseguinte, explicar a relação identificada entre comportamentos disruptivos durante as refeições e a presença de má oclusão (Garcia et al., 2019).

As características orais de pacientes com TEA têm sido alvo de debate. Alguns autores defendem que essas características se assemelham às de indivíduos com comportamento típico, uma vez que não se observam condições bucais exclusivas nesse grupo(Ferrer-Coba, 2022), demostram práticas de higiene oral e nível de cárie satisfatório com pouco divergência comparado ao grupo controle, isso pode ser observado devido aos achados que revelam o grau de escolaridade dos pais a níveis positivos onde diversos estudos têm evidenciado uma correlação positiva entre o nível educacional dos responsáveis e a saúde bucal das crianças autistas (Moorthy et al.,2021; Dallman et al., 2020), também são constatados em países desenvolvidos que tiveram avanços significativos nos últimos anos no tratamentos odontologias de pacientes com TEA (Piraneh et al, 2022), essas crianças também não manifestam interesse em relação ao hábito de ingerir aperitivos regularmente possivelmente associado às suas seletividades alimentares (Du et al, 2018).

Não obstante, conforme os autores Mangione et al., (2019),Ferrer-Coba et al., (2022), Moorthy et al., (2021) e Piraneh et al. (2022) uma considerável elevação na incidência de cáries nos pacientes com TEA em comparação aos com comportamento típico, isso pode ocorrer devido a uma dieta cariogênica com oferta de alimentos açucarados como incentivo a realização de alguma atividade, a ineficiência na higiene bucal devido à falta de vontade, grau de dificuldade e engasgo durante a higienização dos dentes, um elevado nível de cárie também foram observados nessas crianças em países em desenvolvimento tendo uma qualidade em saúde bucal insatisfatória. A ocorrência frequente de cárie em pacientes com TEA está relacionada também à xerostomia, segundo os autores Mangione et al., (2019); Renuka et al., (2022) e Ferrer-Coba et al., (2022), uma condição de boca seca que muitos desses pacientes podem desenvolver devido ao uso de determinadas medicações.

As doenças gengivais como periodontite e gengivite tem uma grande incidência nos pacientes com TEA, o índice de cálculo dentário é maior em crianças autistas em comparação às neurotípicas (Ferrer-Coba et al., 2022; Garcia et al., 2019). A maioria expressiva dos indivíduos com TEA considera os sinais de doenças gengivais, como inchaço, coloração mais avermelhada e sangramento durante a escovação, como elementos normais (Ashatrat et al., 2021).

As crianças com autismo possuem uma grande sensibilidade sensorial, e no ambiente odontológico é possível encontrar várias experiencias que acarretaram uma resposta negativa. Para a realização de um tratamento eficaz é preciso lançar mão de diferentes técnicas de manejo comportamental e usar a mais adequada para cara característica apresentada pelos indivíduos personalizando o atendimento. Uma técnica muito utilizada é o controle de voz dizendo certos comandos junto a gestos, o reforço positivo é utilizado em várias áreas sendo uma abordagem na pediatria, junto a ela são utilizados símbolos, desenhos durantes o atendimento. Uso de músicas relaxante e a inserção de materiais concretos como o cubo mágico pode ser usado como ferramentas nas consultas mais curtas. (Erwin et al., 2022; Oliva-Olvera et al.; 2021)

No estudo de Renuka et al., (2022) e Mangione et al., (2019) destacam o uso das Sistema de Comunicação por Troca de Figuras (PECS), que é um sistema de comunicação por troca de imagens usadas para indivíduos com comunicação limitada e ela tem sido usada dentro dos ambientes clínicos como alternativa. O uso das PECS se demonstrou eficaz facilitando o tratamento preventivo, melhorando o estado de higiene oral e melhor convívio entre profissional e paciente. Uso de programas de autismo Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com Deficiência Relacionada à Comunicação (TEACCH) e Análise do Comportamento (ABA) também contribuem para o desenvolvimento das atividades odontológicas sendo consideradas pelos autores como promissoras.

Há outras maneiras simples em adaptar as necessidades das crianças com autismo segundo a visão dos pais e cuidadores. A redução do tempo de espera, auxílios visuais de comunicação, cuidado no uso dos equipamentos que emitem sons, evitar produtos com sabores fortes, uso de computadores como distração, trazer objetos pessoais de casa para ajudar com a ansiedade. Todas essas técnicas podem modificar o comportamento de forma positiva e reduzir o medo trazendo cooperações significativas no atendimento odontológico. (Erwin et al. 2022)

Crianças com autismo frequentemente apresentam sensibilidade sensorial acentuada, e o ambiente odontológico pode desencadear respostas negativas. Para garantir um tratamento eficaz, é essencial empregar diversas técnicas de manejo comportamental, adaptando-as às características individuais dos pacientes. Uma abordagem amplamente utilizada envolve o controle de voz, combinando comandos verbais a gestos, enquanto o reforço positivo é aplicado de maneira abrangente, especialmente em contextos pediátricos. Símbolos e desenhos são empregados durante o atendimento, contribuindo para uma comunicação mais eficaz. Além disso, a incorporação de música relaxante e o uso de objetos tangíveis, como o cubo mágico, podem ser ferramentas valiosas em consultas mais breves (Erwin et al., 2022; Oliva-Olvera et al., 2021).

Outra abordagem empregada para intervenções é o sistema de Comunicação com Assistência de Ilustrações Reforçadas (PAIR), uma estrutura projetada para aprimorar habilidades de comunicação com base no conceito ABA. A integração da técnica PAIR revelou-se benéfica, influenciando positivamente o comportamento individual e resultando na diminuição dos escores gengivais (Pai Khot et al., 2023).

No relato de Diekamp et al., (2020), foi mencionado que, ao estender o tratamento, é recomendável garantir a consistência da equipe, procurando manter o menor número possível de profissionais envolvidos. Além disso, é destacado que o espeço deve ser preparado de maneira não diferente do atendimento anterior.

Existem outras maneiras simples de se ajustar às necessidades das crianças com autismo, de acordo com a perspectiva dos pais e cuidadores. Isso inclui a diminuição do tempo de espera, a implementação de auxílios visuais na comunicação, a atenção ao uso de dispositivos que emitem sons, a evitação de produtos com sabores intensos, a utilização de computadores como forma de distração e a permissão para trazer objetos pessoais de casa, auxiliando no manejo da ansiedade. Todas essas técnicas têm o potencial de influenciar positivamente o comportamento e reduzir o medo, resultando em colaboração significativa durante o atendimento odontológico (Erwin et al., 2022). Um estudo controlado realizado por Fenning et al. (2021) evidenciou que a utilização de um kit de ferramentas, juntamente com sessões presenciais, tanto em ambientes clínicos quanto domiciliares, reforço por telefone e a incorporação de psicoeducação, além do treinamento para os pais, desempenharam um papel significativo na redução da placa e na progressão das cáries.

Ao explorar técnicas de intervenção, Pai Khot et al., (2023) destaca a eficácia do emprego de ilustrações que exemplifiquem as práticas de higiene oral. Sua abordagem tem desempenhado um papel crucial na diminuição dos escores gengivais, promovendo simultaneamente melhorias na saúde bucal. O treinamento regular em casa, utilizando as técnicas adequadas de escovação, não apenas contribui para a educação em saúde, mas também facilita uma comunicação mais eficaz durante as consultas odontológicas.

No estudo de Mangione et al., (2019), reconhece-se que as técnicas comportamentais convencionais encontram resistência por parte de pacientes autistas. Por essa razão, foram realizados tratamentos em condições inconscientes, empregando pré-medicação oral e/ou inalação de óxido nitroso, representando uma abordagem eficaz para procedimentos odontológicos. A pesquisa conduzida por Alshiri et al.(2020) revelou a utilização de tratamento com óxido nitroso e anestesia geral. No entanto, existe uma controvérsia tanto científica quanto social em relação ao uso do óxido nitroso, com os pais expressando dúvidas sobre sua aplicação. Estudos indicam que seu uso em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) demonstra altas taxas de sucesso em casos de comportamento leve, sugerindo sua consideração no tratamento. A anestesia geral também foi mencionada como uma opção, mas apenas nos casos em que todas as outras técnicas de manejo falharam. Pesquisas indicaram que os dentistas se sentem confortáveis ao lidar com pacientes que têm Transtorno do Espectro Autista durante procedimentos com anestesia. Com o aumento da demanda, os dentistas anestesiologistas desempenham um papel crucial na facilidade do atendimento odontológico para pacientes com TEA (Sawicki et al., 2023) Em sua pesquisa, Chanin et al., (2023) exploraram as opiniões dos cuidadores sobre a melhor técnica de gerenciamento durante os atendimentos odontológicos. A opção mais votada foi a realização de múltiplas consultas, seguida por sedação, contenção e, por fim, a anestesia geral.

CONCLUSÃO

O tratamento odontológico de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) demanda abordagens específicas para lidar com as singularidades apresentadas. Adotar estratégias de interação sensíveis e adaptadas torna-se crucial para proporcionar um atendimento eficaz. Dentre as considerações essenciais, destacam-se a necessidade de uma comunicação clara e direta, o estabelecimento de rotinas previsíveis, a adaptação do ambiente para minimizar estímulos sensoriais aversivos e a compreensão das particularidades orais associadas ao TEA. Ao incorporar estratégias de interação, os profissionais odontológicos podem promover um ambiente acolhedor e seguro, contribuindo para a melhoria da experiência do paciente com TEA durante o tratamento. Essas abordagens personalizadas não apenas facilitam a cooperação durante procedimentos odontológicos, mas também visam a promoção de uma saúde bucal adequada em consonância com as necessidades específicas desses indivíduos.

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