REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/783762140
RESUMO
O presente trabalho introduz o Espaço Vetorial de Decisão Cognitiva (EVDC), um tensor de primeira ordem, como uma reformulação geométrica da Teoria do Comportamento Planejado (TCP) que transpõe os escores dos construtos Atitude, Norma Subjetiva e Controle Comportamental Percebido para um espaço euclidiano tridimensional. A TCP é um dos modelos mais consolidados para a predição de intenções e comportamentos, contudo, sua formulação escalar tradicional impõe limitações como a ausência de uma fronteira decisória e a dificuldade de diagnóstico individualizado para intervenções quantificáveis. O EVDC propõe o Plano Limite de Ativação (𝛱𝑡𝑐𝑝), uma fronteira geométrica que separa indivíduos ativados de inibidos. São introduzidas métricas como a Distância Euclidiana ao Limiar (𝑑𝑛), os Cossenos Diretores para identificação de perfis decisórios e o Cone de Incerteza para correspondência estatística. Resultados com dados simulados demonstram que o EVDC oferece diagnóstico preciso e planejamento de intervenções com metas quantificáveis. O modelo inaugura o campo da Psicogeometria, representando processos cognitivos em espaços tensoriais e aproximando a psicologia de formulações matemáticas estruturadas.
Palavras-chave: Teoria do Comportamento Planejado; Espaço Vetorial; Plano Limite; Cossenos Diretores; Cone de Incerteza.
ABSTRACT
This paper introduces the Cognitive Decision Vector Space (CDVS), a first-order tensor, a geometric reformulation of the Theory of Planned Behavior (TPB) that transposes the construct scores (Attitude, Subjective Norm, and Perceived Behavioral Control) into a three-dimensional Euclidean space. TPB is one of the most consolidated models for predicting intentions and behaviors; however, its traditional scalar formulation imposes limitations such as the absence of a decision boundary and the difficulty of individualized diagnosis for quantifiable interventions. The CDVS proposes the Activation Limit Plane (𝛱𝑡𝑐𝑝), a geometric boundary that separates activated individuals from inhibited ones. Metrics such as the Euclidean Distance to the Threshold (𝑑𝑛), Direction Cosines for identifying decision profiles, and the Uncertainty Cone for statistical correspondence are introduced. Results with simulated data demonstrate that the CDVS offers precise diagnosis and intervention planning with quantifiable goals. The model inaugurates the field of Psychogeometry, representing cognitive processes in tensor spaces and bringing psychology closer to structured mathematical formulations.
Keywords: Theory of Planned Behavior; Vector Space; Limit Plane; Direction Cosines; Uncertainty Cone.
1. INTRODUÇÃO
Esta equação tem sido amplamente utilizada em domínios como saúde (Godin; Kok, 1996), atividade física (Hagger et al., 2002), comportamento alimentar (Conner et al., 2002), adoção de tecnologia (Venkatesh et al., 2003) e comportamento de voto (Ajzen; Fishbein, 2008). Segundo Armitage e Conner (2001) e McEachan et al. (2011), a TCP explica, em média, 40-50% da variância da intenção e 20-30% do comportamento. Contudo, a formulação escalar tradicional impõe limitações significativas: ausência de uma fronteira decisória, incapacidade de diagnóstico individualizado e dificuldade no planejamento de intervenções com metas quantificáveis.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E MATEMÁTICA
2.1. A TCP Clássica Como Tensor de Ordem Zero
A formulação escalar da TCP pode ser interpretada como um tensor de ordem zero, ou seja, um valor único que combina linearmente os construtos sem capturar direções ou interações geométricas (presumindo ortogonalidade entre os construtos). Essa analogia evidencia a limitação da abordagem tradicional, pois um tensor de ordem zero não possui dimensão vetorial e, portanto, não permite representar a orientação ou a compensação entre os construtos. O EVDC supera essa restrição ao transpor os escores para um espaço tridimensional, inaugurando uma representação geométrica mais rica.
A equação da intenção pode ser representada na forma algébrica:
2.2. Centralização dos Dados
A centralização dos construtos não é apenas um procedimento técnico, mas uma exigência metodológica para evitar multicolinearidade entre variáveis e eliminar o intercepto da regressão. Com isso, a origem do espaço vetorial passa a representar o ponto neutro da escala Likert, permitindo que a geometria seja interpretada de forma ortogonal e que cada construto contribua de maneira independente para a intenção comportamental.
Centralizamos os escores pela subtração da média populacional:
O procedimento remove a correlação entre os construtos e o intercepto, evitando a multicolinearidade. Após a centralização, a origem (0,0,0) do espaço representa o ponto neutro da escala (valor 4 na escala Likert de 7 pontos).
2.3. O Plano Limite de Ativação (ΠTcp)
onde θ é o Limiar Centrado de Decisão, derivado do ponto neutro da escala Likert (valor 4.0):
Exemplo Ilustrativo:
Considere dois indivíduos em um programa de exercícios físicos:
Indivíduo A: I = 0,55
Indivíduo B: I = 0,65
“𝐵” realmente executará o comportamento?
“𝐴” realmente não executará?
Qual é o ponto em que a intenção se transforma em ação?
Diagnosticar se um indivíduo está "pronto" para agir
Planejar intervenções com metas quantificáveis
Avaliar objetivamente o sucesso de intervenções em nível individual
2.3.1. A Abordagem Vetorial Como Solução
Para superar estas limitações, este artigo introduz o Espaço Vetorial de Decisão (EVDC), uma reformulação geométrica da TCP que transpõe os escores dos construtos para um espaço euclidiano tridimensional. Contudo, o plano limite constitui uma simplificação metodológica: ao impor uma fronteira linear, ele separa ativados de inibidos, mas não captura plenamente a lógica de compensação entre os construtos.
2.4. Distância Euclidiana Ao Plano Limite (Dn)
onde θ é o Limiar Centrado de Decisão, derivado do ponto neutro da escala Likert (valor 4.0):
𝑑ₙ > 0 (positivo): o vetor ultrapassou o plano, indicando que o indivíduo está cognitivamente ativado e pronto para a ação.
𝑑ₙ < 0 (negativo): o vetor não alcançou o plano, caracterizando um estado de inibição cognitiva.
𝑑ₙ ≈ 0: o indivíduo encontra-se no limiar da decisão, em equilíbrio instável entre agir ou não agir.
2.5. Cossenos Diretores e Perfis Decisórios
Os cossenos diretores permitem identificar qual construto é mais preponderante na decisão. Se o cosseno associado à atitude é dominante, o perfil é atitudinal; se o da norma subjetiva prevalece, o perfil é social; se o controle percebido é maior, o perfil é autônomo. Essa decomposição fornece diagnóstico individualizado e indica qual construto deve ser alvo prioritário de intervenção.
Os três cossenos diretores são definidos como:
A figura 3, é uma representação geométrica da distribuição dos indivíduos coloridos sobre cada zona de inibição, limiar ou ativação nos planos EVDC.
3. O CONE DE INCERTEZA E O ÂNGULO LIMITE CRÍTICO (Θₚ)
O raio de incerteza r é calculado por:
O Ângulo Limite Crítico (θₚ) é:
O raio de incerteza (r) corresponde ao desvio máximo esperado na ponta do vetor de intenção, considerando o erro padrão das estimativas.
Dentro do cone: mudanças observadas no vetor de intenção estão dentro da margem estatística (𝑝 ≥ 0,05), ou seja, não são significativas.
Fora do cone: a alteração ultrapassa o ângulo limite crítico (𝑝 < 0,05), indicando que a mudança é estatisticamente significativa (𝑝 < 0,05).
4. EXEMPLO DE TESTE
Para demonstrar as vantagens do EVDC sobre a TCP clássica, conduzimos um exemplo com os seguintes dados:
Tabela 1. Dados da Simulação Utilizada no EVDC
Parâmetro | Valor |
Amostra | N = 300 sujeitos simulados |
Construtos | AT, NS, CCP com médias próximas ao ponto neutro (valor 4 na escala) |
Perfis gerados | Atitudinal (33%), social (33%), autônomo (34%) |
Intenção | I= 0,35 · AT + 0,25 · NS + 0,30 · CCP + erro |
Limiar de ativação | Ilimiar = 0,55 |
Fonte 1: elaborado pelo autor (2026).
Nota 1: AT = atitude; NS = norma subjetiva; CCP = controle comportamental percebido.
4.1. Resultados
Tabela 2. Comparação entre Modelos
Modelo | 𝑅² | Diagnóstico Individual | Fronteira Decisória | Meta de Intervenção |
TCP Clássica | 0,52 | Não | Não | “Aumentar ” |
EVDC (Tensor 1) | 0,62 | Sim (dₙ) | Sim (Plano) | “Elevar dₙ > 0” |
Modelo | R² | Diagnóstico Individual | Fronteira Decisória | Meta de Intervenção |
TCP Clássica | 0,52 | Não | Não | "Aumentar I" |
EVDC (Tensor 1) | 0,62 | Sim (dₙ) | Sim (Plano) | "elevar dₙ > 0" |
Fonte 2: elaborado pelo autor (2026).
Tabela 3. Distribuição dos Indivíduos no Espaço Vetorial
Classificação | N | % | médio |
Ativados (d > 0) | 187 | 62,3% | +0,134 |
Inibidos (d < 0) | 103 | 34,3% | -0,087 |
No limiar (d ≈ 0) | 10 | 3,3% | 0,001 |
Fonte 3: elaborado pelo autor (2026).
Tabela 4. Perfis Decisórios Identificados
Perfil | N | % | Cos (𝜶n) médio | Cos (𝜷n) médio | Cos (𝜸n) médio |
Atitudinal | 98 | 32,7 | 0,68 | 0,18 | 0,14 |
Social | 95 | 31,7 | 0,21 | 0,62 | 0,17 |
Autônomo | 97 | 32,3 | 0,16 | 0,19 | 0,65 |
Equilibrado | 10 | 3,3 | 0,38 | 0,32 | 0,30 |
Fonte 4: elaborado pelo autor (2026).
Nota 2: cos αₙ = atitude; cos βₙ = norma subjetiva; cos γₙ = controle percebido.
Tabela 5. Exemplo de Transposição (Intervenção Simulada)
Indivíduo | Antes (d) | Depois (d) | 𝛥𝜃 | 𝜃ₚ | Transposição |
Inibido (exemplo) | -0,087 | +0,052 | 18,4° | 12,3° | Sim ✓ |
Inibido (controle) | -0,091 | -0,045 | 8,2° | 14,1° | Não ✗ |
Fonte 5: elaborado pelo autor (2026)
4.2. Interpretação dos Resultados
Vantagem 1: Diagnóstico Individualizado
Posição no espaço tridimensional (ATₙ,NSₙ,CCPₙ)
Distância ao plano (dₙ)
Perfil decisório (cossenos_diretores)
Vantagem 2: Planejamento de Intervenções com Metas
Vantagem 3: Validação Individualizada de Mudanças
No exemplo de transposição, temos:
Indivíduo Inibido (Exemplo)
Antes: d = -0,087
Depois: d = +0,052
𝛥𝜃 = 18,4°
𝜃ₚ = 12,3°
Indivíduo Inibido (Controle)
Antes: d = -0,091
Depois: d = -0,045
𝛥𝜃 = 8,2°
θₚ = 14,1°
Interpretação:
O cone de incerteza é definido pelo raio (erro padrão acumulado) e pelo ângulo limite crítico 𝜃ₚ.
Se 𝛥𝜃 > 𝜃ₚ → mudança significativa (fora do cone).
Se 𝛥𝜃 ≤ 𝜃ₚ → mudança não significativa (dentro do cone).
Assim:
O primeiro indivíduo ultrapassou o cone (𝛥𝜃 > 𝜃ₚ), validando a intervenção.
O segundo permaneceu dentro do cone (𝛥𝜃 < 𝜃ₚ), sem significância estatística
5. CONCLUSÃO
Projeta-se um modelo para o tensor de 2ª ordem que capturaria mais nuances da interpelação dos construtos e avança para outro patamar de análise de comportamentos individuais. O EVDC representa um avanço importante ao traduzir a Teoria do Comportamento Planejado em termos geométricos e tensoriais (0 ordem – escalar, que é a representação TPC clássica, o de 1ª ordem, vetorial e o de 2ª ordem, matriciais).
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1 Bacharelando em Psicológia pela PUC-MG