REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780726262
RESUMO
Este artigo investiga os efeitos da realização fonética do arquifonema /S/ em posição de coda silábica e do nível de escolaridade dos ouvintes sobre o desempenho perceptivo de soteropolitanos na tarefa de discriminação dialetal. Com base nos pressupostos teóricos da Sociofonética, foram aplicadas tarefas experimentais a 112 participantes, totalizando 1.680 dados de percepção, obtidos por meio da tarefa de discriminação. A variável dependente considerada foi a resposta de discriminação ou não discriminação entre os estímulos, enquanto as variáveis independentes foram representadas por uma variável composta — que engloba a especificação da realização fonética do estímulo e a naturalidade do concedente do estímulo — e pelo nível de escolaridade dos participantes. A análise estatística dos dados foi realizada por meio do teste de qui-quadrado e da análise de deviance (ANOVA tipo II), permitindo verificar a significância dos efeitos principais e possíveis interações entre os fatores. Os resultados indicaram que ambas as variáveis independentes apresentaram relevância estatística no desempenho dos participantes, influenciando de modo autônomo a capacidade de discriminar dialetos com base nas pistas fonéticas fornecidas. Não foram encontradas interações significativas entre os fatores investigados, o que sugere que os efeitos operam de forma independente. Os achados reforçam que o arquifonema /S/ em posição de coda silábica funciona como um marcador sociofonético consideravelmente saliente, cuja percepção está ancorada em construções cognitivas e sociais. Com isso, o estudo reafirma o papel da escuta como gesto socialmente mediado, além de contribuir significativamente para o fortalecimento dos estudos de Percepção Dialetal, bem como na Sociofonética brasileira contemporânea.
Palavras-chave: Percepção linguística; Sociofonética; Percepção da variação do /S/; Salvador (BA); Escolaridade.
ABSTRACT
This article investigates the effects of the phonetic realization of the archiphoneme /S/ in syllable-coda position and the listeners’ level of education on the perceptual performance of speakers from Salvador (Bahia, Brazil) in a dialect discrimination task. Based on theoretical assumptions from Sociophonetics, experimental tasks were administered to 112 participants, resulting in 1,680 perception data points obtained through the discrimination task. The dependent variable was the binary response of discrimination versus non-discrimination of stimuli, while the independent variables were a composite variable — which includes the specification of the phonetic realization of the stimulus and the naturalness of the speaker — and the participants’ level of education. Statistical analysis of the data was conducted through the chi-square test and deviance analysis (Type II ANOVA), allowing for verification of the significance of main effects and possible interactions between factors. Results showed that both independent variables were statistically significant in influencing participants’ performance, autonomously affecting their ability to discriminate dialects based on the phonetic cues provided. No significant interaction was found between the factors, suggesting that their effects operate independently. The findings reinforce that the archiphoneme /S/ in coda position functions as a highly salient sociophonetic marker, whose perception is anchored in cognitive and social constructions. Therefore, this study reaffirms listening as a socially mediated gesture and contributes meaningfully to the advancement of Dialect Perception studies and contemporary Brazilian Sociophonetics.
Keywords: Linguistic perception; Sociophonetics; Perception of /S/ variation; Salvador (BA); Education.
1. INTRODUÇÃO
A linguagem constitui um dos mais poderosos marcadores de identidade social e cultural, funcionando não apenas como instrumento de comunicação, mas como prática simbólica através da qual os sujeitos se reconhecem e são reconhecidos em coletivos específicos. As formas particulares de falar — seus sotaques, entonações e traços fonéticos — operam como sinais de pertencimento, refletindo vínculos com territórios, comunidades e histórias compartilhadas. Nesse sentido, os dialetos e suas variações tornam-se espaços de afirmação ou de disputa simbólica, podendo ser celebrados como expressões legítimas de identidade ou, ao contrário, silenciados por normas sociais e linguísticas que atribuem valor desigual às diferentes formas de falar.
Na Bahia, uma marca fonética de expressivo valor identitário é a realização do arquifonema /S/ em posição de coda silábica. Essa unidade fonológica compreende a neutralização dos fonemas /s/, /z/, /ʃ/ e /ʒ/ nesse contexto estrutural e manifesta variações que podem assumir, entre outros aspectos, realizações alveolares ou palatalizadas. Em Salvador, por exemplo, a palatalização é historicamente documentada como forma canônica local (MOTA, 2002), ao passo que realizações alveolares vêm ganhando espaço em contextos específicos. Assim, o comportamento perceptivo de soteropolitanos frente a essas variantes pode revelar muito sobre como a identidade linguística é construída, negociada e, por vezes, redefinida nessa comunidade linguística.
Neste artigo, parte-se da seguinte pergunta de pesquisa: a percepção do arquifonema /S/ por soteropolitanos em coda silábica, em tarefa de discriminação dialetal, é influenciada pela associação entre origem geográfica do estímulo e realização fonética, como uma variável composta do estímulo, e pelo nível de escolaridade do juiz? Além disso, esses dois fatores interagem entre si, modulando conjuntamente o desempenho perceptivo dos participantes?
Diante de tais questões de pesquisa, aventa-se a hipótese de que a variável composta do estímulo exerce influência significativa sobre a percepção de soteropolitanos, e que esse efeito se intensifica em função da escolaridade — com ouvintes mais escolarizados apresentando maior sensibilidade perceptiva quando associadas ao próprio dialeto.
Com base nessas premissas, o objetivo geral deste estudo é investigar os efeitos da variável composta do estímulo (origem geográfica + realização fonética) e do nível de escolaridade sobre a percepção do arquifonema /S/ em coda silábica por soteropolitanos, investigando também possíveis interações entre esses fatores em tarefa de discriminação dialetal.
Para desenvolver essa investigação, o artigo está organizado em cinco seções, além desta introdução. A próxima seção apresenta um panorama dos estudos sociofonéticos sobre o /S/ em coda silábica na Bahia, destacando os padrões descritivos já identificados. Em seguida, descrevem-se os materiais e métodos empregados na coleta e análise dos dados. A quarta seção traz os resultados e discussões, com foco nos efeitos isolados e interativos da realização fonética e da escolaridade. Por fim, são apresentadas as considerações finais, seguidas pelas referências que sustentam a discussão teórica e metodológica do trabalho.
2. O /S/ EM CODA NA BAHIA: O QUE ESTUDOS SOCIOFONÉTICOS JÁ PRECONIZAM
A percepção dialetal, como tem sido amplamente discutido em estudos internacionais, não se restringe à mera escuta de vozes ou à decodificação de traços fonético-fonológicos. Ela é, antes, um processo complexo, mediado por múltiplos fatores sociais, linguísticos e afetivos. Conforme observa Kerswill (2002), as avaliações feitas por ouvintes não linguistas são influenciadas tanto pelas características vocais dos falantes quanto pelos próprios atributos sociais e repertórios linguísticos dos avaliadores. Essa mediação torna o reconhecimento de variedades dialetais um fenômeno interpretativo, atravessado por percepções identitárias, estereótipos regionais e experiências acumuladas em contextos específicos de interação linguística.
Tal como sugerem Kerswill e Williams (2002), o reconhecimento dialetal constitui uma prática sociolinguística que se articula a processos mais amplos, como o nivelamento dialetal e a mudança linguística. Em vez de um julgamento técnico ou fonético isolado, trata-se de uma conduta socialmente situada, em que se cruzam julgamentos de pertencimento, distinção e alteridade.
Ademais, Nomoto (1999), por seu turno, demonstra que indivíduos com maior nível de escolaridade tendem a perceber com mais acurácia as fronteiras linguísticas reais entre dialetos, sugerindo uma relação direta entre formação educacional e consciência dialetal. De forma complementar. Enquanto jovens galeses identificaram com mais precisão vozes de suas comunidades locais (WILLIAMS; GARRETT; COUPLAND, 1999), moradores de Michigan detectaram mais variações dialetais próximas geograficamente (PRESTON, 1999a), revelando um viés perceptivo em favor da variedade nativa. Esses achados reforçam a importância de considerar tanto variáveis sociais quanto cognitivas nos estudos de atitudes linguísticas e percepção dialetal.
No contexto baiano, particularmente o falar de Salvador, torna-se essencial considerar como essas forças perceptivas operam para configurar fronteiras simbólicas no dialeto soteropolitano. A presente seção, portanto, busca explorar o que os estudos sociofonéticos já têm preconizado sobre a variedade da capital baiana, preparando o terreno para a análise empírica desenvolvida neste trabalho.
No que tange aos estudos dialetais sobre a capital baiana, o trabalho de Mota (2002), que investiga predominantemente a produção no falar de Salvador e enfatiza a realização fonética variável do /S/ em coda silábica, despontará como prenunciador de aspectos importantes a serem acompanhados e considerados por pesquisas vindouras. Mota (2002) destaca que a realização alveolar do /S/ em posição de coda silábica também está presente na fala de soteropolitanos, embora não seja percebida socialmente como típica da cidade.
Em sua análise, Mota (2002) menciona tendências relacionadas à realização do /S/ em coda silábica por soteropolitanos. A autora observa que, embora a palatalização seja também associada à fala de Salvador, a partir de uma análise de mudança em tempo real, observou-se uma tendência de inclinação ao uso da variante alveolar do arquifonema fricativo por soteropolitanos. Essa observação sugeriu uma possível mudança fonética em curso, na qual a realização alveolar pode estar se tornando mais comum ou, ao menos, mais aceita como parte do repertório fonético local.
Segundo a autora:
Com relação às variantes coronais, embora a norma carioca, tomada como padrão culto nacional, inclusive com o aval dos congressos de 1937 e 1956, já referidos, tenha-se apresentado sempre como uma norma de muito prestígio e, como tal, modelo a ser imitado por falantes de outras áreas, sobretudo nordestinas, deve-se avaliar até que ponto essa situação permanece nos dias atuais, podendo-se admitir mudanças de comportamento linguístico, em função de fatos importantes, ocorridos nos últimos 40 anos. Entre esses, ressaltam-se a transferência da capital do País para Brasília, no início dos anos 60, o crescimento socioeconômico e cultural de outras áreas brasileiras, entre as quais se inclui Salvador, assim como a infiltração de um padrão uniformizado, adotado pela televisão em suas transmissões a partir do eixo Rio - São Paulo, após o desaparecimento quase total das redes locais. (MOTA, 2002, p. 424)
Portanto, a infiltração de um padrão uniformizado, conforme palavras da própria autora demonstra que a convivência entre as duas variantes — alveolar e palatal — indica uma complexificação das fronteiras identitárias fonéticas da cidade. Ainda que a palatalização continue sendo um traço identitário valorizado, a emergência e a naturalização da variante alveolar, mesmo que de modo sutil, revelam uma tendência de reconfiguração sociofonética. Essa reconfiguração pode refletir influências externas, mudanças geracionais ou processos de acomodação linguística em contextos mais formais.
É válido, ainda, ressaltar que Mota (2002) aponta a escolaridade com um elemento externo importante para análises como essa, uma vez que a ideia de prestígio social ou não está, com frequência associada a implementação de mudanças linguística. Contudo, a autora também reconhece algumas limitações da amostra que submeteu à análise, o que motiva a presente pesquisa investigar quais os efeitos da escolaridade do juiz soteropolitano perante aos estímulos apresentados a ele nas tarefas de discriminação e identificação.
Estudos de Dennis R. Preston, evidenciam um padrão recorrente na percepção dialetal: a tendência dos falantes a reconhecer com maior precisão as nuances linguísticas de sua própria região. No Capítulo 22, ao analisar respostas de habitantes de Michigan (EUA), Preston demonstra que os participantes percebem mais variações linguísticas próximas geograficamente, sugerindo uma sensibilidade ampliada para distinções locais (PRESTON, 1999a). Complementando essa observação, o Capítulo 21 apresenta um estudo no País de Gales no qual jovens mostraram maior precisão ao identificar vozes oriundas de suas próprias comunidades em comparação com outras regiões (WILLIAMS; GARRETT; COUPLAND, 1999). Esses resultados indicam que a familiaridade regional desempenha papel central na acurácia perceptiva, revelando um viés de atenção linguística voltado para o dialeto próprio e corroborando a ideia de que julgamentos sobre variações linguísticas são moldados pela proximidade cultural e geográfica.
A seguir, é descrito o desenho metodológico da pesquisa.
3. MATERIAL A MÉTODOS
A metodologia deste estudo seguiu quatro etapas principais: (1) seleção e gravação de estímulos linguísticos, (2) preparação dos materiais sonoros para as tarefas perceptivas, (3) aplicação dos testes com participantes e (4) tratamento estatístico dos dados obtidos.
3.1. Etapa 1: Coleta das Gravações
Foram selecionadas palavras que apresentassem o segmento /S/ em posição de coda silábica, longe de contextos que favorecessem palatalização por coarticulação (ex.: diante de [i] após oclusivas alveolares). As palavras escolhidas foram: cascas, pasmas, testas, lesmas e lésbicas, além da frase “Estamos passando pelas mesmas vontades que aquelas pessoas na festa.” A gravação foi realizada por seis homens adultos, entre 25 e 39 anos, sendo eles: dois de Salvador (um com palatalização categórica, outro variável), dois de Vitória da Conquista (com produção alveolar), a qual se trata de uma cidade do interior da Bahia e dois de regiões do Brasil distintas, a saber, um do Rio de Janeiro-RJ (com palatalização categórica) e de Triunfo-RS (com realização alveolar) para integrar o conjunto de estímulos do experimento. Assim, os estímulos continhas as duas realizações possíveis do /S/ na posição de coda: alveolar a palatalizada.
Devido à pandemia de COVID-19, as gravações ocorreram remotamente, via WhatsApp, com orientações para minimizar ruídos e preservar a qualidade acústica. Cada participante gravou as palavras e a frase três vezes, sendo a segunda repetição selecionada para uso nos testes, de modo a evitar efeitos de hesitação ou cansaço.
3.2. Etapa 2: Preparação dos Estímulos
Os áudios foram convertidos para o formato de vídeo (.mp4) e hospedados no YouTube para integração com formulários do Google, por onde o teste de discriminação foi aplicado. A tarefa de discriminação, baseada no modelo ABX (A: outro dialeto com palatalização; B: outro dialeto com realização alveolar; X: estímulo variável de Salvador – com palatalização ou realização variável), em que os participantes ouviam três versões de uma mesma palavra realizadas por pessoas diferentes e de regiões diferentes e deveriam selecionar aquela que julgavam pertencer a de uma pessoa de Salvador, ou seja, o estímulo alvo que estava presentes em todas as tarefas.
3.3. Etapa 3: Aplicação dos Testes
Os formulários foram distribuídos por redes sociais e e-mails a falantes de Salvador . Antes de realizar as tarefas, os participantes respondiam a um questionário social com perguntas sobre idade, escolaridade, gênero, naturalidade, residência atual e filiação. Ao todo, foram obtidas 112 respostas válidas em Salvador: 90 de soteropolitanos residentes em Salvador e 22 de soteropolitanos em outros locais.
3.4. Etapa 4: Análise Estatística
A amostra foi composta por 1.680 dados de percepção de soteropolitanos submetidos a uma tarefa de discriminação dialetal. A análise foi realizada por meio do programa estatístico R (R CORE TEAM, 2024), RStudio (POSIT TEAM, 2025) e Jamovi (THE JAMOVI PROJECT, 2024). Para a análise da tarefa de discriminação, foram inicialmente organizadas as frequências absolutas e relativas das respostas fornecidas pelos juízes soteropolitanos. Essas distribuições permitiram a identificação de padrões perceptivos gerais. Em seguida, aplicou-se o teste do qui-quadrado de independência para verificar a existência de associação significativa entre as categorias da variável composta do estímulo e as respostas de discriminação (discriminou / não discriminou). Para aprofundamento interpretativo, foram calculados os resíduos ajustados padronizados, a fim de identificar quais células da tabela de contingência contribuíram de modo mais expressivo para a associação estatisticamente significativa.
Na sequência, buscou-se examinar a possível influência da variável social nível de escolaridade, sobre o comportamento discriminatório. Foram construídas tabelas de contingência com os percentuais de respostas dentro de cada grupo de escolaridade, com destaque para os valores observados e esperados, seguidas de novos testes do qui-quadrado para verificação de associação significativa entre tal variável e a resposta dos juízes.
Por fim, adotou-se um modelo de regressão logística binomial para estimar a probabilidade de ocorrência de respostas discriminatórias, tendo como preditores a variável composta do estímulo e o nível de escolaridade. Para avaliar os efeitos principais e a interação entre os fatores, utilizou-se a análise de deviance (ANOVA tipo II), a partir da comparação da log-verossimilhança dos modelos ajustados.
Os efeitos foram avaliados por meio da estatística do qui-quadrado da diferença de deviância, com respectivos graus de liberdade e valores de p. Foi considerada diferença significativa os valores de p ≤ 0,05 para alfa (nível se significância) igual 0,05. Essa abordagem permitiu não apenas verificar a significância estatística dos fatores individualmente, mas também identificar a (in)dependência entre eles na modelagem da resposta perceptiva dos ouvintes.
Para encerrar esta seção, salienta-se que o projeto que deu margem a esta pesquisa tem aprovação do CEP, registrada sob o n° CAAE 42703020.5.0000.0055.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Nesta seção, são apresentados e discutidos os resultados obtidos na tarefa de discriminação dialetal aplicada aos participantes, com foco na análise da variável composta do estímulo e nível de escolaridade, bem como da possível interação entre essas variáveis.
Antes de proceder à análise inferencial, apresenta-se a distribuição das frequências absolutas e relativas das variáveis envolvidas na tarefa de discriminação: o desempenho dos participantes (variável dependente), a variável composta e o nível de escolaridade dos ouvintes (variáveis independentes). O Quadro 1 resume esses dados descritivos, permitindo uma visão geral da composição da amostra e da distribuição das respostas.
Quadro 1 – Distribuição das frequências absolutas e relativas das variáveis Discriminação, Estímulo e Escolaridade (tarefa de discriminação)
Observa-se que a maioria dos participantes foi capaz de discriminar, sem se equivocar, os estímulos apresentados, resultando em 64,4% de respostas com discriminação esperada. Em relação à variável composta do estímulo, o maior número de estímulos julgados correspondeu à variante alveolar de outro dialeto (40,0%), seguida pela palatalizada de outro dialeto (26,7%). Esse balanceamento entre alveolares e palatalizadas aponta para uma diversidade perceptiva. No tocante ao nível de escolaridade, a maioria dos participantes possuía nível de pós-graduação (58,0%), o que pode influenciar a sensibilidade linguística dos ouvintes, como sugerido nos modelos estatísticos subsequentes. A baixa frequência de participantes com escolaridade fundamental (1,8%) limita inferências mais consistentes para esse grupo, o que deve ser considerado nas análises multivariadas e na generalização dos achados.
A Tabela 1 exibe os valores observados e esperados para cada uma das quatro categorias que compõem a variável composta do estímulo (origem geográfica do estímulo e sua realização fonética em coda silábica). Essa apresentação integrada possibilita analisar como as diferentes combinações entre o tipo de realização fonética (palatalizada ou alveolar) e a procedência geográfica (local ou não local) impactaram o desempenho dos juízes.
Tabela 1 – Distribuição das respostas de discriminação por juízes soteropolitanos segundo a categoria da variável composta do estímulo
Discriminação | Alveolar de Outro Dialeto (O/E) | Alveolar de Soteropolitano (O/E) | Palatalizada de Outro Dialeto (O/E) | Palatalizada de Soteropolitano (O/E) | Total |
Discriminou | 434 / 433 | 151 / 144,3 | 387 / 289 | 110 / 216 | 1082 |
Não Discriminou | 238 / 239 | 73 / 79,7 | 61 / 159 | 226 / 120 | 598 |
Total | 672 / 672 | 224 / 224 | 448 / 448 | 336 / 336 | 1680 |
Nota: (O/E) = valores observados / valores esperados
Fonte: Elaboração própria (2025).
Os dados revelam discrepâncias significativas entre as frequências observadas e aquelas previstas em algumas categorias, sugerindo possíveis relações entre o delineamento linguístico e extralinguístico do estímulo e as respostas fornecidas pelos juízes. Notam-se, por exemplo, menos respostas esperadas do que o esperado na condição "Palatalizada de Soteropolitano" (110 observadas em comparação a 216 esperadas) e um excesso de acertos na condição "Palatalizada de Outro Dialeto" (387 observadas frente a 289 esperadas). Para verificar se essas diferenças são fruto do acaso ou se configuram padrões estatisticamente relevantes, aplica-se o teste do qui-quadrado, conforme demonstrado na Tabela 2.
Tabela 2 – Estatísticas do teste de qui-quadrado para a tarefa de discriminação dos juízes soteropolitanos
Teste χ2 | Valor | gl | p |
χ2 | 242 | 3 | < .001 |
N | 1680 |
Fonte: Elaboração própria (2025).
O resultado do teste de qui-quadrado (χ2 = 242; gl = 3; p < .001) aponta para uma associação estatisticamente significativa entre as categorias da variável composta e as respostas de discriminação fornecidas pelos juízes soteropolitanos. A discrepância entre os valores observados e os esperados não pode ser explicada por acaso, o que sustenta a ideia de que tanto a realização fonética quanto a procedência geográfica dos estímulos influenciam diretamente a percepção e a categorização dos sons por essa comunidade. Além disso, a expressiva magnitude do valor de χ2 indica que esses fatores exercem um papel relevante na construção simbólica das fronteiras do repertório linguístico reconhecido como local.
Com o intuito de aprofundar a compreensão das associações evidenciadas pelo teste de qui-quadrado, procede-se à análise dos resíduos ajustados padronizados, conforme apresentado na Tabela 3. Esses resíduos permitem localizar, com maior precisão, as categorias da variável composta em que ocorreram os desvios mais significativos entre as frequências observadas e esperadas, revelando quais combinações específicas mais influenciaram o resultado global. É importante destacar que valores absolutos superiores a |1,96| são considerados estatisticamente significativos, indicando excesso (resíduo positivo) ou escassez (resíduo negativo) de respostas em determinada célula, e oferecendo, assim, uma visão mais detalhada dos padrões perceptivos característicos dos juízes soteropolitanos.
Tabela 3 – Resíduos ajustados padronizados nas respostas de discriminação por categoria da variável composta em Salvador
Discriminação | Alveolar de Outro Dialeto | Alveolar de Soteropolitano | Palatalizada de Outro Dialeto | Palatalizada de Soteropolitano |
Discriminou | 0,0577 | 0,556 | 5,51 | –8,00 |
Não Discriminou | –0,0777 | –0,765 | –8,93 | 8,65 |
Nota: Valores em destaque indicam resíduos significativos (|z| > 1,96).
Fonte: Elaboração própria (2025).
A questão central que orientou esta etapa da investigação dizia respeito ao papel das variantes fonéticas palatalizadas e alveolares do /S/ em coda silábica como possíveis marcadores de pertencimento dialetal nas tarefas de discriminação realizadas por juízes das duas comunidades linguísticas abordadas no estudo. A hipótese de trabalho previa que os participantes tenderiam a perceber com maior acurácia os estímulos cuja realização fonética se aproximasse da variante predominante em sua própria comunidade linguística.
Os dados da Tabela 3, que reúne os resíduos ajustados padronizados, corroboram essa hipótese ao evidenciar desvios altamente significativos nas condições em que se esperava correspondência entre a realização fonética e a identidade dialetal local. Destaca-se, de forma contundente, o resíduo de –8,00 na célula “Palatalizada de Soteropolitano – Discriminou”, acompanhado de seu contraponto positivo (8,65) em “Não Discriminou”, o que indica que os falantes de Salvador apresentaram um índice de não discriminação da forma palatalizada muito acima do esperado.
Esse resultado sugere uma naturalização da forma local que impede seu reconhecimento como algo distinto ou marcado. Em contrapartida, os resíduos significativamente positivos observados na condição “Palatalizada de Outro Dialeto” sugerem que a mesma realização, quando atribuída a uma variedade externa, é percebida com maior clareza e prontamente rejeitada, funcionando como um sinal de não pertencimento ao repertório linguístico local.
A variável seguinte analisada quanto à discriminação refere-se à escolaridade dos juízes soteropolitanos. O objetivo desta etapa é investigar se os distintos níveis de formação educacional exercem influência sobre a habilidade de discriminar traços dialetais nos estímulos que apresentam variação na realização do arquifonema fricativo em coda silábica. A hipótese formulada considera que graus mais elevados de escolaridade poderiam estar relacionados a uma maior consciência linguística ou metalinguística, favorecendo, assim, um desempenho mais preciso nas tarefas perceptivas (cf. NOMOTO, 1999). Na sequência, são apresentados os dados de frequência distribuídos conforme os níveis de escolaridade, seguidos dos resultados estatísticos que avaliam o impacto desse fator sobre o desempenho dos participantes.
Tabela 4 – Distribuição das respostas de discriminação por juízes soteropolitanos segundo escolaridade, com percentuais relativos ao total de respostas dentro de cada grupo
Escolaridade | Discriminação | Contadores | % |
Ensino Fundamental Completo | Discriminou | 18 | 60,0% |
Não Discriminou | 12 | 40,0% | |
Ensino Médio Completo | Discriminou | 89 | 53,9% |
Não Discriminou | 76 | 46,1% | |
Superior Incompleto | Discriminou | 76 | 63,3% |
Não Discriminou | 44 | 36,7% | |
Superior Completo | Discriminou | 258 | 66,2% |
Não Discriminou | 132 | 33,8% | |
Pós-Graduado | Discriminou | 641 | 65,7% |
Não Discriminou | 334 | 34,3% |
Fonte: Elaboração própria (2025).
A Tabela 4 apresenta a distribuição percentual das respostas de discriminação segundo os níveis de escolaridade dos juízes, considerando os percentuais em relação ao total de respostas de cada grupo. Os dados indicam uma tendência ascendente no desempenho perceptivo à medida que aumenta o grau de escolaridade: enquanto participantes com Ensino Médio Completo obtiveram 53,9% de acertos, os com formação em Pós-Graduação alcançaram 65,7% de respostas coerentes. Essa progressão sugere uma possível correlação positiva entre maior escolarização e capacidade de discriminar traços dialetais.
Tal tendência pode ser atribuída ao desenvolvimento mais amplo da consciência metalinguística, ao aprimoramento da sensibilidade fonética e ao maior contato com variados registros linguísticos — fatores geralmente mais presentes entre indivíduos com maior escolaridade. Esses achados se coadunam com a literatura especializada. Thomas (2011), por exemplo, destaca que a consciência sociolinguística tende a ser mais desenvolvida em sujeitos com formação educacional mais elevada, o que contribui para uma maior percepção de variações linguísticas sutis. Preston (1999), por sua vez, observa que indivíduos mais escolarizados participam com mais frequência de julgamentos metalinguísticos e dialetológicos, o que pode favorecer o desempenho em tarefas perceptivas como as analisadas nesta pesquisa.
Para examinar se os desvios percentuais observados refletem padrões sistemáticos ou são fruto do acaso, a Tabela 5 apresenta os valores observados e esperados para cada grupo de escolaridade. Essa comparação é essencial para identificar quais níveis de formação contribuíram mais significativamente — de forma positiva ou negativa — para o resultado do teste de qui-quadrado, ajudando a compreender o peso específico de cada categoria na variação do desempenho perceptivo.
Tabela 5 – Distribuição das respostas dadas por juízes soteropolitanos de discriminação por escolaridade, com indicação de valores observados e esperados
Discriminação. | N1 (O/E) | N2 (O/E) | N3 (O/E) | N4 (O/E) | N5 (O/E) | Total |
Discriminou | 18 / 19,3 | 89 / 106,3 | 76 / 77,3 | 258 / 251 | 641 / 628 | 1082 |
Não Discriminou | 12 / 10,7 | 76 / 58,7 | 44 / 42,7 | 132 / 139 | 334 / 347 | 598 |
Total | 30 | 165 | 120 | 390 | 975 | 1680 |
(O/E) = (valores observados / valores esperados); N1 = Ensino Fundamental Completo; N2 = Ensino Médio Completo; N3 = Superior Incompleto; N4 = Superior Completo; N5 = Pós-Graduação.
Fonte: Elaboração própria (2025).
A Tabela 5 apresenta os valores observados e esperados por escolaridade. Nota-se que em todos os níveis, exceto no Ensino Médio Completo, os valores observados de acerto superam os esperados (por exemplo, 258 acertos em N4 frente a 251 esperados; 641 em N5 frente a 628 esperados). Por outro lado, os níveis com menor escolaridade (especialmente N2) registram um número de acertos inferior ao esperado, sugerindo que esses grupos contribuíram negativamente para o valor da estatística de associação. Esses desvios são importantes, pois indicam que a performance perceptual dos juízes em cada grupo não se distribuiu aleatoriamente, ainda que os efeitos sejam relativamente discretos.
A fim de investigar estatisticamente se os desvios entre os valores observados e esperados são significativos, apresenta-se a seguir a Tabela 6, com os resultados do teste do qui-quadrado para a associação entre escolaridade e desempenho na tarefa de discriminação. Essa análise estatística é decisiva para confirmar se as variações identificadas visual e numericamente representam uma associação real entre as variáveis, validando ou refutando a hipótese de que o nível de escolaridade influencia a habilidade de julgamento perceptivo dos participantes.
Tabela 6 – Resultados do teste do qui-quadrado para a associação entre escolaridade e discriminação por juízes soteropolitanos
| Valor | gl | p |
χ2 | 9.48 | 4 | 0.050 |
N | 1680 |
Fonte: Elaboração própria (2025).
A Tabela 6 resume os resultados do teste do qui-quadrado aplicado para verificar a existência de associação entre o nível de escolaridade e o desempenho perceptivo dos juízes. Com um valor de χ2 = 9,48, 4 graus de liberdade e p = 0,050, o teste alcança o limiar tradicional de significância estatística, permitindo a rejeição cautelosa da hipótese nula. Isso sugere uma associação significativa — ainda que marginal — entre a escolaridade dos participantes e sua capacidade de discriminar traços dialetais.
Em termos interpretativos, os resultados sustentam a ideia de que a escolaridade exerce influência sobre o desempenho perceptivo dos juízes soteropolitanos. A hipótese nula (H₀), que pressupunha independência entre escolaridade e discriminação dialetal, foi rejeitada ao nível de significância de 5%, favorecendo a aceitação da hipótese alternativa (H₁), segundo a qual existe associação entre essas variáveis. Embora o efeito estatístico detectado seja modesto, os dados apontam que níveis mais elevados de formação escolar tendem a favorecer uma maior eficácia na identificação de variantes linguísticas.
Esse achado está em consonância com estudos prévios na área da sociofonética perceptual. Thomas (2011) argumenta que a consciência sociolinguística é geralmente mais aguçada em indivíduos com maior escolaridade, o que amplia sua capacidade de percepção de traços fonéticos sutis. Preston (1999), por sua vez, enfatiza que sujeitos mais escolarizados tendem a se engajar com maior frequência em julgamentos metalinguísticos, o que os torna mais aptos a desempenhar tarefas perceptivas como as propostas neste estudo. Assim, mesmo que a força da associação não seja intensa, os resultados reforçam a relevância da variável escolaridade no desempenho linguístico-perceptual.
Em relação à análise de deviance (ANOVA tipo II), a seguir, são apresentados os resultados alcançados para tarefa de discriminação.
Tabela 7 – Resultados da Análise de Deviance (ANOVA tipo II) para a variável composta do estímulo e nível de escolaridade na tarefa de discriminação
Fator | Qui-quadrado (χ2) | Graus de liberdade (df) | Valor de p (p-value) |
Variável composta do estímulo | 251,29 | 3 | < 0,001 |
Nível de escolaridade | 10,80 | 4 | 0,028 |
Interação: Estímulo × Escolaridade | 7,96 | 12 | 0,788 |
Fonte: Elaboração própria (2025).
A análise de deviance (ANOVA tipo II) indicou efeito principal significativo para a variável composta do estímulo (χ2 = 251,29; df = 3; p < 0,001), bem como um efeito significativo para o nível de escolaridade (χ2 = 10,80; df = 4; p = 0,028). Por outro lado, a interação entre os dois fatores não foi significativa (χ2 = 7,96; df = 12; p = 0,788), sugerindo que os efeitos da forma fonética do estímulo e da escolaridade operam de forma independente.
Os resultados obtidos na pesquisa revelam, portanto, uma interação complexa entre fatores linguísticos (como a forma fonética do estímulo) e extralinguísticos (como a origem geográfica do estímulo e o nível de escolaridade dos juízes) no processo de discriminação dialetal. A evidência de que os falantes de Salvador tiveram mais dificuldade em identificar a variante palatalizada associada à própria comunidade (como demonstrado pelo resíduo negativo significativo na célula “Palatalizada de Soteropolitano – Discriminou”) aponta para um fenômeno relevante para se destacar.
Essa observação aponta para algo recorrente em estudos de dialetologia perceptual: a naturalização da variedade local, que tende a ser percebida como “neutra” ou “transparente” pelos falantes nativos (PRESTON, 1999). Essa insensibilidade em relação à própria variedade é interpretada como um sinal de familiaridade e internalização profunda da norma local, dificultando sua categorização como distinta.
Apesar de, à primeira vista, os resultados da presente pesquisa em Salvador parecerem contrastar com os de estudos realizados por Preston (1999) em Michigan — onde os falantes demonstraram elevada sensibilidade às variações regionais próximas —, essa diferença pode ser mais bem compreendida à luz dos contextos sociolinguísticos distintos de cada comunidade. Em Michigan, por exemplo, os participantes operam em um cenário de alta segurança linguística e consciência metalinguística, o que favorece uma postura reflexiva e analítica diante de traços do próprio dialeto.
Já entre os soteropolitanos, observa-se uma tendência à naturalização da variante local, especialmente da forma palatalizada do /S/, o que inibe sua percepção como marca dialetal distinta. Esse fenômeno sugere menor saliência sociolinguística da variante local, possivelmente associada a um contexto de menor reflexividade metalinguística ou menor valorização institucional da variedade regional. Assim, ao invés de uma contradição, o contraste entre os estudos revela dois padrões complementares de percepção dialetal, que variam conforme o grau de exposição, valorização e consciência sociolinguística presentes em cada comunidade.
No tocante à acuidade perceptiva observada diante de variantes não locais (com destaque para o excesso de acertos na condição “Palatalizada de Outro Dialeto”) reforça a hipótese de que formas linguísticas não familiarizadas funcionam como marcadores sociais mais salientes, gerando maior vigilância e rejeição perceptiva (WILLIAMS; GARRETT; COUPLAND, 1999). Isso indica que o reconhecimento de traços dialetais se apoia não apenas na forma linguística em si, mas também em sua associação social e identitária, como destaca Thomas (2011), ao afirmar que o julgamento fonético é influenciado por expectativas sociais sobre quem “deveria” usar determinada forma.
No que se refere ao papel da escolaridade, os resultados confirmam a hipótese de que níveis mais elevados de formação educacional estão associados a melhor desempenho nas tarefas de discriminação dialetal. A progressão dos percentuais de acerto observada entre os grupos — de 53,9% no Ensino Médio Completo até 65,7% na Pós-Graduação — e o valor significativo do teste do qui-quadrado (p = 0,05) sustentam a ideia de que a escolarização pode promover maior consciência metalinguística e sensibilidade fonética (cf. NOMOTO, 1999; THOMAS, 2011). Preston (1999) também corrobora essa perspectiva ao apontar que participantes mais escolarizados tendem a se envolver mais ativamente com julgamentos metalinguísticos, o que favorece seu desempenho em tarefas perceptivas estruturadas.
O resultado da ANOVA tipo II confirma a influência independente e significativa da variável nível de escolaridade no desempenho dos juízes (p = 0,028), o que reforça sua relevância como variável explicativa. A ausência de interação significativa entre a escolaridade e a variável composta (p = 0,788) sugere que esses fatores operam de maneira autônoma, ou seja, a maior escolaridade não afeta diferencialmente a percepção de formas locais ou não locais — ela aprimora, de forma geral, a capacidade de discriminação fonética. Em conjunto, os dados indicam que a sensibilidade perceptiva é moldada tanto por elementos de pertencimento linguístico quanto por competências cognitivas cultivadas pelo nível educacional.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
À luz da pergunta de pesquisa que orientou este estudo — se a percepção do arquifonema /S/ em coda silábica por soteropolitanos é modulada pela interação entre a origem geográfica e a realização fonética do estímulo, bem como pelo nível de escolaridade dos juízes —, os resultados obtidos permitem algumas considerações relevantes. A análise estatística evidenciou que a variável composta do estímulo teve impacto significativo sobre o desempenho dos participantes, confirmando parcialmente a hipótese inicial.
Observou-se que os juízes apresentaram maior acurácia na discriminação de formas não locais do que nas formas locais, sobretudo no caso da variante palatalizada associada ao próprio dialeto, que foi significativamente menos reconhecida como distinta. Tal resultado indica um processo de naturalização da variante regional, que passa a ser percebida como “não marcada”, dificultando seu reconhecimento consciente — um fenômeno coerente com o que a literatura descreve como baixa saliência de formas dialetais idiossincráticas (PRESTON, 1999; WILLIAMS; GARRETT; COUPLAND, 1999).
No tocante à variável escolaridade, os dados revelaram um efeito independente e estatisticamente significativo, ainda que discreto, indicando que níveis mais altos de formação educacional tendem a favorecer um desempenho mais preciso na identificação de traços dialetais. Essa constatação corrobora a segunda parte da hipótese e encontra respaldo em autores como Nomoto (1999), Thomas (2011) e Preston (1999), que associam a escolarização ao desenvolvimento de maior consciência metalinguística e sensibilidade fonética. No entanto, a interação entre escolaridade e variável composta do estímulo não se mostrou estatisticamente significativa, sugerindo que esses fatores operam de forma autônoma, sem potencializar mutuamente seus efeitos no desempenho dos juízes.
Dessa forma, pode-se concluir que a percepção dialetal entre soteropolitanos é fortemente influenciada por fatores linguísticos e sociais, mas que sua sensibilidade à variante própria é atenuada pela familiaridade e internalização da norma local. Ao comparar esses achados com estudos como o de Preston (1999a) em Michigan, percebe-se que diferentes comunidades linguísticas podem apresentar padrões contrastantes de percepção, conforme o grau de saliência social atribuído ao próprio dialeto. Essa reflexão final reforça a importância de considerar tanto o repertório linguístico interno das comunidades quanto suas trajetórias educacionais e ideológicas no entendimento das atitudes linguísticas e julgamentos perceptivos. Em última instância, os dados aqui discutidos sublinham o caráter profundamente contextual da percepção fonético-fonológica e suas implicações para os estudos da variação e identidade linguística.
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1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO), Jaru, RO, Brasil. Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Vitória da Conquista, BA, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7412-8424. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Vitória da Conquista, BA, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7412-8424. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.