EPISTEMOLOGIA DA COMPLEXIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE NA CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS: UMA PROPOSTA DIDÁTICA COM A CRÔNICA REFLEXIVA

EPISTEMOLOGY OF COMPLEXITY AND TRANSDISCIPLINARITY IN THE CONSTRUCTION OF MEANING: A TEACHING PROPOSAL USING THE REFLECTIVE CHRONICLE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784956347

RESUMO
Em um contexto educacional marcado pela necessidade de integrar saberes e promover aprendizagens mais significativas, torna-se relevante a construção de práticas pedagógicas que favoreçam a reflexão, a criatividade e a compreensão da realidade. Este artigo apresenta uma proposta pedagógica para o ensino de Língua Portuguesa no 9º ano do Ensino Fundamental, articulando o livro Zoom, de Istvan Banyai, e o gênero textual crônica reflexiva. A proposta está fundamentada na Epistemologia da Complexidade (Morin, 2005) e na transdisciplinaridade (Nicolescu e Ertas, 2013). A partir da análise das possibilidades pedagógicas oferecidas pela obra e pelo gênero textual selecionado, evidencia-se que a leitura de imagens e a escrita reflexiva podem favorecer a ampliação de percepções, perspectivas, o pensamento crítico e a construção de sentidos, contribuindo para práticas educativas mais integradoras e contextualizadas, fortalecendo a formação de estudantes capazes de compreender e interpretar o mundo mobilizando saberes de forma crítica, criativa e transdisciplinar.
Palavras-chave: Transdisciplinaridade; Complexidade; Crônica reflexiva; Zoom.

ABSTRACT
In an educational context marked by the need to integrate knowledge and promote more meaningful learning, it is essential to develop pedagogical practices that foster reflection, creativity, and a deeper understanding of reality. This article presents a pedagogical proposal for teaching Portuguese Language to ninth-grade students, combining the book Zoom, by Istvan Banyai, with the reflective chronicle as a textual genre. The proposal is grounded in the Epistemology of Complexity (Morin, 2005) and transdisciplinarity (Nicolescu and Ertas, 2013). Based on an analysis of the pedagogical possibilities offered by the book and the selected textual genre, the study highlights that image reading and reflective writing can broaden students' perceptions and perspectives, foster critical thinking, and support meaning-making. These practices contribute to more integrated and contextualized educational approaches, strengthening the education of students who are able to understand and interpret the world by mobilizing knowledge in a critical, creative, and transdisciplinary way.
Keywords: Transdisciplinarity; Complexity; Reflective chronicle; Zoom.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Diante dos desafios que atravessam a educação contemporânea, torna-se fundamental desenvolver práticas pedagógicas capazes de promover aprendizagens significativas e contextualizadas. Isso implica superar a fragmentação dos saberes e criar oportunidades para que os estudantes estabeleçam relações entre diferentes conhecimentos, compreendendo a realidade de forma mais ampla e integrada. No ensino de Língua Portuguesa, essa perspectiva pode se materializar em propostas que articulem leitura, escrita e reflexão, valorizando a diversidade de linguagens e os múltiplos modos de expressão, interpretação e produção de sentidos.

Partindo desse cenário, este artigo apresenta uma proposta pedagógica com potencial de transdisciplinaridade para estudantes de Língua Portuguesa do 9º ano do Ensino Fundamental, construída a partir da articulação entre o livro Zoom, de Istvan Banyai, e o gênero textual crônica reflexiva, contribuindo, assim, para o desenvolvimento de leituras ampliadas da realidade e para a construção de narrativas significativas.

A obra, composta exclusivamente por imagens, convida o leitor a ampliar continuamente seu olhar sobre diferentes cenas e contextos, revelando que aquilo que parece ser uma realidade completa é, muitas vezes, apenas uma pequena parte do todo. Essa característica favorece reflexões sobre perspectivas, interpretações e modos de compreender o mundo, aspectos que dialogam diretamente com os objetivos formativos da educação contemporânea e do século vigente.

A proposta pedagógica aqui apresentada encontra-se ancorada nos fundamentos da transdisciplinaridade como princípio epistemológico da complexidade (Morin, 2005), que busca integrar diferentes áreas do conhecimento, valorizando as múltiplas dimensões da experiência humana. Em vista disso, o trabalho com o livro Zoom e com a crônica reflexiva possibilita que os estudantes estabeleçam conexões entre experiências pessoais e questões presentes em seu contexto social, construindo sentidos que ultrapassam os limites disciplinares e, ainda, fragmentados.

Este artigo está organizado em quatro seções. Na primeira, discutimos os pressupostos da complexidade e da transdisciplinaridade que fundamentam a proposta apresentada. Em seguida, abordamos a crônica reflexiva e sua relação com a obra Zoom, destacando suas características e contribuições para o desenvolvimento de uma postura crítica por parte dos estudantes. Na terceira seção, examinamos algumas das possibilidades interpretativas e transdisciplinares que emergem da obra. Por fim, apresentamos a proposta pedagógica desenvolvida para o 9º ano do Ensino Fundamental, descrevendo seus objetivos, etapas de implementação e possíveis contribuições para o ensino de Língua Portuguesa sob uma perspectiva complexa e transdisciplinar.

COMPLEXIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE EM TESSITURAS

A discussão acerca da Epistemologia da Complexidade e da transdisciplinaridade emerge como uma necessidade diante dos múltiplos entrelaçamentos que caracterizam a realidade contemporânea. O paradigma tradicional, fundamentado na fragmentação do conhecimento, na separação das disciplinas, no reducionismo e na busca de explicações lineares, mostra-se insuficiente para compreender processos marcados pela diversidade, pela incerteza e pelas múltiplas interações. Como destacam Behrens e Oliari (2007, p. 59), "o paradigma tradicional ou newtoniano-cartesiano levou à fragmentação do conhecimento e à supervalorização da visão racional". Nesse contexto, o conhecimento passou a ser compartimentado em áreas e disciplinas específicas, dificultando a compreensão das relações que conectam os diferentes fenômenos da realidade. Nas palavras de Silva e Pitombeira (2025, p. 22), “ao introduzirmos a Epistemologia da Complexidade (Morin, 2005; Freire, 2020), refletimos sobre a necessidade de um pensamento que vá além da fragmentação do conhecimento e que considere o diálogo dos saberes”.

Diante dessas limitações, as contribuições de Morin (2000, 2003, 2005) tornam-se relevantes ao defender uma reforma do pensamento capaz de (re)ligar saberes e superar a lógica reducionista. Para o autor, a complexidade corresponde a "um tecido (complexus: o que é tecido junto) de constituintes heterogêneas inseparavelmente associadas" (Morin, 2005, p. 13), evidenciando a necessidade de compreender os fenômenos em suas múltiplas relações e interdependências. Nessa perspectiva, o pensamento complexo busca articular as partes ao todo, reconhecendo que os sujeitos, os contextos e os conhecimentos encontram-se em permanente interação. Conforme destaca Morin (2005, p. 74), "a ordem e a desordem são dois inimigos: um suprime o outro, mas ao mesmo tempo, em certos casos, eles colaboram e produzem organização e complexidade". Essa compreensão evidencia que a realidade não pode ser explicada por lógicas simplificadoras, mas exige o reconhecimento da coexistência de elementos complementares e contraditórios.

Assim, a transdisciplinaridade, como princípio epistemológico da complexidade, surge como uma possibilidade de construção de conhecimentos mais integradores. Enquanto a multidisciplinaridade caracteriza-se pela “abordagem de um problema ou tema a partir de diferentes disciplinas, sem, necessariamente, criar uma interação ou integração entre as disciplinas" (Sá; Chimenes, 2026, p. 9-10), a interdisciplinaridade é definida por Japiassu (1976, p. 74), pela "intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas, no interior de um projeto específico de pesquisa". Embora represente um avanço em relação à fragmentação disciplinar, a interdisciplinaridade ainda se desenvolve a partir das fronteiras das próprias disciplinas. A transdisciplinaridade, por sua vez, procura ultrapassar esses limites, estabelecendo conexões entre diferentes saberes, incluindo conhecimentos científicos, culturais, artísticos e experiências humanas. Dessa forma, propõe uma visão ampliada da realidade, coerente com os princípios da complexidade, ao reconhecer a inter-relação entre os diversos níveis e dimensões da experiência humana.

Segundo Nicolescu (2013), a transdisciplinaridade fundamenta-se em três axiomas: ontológico, lógico e epistemológico. O primeiro refere-se à existência de diferentes níveis de realidade, tanto no objeto quanto no sujeito, evidenciando a multiplicidade de perspectivas presentes na compreensão dos fenômenos. O segundo relaciona-se à lógica do terceiro incluído, que possibilita a articulação entre elementos aparentemente contraditórios, superando as limitações do pensamento. Já o terceiro compreende a realidade como uma estrutura complexa e interdependente, na qual os diferentes níveis coexistem e se influenciam mutuamente. Nas palavras do autor,

[…] o primeiro significado de “Ser transdisciplinar” é o Ser de transdisciplinaridade, isto é o Ser de unidade de Natureza e conhecimento. É um significado filosófico, independente de qualquer interpretação religiosa. O Ser de unidade de Natureza e conhecimento significa o que cruza a região de resistência de todos os níveis de Realidade dos Objetos e de todos os níveis de Realidade do Sujeito através da região de não resistência do Terceiro Incluído. A metodologia transdisciplinar consegue unificar o Real e a Realidade, através de uma interconexão rigorosa de ontologia, lógica e epistemologia (Nicolescu, 2019, p. 14).

A partir dessa compreensão, a realidade deixa de ser concebida de forma fragmentada e passa a ser compreendida como uma rede dinâmica de relações, interações e interdependências.

Para Nicolescu (2000, p. 35), “a transdisciplinaridade diz respeito àquilo que está, ao mesmo tempo, entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina”, dialogando, assim, com a perspectiva complexa de Morin (2000, 2003, 2005) ao reconhecer que a compreensão da realidade exige a articulação de diferentes saberes, contextos e níveis de realidade. Assim, a complexidade constitui uma possibilidade de superação da fragmentação do conhecimento, favorecendo a construção de uma visão mais integrada e contextualizada do mundo.

Nicolescu (2019) apresenta a transdisciplinaridade como uma forma de compreender a realidade a partir da integração entre diferentes dimensões do conhecimento e da existência humana. O autor afirma que não existe uma separação rígida entre quem conhece (o sujeito) e aquilo que é conhecido (o objeto). Em vez de enxergar o mundo por meio de fragmentos isolados, a transdisciplinaridade propõe uma visão mais ampla, capaz de reconhecer as conexões entre fenômenos, saberes, experiências e modos de compreender a realidade. Dessa forma, o conhecimento deixa de ser apenas um conjunto de informações organizadas em disciplinas e passa a ser entendido como um processo vivo, que envolve diálogo, interação e tessitura de sentidos.

Na perspectiva de Nicolescu (2019), a lógica do terceiro incluído constitui um dos pilares da transdisciplinaridade, propondo uma forma de compreensão que ultrapasse as divisões rígidas e as oposições aparentemente inconciliáveis. Os opostos não são vistos como excludentes, mas como partes que constituem uma realidade ampla e complexa. Para Nicolescu (2000, p. 28), “a passagem de um nível de Realidade para outro é assegurada pela lógica do terceiro incluído”.

Além disso, evidencia a superação das lógicas tradicionais que costumam lidar com oposições rígidas, como verdadeiro ou falso, sujeito ou objeto, ciência ou experiência. Para Nicolescu (2019), há espaços de encontro entre essas aparentes contradições, permitindo que diferentes perspectivas coexistam e se complementem. Nesse sentido, a transdisciplinaridade busca construir uma compreensão mais profunda e complexa do real, principalmente no que se refere aos desafios educacionais contemporâneos, estabelecendo abertura, diálogo e o reconhecimento da complexidade que caracteriza tanto o conhecimento quanto a própria condição humana.

Nicolescu (2013) defende que a emergência de uma cultura transdisciplinar está diretamente relacionada à necessidade de repensar os modelos educacionais vigentes. Segundo o autor, as transformações sociais, culturais e humanas da contemporaneidade evidenciam as limitações de sistemas de ensino baseados em perspectivas fragmentadas do conhecimento. Dessa forma, torna-se necessária uma educação que contemple a multidimensionalidade do ser humano, favorecendo a construção de saberes mais integrados à realidade.

A relação entre complexidade e transdisciplinaridade pode ser compreendida como uma tessitura de saberes, na qual diferentes conhecimentos se entrelaçam para interpretar fenômenos complexos da realidade contemporânea. Nessa perspectiva, a construção do conhecimento ocorre por meio de relações, conexões e diálogos entre diferentes áreas e formas de saber, superando visões fragmentadas da realidade. Essa tessitura possibilita uma formação mais crítica e reflexiva, pois estimula os estudantes a estabelecerem relações entre experiências e contextos sociais. Além disso, contribui para a construção de práticas educativas mais flexíveis, colaborativas e conectadas às demandas do século XXI.

ENTRE OLHARES E PERSPECTIVAS: A CRÔNICA REFLEXIVA

A crônica reflexiva constitui um gênero textual que se caracteriza pela observação do cotidiano e pela construção de reflexões sobre experiências, acontecimentos, comportamentos e questões humanas diversas. Diferentemente da notícia, por exemplo, que busca informar, ou do conto, que geralmente privilegia a ficção, a crônica reflexiva propõe ao leitor um olhar mais atento sobre a realidade, estimulando interpretações, questionamentos e a produção de sentidos. Sua linguagem é acessível, subjetiva e próxima do leitor, favorecendo a expressão de sentimentos, opiniões e percepções acerca do mundo.

Sob essa ótica, a crônica reflexiva apresenta potencial formativo, pois possibilita que os estudantes desenvolvam habilidades de leitura, escrita, argumentação, pensamento crítico e a percepção de diferentes níveis de realidade. Ao refletirem sobre situações vividas ou observadas, os alunos são convidados a relacionar suas experiências pessoais com questões sociais, culturais, éticas e ambientais, ampliando sua compreensão da realidade e fortalecendo sua capacidade de posicionamento diante dos desafios globais contemporâneos.

Desse modo, essa potencialidade torna-se ainda mais relevante quando articulada a propostas transdisciplinares. A transdisciplinaridade, nesse sentido, busca ultrapassar as fronteiras disciplinares ainda fragmentadas e lineares, promovendo a (re)ligação de diferentes saberes na compreensão dos fenômenos humanos e sociais, atuando como uma espécie de ponte entre, através e além das disciplinas (Nicolescu e Ertas, 2013), favorecendo, assim, a construção de sentidos e de narrativas não lineares na crônica reflexiva.

Sob essa ótica, a obra Zoom, de Istvan Banyai, torna-se relevante para este trabalho, ao oportunizar uma sequência de imagens que ampliam continuamente o campo de visão do observador, o livro desafia certezas absolutas, desloca perspectivas e evidencia que toda realidade pode ser compreendida de diferentes maneiras, dependendo do ponto de vista adotado e vivenciado. A narrativa visual convida o leitor a questionar suas interpretações iniciais e a reconhecer a complexidade presente nos fenômenos, nas relações e nos contextos que o cercam (Morin, 2005).

Ao dialogar com a obra Zoom, a crônica reflexiva permite que os estudantes transformem percepções visuais em narrativas escritas, explorando sentimentos, questionamentos, descobertas e reflexões suscitadas pelas imagens. Cada mudança de perspectiva apresentada na obra atua como ponto de partida para reflexões sobre identidade, convivência, meio ambiente, cultura, cidadania e pertencimento, possibilitando a construção de narrativas transdisciplinares que articulam conhecimentos e experiências de vida (Nicolescu e Ertas, 2013).

Desse modo, ao propormos uma atividade que articule a obra Zoom e o gênero textual crônica reflexiva nas aulas de Língua Portuguesa, consideramos a formação de estudantes capazes de compreender a realidade em sua multidimensionalidade, reconhecendo que um mesmo fenômeno pode ser observado e compreendido sob diferentes ângulos, adotando uma postura crítica, sensível e aberta ao diálogo, elementos fundamentais para uma educação comprometida com a complexidade (Morin, 2005), a reflexão e a construção de sentidos sobre o mundo.

ZOOM: NARRATIVAS QUE SE EXPANDEM

A escolha da obra Zoom, de Istvan Banyai, para esta proposta pedagógica, está relacionada ao seu potencial de estimular a observação, a interpretação e a reflexão sobre diferentes formas de compreender a realidade. Ao apresentar uma sequência de imagens que ampliam progressivamente o campo de visão do leitor, a obra evidencia que aquilo que inicialmente parece representar o todo constitui apenas uma parte de um contexto mais amplo. Essa característica aproxima-se aos princípios da complexidade (Morin, 2005), ao evidenciar que a compreensão da realidade depende das relações estabelecidas entre as partes e o todo, bem como dos contextos em que os fenômenos se manifestam.

Dessa forma, a produção da crônica reflexiva mostra-se pertinente, uma vez que esse gênero textual possibilita ao estudante narrar experiências, observações e acontecimentos cotidianos, articulando-os a reflexões e interpretações sobre a realidade. Assim como o livro convida o leitor a ampliar seu olhar e reconsiderar suas percepções iniciais, a crônica reflexiva favorece a construção de sentidos a partir de diferentes experiências.

Publicado em 1995, Zoom é uma obra do ilustrador húngaro Istvan Banyai, reconhecido por suas narrativas visuais inovadoras. A obra caracteriza-se por apresentar uma narrativa exclusivamente imagética, sem a utilização de texto verbal, conduzindo o leitor por uma sequência de imagens que revelam, a cada página, um contexto mais amplo do que aquele inicialmente observado.

A dinâmica narrativa do livro baseia-se em sucessivos movimentos de afastamento do olhar. Cada imagem, que em um primeiro momento parece representar uma cena completa, revela-se posteriormente como apenas um fragmento de uma realidade maior. Esse processo convida o leitor a revisar continuamente suas interpretações, percebendo que aquilo que parecia evidente pode adquirir novos significados quando observado sob outras perspectivas e dimensões.

Outro aspecto singular da obra é a possibilidade de leitura em diferentes direções. Embora a narrativa seja construída a partir da ampliação progressiva das imagens, o livro também pode ser explorado do fim para o início, produzindo, assim, novas interpretações. Nesse outro percurso, o leitor desloca-se do contexto mais amplo para os detalhes, evidenciando que a compreensão de uma mesma realidade pode variar conforme o ponto de observação.

As características da obra apresentam significativo potencial pedagógico, especialmente por favorecerem a participação ativa dos estudantes na construção de sentidos. A ausência de texto verbal amplia as possibilidades interpretativas e estimula a observação, a imaginação, o diálogo e a reflexão, tornando Zoom um ótimo recurso para propostas educativas alinhadas à complexidade e à transdisciplinaridade.

DESCRIÇÃO DA PROPOSTA PEDAGÓGICA

As discussões apresentadas evidenciam que a complexidade e a transdisciplinaridade oferecem importantes contribuições para a construção de práticas pedagógicas mais integradoras, reflexivas e contextualizadas. Da mesma forma, o diálogo entre a obra Zoom, de Istvan Banyai, e a crônica reflexiva demonstra o potencial de atividades que valorizam diferentes formas de leitura e interpretações da realidade. Ao ampliar o olhar sobre imagens, situações e contextos, os estudantes são convidados a reconhecerem que o conhecimento não se constitui de maneira isolada e fragmentada.

Nesse sentido, a proposta a seguir busca integrar esses princípios no contexto das aulas de Língua Portuguesa do 9º ano do Ensino Fundamental a partir dos pressupostos da complexidade e da transdisciplinaridade. A atividade articula leitura visual, reflexão crítica e produção escrita, incentivando os estudantes a construírem narrativas que expressem suas compreensões sobre si mesmos, sobre o outro e sobre o mundo. Mais do que desenvolver habilidades linguísticas, a proposta pretende favorecer a formação de sujeitos capazes de interpretar a realidade de maneira crítica e aberta à diversidade de perspectivas.

Ampliando a percepção da realidade: uma proposta pedagógica transdisciplinar a partir da obra Zoom e da crônica reflexiva

  • Público-alvo: Alunos do 9º ano do ensino fundamental

  • Duração: 3 a 4 aulas (50 min cada)

  • Objetos do conhecimento:

  • Produção de sentidos a partir de narrativas visuais;

  • Gênero textual: crônica reflexiva;

  • Produção textual escrita.

  • Objetivo Geral: Promover a ampliação dos olhares sobre a realidade por meio da análise da obra Zoom, de Istvan Banyai, e da produção de crônicas reflexivas, articulando os princípios da complexidade e da transdisciplinaridade.

  • Objetivos específicos:

  • Interpretar narrativas visuais e construir sentidos a partir das imagens;

  • Refletir sobre a influência do contexto na compreensão dos acontecimentos;

  • Reconhecer a existência de diferentes perspectivas sobre uma mesma realidade;

  • Produzir uma crônica reflexiva a partir das discussões realizadas.

  • Procedimentos metodológicos da proposta:

1.ª Etapa: O professor projeta para a turma toda apenas a primeira imagem da obra e solicita que os estudantes observem atentamente a cena. em seguida, promove uma conversa inicial a partir de questões como:

  • O que vocês veem na imagem?

  • O que está acontecendo?

  • Há informações que ainda não conseguimos perceber?

  • É possível que nossa interpretação esteja incompleta?

Nesse momento, os questionamentos dos estudantes são registrados na lousa para posterior retomada.

2.ª etapa: Realiza-se a análise coletiva do livro zoom, por meio da projeção de suas imagens. a cada página, os estudantes são convidados a revisar suas interpretações iniciais ao perceber e discutir como o novo enquadramento modifica a compreensão da cena anterior.

Ao final da análise, o professor conduz uma discussão sobre:

  • A importância do contexto para a compreensão dos fatos;

  • A existência de múltiplos pontos de vista;

  • A relação entre parte e todo;

  • A necessidade de ampliar o olhar antes de formular conclusões.

3.ª etapa: Posteriormente, o professor promove uma roda de conversa com o objetivo de relacionar as reflexões suscitadas pela obra zoom às experiências vividas pelos estudantes. a partir do diálogo, os participantes são convidados a refletirem sobre situações em que uma primeira impressão foi ampliada pela compreensão de novos contextos ou pontos de vista.

Para orientar a discussão, o professor articula os seguintes questionamentos:

  • Você já mudou sua opinião sobre alguém depois de conhecer melhor essa pessoa?

  • Alguma vez você interpretou uma situação de um jeito e depois percebeu que havia outros lados da história?

  • Como novas informações podem mudar a forma como entendemos um acontecimento?

4.ª etapa: O professor apresenta características da crônica reflexiva, destacando:

  • A presença de fatos ou situações cotidianas;

  • O olhar subjetivo do autor;

  • A reflexão sobre experiências humanas e sociais;

  • A linguagem acessível e próxima do leitor;

  • A importância da crônica reflexiva no processo de construção de sentidos diversos.

Em seguida, realiza-se a leitura de uma ou mais crônicas reflexivas para exemplificação.

5.ª etapa: O professor apresenta a estrutura composicional do gênero textual crônica reflexiva e compartilha exemplos dessa tipologia com a turma, dando ênfase à sua relevância no desenvolvimento da atividade proposta. em seguida, os estudantes são orientados a escreverem uma crônica reflexiva inspirada pelas discussões realizadas a partir da obra zoom. o professor pode orientar a produção com base em uma situação em que a compreensão inicial sobre uma pessoa, acontecimento ou experiência estava incompleta e precisou ser ampliada a partir de novos olhares, perspectivas e contextos.

6.ª etapa: Os estudantes compartilham suas crônicas reflexivas no mural virtual do padlet4, promovendo a socialização das produções e o diálogo entre diferentes perspectivas. esse momento favorece a reflexão coletiva sobre os temas discutidos e a ampliação da percepção dos acerca da realidade.

  • Avaliação:

A avaliação ocorre de forma processual, considerando a participação dos estudantes nas discussões, a interpretação das imagens da obra Zoom e a produção da crônica reflexiva, considerando a capacidade de estabelecer relações entre diferentes perspectivas, a reflexão crítica e a adequação ao gênero textual proposto.

  • Recursos Utilizados:

  • Livro Zoom, de Istvan Banyai;

  • Projetor multimídia;

  • Computador;

  • Folhas de papel ou caderno;

  • Quadro e pincéis;

  • Mural virtual do Padlet.

Ao articular a leitura visual do livro Zoom com a produção das crônicas reflexivas, a proposta amplia as possibilidades de aprendizagem no ensino de Língua Portuguesa, favorecendo a construção de conhecimentos que dialoguem com diferentes áreas e experiências de vida. Ao longo das atividades, os estudantes são convidados a observar, interpretar, questionar e ressignificar as imagens apresentadas na obra, compreendendo que a realidade pode ser percebida sob múltiplos ângulos. Esse movimento contribui para o desenvolvimento da sensibilidade, da criatividade, da argumentação e da capacidade de reflexão crítica, aspectos fundamentais para a formação integral dos sujeitos.

Além disso, a proposta evidencia a transdisciplinaridade como caminho para a construção de práticas pedagógicas conectadas ao mundo contemporâneo. Ao reconhecer a inter-relação entre diferentes saberes, linguagens e perspectivas, os estudantes tornam-se protagonistas na produção de sentidos e na elaboração de crônicas que expressam suas leituras de mundo. Dessa forma, a atividade ultrapassa o ensino de conteúdos e habilidades específicas, promovendo experiências formativas que valorizam a escuta, o diálogo, a reflexão e a compreensão da realidade em sua dimensão plural, dinâmica e multidimensional.

CONSIDERAÇÕES (IN)CONCLUSAS

Ao longo deste artigo, buscou-se evidenciar as possibilidades de articulação entre o livro Zoom, de Istvan Banyai, e a crônica reflexiva em uma proposta pedagógica fundamentada nos princípios da complexidade e da transdisciplinaridade. As discussões realizadas permitiram compreender que a leitura de imagens e a produção de narrativas podem constituir caminhos significativos para ampliar o olhar dos estudantes sobre si mesmos, sobre o outro e sobre a realidade que os cerca. Nesse contexto, a obra de Banyai apresenta-se como um recurso utilizado para provocar questionamentos, desconstruir certezas absolutas e estimular a compreensão de que todo conhecimento é construído a partir de múltiplas perspectivas e relações.

Desse modo, espera-se que a proposta apresentada contribua para a construção de práticas educativas conectadas às demandas da educação contemporânea. Mais do que desenvolver competências de leitura e escrita, a atividade favorece a formação de sujeitos capazes de dialogar com a diversidade de olhares e de compreender a complexidade dos fenômenos humanos e sociais. Acreditamos que este trabalho possa inspirar professores a explorarem novas possibilidades pedagógicas que valorizem a criatividade, a reflexão crítica e a produção de sentidos, fortalecendo uma educação comprometida com a formação integral dos estudantes e com a construção de conhecimentos que transcendam as fronteiras disciplinares.

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SILVA, Natália Luczkiewicz da; PITOMBEIRA, Cátia Veneziano. Linguística aplicada e epistemologia da complexidade: conexões necessárias. In: PITOMBEIRA, Cátia Veneziano; IFA, Sérgio (Orgs.). Linguística aplicada em cena: interlocuções contemporâneas. Maceió: Edufal, 2025, p. 15-24.


1 Mestrando em Linguística pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura da Universidade Federal de Alagoas (PPGLL/UFAL). Professor da rede municipal de ensino de Santana do Ipanema - AL e supervisor no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Mestrando em Linguística pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura da Universidade Federal de Alagoas (PPGLL/UFAL). Professor efetivo da rede estadual de ensino de Alagoas. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Doutora em Linguística Aplicada e estudos da linguagem pela PUC-SP. Docente da Faculdade de Letras (FALE) e do Programa de Pós-graduação em Linguística e Literatura (PPGLL) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Padlet é uma plataforma digital para a criação de murais virtuais colaborativos. Disponível em: https://padlet.com.