ENTRE VARAS, CACURÍS E MATAPÍS: APETRECHOS TRADICIONAIS E SABERES PESQUEIROS NA COMUNIDADE QUILOMBOLA NOSSA SENHORA DO LIVRAMENTO - IGARAPÉ-AÇU/PA

AMONG FISHING POLES, CACURÍS, AND MATAPÍS: TRADITIONAL GEAN AND FISHING KNOWLEDGE IN THE QUILOMBOLA COMMUNITY OF NOSSA SENHORA DO LIVRAMENTO - IGARAPÉ-AÇU/PA

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/794028650

RESUMO
A pesca artesanal constitui uma importante atividade econômica, alimentar e cultural para comunidades tradicionais da Amazônia. Este estudo analisa os apetrechos e as técnicas de pesca utilizados pelos moradores da Comunidade Quilombola Nossa Senhora do Livramento, localizada no município de Igarapé-Açu, Pará, destacando os saberes tradicionais envolvidos no manejo dos recursos pesqueiros e sua relação com a conservação ambiental. A pesquisa foi desenvolvida por meio de abordagem qualitativa com característica etnográfica, utilizando observação de campo, registros fotográficos e entrevistas semiestruturadas com pescadores da comunidade. Os resultados evidenciam a utilização de diversos apetrechos artesanais, como caniço, malhadeira, cambão, boia, espinhel, fisga, choque, cacurí e matapí, confeccionados, em sua maioria, com matérias-primas extraídas da natureza e baseados em conhecimentos transmitidos entre gerações. Os relatos revelam preocupações relacionadas à diminuição dos estoques pesqueiros, ao uso de técnicas predatórias por pescadores externos e ao desinteresse das gerações mais jovens pela continuidade dos conhecimentos tradicionais. Conclui-se que a pesca artesanal representa não apenas uma fonte de alimentação e renda, mas também um importante patrimônio cultural da comunidade, sendo fundamental a valorização dos saberes tradicionais para a conservação dos recursos naturais e fortalecimento da identidade quilombola. 
Palavras-chave: técnicas de pesca; apetrechos; povos e comunidades tradicionais; saberes locais.

ABSTRACT
Artisanal fishing is an important economic, food, and cultural activity for traditional communities in the Amazon. This study analyzes the fishing gear and techniques used by residents of the Quilombola Community of Nossa Senhora do Livramento, located in the municipality of Igarapé-Açu, Pará, highlighting the traditional knowledge involved in the management of fishery resources and its relationship with environmental conservation. The research was developed using a qualitative approach with ethnographic characteristics, employing field observation, photographic records, and semi-structured interviews with fishermen from the community. The results show the use of various artisanal fishing gear, such as fishing rods, gillnets, snare poles, floats, longlines, spears, electric shocks, traps, and matapí (fishing nets), mostly made from raw materials extracted from nature and based on knowledge transmitted between generations. The accounts reveal concerns related to the decline in fish stocks, the use of predatory techniques by external fishermen, and the disinterest of younger generations in the continuity of traditional knowledge. It is concluded that artisanal fishing represents not only a source of food and income, but also an important cultural heritage of the community, making the appreciation of traditional knowledge fundamental for the conservation of natural resources and the strengthening of Quilombola identity.
Keywords: fishing techniques; fishing gear; traditional peoples and communities; local knowledge.

1. INTRODUÇÃO

As populações tradicionais amazônicas mantêm uma estreita relação com os recursos naturais, desenvolvendo práticas produtivas fundamentadas em conhecimentos construídos e transmitidos ao longo de gerações. Entre essas atividades, destaca-se a pesca artesanal, ocupação que desempenha papel fundamental na segurança alimentar, na geração de renda e na preservação da identidade cultural de comunidades ribeirinhas, quilombolas e demais grupos tradicionais. Barreto et al. (2023) ressaltam a pesca artesanal como uma atividade de suma relevância no Brasil e na Amazônia, principalmente por sua fonte de geração de renda e subsistência. Silva (2004) também afirma que a pesca artesanal está presente em quase todas as populações que vivem, desde a costa do mar até as margens dos rios e lagos do interior da Amazônia. Na Comunidade Quilombola Nossa Senhora do Livramento, localizada no município de Igarapé-Açu, no estado do Pará, a pesca artesanal ainda se configura como uma importante estratégia de subsistência alimentar e econômica. Os moradores empregam diversos instrumentos e técnicas tradicionais desenvolvidos a partir dos saberes herdados de seus antepassados e adaptados às características ambientais do rio Maracanã, principal curso d’água da localidade.

A importância desta pesquisa reside na valorização dos conhecimentos tradicionais relacionados à atividade pesqueira, reconhecendo-os como patrimônio cultural e como relevante estratégia de manejo sustentável dos recursos aquáticos. Além disso, o estudo contribui para a compreensão das transformações socioambientais que vêm influenciando o modo de vida dos moradores e suas atividades produtivas ancestrais.

Dessa maneira, este trabalho tem como objetivo analisar os apetrechos e as técnicas de captura utilizados pelos pescadores da Comunidade Quilombola Nossa Senhora do Livramento, identificando suas contribuições para a alimentação doméstica e para a conservação dos recursos naturais. De forma específica, procura reconhecer os principais equipamentos empregados na atividade pesqueira; descrever as práticas tradicionais associadas à pesca artesanal; compreender os conhecimentos transmitidos entre gerações; e examinar as percepções dos pescadores acerca das alterações ocorridas nos estoques pesqueiros e na própria atividade ao longo do tempo.

Para atingir esses propósitos, o estudo está organizado em cinco seções principais. Inicialmente, apresenta-se o referencial teórico que subsidia as discussões sobre pesca artesanal, conhecimentos tradicionais e sustentabilidade. Em seguida, são detalhados os procedimentos metodológicos adotados na investigação. Na terceira seção, descrevem-se os apetrechos e os métodos de pesca identificados na comunidade. Posteriormente, são apresentados e analisados os resultados obtidos por meio das observações de campo e dos depoimentos coletados junto aos participantes. Por fim, são expostas as considerações finais, ressaltando as principais conclusões da pesquisa e suas contribuições para o reconhecimento dos saberes tradicionais e para a preservação dos recursos pesqueiros.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

A pesca artesanal representa uma atividade histórica para inúmeras populações tradicionais brasileiras, especialmente na região amazônica, onde os recursos pesqueiros constituem importante fonte de alimento e geração de renda. Pesquisas desenvolvidas por Veríssimo (1985), Silva (2020), Serrão et al. (2022) e Barreto et al. (2023) evidenciam a relevância do pescado para a subsistência de comunidades tradicionais, bem como a diversidade de métodos e instrumentos empregados na captura dos peixes.

De acordo com Diegues (1983; 2008), as populações tradicionais desenvolvem formas particulares de manejo dos recursos naturais fundamentadas na observação dos ciclos ecológicos e na transmissão intergeracional dos saberes. Essas ações favorecem o uso sustentável dos bens naturais disponíveis e contribuem para a conservação dos ecossistemas.

Nesse cenário, os conhecimentos tradicionais constituem elementos essenciais para a organização das atividades produtivas. Os saberes acumulados ao longo do tempo permitem identificar períodos adequados para a atividade pesqueira, tipos de iscas, áreas mais produtivas e modalidades de captura compatíveis com a preservação dos ambientes aquáticos.

Mauss (1950) destaca a importância das chamadas “técnicas do corpo”, compreendidas como práticas socialmente aprendidas e transmitidas culturalmente. Para o autor, o corpo humano é o primeiro instrumento técnico utilizado pelo ser humano, sendo indispensável para a realização de atividades laborais, entre elas a pesca artesanal.

Dessa forma, com base no levantamento bibliográfico realizado, que possibilitou a identificação de modalidades, procedimentos e artefatos utilizados na pesca e que serviu de suporte para a coleta das informações em campo, serão apresentados os apetrechos e os métodos de captura empregados pelos pescadores do Livramento, considerando suas especificidades. Grande parte desses utensílios é confeccionada pelos próprios trabalhadores da pesca com matérias-primas extraídas do meio natural, enquanto as formas de pescar resultam de conhecimentos herdados de seus ancestrais. Assim, tais práticas têm como finalidade contribuir para a conservação da biodiversidade existente no rio Maracanã e assegurar a continuidade de uma tradição cultural transmitida ao longo de sucessivas gerações.

3. METODOLOGIA

Este estudo caracterizou-se por uma abordagem qualitativa, utilizando o método de estudo de caso com inspiração etnográfica, por se tratar de uma estratégia metodológica adequada à compreensão dos saberes tradicionais relacionados às atividades pesqueiras na Comunidade Quilombola Nossa Senhora do Livramento. A perspectiva qualitativa busca interpretar fenômenos sociais a partir das percepções, vivências e significados atribuídos pelos indivíduos em seus contextos socioculturais. Nesse sentido, Bogdan e Biklen (1994) afirmam que a pesquisa qualitativa constitui, acima de tudo, um “conjunto aberto de asserções, conceitos ou proposições logicamente relacionados que orientam o pensamento e a investigação”.

Tomaram parte da investigação pescadores da comunidade com idades entre 35 e 69 anos, especialmente aqueles reconhecidos pelos próprios moradores como detentores de conhecimentos ancestrais vinculados à pesca artesanal. A escolha dos colaboradores ocorreu de forma intencional, considerando a trajetória acumulada, a participação na atividade pesqueira e a importância de seus saberes para o alcance dos objetivos do estudo.

Assim, o universo amostral foi delimitado a indivíduos que possuem amplo domínio sobre as práticas de captura, os instrumentos utilizados, os métodos empregados e os processos de transmissão dos conhecimentos tradicionais entre diferentes gerações, contribuindo de maneira significativa para a compreensão da dinâmica sociocultural local. (Figura 1).

Figura 1. Participantes da pesquisa

PARTICIPANTES DA PESQUISA

Sujeitos

Quantidade

Idade

Homens

02

35 e 50

Homens

02

60 e 69

Fonte: dos autores (2026)

A obtenção das informações ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas, elaboradas a partir de um roteiro de perguntas construído com base nos objetivos da investigação e no referencial teórico consultado. As entrevistas foram aplicadas junto aos moradores e pescadores da Comunidade Quilombola Nossa Senhora do Livramento e, mediante autorização dos colaboradores, foram gravadas e posteriormente transcritas para interpretação. Além das entrevistas, recorreu-se à observação direta das práticas pesqueiras desenvolvidas na comunidade, possibilitando o acompanhamento das atividades cotidianas e o registro fotográfico dos instrumentos empregados pelos pescadores. Essa estratégia favoreceu uma compreensão mais abrangente dos métodos utilizados e da relação estabelecida entre os moradores e os recursos naturais existentes no território.

As informações coletadas foram examinadas por meio da técnica de análise de conteúdo, buscando identificar categorias temáticas relacionadas aos apetrechos e métodos de captura, aos conhecimentos tradicionais, às questões ambientais e aos mecanismos de transmissão de saberes entre as gerações. O procedimento analítico permitiu compreender as percepções dos participantes acerca das mudanças ocorridas na atividade pesqueira e dos desafios enfrentados para a preservação dessa prática cultural.

Cabe ressaltar que todos os participantes foram devidamente informados sobre o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o qual foi assinado de forma voluntária. Ademais, visando assegurar o sigilo das informações fornecidas, cada colaborador recebeu uma identificação numérica, garantindo o anonimato de seus relatos. Nesse sentido, no que se refere aos aspectos éticos, esta pesquisa está em conformidade com o artigo 3º e seus parágrafos da Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016, que estabelece os princípios éticos aplicáveis às pesquisas nas Ciências Humanas e Sociais.

4. APETRECHOS E TÉCNICAS DE PESCA

Caniço - Trata-se de um apetrecho simples, composto por uma vara de madeira flexível, geralmente confeccionada a partir do bambu ou da carniceira, com comprimento aproximado entre 1,5 e 2,5 metros. Em sua extremidade é fixada uma linha de náilon contendo um anzol, utilizado para a colocação da isca e a captura dos peixes.

Apesar de sua estrutura simples, o uso desse instrumento requer experiência, habilidade e domínio de técnicas específicas para que a pescaria seja bem-sucedida. O êxito na captura depende não apenas do apetrecho empregado, mas também dos conhecimentos acumulados pelos pescadores acerca do comportamento dos peixes, das condições ambientais e das estratégias adequadas de manejo, conforme destacado pelo entrevistado:

Figura 1. Caniço

Fonte: dos autores (2026).

“Nesse tipo de pescaria assim como os outros, é preciso saber o local certo pra pescar, devemos ficar em bastante silêncio e de vez em quando dá uma sacudida no caniço para o peixe ver a isca. Também bater na água para acordar o peixe que está dormindo, quando é o Ituí. Com o caniço, pescamos Ituí, Caratinga, Aracu, Mandi e Jacundá. O mais certo pra se pescar de caniço é no Mururé e na beira do rio. Para ter uma boa pescaria é preciso saber também o tipo de isca que o peixe pega. No caso do Itui, do Mandi e da Caratinga, a isca é a minhoca e o bicbo de bola-lagarta. O Piranga gente coloca a isca do peixe sarapó ou tuana como a gente também chama e o Aracú a gente faz a isca do camarão. A pesca de caniço pode ser durante o dia e a noite, mas a pessoa tem que saber, tem que ter macete, por que se o peixe ficar arisco, ele não pega a isca.” (Entrevistado 1).

Nas pescarias de maior porte, destaca-se o uso da Malhadeira, um apetrecho constituído por uma rede de náilon com malhas que variam entre 25 e 30 mm. Sua estrutura é composta por boias fixadas na parte superior, responsáveis por manter a rede flutuando na superfície da água, e por chumbos instalados na parte inferior, que garantem sua fixação e posicionamento no fundo do rio.

A utilização desse instrumento exige dos pescadores conhecimentos específicos relacionados à sua montagem, ao lançamento adequado e às medidas de segurança necessárias para sua instalação e manejo no ambiente aquático. Dessa forma, o uso da malhadeira evidencia não apenas a importância dos apetrechos na atividade pesqueira, mas também o domínio de técnicas tradicionais adquiridas por meio da experiência e transmitidas entre gerações.

Figura 2. Malhadeira

Fonte: dos autores (2026)

“A rede malhadeira nós coloca nas margens do rio, no meio ou no igapó. Essa pesca pode ser feita de noite ou de dia. Podemos colocar a malhadeira de manhã e tirar à tardinha ou tirar só no outro dia. Mas também é necessário a gente saber como colocar para não destruir a casa dos peixes que é o Mururé, coisa que muitas pessoas não têm esse cuidado e saem devastando tudo. Por isso que amarramos as duas pontas em galhos de arvores ou enfincamos um pedaço de pau resistente para amarrar. Deixamos a rede esticada por um dia ou mais, dependendo da quantidade de peixe que se quer pegar. Assim, dependendo do local pegamos Caratinga, Piaba, Aracú, Pescada, Traíra, Ituí. A verdade é que com a malhadeira nós pega todos os tipos de peixe.” (Entrevistado 1)

Outro apetrecho amplamente utilizado pelos moradores da comunidade é o Cabão. Esse instrumento corresponde a um pedaço de madeira conhecido como caranã, ao qual é fixada uma linha de náilon com comprimento que pode variar entre 5 e 20 metros. Em sua extremidade é preso um anzol, utilizado para a colocação da isca e a captura dos peixes. A simplicidade de sua estrutura evidencia o caráter artesanal da atividade pesqueira local e o aproveitamento dos recursos disponíveis no ambiente para a construção dos instrumentos de pesca.

Figura 3. Cabão

Fonte: dos autores (2026)

“O Cambão, professora, é amarrado no galho de uma árvore e a linha de náilon é esticada até o meio do rio, vai até onde a pessoa quiser. Nessa outra ponta da linha que tem o anzol, a gente coloca a isca e a uns 70cm próximo do azol a gente coloca um peso que pode ser uma pedra, pra afundar no meio do rio. Mas essa pedra não pode ser muito perto do anzol para o peixe não se enrolar. Com essa técnica nós pega Arraia e as vezes quando dá, a Piramutaba e o Bagre. Essa pesca é para noite e passa mais ou menos uma hora de tempo pra tirar e colocar novamente. O cambão é usado no verão porque no inverno a maré fica muito grande. Já a boia, são pequenos pedaços de caranã que medem aproximadamente 70cm, na qual é amarrada uma linha com um anzol no meio na madeira.” (Entrevistado 2).

Figura 4. Boia

Fonte: dos autores (2026)

“Para se pegar o peixe com a boia, a gente desenrola a linha da boia e coloca a isca no anzol. Deixa a boia flutuando em cima do Mururé e a linha que agarra o anzol com a isca fica em embaixo da água, esperando o peixe ser capturado. Nessa pesca nós pega Traíra, Piranga e Arraia. Pra pegar esses peixes botamos como isca o Ituí e a piaba rabo de ouro. A pesca com a boia pode ser feita de noite ou de dia. Durante a noite é necessário marcar o Mururé, quebrando os galhos para não perder as boias. A noite a gente usa a lanterna e dia é mais diferente, nem precisa da lanterna e nem sair quebrando o Mururé pra marcar.” (Entrevistado 2).

Segundo o entrevistado, o espinhel, também conhecido localmente como atiradeira, é um dos apetrechos mais utilizados pelos pescadores mais jovens da comunidade. Sua estrutura é composta por uma linha principal, à qual são fixadas diversas linhas secundárias, onde são presos os anzóis utilizados na captura dos peixes. A utilização desse instrumento permite ampliar a área de pesca e aumentar as possibilidades de captura, sendo amplamente empregado nas atividades pesqueiras desenvolvidas na região.

Figura 5. Espinhel ou Atiradeira

Fonte: dos autores (2026)

“A atiradeira é colocada as margens do rio, sendo amarrada em galho de árvores e no igapó são amarradas em varas. Assim, a linha mãe que segura os anzóis fica esticada e as filhas ficam dependuradas com o anzol flutuando em cima da água. A gente deixa ela lá e fica esperando. De uma em uma hora, que é o tempo dos peixes baterem pra gente dá uma olhada. Mas a melhor época de pescar com a atiradeira é no inverno. Pode ser usada tanto de dia quanto de noite. Toda pescaria da noite é preciso usar a lanterna. O peixe que se pesca durante o dia é a Paboca e o Aracú, com isca de fruta preta e bicho de bola e a noite a gente pega o Anunja, Traira, Pacamúm, Mandi, Jijú, Tambaquí e o Jundiá, com a isca da minhoca e da piaba rabo de ouro. Ainda há a fisga simples, que concebe um cabo feito da madeira acapú, com três hartes de ferro vergalhão na ponta que serve para ferrar/fisgar o peixe.” (Entrevistado - 2)

Figura 6. Fisga simples

Fonte: dos autores (2026)

“Hoje em dia, essa fisga já é mais difícil a gente usar, porque o peixe está escasso. Era usada quando ainda tinha muita fartura no rio, pois não precisavam mergulhar, era só mirar pra não errar e fisgar de dentro da canoa. Essa pesca é boa para que sabe, porque não destrói a natureza, mais é preciso ter experiência, calma pra saber o momento certo de fisgar. Não é qualquer caboco que acerta o peixe. Porque a gente se preocupa de pegar o peixe e não deixar ele escapar ferido pra morrer depois. Quando tinha muito peixe a gente pegava mais a Caratinga. Mas tem a outra pescaria com a fisga de óculos de mergulho que é o povo de fora que vem pescar.” (Entrevistado 2)

Com finalidade semelhante, destaca-se a fisga associada ao uso de óculos de mergulho, utilizada pelos pescadores na captura de peixes. Esse apetrecho é confeccionado a partir de um pedaço de madeira de acapú, ao qual é acoplada uma liga elástica responsável pelo mecanismo de disparo da fisga. Em sua extremidade, são fixadas três hastes de ferro vergalhão, destinadas à perfuração e retenção dos peixes durante a captura.

Figura 7. Fisga com óculos de mergulho

Fonte: dos autores (2026)

“Esse material não é usado por nós daqui da comunidade, porque prejudica os peixes e a gente acha perigo até pra nós, porque pode acontecer um acidente. O povo de fora traz esse material completo, óculos, pé de pato, fisga e lanterna. Passam a noite toda mergulhando e destruindo as casas dos peixes e ferrando os peixes de todo tamanho. Mata os pais e os filhos. Tudo isso vai fazendo com que o peixe suma, diminua. Porque, como é que o peixe vai filhar? se mata a mãe. Pra falar a verdade, eles matam é tudo, se der não deixam nada, não se contentam com pouco, é muita perseguição. E quem sofre as consequências é nós. Os peixes que eles ferram na fisga é o Tucunaré, a Caratinga, a Traíra e o Aracu. Nessa pesca vão dois mergulhadores no fundo do rio fisgar o peixe e dois na canoa tirando o peixe da fisga. Outra pesca que a gente não faz mais aqui é com a rede de arrasto. Antigamente fazia, mais depois da proibição não fazemos mais, mais o povo de fora é danado, não adianta nem a gente falar. Essa rede de arrasto também é uma rede feita de naylon com cortiça em cima e chumbada em baixo, que joga no Mururé e sai puxando, então tudo que tem lá vem na rede. Mas não usamos porque temos a preocupação com os peixes pequenos e a casa deles. Mas o povo de fora não quer nem saber. Professora, tem também as armadilhas de pesca que o pessoal mais antigo usa, o choque, o cacurí e o matapí.”, eles vão lhe falar melhor. (Entrevistado 2).

O Choque, também mencionado pelos pescadores como um importante apetrecho utilizado na atividade pesqueira, apresenta formato semelhante ao de um cesto, sendo localmente conhecido como socó. Sua confecção é realizada artesanalmente com varas de murta, unidas por meio de amarrações feitas com cipó de timbó-açu. Assim como outros instrumentos empregados na pesca tradicional da comunidade, o Choque evidencia o aproveitamento dos recursos naturais disponíveis no ambiente e os conhecimentos técnicos transmitidos entre gerações de pescadores.

Figura 8. Choque

Fonte: dos autores (2026)

“Na pescaria com o choque, a gente entrar no campo alagado até a altura da perna, segurando o choque pela parte de cima e vai mergulhando ele com firmeza até tocar o fundo, quando a gente sente o peixe tremer no choque, é quando o peixe foi capturado. Aí é quando a gente mete a mão pela parte de cima, que ficou fora da água e pega o peixe que foi capturado, as vezes vem Traíra, Cará, Piaba, todo tipo de peixe. Só dá pra pescar com o choque quando água está baixa, por isso que tem que ser no verão. Só que agora está mais difícil de pegar o peixe com o Choque, porque o problema é o que a gente vem dizendo, é a falta do peixe. Antigamente a gente pegava muita Caratinga, Traira, e Jiju, hoje ainda pega, mais é pouco.” (entrevistado 3).

De acordo com o entrevistado 3, o Cacuri configura-se como uma armadilha de pesca tradicional utilizada pela comunidade. Esse apetrecho é confeccionado artesanalmente com talas de dendê, sendo suas estruturas unidas por meio de amarrações feitas com cipó de timbó- açu. A produção desse instrumento expõe de forma clara o conhecimento dos pescadores sobre os recursos naturais disponíveis no ambiente.

Figura 9. Cacurí

Fonte: dos autores (2026)

“O cacurí que também era muito usado por nós mais antigos, hoje não se usa mais. Esse pequeno serve pra gente pegar piaba, mas também tem o grande de 2 metros que é feito de Bambú e Guarimã, que pega todo tipo de peixe. Agente pode colocar dentro da água no inverno e no verão. Quando a gente coloca pra pegar piaba pra fazer isca, a gente tira logo, mais quando é o grande pra pegar peixe agente deixa até de um dia para o outro, porque o peixe entra, fica preso e não morre, porque fica na água. Mais pra lhe falar certo, que não vou mentir, só os mais velhos que ainda usa o cacurizinho, os mais jovens querem as coisas mais rápidas, com menos trabalho e mais fácil, por isso usam as malhadeiras mal colocadas e as redes de arrasto lanciando, mas eles mal sabe que do jeito deles estão acabando com a vida na água, com o nosso pai.” (Entrevistado 3).

“O que o amigo está falando é verdade, tudo está mudando, a gente precisa ficar atento com tudo, até com o tempo da espera pra retirada dos peixes. Os peixes estão mudando até de lugar, mas a gente que passa o dia no rio vai aprendendo com eles também, porque a gente vai percebendo as coisas. A garotada jovem não quer mais saber das coisas de antigamente. Haa minha irmã! pergunte pro meu filho como ele pesca, pergunte se ele se está preocupado com alguma coisa, não quer nem saber, e se eu for falar, ainda diz que é besteira. É desse jeito, não querem escutar a gente, não tão nem aí pro futuro, a gente que se vire. E falando do Cacurí tem gente que também faz do Guarimã ou da Paxiúba. No inverno nós coloca nas valas que fica nas entradas do igapó e olha de um dia para o outro, pega a Traitra, Jijú, Caratinga. E é como o matapí, fica dentro da água”. (Entrevistado 4).

Com finalidade semelhante à do Cacuri, o Matapi também se configura como uma armadilha tradicional utilizada na atividade pesqueira da comunidade. Sua confecção é realizada artesanalmente a partir de talas de guarimã ou tucumã, com amarrações feitas pelos cipós de timbó-açu ou o tracuá.

Figura 10. Matapí

Fonte: dos autores (2026)

“O Matapí é parecido um funil e serve pra pegar camarão. Nós coloca na beira do rio e amarrava com uma corda em uma rama ou galho de arvore pequena. Dendro do Matapí nós coloca a isca que é o coco raspado ou a mandioca picada. Deixa dentro da água e pode olhar com 12 ou 24 horas. A hora pra olhar é de acordo com o desejo da pessoa. Pois o camarão não morre, fica na água conservando.” (Entrevistado 4).

Diante dos discursos dos entrevistados, compreende-se que as modalidades de pesca utilizadas pela comunidade são caracterizadas pelo emprego de apetrechos de tecnologia simples, produzidos artesanalmente e manuseados com habilidade por aqueles que mantêm uma estreita relação com a natureza. Trata-se de sujeitos que utilizam o próprio corpo como principal instrumento de trabalho, manipulando seus equipamentos por meio de técnicas tradicionais construídas e aperfeiçoadas ao longo de gerações.

Essa prática expressa a sensibilidade corporal e o conhecimento adquirido na interação cotidiana com o ambiente, permitindo aos pescadores utilizar seus instrumentos de forma eficiente na busca pelos resultados esperados. Nesse sentido, o ato de pescar transcende a simples execução de uma atividade produtiva, constituindo-se como um saber incorporado, transmitido socialmente e reproduzido por meio da experiência e da observação.

Dessa forma, ao refletir sobre a relação entre o corpo, a técnica e os objetos utilizados nas atividades humanas, especialmente no que se refere ao ato de fazer, aprender e transmitir conhecimentos, Mauss (1950, p. 407) apresenta a seguinte interpretação:

Chamo técnica um ato tradicional eficaz (e vejam que nisso não difere do ato mágico, religioso, simbólico). Ele precisa ser tradicional e eficaz. Não há técnica e não há transmissão se não houver tradição. Eis em que o homem se distingue antes de tudo dos animais: pela transmissão de suas técnicas e muito provavelmente por sua transmissão oral. [...] Nessas condições, cabe dizer simplesmente: estamos lidando com técnicas do corpo. O corpo é o primeiro e o mais natural instrumento do homem. Ou, mais exatamente, sem falar de instrumento: o primeiro e o mais natural objeto técnico, e ao mesmo tempo meio técnico, do homem, é seu corpo (Mauss, 1950, p. 407).

Além da relevante contribuição do autor ao destacar o papel do corpo nas práticas de pesca, compreendendo-o como um conjunto de técnicas corporais e considerando-o o primeiro instrumento e objeto técnico do ser humano, é importante ressaltar que o manejo da pesca na comunidade está fundamentado em uma cultura tradicional. Essa prática é sustentada por conhecimentos empíricos e saberes acumulados ao longo de gerações, transmitidos pelos membros mais antigos da comunidade. Tais conhecimentos orientam as atividades pesqueiras de modo a promover o uso responsável dos recursos naturais, pautado no respeito aos ciclos da natureza e na busca pela sustentabilidade ambiental, econômica e cultural da atividade.

No que se refere à forma como os pescadores mais antigos da comunidade do Livramento desenvolvem suas atividades produtivas por meio da pesca, Diegues (2008) destaca que as populações tradicionais possuem características particulares decorrentes de sua estreita relação com a natureza e seus ciclos. Segundo o autor, essas populações têm como base produtiva o trabalho realizado pela própria comunidade, utilizando técnicas sustentáveis que consideram a disponibilidade dos recursos naturais existentes em determinado ambiente. Dessa forma, suas práticas buscam respeitar, adaptar-se e, quando necessário, manejar os ciclos naturais de maneira equilibrada.

Diegues (2008) também ressalta que um dos aspectos fundamentais para a identificação de comunidades tradicionais está relacionado à forma como seus integrantes gerenciam os recursos naturais, respeitando os limites de renovação dos ecossistemas e considerando os ciclos da natureza em suas atividades produtivas. Esse modelo de manejo, além de apresentar viabilidade econômica para a subsistência das famílias, constitui-se como um importante patrimônio cultural, sustentado por conhecimentos e práticas transmitidos entre gerações por meio da tradição oral e das experiências compartilhadas pelos antepassados da comunidade.

Diante do exposto, das observações realizadas em campo e dos relatos dos entrevistados, compreende-se que os saberes tradicionais estão diretamente relacionados aos modos de vida, à territorialidade e às funções desempenhadas por cada grupo social. Esses conhecimentos não são transmitidos de forma rígida ou prescritiva, mas são construídos e reconstruídos continuamente por meio das experiências cotidianas e dos processos de ressignificação vivenciados pelos sujeitos.

Nesse contexto, as práticas diárias desenvolvem-se de maneira dinâmica, acompanhando as transformações sociais, ambientais e culturais da comunidade. Os indivíduos adaptam-se e reorganizam suas atividades conforme suas necessidades, adquirindo conhecimentos que lhes permitem compreender, interpretar e responder às mudanças observadas em seu cotidiano. Tal realidade pode ser evidenciada na fala do entrevistado: “Professora, a situação aqui de alimento do peixe não está boa. A gente está passando até mais dias sem ir pescar, nem adianta ir como antes, com toda essa falta de peixe. Aonde você era costumado ir e tinha muito peixe agora não tem mais nada, o peixe está afugentando. O problema também é que que pessoas de fora trazem materiais de pesca melhores que os nossos, que muitas fezes pegam mais peixe e mais rápido, pois os nossos materiais é feito por nós mesmos, pois foi o que nós aprendemos com os nossos pais, irmãos tios, sempre com alguém da família que a gente pescava desde criança. Tem muita gente aqui que gosta mesmo de fazer o seu próprio material de pescar e outros é porque não pode comprar. Outra situação que deixa a gente um pouco insatisfeito, que deixa a gente ficar por baixo, é sobre a nossa embarcação que a gente tem pra pescar, que é muito simples.” (entrevistado 1)

Figura 11. Canoa pequena

Fonte: dos autores (2026)

“As nossas canoas são pequenas e esse povo de fora quando não vem de lanchas, trazem os motores pra colocar nas canoas deles que são grandes e ficam atracadas aqui no rio. Esses motores eles colocam nas canoas maiores pra ficarem rabetas, aí correm o rio rapidinho colocando as redes.” (entrevistado 1)

Figura 12. Motor

Fonte: dos autores (2026)

Figura 13. Canoa grande

Fonte: dos autores (2026)

Essas canoas coloridas e maiores que estão nas correntes é tudo do povo de fora. Só sei dizer que nós fica em desvantagem. Em quando a gente rema um quilometro procurando peixe, eles corre o rio todinho”. (Entrevistado 1).

Observou-se que a atividade pesqueira desenvolvida na comunidade é caracterizada pelo baixo nível de tecnologia empregada. Os apetrechos utilizados são, em sua maioria, confeccionados pelos próprios pescadores, a partir de matérias-primas extraídas da natureza e de técnicas tradicionais que buscam respeitar a conservação dos recursos pesqueiros. Conforme evidenciado nos relatos dos participantes, existe uma grande preocupação com a preservação da saúde do rio, uma vez que, apesar da redução na quantidade de peixes observada nos últimos anos, a pesca continua desempenhando papel fundamental na segurança alimentar e na subsistência das famílias da comunidade. “Eu tenho cuidado na hora de pescar para não destruir a casa dos peixes e sempre procuro retirar do rio só o que a minha família precisa pra não ter estrago. Desde criança comecei a ir para o rio com o meu pai e fui aprendendo a pescar, fazer o meu material de pesca e a cuidar do rio. Nós aqui da comunidade é que temos que cuidar do nosso rio que chamamos de pai velho, até o meu filho me chama pra pescar no rio. Ele já está indo comigo em algumas pescarias e gosta muito. Isso que que faço com o meu filho eu aprendi com a minha família. Esse rio foi pai de muita gente e ainda é nosso pai.”

(Entrevistado 1).

Além da preocupação demonstrada pelos pescadores em relação aos impactos causados aos recursos naturais da comunidade, especialmente ao rio Maracanã, por eles denominado Livramento, torna-se evidente também, um sentimento de angústia diante da redução do número de pescadores na localidade. Segundo os relatos, tanto a quantidade de peixes quanto de pescadores vem diminuindo gradativamente, em decorrência das alterações ambientais que afetam diretamente a sustentabilidade das famílias que dependem da pesca. Essa realidade tem levado muitos pais de família a buscar outras formas de trabalho para suprir suas necessidades básicas.

Apesar dessas dificuldades, os moradores mais antigos continuam exercendo a atividade pesqueira, empenhando-se em manter viva uma tradição que atravessa gerações. Essa prática é sustentada pelas experiências cotidianas, pela estreita relação com o ambiente em que vivem e pelos conhecimentos tradicionais transmitidos por seus antepassados, constituindo um importante patrimônio cultural da comunidade. “Eu sei que muitas coisas estão mudando, as vezes falo que antigamente algumas coisas eram mais difíceis, mais o peixe era farto, hoje está tudo mais escasso, por isso sempre procuro conversar com os meus netos sobre o que aprendemos com os nossos pais e avós, o conhecimento que nós temos, de pesca, de plantio e outas coisas, tudo foi repassado pelos mais velhos. É muito importante a gente passar esse conhecimento para os mais jovens, para que não se acabe a nossa cultura, mais infelizmente eles parecem não querer escutar a gente.” (entrevistado 3).

Como podemos visualizar nas falas dos entrevistados, parecem nos remeter cuidados e angústia devido as incertezas quanto a sustentabilidade dos recursos naturais da comunidade, principalmente do rio Maracanã, onde é extraído o peixe, um alimento essencial ao sustento familiar e a geração de renda. Ainda temem a perda de uma identidade cultural que mantem a tradição da pesca repassada através das gerações.

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados demonstraram que a pesca artesanal na comunidade é realizada por meio de diversos apetrechos confeccionados artesanalmente, utilizando materiais extraídos da própria natureza. Entre os instrumentos identificados destacam-se o caniço, a malhadeira, o cambão, a boia, o espinhel (atiradeira), a fisga simples, o choque, o cacurí e o matapí. Cada apetrecho possui características específicas e é utilizado conforme as condições ambientais, os tipos de peixes desejados e os conhecimentos adquiridos pelos pescadores.

Observou-se que a escolha das técnicas de pesca envolve amplo conhecimento sobre os hábitos dos peixes, horários apropriados, os tipos de isca e os locais mais adequados para a captura. Esses conhecimentos são transmitidos principalmente por familiares, fortalecendo a identidade cultural da comunidade.

Os entrevistados destacaram a preocupação com a diminuição dos peixes no rio Maracanã, associando esse processo ao uso de técnicas consideradas predatórias, como a pesca com fisga de mergulho e redes de arrasto utilizadas por pescadores externos à comunidade.

Outro aspecto relevante refere-se à diminuição do interesse dos jovens pelos conhecimentos tradicionais. Segundo os relatos, muitos preferem técnicas mais rápidas e menos trabalhosas, o que pode comprometer a continuidade dos saberes ancestrais.

As falas dos participantes revelam uma forte relação simbólica com o rio, frequentemente denominado "Pai Velho", demonstrando a importância cultural e afetiva desse ambiente para a comunidade.

Os resultados corroboram as discussões de Diegues (2008), ao evidenciarem que as populações tradicionais desenvolvem formas de manejo baseadas no respeito aos ciclos naturais e na utilização sustentável dos recursos disponíveis.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa permitiu compreender que os apetrechos e as técnicas de pesca utilizados pela Comunidade Quilombola Nossa Senhora do Livramento representam muito mais do que instrumentos destinados à captura de peixes. Constituem conhecimentos tradicionais construídos historicamente e transmitidos entre gerações, desempenhando papel fundamental na segurança alimentar, na geração de renda e na preservação da identidade cultural da comunidade.

Verificou-se que os pescadores utilizam tecnologias simples e artesanais, produzidas a partir de recursos naturais locais, demonstrando profundo conhecimento sobre o ambiente em que vivem. Esses saberes contribuem para práticas de pesca mais sustentáveis e compatíveis com a conservação dos recursos naturais.

Entretanto, a pesquisa também evidenciou desafios relacionados à redução dos estoques pesqueiros, à presença de técnicas predatórias utilizadas por pescadores externos e ao enfraquecimento da transmissão dos conhecimentos tradicionais para as novas gerações.

Portanto, torna-se fundamental a implementação de ações voltadas à valorização dos saberes tradicionais, à proteção dos recursos naturais e ao fortalecimento das práticas culturais da comunidade, garantindo a continuidade da pesca artesanal como elemento essencial para a sustentabilidade social, econômica e ambiental do território quilombola.

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VERÍSSIMO, J. A pesca na Amazônia. Belém: Universidade Federal do Pará, 1985.


1 Mestra em Estudos Antrópicos na Amazônia – Programa de Pós-graduação em Estudos Antrópicos na Amazônia-PPGEAA – Universidade Federal do Pará - UFPA. Professora, Ma. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Doutor em Ciências Sociais/Antropologia. Docente Permanente Externo no Programa de Pós- Graduação em Estudos Antrópicos na Amazônia/UFPA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8450-8060