REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790653928
RESUMO
A paixão e o amor constituem-se na relação com outra pessoa, mas não se limitam às características objetivas daquele que se ama. Ao investir afetivamente no outro, o sujeito mobiliza fantasias, expectativas, identificações, experiências anteriores e necessidades de reconhecimento. Este artigo propõe uma reflexão sobre a construção psíquica idealizada do objeto amoroso, buscando compreender como a pessoa amada ocupa, na realidade psíquica, um lugar que ultrapassa suas características. Fundamentado prioritariamente na teoria psicanalítica de Sigmund Freud, o estudo estabelece interlocuções com Jacques Lacan, quanto à dimensão imaginária e à relação do Eu com a imagem e a exterioridade, e com Donald Winnicott, acerca da espontaneidade, do verdadeiro e falso self e da experiência de si. Metodologicamente, caracteriza-se como ensaio teórico articulado a uma vinheta clínica ficcionalizada, utilizada para aproximar conceitos e experiência subjetiva. Discute-se a paixão como experiência na qual o investimento libidinal e a idealização podem adquirir intensidade, aproximando o objeto de expectativas, necessidades e ideais do sujeito. Considera-se que a experiência amorosa pode envolver a construção de uma representação do outro que participa do reconhecimento de si. Na ruptura, o sofrimento pode envolver a perda da pessoa, mas também a perda daquilo que ela passou a representar e de uma imagem de si sustentada no vínculo. Nessa perspectiva, a psicoterapia pode favorecer a elaboração da perda, a diferenciação entre o objeto e aquilo que ele representa e a reorganização dos investimentos psíquicos, possibilitando a reintegração à experiência de si de aspectos anteriormente concentrados no vínculo.
Palavras-chave: paixão; idealização; psicanálise.
ABSTRACT
Passion and love are constituted through relationships with others, but are not limited to the objective characteristics of the person who is loved. In affectively investing in the other, the subject mobilizes fantasies, expectations, identifications, previous experiences, and needs for recognition. This article reflects on the idealized psychic construction of the love object, seeking to understand how the loved person occupies, within psychic reality, a position that goes beyond their concrete characteristics. Grounded primarily in Sigmund Freud’s psychoanalytic theory, the study establishes dialogues with Jacques Lacan concerning the imaginary dimension and the relationship of the ego with the image and externality, and with Donald Winnicott regarding spontaneity, the true and false self, and the experience of self. Methodologically, it is characterized as a theoretical essay articulated with a fictionalized clinical vignette, used to bring conceptual discussion closer to subjective experience. Passion is discussed as an experience in which libidinal investment and idealization may acquire particular intensity, bringing the object closer to the subject’s expectations, needs, and ideals. The experience of love may involve constructing a representation of the other that participates in self-recognition. Following a breakup, suffering may involve not only the loss of the person, but also the loss of what that person came to represent and of a self-image sustained within the relationship. From this perspective, psychotherapy may facilitate working through loss, differentiating the object from what it represents, and reorganizing psychic investments, allowing aspects previously concentrated on the relationship to be progressively reintegrated into the experience of self.
Keywords: passion; idealization; psychoanalysis.
1. INTRODUÇÃO
A experiência amorosa acontece na relação com outra pessoa, mas não se esgota naquilo que efetivamente ocorre entre duas pessoas. Entre o outro encontrado na realidade e aquele que passa a ocupar um lugar na realidade psíquica estabelece-se um processo atravessado por desejos, fantasias, identificações, expectativas e experiências construídas ao longo da história afetiva.
O sujeito não chega vazio ao encontro amoroso. Leva consigo formas anteriormente construídas de amar e ser amado, experiências de satisfação e frustração, necessidades de reconhecimento, ideais e expectativas sobre aquilo que uma relação poderá proporcionar. O encontro envolve, portanto, simultaneamente uma pessoa externa, dotada de características próprias, desejos, limites e uma história que lhe pertence, e uma representação psíquica dessa pessoa, construída progressivamente por aquele que a ama.
É nesse espaço entre o outro existente na realidade e sua representação psíquica que se situa a reflexão proposta neste artigo. A pessoa amada permanece alguém externo e independente, mas sua presença pode adquirir significados relacionados a reconhecimento, segurança, pertencimento, desejo, proteção, reparação, possibilidade de futuro ou a características que o próprio sujeito gostaria de possuir ou reconhecer em si.
A expressão “representação idealizada do objeto amoroso” é utilizada neste estudo como formulação teórico-interpretativa, e não como conceito originalmente pertencente à tradição psicanalítica. Trata-se de uma maneira de reunir, para os propósitos desta reflexão, diferentes processos discutidos pelos autores utilizados, permitindo pensar como o objeto amoroso é investido e representado na realidade psíquica.
A paixão constitui uma experiência particularmente fecunda para essa discussão. No apaixonamento, determinadas características da pessoa amada podem adquirir valor especialmente elevado. O outro passa a ocupar maior espaço nos pensamentos e expectativas; sua presença produz intensa satisfação; sua ausência pode produzir inquietação; e possibilidades futuras começam a ser imaginadas a partir da continuidade daquele vínculo.
Esse processo não significa necessariamente que a pessoa apaixonada atribua ao ‘outro’ qualidades que inexistem. A idealização pode operar de maneira mais sutil: determinadas características reais podem ser selecionadas, ampliadas e articuladas às necessidades e aos ideais daquele que ama.
Freud oferece uma importante chave de leitura desse fenômeno em Psicologia das massas e análise do Eu. Ao discutir o enamoramento, afirma que “o objeto é tratado como o próprio Eu” e que uma quantidade maior de libido narcísica pode transbordar para esse objeto (Freud, 1921/2011, p. 71). Em seguida, acrescenta que, em determinadas formas de escolha amorosa, “o objeto serve para substituir um ideal não alcançado do próprio Eu” (Freud, 1921/2011, p. 71).
Essa formulação permite pensar que, em determinadas experiências amorosas, o sujeito pode encontrar no outro não somente uma pessoa que deseja, mas também características relacionadas àquilo que gostaria de ser, possuir ou recuperar. O objeto amoroso passa, assim, a representar algo que se articula ao próprio ideal.
Nesse ponto, paixão, idealização e narcisismo se aproximam. A questão torna-se ainda mais complexa quando se considera que não apenas o outro pode ser idealizado. A própria representação que o sujeito possui de si pode ser modificada pela experiência amorosa.
A contribuição de Jacques Lacan mostra-se pertinente para pensar essa dimensão. Ao discutir o estádio do espelho, Lacan (1949/1998) demonstra que a constituição do Eu envolve uma relação fundamental com a imagem e com uma exterioridade. A imagem oferece ao sujeito uma forma de unidade e participa da maneira como ele passa a reconhecer a si mesmo.
O estádio do espelho não foi formulado como teoria das relações amorosas adultas. Por isso, não se pretende transpor diretamente essa formulação para o campo da experiência amorosa. A contribuição lacaniana é utilizada de maneira delimitada, para pensar como, em determinadas relações, o outro pode participar da imagem que o sujeito constrói e sustenta de si.
Assim, em uma experiência amorosa, a questão pode ultrapassar “eu amo essa pessoa” e envolver também a maneira como o sujeito se reconhece quando é amado por ela. O objeto amoroso pode tornar-se importante tanto por aquilo que representa quanto pela imagem de si que sua presença ajuda a sustentar.
A ruptura de uma relação pode, consequentemente, produzir uma perda em diferentes níveis. Perde-se a pessoa, os projetos construídos em torno dela, aquilo que ela simbolizava e, em determinadas situações, uma representação de si que se encontrava fortemente vinculada ao relacionamento.
A psicoterapia psicodinâmica adquire relevância justamente nesse ponto. Não como recurso destinado simplesmente a ensinar o sujeito a esquecer a pessoa amada, mas como espaço no qual possa compreender aquilo que o objeto passou a representar, reconhecer as dimensões de sua própria história mobilizadas no vínculo e elaborar a diferença entre a pessoa real e a representação construída a seu respeito.
A questão norteadora deste estudo é, portanto: como paixão e amor podem envolver uma representação idealizada do objeto amoroso e de que maneira o processo psicoterapêutico pode favorecer a elaboração, a ressignificação e a reorganização dos investimentos psíquicos envolvidos nessa experiência?
O objetivo geral consiste em analisar, sob uma perspectiva psicodinâmica, a construção idealizada do objeto amoroso e suas relações com a paixão, o amor e o sofrimento decorrente da perda, discutindo a psicoterapia como possibilidade de elaboração e ressignificação.
Especificamente, pretende-se: compreender a relação entre narcisismo, idealização e escolha de objeto; analisar a dimensão imaginária presente na representação do objeto e do próprio Eu; discutir a paixão como experiência de intensificação do investimento libidinal; diferenciar, teoricamente, idealização e reconhecimento da alteridade; compreender a perda amorosa à luz do trabalho de luto; analisar a repetição de padrões relacionais; e discutir a elaboração psicoterapêutica como possibilidade de reorganização dos investimentos psíquicos.
2. METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como ensaio teórico, fundamentado prioritariamente na teoria psicanalítica de Sigmund Freud e estabelecendo interlocuções específicas com as contribuições de Jacques Lacan e Donald Winnicott.
A escolha de Freud como referencial principal decorre da centralidade, para o problema investigado, das noções de narcisismo, escolha de objeto, idealização, investimento libidinal, repetição e luto, além das contribuições sobre elaboração presentes em sua obra.
A contribuição lacaniana é empregada de maneira delimitada, especialmente para aprofundar a dimensão do imaginário, da imagem e da relação do Eu com uma exterioridade. Winnicott, por sua vez, é utilizado como interlocutor na discussão sobre espontaneidade, verdadeiro e falso self e formas de adaptação excessivamente orientadas pelas expectativas do outro.
Essa articulação exige uma ressalva metodológica. Freud, Lacan e Winnicott desenvolveram modelos teóricos distintos e, em vários aspectos, não equivalentes. Não se pretende produzir uma síntese entre suas teorias, mas estabelecer aproximações pontuais em torno do problema investigado, preservando a especificidade conceitual de cada autor.
Foram privilegiadas as seguintes obras: Introdução ao narcisismo (1914), Recordar, repetir e elaborar (1914), Luto e melancolia (1917) e Psicologia das massas e análise do Eu (1921), de Freud; O estádio do espelho como formador da função do eu (1949), de Lacan; e Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self (1960), de Winnicott.
Como recurso de aproximação entre formulação conceitual e experiência subjetiva, utiliza-se uma vinheta clínica ficcionalizada, construída exclusivamente para este artigo. A personagem denominada Clara não corresponde a uma paciente real, e os acontecimentos descritos não têm finalidade diagnóstica. A vinheta funciona como recurso ilustrativo da discussão teórica, permitindo acompanhar como idealização, investimento, perda, repetição e elaboração poderiam se apresentar em uma experiência subjetiva possível.
A discussão foi organizada segundo um percurso conceitual progressivo: representação psíquica, imaginário, narcisismo, idealização, paixão, alteridade, perda, luto, repetição, elaboração, ressignificação e reorganização dos investimentos psíquicos.
3. REFERENCIAL TEÓRICO
A compreensão da paixão e do amor como experiências atravessadas pela representação que o sujeito constrói do outro exige considerar os processos psíquicos envolvidos no investimento amoroso. Nesse sentido, este referencial parte da relação entre o objeto externo e sua representação psíquica e, posteriormente, aborda as noções de imaginário, narcisismo e idealização. A partir de Freud e, de maneira complementar, de Lacan e Winnicott, estabelecem-se as bases para a discussão da paixão, da perda e da elaboração psicoterapêutica.
3.1. Representação Psíquica: Entre o Objeto Externo e Sua Realidade Psíquica
A experiência de uma relação não corresponde apenas aos acontecimentos objetivos que nela ocorrem. Uma pessoa passa também a ocupar um lugar no mundo interno daquele que se relaciona com ela.
Lembranças, expectativas, afetos e fantasias vão sendo associados à sua presença, fazendo com que o objeto externo adquira uma representação psíquica singular. Duas pessoas podem conhecer o mesmo indivíduo e construir representações profundamente diferentes dele, porque aquilo que é percebido se articula também à história daquele que percebe.
Nas relações amorosas, essa dimensão pode adquirir especial intensidade. O parceiro pode ser percebido como alguém protetor, seguro, admirável, desejável ou capaz de oferecer determinada forma de reconhecimento. Essas características podem existir concretamente, mas o significado que recebem depende também daquilo que mobilizam naquele que ama.
A representação psíquica não deve, portanto, ser confundida com falsificação da realidade. Ela participa da própria experiência subjetiva. A questão clinicamente relevante não consiste em perguntar se construímos representações do outro, mas compreender como essas representações são constituídas e que lugar passam a ocupar na economia psíquica.
3.2. O Imaginário: Quando a Imagem do Outro Participa da Imagem de Si
A noção de imaginário permite avançar nessa compreensão.
Em Lacan, o imaginário não corresponde simplesmente ao que é inventado ou irreal. Está relacionado ao campo das imagens, das identificações e da constituição do Eu na relação com uma exterioridade.
No texto O estádio do espelho como formador da função do eu, Lacan define a identificação como “a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem” (Lacan, 1949/1998, p. 97).
O aspecto central dessa formulação, para os propósitos deste artigo, está no reconhecimento de que a imagem possui função constitutiva. Na página seguinte, Lacan observa que a forma total pela qual o sujeito antecipa sua unidade é oferecida numa exterioridade “mais constituinte do que constituída” (Lacan, 1949/1998, p. 98).
Não se pretende transpor diretamente o estádio do espelho para a experiência amorosa adulta. O que se propõe é considerar, a partir da concepção lacaniana do imaginário, que a relação com o outro pode participar da maneira como o sujeito reconhece e sustenta determinada imagem de si.
Em determinadas relações amorosas, o olhar do outro pode adquirir essa função. O desejo da pessoa amada pode fortalecer a sensação de ser desejável; sua admiração pode participar da experiência de possuir valor; sua escolha pode ser vivida como confirmação de características que o sujeito deseja reconhecer em si.
Nesse sentido, a idealização pode envolver duas dimensões relacionadas: a maneira como o outro é percebido e a maneira como o sujeito se percebe na relação com esse outro.
3.3. Narcisismo e Ideais Relacionados Ao Eu
A contribuição freudiana sobre o narcisismo permite compreender por que a imagem de si pode adquirir tamanha importância.
Em Introdução ao narcisismo, Freud analisa a experiência de perfeição associada ao narcisismo infantil e sua relação com a formação de ideais. Segundo o autor:
“O narcisismo aparece deslocado para esse novo Eu ideal, que, como o infantil, se acha de posse de toda preciosa perfeição” (Freud, 1914/2010, p. 40).
Freud acrescenta que o indivíduo não renuncia facilmente à experiência de perfeição anteriormente desfrutada e procura recuperá-la sob a forma de um ideal.
Essa formulação é relevante para compreender determinadas escolhas amorosas. O sujeito pode encontrar no objeto características relacionadas ao que gostaria de ser ou possuir. Pode admirar no outro segurança, beleza, inteligência, liberdade, reconhecimento social, vitalidade ou qualquer outro atributo relacionado ao seu próprio ideal.
Nesse caso, o investimento no objeto envolve também aquilo que ele representa. O objeto pode tornar-se portador de características que participam do ideal do sujeito.
Essa articulação entre narcisismo e escolha amorosa será aprofundada por Freud ao discutir o enamoramento.
3.4. Idealização: Quando o Objeto Se Aproxima do Ideal
A idealização não consiste simplesmente em atribuir ao ‘outro’ características inexistentes. Pode ocorrer de maneira mais sutil: algumas características reais recebem investimento especialmente intenso, determinadas qualidades são ampliadas, incompatibilidades podem ser minimizadas e comportamentos podem ser interpretados a partir da expectativa de continuidade do vínculo.
Em Psicologia das massas e análise do Eu, Freud (1921/2011, p. 71) afirma que, no enamoramento, “o que aí falseia o juízo é o pendor à idealização”.
A formulação não precisa ser compreendida como condenação da paixão. Freud está indicando que o investimento modifica a maneira como o objeto é percebido.
O ponto decisivo aparece quando o autor afirma:
“Em não poucas formas de escolha amorosa torna-se mesmo evidente que o objeto serve para substituir um ideal não alcançado do próprio Eu” (Freud, 1921/2011, p. 71).
O objeto pode, portanto, ser amado também pelas perfeições às quais o próprio sujeito aspirou. Essa formulação aproxima narcisismo, idealização e paixão. Quando o objeto representa aquilo que o sujeito deseja encontrar em si ou para si, sua importância pode ultrapassar as experiências concretas vividas na relação. Ele passa a concentrar significados relacionados à própria história e aos ideais daquele que ama.
4. DISCUSSÃO
A partir desses fundamentos, torna-se possível compreender como tais processos se articulam na experiência amorosa. A discussão parte da paixão e da intensificação do investimento no objeto, examinando como a idealização pode fazer com que a pessoa amada represente também desejos, expectativas e aspectos da própria imagem daquele que ama. Em seguida, abordam-se o reconhecimento da alteridade e os efeitos da ruptura, considerando a perda da pessoa e daquilo que ela passou a representar. As noções de luto, repetição e elaboração permitem, então, discutir a psicoterapia como espaço de ressignificação desses investimentos. A vinheta ficcionalizada de Clara acompanha esse percurso como recurso ilustrativo.
4.1. Da Paixão à Representação Idealizada: O Outro e Aquilo Que Ele Passa a Representar
A paixão acontece na relação com uma pessoa real, mas não permanece restrita às características objetivas dessa pessoa. À medida que o investimento afetivo se intensifica, o outro passa a ocupar um lugar particular na realidade psíquica e a reunir significados relacionados tanto às suas características quanto à história daquele que o ama.
A representação idealizada do objeto amoroso não surge porque o sujeito simplesmente inventa uma pessoa que não existe. Ela se constrói a partir de elementos reais do encontro. Determinadas características do outro são percebidas, valorizadas e investidas porque encontram correspondência em desejos, expectativas, necessidades e ideais daquele que ama. A pessoa permanece real, mas o significado que assume é atravessado pela subjetividade.
A contribuição de Freud é importante para compreender esse movimento. Ao discutir o enamoramento, o autor observa que “o que aí falseia o juízo é o pendor à idealização” (Freud, 1921/2011, p. 71). O investimento amoroso pode interferir na maneira como o objeto é percebido: algumas características ganham especial relevância, enquanto limitações e incompatibilidades podem permanecer temporariamente em segundo plano.
O próprio Freud acrescenta que, em determinadas formas de escolha amorosa, o objeto pode servir para substituir um ideal não alcançado do próprio ‘Eu’ (Freud, 1921/2011, p. 71). A partir dessa formulação, pode-se pensar que algumas pessoas adquirem uma importância que ultrapassa aquilo que objetivamente ocorreu na relação. O sujeito pode reconhecer no ‘outro’ características que gostaria de possuir, experiências que deseja viver ou uma forma de reconhecimento que necessita receber.
A paixão pode, portanto, envolver não apenas o desejo de estar com alguém, mas também o investimento naquilo que essa pessoa passa a representar.
A dimensão imaginária, tal como formulada por Lacan, permite acrescentar outra perspectiva. Se a constituição do Eu envolve uma relação fundamental com a imagem e com uma exterioridade, pode-se considerar que o outro participe, em determinadas experiências, da maneira como o sujeito se reconhece.
Nas relações amorosas, esse processo pode assumir especial intensidade. O olhar da pessoa amada não apenas comunica desejo ou admiração; pode tornar-se também uma referência para a imagem que o sujeito constrói de si. Assim, em determinadas experiências, idealiza-se a pessoa amada, mas também pode adquirir valor especial a imagem que o sujeito acredita sustentar quando está diante dela.
Essa dimensão possui relevância clínica. Em algumas relações, o sujeito não deseja apenas preservar o objeto amoroso; deseja preservar também a experiência de si que aquele vínculo tornou possível.
A vinheta ficcionalizada de Clara permite ilustrar esse processo. Aos 46 anos, ela procura psicoterapia alguns meses após o término de um relacionamento de aproximadamente dois anos. Consegue reconhecer incompatibilidades entre ela e o antigo parceiro, identifica situações nas quais se sentiu frustrada e admite que muitas de suas expectativas não encontravam correspondência naquilo que ele efetivamente podia oferecer. Ainda assim, permanece intensamente ligada à relação.
Nas primeiras sessões, Clara procura compreender principalmente o comportamento do ex-companheiro. Pergunta-se por que ele se afastou, por que mudou, se ainda pensa nela e se existiria alguma possibilidade de reconciliação. O centro de sua narrativa está no outro e na tentativa de encontrar uma explicação capaz de diminuir a angústia produzida pela ruptura.
Com o desenvolvimento do processo psicoterapêutico, entretanto, a questão começa a se modificar. Ao falar sobre aquilo de que sente falta, Clara percebe que não menciona apenas características concretas do antigo parceiro. Fala também da maneira como se sentia quando estava com ele. Sentia-se desejada, mais segura, capaz de construir novos projetos e particularmente valorizada.
A distinção produz uma mudança importante na compreensão de seu sofrimento. Clara não havia perdido apenas uma pessoa. Havia perdido também uma determinada experiência de si construída naquela relação.
O antigo parceiro havia se tornado, em alguma medida, uma referência importante para essa experiência. Ser desejada por ele confirmava sua capacidade de despertar desejo; ser escolhida confirmava sua importância; ser admirada fortalecia características que desejava reconhecer em si mesma. Nesse sentido, o vínculo organizava não apenas sua relação com o parceiro, mas também parte de sua relação consigo mesma.
É nesse ponto que a experiência amorosa pode tocar aspectos narcísicos. A questão deixa de ser somente “eu quero estar com essa pessoa” e pode adquirir, ainda que de maneira pouco consciente, outro significado: “eu preciso continuar sendo vista por essa pessoa para preservar aquilo que consigo reconhecer em mim por meio dela”.
Essa dinâmica não torna a paixão falsa ou necessariamente patológica. O reconhecimento do outro participa da experiência de valor e pertencimento. A questão clínica aparece quando a representação de si se torna excessivamente dependente de um único olhar e quando a pessoa amada passa a concentrar funções que anteriormente estavam distribuídas entre diferentes relações, projetos e fontes de satisfação.
A experiência amorosa pode, então, envolver uma tensão entre a pessoa real e aquilo que o sujeito deseja encontrar nela. À medida que a relação se desenvolve, o outro inevitavelmente apresenta necessidades próprias, limites, contradições e desejos que nem sempre coincidem com os de quem o ama.
Reconhecer essa alteridade implica tolerar alguma frustração e admitir que o outro não existe para preencher integralmente aquilo que falta ao sujeito. Desidealizar, nesse sentido, não significa necessariamente deixar de admirar ou amar. Significa permitir que a pessoa real ocupe progressivamente mais espaço do que a representação construída em torno dela.
Quando isso não acontece, a manutenção da relação pode exigir um esforço crescente para preservar determinada imagem do outro e de si. O sujeito pode adaptar comportamentos, silenciar incômodos ou modificar escolhas para manter o vínculo e o reconhecimento que dele recebe.
É nesse ponto que Winnicott oferece outra contribuição. Ao discutir a relação entre verdadeiro e falso self, afirma que “o gesto espontâneo é o self verdadeiro em ação” (Winnicott, 1960/1983, p. 135). Embora essa formulação não tenha sido desenvolvida especificamente para explicar relações amorosas adultas, ela permite pensar situações nas quais a necessidade de adaptação ao outro começa a comprometer a espontaneidade.
A pergunta “o que eu desejo?” pode, progressivamente, dar lugar a outra: “como preciso ser para continuar sendo desejado?”. Quando isso ocorre, a relação amorosa pode interferir de maneira mais ampla na experiência de si.
4.2. A Perda Amorosa: Luto, Repetição e Aquilo Que a Ausência Revela
A ruptura pode tornar visíveis aspectos que, durante a relação, permaneciam pouco reconhecidos. Enquanto o vínculo se mantém, pode ser difícil distinguir aquilo que pertence à pessoa amada daquilo que foi associado a ela na realidade psíquica. A ausência cria uma separação concreta e pode revelar a extensão dos investimentos construídos em torno do objeto.
No caso de Clara, a perda inicialmente parece simples de definir: ela perdeu o parceiro. Ao longo da psicoterapia, entretanto, percebe que seu sofrimento envolve diferentes dimensões. Perdeu também os projetos que imaginava realizar, uma determinada expectativa de futuro e, principalmente, a experiência de reconhecimento que associava àquela relação.
Esse aspecto ajuda a compreender por que o sofrimento decorrente de uma ruptura não depende apenas do tempo cronológico do relacionamento. A intensidade da perda pode relacionar-se também ao lugar ocupado pelo objeto na realidade psíquica e à quantidade de significados construídos em torno dele.
Em Luto e melancolia, Freud compreende o luto como reação à perda de uma pessoa amada ou de algo que tenha ocupado lugar equivalente. Essa formulação permite pensar que o luto amoroso pode envolver não apenas a ausência da pessoa, mas também a elaboração daquilo que ela representava.
Perdem-se experiências efetivamente vividas, mas também possibilidades que nunca chegaram a se concretizar. Projetos, viagens, formas de convivência, planos e expectativas futuras podem ter adquirido realidade psíquica antes mesmo de existirem concretamente. Quando a relação termina, esses elementos também podem participar da experiência de perda.
Clara percebe que parte importante de sua tristeza não estava relacionada somente ao que havia acontecido, mas ao que acreditava que ainda aconteceria. A relação terminara no presente, mas sua representação incluía um futuro que também precisava ser abandonado ou reconstruído.
Esse processo ajuda a compreender uma experiência frequente nas perdas amorosas: a razão pode reconhecer a ruptura antes que os investimentos afetivos consigam acompanhá-la. O sujeito sabe que terminou, mas continua esperando; compreende que a relação não será retomada, mas ainda imagina possibilidades; reconhece as incompatibilidades, mas permanece emocionalmente vinculado.
O trabalho de luto envolve, assim, a diferença entre reconhecer que algo terminou e conseguir elaborar psiquicamente aquilo que terminou.
A psicoterapia pode também permitir perceber que nem todo o sofrimento está necessariamente relacionado apenas ao vínculo atual. Determinadas experiências podem encontrar correspondência em formas de relação anteriormente construídas.
Clara começa a reconhecer uma regularidade em sua história afetiva. Em diferentes relacionamentos, sente-se especialmente mobilizada quando percebe algum afastamento do parceiro. Quando a relação parece segura, consegue manter relativa tranquilidade. Quando o outro se distancia, seu investimento aumenta, assim como a necessidade de recuperar a proximidade.
A questão terapêutica deixa, então, de se restringir à pergunta “por que ele se afastava?” e passa a incluir outra: “por que o afastamento dele aumentava tanto minha necessidade de aproximação?”.
Essa mudança não transfere para Clara a responsabilidade pelas escolhas do parceiro. Apenas desloca parte da investigação para aquilo sobre o que o processo psicoterapêutico pode efetivamente trabalhar: a maneira como o sujeito vive e significa suas relações.
É nesse contexto que a noção freudiana de repetição adquire importância. Em Recordar, repetir e elaborar, Freud afirma que o analisando:
“não o reproduz como lembrança, mas como ato, ele o repete, naturalmente sem saber que o faz” (Freud, 1914/2010, p. 199-200).
O conceito ajuda a compreender por que determinadas configurações relacionais podem reaparecer sem que sejam conscientemente procuradas. O sujeito não decide repetir experiências de frustração, abandono ou busca de reconhecimento. Entretanto, aquilo que é familiar em sua história psíquica pode reaparecer nas relações presentes e ser vivido como se pertencesse exclusivamente ao encontro atual.
A intensidade de uma paixão pode, portanto, estar relacionada tanto à novidade da pessoa encontrada quanto àquilo que ela mobiliza de experiências anteriores.
Na situação ficcional de Clara, essa dinâmica aparece também na relação terapêutica. Ela demonstra preocupação com a avaliação da terapeuta, pergunta se está “evoluindo como deveria” e, diante de momentos de maior silêncio, questiona se disse algo inadequado.
A necessidade de confirmação que aparecia na relação amorosa passa, assim, a aparecer também na relação terapêutica. A situação permite ilustrar como determinadas formas de se relacionar podem reaparecer no processo psicoterapêutico e tornar-se objeto de reflexão.
O que anteriormente era apenas vivido pode começar a ser reconhecido e pensado. Nesse sentido, a perda, embora dolorosa, pode adquirir outro significado. Ela deixa de representar apenas o encerramento de uma relação e passa a oferecer acesso a aspectos da própria história afetiva que talvez permanecessem pouco conhecidos enquanto o vínculo estava preservado.
4.3. Psicoterapia, Elaboração e Ressignificação: Da Idealização à Reorganização dos Investimentos Psíquicos
Compreender um padrão não significa transformá-lo imediatamente. Essa é uma questão importante para pensar o processo psicoterapêutico de maneira realista.
Clara pode compreender que idealizou determinadas características do parceiro e continuar sentindo falta dele. Pode reconhecer sua necessidade de confirmação e continuar buscando aprovação. Pode perceber a repetição de um padrão relacional e, ainda assim, voltar a experimentá-lo.
Não há contradição nisso. Há uma diferença entre compreensão intelectual e elaboração psíquica.
É justamente essa diferença que Freud procura destacar em Recordar, repetir e elaborar. O trabalho terapêutico não se encerra quando o sujeito consegue nomear determinado conflito ou reconhecer sua origem. É necessário reencontrá-lo em situações diferentes, perceber como se atualiza nas relações e construir gradativamente outras possibilidades de resposta.
A elaboração exige tempo porque os significados não são transformados apenas por uma explicação. Eles precisam ser incorporados à experiência.
É nesse processo que a ideia de ressignificação ganha importância. Ressignificar não significa produzir uma versão mais confortável do passado nem substituir uma narrativa negativa por outra positiva. Significa poder atribuir novos sentidos a uma experiência a partir de uma compreensão mais ampla de sua participação na própria história.
No caso de Clara, uma das mudanças mais importantes ocorre quando consegue diferenciar a pessoa amada daquilo que ela passou a representar.
O antigo parceiro foi efetivamente importante. A relação proporcionou experiências significativas e despertou afetos que não precisam ser desqualificados para que a perda seja elaborada. Entretanto, nem tudo aquilo que Clara experimentava em sua presença pertencia exclusivamente a ele.
Se Clara se sentia desejada quando era desejada por aquele homem, isso não significa que sua capacidade de se reconhecer como desejável dependesse exclusivamente dele. Se passou a construir novos projetos durante a relação, a possibilidade de projetar o futuro não desapareceu necessariamente com o término. Se experimentou maior vitalidade, disponibilidade afetiva ou interesse por determinadas dimensões da vida, essas experiências aconteceram nela, ainda que tenham emergido na relação com o outro.
O parceiro participou dessas experiências, mas participação não significa propriedade.
Essa diferenciação constitui um dos movimentos centrais da ressignificação aqui discutida. Ela permite reconhecer a importância do objeto sem transformá-lo em condição exclusiva para determinadas possibilidades subjetivas.
Ao mesmo tempo, o processo terapêutico pode ajudar o sujeito a não substituir uma idealização positiva por uma representação inteiramente negativa do antigo parceiro. Em algumas rupturas, a pessoa antes considerada extraordinária passa a ser descrita como absolutamente inadequada, egoísta ou desprovida das qualidades anteriormente reconhecidas.
Esse movimento pode adquirir função defensiva, sobretudo nos momentos iniciais de separação. Uma elaboração mais integrada, contudo, envolve a possibilidade de tolerar a ambivalência.
O outro pode ter possuído qualidades genuínas e limitações importantes. A relação pode ter proporcionado satisfação e sofrimento. Pode ter existido amor e idealização, encontro e projeção, proximidade e incompatibilidade.
Reconhecer essas dimensões simultaneamente permite que a pessoa amada seja percebida de maneira menos idealizada e menos desvalorizada.
É nesse contexto que a reorganização da experiência de si pode ser compreendida. Não se trata de retornar ao sujeito que existia antes da relação, como se a experiência pudesse ser apagada. O que pode ocorrer é uma reorganização daquilo que ficou excessivamente dependente do objeto e de seu reconhecimento.
Winnicott contribui para essa compreensão ao valorizar a possibilidade de uma existência mais espontânea e integrada. Se, durante a relação, a pergunta “o que desejo?” foi progressivamente substituída por “o que preciso ser para continuar sendo amado?”, a elaboração pode favorecer o reconhecimento dos próprios desejos, limites, interesses e projetos sem que eles permaneçam integralmente subordinados à expectativa de preservar o vínculo.
Esse movimento não representa isolamento ou autossuficiência. O sujeito permanece relacional e continua necessitando de reconhecimento, afeto e vínculos. O que se transforma é a dependência de um objeto específico como fonte quase exclusiva de determinadas experiências de valor e continuidade.
Pode-se compreender esse movimento como uma reorganização dos investimentos psíquicos. Investimentos antes excessivamente concentrados no objeto podem encontrar outros destinos: o próprio sujeito, amizades, trabalho, interesses, sexualidade, projetos e, eventualmente, novos vínculos amorosos.
Isso não exige retirar o antigo parceiro da história. Exige apenas que ele deixe de ocupar todo o horizonte da experiência psíquica.
A pergunta que inicialmente organizava o sofrimento de Clara — “como posso recuperar aquilo que perdi quando ele foi embora?” — começa, então, a assumir outra forma: “O que eu havia depositado nessa relação que agora posso reconhecer novamente como parte de mim?”.
A mudança desloca a posição do sujeito diante da perda. O objeto deixa de ser percebido como proprietário daquilo que tornou possível determinada experiência de si. Passa a ser reconhecido como alguém que participou de uma experiência significativa, mas não detém exclusivamente aquilo que essa experiência despertou.
É nesse sentido que a psicoterapia pode favorecer a passagem de uma representação idealizada para uma representação mais integrada. O sujeito começa a diferenciar aquilo que o outro efetivamente era, aquilo que passou a representar, aquilo que desejava que fosse e aquilo que ele próprio desejava ser naquela relação.
Essa diferenciação não empobrece o amor vivido. Tampouco transforma a paixão em erro. Permite, ao contrário, compreender sua complexidade.
A pessoa amada recupera sua alteridade, e o sujeito reconhece sua participação naquilo que construiu, desejou e experimentou.
A ressignificação torna-se, assim, menos um exercício de esquecimento e mais um processo de integração. A experiência permanece na história, mas deixa de determinar sozinha o presente. O vínculo pode conservar seu significado sem continuar funcionando como condição exclusiva para a continuidade da vida psíquica.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A reflexão desenvolvida neste artigo partiu da compreensão de que paixão e amor não podem ser compreendidos apenas a partir das características da pessoa amada. O encontro amoroso ocorre com um outro real, mas esse outro passa também a ocupar um lugar na realidade psíquica, recebendo investimentos, expectativas e significados relacionados à história daquele que ama.
A discussão proposta não pretendeu estabelecer um novo conceito psicanalítico, mas utilizar a ideia de representação idealizada do objeto amoroso como formulação teórico-interpretativa capaz de articular diferentes dimensões presentes na experiência amorosa.
Freud permite compreender um movimento fundamental desse processo. O objeto amoroso recebe investimento libidinal e pode aproximar-se dos ideais do próprio sujeito. No enamoramento, essa valorização pode adquirir grande intensidade, a ponto de o objeto, conforme afirma Freud (1921/2011, p. 71), servir para “substituir um ideal não alcançado do próprio Eu”.
A paixão, nessa perspectiva, não é apenas uma experiência dirigida ao outro. Pode envolver também aquilo que o outro representa para o sujeito.
A contribuição de Lacan acrescenta outra dimensão à reflexão. Se a constituição da imagem de si envolve uma relação fundamental com o outro e com a exterioridade, determinadas relações amorosas podem participar da maneira como o sujeito passa a reconhecer a si mesmo. Por essa razão, a idealização pode envolver não somente a pessoa amada, mas também a imagem de quem ama quando é reconhecido, desejado e valorizado por esse outro.
Essa compreensão ajuda a explicar por que determinadas rupturas produzem sofrimento que ultrapassa a ausência concreta do parceiro. A perda pode atingir simultaneamente a pessoa, os projetos construídos em torno dela, aquilo que passou a representar e uma determinada experiência de si sustentada naquele vínculo.
O luto amoroso envolve, portanto, mais do que reconhecer que uma relação terminou. Pode envolver a reorganização dos investimentos e a diferenciação entre aquilo que efetivamente pertencia ao outro e aquilo que foi construído em torno dele.
A psicoterapia psicodinâmica pode contribuir para esse processo justamente porque desloca a investigação da perda para a história dos significados atribuídos a ela. A pergunta deixa de ser exclusivamente “por que essa pessoa se afastou?” e passa a incluir “por que sua presença e sua ausência adquiriram esse significado para mim?”.
Essa mudança não culpabiliza o sujeito pelo sofrimento nem elimina a responsabilidade do outro por seus próprios comportamentos. Apenas amplia a possibilidade de compreender a maneira como a experiência foi subjetivamente construída.
As noções freudianas de repetição e elaboração tornam-se importantes nesse percurso. Determinados padrões relacionais podem reaparecer sem serem conscientemente reconhecidos, fazendo com que experiências atuais sejam investidas também por significados pertencentes à história afetiva. A psicoterapia oferece a possibilidade de transformar aquilo que era apenas repetido em algo que possa ser percebido, pensado e progressivamente elaborado.
Winnicott acrescenta outra dimensão ao permitir considerar o lugar da espontaneidade e da experiência de si. Quando a preservação do vínculo exige adaptação excessiva ao objeto, o sujeito pode começar a organizar escolhas e comportamentos predominantemente em função daquilo que acredita ser necessário para continuar sendo amado. A elaboração pode, nesse caso, favorecer o reconhecimento dos próprios desejos sem que eles permaneçam subordinados à manutenção do reconhecimento do outro.
Não se trata de recuperar exatamente quem se era antes da relação, nem de defender uma autonomia na qual o sujeito já não necessite dos outros. Trata-se de reorganizar aspectos de si que ficaram excessivamente vinculados ao objeto amoroso.
A pessoa amada pode ter despertado experiências importantes, favorecido novas descobertas e participado de um período significativo da vida. Reconhecer isso não significa atribuir-lhe a propriedade dessas experiências.
Essa distinção constitui um dos pontos centrais do processo de ressignificação aqui discutido. O sujeito pode reconhecer que alguém participou da descoberta de sua capacidade de amar sem concluir que somente poderá amar ao lado daquela pessoa. Pode reconhecer que se sentiu desejável naquela relação sem acreditar que apenas aquele olhar poderia confirmá-lo. Pode reconhecer que construiu projetos com alguém sem considerar que a possibilidade de projetar o futuro terminou com a relação.
O objeto deixa, assim, de ocupar exclusivamente o lugar de fonte daquilo que despertou.
A experiência pode ser reintegrada ao sujeito.
Nesse movimento, a representação idealizada não precisa ser destruída, mas transformada. O outro deixa progressivamente de ocupar o lugar de ideal e pode recuperar uma dimensão mais humana, com qualidades, limites e contradições. Da mesma forma, o sujeito pode reconhecer sua participação naquilo que construiu, imaginou e investiu.
A ressignificação psicoterapêutica não consiste, portanto, em concluir que a paixão foi uma ilusão ou que o amor não existiu. Consiste em compreender que a experiência amorosa reúne, em diferentes proporções, encontro e representação, realidade e fantasia, investimento no outro e elementos da própria história.
Tal compreensão permite responder à questão que orientou este artigo. Paixão e amor podem envolver uma representação idealizada do objeto porque a pessoa amada é investida não apenas pelo que efetivamente é, mas também pelo que passa a representar na realidade psíquica e pela experiência de si que ajuda a sustentar. A psicoterapia pode favorecer a ressignificação desse processo quando possibilita reconhecer essas diferentes dimensões, elaborar a perda e reorganizar os investimentos anteriormente concentrados no objeto.
Ao final desse percurso, a questão pode deixar de ser apenas:
“O que perdi quando perdi essa pessoa?”
e assumir outra forma:
“O que reconheci em mim por meio dessa relação e que agora posso continuar reconhecendo como parte da minha própria história?”
Essa mudança sintetiza o sentido atribuído, neste estudo, à reorganização da experiência de si. Não significa apagar o outro, negar a experiência ou diminuir aquilo que foi vivido. Significa permitir que o vínculo encontre um lugar possível na história sem continuar ocupando, sozinho, o centro da vida psíquica.
A ressignificação psicoterapêutica encontra, nessa passagem, uma de suas possibilidades: preservar a experiência, elaborar a perda e permitir que aquilo que permaneceu excessivamente concentrado no objeto possa voltar a circular na vida psíquica.
Não se trata, portanto, de deixar de amar para recuperar a si mesmo. Trata-se de não precisar perder a si mesmo para sustentar aquilo que se ama.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica (1949). In: LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 96-103.
WINNICOTT, Donald Woods. Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self (1960). In: WINNICOTT, Donald Woods. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Tradução de Irineo Constantino Schuch Ortiz. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983. p. 128-139.
1 Centro Universitário Faculdade de Minas – 30642-020 – Belo Horizonte – MG – Brasil. Realiza estágio pós-doutoral em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas, 2018) e Mestre em Administração pela Fundação Cultural Pedro Leopoldo (2004). É especialista em Psicologia Jurídica, MBA em Gestão Estratégica de Pessoas e graduado e licenciado em Psicologia pelo Centro Universitário Newton Paiva (1990 e 1991). Atua como professor no Centro Universitário FAMINAS-BH desde 2007, com experiência no ensino e na formação em Psicologia. Atuou anteriormente como professor no curso de Mestrado em Gestão Estratégica de Recursos Humanos da Universidade Politécnica – A Politécnica, em Maputo, Moçambique. É também colaborador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP/MEC), como avaliador institucional. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail